domingo, 31 de julho de 2016

As irmãs de Shakespeare: dificuldades e preconceitos que cercavam as mulheres que se 'aventuravam' pela literatura

A escritora brasileira Lygia Fagundes Telles. / SITE COMPANHIA DAS LETRAS
"E tudo o que vivemos e que viveremos,
está cheio de árvores trocando as folhas".

– Virginia Woolf

Décadas depois, em 1928, aos 46 anos de idade e com sete livros publicados, Virginia Woolf escreveu o ensaio intitulado Um teto todo seu, no qual imagina a existência de uma hipotética irmã de Shakespeare, chamada Judith, que, como o irmão bardo, possuía grande capacidade intelectual e talento artístico. O que seria de Judith, de sua vida, de seu dom e seus anseios?, Virginia pergunta. 

Enquanto o irmão é mandado à escola, ganha mundo, torna-se um ator bem-sucedido e um dramaturgo popular e notável, Judith permaneceu em casa. “Ela era tão aventureira, tão imaginativa, tão curiosa pra ver o mundo quanto ele era. Mas ela não foi mandada à escola. Ela não teve a chance de aprender gramática e lógica, ainda mais de ler Horácio e Virgílio. Ela pegava um livro de vez em quando, um dos de seu irmão talvez, e lia algumas páginas. Mas aí vinham seus pais e a mandavam ir remendar as meias ou cuidar do guisado, e não ficar sonhando acordada com livros e papeis. [...] Talvez ela rabiscasse algumas páginas num sótão às escondidas, mas era cuidadosa ao escondê-las ou queimá-las”.Numa manhã cinzenta, lá no início do século XX, em um bairro londrino, a jovem Virginia se despediu com um misto de inveja e saudade – se é que esses dois sentimentos algum dia andaram juntos – dos irmãos que deixavam o lar e a cidade para completarem os estudos na Universidade, enquanto à ela e à irmã Vanessa restavam no sofá as almofadas para serem bordadas e na cozinha as batatas para serem descascadas. 

Desde menina, Virginia adorava os livros, e se sentia especialmente comovida com a imagem do velho pai, diante da lareira, com um exemplar nas mãos, fazendo a leitura diária em voz alta. Não levou muito tempo para a menina perceber que aquilo que adorava fazia parte de um universo distante e alheio – distância que a sua natureza não compreendia e com a qual não se conformava –, mas era um universo feito com leis severas e milenares para o qual não estava convidada nempermitida a entrar, por mais que desejasse. E Virginia desejava, tanto que, a contragosto do pai, teve aulas de grego clássico, o primeiro passo para os anos de uma sólida formação autodidata, conquistada plenamente.

O talento de Judith não encontraria expressão nem escape além das poucas linhas engolidas pelo fogo e das poucas frases escritas na penumbra e em segredo"

O talento de Judith não encontraria expressão nem escape além das poucas linhas engolidas pelo fogo e das poucas frases escritas na penumbra e em segredo. Até mesmo Jane Austen, três séculos depois, escondia os seus manuscritos ou cobria-os com um mata-borrão, quando percebia que alguém se aproximava. A célebre escritora inglesa não tinha um quarto ou outro lugar próprio para escrever, por isso escrevia na mesa da sala de estar e era interrompida a todo instante. Virginia Woolf interpretou como constrangimento o ato de Austen, por ocupar-se com a escrita, e não com qualquer atividade doméstica. “Embora ninguém devesse sentir vergonha por ser apanhado no ato de escrever um livro como Orgulho e Preconceito”.

O sentimento de inadequação não se relacionava às dificuldades naturais de toda a vida, masculina ou feminina, ponderou Virginia Woolf. “A indiferença do mundo, que Keats e Flaubert e outros homens de gênio tiveram tanta dificuldade de suportar, não era, no caso da mulher, indiferença, mas, sim, hostilidade. O mundo não lhe dizia, como a eles: "Escreva, se quiser; não faz nenhuma diferença para mim". O mundo dizia numa gargalhada: "Escrever? E que há de bom no fato de você escrever?".

Ainda assim, entre papéis escondidos, manuscritos queimados, diários e cartas, culpas, medos e anseios, escrevia-se. Mas, como a menina Virginia a olhar o pai com os livros, havia a consciência de se fazer algo proibido, não permitido, ou, mais perigosamente, algo que não lhe pertencia, que não fazia parte de seu mundo, ou, como lhe dizia esse hostil mundo, algo que lhe era negado porque não lhe era de direito.

"Vocação é aquilo para qual se é chamado. E eu fui chamada pela literatura”
Lygia Fagundes Telles

No outro lado do oceano, em terras tropicais, uma jovem, como tantas outras, outras irmãs de Shakespeare, aguardava a hora da casa ficar vazia para trancar-se em seu quarto com pena e papel. “Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto”, disse Julia Lopes de Almeida em uma entrevista, anos depois, em 1903, ao jornalista João do Rio, “Era como um prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo a delícia de os compor e o medo de que acabassem por descobri-los. Fechava-me no quarto, bem fechada, abria a secretária, estendia pela alvura do papel uma porção de rimas...”. Na ocasião da entrevista, Julia já era uma escritora com notável repercussão entre leitores e o meio literário carioca, o que, entretanto, não foi suficiente para que ela recebesse o merecido reconhecimento. Entre as várias atividades que desempenhou no Rio de Janeiro, Julia participou da comissão para a formação da Academia Brasileira de Letras, mas, na hora da eleição da cadeira, o seu nome foi excluído.

Filinto de Almeida, o seu marido, é quem foi eleito membro, dizem as boas e más línguas, em sua “homenagem”. Filinto, apesar de ter aceitado a honra, reconheceu a João do Rio, “Não era eu quem deveria estar na Academia, era ela.” A réplica do jornalista foi taxativa: “Há muita gente que considera D. Júlia o primeiro romancista brasileiro”. Essa “muita gente”, no entanto, não se manifestou, nem na ocasião da Academia Brasileira de Letras, nem depois, quando o nome da escritora foi sendo posto de lado pelos críticos, escritores e antologistas, os contemporâneos e futuros, o que resultou, até recentemente, em esquecimento e silêncio em torno de seu nome.

É conhecida a passagem contada por Lygia Fagundes Telles sobre um dos seus primeiros lançamentos, no início de sua carreira. A jovem escritora foi cumprimentada por dois escritores renomados na época, que, em vez de saudar o seu livro, saudaram as suas pernas. “Muito bonitas”, disseram, e em seguida, como se estivessem diante de um grande mistério, “mas por que essa coisa de escrever? Você é uma moça tão bonita, deve se casar, e não escrever, um desperdício”. Lygia conta que caiu em prantos, ali mesmo no lançamento e na frente dos escritores. “Era muito difícil na época”, ela fala, “aceitava-se que uma mulher até escrevesse poesia, abordasse temas pueris e sentimentais, mas uma mulher escrevendo prosa incomodava muito. A mulher não podia ser a prosadora que tentasse trazer uma realidade que só os homens traziam. Eles debochavam, queriam minimizar, desprezar a gente. Insistiam que a nossa vocação era o casamento, e, olha, já estávamos no século XX. [...] A esses dois senhores, eu respondi: vocação é aquilo para qual se é chamado. E eu fui chamada pela literatura”.

Lygia lembra que Clarice Lispector foi uma das poucas de sua geração que enfrentou a resistência em relação às escritoras de ficção. “O preconceito se expressava assim: homem escreve bem, mulher vamos ver”, dizia Clarice. Como Virginia Woolf em Um teto todo seu, Lygia Fagundes Telles lembra de suas antecessoras. “Os primeiros pensamentos desta mulher que foi tão reprimida, tão amarrada, foram aqueles escritos nos cadernos de anotações do lar, nos séculos passados. Entre dois quilos de batata, cinco quilos de cebola, elas colocavam seus primeiros pensamentos poéticos, em geral suas dúvidas, seus anseios, seus sonhos. Foram elas as primeiras escritoras. Depois viemos nós”. É como disse também Virginia: “Se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco da sala de estar e virmos os seres humanos [...] e também o céu e as árvores, ou o que quer que seja, pois nenhum ser humano deve tapar o horizonte; então a oportunidade surgirá, e a poetisa morta que foi a irmã de Shakespeare assumirá o corpo que com tanta frequência deitou por terra. Extraindo sua vida das vidas das desconhecidas que foram suas precursoras, como antes fez seu irmão, ela nascerá”.

Por CLAUDIA LAGE, no El País

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Para aproveitar o período das férias escolares


Para aproveitar o período das férias escolares, selecionamos títulos para os mais variados públicos - de crianças a amantes de literatura.

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1) Coleção Educação, Teatro e Folclore
Dez volumes abordando 19 lendas do folclore brasileiro.



2) Coleção infantil
Dez volumes abordando temas variados do universo infanto-juvenil.



3) Coleção Educação, Teatro e Democracia
Quatro volumes abordando temas como democracia, ética e cidadania.



4) Coleção Educação, Teatro e História
Quatro volumes abordando temas como independência e cultura indígena.



5) Coleção Teatro greco-romano
Quatro volumes abordando as mais belas lendas da mitologia greco-romana.



6) O maior dramaturgo russo de todos os tempos: Nicolai Gogol – O inspetor Geral



7) O maior dramaturgo da literatura universal: Shakespeare – Medida por medida



8) Amor de elefante



9) Santa Dica de Goiás



10) Gravata Vermelha



11) Prestes e Lampião



12) Estrela vermelha: à sombra de Maiakovski



13) Amor e ódio



14) O juiz, a comédia



15) Planejamento estratégico Quasar K+



16) Tiradentes, o mazombo – 20 contos dramáticos



17) As 100 mais belas fábulas da humanidade




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I – Coleção Educação, Teatro e Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 8. Como é bom ser diferente 

III – Coleção Educação, Teatro e Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 

IV – Coleção Educação, Teatro e História (peças teatrais juvenis): 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 


sábado, 30 de julho de 2016

Moro irá à Câmara em dia vital para impeachment


O juiz federal Sérgio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava-Jato, na primeira instância, será o primeiro a ser ouvido pela comissão especial criada na Câmara para elaborar projetos de combate à Corrupção, baseada no pacote de dez medidas contra a Corrupção entregues à Casa pelo Ministério Público. Segundo o relator da comissão, deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), as propostas do pacote vão alterar 29 leis que tratam do tema.

Moro irá à Câmara em 4 de agosto, mesmo dia em que a comissão do impeachment no Senado votará o parecer do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) sobre o processo de impeachment contra a presidente afastada, Dilma Rousseff. Cinco dias depois, em 9 de agosto, será a vez da participação do procurador Deltan Dallagnol, que coordena a forçatarefa da Lava-Jato.

O relator e o deputado Joaquim Passarinho (PSD-PA), presidente da comissão especial, foram a Curitiba e se reuniram anteontem com Moro e, em seguida, com toda a equipe de procuradores da Lava-Jato.

Lorenzoni admitiu que, após o encontro, foram superados “atritinhos” entre os membros do Ministério Público e deputados. Na última vez em que foi à Câmara, Dallagnol ouviu apelos do deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), citado na delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, de que nada tinha a ver com o “réu confesso”.

— Quando os procuradores trouxeram o pacote, tiveram alguns atritinhos com deputados. Mas isso está superado, vamos trabalhar de forma cooperativa — disse Lorenzoni.

A comissão trabalhará às segundas e terçasfeiras, após o fim do recesso. O trabalho ficará concentrado em Brasília, mas haverá audiências de deputados nos estados. Participarão do debate na comissão, segundo o deputado, mais de 30 instituições, entre juízes federais, integrantes da OAB nacional, do TCU e da Receita Federal.

— Queremos fazer com que a Corrupção seja algo isolado numa sociedade, estimulando a cultura do combate à Corrupção. A Câmara está devendo uma resposta à sociedade. Quando um projeto chega aqui com mais de 2 milhões de assinaturas, temos o dever de virar quantas noites forem necessárias — disse o deputado.

Lorenzoni esteve ontem com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e contou ter recebido um pedido para que apresente o relatório final até o início de novembro.


Por Leticia Fernandes, em O Globo 

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Você não pode deixar de ler o livro que desnuda a justiça brasileira:

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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Duas pequenas notas sobre a ‘eficácia’ da justiça


A Justiça como esporte

O Radar informa que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal decidiu suspender o expediente para que juízes e desembargadores possam acompanhar um pouco da Olimpíada.

Na quinta-feira da semana que vem, eles vão assistir a Brasil e África do Sul, um "clássico" do futebol.

Dane-se quem tem pendências a resolver com a Justiça.


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Justiça cega

José Genoino, Delúbio Soares e Marcos Valério foram condenados pelo mensalão.

Não, não se trata de um repeteco. Não, não se trata de uma decisão definitiva.

O TRF, ontem, confirmou o resultado do julgamento em primeira instância do esquema do BMG, que condenou os velhos mensaleiros.

Doze anos depois dos fatos, portanto, a Justiça conseguiu chegar a uma condenação provisória. Faltam mais dez anos para a sentença definitiva.

No caso de José Genoino (ele ainda está vivo?), sua pena foi reduzida pela metade: de 4 anos para apenas 2 anos, 10 meses e 20 dias, a serem cumpridos em regime aberto.

Ele é acusado de falsidade ideológica por simular empréstimos com o BMG para lavar dinheiro sujo para o PT.



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Na peça “O juiz”, Antônio Carlos aborda questões latentes em autores como Aristóteles (Política), John Locke (Segundo Tratado do Governo Civil), e Montesquieu (O Espírito das Leis) e que alavancaram o estado moderno e a democracia contemporânea para denunciar – com muito humor e irreverência – a propalada independência dos poderes, o sistema de freios e contrapesos, e a nefasta prevalência do judiciário quando os demais poderes, executivo e legislativo, são, deliberadamente, fragilizados. Uma das personagens da peça chega a se sublevar contra um dos principais ensinamentos de Rui Barbosa: “A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”. 

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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Em último texto, padre degolado na França pediu “mundo mais humano”


O padre Jacques Hamel, degolado nesta terça-feira (26) durante uma missa na França em um ataque assumido pelo grupo Estado Islâmico, pediu um "mundo mais humano" em sua última mensagem publicada no boletim da paróquia de Saint-Etienne-du-Rouvray.

"Vivemos em uma época que podemos escutar o convite de Deus para tornarmos esse mundo em que vivemos um mundo mais acolhedor, humano e fraterno", escreveu o sacerdote, de 86 anos. Ordenado em 1958, Hamel vivia na igreja onde celebrava missas e era muito conhecido na comunidade católica local, uma das mais fortes da França, apesar da grande presença de muçulmanos.

Dois homens invadiram a igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray ontem e fizeram o padre como refém. A dupla obrigou o sacerdote a se ajoelhar e o degolou. Os dois agressores foram mortos pela polícia e um menor de idade está preso sob suspeita de ligação com o ato.

Padre-auxiliar, Hamel já estava afastado de algumas funções devido à sua idade, mas tinha pedido para permanecer colaborando ativamente na paróquia (o Vaticano permite que um sacerdote se aposente a partir dos 75 anos).


Da Agência Ansa

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O livro com a peça teatral que trata do terrorismo islâmico:

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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Guimarães Rosa e Manuelzão: a amizade de oito dias que gerou uma obra de 60 anos


Lá se vão 60 anos desde que o sertão mineiro ganhou o mundo pela literatura de Guimarães Rosa. Mas Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, publicados em 1956, podem na verdade ter nascido quatro anos antes, quando o escritor mineiro organizou uma boiada para entender melhor a cultura sertaneja. Nessa aventura, Guimarães Rosa registrou lugares, palavras, expressões e personagens. Entre tantos vaqueiros que se juntaram à empreitada, um pode ter sido definitivo para as obras roseanas: Manuelzão.

A cruzada teve origem na Fazenda Sirga, a 60 quilômetros de Andrequicé, distrito de Três Marias (MG), onde Manuelzão viveu seus últimos 20 anos. Dez dias depois, o ponto de chegada foi uma fazenda em Araçaí (MG), município vizinho a Cordisburgo (MG), cidade natal de Guimarães Rosa.

A revista Cruzeiro, dos Diários Associados, publicou um relato da expedição na reportagem Rosa e seus vaqueiros, em 21 de junho de 1952. Nas fotos, Manuelzão está entre o grupo. Em sua homenagem, o escritor mineiro escreveu o conto Uma Estória de Amor, do livro Corpo de Baile, que posteriormente foi desmembrado em três volumes: Manuelzão e MiguilimNo Urubuquaquáno Pinhém e Noites do Sertão.

Manuelzão é o protagonista do primeiro volume: após a morte de sua mãe, o vaqueiro resolve atender a um pedido dela para que fosse construída uma capela em suas terras e a obra é inaugurada com uma grande festa. Guimarães Rosa mescla realidade e ficção: assim como o personagem, a capela existe e ao seu lado está o túmulo de sua mãe. Já a festa é romanceada.

Capela construída por Manuelzão em homenagem a sua mãe. A igrejinha aparece no conto Manuelzão e Miguilim, de Guimarães Rosa Léo Rodrigues/Agência Brasil 

Das páginas do conto, Manuelzão se tornou talvez o principal embaixador da obra roseana. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) o homenageou criando o Projeto Manuelzão, destinado à recuperação do Rio das Velhas. O vaqueiro foi a diversos programas de televisão e atuou em uma cena do capítulo inaugural da série Grande Sertão: Veredas, levado ao ar pela Rede Globo em 1985. Morto em 1997, seu enterro mobilizou centenas de pessoas.

Parte desse sucesso é relatado em detalhes pelo jornalista Pedro Fonseca. Sobrinho da última mulher de Manuelzão, ele se afeiçoou ao “tio torto”, como se diz em Andrequicé. Fonseca garante que Uma Estória de Amor é apenas a parte mais evidente da influência do vaqueiro na obra roseana. "Ele permeia toda a obra de Guimarães Rosa. Ele também está em Noites do Sertão e no Grande Sertão: Veredas. O Riobaldo é o Manuelzão, é bem nítido”, analisa Pedro.

Saiba Mais

Quem conheceu o vaqueiro se surpreende com a exatidão da descrição do personagem por Guimarães Rosa, dando a impressão de um longo convívio, o que não aconteceu de fato. “A convivência deles foi de uns oito dias e nunca mais se viram. Mas uma convivência intensa, dia e noite”, diz Pedro Fonseca.

Mesmo por poucos dias, o sobrinho de Manuelzão diz não estranhar a atenção destacada que o tio recebeu de Guimarães Rosa em meio a um bando de vaqueiros. Segundo o jornalista, ele não passava despercebido. “Em 1989, eu apoiei o Brizola na campanha para presidência da República. O José Maria Rabelo, que era o presidente do PDT em Minas Gerais, me perguntou se eu poderia levar o Manuelzão para um evento com o Brizola em Belo Horizonte. Eu levei e foi uma confusão. Muita gente achou ruim que ele apareceu mais que o Brizola. Era assim: onde ele ia, ele era o astro”, relata.

Em Andrequicé, Manuelzão é conhecido como o cidadão mais ilustre que viveu no distrito. Em torno dele e de Guimarães Rosa se organiza anualmente a Semana Cultural Festa de Manuelzão, cuja edição de 2016 terminou nesse domingo (17). Famoso contador de casos, o vaqueiro está em fotos nas paredes de praticamente todos os bares do pequeno distrito. “Ele era uma pessoa humilde, contadora de casos. Mesmo a figura dele rodando o mundo, ele não se importava com dinheiro. Se convidavam Manuelzão pra um evento em Brasília e perguntavam quanto ele cobraria, ele respondia: 'nada, estou indo passear'. Manuelzão deixou um legado para Andrequicé”, diz Márcia Alves, dona de um dos bares que homenageiam o vaqueiro personagem.

Essa disponibilidade de Manuelzão foi explorada por muitos, segundo o jornalista Pedro Fonseca. “As pessoas convidavam ele para eventos de empresas onde ele era o astro, lucravam com sua aparição e lhe pagavam apenas uns trocados.”

O Memorial Manuelzão, construído na casa onde ele morou em Andrequicé, reúne pertences pessoais e documentos sobre sua relação com Guimarães Rosa. Assim como o escritor, ele também tem frases marcantes que são citadas pelos moradores: “Não tenho medo da morte porque sei que vou morrer. Tenho medo do amor falso, porque mata sem Deus querer”, dizia sempre.

Livro
Com a autoridade de quem conviveu por 40 anos com Manuelzão, o jornalista Pedro Fonseca decidiu lançar em 2007 o livro O xale de Rosa, para decifrá-lo para além da obra roseada. “No final da vida, ele virou o personagem. Deixou de ser o cidadão e virou o personagem. Mas foi também o que deu uma sobrevida a ele. Ele vivia pelo sucesso. Mas eu me interessava pelo cidadão Manuelzão. Não o personagem.”

Um fato sobre Manuelzão intrigava Pedro: ele não compartilhava as histórias de Dom Silvério (MG), na região mineira da Zona da Mata, onde nasceu. “Ele não falava nada sobre essa época. Dizia que não tinha pai, só mãe. Quando se fixou na fazenda próxima a Andrequicé, levou a mãe para morar com ele, mas não tinha contato com o restante da família. Ficou 60 anos sem visitar sua cidade e quando o fez, foi sozinho, meio escondido”, conta o jornalista. Manuelzão deixou sua cidade natal com 20 e poucos anos, no início da década de 1930. "O sonho dele era se juntar ao bando de Lampião. Quando ele estava em Pirapora (MG), ele recebeu a notícia de que Lampião tinha sido morto. Então, seguiu sua vida no sertão mineiro".

Para escrever o livro, Fonseca foi à cidade de Manuel Nardi, como se chamava Manuelzão, e descobriu que o sobrenome era de uma família grande e nobre na região. Na cidade, o jornalista passou a investigar que razões levaram Manuelzão a abandonar uma vida relativamente confortável para se embrenhar pelo sertão. Ainda no desafio de decifrar o vaqueiro, o jornalista organizou uma expedição para refazer o percurso trilhado por Guimarães Rosa e seus vaqueiros, respeitando os mesmos pontos de parada. “Nós guiamos 198 cabeças de gado. Eu precisava vivenciar essa experiência para entender como é essa vida de vaqueiro.”


Por Léo Rodrigues, na Agência Brasil 

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Dois livros, duas ficções históricas ancoradas em Santa Dica que você não pode deixar de ler. Clique na capa dos livros abaixo para saber mais: 

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7) O maior dramaturgo da literatura universal: Shakespeare – Medida por medida



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