terça-feira, 6 de novembro de 2007

Bitrex & Preconceito

Os químicos costumam afirmar que não existe nada tão amargo quanto o Bitrex, um composto utilizado para evitar ingestões acidentais de produtos muito tóxicos como, por exemplo, pesticidas e inseticidas.

Pois se existe na vida algo tão amargo quanto o produto químico, é o preconceito, predicado de quem passa a substituir razão e lógica por valores, visões e ações resultantes de desvios pessoais, produtos de um diagnóstico efetuado antes que se adquira os conhecimentos necessários.

Quantas injustiças – grandes e pequenas, individuais e coletivas - não foram cometidas por conta dos preconceitos? E as oportunidades, quantas deixaram de ser aproveitadas, quantas volatizaram ante a simples possibilidade de concretização?

O preconceito tem poder concentrado e de tal ordem e dimensão que muitas vezes empresta contornos quadrados à roda, impedindo-a de movimentar, de oportunizar a junção dos dois pontos.

Para manter distante este filtro inverso - que suja ao invés de limpar - temos que manter abertas as comportas das inovações, temos que nos manter atentos aos indicadores que sinalizam testemunhando os processos de mudança.

E indicadores já não faltam quanto se trata de avaliar a Educação a Distância, uma modalidade de ensino vitima de preconceito, que tem apanhado mais que pandeiro em roda de samba.

Os novos resultados dos programas de avaliação do governo federal estão denunciando a farsa montada, comprovando que o novo sistema nada deve em relação ao ensino tradicional, efetuado de forma presencial.

A última edição do Enade - Exame Nacional de Desempenho de
Estudantes – incorporou os alunos dos cursos à distância, de modo que a comparação entre os diferentes modelos à luz de indicadores confiáveis já é plenamente possível.

Ao examinar as áreas contempladas pelo último Enade, não se verifica diferenças perceptíveis, acentuadas. Para ser mais preciso, o Exame Nacional registra ligeira vantagem para os alunos da educação a distância. Em que pesem todos os arranjos e adequações que o novo sistema ainda demanda em virtude da precocidade.

E tem mais: a Educação a Distância tem conquistado méritos e espaços que não se restrinjam ao novo sistema, extrapolam o modelo. As vantagens são tamanhas que têm impactado positivamente e de maneira determinante os cursos tradicionais presenciais. Nos casos em que a instituição mantém as duas modalidades, os benefícios resultantes da interação são eloqüentes. A verdade é uma só: os cursos presenciais estão se modernizando ao simples contato com características da EAD. E essas transformações não são aleatórias ou sazonais, chegam para ficar.

É bem provável que, no futuro próximo, ao se matricular em um curso superior, o aluno tenha acesso a um mix em que parte das disciplinas sejam oferecidas na forma presencial e a outra parte no formato EAD. Ou a mesma disciplina sendo oferecida sob a égide dos dois modelos.

Quem ganha e quem perde? Ganham quase todos, alunos que poderão administrar melhor o tempo, os recursos quase sempre escassos e as condições nem sempre adequadas; ganham as IES que mitigarão custos e agregarão qualidade aos seus processos; e ganha o país, que passará a dispor de profissionais com melhor formação.

Transcrevo logo abaixo um artigo que escrevi sobre o assunto:

A Educação a Distância veio para ficar

Ainda observado com desdém e desconfiança pela conservadora corporação acadêmica, o curso à distância vem se impondo, paulatinamente é bem verdade, mas de maneira irreversível.

Uma das mais destacadas e instigantes vantagens dessa nova tecnologia é o fato de ignorar fronteiras, fazer pouco caso da distância física, de modo que as pessoas –comungando do mesmo tempo – juntam-se, avizinham-se, tornam-se colegas de classe, ainda que estejam em continentes diferentes. Não é curioso e provocador criar uma sala de aula virtual onde colegas de sala interagem com um estando em Pirenópolis e o outro em Singapura?

Esta vantagem exclusiva, específica e inédita é que possibilitou fosse criado o primeiro curso à distância para o Japão. E não é nenhum curso Walita, desses penduricalhos de curtíssima duração que mal justificam um certificado. Não, nada disso. É um curso de graduação, isso mesmo! de graduação em Pedagogia, com 300 vagas, destinado a formar professores que, na Ásia, já estão na lida, no batente, ensinando para brasileiros.

A iniciativa resulta de uma parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o Ministério da Educação, que já reservou R$ 2,5 milhões para aplicar no projeto nos próximos cinco anos. O Banco do Brasil apóia a iniciativa e está propondo destinar outros R$ 2,5 milhões para turbinar o processo.

A vida de um migrante não é nada fácil. Não bastasse o preconceito, onipresente e radicalizado, quase sempre trabalham à exaustão, muito mais que os naturais do país para - ao final da jornada de trabalho – receberem muito menos. No geral tem quase nenhuma assistência médica, jurídica, social, além de amargar dia sim e o outro também, a saudade dolorida dos parentes, dos amigos, da pátria-mãe, saudade só levemente amenizada numa fotografia guardada com esmero no cantinho mais nobre e reservado da carteira.

E não é só. Outra questão por demais grave é a dos filhos dos dekasseguis que assistem aulas com professores improvisados, salvo um aqui e outro acolá, invariavelmente sem a habilitação e a formação adequadas.

O propósito é alterar este quadro, superar rapidamente esta etapa para enfrentar uma outra, tão carente quanto a da graduação, a especialização. Então se tratará de habilitar professores em disciplinas específicas como Biologia, História e Física, mas agora oferecidas não somente aos educadores brasileiros, como também aos professores japoneses que têm, dentre seus alunos, filhos de brasileiros.

Para dar suporte ao projeto será produzido material didático específico e, ao final de cada módulo – algo em torno de 40 dias - um professor brasileiro viajará ao Japão para cumprir a fase presencial do curso, ministrando aulas em caráter intensivo.

Estima-se que existam 320 mil dekasseguis no país do sol nascente. Todo esse contingente, no ano que vem, deverá estar mobilizado para comemorar os 100 anos da imigração japonesa no Brasil.

Se um projeto dessa dimensão não consegue demover a acidez e ojeriza cética dos críticos da Educação a Distância, o que mais na face da terra poderia sensibilizá-los?

A Educação a Distância está demonstrando no dia a dia que veio para ficar. Indiferente e independentemente dos críticos de plantão. Quem não se lembra quando, respondendo ao amargor dos mal humorados, nossos avós proclamavam: “enquanto a carruagem passa, os cães ladram”?


Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.