domingo, 31 de agosto de 2014

A Virada Sustentável que cupa São Paulo


O evento, que celebra as várias noções de sustentabilidade, dura até domingo com mais de 700 atividades gratuitas e inclusivas, até para os ‘eco-chatos’


CAMILA MORAES, no El País

Para alguns, uma vida sustentável envolve deslocamentos a pé; para outros, em bicicleta. Certas pessoas encaram sustentabilidade de um ponto de vista verde. Outras gostam de muitas cores e associam o arco-íris à ideia de diversidade de gênero. Há quem prefira música ao vivo ou cinema ao ar livre, comidas orgânicas ou uma alimentação estritamente vegetariana, a água dos oceanos ou o sol que produz energia limpa, o reaproveitamento de materiais ou a preservação das florestas. A Virada Sustentável, que ocupará São Paulo de 28 a 31 de agosto, prefere tudo isso – e ao mesmo tempo, agora.
O evento, idealizado pelo jornalista André Palhano e pela publicitária Mariana Amaral há quatro anos, nasceu com um objetivo claro: desmistificar a ideia de que sustentabilidade é um conceito exclusivamente associado à ecologia e agregar sob o mesmo guarda-chuva as diversas iniciativas do paulistano em busca de uma vida mais equilibrada.
Cinema ao ar livre, parte da programação de 2013. / RAFAEL IANNI
São, somente neste ano, 750 atrações em mais de 140 pontos da cidade. Prova inquestionável de que uma iniciativa que começou pequena alcançou as proporções de sua imensa ambição, mobilizando uma metrópole em torno de seu equilíbrio, mais do que de seus desequilíbrios. A expectativa é superar o público dos anos anteriores, que passou de 480 mil pessoas em 2011 a 810 mil em 2013.
André Palhano, que coordena a programação, acredita que o sucesso da Virada se deva ao seu "modelo diferente" que, ao contrário de outros eventos do mesmo tipo, empresta do que ele chama de "a tecnologia do piquenique" a perspectiva 100% comunitária. "Funcionamos assim: cada um leva uma coisa e chama os amigos. A força da Virada é a sua articulação. Por isso, ela teve um crescimento natural, que exigiu esforços de acolhimento muito mais do que de a captação de recursos", explica o jornalista.
Outro fator que favorece o projeto, para ele, é que os temas sócio-ambientais são livrados de uma mensagem "eco-chata" e de regras de conduta e abraçados por um festival cultural que fala também de economia criativa, design, arquitetura e de outras modernidades mais. Afinal, não basta salvar o planeta, é preciso viver feliz nele: "De que adianta ser 100% ecoeficiente e se matar por questões religiosas?".
Uma atividade no Parque Villa-Lobos, em 2013. / RAFAEL IANNI
Para os interessados, não faltará o que discutir e fazer nas cinco grandes regiões paulistanas – para todas as idades e de graça. Tem encontros, debates e seminários sobre assuntos que vão de empreendedorismo a consumo consciente; mais de 120 aulas de ioga ao ar livre; uma bike tour em que um monitor que fala com os pedalantes sobre os principais pontos turísticos da cidade através de um microfone acoplado ao capacete de cada um; oficinas de hortas caseiras, cosméticos naturais, entre outras especialidades; e exposições e intervenções artísticas, como, no Grajaú, a de Alexandre Orion – famoso por seu trabalho com tintas produzidas com fuligem raspada de túneis.
Embora não vire a madrugada, o evento que acontece anualmente foi inspirado na Virada Cultural e na Virada Esportiva. Além de nove pessoas na organização oficial, a atração conta com a colaboração de mais de 100 voluntários, de 200 parceiros e da Prefeitura e o Governo do Estado.
Empolgadas com a experiência de São Paulo, outras capitais, como Recife e Curitiba, já importaram a ideia. André celebra essa contaminação: "Vivemos em um mundo em que os desafios são superurgentes, mas, ao mesmo tempo, temos mais eficiência para alterar essa realidade. Para isso, basta mostrar um mundo incrível, mais que um mundo horrível".

Destaques da Virada

Circuito de instalação Causa+Arte: Jaime Prades, ISE, Binho Ribeiro, Bijari e UrbanTrashArt idealizaram obras que refletem os conceitos e eixos de atuação de cada organização participante sobre sustentabilidade, resultando em um circuito de instalações que ficará exposto ao público no Parque do Ibirapuera até o dia 28 de setembro de 2014.
Pic Nic à Moda Antiga: comida, música, confraternização e protesto se unem no piquenique organizado pelo Comitê Aliados do Parque Augusta e pela Sociedade de Amigos e Moradores dos bairros de Cerqueira César e Consolação (SAMORCC), que fechará parte da rua Augusta. O objetivo é engajar a população no tema do Parque Augusta – que parte dos moradores da região deseja criar no terreno abandonado entre as ruas Marquês de Paranaguá e Caio Prado.
Estreia de 'A Lei da Água (Novo Código Florestal’: trata-se de um filme que pretende esclarecer as mudanças do Código Florestal Brasileiro após três anos intensos de debate. No Auditório do Ibirapuera.
Seminário Eficiência Hídrica e Edifícios Inteligentes: o encontro na FIESP discutirá temas como “Linha Branca e Eficiência Hídrica”, “Plano de Segurança da Água” e “Registro de Emissão e Transferência de Poluentes (RETP)”.
Exposição Território do Brincar: um passeio pela geografia de gestos infantis que habitam brincadeiras de diversas regiões brasileiras na Praça Victor Civita. Fruto da pesquisa do Projeto Território do Brincar, o projeto foi realizado com o Instituto Alana e coordenado pela educadora Renata Meirelles e pelo documentarista David Reeks.
Rolê ao extremo sul: um passeio de ônibus ao extremo sul da capital que inclui uma visita à aldeia Tenondé Porã.
Confira os horários e a programação completa aqui.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O melhor do som produzido no Brasil: Rodrigo Oliveira dos Santos e sua Rosa dos Ventos

video


Música de Rodrigo Oliveira dos Santos para voz feminina, duas flautas e crotáles.
Gravação realizada no concerto Música Contemporânea - Compositores da EMAC - UFG, no dia 27 de novembro de 2012, no Centro Cultural UFG.

Intérpretes: Ana Paula Dias, voz e crotáles. Marcos Almeida e Cláudio Fernandes de Castro, flautas.

Imagem: Paul Klee, At the Core.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

"Eliminar 'ç', 'ch', 'ss' é uma grande besteira", diz linguista

Ideia circula em grupo de estudo do Senado. Embora negue proposta, senador defende revisão do acordo ortográfico que sequer entrou plenamente em vigor

Bianca Bibiano, na revista VEJA
Grupo de trabalho no Senado vai analisar implantação da reforma ortográfica e propor mais mudanças
Grupo de trabalho no Senado vai analisar implantação da reforma ortográfica e propor mais mudanças (Thinkstock/VEJA)
Nesta semana, uma discussão sobre (mais) uma nova reforma ortográfica da língua portuguesa veio a público revelando uma proposta esdrúxula. Segundo a versão que circulou, um grupo do Senado defenderia uma "simplificação" do idioma escrito propondo para isso que palavras grafadas com "ç", "ss", "sc" e "xc" passassem a ser redigidas exclusivamente um "s"; o "h" no início das palavras, por sua vez, seria suprimido — "homem" viraria "omem". Isso evitaria confusões na hora de escrever. O senador Cyro Miranda (PSDB-GO), presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esportes do Senado Federalque de fato debate uma revisão da reforma que entrou em vigor em 2009, nega que defenda a aposentadoria do "ç", "ss", "xc" e assim por diante. "Tudo não passou de um mal-entendido", diz Miranda.
Segundo ele, a proposta é de autoria de Ernani Pimentel, professor de língua portuguesa, dono da rede de cursos preparatórios Vesticon. Pimentel faz parte do grupo de trabalho técnico do Senado formado em 2013 para revisar o acordo ortográfico de 2009. Também fazem parte do grupo os senadores Ana Amélia Lemos (PP-RS) e Cristovam Buarque (PDT-DF) e o também professor Pasquale Cipro Neto. "As ideias do Pimentel não representam a opinião do grupo. Não há nenhuma proposta nesse sentido tramitando na Casa", diz Miranda.

Defendida pelo senador ou não, ideia de mexer no "ç" e no "h" não encontra amparo junto a um dos maiores linguistas do Brasil. "É uma grande besteira. A ortografia é influenciada tanto pela história da língua como por seu registro oral. Ela guarda suas raízes latinas e gregas e não pode ser alterada apenas levando em conta a fala atual", diz Ataliba de Castilho, assessor do Museu da Língua Portuguesa e professor das Universidade de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp).

Leia também:
Novo acordo ortográfico só será obrigatório em 2016
Senado quer fazer quiproquó com o acordo ortográfico


O linguista questiona ainda um argumento defendido por Pimentel para suprimir "ç" e "h": o de que o corte facilitaria a aprendizagem escolar. "A dificuldade de alfabetizar não diz respeito à grafia das palavras, mas sim ao método de ensino do professor, que precisa ajudar o estudante a compreender as diferenças entre língua falada e escrita. Mudar as letras não muda esse processo."
A última reforma ortográfica entrou em vigor em 2009, introduzindo mudanças como o fim do trema e da acentuação em palavras como ideia e assembleia. Embora escolas, editoras de livros e publicações, entre outros, já tenham assimilado as novas regras, Miranda conseguiu, em 2012, negociar com a presidente Dilma Rousseff o adiamento do prazo final para adoção das novas normas. Ao invés de 1º de janeiro de 2013, o prazo foi prorrogado para 1º de janeiro de 2016.
Vitorioso na primeira empreitada, o senador propôs a criação do grupo de trabalho do qual faz parte Pimentel. O objetivo é rever as normas gramaticais estebelecidas no acordo firmado em 2008 pelas nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). E propor mais mudanças. "Há muitas críticas ao fato de que grupos da sociedade, como professores e linguistas, não terem sido consultados sobre as mudanças", diz Miranda. "Faremos reuniões com representantes da CPLP e para criar uma nova proposta de adequação da ortografia e uma votação para saber quais países desejam aderir ou não ao acordo ortográfico."
A discussão não faz sentido algum, na visão de Castilho. "Editoras, imprensa e até empresas de softwares já adaptaram todos os seus produtos, como previa a lei. Continuar discutindo a mudança é desconsiderar o gasto financeiro desse processo", diz. Ele diz ainda que a discussão ignora o trabalho dos linguistas Antonio Houaiss e Malaca Casteleiro, que, na década de 1990, delinearam a proposta da ortografia introduzida em 2009. "Foi um trabalho amplo, com participação da sociedade civil, da academia e do poder público, ao contrário do que diz o grupo de trabalho do Senado."
Ainda que o Senado continue a arquitetar uma contrarreforma ortográfica, pouco poderá ser feito no sentido de mudar o que foi acordado em 1990 e reiterado pelos oito países em 2008. O Instituto Internacional de Língua Portuguesa, órgão da CPLP, é o único responsável por preparar o Vocabulário Ortográfico, documento de referência nos oito países. "Nada poderia ser feito no Congresso brasileiro para mudar esse fato", afirma Castilho.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Os adolescentes e o gosto pela literatura

A tecnologia, quem diria, aumentou o gosto dos adolescentes pela literatura

O público infanto-juvenil aproveita as redes sociais para conversar com seus autores e cobrar das editoras a tradução de títulos e uma nova relação com o público

  • Rap, gastronomia e literatura. Tudo junto e misturado na Bienal do Livro
Por BEATRIZ BORGES, no jornal El País


Maria Eduarda Bertocco, de 15 anos, é autora de 'O tal do para sempre' / FOTO DO FACEBOOK

O mito de que a tecnologia iria desencorajar a leitura está morto e enterrado. Ao contrário, os canais abertos pelo mundo virtual derrubam outro mito: a de que os adolescentes, viciados em videogame ou redes sociais, não teriam mais tempo ou paciência para acompanhar uma boa história. Na verdade, a produção literária para esse público diversificou as narrativas com histórias mais próximas da realidade, perdendo um pouco da genética didática, por sugestão dos próprios leitores.
A Bienal Internacional do Livro – que acontece a cada dois anos na capital paulista e cuja 23ª edição começa nesta sexta-feira no Anhembi e vai até dia 31 de agosto – alberga incontáveis lançamentos e uma programação mais extensa para este público. Em 2012, foram apenas dois eventos destacados relacionados a adolescentes, entre blogs de literatura, RPG, mangá e games, enquanto nesta edição serão 18 – um reflexo também do aumento da produção das editoras. A Companhia das Letras, para citar apenas um exemplo, passou de nove títulos adolescentes em 2000 para 19 lançamentos no ano passado. Um de seus maiores sucessos, a norte-americana Kiera Cass, que já vendeu 400.000 exemplares da série juvenil Seleção no Brasil, virá ao evento e conversará com os leitores.
Quanto mais estreita for a relação entre autor e leitor, maior a probabilidade daquele livro dar certo. Talvez o maior expoente da categoria amigo-do-leitor seja o best-seller John Green, autor que tem três livros publicados pela editora Intrínseca no Brasil e que já vendeu mais de dois milhões de cópias no país. Sua obra A culpa é das estrelas, que fala do amor e da luta de dois adolescentes contra o câncer, está nos cinemas.
Green, de 36 anos, se tornou um escritor de sucesso por seus livros mas, principalmente, por ter conseguido entrar no dia a dia dos adolescentes. Seus leitores acompanham sua trajetória nas redes sociais, interagem entre si e com ele, questionam o destino de personagens e lhe pedem conselhos. Se espelham em Green. Neil Gaiman e Kiera Cass têm uma relação similar com seus leitores. No Brasil, a escritora Paula Pimenta se aproxima desse modelo. “É um fenômeno atual. Os adolescentes nos avisam quando algum autor que seguem publica um livro lá fora, corrigem erros nas traduções e pedem para mudar os nomes de alguns personagens. São muito ativos nas redes”, garante Danielle Machado, editora da seção juvenil do selo de Green no Brasil.
John Green, autor de "A culpa é das estrelas". / EFE
Júlia Schwarcz, editora do selo da Companhia das Letras para o público infanto-juvenil Seguinte, notou a mudança de títulos e acompanha o crescimento do mercado “principalmente entre as meninas”, conta. “Um dos títulos mais vendidos hoje, Carta de amor aos mortos, é a história de uma jovem que perde a irmã mais velha e lida com isso escrevendo cartas a personalidades como Kurt Cobain ou Amy Winehouse e, através delas, conta seus dilemas”, resume Schwarcz, que também ressalta o sucesso de Hoje quero voltar sozinho, “uma história de amor entre dois meninos latinos” – que virou roteiro de um filme nacional – um exemplo da literatura dirigida ao público adolescente gay, um nicho do segmento juvenil em plena expansão.
Hoje, o Brasil tem cerca de 1.000 blogueiros que escrevem sobre livros de adolescentes. A Companhia das Letras tem parceria com 100 deles, que avaliam e fazem uma resenha dos títulos. Um deles é o Pipoca musical.
A temática das histórias de adolescentes também vem se transformando. Eles procuram nos livros histórias que se apliquem às suas vidas, algo que os faça colocar-se no lugar do outro. Em vez de literatura-fantasia, temas mais realistas. Os especialistas tentam decifram essa transformação. A norte-americana R. J. Palacio é uma das escritoras que alimentam o gênero. Seu último livro publicado no Brasil,Extraordinário, fala da vida de um garoto com o rosto deformado por uma doença genética. Schwarcz sabe disso e esclarece: “Os livros de chamados YA (Young adults, em inglês, jovem adulto] são muito fortes para os adolescentes e foram pensados para jovens entre 20-25 anos lá fora. Mas aqui no Brasil são os de 12 e 13 anos que leem esses títulos”.
Mas, também estão na lista de preferências aventuras, que muitas vezes saltam das páginas de papel para o cinema, como Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. Por outro lado, há também adolescentes que não se satisfazem com o que o mercado dispõe e resolvem escrever sua própria obra. Maria Eduarda Bertocco, de 15 anos, apresentará O tal do para sempre (All Print) nesta Bienal. “Quando entrei na adolescência fiquei meio perdida, mas já lia bastante, Nicholas Sparks, John Green, Bruna Vieira [escritora brasileira que também começou com um blog]”, explica Bertocco. “Você se apaixona mil vezes e acha que vai morrer em cada uma delas”, explica a jovem escritora, que lidou com a timidez e escolheu a introspecção como forma de encontrar respostas às suas perguntas. Mas os livros não lhe diziam que aquele não era o único amor e muito menos o fim do mundo e por isso, conta, resolveu escrever. “E além da história de amor, mostro no livro que os personagens vão desaparecendo, assim como as pessoas que saem da nossa vida. Elas vão embora sem avisar”, conclui.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Amazon começa a vender livros físicos no Brasil



Por GUILHERME FELITTI, na revista Época-Negócios
A Amazon começa a vender livros físicos nesta quinta-feira (21) para consumidores brasileiros. A estreia acontece a tempo da inauguração da 23ª Bienal do Livrode São Paulo, que começa nesta sexta (22) na capital paulista.  A loja entrará no ar ao longo do dia – a Amazon não fixou uma data.
No site, consumidores poderão encontrar um catálogo com mais de 150 mil títulos de editores como Companhia das Letras, Record, Intrinseca e Globo Livros (parte das Organizações Globo, que também edita Época NEGÓCIOS).
Segundo o diretor geral da Amazon no Brasil, Alex Szapiro, o catálogo ofertado é o maior entre todos os sites que vendem livros no Brasil. Oficialmente, a Saraiva, maior rival online da Amazon no Brasil, não comenta, mas fontes de mercado muito próxima à rede de livrarias diz que seu catálogo é maior, sem especificar um número exato.
Clientes de alguns bairros da cidade São Paulo que fecharam seu pedido antes das 11 horas receberão os livros até o dia seguinte. Szapiro também anunciou que compras acima de 69 reais terão frete gratuito para todo o Brasil, sem atraso no prazo de entrega.
É a segunda categoria de produtos físicos que a gigante de comércio eletrônico passa a vender no Brasil. Em fevereiro, a empresa começou a vender diretamente ao consumidor seu leitor digital, o Kindle. Até ali, quem quisesse comprar o gadget precisava recorrer a parceiros, como o Ponto Frio e a Livraria da Vila.
O início da venda de livros físicos acontece 20 meses depois do lançamento da loja de livros eletrônicos, primeira investida da Amazon no mercado editorial brasileiro. No lançamento, eram 13 mil livros disponíveis. Hoje, o número é maior que 35 mil títulos.
Nos bastidores, a entrada da Amazon em livros físicas vinha sendo planejada há mais de um ano. Nos últimos meses, a empresa já tinha fechado contratos tanto com as editoras como com quatro empresas de logística (Total Express, Luft, Directa e Completa) para fazer a entrega de pacotes pequenos.
Como ainda não tem um centro de distribuição, a Amazon precisava levar os livros das editoras para os galpões das distribuidoras. Houve problemas neste processo, o que fez com que a estreia demorasse um pouco mais, como conta a reportagem O efeito Amazon, publicada na capa da edição de junho da NEGÓCIOS.
Além da venda de livros e Kindles, a Amazon opera no Brasil o Amazon Web Service (AWS), seu serviço de aluguel de processamento e armazenamento nos seus servidores, tendência popularmente conhecida como computação em nuvem, desde dezembro de 2011.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Compositores prantearam em música os mortos da Primeira Guerra

Com o avanço do grande conflito, aos poucos foram cessando os sons patrióticos, e o entusiasmo rapidamente deu lugar ao horror das trincheiras. O clamor da música heroica deu lugar ao lamento pelos caídos em batalha.

Da Deutsche Welle

Soldados alemães posam ao lado de seus instrumentos, feitos artesanalmente, em 1916

Quer em Berlim ou Viena, quer em Paris ou Londres – em quase toda a Europa a mobilização das Forças Armadas, no final de julho de 1914, despertou uma onda de aprovação. Com entusiasmo, jovens se alistavam voluntariamente para servir na guerra, na esperança de que, após um breve período no front, regressariam como heróis, com uma medalha no peito. Mas a realidade nos campos de batalha era outra.

Primeiras dúvidas
Claude Debussy era patriota fervoroso

Enquanto nas cidades, bem longe da frente de batalha, os sons heroicos dominavam nas salas de concerto, já a partir do fim de 1914 alguns membros do clã de compositores começaram a questionar a legitimidade da guerra, tão propagada pelo governo.

Claude Debussy (1862-1918), fervoroso patriota francês, escrevia em 1916: "A guerra continua – não dá para entender. Quando é que o ódio vai finalmente acabar? É sequer preciso falar de ódio, neste processo histórico? Quando vai se deixar de confiar o destino dos povos a uma gente que enxerga a humanidade como meio de ascensão?"

Com sua canção (Natal das crianças que não têm mais lar), Debussy escreveu uma das primeiras obras impactantes sobre os cruéis efeitos da guerra.

Um monumento musical
Quando mais a luta durava, mais os músicos tratavam da morte em suas composições, e pranteavam a perda de amigos próximos. Uma das peças mais conhecidas dessa categoria é a suíte para piano de Maurice Ravel (1875-1937) , composta entre 1917 e 1919 e posteriormente transcrita por Ravel para orquestra.

Tombeau é uma forma musical barroca com que compositores homenageavam seus colegas falecidos. Ravel dedica sua obra ao clavecinista francês François Couperin (1668-1733). Como os seis movimentos foram sendo compostos sucessivamente durante a Primeira Guerra, logo a suíte se transformou num outro tipo de homenagem fúnebre: cada peça traz uma dedicatória para um amigo do compositor, caído em batalha.

Porém Ravel não foi o único músico a expressar luto através da música de piano, durante o grande conflito: o britânico Frank Bridge (1879-1941), por exemplo, escreveu uma sonata para seu colega Ernest Farrar, morto em 1918.

Réquiem para todas as vítimas da guerra
Em 1915, o também organista Max Reger começou a compor um Requiem "em homenagem aos soldados alemães caídos", mas a obra permaneceria incompleta.

O mesmo ocorreu com um Oratorium gegen den Krieg (Oratório contra a guerra), iniciado por Hanns Eisler (1898-1962) no ano seguinte, quando prestava o serviço militar. Esse compositor alemão, que cresceu num lar social-democrata e depois se filiou ao Partido Comunista, foi um dos colaboradores musicais de Bertolt Brecht. Do célebre dramaturgo é o texto da canção (Epitáfio para um soldado caído na Batalha de Flandres).

Somente anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, o inglês Ralph Vaughan Williams (1872-1958) iria elaborar suas experiências nos campos de batalha franceses. Sua terceira sinfonia, intitulada , data de 1922.
E mais de um quarto de século antes de Benjamin Britten (1913-1976) escrever seu aclamado War Requiem, que reflete o horror da Segunda Guerra, seu compatriota John Foulds (1880-1939), hoje praticamente esquecido, apresentou, com A World Requiem, uma denúncia comovente contra a matança sem sentido entre 1914 e 1918.

Parábola sobre a sedução do poder
Ao contrário de muitos de seus colegas, que, com maior ou menor entusiasmo patriótico, serviram ao czar nos campos de guerra, em seu exílio na Suíça o russo (mais tarde naturalizado francês e americano) Igor Stravinsky (1882-1971) foi poupado de tais missões fatais.

Porém até ele se ocupou do tema da guerra em 1918: " foi minha única obra cênica com implicações atuais", diria o compositor em 1962.

O protagonista dessa "história do soldado" baseada num conto folclórico russo tenta enganar o diabo, mas termina derrotado por ele. Potencializado pela música stravinskiana, o vivaz texto de C.F. Ramuz se transformou numa parábola impressionante sobre a sedução do poder.

Quanto a obra de Stravinsky estreou em 28 de setembro de 1918 em Lausanne, a Primeira Guerra Mundial estava a apenas algumas semanas de seu fim. Seus efeitos no processo criativo de muitos compositores, no entanto, permaneceram durante muito tempo.

Áudios e vídeos relacionados


terça-feira, 19 de agosto de 2014

O gigante da literatura brasileira.

Machado de Assis e a epilepsia
O “Bruxo do Cosme Velho” tinha um tabu: não admitia de forma alguma falar de suas frequentes crises de epilepsia. Sim, um dos maiores escritores em língua portuguesa, autor do célebre “Dom Casmurro”, fundador da Academia Brasileira de Letras, sim, ele mesmo, Joaquim Maria Machado de Assis, era epilético.

Rôney Rodrigues, na Super interessante
machado-de-assis
O distúrbio, que causa descargas elétricas anormais nos neurônios e pode provocar convulsões, chega a atingir 2% da população de países em desenvolvimento, segundo a Liga Brasileira de Epilepsia. No entanto, sempre foi tratado com muito preconceito. Povos antigos acreditavam que os epilépticos eram possuídos por maus espíritos e demônios. O próprio nome, epilepsia, vem do grego epilambanein e significa “tomar, capturar, possuir”. Daí se nota o nível do tabu.
Machado nunca foi diagnosticado clinicamente com epilepsia, porém seus biógrafos são unânimes quanto ao fato. Inclusive, o escritor carioca foi até fotografado em uma de suas muitas crises pelo velho Malta, fotógrafo tradicional do Rio antigo.
Machado raramente aludia à epilepsia. Na verdade, evitava até pronunciar a tal palavra. Chegou até a excluir a referência à epilepsia em uma edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, ao descrever o padecimento de Virgília diante da morte do amante: “Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica…”, substituindo por “convulsa”.
Também não comentava com seus amigos mais íntimos. Em uma carta a Mário de Alencar, somente falou por cima, que “o muito trabalhar destes últimos dias tem-me trazido alguns fenômenos nervosos…”. Ocultou, inclusive, da amada e dedicada esposa, Carolina, a quem devotava imensa ternura, não revelando seu problema antes do casamento.
As convulsões faziam com que o escritor, às vezes, mordesse a própria língua, o que provocava feridas. Quando alguém o questionava sobre sua dificuldade em falar – provocada pelas feridas da mordedura -, justificava: “Estas aftas! Estas aftas!”.
A epilepsia de Machado de Assis teve início na infância, quando ele sentia “umas coisas esquisitas”, que não haviam mais se repetido até seu casamento.
Há referências de que Machado de Assis consultou o Dr. Miguel Couto e que tomou brometo. Parece que a droga não foi eficaz e causou alguns efeitos indesejáveis o que, a conselho de um amigo, o teria levado a interromper o tratamento, optando pela homeopatia. O escritor morreu com uma úlcera cancerosa na boca, possivelmente derivada de seus ataques de epilepsia.

Fonte: Unifesp, Consciência, Epilepsia.org

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Por que tantos comediantes sofrem de depressão?

Robin Williams (AP)
Robin Williams dizia que sempre que a depressão o atacava, o humor o tirava do fundo do poço
Da BBC - Brasil
Robin Williams foi um de muitos comediantes que fizeram rir em público
enquanto sofriam em sua vida privada.
O ator, que tinha 63 anos, suicidou-se na segunda-feira em sua casa na Califórnia, nos Estados Unidos.
No fim de julho, o humorista Fausto Fanti, do grupo Hermes e Renato, foi encontrado morto em seu apartamento em São Paulo com um cinto em torno do pescoço. A Polícia investiga o caso, registrado como "suicídio consumado"
Pouco antes de falecer por causa de uma doença pulmonar, Chico Anysio revelou no início deste ano, em uma entrevista na TV, que travou uma dura - e vitoriosa - batalha contra a depressão.No fim de julho, o humorista Fausto Fanti, do grupo Hermes e Renato, foi encontrado morto em seu apartamento em São Paulo com um cinto em torno do pescoço. A Polícia investiga o caso, registrado como "suicídio consumado".
O ator e comediante inglês Stephen Fry sofria de transtorno bipolar e revelou no ano passado que tentou se matar em 2012.
Isso leva a nos questionar: os mestres do riso tem uma tendência maior à depressão? E, se for o caso, por quê?

Perfil contraditório

"Não é preciso ser um gênio para saber que comediantes são um pouco loucos", disse a humorista inglesa Susan Murray no início deste ano, em resposta a um estudo que sugeria que comediantes têm traços psicológicos ligados a psicoses.
Em janeiro, pesquisadores da Universidade de Oxford publicaram os resultados de um estudo em que participaram 523 comediantes (404 homens e 119 mulheres) do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Austrália.
"Descobrimos que comediantes têm um perfil de personalidade pouco comum e um tanto contraditório", diz Gordon Claridge, do Departamento de Psicologia Experimental de Oxford.
"Por um lado, eles eram bastante introvertidos, depressivos e, poderíamos dizer, esquisitos. Por outro, eles são bastante extrovertidos e cheios de manias. Talvez a comédia - o lado extrovertido - seja uma forma de lidar com o lado depressivo. Mas, claro, isso não vale para todo comediante"

'Vencível'

Em seu depoimento, Chico Anysio revelou que se tratava com um psiquiatra há 24 anos. Sem esse tratamento, ele disse, "não teria conseguido fazer 20% do que eu fiz".
"Entendi que era depressão, pude pagar os remédios e o psiquiatra e, então, eu venci. Porque ela é vencível”, contou o humorista.
No caso do humorista Fanti, os investigadores à frente do caso disseram que consideram a hipótese dele ter se suicidado por estar passando por um momento difícil em sua vida.
Fanti estava se separando da mulher, com quem tinha uma filha de oito anos.
O humorista inglês Stephen Fry, que lançou em 2006 o documentário A Vida Secreta de um Maníaco Depressivo, revelou em uma entrevista em 2012 sua luta contra a depressão.
"Havia momentos em que eu estava gravando o programa na TV e rindo por fora, enquanto por dentro pensava 'quero morrer'", disse ele.

Criatividade

Stephen Fry (Getty)
Stephen Fry conta que, mesmo enquanto fazia outros rirem, sofria com a depressão
John Loyd, produtor e ator de programas de comédia na TV britânica, sofre de transtorno bipolar, que afeta gravemente o humor.
Uma pessoa bipolar alterna entre fases de extrema felicidade e criatividade e depressão profunda.
Lloyd diz que esse tipo de problema é "muito, muito comum entre profissionais criativos".
"Pessoas estáveis pensam que o mundo está bom como ele é hoje. Não acham que precisam mudá-lo. Pessoas criativas não pensam assim. E quem quer mudar o mundo sofre muito com isso".
Robin Williams supostamente também sofria de transtorno bipolar.
Em público, ele sempre parecia estar atuando e fazendo os outros rir, mas nunca escondeu seus problemas com álcool e em seu casamento.
Mas, nas entrevistas, era mais reservado quanto a seus problemas de ansiedade e buscava ver o lado positivo da situação.
"Sempre que você se deprime, a comédia o tira do buraco", disse ao jornal The Guardian em 1996.

Pagando o preço

Integrante do grupo Monthy Python, Terry Gilliam dirigiu Williams em O Pescador de Ilusões (1991) e diz que seu talento era um "milagre", mas que isso "não vinha do nada".
"Quando os deus te dão um talento do nível de Robin Williams, há um preço a ser pago", disse Gilliam à BBC.
"Isso vem de profundos problemas internos. Uma preocupação. Todos os tipos de medos. Ainda assim, ele sempre conseguia canalizar tudo isso e transformar em ouro."
Mas nem todos os comediantes passam por dificuldades assim, e a depressão está longe de ser algo exclusivo de personalidades criativas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 350 milhões de pessoas no mundo sofrem desse problema.
Em seus casos mais graves, a depressão pode levar ao suicídio. Por ano, cerca de 1 milhão de mortes são causadas por suicídios.
Nick Maguire, o principal palestrante em psicologia clínica da Universidade de Southhampton, diz que pode haver uma conexão entre a depressão e a comédia, mas que "certamente não é muito forte ou clara".
Ele explica que as pessoas têm diferentes formas de lidar com a depressão.
"Normalmente, elas se isolam. Outra forma de amenizar temporariamente o impacto dessas emoções é fazer as pessoas rirem e gostarem de você", diz Maguire.

"Infelizmente, isso é bom enquanto está ocorrendo, mas, quando você volta para casa, o que você faz?"

domingo, 17 de agosto de 2014

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Propagandas criativas

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Jazz salvou músico de origem judaica dos campos de concentração

Da Deutsche Welle

Coco Schumann fez nome na cena jazz alternativa da Berlim dos anos 1930. A afinidade com o gênero musical salvou sua vida durante o regime nazista.

Há algumas semanas, jornalistas apertavam-se na casa de Heinz "Coco" Schumann, num subúrbio no oeste de Berlim, para celebrar os 90 anos do músico. Sua humilde residência se parece com a de qualquer outro alemão nonagenário. No entanto, um olhar mais atento sobre as fotos nas paredes revela uma vida que foi moldada e, de certa maneira, salva pela música.

Os pais de Schumann eram alemães – o pai, protestante e a mãe, judia. Ele ficou em Berlim durante os primeiros dez anos do regime nazista e se recusava a usar uma estrela amarela.
Enquanto seus pais se mudavam por Berlim, às vezes se escondendo na casa de amigos alemães, Schumann construiu uma reputação na cena jazz alternativa de Berlim – que permaneceu popular apesar das autoridades nazistas proibirem o gênero popular americano.

"Prenda-me também"

Jazz era proibido pelos nazistas por suas origens americanas

Em 1942, Schumann teve seu primeiro confronto com as leis raciais nazistas. Um grupo de oficiais da SS – polícia de elite do regime – entrou num bar onde o músico e sua banda tocavam. Os guardas procuravam por judeus e outros que o governo alemão tentava erradicar. Após a entrada dos oficiais, um membro judeu do público subiu no palco e tentou escapar pela porta traseira, enquanto Schumann e sua banda continuavam tocando.

"Eu fui até o oficial da SS e disse: 'Se você vai prendê-lo, você provavelmente vai ter que me prender também'", lembra o músico. "Eu falei: 'Primeiro, porque sou judeu. Segundo, porque sou menor de idade. Terceiro, porque estou tocando jazz'."

Embora não tenha sido preso na ocasião – Schumann acredita que os oficiais da SS não acreditaram que ele era judeu –, as coisas mudaram no ano seguinte. Em 1943, as autoridades alemãs começaram a deportar alemães de ascendência judaico-cristã. Aparentemente, alguém denunciou às autoridades que a mãe do músico era judia.

Ele recebeu uma carta da polícia, que não especificava um crime e dizia que o músico deveria se apresentar na delegacia da Alexanderplatz. Schumann foi preso assim que chegou ao local e mandado para a Gestapo, que o deportou para o campo de concentração.

"Theresienstadt. Auschwitz. Dachau. Ninguém acredita que eu realmente estive nesses lugares", diz. "Por um longo tempo, senti que ninguém entenderia o que eu vi. Eu mesmo não entendia."

Memórias reprimidas

Em Theresienstadt, Schumann tocou guitarra no The Guetto Swingers

Schumann foi salvo das câmeras de gás em Auschwitz graças a um guarda responsável por selecionar os recém-chegados, que o reconheceu da cena de jazz berlinense e o colocou num grupo musical de ciganos da etnia Roma.

Anteteriormente, no campo de concentração de Theresienstadt, também conhecido como gueto de Theresienstadt, o músico havia tocado guitarra numa banda conhecida informalmente como The Guetto Swingers. Em setembro de 1944, ele foi transferido para Auschwitz, onde permaneceu cerca de cinco meses. Enquanto os guardas alemães assassinavam milhares de inocentes – incluindo judeus, poloneses, Roma, gays, entre outros – Schumann tocava canções para os militares, como La Paloma.

"Por muito tempo, eu reprimi o que eu vi: os olhos das crianças sendo conduzidas para as câmeras de gás, os corpos sendo descarregados", relembra Schumann.

Ele sobreviveu aos campos de concentração e voltou a Berlim em 1945. Enquanto caminhava pelo bombardeada Kurfürstendamm, famosa avenida da cidade, ele conheceu sua mulher, também sobrevivente de Theresienstadt.

"Quando a conheci, não sabia que ela também tinha estado em Theresienstadt", diz Schumann. "Mas ela me conhecia porque eu era o baterista do The Guetto Swingers. Os músicos não conhecem o público, mas algumas vezes o público conhece os músicos."

Os dois casaram-se em Berlim e, algum tempo depois, imigraram para a Austrália, onde viveram por cinco anos. Mas eles sentiam falta da cena jazz de seu país natal, e retornaram para Berlim Ocidental em meados da década de 1950.

Falando do passado

Carreira de Schumann decolou junto com a cena jazz de Berlim nos anos após a queda do nazismo

Sua carreira decolou junto com a cena jazz de Berlim, que renasceu nos anos após a queda do nazismo. Schumann começou a escrever e compor música, além de experimentar com a guitarra elétrica. Ele chegou a tocar com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. O músico fez turnês pela a Europa, tocou em navios de cruzeiro e ficou conhecido como o mais famoso guitarrista de swing da Alemanha.

Por anos, ele recusou-se a falar sobre suas experiências nos campos de concentração alemães. Isso só mudou há uma década, quando participou de um evento em Berlim para sobreviventes.

"Não queria falar a respeito", conta Schumann. "Mas, eu estava com a minha esposa numa cerimônia para sobreviventes dos campos. Havia convidados de Israel, Nova York e de todo o mundo. Mas todas as vezes que eu via a câmera, eu me virava. O repórter perguntou para alguém sobre mim e descobriu que estive num campo de concentração. Ele se aproximou de mim novamente e disse ao cinegrafista: 'Desligue a câmera por um minuto'. Ele perguntou: 'Por que você sempre se vira quando vê a câmera?'. Eu disse: 'Não quero falar a respeito'. E ele: 'Se você não falar a respeito, quem vai contar o que aconteceu por lá?'. Nesse momento, algo mudou, e achei que ele estava certo".

Desde então, Schumann contou sua história em escolas na Alemanha e num documentário de televisão. Ele se sente sortudo por ter sobrevivido aos campos de concentração. Enquanto a experiência deixou uma marca inapagável em sua vida, ele diz não guardar nenhuma mágoa em relação à Alemanha ou à sociedade alemã.

"Fiquei feliz por ter escapado do campo de concentração", diz Schumann. "Essa é a única coisa que importa. Eu sobrevivi. Eu ainda estou vivo."

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O grande irmão...

Planalto pode ser impedido de editar Wikipédia


Renata Honorato, na VEJA.com:

Nesta semana, o jornal Folha de S.Paulo revelou que computadores instalados no Palácio do Planalto, sede do governo federal em Brasília, foram usados para editar artigos de políticos na Wikipédia – precisamente, a página do candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, que citava suspeitas de corrupção, foi alterada por servidores federais. As mudanças foram realizadas no ano passado, antes do início da campanha, mas o serviço colaborativo já se prepara para a enxurrada de edições tendenciosas que tradicionalmente ocorrem às vésperas de eleições, criando “perfis-pinóquio” de candidatos. A ação, que é comum no Brasil e exterior, é repelida por um exército de editores, que ao primeiro sinal de conflito de interesses reedita um texto na enciclopédia virtual. Em caso de reincidência, a Wikipédia não perdoa e bloqueia por tempo determinado o endereço IP (sequência de números que identifica um dispositivo em uma rede local ou pública) responsável pela mudança no termo.
Na prática, os computadores instalados no Palácio do Planalto podem ser impedidos de editar artigos da enciclopédia, caso a comunidade identifique alterações tendenciosas, que geralmente exaltam qualidades e omitem fatos de interesse público. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma faixa de IPs da Câmara dos Deputados foi bloqueada por dez dias depois que a Wikipédia identificou que computadores da sede do governo americano tinham vandalizado artigos. Na ocasião, a página sobre a teoria da conspiração que diz ser falso o Programa Apollo e sua chegada à Lua, acusava o governo de Cuba de espalhar os boatos.
Segundo Katherine Maher, diretora de comunicação da Fundação Wikimedia, gestora da Wikipédia, o dono do IP em questão — o governo americano, no caso — já tinha sido notificado sobre as edições inapropriadas. Como aviso, o endereço chegou a ser bloqueado por um dia. As alterações continuaram a acontecer mesmo depois do alerta e, como castigo, a enciclopédia cancelou por dez dias qualquer edição feita a partir de um IP da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos. “A decisão partiu de um membro da comunidade Wikipédia em inglês. São eles que tomam as decisões com base nas políticas editoriais e só bloqueiam um acesso em casos extremos”, explicou a executiva ao site de VEJA.
Lucas Teles, estudante de medicina de 28 anos, é um dos administradores da Wikipédia em português. Teles vive em Salvador (BA) e desde 2008 colabora com a enciclopédia. “As edições tendenciosas acontecem com frequência. O que não é comum é identificar a origem do IP responsável pela mudança”, explica. De acordo com Teles, muitos endereços já foram bloqueados no Brasil por causa dessas alterações. “Caso recente é o do ex-senador mineiro Clésio Andrade (PMDB). Um IP relacionado ao político foi identificado por fazer mudanças sensíveis no artigo e isso fez com que o endereço fosse bloqueado por 45 dias”, conta Teles.
Katherine afirma que as políticas de edições variam de idioma para idioma, mas na maioria dos casos é proibido que um usuário edite seu próprio artigo ou que pessoas próximas a ele façam o mesmo. O objetivo, diz a diretora, é evitar conflito de interesse. “Claro que nem todos seguem à risca essa regra editorial. É por isso que de tempos em tempos vemos políticos alterando suas próprias páginas. Historicamente, o tiro sempre sai pela culatra quando um parlamentar, uma empresa ou celebridade tentar melhorar a sua imagem na Wikipédia. Os editores reeditam o artigo e a imprensa publica reportagens sobre a manobra”, diz a porta-voz da enciclopédia.
Para evitar que computadores instalados em sedes do governo sejam usados para modificar de forma inapropriada artigos na Wikipédia, programadores independentes criaram robôs que atualizam perfis no Twitter a cada alteração feita a partir de um IP do governo. “Essas contas já funcionam nos Estados Unidos, Rússia e Grã-Bretanha. Nada impede que alguém crie uma solução similar ao @congressedits para monitorar as edições feitas a partir do congresso ou senado brasileiros”, explica Katherine. E foi o que aconteceu dias após a revelação das edições do Planalto. A conta @brwikiedits no Twitter já está no ar e IPs do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), que fornece serviços de TI ao governo, são fiscalizados diariamente e publicados no microblog.
Oona Castro, consultora do Programa Catalisador da Wikimedia no Brasil, explica que funcionários de empresas, relações públicas de celebridades e assessores de políticos de todos os níveis da federação tendem a editar artigos na enciclopédia. “Se uma dessas pessoas edita uma página de maneira isenta, não há problema. A questão complica quando interpretam que a Wikipédia é uma plataforma de divulgação e quando querem omitir fatos já reportados em outras fontes ou incluir informações sem referência”, diz Oona. “Nesses casos, os editores mais experientes e ativos simplesmente reeditam os artigos.”

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Censura à vista


Ruy Fabiano

Em 1985, primeiro ano da redemocratização, o então ministro da Justiça do governo Sarney, Fernando Lyra, anunciava, em tom triunfal, a cerca de 700 artistas e intelectuais, reunidos no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro, o fim da censura.

Ela vigorara oficialmente ao longo do regime militar, exercida de forma prévia, por meio de censores nas redações, e a posteriori, pelo recolhimento de publicações que escapavam à sagacidade (sempre escassa) daqueles.

A censura prévia fora derrubada ainda no governo Geisel, mas a censura a posteriori prosseguiu até o fim do regime. Sua abolição total se deu apenas com o anúncio de Fernando Lyra, na sequência da proibição e posterior liberação de um filme medíocre de Jean-Luc Godard, “Je Vos Salue Marie”, a que os censores deram visibilidade e cujo imbróglio marcou o fim oficial da censura.

A Constituição de 1988 foi enfática em condená-la, em nada menos que seis incisos ao artigo 5º (do nono ao décimo-quarto). Mesmo assim, seu fantasma jamais deixou de pairar sobre a vida jornalística e intelectual brasileira. Adquiriu outras formas, sofisticadas, sub-reptícias, tão ou mais eficazes, dando origem ao termo, ainda vigente, de “patrulhas ideológicas”.

Já não era necessária a presença de censores oficiais nas redações e universidades. O ambiente intelectual se incumbia de cercear o livre debate de ideias, lançando ao limbo as que não se afinassem com o discurso de esquerda. Autores múltiplos deixaram de ter suas obras disponíveis, censurados pelo silêncio.

O quadro persiste e somente há pouco tempo algumas vozes dissonantes, na imprensa e na universidade, se levantaram para estabelecer o contraponto. São vozes que entre si guardam pouca ou mesmo nenhuma afinidade, senão a de se contrapor ao ideário hegemônico. Sua discordância não provoca o debate, mas uma reação ofensiva, uníssona, que busca impor-lhe um rótulo comum de “direita”, igualando desiguais, na tentativa de difamá-los.

Direita, nesses termos, é tudo o que se contrapõe ao ideário esquerdista, o que automaticamente remete o infrator à companhia de personagens como Hitler, Mussolini ou Pinochet. Ser de esquerda, no entanto, não estabelece vínculos com açougueiros bem mais eficazes, como Stalin, Lênin ou Fidel Castro. Ao contrário, os companheiros citados são bem mais charmosos: Chico Buarque, Pablo Neruda, José Saramago – e por aí vai.

Nada disso é gratuito. O que se quer é inibir o debate de ideias e rumos para o país, fora da agenda socialista. Mas não parece suficiente. Tanto assim que o PT persiste na ideia de “regulamentar” a mídia e tê-la sob “controle social”.

Incluiu-a no 3º Plano Nacional de Direitos Humanos e teve que recuar diante das reações. Na campanha de 2010, Dilma comprometeu-se a não levá-la adiante, assegurando que, em seu governo, só admitiria o controle remoto. Boa tirada, a ser comprovada.

Mês passado, o vice-presidente nacional do PT, Alberto Cantalice, publicou, no site do partido, uma lista negra de seis jornalistas (“entre outros menos votados”) que, segundo ele, deveriam ser simplesmente banidos da mídia. O partido não o contradisse, nem deu bola para as reações de protesto. Portanto, até prova em contrário, a lista está em vigor.

Semana passada, uma analista do Banco Santander foi demitida, por exigência de Lula, governo e PT, por ter, em carta aos clientes, constatado o óbvio: que a hipótese de reeleição de Dilma afeta negativamente as cotações no mercado. Recomendou aos investidores que, por essa razão, procurassem o banco para orientar suas aplicações. Entrou também para o índex.

A censura, nesse caso, saiu do terreno da informalidade e ganhou contornos oficiais. Interferiu na comunicação de um banco com seus clientes, o que nem o governo militar ousou.

Parece ser uma prévia do que aguarda o país, se Dilma vencer. É pelo menos o que promete o deputado José Guimarães (PT-CE), irmão de José Genoíno, que diz que a regulamentação da mídia virá de qualquer jeito, “quer queiram, quer não queiram”.

Numa democracia, como é óbvio, tal expressão só faz sentido se dita pela contramão. 

Ruy Fabiano é jornalista

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Os salários que o Sesi paga aos apadrinhados do PT

As remunerações a indicados por Lula e pelo partido chegam a R$ 36 mil – e alguns deles nem precisam aparecer para trabalhar

RAMOS, na revista Época

BUUUU!!! A filial do Conselho do Sesi em São Bernardo, São Paulo. Os funcionários deveriam trabalhar lá, mas ninguém conseguia vê-los antes da visita dos caça-fantasmas  (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Um espectro ronda a casa 787 da Rua José Bonifácio, numa esquina do centro de São Bernardo do Campo, em São Paulo – o espectro do empreguismo. De longe, vê-se apenas uma casa amarela, simples e estreita como as demais da região. De perto, subitamente, tudo o que é sólido se desmancha no ar e – buuu! – sobram somente os fantasmas. Naquele endereço, na cidade paulista onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mora e fez sua carreira, funciona o “escritório de representação”, em São Paulo, do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria, o Sesi. A casa amarela mal-assombrada fica a 40 metros do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em que Lula se projetou como um dos maiores líderes políticos do Brasil. O sindicato mais famoso do país continua sob o comando de Lula e seus aliados. A casa amarela foi criada por esses aliados no governo de Lula. Quem a banca são as indústrias do país. Todo ano, elas são obrigadas a financiar as atividades do Sesi, cuja principal finalidade é qualificar os trabalhadores das indústrias. A casa amarela é um dos melhores lugares do Brasil para (não) trabalhar. O escritório é modesto, mas os salários são inimagináveis – e as jornadas de trabalho, imaginárias. Difícil é entrar. É preciso ser amigo de petistas poderosos.
Na manhã da última quarta-feira, ÉPOCA reuniu coragem para bater à porta da casa amarela. Estava em busca de Marlene Araújo Lula da Silva, uma das noras do ex-presidente Lula. No papel e na conta bancária, ela trabalha ali. A reportagem encontrou apenas dois sindicalistas, além da copeira Maria e da secretária Silvana. Dona Maria parece ser a mais produtiva do lugar. Faz um ótimo café. Talvez por medo, não fala sobre as aparições. Assim que ÉPOCA perguntou pela nora de Lula, a secretária Silvana tratou de alertá-la por telefone. Cerca de 45 minutos depois, Marlene finalmente estacionava seu Hyundai Tucson preto na garagem.

Casada com o quarto filho de Lula, Sandro Luís Lula da Silva, Marlene raramente aparece no serviço, apesar de ter um salário de R$ 13.500 mensais. Diz ser “formada em eventos”. Questionada sobre o que faz no Sesi, onde está empregada desde 2007, Marlene foi vaga. Disse trabalhar em programas do Sesi na capital paulista e na região do ABC. “Trabalho com relações institucionais. Fico muito tempo fora do escritório. Tenho uma jornada flexível. Quem me contratou foi o Jair Meneguelli”, afirmou. Meneguelli é o presidente do Sesi. Sindicalista e amigo de Lula, ocupa o cargo desde que o PT chegou ao Planalto, em 2003. “Mas por que está fazendo essas perguntas? Se você está me procurando, deve ser pela ligação que tenho de sobrenome”, disse.

Marlene é apenas um dos fantasmas vermelhos que, segundo descobriu a Controladoria-Geral da União, a CGU, habitam a casa amarela. No começo do ano, funcionários do Sesi procuraram a CGU para denunciar a existência de fantasmas nos quadros da entidade. Todos indicados por Lula e outros próceres do PT. Os auditores da CGU, como caça-fantasmas, foram a campo. Encontraram apenas ectoplasmas. Estiveram na casa amarela e jamais flagraram a nora de Lula trabalhando. Experimentaram ligar em horários alternados, na tentativa de achá-la na labuta. Nenhum vestígio. Por fim, decidiram perguntar ao Sesi que atividades Marlene exercera nos últimos tempos. A resposta foi evasiva. Agora, a CGU trabalha num relatório sobre a caça aos fantasmas.

A rotina tranquila permitiu que Marlene se lançasse ao mundo corporativo. Em 2009, ela se tornou sócia do marido e de um cunhado, Marcos Luís, numa empresa de tecnologia que se diz especializada na produção de software, a FlexBr. Até hoje a empresa não tem site. Antes escanteada num imóvel da família do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, em São Bernardo do Campo, a FlexBr mudou-se para um  belo prédio no bairro dos Jardins, em São Paulo. ÉPOCA também esteve lá na semana passada. As atendentes do prédio disseram que a empresa não funciona mais lá há pelo menos um ano.  Nunca viram Marlene ali.

Por que o emprego de Marlene no Sesi nunca veio à tona? Um servidor do Sesi afirmou que se deve à dificuldade de associar o nome de solteira de Marlene ao sobrenome Lula da Silva. Na relação de funcionários do Sesi, o nome dela é Marlene de Araújo. Sobram fantasmas na família Lula. Em 2005, o jornal Folha de S.Paulo revelou que Sandro Luís, o marido de Marlene, tinha sido registrado como funcionário do PT paulista, com salário de R$ 1.500. Sandro nem sequer aparecia no partido.
 
APARIÇÕES Marlene (à esq.), nora de Lula, só apareceu no trabalho depois de ÉPOCA perguntar por ela. Márcia (à dir.), mulher do mensaleiro João Paulo Cunha, estava em casa (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
O assessor Rogério Aurélio Pimentel deveria ser colega de Marlene na casa amarela.  Até há pouco, estava lá apenas em espírito. Aurélio foi contratado no começo de 2011, para ser gerente de serviços sociais. Ganha R$ 10 mil por mês. O emprego no Sesi foi arranjado depois que a presidente Dilma Rousseff chegou ao Planalto e o dispensou. Aurélio, amigo de Lula, trabalhou no gabinete pessoal dele nos oito anos de mandato. No Planalto, dividia sala com Freud Godoy, ex-segurança de Lula. Godoy e Aurélio eram conhecidos no Planalto como “dupla dinâmica”. Freud se consagrou com o escândalo dos Aloprados, na campanha de Lula em 2006. Foi acusado de usar dinheiro sujo para comprar um dossiê fajuto com denúncias contra o tucano José Serra. ÉPOCA encontrou Aurélio na casa amarela. Ele disse não ter sido indicado por Lula. “Trabalho com Marlene assessorando projetos e também ajudo aqui no escritório”, disse. Não quis dar mais explicações. Desde as visitas dos caça-fantasmas da CGU, Aurélio passou a se apresentar no escritório do Sesi com mais regularidade.
o emprego dA nora de Lula demorou a ser descoberto porque ela usava o sobrenome de solteira
Na sede do Sesi, em Brasília, os caçafantasmas entrevistaram funcionários (de verdade) e vasculharam os computadores dos fantasmas em busca de vestígios de que trabalhavam. Nada. Uma das que não entravam no próprio computador chama-se Márcia Regina Cunha. Ela é casada com o ex-deputado João Paulo Cunha, do PT de São Paulo, condenado no processo do mensalão. Foi Márcia quem buscou os R$ 50 mil, em dinheiro vivo, que João Paulo recebeu de Marcos Valério – ele dizia que ela fora ao banco pagar a conta de TV a cabo. No Sesi, Márcia está empregada como gerente de marketing desde 2003. Recebe R$ 22 mil por mês.
Sou gerente de marketing. Trabalho lá (em Brasília) e aqui em São Paulo"
MÁRCIA CUNHA, MULHER DO MENSALEIRO JOÃO PAULO CUNHA, EM SUA CASA
Na tarde da mesma quarta-feira em que procurou Marlene na casinha amarela, ÉPOCA flagrou Márcia a 1.000 quilômetros da sede do Sesi em Brasília, onde ela deveria estar. Márcia estava em sua casa, na cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo. A casa de Márcia e do ex-deputado João Paulo Cunha está em reforma. Márcia parecia acompanhar as obras. ÉPOCA quis saber por que ela não estava em Brasília. “Sou gerente de marketing. Trabalho lá (Brasília) e aqui em São Paulo. Tem uma unidade do Sesi aqui”, disse – e logo desapareceu.

Os caça-fantasmas tiveram dificuldade para encontrar também o advogado e jornalista Douglas Martins de Souza no Sesi em Brasília. Contratado para ser consultor jurídico, ganha R$ 36 mil. Filiado ao PT desde 2000, foi secretário adjunto da Secretaria de Igualdade Racial no início do governo Lula. Marlene disse que Douglas “fica entre Brasília e São Paulo”.

Além de atender a pedido de amigos, Meneguelli, o presidente do Sesi, também emprega os seus. Um deles é o petista Osvaldo Bargas. No período em que Meneguelli presidiu a Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT, Bargas era seu número dois. No Sesi, recebe salário de R$ 33 mil. A sindicalista Sandra Cabral, amiga do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, também conseguiu emprego lá. Recebe R$ 36 mil por mês.
 
COMPANHEIROS Jair Meneguelli e o ex-presidente Lula. Nomeado por Lula, ele está há 11 anos no Sesi e ganha até R$ 60 mil mensais (Foto: Ricardo Benichio/divulgação)
Se alguém ganha bem no Sesi, é o próprio Meneguelli. Há meses em que ganha quase R$ 60 mil – somando ao salário uma “verba de representação”. Hoje, ocupa uma sala espaçosa num dos prédios mais luxuosos da capital federal. Meneguelli desfila num impecável Ford Fusion preto, modelo 2014, com motorista. Para não ficar a pé no ABC paulista, deu ordens para que um Toyota Corolla zerinho fosse transportado de Brasília a São Bernardo do Campo. Fica a sua disposição, com motorista. As despesas com esses e outros três bólidos do Sesi somam mais de R$ 150 mil por ano.
Meneguelli tem uma mania incorrigível de confundir o patrimônio do Sesi com o dele. Todos os finais de semana, recebia passagens pagas pelo Sesi para ir a sua casa em São Caetano do Sul, em São Paulo. Isso acabou quando uma auditoria do Tribunal de Contas da União, o TCU, vetou o procedimento. Outra auditoria da CGU também achou estranho que Meneguelli tenha criado uma representação do Sesi em São Bernardo do Campo – e não na capital paulista. Silvana Aguiar, secretária de Meneguelli em São Bernardo, disse que a casa amarela, antes de ser o escritório do Sesi, já abrigava o escritório político de seu patrão.

Por meio de sua assessoria, Meneguelli afirmou que Marlene, Márcia, Aurélio, Sandra e Douglas cumprem suas jornadas de trabalho normalmente, que os cargos são de livre provimento e que os carros usados por ele são compatíveis com “padrão executivo, adotado pela instituição desde antes da atual gestão, e a despeito de quem seja gestor”. Afirmou não enxergar conflito de interesses na contratação do amigo Bargas. Lula não quis comentar.