sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O que fazer com os anjos emprestados por Deus?

A violência é um componente que oprime, amargura e degenera a sociedade. Sua eclosão vai se intensificando e a autoridade parece ter sido tragada por um estado de inércia, profunda sonolência.

É um processo que desconhece fronteiras e limites, avançando sobre todas as classes sociais e faixas etárias. Como elo mais fraco da corrente, os pobres sofrem mais, muito mais.

A escola não consegue se manter ao largo deste ambiente caliginoso e sofre as conseqüências da letargia dos responsáveis. A violência nua e crua que se manifesta nas ruas com todas as suas nuances e facetas, resolveu romper as salas de aula. E de forma definitiva.

Quando acorre à mente, a primeira imagem do ambiente escolar sempre é a de alunos em sala de aula, compenetrados, o mestre ministrando a disciplina, no intervalo o zumzumzum habitual, a algazarra do recreio; de tempos em tempos, a aflição nos momentos de prova, de sabatina... Vez por outra uma rusguinha aqui, um bate boca acolá, algum entrevero chegando às vias de fato na pelada de futebol, mas nada que não se resolvesse, no ápice, com uma advertência, uma ligeira penitência e uma boa prosa com os pais.

Mas as coisas mudaram, e neste caso, para pior, para bem pior.

Não se trata mais dos pequenos conflitos, das discussões e embates pueris, das brigas quase infantis, das indisposições circunstanciais que não resistiam à fração do instante. A violência dos dias de hoje está vestida para matar, carrega drogas, facas, estilete, soco inglês, armas de fogo, crack e drogas pesadas. O beicinho, o ‘ficar de mal’, o ‘belém-belém-nunca-mais-ficar-de-bem’ só resiste na pré-escola, e olhe lá!

O traficante já não é o alienígena, o desconhecido, o estranho com cara de malandro que sorrateiramente ronda a escola, aquela caricatura facilmente identificável, como o bandido das velhas estórias de quadrinho. Este personagem sucumbiu e só persiste nas películas cinematográficas. O traficante contemporâneo é aquele acima de qualquer suspeita, não raro o mauricinho da turma, o esportista, o exímio artista, a figura mais bacana e popular, cooptados que foram pelo mundo do crime, que colhe dinheiro numa floresta inesgotável. A ameaça não provém mais de fora, não salta furtivamente os muros da escola, não invade pela janela ou utiliza a porta dos fundos. A ameaça está no interior, na sala de aula, na biblioteca, na secretaria, na cantina. Presentemente, o traficante se faz o melhor amigo, companheiro de primeira hora, o colega sempre pronto para auxiliar, socorrer, sobretudo quando se trata de dinheiro e de pequenos préstimos que levem à dependência emocional.

Já vai longe o tempo em que era exigida uma complexa operação, uma logística meticulosa, um planejamento primoroso e detalhado nas minúcias para fazer com que a droga adentrasse a escola, com cenas de perseguição policial, tiroteio e bang-bang. Também assim, mas neste formato, em volume quase irrelevante. Hoje, o entorpecente viaja, sobretudo, dentre lápis, livros e cadernos, abrigado displicentemente nas mochilas mais tenras e discretas.

E nesta guerra subterrânea não há quem escape. Alunos, servidores, professores, pais e responsáveis são as vítimas do descalabro, do desatino, do infortúnio, da desgraça em sua face mais ameaçadora e fatal.

Na sala de aula – cenário untado pelos céus para alavancar os estudos e a esperança de dias melhores - as ameaças e agressões verbais aos professores tornam-se rotina. Como conseqüência imediata, a crescente evasão dos protagonistas, sobretudo dos professores, que não mais suportam perseguições, toda sorte de intimidação, ameaças que se materializam numa rede infernal de recados, bilhetes, telefonemas e e-mails.

Os antigos traques e estalinhos cederam lugar às bombas artesanais que estouram nos corredores, nos banheiros, comprometendo ainda mais a segurança da comunidade escolar, depauperando as já sucateadas instalações físicas.

Com muito custo, a escola consegue adquirir equipamentos importantes. Estações de trabalho, aparelhagem de som, máquina fotográfica, vídeo cassete, e quando Deus dá bom tempo, até mesmo filmadora e data-show. São inumeráveis rifas, festejos, solicitações de contribuições junto aos pais e aos comerciantes locais, num esforço gigantesco para fazer um pequeno caixa que possibilite este tipo de investimento. E mesmo tudo sendo mantido a correntes e cadeados, o saque e o roubo se generalizaram. E como se não bastasse, danificam a fiação de telefone e a rede elétrica para provocar apagão e a suspensão das aulas.

O pior é que os pais acreditam que, nas escolas, seus filhos estão seguros. Sem dúvida, muito mais seguros que nas ruas. Mas, definitivamente, os alunos não usufruem a segurança que os pais inocentemente imaginam.

Este deve ser um alerta para que os pais passem a freqüentar mais as escolas de seus filhos. E discutindo em profundidade a questão da violência, possam se mobilizar para exigir providências do governo, dos políticos, das autoridades, das áreas competentes. Aos altíssimos impostos pagos pela sociedade, as autoridades têm correspondido com indolência, incúria e preguiça.

Nos mobilizemos agora para que depois não choremos pelo leite derramado. E o leite, neste caso, nos é muito caro, porque é o que temos de mais nobre e gracioso, nossas crianças, os anjos emprestados por Deus.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br