quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Democracia & Educação ou Da arte de se assemelhar a gorilas e bonobos


Sob o ponto de vista político, a democracia é o que de mais nobre a humanidade já conseguiu construir. É um sistema perfeito, sem vícios e desvios que blinda os cidadãos contra o fisiologismo, o clientelismo, o tráfico de influência e a corrupção endêmica? Não, claro que não, longe disso. Mas desde quando a perfeição absoluta está entre as categorias inerentes à espécie Homo sapiens? Aliás, não custa recordar que a expressão origina do latim e significa homem sábio, homem racional.

E às vezes os desvios da democracia são tamanhos que deixamos o sábio e o racional de lado para nos aproximar dos demais primatas bípedes que, como os humanos, pertencem à subfamília Hominoidea: gorilas, chimpanzés, bonobos e orangotangos.

Os exemplos mundo afora mostram um consistente vínculo entre educação e democracia. Quando a educação é de qualidade, a democracia se consolida de forma sustentável, vistosa, vigorosa e a civilização fica bem ao alcance da mão. Já quando a educação carece dos mínimos parâmetros, quando é tratada com desdém e bochinche, a democracia se fragiliza, perde substância, e quem fica bem rente, de forma perigosa e ameaçadora, é a barbárie.

Se desejamos uma democracia sustentável, então não resta outro caminho senão investir em educação, priorizar o setor, único modo de agregar qualidade ao nosso caótico e medíocre sistema de ensino. Tratar a educação com diligência, zelo e carinho é condição indispensável para que possamos dar curso à caminhada.

E porque educação de qualidade se vincula de forma tão umbilical à democracia sustentável? É elementar: a qualidade do parlamento depende da qualidade dos eleitores.

E neste aspecto o quadro não é dos melhores, o céu está mais para um bando de urubus carniceiros que para o vôo majestoso do falcão.

A baixa escolaridade aflige mais da metade dos eleitores brasileiros. E se a escolaridade é baixa, a tendência é que a qualidade do voto também seja.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, compomos um universo de 127,4 milhões de eleitores. Desde total, nada menos que 51,5% dos brasileiros habilitados a votar têm baixa escolaridade. Traduzindo em miúdos: nenhum deles completou o primeiro grau; ou dominam de forma elementar apenas a escrita e a leitura. O precipício, porém, é mais profundo e ostentamos uma mácula indecorosa: mais de oito milhões dos eleitores brasileiros são analfabetos.

Estes números referem-se ao ano de 2007 e integram a base oficial de dados do TSE.

Os dados comprovam, de maneira categórica, o grave desnível que se verifica entre as regiões geográficas do Brasil. A maioria dos eleitores analfabetos está na região Nordeste do país. Brasileiros que votam ignorando a habilidade da leitura e da escrita.

Na região Sul o percentual de eleitores analfabetos é de 3,51 e na Sudeste 3,84. Na região Norte este índice se situa na casa dos 8,74% e na Centro-Oeste 4,76%. O pior quadro figura na região Nordeste com inaceitáveis 12,22% de analfabetos em seu eleitorado.

A pesquisa realizada pelo TSE mostra ainda que uma parte quase insignificante do eleitorado porta diploma de curso superior, não passa de 3,43% dos eleitores.

Por isto, exigir educação de qualidade talvez seja a forma mais eficaz de protestar contra a indigência mental de parte dos políticos brasileiros, uma boa forma de lutar por um parlamento consentâneo com as necessidades do desenvolvimento nacional.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A descomunal janela de oportunidades

Poucos se lembram dos tempos nervosos da guerra fria, o embate de surdos-mudos travado pela URSS e EUA. De um lado, a defesa do comunismo, da economia planificada, do partido único; de outro a economia de mercado, as liberdades individuais, a democracia e a propriedade privada. Cada um deles criando sua rede de influência, seus países satélites.

A divisão ideologia chegou ao apogeu, ao seu ponto máximo, impondo até mesmo a divisão de países, como ocorreu na Alemanha, na Coréia e no Vietnã. O muro de Berlim foi o exemplo maior desta estupidez que não conheceu limites. As superpotências, sentadas sobre seus arsenais nucleares – capazes de eliminar a vida na terra por inúmeras vezes – estimulavam e municiavam os países subordinados nos conflitos regionais. Na Europa ocidental, os países de livre mercado organizaram-se na OTAN, a Organização do Tratado Atlântico Norte; e na cortina de ferro, o pólo antagônico estruturou o Pacto de Varsóvia. Um período lastimável, mas que resultou em alguns avanços, inequívocos, entre os quais, não custa rememorar, a conquista do espaço sideral.

A disputa insana encontrou um terreno propício para os embates, um campo emblemático, favorável para que, de forma instantânea, fosse possível propagandear ao mundo qual dos sistemas políticos era o mais avançado e eficaz.

O primeiro lance ocorreu no ano de 1957, quando a URSS lançou o foguete Sputnik com um cão dentro, o primeiro ser vivo a ir para o espaço. Mas o gol de placa dessa longa história ocorreria em 1961, quando a União Soviética promoveu o vôo inaugural na corrida espacial tripulada, colocando Yuri Gagarim em órbita.

O troco não tardaria.

Imediatamente informado do fenomenal acontecimento, o presidente norte-americano John F. Kennedy criou o Projeto Apollo com o objetivo de levar o homem à Lua. E cerca de uma década depois, em 1969, o mundo todo, entre surpreso e estupefato, não conseguia tirar os olhos da televisão que transmitia os primeiros passos do homem na lua, o coroamento da missão espacial norte-americana.

No dia 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Edwin Aldrin gozaram o privilégio histórico de serem os primeiros homens a caminhar sobre o solo lunar.

O feito abriu caminho para cinco novas missões que possibilitaram outros dez astronautas americanos pisar no solo lunar.

A conquista da lua teve um efeito devastador sobre a União Soviética e contribuiu de forma decisiva – muito mais do que muitos imaginam – para a derrocada do império vermelho.

De Gagarim até os dias de hoje, muito do nosso conforto e bem estar se deve às pesquisas realizadas no espaço. URSS – hoje a Rússia, EUA, Europa, Japão e agora a China continuam investindo no setor por terem conhecimento que a soberania sobre o espaço está para o progresso e o futuro assim como a conquista dos mares esteve, muito tempo atrás, para os navegadores vikings e fenícios.

Em um desses conflitos regionais, muitos chegaram a acreditar na vitória vermelha e na iminente hegemonia comunista sobre todo o planeta. Foi logo no final da Guerra do Vietnã. O conflito se originou em 1959, durou quase duas décadas, e só foi terminar em 1975. Os vietcongs, apoiados pelos soviéticos, ignoraram o colossal poderio bélico-tecnológico dos norte-americanos, impondo uma derrota avassaladora e vergonhosa aos EUA. Foi quando não poucos imaginaram que o momento sinalizava o início da débâcle definitiva do capitalismo e a conseqüente e inequívoca hegemonia da URSS sobre o planeta.

Mal sabiam que, poucas décadas depois, em 1991, era o próprio império soviético que desmoronaria, caindo em ruínas.

Nos embates militares de forma geral, um setor sempre elevado à categoria estratégica é o das comunicações. Na guerra fria não foi diferente.

O grande temor no período era de que, repentinamente, independentemente da guerra ser formalmente declarada, as cidades passassem a ser bombardeadas. Em decorrência do temor generalizado, o governo norte-americano investiu recursos para criar um sistema informatizado que garantisse a fluidez das comunicações militares, ainda que o caos provocado por um eventual ataque soviético se materializasse.

A pressão atuava sempre no limite do suportável. A União Soviética já havia logrado um expressivo tento ao lançar no espaço, em 1957, o Sputnik 1. Na prática, o que significava esta conquista comunista? Que os russos poderiam, através do espaço sideral, lançar bombas em qualquer ponto do mundo.

Pressionado, o presidente Dwight Eisenhower criou, em 1962, a ARPA, a Advanced Research Projects Agency, agência governamental que se incumbiria de retomar a supremacia digital na corrida armamentista, protegendo a América do Norte do que parecia à época, iminente ataque nuclear soviético.

Como, diante de um ataque nuclear, reorganizar o país para a necessária contra-ofensiva, sem dispor de um eficiente e confiável sistema de comunicação que sobrevivesse ao poder destrutivo da hecatombe?

Então, sob a coordenação do Pentágono, desenvolveram um revolucionário sistema de comunicação entre computadores, o ARPAnet - Advanced Research Projects Agency Network – com o objetivo principal de conectar as diversas bases militares e os inúmeros departamentos de pesquisa do governo americano.

A concepção lógica que norteou o desenvolvimento do projeto partiu da premissa de proteger a central de informações, a estratégia adotada foi diluí-la em vários lugares, diferentemente do que existia até então, quando todo o comando central se aglutinava em um único ponto, um único lugar, uma única instalação militar, alvo fácil de um possível ataque do inimigo.

Mas para viabilizar que a central de informação fosse diluída de modo a descentralizá-la fixando-a em diferentes lugares era necessário fazer com que os diferentes pólos fossem interligados, conversando entre si. E bommm!!! Em 1969 ocorre a primeira troca de arquivos. A palavra “Log” é transmitida pela Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, para a Universidade de Stanford, que recebe a mensagem e a responde com “in”, formando “login”. Esta primeira experiência não foi de toda exitosa, pois funcionou até a segunda letra. Todavia o teste-embrião da tecnologia de transmissão de dados digitais em “pacote”, inaugurando o sistema que mudaria a face do mundo, a forma como as pessoas, as instituições e os governos passariam a comunicar.

Como era vital para a segurança dos EEUU que o sistema se consolidasse, entrando imediatamente em operação, a ARPA se viu diante da necessidade de estruturar e financiar laboratórios em muitas universidades americanas. E, naturalmente, em determinado momento, estes laboratórios universitários tiveram que se conectar à ARPAnet. De modo que a revolucionária tecnologia manteve-se disponível exclusivamente para os setores militar e acadêmico. Mas a pressão para liberalização foi tamanha que, em 1987 a rede já estava totalmente liberada, assumindo o nome de Internet.

Hoje, não há setor que permaneça indiferente à rede mundial de computadores, pois isto significaria a liquidação, a falência mais completa.

Na educação, a Internet consolida um setor em plena expansão, a Educação a distância, com todas as vantagens que isto significa: efetiva possibilidade de universalização do ensino de qualidade com a inclusão dos brasileiros que desejam cursar o terceiro grau, e com expressiva redução dos custos. A Internet e a Educação constituem uma gigantesca janela de oportunidades para um Brasil diferente, um país justo e desenvolvido.

E poucos se dão conta que esta descomunal janela de oportunidades tem tudo a ver com a guerra fria que fritou nervos e mentes durante as décadas que sucederam a 2ª guerra mundial.

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mane Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Até quando a gestão-caterva açoitará a educação?

Por incrível que pareça, mais da metade dos municípios brasileiros atuam ao largo das boas técnicas gerenciais e da eficácia administrativa, desperdiçando tempo, energia e, sobretudo, os recursos da sociedade. Pior, possibilitando ainda que o modus operandi em vigor seja sacralizado, generalizando as nefastas praticas do clientelismo, do fisiologismo, da gestão-caterva, aquela em que o profissionalismo é quase nada e a bisonhice e a malandragem quase tudo. Conseqüências mais imediatas? Desvios de toda ordem e as portas escancaradas para a corrupção. Por que digo isto? Dos 5.564 municípios brasileiros, tão somente 41% contam com um plano de educação. Pode? Não, não pode, evidentemente. Mas é o mais fiel retrato da cruel realidade brasileira, conforme relatório preliminar do Sicme, o Sistema de Informações dos Conselhos Municipais de Educação.

E se o quadro envergonha e indigna, as coisas já estiveram bem piores. Em 2006, apenas 33% das municipalidades contavam como seu planejamento educacional.

O século XXI já não abriga quem lance dúvidas sobre a importância e necessidade do planejamento na vida das pessoas e das instituições. Sobretudo no aparelho de estado sua adoção é imperativa. Hoje, são inconcebíveis tergiversações sobre esta questão. Guiar-se por planos, programas e projetos que disponham, claramente, os objetivos, estratégias e metas a serem alcançados é obrigação legal e constitucional para tantos quantos atuem na administração do aparelho de Estado, mormente os gestores públicos.

E o que faz o Plano Municipal de Educação? Exatamente organizar a atuação do governo local no setor, racionalizando e potencializando a aplicação dos recursos humanos, materiais e financeiros. Como define objetivos, diretrizes e rumos da educação municipal, deve ser discutido e votado na Câmara de Vereadores, que o transformará em lei.

Já convertido em lei, a comunidade pode acompanhar a implementação da norma, a execução do Plano, exercendo a fiscalização e o controle social sobre as ações do prefeito, do secretário municipal de educação, do diretor da escola e dos demais gestores que integram o sistema. Não existindo Plano e lei, tudo fica a mercê da boa vontade dos prefeitos, da improvisação, do tráfico de influência, prevalece a gestão-caterva.

Uma grande conquista da Constituição de 1988 foi assegurar ampla autonomia política e administrativa para os municípios, autonomia jamais havida anteriormente, não na amplitude atualmente experimentada. Os municípios conseguiram resgatar sua importância política e institucional, e ocupam lugar privilegiado dentre os sujeitos de nosso ordenamento democrático; mas vê-se, principalmente na área da educação, que nossos prefeitos e edis não estão à altura da importância atribuída a eles pela Carta Magna.

O Plano Nacional de Educação estabelece que cada um dos 5.564 municípios brasileiros deve ter o seu Plano Municipal de Educação. Mas 3.282 cidades optaram por ignorar a orientação do MEC, fazendo pouco caso da determinação constitucional. O interessante é que o Ministério suspende o repasse de verba para a merenda escolar - castigando diretamente nossas crianças – quando os prefeitos cometem alguma irregularidade como, por exemplo, atrasar a prestação de contas. Mas este mesmo Ministério não aplica punição alguma quando o Prefeito deixa de encaminhar à Câmara o projeto de lei criando o Plano Municipal de Educação.

Um outro grave aspecto que esta discussão faz emergir é o certo distanciamento que a sociedade vem mantendo sobre o tema. Uma eloqüente demonstração que a população de 59% dos municípios brasileiros desconhece alguns de seus mais destacados direitos. No processo de elaboração do Plano Municipal de Educação, uma etapa preliminar estabelece a obrigatoriedade da criação do Conselho Municipal de Educação, instância de deliberação colegiada integrada por membros do governo e da comunidade. É o Conselho quem hierarquiza os problemas e elege as prioridades educacionais, por isso é, sob qualquer aspecto, o mais poderoso instrumento de controle social disponível.

Os brasileiros já têm, ao alcance da mão, diversos instrumentos de participação e controle social. O Conselho e o Plano municipais de educação são apenas alguns deles. Protestos e reclamações desvinculados da ação política viram fofoca e histerismo coletivo. A sociedade deve saber mais para exigir mais, mas num contesto de emprestar eficácia à sua manifestação. Os direitos já estão no papel. E não são poucos. Basta agora trazê-los para a realidade do dia a dia. Atividade só é possível com participação e organização. Não sendo assim, será a redenção da adminstração-caterva.

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Sobre o Enade... Juizo!

Sucessor do antigo Provão, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – Enade - integra o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, o Sinaes. Seu objetivo é verificar o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências.

A realização do Enade se dá por amostragem. O Ministério da Educação, através do Inep, define uma amostra de estudantes e a partir da listagem, a participação é obrigatória, sendo possível, em casos devidamente formalizados, a dispensa pelo MEC.

Diversas faculdades, universidades e organizações estudantis fizeram (e ainda promovem) boicotes à institucionalização dos processos de avaliação promovidos pelo MEC, corroborando aquela avaliação caolha e atrasada de que avaliação que presta é a que promovemos sobre os outros, jamais sobre nós mesmos. O pior é que o boicote tem prejudicado, sobretudo, os formandos, considerando que os instrumentos de avaliação são estabelecidos por ordenamento legal e – atentem caros alunos - obrigatórios.

No caso do Enade, por exemplo, sua regulamentação ocorreu em 2.004, com a promulgação da lei federal 10.861. E a norma legal não deixa uma fresta sequer de dúvidas quanto à obrigatoriedade de participação e as conseqüências para o estudante que deixar de cumpri-la.

O estudante de direito Clayton Eduardo Gomes impetrou mandato de segurança no Superior Tribunal de Justiça solicitando ser diplomado. Em que pese não ter feito o exame do Enade.

O ministro Raphael de Barros Monteiro Filho, presidente do STJ, indeferiu a liminar solicitada pelo estudante que cursa o último ano da Faculdade de Maringá, no Estado do Paraná. E a argumentação do ministro se embasa exatamente no preceito da lei 10.861 que dispõe, de forma cristalina: o aluno que não prestar o exame não terá o diploma de conclusão do nível superior.

Não faltaram justificativas para o estudante que alegou problemas com o carro numa viagem de trabalho, situação que o teria impedido de chegar a tempo para fazer a prova.

Ainda que tenha justificado a falta, Clayton foi informado de que o diploma não poderia ser registrado enquanto não fizesse o próximo exame do Enade, que será aplicado em 2009.

Como não obteve êxito com as justificativas apresentadas, o estudante mudou o eixo da argumentação, passando a defender a necessidade do diploma para que pudesse se habilitar a algum emprego e, mesmo, se inscrever em concursos públicos.

A educação necessita de um ajustado sistema de avaliação para que os gargalos e problemas estruturais sejam devidamente identificados, com rigorosa precisão científica. É condição sine qua non para que as soluções mais adequadas e eficazes sejam exaustivamente buscadas e encontradas. Esta deveria ser uma argumentação suficientemente convincente para demover os que insistem em boicotar os esforços do Ministério da Educação. Como não tem sido, então resta a obrigatoriedade cívica da aplicação da lei. Porque numa democracia, as leis existem para serem cumpridas.

Para quem tem juízo, que o episódio do formando da Faculdade de Maringá sirva de alerta.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mane Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Água – amor à vida, às pessoas e ao planeta.

"A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como seriam a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura".

Em junho de 1992, o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como ECO RIO 92. A Conferência considerada por muitos o evento ambiental mais importante do século passado, obteve a proeza de reunir representantes de 175 países e de Organizações Não-Governamentais.

Foi nesta Conferência que a Organização das Nações Unidas publicou o documento “Declaração Universal dos Direitos da Água”, cujo trecho figura em epígrafe, introduzindo este artigo.

Ainda que tardia, a Declaração procura resgatar a importância da água para a sustentabilidade do planeta. É que sem água, não existiria vida nesta parte do universo. Simplesmente assim.

Os cientistas da NASA - National Aeronautics and Space Administration – a agência espacial norte-americana, ao investigar a existência de vida em outros planetas, procura preliminarmente verificar a presença ou não de água, porque foi assim que a vida se originou por aqui.

A antiguidade oriental englobou muitos povos. Dentre eles, se destacam o egípcio, sumério, acádio, assírio, persa, fenício e hebreu.

Essas civilizações estabeleceram uma dependência tão grande dos rios que passaram para a história com a denominação de “civilizações hidráulicas”.

O modelo de Estado adotado baseava-se, fundamentalmente, na posse das águas e das terras agricultáveis.

Mas antes mesmo da existência de Estados e povos organizados, a água já era um recurso natural a acompanhar a evolução humana. Desde os primórdios da existência, a espécie manteve-se a curta distância das fontes de abastecimento de água, condição sine qua non inclusive para assegurar a sobrevivência.

O planeta seria um deserto inóspito inexistisse a água. Todos os animais que vivem hoje em terra firme, e os que traçam nos céus vôos majestosos e elegantes, evoluíram a partir de antecedentes que viveram nos mares e oceanos. E quando estas espécies abandonaram a água migrando para terra firme, tiveram que continuar servindo-se dela. Porque a evolução do ser humano e dos seres vivos, de forma geral, sempre esteve relacionado à disponibilidade de água.

A superfície terrestre tem nada menos que três quartos cobertos de água. Este fato fez com que vingasse entre nós a falsa idéia de que os recursos hídricos são ilimitados, inesgotáveis. O que é grave, considerando que menos de 3 % da água do mundo é doce. E mais grave ainda, mais de 99% encontra-se congelada nas regiões polares ou em rios e lagos subterrâneos, limitando, portanto, sua imediata utilização.

A vinculação da humanidade com a água é tão umbilical que lendas antigas apregoavam a supressão da morte dada a existência da fonte da juventude, um manancial que asseguraria a eternidade para os que conseguissem beber a mínima porção de suas águas.

A fonte da juventude teria o poder de efetuar milagres, curar males e enfermidades, dobrar a velhice, mantendo os felizardos que a encontrassem em estado de eterna juventude.

A história registra diversas referências sobre esta busca pela água milagrosa. A mais antiga é uma obra dos sumérios, “Gilgamesh”, que se prevê ter sido escrita há mais de 3.000 anos a.C.

A água é como o ar que se respira, indispensável para a vida humana. Tão indispensável que chega a compor 70% do nosso peso corporal. Uma pessoa faminta, sem alimento, pode resistir por várias semanas, já sem água, falece em poucos dias.

No Brasil estão concentradas cerca de 12% de toda a água doce existente no mundo. E cresce o número de países que padecem com a escassez de água. Alguns já importam o precioso líquido. O Japão, por exemplo, faz vir parte dele da Coréia do Sul.

Se por um lado a abundância de água doce é um alento importante para Pindorama, por outro, o desequilíbrio constitui um de nossos principais gargalos. A Amazônia que concentra tão somente 7% da população brasileira conta com 70% de toda a água doce existente no país. No nordeste encontra-se uma outra ponta do problema. Apesar da região contar com cerca de 30% da população brasileira, apenas 3% da nossa água doce lá se encontra.

Rodoux Faugh costuma zombar afirmando que a espécie humana prolifera no planeta qual ratazana. E justifica a gozação lembrando que, em 1650, havia em torno de 500 mil habitantes do planeta e que em 2.010 serão oito bilhões de pessoas. É gente demais para recursos naturais de menos.

O Brasil ainda conta com a sorte de abrigar em seu subsolo um dos maiores reservatórios subterrâneos do mundo, o aqüífero Guarani. Estima-se que este colossal reservatório natural se estenda por uma área de 1,2 milhões de km², área equivalente ao somatório dos territórios da França, Inglaterra e Espanha.

O grande problema - que em parte já se verifica em vastas regiões do mundo - é que o recurso que possibilita a vida no planeta, já dá sinais de esgotamento. Muito disso deve-se à pressão da demanda, aumento da população, da produção agrícola, industrial,... Mas não restam dúvidas que o desperdício é um dos componentes responsáveis pelo sinal vermelho, pelo sinal de alerta, de perigo, que já se anuncia de forma eloqüente. Um dado revela o quão grave é a questão do desperdício de água nos núcleos urbanos, sobretudo dos países em desenvolvimento: 60% da água distribuída pela rede de abastecimento se perdem no caminho. No Brasil, 45% da água tratada para abastecimento das 27 capitais brasileiras é desperdiçada antes mesmo de chegar ao consumidor.

Pelo trotar dos cavalos, os cientistas estimam para o ano de 2025, 30% de toda a população mundial sujeita às privações e suplícios da completa falta de água.

Se a água é vida, quando não tratada pode significar morte. As principais doenças que assolam as camadas mais pobres da população brasileira se propagam por meio hídrico como a gastrenterite, a cólera, a leishmaniose, a malária, a esquistossomose, as moléstias diarréicas e muitas outras. Em determinadas circunstâncias até mesmo a hepatite e a salmonelose.

No mundo, anualmente, morrem 10 milhões de pessoas, metade delas jovens e crianças, com menos de 18 anos, devido às doenças propagadas através de água sem tratamento adequado.

Cuidar, portanto, da água é questão de responsabilidade, de respeito, de amor à vida e ao próximo, de compromissos sustentáveis com o planeta. Algo que, definitivamente, não se pode deixar para o amanhã.

Declaração Universal dos Direitos da Água

1.- A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão, é plenamente responsável aos olhos de todos.

2.- A água é a seiva de nosso planeta. Ela é condição essencial de vida de todo vegetal, animal ou ser humano. Sem ela não poderíamos conceber como seriam a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura.

3.- Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.

4.- O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.

5.- A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como a obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.

6.- A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.

7.- A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.

8.- A utilização da água implica em respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

9.- A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

10.- O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.


Antônio Carlos dos Santos é engenheiro, professor e escritor, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mane Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Como uma onda - EAD

O órgão do Ministério da Educação – o INEP - que cuida de avaliar a educação no país divulgou recentemente um dado surpreendente. O número de cursos de educação a distância (EAD) cresceu nada menos que 571%.

O número de matrículas não ficou para trás, cresceu 315%. Considerando o ano de 2005, os alunos que faziam cursos a distância representavam 2,6% dos estudantes brasileiros. Um ano depois, em 2006 esse contingente já atingia o patamar de 4,4%.

Nas demais modalidades de ensino, surpreende também o crescimento do número de matrículas nos cursos tecnológicos, que registrou um aumento expressivo de 34,3%.

Os dados foram extraídos do Censo elaborado pelo Inep. O levantamento permite analisar, de forma consistente, a performance da educação nacional. Todos os anos o Censo atualiza as informações da educação superior contemplando número de instituições, cursos, matrículas, vagas, inscritos, ingressos, concluintes, além de docentes e pessoal técnico administrativo. A pesquisa oferece ainda dados discriminados por turno, diurno e noturno, e conforme a localização das instituições, se fixadas no interior ou nas capitais dos Estados.

O crescimento do ensino a distância confirma o prognóstico que muitos já faziam, de que esta modalidade de ensino - dada a flexibilidade e adoção de tecnologias mais consentâneas com as demandas dos dias que correm – deve, a médio prazo, assumir, o topo na oferta de vagas no ensino superior.

Percebendo a tendência, o próprio Ministério da Educação passou a flexibilizar as exigências para abertura de cursos de especialização a distância no país, modalidade pós-graduação lato sensu.

Até então, a legislação em vigor exigia que as instituições estruturassem um pólo presencial, uma edificação com tutor (professor), biblioteca e estrutura de apoio ao estudante na região em que a pós-graduação era oferecida. O Ministério entendeu que esta exigência configurava num dos maiores entraves à expansão da EAD, desacelerando a expansão das matrículas, daí a deliberação de suprimi-la, de modo que, doravante, a obrigatoriedade da estrutura de apoio se restringe aos cursos de graduação, liberando assim as especializações.

Mesmo os educadores que faziam restrições ao novo modelo, avaliando-o com reservas, já se dobram às suas vantagens. E passaram a defender algo intermediário, como um modelo misto resultante da interação dos dois sistemas, o convencional e o sistema de educação a distância.

Em outubro do ano passado publiquei um texto dobre EAD aqui mesmo, neste blog. Pela natureza, reproduzo-o abaixo:


A Educação a Distância veio para ficar

Ainda observado com desdém e desconfiança pela conservadora corporação acadêmica, o curso à distância vem se impondo, paulatinamente é bem verdade, mas de maneira irreversível.

Uma das mais destacadas e instigantes vantagens dessa nova tecnologia é o fato de ignorar fronteiras, fazer pouco caso da distância física, de modo que as pessoas –comungando do mesmo tempo – juntam-se, avizinham-se, tornam-se colegas de classe, ainda que estejam em continentes diferentes. Não é curioso e provocador criar uma sala de aula virtual onde colegas de sala interagem com um estando em Pirenópolis e o outro em Singapura?

Esta vantagem exclusiva, específica e inédita é que possibilitou fosse criado o primeiro curso à distância para o Japão. E não é nenhum curso Walita, desses penduricalhos de curtíssima duração que mal justificam um certificado. Não, nada disso. É um curso de graduação, isso mesmo! de graduação em Pedagogia, com 300 vagas, destinado a formar professores que, na Ásia, já estão na lida, no batente, ensinando para brasileiros.

A iniciativa resulta de uma parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o Ministério da Educação, que já reservou R$ 2,5 milhões para aplicar no projeto nos próximos cinco anos. O Banco do Brasil apóia a iniciativa e está propondo destinar outros R$ 2,5 milhões para turbinar o processo.

A vida de um migrante não é nada fácil. Não bastasse o preconceito, onipresente e radicalizado, quase sempre trabalham à exaustão, muito mais que os naturais do país para - ao final da jornada de trabalho – receberem muito menos. No geral tem quase nenhuma assistência médica, jurídica, social, além de amargar dia sim e o outro também, a saudade dolorida dos parentes, dos amigos, da pátria-mãe, saudade só levemente amenizada numa fotografia guardada com esmero no cantinho mais nobre e reservado da carteira.

E não é só. Outra questão por demais grave é a dos filhos dos dekasseguis que assistem aulas com professores improvisados, salvo um aqui e outro acolá, invariavelmente sem a habilitação e a formação adequadas.

O propósito é alterar este quadro, superar rapidamente esta etapa para enfrentar uma outra, tão carente quanto a da graduação, a especialização. Então se tratará de habilitar professores em disciplinas específicas como Biologia, História e Física, mas agora oferecidas não somente aos educadores brasileiros, como também aos professores japoneses que têm, dentre seus alunos, filhos de brasileiros.

Para dar suporte ao projeto será produzido material didático específico e, ao final de cada módulo – algo em torno de 40 dias - um professor brasileiro viajará ao Japão para cumprir a fase presencial do curso, ministrando aulas em caráter intensivo.

Estima-se que existam 320 mil dekasseguis no país do sol nascente. Todo esse contingente, no ano que vem, deverá estar mobilizado para comemorar os 100 anos da imigração japonesa no Brasil.

Se um projeto dessa dimensão não consegue demover a acidez e ojeriza cética dos críticos da Educação a Distância, o que mais na face da terra poderia sensibilizá-los?

A Educação a Distância está demonstrando no dia a dia que veio para ficar. Indiferente e independentemente dos críticos de plantão. Quem não se lembra quando, respondendo ao amargor dos mal humorados, nossos avós proclamavam: “enquanto a carruagem passa, os cães ladram”?

Ou... como canta Lulu Santos “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Melhor ver e ouvir, não é? Então, aí está:



Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Uma platéia salafra?

O teatro na forma como o conhecemos no ocidente, originou-se das grandes marchas carnavalescas em homenagem ao deus grego Dionísio.

Nessas ocasiões o povo acorria em massa e participava intensamente, rompendo com os padrões vigentes: num passe de mágica, eis que o despossuido estava investido do poder e da riqueza; o feio e rejeitado transformava-se em belo e querido; o fraco em rei e a devassa em vestal.

As ruas e os largos espaços públicos foram os templos primeiros dessa milenar arte popular.

Com o correr do tempo, novas necessidades delimitaram outros compromissos e o arranjo sucessivamente repactuado desafogava novas demandas.

A ruptura com as antigas origens ia conformando espaços mais restritos, até que o palco à italiana aprisionou o teatro entre quatro paredes.

A pujança e o vigor do Renascimento medieval deram origem à Commedia dell’art que, novamente reintroduziu no panorama teatral o caráter libertário do teatro: a improvisação, as ruas e praças públicas como espaços prioritários, a alegria intensa, a magia, a fantasia,...

Em raros momentos da história, atores e platéia conseguiram estabelecer uma relação bem resolvida.

Um ou outro, quando não os dois, quase sempre se mostram insatisfeitos, com as expectativas sempre por atender. E não me refiro simplesmente à satisfação emocional, a tornada visível com a vaia e o aplauso. E sim aquela mais profunda, que tem a ver com a essência da relação que se espera de um e outro: postura diante das grandes questões existenciais e políticas, visão de vida, compromissos sociais.

Este descompasso levou ao que, no teatro contemporâneo, os artistas e encenadores passaram a denominar descompromisso, alienação ou apatia da platéia.

E para qualificar a participação e fazer com que a platéia rompa com a passividade, os atores passaram a recorrer a modelos e artifícios inovadores, alternativos, que escapassem das práticas convencionais.

Antonin Artaud quando criou o Teatro Jarry, fez questão de estrear com um espetáculo de Max Robur, Gigogne. Na apresentação, o protagonista dirigia-se à platéia nos seguintes termos:

“Meus senhores, minhas senhoras, vocês não passam de uns salafrários!”

E Artaud se decepcionou com a reação do público, pois a Companhia se preparou para uma resposta instantânea, peremptória, em certo grau, violenta.

Nos dias que correm, é comum provocar o espectador para que ele abandone o estado de apatia, obliteração e indiferença ante os fatos que o espetáculo desvela.

Na realidade, os que lidam com o teatro jamais se conformaram com uma platéia cujo papel se limite a tão efêmera participação, à mera assistência bem comportada.

No Dadaísmo, movimento cultural que se originou em Zurique nos idos da 1ª guerra mundial, Tristan Tzara e Hugo Ball, dentre outros, preocuparam-se em sistematizar a idéia de uma “comunhão coletiva que abale a diferença entre poesia e teatro”, uma linguagem que agite e faça vibrar em lugar de apenas significar.

Enfurecido com as concepções reducionistas quando o texto dramático comprime ao invés de expandir o teatro, encarcerando-o inexoravelmente na literatura, Edward Gordon Graig protestava:

“... a arte do teatro nasceu do gesto, do movimento, da dança(...) o dançarino foi o pai do dramaturgo”. E rispidamente criticava os que escreviam para o teatro sem entender sua real dimensão: “nossos autores dramáticos são escritores de palavras”. No que conseguiu a cumplicidade de Artaud que condenava o teatro ocidental exatamente por viver aprisionado à ditadura despótica da palavra.

Estava evidente a diferença entre os escritores que simplesmente escreviam para teatro e os verdadeiros dramaturgos. E Áppia trata de esclarecer o descompasso:

“(...) quem diz dramaturgo diz também encenador. Seria um sacrilégio especializar as duas funções. Podemos então estabelecer que se o autor não acumula ambas, não será capaz nem de uma, nem de outra coisa, pois é na penetração recíproca que deve nascer a arte viva.”

O processo de Dada exigia uma reação diferente da platéia, uma reação viva, vigorosa, imprescindível ao processo, sem a qual a manifestação cultural não atingiria seu objetivo.

Hoje já não se apresenta estranha a idéia de que é necessário mexer com o espectador, incomodá-lo, faze-lo vibrar, pressentir, reagir aos fatos que se desenrolam diante dele, abjurando a indiferença.

No Dadaísmo a procura era pela comunhão coletiva, uma sinergia que reduzisse a pó a diferença entre texto e teatro, palco e platéia.

A busca por uma maior interação entre platéia e palco levou a uma profusão de caminhos, propostas, concepções, escolas, movimentos...

Artaud, por exemplo, perseguiu um espetáculo multifacetário, circular, capaz de pulverizar os dois mundos fechados onde se escondem palco e platéia, “um espetáculo que espalhe suas irradiações visuais e sonoras sobre a massa de espectadores”.

Mas foi Adolphe Appia um dos primeiros a insurgir, exigindo a supressão dos espaços entre artistas e platéia.

Appia chegou a desejar o desaparecimento do público, conclamando os espectadores a tornarem-se atores, apregoando uma arte dramática com ou sem espectadores.

Num diálogo de Mama de Tirésias, estreado em 1917, Guillaume Apollinaire define esta concepção cênica e este teatro que se buscava:

“Aqui tentamos infundir um espírito novo ao teatro
Uma alegria, uma volúpia, uma virtude
Para substituir esse pessimismo velho de mais de um século
O que é bem antigo para uma coisa tão aborrecida
A peça foi feita para um teatro antigo
Pois não nos teriam construído um teatro novo
Um teatro redondo com dois palcos
Um no centro, o outro formando como que um anel
Em redor dos espectadores e que permitirá
A grande apresentação de nossa arte moderna
Casando frequentemente, sem ligação aparente, como na vida
Os sons, os gestos, as cores, os gritos, os ruídos
A música, a dança, a acrobacia, a poesia, a pintura,
Os coros, as ações e os cenários múltiplos
Vocês encontrarão aqui ações
Que se juntam ao drama principal e o ornamentam
As mudanças de tom, do patético ao burlesco
E o uso racional das inverossimilhanças
E de atores, coletivos ou não
Que não são forçosamente extraídos da humanidade
Mas de todo o universo
Pois o teatro não deve ser uma arte enganosa”.


Nesta desesperada busca pelo teatro pretendido, livre de peais e entraves, os caminhos trilhados não foram poucos, muitos levando a contextos contrários aos desejados.

Vsevolod Meyerhold (1874-1940)

Enquanto Artaud se envereda pelo teatro metafísico e mágico, Piscator, Reinhardt, Stanislavski, Meyerhold e Brecht desenvolvem o teatro político.

Stanislavski registrou em suas recordações como Graig montou Hamlet em Moscou:

“ Graig não queria entreatos e cortinas. Os telões devem ser uma continuidade arquitetônica da platéia (...). A platéia e o palco não se distinguem um do outro e encontramo-nos transportados para um outro mundo”.

Uma nova relação entre platéia e artistas é uma busca que remete às origens do teatro. Nada tem de novo. E jamais chegará a termo. Sempre estará por fazer, por construir. E é importante que seja assim. O desencontro entre o artista e sua platéia (e vice versa), o milenar descompasso entre um e outro é, na realidade, mais um dos mistérios a garantir a perpetuação desta milenar manifestação artística. Porque onde o conflito não radicaliza, o teatro perde e se liquefaz.

Antônio Carlos dos Santos é dramaturgo, criador da metodologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

‘As madrassas e a lata de lixo’ ou ‘A história das 72 virgens’

A promiscuidade entre o poder político e o religioso invariavelmente prostitui ambos, perde a política, perde a religião.

Houve um período na Idade Média em que a única organização existente era a Igreja Católica.

Em resposta às sucessivas crises vivenciadas pelo vasto Império Romano, a Igreja pregava a igualdade entre as pessoas, o amor, a caridade e a fraternidade.

Nos mosteiros católicos medievais é que eram copiados e conservados os importantes escritos legados pelas antigas civilizações. Os mosteiros funcionavam também como hospitais, e asilos para os velhos, enfermos e desabrigados.

Mas a possibilidade da investidura leiga e o poderio dos reis sobrepujando e se imiscuindo nos assuntos religiosos levaram às mais graves distorções.

Talvez a mais aviltante tenha sido a “simonia”.

O termo é uma alusão ao personagem bíblico Simão, o Mago, que intentou comprar aos apóstolos o dom do milagre.

Com a “simonia” a Igreja passou a comercializar e traficar os bens espirituais. Vendia lugar cativo no céu, além das indulgências, a remissão total das penas relativas aos pecados praticados na vida mundana.

Com o tempo, o clero conseguiu resgatar os princípios e valores originários do Cristianismo, reconheceu os erros praticados ao longo da história e, publicamente, pediu desculpas pelos desvios havidos.

Mas até hoje, não obstante o arrependimento e as desculpas públicas, a Igreja Católica paga o preço da péssima opção efetuada na longínqua Idade Média, quando permitiu a reis e príncipes intervir diretamente na nomeação de bispos e na condução de sua missão religiosa.

Teria a humanidade aprendido a lição? Parece que não. È o que indicam as práticas e orientações de vários e poderosos agrupamentos muçulmanos, como o Hamas a título de exemplo.

Tal qual a Igreja Católica da Idade Média, em muitos lugares da Palestina, o Hamas é a única organização existente.

Mantém uma vasta rede que organiza a filantropia, o funcionamento de hospitais e casas de saúde, a operação de orfanatos e asilos, abrigando crianças órfãs, abandonadas, velhos e despossuídos.

Mas a vasta organização dá suporte, sobretudo, às escolas mantidas para propagar os princípios religiosos do Alcorão e formar soldados para sustentar a sangrenta guerra contra os israelenses e incidir contra a ‘decadente’ cultura ocidental.

Apesar de muitos defenderem o contrário, a violência encontra-se na gênese do fundamentalismo islâmico. É preciso não esquecer que, quando estabeleceu as premissas para a nova religião, Maomé inscreveu dentre os principais preceitos a promoção da guerra santa contra os infiéis.

Foi por conta deste preceito que, entre os séculos VII e IX, ocorreu uma das mais expressivas expansões imperialistas de toda a história: o Império Islâmico que, em área territorial, superou até mesmo o romano. Os árabes em menos de um século formaram um império que se estendia da Índia até a Espanha.

Esta expansão já se deu com a promessa efetuada pelos califas, os sucessores de Maomé, de um lugar cativo no céu para quem morresse em combate pela conversão dos infiéis.

Só no século XIV foi cair o Império Islâmico devido, principalmente, aos mongóis e turcos.

Os árabes transmitiram mundo afora o legado grego, mas desenvolveram também a álgebra e a trigonometria, difundiram os algarismos indo-arábicos; investiram na astronomia e apresentaram à Europa a bússola e o astrolábio – instrumento desenvolvido para observar a posição dos astros, determinando altura e definindo latitude e longitude.

Graças aos árabes conhecemos a cana-de-açúcar e a laranja. Disseminaram modernas técnicas de cultivo e tecnologia para a produção de ferro e aço. Na medicina avançaram nos estudos sobre a circulação do sangue e no tratamento de doenças contagiosas e nervosas.

Todavia, os avanços que os árabes conquistaram no campo da ciência e da cultura ficaram no passado. Hoje, vigora o radicalismo do fundamentalismo islâmico que cultua o ódio e utiliza, dentre suas principais estratégias, o terrorismo.

Por isso mantêm, espalhadas pelo mundo, inúmeras madrassas, escolas especialmente destinadas a ensinar o fundamentalismo islâmico, onde são formados os homens-bomba e os terroristas que entregam suas vidas por conta da promessa contida no Alcorão de que os mártires terão um paraíso especial, no qual cada combatente tombado recebe 72 noivas virgens. E que suas famílias não serão esquecidas, recebendo também lugares privilegiados ao lado de Maomé, no paraíso celeste.

O ódio, o preconceito e a intolerância, todos sabemos, é o passaporte para o autoritarismo, a violência mais brutal e a barbárie absoluta.

Mas a palavra escrita sempre será objeto de controvérsias. E não poucos vêem no Alcorão um livro que cultua a harmonia e a paz entre os povos. Pessoas de bem como Cassius Clay e Cat Stevens, que se converteram ao Islamismo, adotando novos nomes, Muhammad Ali e Yusuf Islam.

Que nesta luta intestina pela condução da obra de Maomé, vençam Muhammad Ali e Yusuf Islam, lançando Bin Laden e o Hamas no único lugar que a história lhes reserva, a lata de lixo.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Durkheim, Bert Brecht e o efeito de distanciamento no teatro

Aristóteles - filósofo do século IV a.C. preconizou um teatro em que o objeto da imitação era a unidade de ação, tempo e lugar. Partindo desta leitura, a peça teatral não poderia enfocar mais de um assunto, a ação não poderia ultrapassar o tempo de vinte e quatro horas, e o lugar poderia, no máximo, chegar ao tamanho de uma cidade.

Mas o que destaca no teatro aristotélico é a catarse, a empatia, a busca de uma relação que procura captar o subconsciente do espectador.

Esta escola teatral fazia com que a platéia vestisse a indumentária das personagens, envolvendo-se na trama dramática de forma inteiramente emotiva e sentimental.

Este contexto, arisco a qualquer possibilidade de reflexão crítica, incomodava os encenadores modernos que procuravam um teatro instigante, provocante, questionador e que possibilitasse uma ação lógica por parte do espectador.

Era necessário encontrar um mecanismo que libertasse a manifestação teatral da prisão catarquica criada por Aristóteles na antiguidade grega.

Independentemente dos caminhos trilhados, todos os encenadores modernos foram encontrar este mecanismo no teatro tradicional milenarmente exercitado no continente asiático.

Antonin Artaud, por exemplo, adepto do teatro metafísico que estimula uma cerimônia mágica e mística era um entusiasta da dança no Teatro de Bali, da precisão quase científica de seus gestos, passos e movimentos. Todas as formas de expressão teatral originadas no Oriente e no Extremo oriente foram cultuadas pelo enigmático encenador francês.

De igual modo, os encenadores que se enveredaram pela escola dialética também se socorreram na cultura oriental para escapar dos nós atados pelo teatro aristotélico.

Reinhardt, Meyerhold, Erwin Piscator e Bert Brecht chegaram a teorizar sobre o ‘efeito do distanciamento’, mecanismo para distanciar o público dos acontecimentos representados no palco.

A questão de fundo é que o mundo mudava celeremente, mas os fundamentos do teatro continuavam ancorados, fundamentalmente, nos modelos criados há séculos antes de Cristo.

A Renascença já abrira caminho para uma nova sociedade. Originou, por exemplo, o movimento filosófico ‘Ilustração’ que formulou novas idéias da vida social, percebendo a coletividade como um organismo. Depois o ‘Positivismo’ que emergiu pára coroar a grande expansão da Europa do século XIX. Neste instante as ciências sociais começam a se consolidar.

Émile Durkheim – apoiando-se na primeira corrente teórica sistematizada do pensamento sociológico, erigida sob a direção de Auguste Comte – estabeleceu com precisão o objeto, o método e as aplicações da nova ciência, a sociologia.

Tanto para os positivistas como para Durkheim, o pesquisador deve assegurar a objetividade de sua análise. E para conseguir alcançá-la deve manter distância, embeber-se de neutralidade em relação aos fatos.

Durkheim denominava ‘prenoções’ os valores e sentimentos pessoais que – necessariamente – o pesquisador deveria ignorar, para que os fatos e acontecimentos estudados fossem analisados à luz do conhecimento científico, sem que a realidade objetiva fosse distorcida, sem que traços de subjetividade afetassem o trabalho.

Esta é uma das fontes onde foram beber os grandes encenadores modernos para sistematizarem, no teatro, o ‘efeito do distanciamento’.

Bertolt Brecht foi buscar no teatro chinês as técnicas utilizadas pelos artistas asiáticos.

O criador do Teatro Épico teoriza:

“(...) o artista chinês não representa como se além das três paredes que o rodeiam existisse, ainda, uma quarta. Manifesta saber que estão assistindo ao que faz. Tal circunstância afasta, desde logo, a possibilidade de vir a produzi-se um determinado gênero de ilusão característico dos palcos europeus. O público já não pode ter, assim, a ilusão de ser o espectador impressentido de um acontecimento em curso. E, desta feita, torna-se perfeitamente supérflua toda uma técnica prolixamente desenvolvida nos palcos europeus; permite a referida técnica ocultar que as cenas estão montadas de forma que possam ser reconhecidas pelo público sem o mínimo esforço. Tal qual os acrobatas, os atores escolhem, bem à vista de todos, as posições que melhor os expõem ao público”.

Bert utiliza o quadro “A fuga de Carlos, o Temerário, depois da batalha de Murten” para explicar sua técnica antiaristotélica:

“(...) o ‘ato de distanciamento’ conseguido nesta pintura – e que o original não possui – de modo algum se deve atribuir a deficiência na reprodução. O militar em fuga, o cavalo, a escolta e a paisagem foram, conscientemente, pintados de modo que produzissem a impressão de um acontecimento extraordinário, de uma catástrofe surpreendente. O pintor, não obstante todas as deficiências que encontramos na sua obra, conseguiu tirar um efeito excelente do imprevisto. É o assombro que lhe comanda o pincel”.

Durkheim afirmava que “o sentimento é objeto da ciência, não é critério de verdade científica”. Já Brecht: “A atuação dos artistas chineses parece ao artista ocidental freqüentemente fria. Não que o teatro chinês renuncie à representação de sentimentos! O artista representa acontecimentos que contêm uma forte tensão emocional; todavia, o seu desempenho jamais denota qualquer calor”.

Os elementos que possibilitaram a sistematização das ciências sociais, sobretudo os estudos de Comte e Durkheim, e as técnicas orientais de representação é que alavancaram a nova relação do teatro com sua platéia.

É Bertolt Brecht quem conclui:

“Um teatro que seja novo necessita, entre outros, do efeito de distanciamento, para exercer crítica social e para apresentar um relato histórico das reformas efetuadas”.

Antônio Carlos dos Santos é dramaturgo, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Sobre Lobos & Cordeiros

A corrupção é uma chaga que achincalha todos os povos do mundo. Não importa se o país é uma potência econômica e militar ou se é uma republiqueta bananeira dominada por ditadores-anões de plantão, o fato é que – como o ar que se respira, lá está ela, onipresente, onipotente, plenipotenciária, reinando absoluta em todos os rincões do planeta.

Mas existe uma diferença fundamental. É que nas democracias desenvolvidas, a corrupção é cassada qual praga pestilenta, cachorro doido e vírus da febre aviária. Lá, as cadeias recebem com especial generosidade os ratos que se deleitam em dilapidar o patrimônio público.

Já por estas plagas, os avanços e aperfeiçoamentos efetuados em nosso sistema político-institucional ainda não foram capazes de debelar o mal e nos mantêm muito distantes de um quadro minimamente razoável.

Não há dia – um só dia – em que as manchetes dos jornais deixem de sacudir o país com episódios ultrajantes ligados à corrupção. E se manifesta com tamanha amplitude e intensidade que, parece, não há setor que consiga manter-se ao largo de seus tentáculos lancinantes.

Desde as relações mais simples e triviais como um lugar na parte mais dianteira da fila – qualquer fila - uma vaga no estacionamento lotado, no restaurante reservado; a abordagem do guarda de trânsito, uma acelerada no trâmite do processo, a ocorrência policial, a vaga num concurso público... até as relações mais complexas como a concessão de obras e serviços públicos e o jogo partidário-eleitoral, a corrupção no Brasil faz barba, cabelo e bigode.

A vasta máquina burocrática estruturada para dar combate ao embuste e à ladroíce parece não fazer qualquer efeito. Haja tribunais de contas, controladorias, ouvidorias, corregedorias, inspetorias, controle interno, controle externo, ministério público, inúmeros tipos de polícia e o ‘desejo’ de tudo apurar, ‘doila a quem doila’. Como essas instituições raramente falam entre si, quase nada funciona, e os corruptos acabam fazendo pouco caso delas. Procedem com a tranqüilidade dos pequenos aprendizes de bandido, os que surrupiam pirulito de criança. E sequer se preocupam em estruturar e urdir planos complexos e detalhados. Roubam à luz do dia, à vista de todos, convencidos que jamais serão apanhados com a boca na botija, alcançados pelo braço reparador da justiça.

E a questão se banalizou de tal forma que não faltam piadas a respeito. Uma é bastante antiga:

A jornalista entrevista um famoso deputado:

- Deputado, o senhor pode nos dizer como começou a sua carreira de político?

- Ah! Foi logo na infância... eu ainda estudava no primário...

- No primário? – espantou-se a jornalista.

- Sim! Um dia meu pai me chamou e disse: “Filho, a partir de hoje eu vou lhe dar 1.000 reais todas as vezes que você tirar uma nota maior que sete”.

Então, eu cheguei para a minha professora e falei: “Escuta, dona Rosa, a senhora não gostaria de ganhar 500 reais de vez em quando?”


A piada é antiga e daquelas de humor negro. Para os politicamente corretos que se incomodam com a expressão utilizada “humor negro”, então, vá lá!, me redimo: a piada é antiga e daquelas de humor afro-descendente. Piorou, não é?! A emenda saiu pior que o soneto.

Piada e brincadeiras à parte, o sorriso, a alegria que a antiga piada provoca reflete uma realidade que se incrustou na cultura e mancha a alma nacional de maneira quase indelével.

De ficção, a piada não tem quase nada. Quando a jornalista faz a pergunta, o político não vacila e detalha a resposta: aprendeu a corromper na escola, com o estímulo do pai e a cumplicidade da professora.

O pai incorre num erro grave e primário ao exigir simplesmente nota e não aprendizagem e resultados. O que imagina ser a solução é o embrião do problema. Entrega ao filho a arma para que o crime seja consumado.

Nada de errado em estabelecer premiação para os êxitos obtidos pelo filho. Mas caso desejasse, de fato, estimular o filho seria necessário primeiramente precisar o objetivo: melhorar o aproveitamento, tirar notas boas, aprender. Mas não só. Também a estratégia, o como fazer, a maneira de proceder: estudando a lição, fazendo a tarefa de casa, pesquisando e elaborando os trabalhos escolares, aprimorando a capacidade de participar das aulas, inquirindo, sugerindo, inserindo novos elementos às discussões, compartilhando experiências,...

Ao pactuar compromissos com os filhos, os pais devem atinar para o conjunto, alargar a visão para o processo e não focar tão somente nas etapas estanques e isoladas. Uma outra questão importante é a precisão e a clareza. Não pode pairar qualquer dúvida sobre o objetivo a ser atingido. Tão pouco sobre a estratégia, a maneira de efetuar a travessia, de conquistar o objetivo. E aqui vale a regra de ouro: improvisações e alternativas criativas são bem vindas; jogo sujo, não; definitivamente, não! Nada de Lei de Gerson, de peraltices tipo: “meu filho não sabe nada, mas pelo menos é esperto e não foi reprovado, passou de ano”. É por isso que se diz que ‘ética’ e ‘responsabilidade’ vem de berço, começam lá atrás, na primeira infância.

Como o pai mirou exclusivamente no objetivo, se fixou apenas em uma etapa do processo, o filho se achou no direito de buscar o caminho mais fácil: comprar a nota.

Já a professora sentiu-se aliviada por se livrar de um problema, por não ter mais que esquentar a cabeça tentando ensinar a lição para quem não deseja aprender... e além do mais, por levar para casa uma graninha extra.

Quanto às pessoas e os políticos, vão se forjando no dia a dia, desde a mais tenra idade. O caráter é formado paulatinamente, enquanto crescemos e amadurecemos. Resulta, sobretudo da formação familiar, mas também da experiência escolar, religiosa, social... No caso específico da política partidária, é um engano burlesco imaginar que todos os candidatos são honestos e bem intencionados, e que, quando eleitos são aprisionados pelo sistema e tragados pela máquina da fisiologia, do clientelismo e da corrupção. Não, se isso ocorre, é exceção da exceção da excepcionalidade. O mais comum, a regra, o que ocorre com freqüência é que o sujeito, o candidato já tem plenamente formado o caráter de bandido, aguardando apenas a primeira oportunidade para colocá-lo à mostra. A velha fábula do lobo em pele de cordeiro que Esopo, seis séculos antes de Cristo, já se preocupava em denunciar.

Largue mão daquela cantilena do inocente útil, do candidato honesto que entrou para a política honesto e se fez ladrão nos escaninhos do poder. Nos casos de corrupção não existem mocinhos, só bandidos. E lugar de bandido não pode ser outro senão a cadeia.

É óbvio ululante que existem políticos honestos, sérios, competentes, compromissados com a ética, a moralidade e o desenvolvimento do Brasil. E não são poucos. Mas a fruta podre é que aparece, que se destaca, porque exala o cheiro nauseabundo dos ambientes putrefatos, insalubres, doentios.... e deve ser extirpada o quanto antes sob pena de colocar a perder todas as demais.

Na família os pais devem acompanhar mais amiúde o dia a dia dos filhos. Devem reservar tempo para acompanhar o que fazem, como estudam, o que e de que forma a escola ensina. E se o sistema de cobrança de resultados é adequando para aferir a aprendizagem, aguçar a curiosidade e estimular a criatividade dos pequenos.

Da mesma forma, na escola os professores devem estar atentos para os desvios comportamentais, não condescender com os maus hábitos, a falta de educação, de respeito, de compromissos... As reuniões de pais e mestres são mais que importantes porque constituem um fórum privilegiado para pavimentar a aprendizagem, o crescimento e o amadurecimento dos nossos pirralhos.

Desde pequenos devem ter ampla clareza sobre o sim e o não, sobre o que é certo e o que é errado, sobre o que é conveniente e o que não é, sobre o que é adequado e o que é inoportuno, sobre o que é legal e o que constitui uma infração. Não pode haver dúvidas neste aspecto. É evidente que, no devido tempo, a reflexão crítica levará ao salutar questionamento do muito que é considerado certo e do outro tanto que é considerado errado. E que valores e posições considerados corretos contemporaneamente foram consideradas erros, pecados ou crimes no passado. E vice-versa. Mas existe um tempo certo para isso. Tempo para preparar o solo para o plantio, tempo para lançar a semente na terra, tempo para o crescimento da planta, para o amadurecimento do fruto e para a esperada colheita.

Neste contexto é que a sociedade deve se habilitar, se capacitar, se municiar de condições para avaliar melhor os candidatos. E separar o joio do trigo.

A malandragem solapou de tal forma as relações institucionais que os políticos e a corrupção acabaram se constituindo nos quesitos que mais envergonham os adolescentes brasileiros.

È uma resposta inesperada para os que vivem apregoando que a juventude ‘não está nem aí’ e que nossos jovens se preocupam exclusivamente com o bem estar individual, com o ‘cada um por si e Deus por todos’.

A posição dos jovens brasileiros foi obtida através de pesquisa recentemente divulgada pela UNICEF, o Fundo das Nações Unidas para a Infância. Os estudos efetuados em âmbito nacional – e que contaram com a participação do Instituto Ayrton Senna e da Fundação Itaú Social – revelaram que 37% dos jovens de 15 a 19 anos apontaram os políticos e a corrupção como os fatores que mais os envergonham.

Coube ao Ibope realizar a pesquisa, denominada "Adolescentes e jovens do Brasil".

O país tem 17,9 milhões de habitantes entre 15 e 19 anos. O Ibope entrevistou 3.010 adolescentes moradores de capitais e do interior de todas as regiões brasileiras, além de 210 indígenas de 15 municípios.

O estudo demonstra que o poder de indignação de nossa juventude está latente, evidente, e os números demonstram que não é pequeno.

Um alento, um bom sinal. Evidência de que a piada de humor duvidoso que ilustra este texto está deixando de nos assombrar...

Nossos jovens mostram que o Brasil está mais vivo e desperto que nunca. Os maus políticos e os corruptos que coloquem suas barbas de molhos, pois os seus dias estão contados.

Na América Latina, repleta de neo-caudilhos populistas, o quadro é em tudo semelhante. O Instituto Gallup International realizou, sob encomenda do Fórum Econômico Mundial, a pesquisa denominada “A voz do povo”. Um universo de 61.600 pessoas ouvidas em 60 países levou o Gallup a assegurar que o levantamento representa o ponto de vista de cerca de 1,5 bilhão de cidadãos. Os dados são estarrecedores. Nesta parte do continente, 77% dos latinos americanos acreditam que “todo político é ladrão”.


Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A nova era, os novos homens.

Muitas vezes a expressão “fim do mundo” nos atinge de forma literal. É quando se levanta na forma de uma grande tragédia como foi o holocausto, a escravidão ou Chernobyl.

Outras vezes, vai se materializar no coração de cada um, naquele lugar remoto que acostumamos chamar de tantos nomes, ‘eu interior’, ‘eu profundo’, ‘eu mistério’, ‘eu desconhecido’...

Não são poucos e tão pouco raros os momentos em que o cenário catastrófico se impõe no plano externo e, de forma simultânea, avassala também no plano interno. Aliás, a impressão, pelo menos, é que esta é a situação mais freqüente, aquela em que a colossal pressão envolve e desequilibra, ao mesmo tempo, todos os níveis, externo, interno, e algum outro eventualmente existente. Face e anverso de uma mesma e indivisível moeda.

As obras de Heironymus Bosch dão conta desta expressão de fim dos tempos. No período medieval os ares que respirava a sociedade européia eram densos e carregados: opressão, exílios e perseguições infindáveis, os esdrúxulos processos políticos e religiosos, a selvageria e a barbárie da escravidão – agora convertida numa instituição legal, e os inomináveis genocídios perpetrados na América em busca dos tesouros escondidos. O novo mundo para o europeu só valia pelo ouro e pela prata reluzente.

Nos primórdios do século passado, Alain Virmanux, defendendo uma arte libertadora, também faz referência a um mundo vulnerável, carcomido, moribundo, em estado de decomposição:

“tudo vai mal, a humanidade à beira do abismo, então precisamos de um teatro que nos auxilie a superar a nossa angústia, como os festivais teatrais da Antiguidade que ajudavam o homem a exorcizar seu medo dos deuses”.

Michelangelo com sua magnífica obra pintada na Capela Cistina, Heironymus Bosch e Virmanux exageravam ao denunciar o clima de juízo final que está sempre rondando, onipresente, perigosamente assombrando a espécie humana?

Não, nenhum deles exagerou. É que o ambiente de fim de mundo, de abismo e precipício sempre figurou como ante-sala da longa caminhada do homem para desbravar o desconhecido. Pois não é o desconhecido que nos encanta e atrai como um poderoso ímã cósmico?


Quando tudo parece se reduzir à frieza e imobilidade de uma cápsula filamentosa, eis que a vida se expressa inteira na explosão do casulo hermético e sombrio. A casamata rompe para fazer emergir a forma mais leve e bela, a borboleta. Não bastasse a multiplicidade e fusão de todas as cores, a plástica misteriosamente suave e a textura delicadamente aveludada, ainda voam as borboletas, ignorando a gravidade, traçando vias e avenidas dentre brisas, correntes de ar e ventania. É assim a vida. Quando tudo parece cinza e inamovível, as cores explodem em intensa pujança. Quando tudo parece enevoado com o cheiro nauseabundo da morte, é a vida que insurge, alegre, plena e radiante.

Como ensinam os versos inspirados de Rodoux Faugh:

Qual morte? Desfecho e desenlace?
Que heresia bradas?
Se algo está para findar
Se o instante é de expirar, perecer,
fechar os olhos a alguém num ultimo e gélido suspiro
Então me sublevo, é um direito que me reservo
E me levanto para dizer não à agonia do crepúsculo, de qualquer crepúsculo
Porque é de existência que se trata
não de perda, jamais de partida
Se algo está para findar e desaparecer
para expirar e se acabar
É nada além de tua estultice lívida, de tua plúmbea insensatez
Porque é de existência que se trata
Sopro de vida, aurora, aura de luz
Fios e mais fios de branda e doce esperança
lânguida como o pulsar de um coração apaixonado
Jamais serás capaz de perceber o palpitar da terra
o respirar das árvores
o nascer e renascer diuturno dos céus e dos ares
A vida jamais se esgota, sequer se engana – eu sei!
O que parece morte é como a vida renascida rompendo o fértil ventre materno
A noite não passa de sutil cortina a abrigar a cândida sonolência dos infinitos raios de sol
Os mesmos que daqui a pouco vão explodir em luz, conformando o novo dia, a nova
era, os novos homens...

Por que razão Fênix é o símbolo da alma e da imortalidade? Porque após viver séculos e mais séculos tinha que se destruir, se queimar, para então ressurgir de suas próprias cinzas.

Os momentos de grandes e quase insuperáveis crises carregam em sua face mais visível a desgraça incontida, a tragédia mais dolorida e insuportável. Mas, em sua face mais recôndita e reclusa mantém fábricas e mais fábricas de funcionamento diuturno, onde são produzidas as melhores oportunidades, os sonhos mais ardentes e vívidos.

A agonia e a aflição que conforma o fim do mundo acoberta também lampejos e faíscas que arrebentarão em plena luz. Cabe à sensibilidade, clarividência e habilidade de cada um, capturar no olho da noite, a chama da luz divina que iluminará o caminho.

O que se passou no período que conhecemos como a Idade Média? Não é o retrato fiel da eclosão da borboleta, não obstante a fragilidade, rompendo e deixando para trás a pesada casamata, o rígido casulo? O que muitos historiadores denominam Idade das Trevas e do obscurantismo não semeou, fecundou e legou à posteridade a Renascença?

Não foi essa crise generalizada que possibilitou Leonardo da Vinci, Michelangelo, Dante Alighieri, Thomas Morus, Francis Bacon e Shakespeare?

E a crise que martirizava Alain Virmanux, o precipício ameaçador não gerou Artaud, Piscator, Reinhardt, Stanislavski, Meyerhold e Brecht?

Temos que aprender a extrair ensinamentos da histórica lenda, a que alude à ave mitológica dos antigos. Não é sem razão que Fênix aprendeu a renascer das cinzas. Os momentos e instantes de crise podem ser transformados em oportunidades para grandes saltos, grandes avanços e transformações.

As noites são como os cometas que singram o espaço infinito. Por mais longas e sombrias que sejam – não devemos jamais esquecer – carregam na ponta da calda, os mais pujantes raios de sol, como canta Rodoux Faugh, os mesmos que daqui a pouco vão explodir em luz, conformando o novo dia, a nova era, os novos homens...

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Educação de qualidade.


Todos nós, em algum momento da vida, criticamos e zombamos da ignorância dos norte-americanos quando o assunto é geografia. As gafes, sobretudo de suas lideranças políticas, sempre foram ostensivas, retumbantes, um atentado aos ouvidos e à ciência que desvenda o planeta.

Imaginávamos que o poderio descomunal - o fato de ostentar em qualquer ranking a inquestionável posição de maior potência mundial - os haviam moldado como um povo arrogante e presunçoso, a ponto de desdenhar tudo o que estivesse além de suas fronteiras físicas, fazendo pouco caso das demais culturas, dos demais países.

Mas tudo isto não passa de antipatia gratuita, de mais uma folclórica estorieta a sacralizar nossa centenária má vontade para com os Estados Unidos.

Todos os estudos e pesquisas mais recentes enfatizam que a realidade da América do Norte é bastante diferente da apregoada.

Os últimos levantamentos mostram, por exemplo, que nada menos que 86% dos norte-americanos sabem identificar, com precisão, em que lugar do mapa ficam os EUA, 81% dos yankies sabem onde se localiza o México, 54% a França e 47% a Argentina.

É pouco? Não, não é. É muito. São indicadores de país de primeiro mundo, de potência econômica. A afirmação fica mais clara quando cotejamos esses dados com os indicadores relativos ao Brasil.

Mas antes, é necessário apertar o cinto para não cair da cadeira, porque o choque não será pequeno e nem indolor.

Lá vão os primeiros petardos, arma pesada, balas de canhão: metade da população brasileira não sabe apontar, no mapa mundi, onde fica o Brasil. Algo em torno de 2% dos conterrâneos acreditam que o único país penta-campeão de futebol fica no Congo, e 1% jura de pés juntos que Pindorama fica é no Chade.

A tão propalada rivalidade com os hermanos do extremo sul não impediu que 2% afirmassem que o Brasil fica, pasmem, na Argentina. Não é de espantar? Não são tão poucos assim os brasileiros que acreditam que nos localizamos nos pampas de Maradona, nas terras temperadas onde surgiu o tango.

Quando o mapa mundi foi estendido sobre a mesa, 82% dos brasileiros não souberam identificar onde ficam os Estados Unidos, 97% não conseguiram apontar onde fica a França e 92% simplesmente ignoram onde fica o Japão.

A pesquisa que envergonha o país, desmascara parte considerável das elites políticas e mostra o quão ordinária é a nossa educação, foi realizada pelo Instituto Ipsos e denomina-se Pulso Brasil.

Foram entrevistadas 1.000 pessoas em setenta municípios das nove maiores regiões metropolitanas.

Para os que acompanham mais amiúde o panorama da educação nacional, nenhuma novidade que não seja a confirmação da inépcia das autoridades. E reforçam a necessidade de dar sustentabilidade aos movimentos que objetivam recolocar o país no eixo do desenvolvimento, priorizando a educação de qualidade.

Qualquer que seja o estudo, a pesquisa, o levantamento, os resultados apontam todos para uma direção só, berram nos nossos ouvidos: urge assegurar que a educação brasileira exale qualidade por todos os seus poros.

Num mundo tão competitivo, ignorar essa máxima seria o mesmo que rumar para o precipício. O Brasil é tal qual uma Ferrari. Mas estamos enchendo o tanque do bólido com a mistura porca de água, benzeno e gasolina que encontramos nos postos brasileiros, a malfadada gasolina batizada. O resultado? Todos sabemos, estamos vivenciando: o motor faz fumaça, derrete e o país empaca.

Uma Ferrari só rende com combustível de excelente qualidade. Assim é o Brasil. Só começará a render quando aprendermos a abastecê-lo com combustível de primeira. E nossa gasolina premium, de alta octanagem e excelente rendimento é só uma: educação de qualidade.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br