sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O que fazer com os anjos emprestados por Deus?

A violência é um componente que oprime, amargura e degenera a sociedade. Sua eclosão vai se intensificando e a autoridade parece ter sido tragada por um estado de inércia, profunda sonolência.

É um processo que desconhece fronteiras e limites, avançando sobre todas as classes sociais e faixas etárias. Como elo mais fraco da corrente, os pobres sofrem mais, muito mais.

A escola não consegue se manter ao largo deste ambiente caliginoso e sofre as conseqüências da letargia dos responsáveis. A violência nua e crua que se manifesta nas ruas com todas as suas nuances e facetas, resolveu romper as salas de aula. E de forma definitiva.

Quando acorre à mente, a primeira imagem do ambiente escolar sempre é a de alunos em sala de aula, compenetrados, o mestre ministrando a disciplina, no intervalo o zumzumzum habitual, a algazarra do recreio; de tempos em tempos, a aflição nos momentos de prova, de sabatina... Vez por outra uma rusguinha aqui, um bate boca acolá, algum entrevero chegando às vias de fato na pelada de futebol, mas nada que não se resolvesse, no ápice, com uma advertência, uma ligeira penitência e uma boa prosa com os pais.

Mas as coisas mudaram, e neste caso, para pior, para bem pior.

Não se trata mais dos pequenos conflitos, das discussões e embates pueris, das brigas quase infantis, das indisposições circunstanciais que não resistiam à fração do instante. A violência dos dias de hoje está vestida para matar, carrega drogas, facas, estilete, soco inglês, armas de fogo, crack e drogas pesadas. O beicinho, o ‘ficar de mal’, o ‘belém-belém-nunca-mais-ficar-de-bem’ só resiste na pré-escola, e olhe lá!

O traficante já não é o alienígena, o desconhecido, o estranho com cara de malandro que sorrateiramente ronda a escola, aquela caricatura facilmente identificável, como o bandido das velhas estórias de quadrinho. Este personagem sucumbiu e só persiste nas películas cinematográficas. O traficante contemporâneo é aquele acima de qualquer suspeita, não raro o mauricinho da turma, o esportista, o exímio artista, a figura mais bacana e popular, cooptados que foram pelo mundo do crime, que colhe dinheiro numa floresta inesgotável. A ameaça não provém mais de fora, não salta furtivamente os muros da escola, não invade pela janela ou utiliza a porta dos fundos. A ameaça está no interior, na sala de aula, na biblioteca, na secretaria, na cantina. Presentemente, o traficante se faz o melhor amigo, companheiro de primeira hora, o colega sempre pronto para auxiliar, socorrer, sobretudo quando se trata de dinheiro e de pequenos préstimos que levem à dependência emocional.

Já vai longe o tempo em que era exigida uma complexa operação, uma logística meticulosa, um planejamento primoroso e detalhado nas minúcias para fazer com que a droga adentrasse a escola, com cenas de perseguição policial, tiroteio e bang-bang. Também assim, mas neste formato, em volume quase irrelevante. Hoje, o entorpecente viaja, sobretudo, dentre lápis, livros e cadernos, abrigado displicentemente nas mochilas mais tenras e discretas.

E nesta guerra subterrânea não há quem escape. Alunos, servidores, professores, pais e responsáveis são as vítimas do descalabro, do desatino, do infortúnio, da desgraça em sua face mais ameaçadora e fatal.

Na sala de aula – cenário untado pelos céus para alavancar os estudos e a esperança de dias melhores - as ameaças e agressões verbais aos professores tornam-se rotina. Como conseqüência imediata, a crescente evasão dos protagonistas, sobretudo dos professores, que não mais suportam perseguições, toda sorte de intimidação, ameaças que se materializam numa rede infernal de recados, bilhetes, telefonemas e e-mails.

Os antigos traques e estalinhos cederam lugar às bombas artesanais que estouram nos corredores, nos banheiros, comprometendo ainda mais a segurança da comunidade escolar, depauperando as já sucateadas instalações físicas.

Com muito custo, a escola consegue adquirir equipamentos importantes. Estações de trabalho, aparelhagem de som, máquina fotográfica, vídeo cassete, e quando Deus dá bom tempo, até mesmo filmadora e data-show. São inumeráveis rifas, festejos, solicitações de contribuições junto aos pais e aos comerciantes locais, num esforço gigantesco para fazer um pequeno caixa que possibilite este tipo de investimento. E mesmo tudo sendo mantido a correntes e cadeados, o saque e o roubo se generalizaram. E como se não bastasse, danificam a fiação de telefone e a rede elétrica para provocar apagão e a suspensão das aulas.

O pior é que os pais acreditam que, nas escolas, seus filhos estão seguros. Sem dúvida, muito mais seguros que nas ruas. Mas, definitivamente, os alunos não usufruem a segurança que os pais inocentemente imaginam.

Este deve ser um alerta para que os pais passem a freqüentar mais as escolas de seus filhos. E discutindo em profundidade a questão da violência, possam se mobilizar para exigir providências do governo, dos políticos, das autoridades, das áreas competentes. Aos altíssimos impostos pagos pela sociedade, as autoridades têm correspondido com indolência, incúria e preguiça.

Nos mobilizemos agora para que depois não choremos pelo leite derramado. E o leite, neste caso, nos é muito caro, porque é o que temos de mais nobre e gracioso, nossas crianças, os anjos emprestados por Deus.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O bochinche, a tragédia anunciada.

O céu da Escola Estadual Fonte Nova não é azul, jamais ostentou a cor celeste. O cinza escuro e duro do concreto armado é a tintura que coloria o céu dos professores, servidores e alunos de uma das unidades de ensino de Salvador na Bahia. É como se os 600 alunos que lá estudavam estivessem sendo coletivamente punidos, não com os decrépitos e centenários instrumentos de castigo como a palmatória, o suplício de ajoelhar em caroços de milho ou a obrigatoriedade de ostentar o maldito chapéu de burro com o nariz encostado no quadro negro. A pena imposta aos estudantes da Escola Estadual Fonte Nova foi áspera, vingativa: privá-los do céu. Estivesse o céu nublado e triste ou ensolarado e alegre, a vista de sua abóbada sempre esteve fora do alcance, e os estudantes só vislumbravam sobre suas cabeças as escuras e sombrias arquibancadas do Estádio Octávio Mangabeira.

Meteoritos caindo do céu não é coisa rara, nem novidade para ninguém. É bonito vê-los à noite, singrando o espaço, ostentando a longa calda de fogo reluzente. Mas não se tem conhecimento que algum tenha despencado sobre uma escola, uma sala de aula, sobre um pátio onde as crianças se divertiam no horário do recreio. Já na Escola Estadual Fonte Nova, raro era o dia em que não chovia astrólitos. Segundo o vigilante, era comum que pedaços de cascalho e pedras se soltassem da estrutura da arquibancada, caindo na calçada, no ginásio e no pátio da escola.

A tragédia que ocorreu no Estádio Fonte Nova deixou sete mortos e mais de 80 feridos. No dia em que Bahia e Vila Nova se enfrentavam pelo campeonato brasileiro, parte da estrutura da arquibancada cedeu, deixando aberto um vão de 17 metros.

O Estádio inaugurado em 1951 tem capacidade para 60.000 torcedores, mas já suportou quase o dobro. No ano de 1988, mais de 110.000 pessoas presenciaram a partida em que o Bahia derrotou o Fluminense do Rio de Janeiro.

O pior desta que é uma das maiores tragédias do esporte brasileiro é que vem sendo anunciada há muito tempo. O que agrava e acentua o desleixo, a negligência e o desmazelo das autoridades responsáveis.

Engenheiros, arquitetos e promotores vinham alertando para os riscos de acidentes desde 2005. O Ministério Público chegou a pedir a interdição do estádio.

Três meses atrás, o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia promoveu vistorias e avaliou os principais estádios brasileiros. O objetivo era levantar as praças esportivas habilitadas para abrigar os jogos da Copa de 2014. Pois bem, dos 29 estádios avaliados, a Fonte Nova ficou em último lugar, apresentando as piores condições de segurança. O documento do Sinaenco é tão claro como um dia de sol escaldante: relata que o estádio está em "estado lastimável" em decorrência da falta de manutenção e não oferece "nenhum conforto e segurança para os usuários". Eis aí o diagnóstico efetuado (e DIVULGADO!!!) com praticamente três meses de antecedência.

Era sob este céu de brigadeiro que funcionava a Escola Estadual Fonte Nova. Nos corredores da escola a ferragem do teto está inteiramente exposta, oxidando e corroendo o concreto armado que esfarinha, deitando pó e sujeira sobre o chão. Também o forro de gesso apodreceu, e o que se vê são muitos buracos. Da escola, a visão da gigantesca e carcomida arena é quase completa: a cena da tubulação do estádio completamente enferrujada é chocante, uma prova inconteste do bochinche.

Muitas escolas brasileiras se encontram em estado de penúria, com as instalações físicas aviltadas, ostentando uma paisagem de ruína, de destruição e decadência. Algumas estão como escombros do pós-guerra.

É a miséria que acomete a parte física de grande número de nossas escolas, comprometendo a segurança e a aprendizagem de nossos alunos. É a miséria mais indigente e deplorável que acomete a moral de grande número de nossos dirigentes, comprometendo até mesmo a subsistência da nação, da sociedade, da cidadania.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A incúria, a desídia.

A pequena L. tem quinze anos, mas o corpo tísico aparenta não mais que dez. A fragilidade da adolescente e o rosto de criança não foram suficientes para impedir que fosse presa por uma delegada (repare no gênero!), mantida encarcerada por uma juíza (mais uma espiada no gênero!), num estado gerenciado por uma governadora (novamente o gênero??).

A pequena criança fixou enclausurada durante 15 dias numa cela com cerca de trinta homens. Trinta! Relutou, não aceitou as propostas indecorosas, resistiu o quanto pode, administrou a fome rompendo os limites das impossibilidades. Chegou a ficar três dias sem comer, sem colocar pedaço de pão ou um grão de arroz na boca... e para ter acesso ao prato de comida foi obrigada a se sujeitar à sanha maquiavélica dos íncubos e com eles manter relações sexuais. E na cidade de Abaetetuba, pertinho da capital paraense, a somente 89 quilômetros de Belém, no Pará, foi restaurada a ignomínia, a barbárie absoluta e inconteste, a escravidão mais abjeta, aquela que submete a infância à depravação sexual.

O caso em tudo se assemelha a um folhetim policial criado nos porões mais profundos do inferno.

Quando se escutava ainda os ecos da explosão inicial originada pela divulgação do insidioso escândalo, três policiais passaram a perseguir a família. Pressionaram, ameaçaram, intimidaram, utilizaram todo o poder do estado policial de que estavam investidos para submeter a paupérrima família à mais completa humilhação. Obrigaram o pai a mentir sobre a verdadeira idade de sua filha e chegaram a fazê-lo falsificar uma certidão de nascimento, numa tramóia urdida para dar como ‘de maior’ a franzina L. de apenas 15 anos.

Infelizmente, o caso não é isolado. Nos grotões do país persistem ainda as inaceitáveis cadeias mistas, atuam em profusão autoridades relapsas, incompetentes (criminosas!) que transformam mulheres em vítimas “ocultas” do sistema penitenciário brasileiro. É o que denuncia a Anistia Internacional, chocada com o episódio ocorrido no Estado do Pará, que ganhou o mundo para se transformar num dos mais vergonhosos atos de agressão aos direitos humanos.

Um recente documento da OEA - Organização dos Estados Americanos – denuncia que, em Mato Grosso do Sul, na cadeia mista de cidade de Amambai, um funcionário manteve relações sexuais com uma presa dentro da cela, na presença de dez mulheres. A impunidade chegou a um estágio que já não sentem necessidade de praticar o ilícito às escondidas. Tudo é perpetrado às claras, à luz do meio dia, na presença de comuns e de autoridades institucionais, que às vezes são parceiras e cúmplices.

O Brasil não é uma república de bananas. Temos lá muitos problemas, boa parte deles gravíssimos, mas vivemos uma democracia, temos instituições com certa solidez, um marco regulatório inspirado nos países mais avançados do planeta, várias leis carecem de adequações mas outras colocam-se dentre as mais atuais, similares às que vigoram em países como a Suécia e a Alemanha. Temos instituições e uma burocracia voltada exclusivamente para a proteção dos presos, dos reeducando e da sociedade. Os servidores do ministério público e do judiciário estão entre os que recebem os maiores salários do setor publico. E no caso da pequena L., o ministério público e a juíza local são cúmplices explícitos do massacre a que foi submetida a pequena criança.

Devem ser exemplarmente responsabilizados pela incúria e pela desídia.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Demagogia ou sensatez?

Nos tempos antigos alguns reis e mandatários adquiriram o hábito de percorrer seus povoados e o interior do país, disfarçados de mendigos ou pessoas comuns.

Saiam de seus palácios na surdina, longe do olhar da corte, do conhecimento de seus ministros, assessores, asseclas, dos batalhões que prestavam segurança pessoal, dos filhos e parentes e até mesmo das esposas, amantes e concubinas. Pé ante pé largavam a segurança e o conforto dos palácios para adentrar num outro mundo, onde viviam seus súditos.

Misturados ao povo simples, e sem que ninguém percebesse suas verdadeiras identidades e intenções, entravam nas filas, recorriam às repartições públicas, procuravam os burocratas reais, entabulavam conversas com vendedores, andarilhos, artesãos, desejando captar o verdadeiro sentimento popular, as queixas e reclamações, as esperanças e expectativas da plebe rude.

No dia seguinte, promoviam então uma verdadeira revolução interna. Muitos eram demitidos e muitos outros contratados. As repartições passavam por ajustes, eram desmembradas, aglutinadas, reordenadas e algumas simplesmente liquidadas. Da noite para o dia, novas instruções e ordens reais passavam a vigorar, e o povo conseguia um ar mais puro e límpido para respirar, a vida melhorava, bem devagar, é verdade, num movimento quase inercial, mas melhorava.

O hábito se perdeu com o tempo e nos dias de hoje os dirigentes e mandatários guardam distância quilométrica de qualquer aproximação – ainda que efêmera e tangencial - com a massa ignara. Preferem recorrer às estatísticas, aos números, às pesquisas, aos diagnósticos e estudos científicos produzidos por seus experts. O máximo que se permitem é, nos períodos eleitorais, promover alguns comícios e reuniões públicas, quando se deixam fotografar ao lado da gente simples, carregam criancinhas no colo, amparam senhoras grávidas, dão o braço em apoio às velhinhas... E mal são anunciados os resultados das eleições, voltam-se ao abrigo de seus palácios suntuosos e indevassáveis.

Tanta indiferença e ostentação talvez seja o motivo que inquietou o senador Cristovam Buarque levando-o a radicalizar sua ação política.

Surpreendendo seus pares e a opinião publica, o congressista apresentou no Senado da República um projeto que impede parlamentares, prefeitos, governadores e presidente da República de matricularem seus filhos em escolas particulares durante a educação básica.

O projeto de lei é simples. Quem tem cargo eletivo teria a obrigação de colocar filhos e demais dependentes em escolas públicas já a partir de 2014.

A proposta não apresenta e sequer faz menção à punição para os que ignorarem a lei. Mas em entrevista, o senador complementa: “as punições seriam duras e os parlamentares federais, por exemplo, poderiam estar incorrendo em quebra de decoro, passíveis portanto de cassação do mandato”.

Muitos fizeram chacota, incorporaram a iniciativa ao anedotário político, passaram a ter o senador na conta dos lunáticos, mas poucos se preocuparam em refletir sobre o assunto.

Porque os filhos da realeza brasileira não podem se misturar aos filhos dos trabalhadores, dos pobres, dos reles mortais?

Alguém duvida que, com a iniciativa implementada, com os filhos dos parlamentares, prefeitos, governadores e presidente da República freqüentando escolas da rede pública, o ensino e a educação brasileira dariam um salto de qualidade, mudariam para melhor, da água para o vinho e na velocidade de luz?

Muitos trataram de, apressadamente e no afogadilho, concluir:

- Tshá... pura demagogia.
- O problema é por demais complexo e não se resolve com medidas tão simplórias e artificiais.
- Esses políticos... sempre atrás dos holofotes...

Mas a pergunta que não quer calar continua vagando no ar, sem resposta:

Alguém duvida que, com a iniciativa implementada, o ensino e a educação brasileira dariam um salto de qualidade, mudariam da água para o vinho e na velocidade de luz?

Antônio Carlos dos Santos é criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Onde estuda Gasparzinho, o fantasminha camarada?


Em um de seus contos, “A Ilha Idílica”, Rodoux Faugh revela a existência da terra dos sonhos, o lugar onde bastava dar asas à imaginação para que o objeto do desejo se materializasse. Como na terra encantada os sonhos eram plenamente possíveis, naturalmente todas as pessoas eram saudáveis, educadas, felizes. Por mais difícil e complexo que fosse a fantasia, não havia realidade capaz de inviabilizá-la. O imaginário sempre estava a brincar com a materialidade. Por isso não havia dor de espécie alguma e, conseqüentemente inexistia a máfia dos laboratórios, da indústria farmacêutica, das sanguessugas... Crianças abandonadas, maltratadas ou coagidas pelos pais? nem pensar. Desemprego? não sabiam do que se tratava. Hipocrisia, estupidez, demagogia, falta de educação? como jamais ocorrera isso por lá, ignoravam simplesmente. A ilha era um pedaço diminuto do céu que, numa tempestade bravia, dera de atracar na terra. Com direito a anjos, trombetas, imortalidade, felicidade eterna (cerveja, que ninguém é de ferro!) e tudo mais que o bom Deus só reservara, nos primórdios da criação, para o paraíso.

Pois não é que o Brasil, às vezes, se torna em tudo semelhante à tal Ilha Idílica? Pelo avesso, é evidente. Ou de ponta cabeça, caso prefiram.

Quem já não viu – ainda que pela TV – um pervertido qualquer, marginal de primeira hora, latrocida ignominioso, jurar inocência e arrependimento com os olhos marejados, a expressão cândida de ternura, isso após ter cometido o mais vil e hediondo crime, banalizando entre nós o estado de absoluta barbárie? E ganha progressão de pena, indulto de natal e outros penduricalhos legais para logo, logo, tornar à arte de aterrorizar as pessoas e a sociedade.

Ou um desses parlamentares pegos com a boca na botija, chorando lágrimas de crocodilo e rememorando a infância sofrida, tragada pelo ofício de engraxate e de vendedor de quitandas e picolés? E são absolvidos no conselho de ética(¿) ou então renunciam ao mandato para retornarem redimidos(¿), rejuvenescidos, transformando a política em um cabaré de cego, um antro de prostituição e jogatinas.

Ou então um desses pregadores religiosos - a minoria, felizmente! – muito mais dados às coisas mundanas, aos prazeres terrenos que às virtudes do reino celeste, pois que se afeiçoam à pedofilia e ao charlatanismo? E por chicotear a boa fé da gente simples, ao contrário de desprezo e cadeia, são bonificados com missões na África ou designados para ‘evangelizar’ em outras freguesias, onde o conhecimento sobre as barbaridades que praticam não chega jamais.

Ao contrário da ilha idílica de Rodoux Faugh, onde só poderiam residir os justos e bons, em Pindorama, parece que são os maus que fazem história, que sempre vencem, que conseguem materializar seus insanos e nefastos desejos em detrimento dos sonhos e aspirações da comunidade.

E para isso valem do que se encontra ao alcance das mãos. Estatística, cálculos, equações complexas, números infinitesimais, indicadores múltiplos, dados e informações, a maquiagem que for para emprestar certo grau de seriedade às suas teses e proposições sorrateiramente urdidas.

A última jogatina acaba de sair do forno, da cumbuca, seu cheiro nauseabundo infecta o ar e chega a sapecar as narinas de tão quente.

O Ministério da Educação estima que pode haver um milhão e 200 mil alunos-fantasmas na rede pública. A conta é simples e seu resultado foi obtido quando os técnicos cotejaram os dados do censo da Educação Básica, versões 2006 e 2007.

Esses números não são definitivos e o ministro da Educação, Fernando Haddad, afirma que “a diferença de numeração é um erro que deve ser corrigido a partir da complementação dos dados do censo, que terminará no próximo mês”.

De qualquer forma, seja qual for a dimensão e amplitude do “erro”, todos sabemos da importância desses dados para as prefeituras municipais. O total de alunos é uma informação por demais relevante porque é um dos principais quesitos para a distribuição de verbas entre Estados e municípios.

Funciona mais ou menos assim: para terem ‘direito’ a um volume maior de recursos financeiros, muitos prefeitos e secretários de educação passam a exercitar as Ciências Ocultas Degenerativas, enamorando vampiros, assombrações e principalmente fantasmas (fantasminhas para ser mais preciso).

Com a picaretagem aplicam gatunagem ao quadrado: beneficiam-se de maneira criminosa, informando um total de alunos que jamais tiveram (recebendo por isso mais recursos do que teriam direito) e ao mesmo tempo retiram recursos dos municípios que efetivamente matricularam mais alunos (e que passam a receber bem menos do que a lei assegura).

Portanto, se algum dia adentrar uma sala de aula e percebê-la vazia, leve em conta, caro leitor, que apenas aparentemente as carteiras escolares estarão vazias. Na realidade, as salas estão abarrotadas de estudantes, as carteiras todas ocupadas. É que os coleguinhas de Gasparzinho são invisíveis para nós outros, reles mortais. Como? se os fantasminhas camaradas são computáveis para efeito de transferências de verbas? Ah e como são!?!?!?!


Antônio Carlos dos Santos é criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

domingo, 25 de novembro de 2007

Manuel Bandeira & Castro Alves


Continuamos na estrada com Manuel Bandeira. Ontem nos deleitamos com o poema ‘Os sapos’, e hoje vamos de ‘Teresa’. Com a companhia adicional de Castro Alves.

Teresa

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Agora vamos com a Teresa de Castro Alves:

O "adeus" de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos sec'los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - "Voltarei! descansa!. . . "
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"


Muito de semelhança, não é mesmo?! As considerações abaixo fui buscar no LEITURAS
Vale a pena ler.

“Semelhanças? Ambos os poemas registram três momentos entre o poeta e sua Teresa; ambos apresentam Teresa em diferentes situações de sua vida.

A partir daí começam os pontos divergentes que ainda mais aproximam os dois poemas.

Enquanto a linguagem de Castro Alves é trabalhada, a de Manuel Bandeira é intencionalmente simples; enquanto Castro Alves registra a perda amorosa, Manuel Bandeira apresenta o encontro. Veja-se que trilham caminhos opostos. Castro Alves, romântico, constrói uma ambiência de sonho a envolver a figura feminina; Manuel Bandeira, modernista, emprega uma linguagem despojada e nada acrescenta alem da figura da mulher que se revela a seus olhos.


Nas duas primeiras estrofes de Castro Alves, há uma aparente harmonia:

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus...

E amamos juntos... E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala...


E ela, corando, murmurou-me: “adeus”.


Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...

E da alcova saiu um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus...

Era eu... Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa...


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”


O “adeus”, nas duas estrofes, tem o significado de “até breve”. Nesse adeus se esconde a promessa de reencontro.

Na terceira estrofe, que registra a separação dos amados, o adeus se reveste de outro significado, mescla de medo e sofrimento, induzido pela expressão “em soluços” somada à timidez de “murmurou-me” que o antecede.

Passaram tempos... séc’los de delírio...

Prazeres divinais... gozos do Empíreo...

... Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei!... descansa!...”

Ela, chorando mais que uma criança,


Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


A quarta estrofe marca a separação definitiva:


Quando voltei... era o palácio em festa!...

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!...


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

O verbo escolhido pelo autor, “arquejar”, mais uma vez revela profundo sofrimento. Nota-se, porém, como em toda a obra lírico-amorosa de Castro Alves, a superioridade sugerida na figura masculina. É a mulher que fica pálida, chora, arqueja. Os termos que apresentam as emoções e ações masculinas sugerem força e erotismo.

Na primeira estrofe da Teresa de Manuel Bandeira, registra-se uma simples observação:

A primeira vez que vi Teresa

Achei que ela tinha pernas estúpidas

Achei também que a cara parecia uma perna.


O poema, numa clara alusão a seu hipotexto, inicia-se com o verso de Castro Alves adaptado à linguagem contemporânea: A vez primeira que eu fitei Teresa/A primeira vez que eu vi Teresa. Ao contrário do primeiro, porém, que destaca o despertar de um encantamento, o segundo parece registrar quase um desagrado.

Na estrofe seguinte, o segundo momento relatado – em contraste evidente com o poema-matriz, que nesse segmento aponta a separação –, insinua um indício de encontro na percepção que tem o autor da alma de Teresa revelada nos olhos que nasceram antes e ficaram esperando o resto do corpo crescer.

A terceira estrofe, também a terceira parte do poema, confirma o encontro. Nesse encontro, tal como no início dos tempos bíblicos, a vida recomeça, num contraste marcante com o poema de Castro Alves que, em sua parte final, expõe a ruptura definitiva.

Na diferença, a semelhança. Não uma diferença qualquer, mas uma diferença pontuada, intencional: o relato de um encontro, não o de um desencontro.

Em ambos os poemas, a exploração do tempo, apresentado em ordem cronológica, para marcar o processo gradual dos momentos narrados.

sábado, 24 de novembro de 2007

Para alegrar a alma: Manuel Bandeira


Poesia é sempre bom. Em qualquer circunstância. Sobretudo da lavra de um dos maiores modernistas brasileiros: Manoel Bandeira. Pernambucano do Recife, nasceu em 1886 vindo a falecer em 13 de outubro de 1968. O poema abaixo foi lido por Ronald de Carvalho na segunda noite da Semana de Arte Moderna. Era uma quinta feira, dia em que se apresentaram também Guiomar Novaes e Menotti del Picchia. Enquanto interpretava ‘Os sapos’ a platéia agitava, tudo fazendo para atrapalhar a leitura do texto que, como se vê, criticava de maneira viril todos os que se guiavam pela escola do parnasianismo. Deleitem-se com a preciosidade literária:

Os sapos

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— "Meu pai foi à guerra!"
— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!

O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.



Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . ."

Urra o sapo-boi:
— "Meu pai foi rei" — "Foi!"
— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!"

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo."

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— "Sei!" — "Não sabe!" — "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Reminiscências do teatro brasileiro – de Anchieta ao Oficina


O teatro brasileiro por séculos se comportou como mero reprodutor do teatro europeu e posteriormente, do norte americano. Vejamos como a história registra esta estreita relação.

Tão logo os missionários católicos chegaram ao Brasil, deram início a um processo de conhecimento sobre a vida e o comportamento dos autóctones. Era a premissa básica para proceder a catequização.

O caráter libertário dos indígenas, expresso nas mais variadas de suas manifestações, como a dança, o canto, as festas e ritos, despertou nos missionários a utilização do teatro enquanto instrumento de aculturação e dominação.

José de Anchieta, no século XVI, através de alguns autos, transforma-se na mais proeminente figura deste tipo de teatro. O cerne da proposta dessa manifestação consistia, resumidamente, em impor a “salvação” dos indígenas para Deus, o que se daria a partir da assimilação dos valores cristãos. Era, portanto, um teatro de propaganda religiosa. Os textos estruturalmente simples representavam sempre o índio sendo vítima das investidas de Deus e do diabo, culminando com a vitória do primeiro sobre o segundo.

No afã da Companhia de Jesus transformar os “selvagens” em “civilizados”, os “perdidos” em “salvos”; ignoraram por inteiro a cultura, a identidade, a liberdade e a independência dos indígenas. Foi um brutal ato de selvageria como de resto são os processos de colonização.

O caráter festivo dos indígenas aliado ao fato de ser o ritual católico extremamente estilizado deu ao jesuíta o ingrediente formal para um inesgotável trabalho projeção dramática.

A estruturação desta dramaturgia de catequese é bastante incipiente. O ciclo é fechado invariavelmente no erro (pecado), na constatação dele (expiação), desfechando na redenção (perdão).

Para sedimentar o dualismo (bem X mal), o diabo era representado com o nome das tribos inimigas, conduzindo para o campo real, o imaginário coletivo. Além deste recurso, muitos outros foram utilizados. Anchieta chegou a escrever autos inteiramente na língua tupi, como forma de buscar uma identificação mais profunda com sua “platéia”.

As apresentações tinham caráter festivo, mobilizando toda a aldeia para a apreciação do evento. Dos autos que José de Anchieta escreveu, alguns merecem um destaque especial. “Auto da Pregação Universal”, “Dia de Assunção”, “Quando, no Espírito Santo, se Recebe uma Relíquia das Onze Mil Virgens” e “Na Festa de São Lourenço”. Esta última escrita conjuntamente com o padre Manoel do Couto.

Posteriormente o teatro deixa de ser unicamente instrumento de catequese dos indígenas. O universo se amplia. Passa também a ser utilizado na educação de colonos brancos, mamelucos, caboclos...



No período colonial há o registro, por parte dos historiadores, de um hiato de cerca de dois séculos, em que nossa produção teatral fica estagnada. As razões do interregno talvez se expliquem pelas guerras decorrentes das invasões holandesa e francesa. Mas sem dúvida, as modificações de ordem política verificadas no país contribuíram para a existência do buraco negro.

Há registro, porém da dramaturgia de Manoel Botelho de Oliveira (1637-1711). O comediógrafo nasceu no Brasil, mas a estreita ligação mantida com a Europa interferiu acentuadamente em sua produção artística. O processo de colonização cultural desconheceu limites. Botelho de Oliveira escreveu somente em espanhol, imitando os autores daquele país.

Após esta passagem, apenas o século XVII vai registrar a presença do teatro, com um luso-brasileiro: Antônio José da Silva - o judeu. Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, em 1705 - veio a falecer em 1739 - a vida e obra deste escritor estão umbilicalmente vinculadas a Portugal. Naturalmente isto o distancia dos problemas brasileiros e o teatro resultante sofre fortes influências dos teatros francês e italiano.

A vida deste dramaturgo é marcada por um suceder de acontecimentos sinistros. Quando tinha apenas oito anos, sua mãe é acusada de judaísmo, o que motiva a transferência de toda a família para o exterior. Todavia, o episódio não foi suficiente para aplacar a perseguição da Igreja. Aos trinta e quatro anos de idade, o próprio Judeu perde a vida, queimado pelo fogo “santo e purificador” da Inquisição.

Na segunda metade do século XIX, mais precisamente em 4 de outubro de 1838, a companhia de teatro de João Caetano estréia “O juiz de Paz na Roça”, de Martins Pena. Estrondoso sucesso. O fato de escrever sobre o cotidiano, retratando os personagens típicos do povo, de provocar o riso fácil e despretensioso, foram os ingredientes utilizados por Martins Pena para conquistar o sucesso.

Nascido em 1815, Martins Pena escreveu dos 22 aos 33 anos - quando morreu - vinte comédias e seis dramas. É uma produção surpreendente onde se destacam “O Cigano”, “O Usuário” – uma critica as Câmaras Municipais, “Comédia sem Título”, “O Caixeiro da Taverna” - abordando a carestia e “Os Três Médicos” - onde critica vigorosamente a classe médica.

A técnica empregada nas comédias de Martins Pena passa invariavelmente pela utilização em abundância do dramalhão. A estrutura das obras se utiliza sempre de recursos fáceis e triviais, primários e ingênuos. Uma outra característica de relevo é que seus textos ignoram por completo o cenário político-social decorrente da estrutura colonialista então vigente. Deixava-se conduzir por abordagens simplistas, gracejos triviais como é característico do teatro de costumes.

Em 1808, as investidas napoleônicas forçam a transferência da corte para o Rio de Janeiro. O Imperador franqueia os portos e o livre comércio é estabelecido. Os ingleses exultam e agradecem. Novos direitos políticos são conquistados e com o crescimento da economia, se verifica também o desenvolvimento da cultura e da intelectualidade. Jornais passam a circular, museus, escolas superiores e bibliotecas são criadas. A vida lateja e pulsa no seio das elites.

Nessa época, é freqüente a presença de companhias teatrais portuguesas no Brasil. Procurando fugir aos esquemas dessas companhias, João Caetano cria em 1833 uma companhia brasileira.

João Caetano - ator e posteriormente produtor - mereceu respeito e consideração de seus contemporâneos. Até mesmo os desafetos lhe reconheciam talento. Em 1861, pouco tempo antes de morrer, edita “Lições Dramáticas”, onde esquematiza seus estudos, experiências e concepções teatrais. Aqui, João Caetano aborda um tipo de preocupação, que deve ser extensiva a todos os atores, no sentido de exercer pleno domínio sobre a emoção. Chega a descrever um episódio inusitado: na apresentação de um espetáculo, enforca uma atriz levando-a a asfixia. Segundo seu relato foi necessária a intervenção da platéia e também dos demais atores, que acorreram em auxílio à atriz.

Este dilema entre a emoção e a razão permeia toda a história do teatro.

Há também em João Caetano uma preocupação no sentido de delinear psicologicamente suas personagens. Na peça “Gargalhada”, interpretando o papel de André, construiu a personagem através de vários estudos e laboratórios que envolveram reiteradas visitas a hospitais psiquiátricos para uma observação mais acurada dos enfermos.

O pequeno público existente então, não possibilitava que os espetáculos permanecessem por muito tempo em cartaz. Cada trabalho era apresentado no máximo quatro vezes.

Os artistas começam a reivindicar do governo auxílio na propagação da atividade cênica. A preocupação em disseminar o teatro e os diversos obstáculos que se colocavam à frente, não raro, gerava proposições inusitadas, algumas estapafúrdias. Uma delas solicitava a terminante proibição de apresentações circenses - com animais selvagens ou domesticados, nos dias em que houvesse alguma apresentação de teatro. Uma outra solicitava a proibição de apresentações das cias. estrangeiras enquanto estivesse em cartaz um espetáculo da Cia. Dramática Nacional.

Pelas sugestões percebe-se que as dificuldades enfrentadas atualmente pelos produtores de cultura vêm de longa data.

A primeira tragédia abordando questão nacional deve-se a Gonçalves de Magalhães. Baseando-se na vida do Judeu, escreve “Antônio José” ou “O Poeta e a Inquisição”. O espetáculo foi montado pela companhia de João Caetano.

Em 1875, desgostoso com a falta de oportunidades para os dramaturgos brasileiros, José de Alencar faz um enérgico protesto: “Na alta roda ouve-se a moda de Paris, e como em Paris não se representam dramas nem comédias brasileiras, eles, ces messieurs, não sabem que significa teatro nacional”.



O desabafo foi feito logo após o fracasso da estréia de sua peça “O Jesuíta”.

A crítica de José de Alencar não perdeu a atualidade, e nos remete ao já consagrado santo de casa não faz milagre. Nas regiões menos desenvolvidas do país este quadro se agrava, e os artistas só adquirem certo respeito, quando obtém alguma ressonância no eixo Rio-São Paulo, culturalmente “mais avançado”. É o velho conflito ‘colonizado X colonizador’ triunfando sob um novo ângulo.

João Caetano falece em 1863. Na pobreza. Como de resto ocorre com a esmagadora maioria dos artistas da terra tupiniquim. Gonçalves Magalhães desaparece no naufrágio do navio em que viajava, em 1864. E como também é próprio da terra brasilis, só obtém consagração após sua morte.

A Semana de Arte Moderna de 1922 ressalta o trabalho de Oswald de Andrade e as décadas de quarenta e cinqüenta consolidam bons autores. “Deus lhe Pague” de Joracy Camargo oferece a perspectiva da produção de um teatro de cunho social.

Em 1938, Paschoal Carlos Magno funda o Teatro do Estudante do Brasil.

Posteriormente aparece a troupe “Os Comediantes”, também constituída de atores amadores. Por um curto período “Os Comediantes” experimenta o profissionalismo. O fracasso financeiro faz o Grupo recuar à posição inicial.

O objetivo básico do teatro deste período é reformar a estética do espetáculo, desenvolver um trabalho grandioso, no estilo das companhias profissionais. É esta obsessão pela forma perfeita que dá origem à especificação das tarefas. Surgem os diferentes agentes do espetáculo: o iluminador, o cenógrafo...

Para fazer frente à produção européia e norte americana, o industrial italiano Franco Zampari cria em 1948, o TBC - Teatro Brasileiro de Comédia.

Inicialmente constituído por amadores, o TBC logo se profissionaliza e dá início a uma trajetória promissora.

A consolidação do parque industrial de São Paulo exigia também a estruturação de uma industria cultural. O TBC se propõe a enfrentar este desafio partindo do marco zero, ignorando a produção existente até então. Para isto a direção dos espetáculos fica nas mãos dos estrangeiros.

A Companhia não tinha maior preocupação com o político e social. Estes aspectos, quando abordados se restringiam ao espectro do humanismo universal.

Em contraposição, surge em São Paulo um movimento nacionalista expresso no ARENA com “Eles não Usam Black-Tie”, de Guarniere, que por um ano permanece em cartaz.

A forma e o gesto do teatro pelo teatro - postulados do TBC, agora encontra uma resistência à altura. Surge um teatro proletário que referencia as lutas sociais com um enfoque jamais ousado.

Também o OFICINA surge com uma proposta inovadora. Procurou trabalhar para um público composto basicamente por estudantes e setores da classe média. Alcança uma determinada fase da produção em que o teatro é denominado assembléia, com o grupo se colocando - socialmente - no mesmo ângulo de visão do espectador. Foi uma experiência de extrema importância, em que pese seu caráter pretensioso e autoritário, haja vista que o público não dispõe de mecanismos para desenvolver uma atuação que o aproxime tecnicamente do ator: não ensaia, não realiza oficinas, mantém-se ao largo dos exercícios e laboratórios...

O OFICINA conclui este ciclo de sua existência com uma proposta revolucionária: sair das salas e ganhar as ruas. Posteriormente as atividades do grupo se disseminaram para alcançar outras manifestações artísticas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Quando a cadeia resta como única alternativa


Um vendaval varre o país, de costa a costa, reduzindo a pó tudo que se coloque à frente. A destruição causada é pior que a provocada pelo tsunami asiático ou pelo furacão Katrina.

O que vem corroendo e solapando o Brasil tem efeitos muito mais devastadores que o somatório de terremotos, maremotos, erupções vulcânicas, tornados e furacões. Todos os dias, um dia sim e o outro também, as primeiras páginas dos grandes jornais estampam a insidiosa tragédia brasileira. Nos noticiários televisivos as cenas se desenrolam numa repetição maquiavélica, abjeta, repugnante. Nas fábricas, nas escolas, nos bares, nas esquinas e nos encontros sociais, a conversa é uma só - envolta num clima denso onde se misturam revolta, indignação e vergonha: a corrupção que grassa e consome as energias do país; a corrupção avassaladora e incontrolável.

É cada vez mais comum assistir na TV políticos, juízes e empresários algemados, rostos cobertos por uma providencial vestimenta, sendo aprisionados em suas mansões luxuosas, em seus iates cinematográficos.

Ao contrário de diminuir, a corrupção vem crescendo, de forma assustadora, no país. E este crescimento ignora o fortalecimento de organizações da sociedade civil e de instituições importantes para a democracia como o Ministério Público, a Controladoria Geral da União e a Polícia Federal.

Uma novidade roubou a cena nesta ultima versão da tragédia nacional. A máscara - por séculos ostentada pelo poder judiciário – caiu, e o semblante que emergiu por detrás do adereço, aterroriza, amedronta, exala podridão. Uma das mais recentes ações da Polícia Federal, a Operação Hurricane, está mostrando que a imparcialidade da justiça não tem passado de figura de retórica. Bastaram algumas investigações para descobrir que os bingos continuavam funcionando graças às liminares obtidas às custas de propina, tráfico de influência e muita corrupção.

Bem recentemente, a nação assistiu estarrecida ao desenrolar de mais um escândalo: a Operação Navalha, que derrubou um ministro de estado e colocou o Congresso Nacional pisando em brasas.

Não é por menos. Os políticos estão sempre, invariavelmente, no olho do furacão. Na máfia que ficou conhecida como das sanguessugas, 72 deputados e senadores foram acusados. Representavam, nada mais, nada menos, que nove diferentes partidos políticos. No mensalão de Marcos Valério, Duda Mendonça & Cia., 22 parlamentares representando oito agremiações políticas foram envolvidos. Na Operação Navalha, até o momento, nove partidos já foram pegos com a boca na botija, com as mãos e os pés inteiramente atolados na lama.

A corrupção custa anualmente ao país R$ 1,5 bilhão. É dinheiro que poderia estar alavancando a economia, gerando renda, oportunizando empregos. Mas vai parar direto nas contas de larápios profissionais, ladrões de colarinho branco, marginais que não se incomodam com os indecentes indicadores sociais; com a fome, a miséria, o desemprego e a exclusão que alcançam cada vez mais brasileiros.

A corrupção não é um problema restrito ao Brasil. Ela ocorre em todos os países do mundo, sem exceção. Mas nos países que decidem combatê-la ferrenhamente, o desenvolvimento floresce. Estudos promovidos pelo Banco Mundial não dão margem para dúvidas: os países que implementam medidas de combate e controle da corrupção asseguram, no longo prazo, aumento da renda per capta em até 300%, além de reduzir a mortalidade infantil em 66%.

Mas nada disso é capaz de demover políticos, empresários e juízes quando seduzidos pela cantilena da corrupção. Para esta categoria de pessoas o que resolve mesmo é cadeia. De preferência cumprindo pena naqueles presídios rigorosos, onde foi instituído o regime disciplinar diferenciado. Afinal, cadeia não foi feita para bandido?

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 21 de novembro de 2007


Um Brasil de desperdícios

O desperdício é um mal que grassa entre nós. E nas dimensões que vem ocorrendo, reflete o nível e a qualidade de nosso desenvolvimento: sofrível, perdulário, indigente.

Para onde se mira o olhar, qualquer que seja a direção, o horizonte se apresenta sempre fosco e nublado, tomado por uma fuligem densa que impede a claridade e o sopro do ar. A paisagem é emoldurada por um deserto inóspito e o que se vê na tela é desperdício, puro desperdício, nada que escape à noção de desperdício.

Na indústria, no comércio, na prestação de serviços, não há setor da economia que consiga se manter ao largo dos gigantescos e avassaladores tentáculos do desperdício.

E não se trata de coisa pequena ou figura de retórica. Os índices são alarmantes, vergonhosos, indecorosos para dizer o mínimo.

Na construção civil, por exemplo, a conta chega a um patamar incestuoso: 30% de desperdício. Seria como se, de cada dez edifícios construídos, três fossem escolhidos para serem implodidos, destinados aos containers de lixo, computados como custo desperdício. Mas em alguns setores específicos da engenharia civil, os índices deixam de ser alarmantes para cair na vala do “acredite se quiser”. É o caso de alguns materiais como argamassa, cujas perdas, com freqüência, chegam à casa dos 90%. Isso mesmo, 90%! E não há aqui o mínimo de exagero. Esses dados foram obtidos com rigor científico. Resultam de pesquisa realizada pela UFMG em conjunto com 15 outras universidades brasileiras, levantamento amplo, largo, realizado em 12 unidades da federação.

Na agricultura, o IBGE retirou um véu que escondia a realidade medonha do calvário. O Brasil jogou na lata do lixo 81,5 milhões de toneladas de grãos de arroz, feijão, milho, soja e trigo nas fases de pré e pós-colheita das safras agrícolas entre 1996 a 2003.

Com um problema tão candente como a fome e a subnutrição, o país consegue a proeza de jogar fora mais alimentos do que consome. Quando se trata de hortaliças, por exemplo, a soma anual de desperdício chega a 37 quilos por habitante, enquanto o consumo por cidadão é de dois quilos a menos, 35 quilos de alimentos por ano. Só na Central de Abastecimento do Rio de Janeiro o desperdício diário é de 40 toneladas de alimentos. Não custa enfatizar, desperdício que ocorre em um único dia e que se repete invariavelmente.

Um outro setor estratégico também apresenta diagnóstico de absoluta gravidade. O desperdício chega a ser um escândalo para qualquer um dotado de uma mente medianamente sã. Nada menos que 45% da água tratada para abastecimento das 27 capitais brasileiras é desperdiçada antes mesmo de chegar ao consumidor. Traduzindo para o bom português, quase metade da água potável produzida no país não chega, sequer, às torneiras do consumidor. São 6,14 milhões de litros do líquido precioso perdidos dia sim e o outro também, volume suficiente para abastecer 38 milhões de brasileiros diariamente.

Tanto desperdício decorre, naturalmente, de um sem número de problemas, a maioria deles, de uma forma ou de outra, relacionada a questões de logística e infra-estrutura física, mas, fundamentalmente relacionados à educação e a cultura. Sim, porque um certo grau de desperdício é administrável e ocorre mesmo nos países desenvolvidos. Mas no volume e na dimensão que o problema se verifica por aqui, só mesmo nos países periféricos.

Muito do desperdício resulta de um caldo cultural direcionado para o consumismo, o esbanjamento, a completa ignorância sobre o que seja reduzir, reutilizar, reciclar. A educação não é a panacéia capaz de per si resolver – qual uma varinha mágica – todos os nossos problemas. Mas não resta dúvidas que sem ela, o destino sempre nos parecerá ingrato. E o desperdício sempre será maior.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Os dólares do sacrifício

Quando o sapato aperta, o bolso morde e a esperança fica rarefeita, a solução para muitos se restringe à porta de saída. Literalmente.

Para responder aos ininterruptos períodos de crise institucional e financeira, para fugir do desenvolvimento marginal, dos indomáveis índices de desemprego, de uma torpe realidade inimiga dos sonhos, não poucos brasileiros se vêem na contingência de buscar outros destinos, singrar mares distantes, mirar rincões onde a vida não refugue as possibilidades da existência.

Houve tempo em que o espírito aventureiro era o grande motor capaz de promover uma mobilidade social dessa envergadura – verdadeiro processo social que nada deve a qualquer outro, posto que o número de brasileiros que emigram cresce vertiginosamente. Mas nos atuais dias de tormenta e borrasca, a força propulsora atende pelo nome de sustentabilidade econômica. É uma peleja derradeira para escapar da mediocridade, da vida vegetativa, insossa e miserável. Se é para embalar e perseguir os sonhos e os projetos de vida, então qualquer sacrifício vale a pena, até mesmo o de se deparar com a discriminação hedionda e a insana repressão das polícias-cães de fronteira. A lição aprendemos com Fernando Pessoa:

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”.


Até chegar ao destino e se estabelecer há que se encarar um espelho em que a imagem refletida é a da via crucis, “(...) Tem que passar além da dor”. É como ser tragado por um buraco negro, atravessar um campo de guerra, ser lançado no olho do furacão. O que seria pior que atravessar um campo minado permanentemente bombardeado com bombas incendiárias, rajadas de vento e metralhadora disputando o que restou do espaço milimétrico?

Mas tão logo se estabelece, a primeira ação do desterrado é encaminhar os dólares do sacrifício para os que ficaram. E fazem o dinheiro percorrer o caminho inverso para aliviar as agruras e sofrimentos dos familiares. A moeda conquistada chega para irrigar uma economia moribunda criada para servir aos interesses da corrupção e do clientelismo.

Enganam-se os que imaginam que os recursos enviados pelos conterrâneos a terra brasilis é coisa de pouca monta, tesouro de latão e velhacarias.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID - e o Fundo Internacional da ONU para o Desenvolvimento Agrícola – FIDA – juntaram-se para produzir o relatório Sending Money Home (Mandando Dinheiro para Casa). As estimativas que constam neste documento dão conta de que, apenas no ano passado, os brasileiros que residem no exterior enviaram para o Brasil remessas equivalentes a um total de US$ 7,4 bilhões, algo em torno de R$ 13,5 bilhões. Os valores representam um incremento de 13,5% quando cotejados com os verificados no ano anterior. É um volume de recursos que representa mais de 1/3 de tudo o que o governo espera arrecadar no ano só com a (malfadada) CPMF.

No mundo, os países que mais receberam remessas de seus exilados foram a Índia, US$ 24,5 bilhões, seguido do México, US$ 24,2 bilhões e da China, US$ 21 bilhões.

Na América do Sul, o Brasil ostenta a mais elevada taxa de remessas.

O mais curioso é que, segundo o BID e o FIDA, as remessas mundiais - correspondentes a US$ 300 bilhões - excedem substancialmente o total de doações e investimentos efetuados por bancos de fomento e instituições de desenvolvimento que investem em países de economia periférica. As doações materializadas por essas entidades em 2.006 mal chegaram à casa dos US$ 104 bilhões.

É o próprio diretor geral do Fundo de Investimento do BID, Donald Terry, quem reconhece a fragilidade das políticas de apoio levadas a efeito pelos bancos e agências de desenvolvimento. Quando questionado sobre o fato do valor das remessas sistematicamente exceder o de investimentos, é categórico: ''o que quer que nós tenhamos feito por esses países, isso não foi suficiente''. E complementa: “as remessas hoje em dia atuam não somente como uma forma de atenuar a pobreza, mas como um fator de desenvolvimento que deverá indicar novas formas de ação para bancos de fomento e organizações assistenciais.

Portanto, não nos esqueçamos de agradecer aos familiares dos desterrados que, não obstante distantes da terra-mãe, fazem mais pelo Brasil do que muitos demagogos e oportunistas que se arvoram patriotas defensores dos interesses nacionais.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Jerzy Grotowski e seu teatro rico

“O ator deve decifrar todos os problemas de seu próprio organismo que lhe sejam acessíveis. Deve saber qual o meio de dirigir o ar, conduzindo o som para determinada parte de seu corpo, produzindo sonoridades que parecerão ter sido ampliadas por diferentes tipos de ressoadores.”



Polônia foi o país em que Jerzy Grotowski nasceu. Estudou na escola dramática estatal de Cracóvia e no Instituto de Artes Dramáticas Lunacharsky, em Moscou. Em 1959 passou a compor o Teatro Laboratório, fundado nesse mesmo ano, em Opole. Criou uma nova metodologia teatral por ele denominado de Teatro Pobre, defendendo uma maior participação do público no espetáculo. Em 1965 fundou em Varsóvia o Teatro Laboratório Polonês. Foi professor da Escola Superior de Arte Dramática de Marseille e fundou a American Institution for Research and Studies into the Oeuvre of Jerzy Grotowski, para popularizar sua escola teatral nos Estados Unidos. No ano de 1982 mudou-se para os Estados Unidos lecionando na Universidade de Columbia e depois na universidade da Califórnia. No ano de 1985 transfere-se para a Itália, país aonde veio a falecer em 1999.

Muitos querem acreditar que Grotowski, Artaud e o Living Theatre integram uma só escola. Ledo engano.

Artaud e o Living Theatre consagram a anarquia e a intensidade, a explosão total. Já na obra de Grotowski o que vemos é a experimentação do trabalho meticuloso, o artesanato, o completo domínio sobre todas as etapas da produção dramática.

Os primeiros encenadores – Antonin e J. Malina - incidem diretamente sobre a platéia, provocando-a, instigando-a. Já Grotowski utiliza de artifícios sutis, importunando-a de forma indireta, através da inquietude do espetáculo.

Grotowski só conheceu Artaud e sua mais completa obra - O Teatro e seu Duplo - quando já tinha desenvolvido as premissas do Teatro Pobre. Apesar das diferenças entre as metodologias de um e de outro, impressiona o número de pontos de convergência. É como se o diretor polonês tivesse se encarregado de dar materialidade aos sonhos do encenador francês.

Em ambos percebe-se uma obstinada busca pela superação do texto enquanto trampolim, priorizando sua utilização “como material para a construção do som”. Marca também a obra de ambos a investigação sobre uma linguagem corporal que conduza ao transe; o inconformismo com o palco tradicional; a procura por alternativas que alterem a relação palco-platéia e o resgate do aspecto sagrado da representação teatral.

Mas o encenador polonês empresta a estes componentes comuns características que tornam seu movimento único, singular, sem paralelo, diferenciando-se tanto do Teatro da crueldade como do Happening.

Do ator exige entrega total em sua busca pela expressividade corporal: “o ator ao desempenhar deve fazer uma doação total de si mesmo”, afirma Grotowski (“Em busca de um teatro pobre”).

Os antigos mitos – “arquétipos” para Grotowski – são ressuscitados de forma exasperada, num embate brutal a afligir nossas superstições, numa batalha sem tréguas contra nossas referências existenciais, nossos tabus e paradigmas.

Uma diferença marcante do Teatro Pobre é a limitação da ação: preferência pelos pequenos públicos, pelas platéias diminutas, procurando assim estabelecer uma interação mais profunda entre os atores e a assistência.

A idéia básica é envolver o espectador num clímax perturbador que o levaria a se conhecer melhor. Decorre daí a preocupação com um espetáculo que se caracterize pela intensidade e perfeição.

Os componentes estruturados para enriquecer o jogo teatral - como a iluminação, a cenografia, a música e a maquilagem - são descartadas para, na visão de Grotowski, fazer emergir e dar lugar à verdadeira teatralidade. Dessa forma, ao contrário de criar e estruturar uma personagem, o ator passa a se incumbir de descobrir-se através dele. O ator é o centro de tudo. E tudo passa pelo físico, pelo corpo submetido a rigoroso treinamento, pela expressão corporal. Para um corpo plástico e multi-presente, qual a razão de adereços e acessórios como jogos de luz, maquilagem e música? Para chegar a este ator, Grotowski submete seu grupo a seções diárias de hata-ioga e a psicanálise.

Neste ponto as diferenças com Artaud chegam ao extremo, porque o criador do Teatro da Crueldade preconizava o “espetáculo integral”, com todos os seus elementos.

O encenador polonês descartou os componentes do teatro e mais tarde, já no final de sua existência, chegou a descartar o próprio espectador – agora denominado testemunha – a ponto de alguns questionarem se o que Grotowski exercitava ao final da vida seria mesmo manifestação teatral.

De qualquer forma, a denominação encontrada pelo encenador polonês para batizar sua escola teatral não passa de tosca ironia. Mais apropriado seria renomeá-lo como O Teatro Rico de Jerzy Grotowski.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de produção do teatro popular de bonecos Mané Beiçudo e da tecnologia de planejamento estratégico Quasar K+

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Pesquisa rima com Desenvolvimento?

Inovação é a palavra chave quando se trata de romper a letargia, promover mudanças, criar movimento e emular uma cultura desenvolvimentista. Manter uma postura de intensa afinidade com as inovações é questão de sobrevivência num primeiro instante, e de sustentabilidade no decorrer do processo de vida, seja individual, coletivo ou institucional.

Países que se destacam no cenário mundial e que continuam avançando, apesar da desmedida concorrência imposta pela globalização, adotam uma cultura em que as inovações ocupam lugar de destaque, são estimuladas, desejadas, conquistadas ainda que implique amargar sacrifícios fora do normal.

O contrário acontece na outra extremidade. Países que mantém certo desdém para com as inovações, invariavelmente amargam a mediocridade, permanecem aprisionados ao atraso, não conseguem romper com o subdesenvolvimento, acabam ocupando as últimas posições sempre que algum tipo de comparação entre as nações é estabelecido.

Parte considerável dos problemas brasileiros decorre da inexistência de uma ambientação e de uma cultura favorável às inovações. Resulta, sobretudo, da fragilidade dos canais de comunicação e do número irrisório de parcerias entre as universidades e a iniciativa privada.

É que no Brasil, os setores continuam estanques, falando línguas diferentes e enxergando nos objetivos tão somente o que afasta e conflita: a universidade investindo em pesquisa e gerando conhecimento, e as empresas produzindo e comercializando produtos e serviços. Neste diálogo de surdos-mudos vigora muito de preconceito. O mercado acreditaria que a universidade só prioriza pesquisa pura sendo incapaz de correlacioná-la com as necessidades imediatas do mundo dos negócios. E a academia – acreditariam os empresários - manteria um olhar enviesado sobre a economia visto que menospreza e demoniza o capitalismo e o lucro.

O resultado desta equação?

Enquanto nos Estados Unidos e na Coréia do Sul 80% dos cientistas trabalham em empresas, por aqui não ultrapassam 16%.

Com as empresas empregando um nível tão limitado de cientistas, como esperar resultados diferentes, como ambicionar uma cultura inovadora e o desenvolvimento tecnológico? De que vale investir tão somente em pesquisa e produção de conhecimento que não se materializam em produtos e serviços baratos e de qualidade para a população? Por outro lado, num cenário baseado na concorrência globalizada, de que vale produzir de forma perdulária, obsoleta, mantendo-se ao largo das inovações que amortecem a competitividade?

Temos que juntar as duas pontas deste novelo. Para o bem do país. Este é o desafio para reverter a baixa inovação no setor produtivo nacional: estabelecer sólidas parcerias entre as universidades, institutos de pesquisa e iniciativa privada.

Uma das conseqüências mais imediatas da distorção que aqui se verifica é que as atividades de pesquisa e desenvolvimento têm ficado restritas ao setor público. Uma outra, esta positiva, é que cresce o número de empresas que instituem, na alta direção, o cargo de Diretor Científico.

Também a legislação tem sido aperfeiçoada, o que deve ajudar na sedimentação de um ambiente favorável à Pesquisa & Desenvolvimento.

Considerando nossa participação em publicações especializadas, o Brasil ocupa a 17ª posição dentre os maiores produtores de ciência no mundo (dados de 2.005), o que não é pouco considerando os problemas e gargalos existentes.

Resgatando a interação universidade/empresa e aprimorando o marco regulatório, estaremos oxigenando o setor para que, no Brasil, Desenvolvimento jamais deixe de rimar com Pesquisa e criação científica.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O que aprender com os Vikings?

A Dinamarca é a terra mãe de Hans Christian Andersen, autor de O Patinho Feio, a estória que nos encantou quando crianças. E entre este país do norte europeu e o Brasil existe uma distância bem longa, talvez só medida em anos-luz.

“Eu diria que a educação é a metade do nosso capital social”. Esta é uma frase cunhada por Marie-Louise, dirigente da Confederação Dinamarquesa dos Sindicatos. E expressa o sentimento dos dinamarqueses quando o assunto é educação.

Na Dinamarca o cidadão entrega ao governo metade do seu salário. De tudo o que ganha em um ano de trabalho, 50% do que – com esforço e suor - consegue amealhar, vai parar direto nas mãos do governo, a título de imposto de renda. E por incrível que pareça, não há quem reclame ou brade por algo que se assemelhe à nossa (sempre decantada e postergada) reforma tributária. A razão é simples: tudo funciona, o governo se movimenta como um motor turbinado de última geração, com o Estado devolvendo à população o que dela extrai.

Excluindo os recursos destinados à pesquisa, investe nada menos que 6,5% do seu Produto Interno Bruto em educação. No Brasil, os investimentos governamentais no setor chegam capengando a 4,5% do PIB. Quando se coteja o tudo que um realiza e o efêmero que o outro promove é que se percebe o quão monstruosa é esta diferença. Um encontra-se no apogeu do progresso, com os cidadãos gozando o bem estar e a fartura que só desenvolvimento sustentável propicia e consegue universalizar. Já o outro... todos sabemos, e sentimos na pele, no bolso, na imobilidade...

Governo e sociedade do país escandinavo introjetaram a educação em sua cultura institucional, coletiva e individual. Na realidade ‘respiram’ educação nas proposições e ações que entabulam. E a priorizam de tal forma que é oferecida gratuitamente, não apenas no nível fundamental, mas em todos os níveis, em todas as fases do ensino, da creche que aconchega os bebês ao pós-doutorado que afina a qualidade acadêmica dos pesquisadores.

Tanto como a educação – universalizada, gratuita e de qualidade - também a saúde é integralmente custeada pelo Estado.

A origem da Dinamarca remonta à pré-história. O povo que lá habita, logo após o século XI, passou a ser conhecido como Viking. Chegou a conquistar boa parte da Europa controlando a Inglaterra, Suécia, Noruega, parte das Ilhas Virgens, Islândia, partes da costa Báltica e ainda o que hoje compõe toda a região norte da Alemanha.

Esta longa trajetória que se origina na pré-história é que legou aos herdeiros dos Vikings a capacidade de reconhecer e dar toda importância à educação. É a melhor estratégia – sabem eles - para honrar as conquistas de seus antepassados. A melhor forma – aprenderam eles - de dominar o presente para que os filhos e descendentes tenham lugar assegurado no futuro. Caso refletisse sobre o sucesso desta nação encravada no norte da Europa quem sabe o Brasil aprendesse alguma coisa. Como alento, o ensinamento de Rodoux Faugh: “(...) sempre é tempo quando o desafio é reconstruir o tempo para domá-lo, dominá-lo, como o mágico que domina a moeda, fazendo com que caminhe e desapareça dentre os dedos da mão”.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro, escritor e professor. Criou a metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sábado, 10 de novembro de 2007

A hipocrisia social

Adriel tinha apenas sete anos de idade quando foi estupidamente colhido por uma caminhonete desgovernada que entrou na contramão. Morreu abraçado à sua mãe, Alessandra, de 26 anos, e ao namorado dela, Alessandro Santos, um ano mais velho.

Os três foram atropelados e arrastados por quase 15 metros por um veículo conduzido pelo promotor público paulista Wagner Juares Grossi que, afirmam as testemunhas, dirigia bêbado (exames comprovaram o estado de embriaguez) e em alta velocidade.

Os três encontram-se enterrados a sete palmos de profundidade enquanto o promotor goza dos benefícios da lei brasileira que assegura fórum privilegiado aos promotores.

Exemplos como este se tornaram rotina no panorama nacional. E a impunidade talvez seja o principal estímulo para o cenário de guerra civil que se estabeleceu entre nós e que mergulha nosso sistema de trânsito num plasma de injustiça, violência extrema e incompetência generalizada.

No Brasil, em apenas uma década, o número de mortes entre motociclistas cresceu 460%, entre ciclistas 300%, e entre motoristas e passageiros 70%. Só entre pedestres ocorreu uma redução de 30%.

É como se estivéssemos em pleno ar, num Airbus A380 (o novo avião/transatlântico que pode conduzir de uma só vez mais de 800 passageiros) desgovernado, fora de controle, com pilotos e tripulação despreparados para a tarefa de mantê-lo voando em equilíbrio.

As mortes por acidente de trânsito no Brasil caíram na vala comum. Quando a dor é extrema, o corpo humano aciona um sistema de defesa que a amortece e elimina nos momentos mais intensos. É o que vem ocorrendo no trânsito. As tragédias ocorrem com tal profusão e violência que tudo se tornou banal, normal, aceitável. Fomos tragados pela indiferença que avilta e pela hipocrisia social: 35 mil mortes por ano, 98 por dia. Nos últimos dez anos, 327 mil mortos - 40 Maracanãs inteiramente lotados.

Conjugado à impunidade, as péssimas condições das estradas e vias públicas ajudam a compor o cenário de terra arrasada.

A Confederação Nacional do Transporte acaba de divulgar a Pesquisa Rodoviária CNT 2007, que avaliou 87.592 km de rodovias no País. O estudo denuncia que 74,20% das rodovias sob administração federal apresentaram algum problema no pavimento, sinalização (horizontal ou vertical) ou de geometria da via. As principais conclusões:

- 54,5% da malha rodoviária analisada estão com o pavimento em estado Regular, Ruim ou Péssimo, totalizando 47.777 km.
- 65,4% da extensão pesquisada têm sinalização com problemas (57.253 km).
- 8,5% possuem placas total ou parcialmente cobertas por mato (7.462 km).
- 39,0% da extensão avaliada têm placas com a legibilidade deteriorada (31.880 km).
- 37,5% não possuem placas de limite de velocidade (32.815 km).
- 42,5% da extensão analisada não têm acostamento (37.259 km).

Na outra face da moeda estão cunhadas as instituições estatais de trânsito. Brasil adentro, não há dia em que os jornais em suas manchetes de primeira página deixem de estampar escândalos enfatizando desbaratamento de quadrilhas (das quais participam servidores públicos) e escândalos de corrupção.

Não basta inundar a mídia com propaganda institucional clamando pela paz no trânsito. É necessário que o Estado desburocratize suas instâncias mantendo-as ao largo da corrupção, capacite os servidores, e qualifique os sistemas de gestão. Não sendo assim, restará a dor e a resignação de chorar a próxima vítima.

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O rato que esnoba o colarinho branco.

Parece que se estabeleceu entre nós a sub-cultura perversa do ‘jeitinho brasileiro’, do ‘levar vantagem em tudo’, mega-passaporte que libera a entrada para um reino obscuro, passe livre capaz de pulverizar qualquer barreira, ainda que ética, moral ou legal.

E como um nódulo cancerígeno, uma doença incurável, os tentáculos do malefício vão aprisionando a alma nacional, a tal ponto que hoje é difícil identificar algum setor que tenha conseguido escapar ileso ao cataclisma que assola Pindorama.

Se é para embair, enganar, passar a perna e aplicar o golpe, então vale tudo. Quando é para o mal, criatividade e engenhosidade não cabem na cumbuca, jamais esgotam, sempre extravasam.

Já ouvimos dizer da pinga barata que se vende nos grotões da periferia, uma aguardente translúcida em que o álcool é batizado com soda cáustica e até água de bateria. É a pinga que nem santo aceita o tantinho.

Mas a gatunagem e a sovinice, despojada de caráter e moral, lança suas patas imundas sobre o alimento das crianças. Só faltava essa e agora não falta mais. O leite tornou-se poderoso imã para atrair ordinários que cultuam a ganância e o charlatanismo. A moda da vez é mascarar sua péssima qualidade, adicionando ao produto soda cáustica e água oxigenada. Para não dizer das bactérias e coliformes fecais. Este expediente levou a Polícia Federal a desbaratar uma quadrilha de 27 bandidos – meliantes que se passavam por pessoas de bem – cuja especialidade era assacar contra a saúde pública, destinar às crianças e à população, de forma geral, a lavagem que deveria ser lançada no chiqueiro para alimentar os porcos. O Procon promoveu operação idêntica em Goiás, e os resultados não foram muito diferentes.

Governo e máfias muito bem estabelecidas se sucedem no joguete de tornar o contribuinte um idiota, o otário a quem se vende lebre para entregar gato bichado.

No plano governamental, a trajetória da CPMF – Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira – seria cômica, não fosse trágica. Ela está aí, azucrinando a vida e a paciência dos brasileiros desde 1994. Neste primeiro instante foi Imposto, mas a partir de 1997, já como Contribuição, incorporou-se ao cotidiano nacional e hoje injeta R$ 40 bilhões por ano nos cofres do governo federal. Criada para ser provisória tornou-se permanente, concebida para canalizar recursos para a saúde pública, não passa de fonte inesgotável para os desperdícios costumeiros.

Qual a razão dessa sub-cultura deitar e rolar por aqui? Em Pindorama a síndrome da falta de caráter cresce, se desenvolve, apresenta uma robustez de não acreditar, avança como praga no pasto.

A descomunal burocracia brasileira talvez seja a principal fonte desses males. Gigantesca, insaciável, guarda em seus labirintos as inumeráveis oportunidades para que a sangria e o vampirismo se estabeleçam. A própria Polícia Federal e o Ministério Público já apontaram as razões dos traficantes internacionais de drogas escolherem o Brasil como porto seguro de suas operações: por aqui a corrupção está praticamente institucionalizada. Policiais, autoridades, juízes, é cada vez mais raro encontrar personalidade física ou jurídica que escape aos encantos e ao poder de cooptação dos narco-dólares.

E tanto se agigantou a perversidade que vergou o Estado nacional, entranhou sorrateiramente para travestir-se de legalidade. Sim, os limites entre o certo e o errado encontram-se tão tênues que simplesmente volatizaram. O ano de 2.007 está em pleno curso, não chegou ao seu final, mas já apresenta 36 leis consideradas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal.

No ano passado, o Supremo jogou na lixeira 127 dessas leis, inclusive muitas federais.

As Assembléias dos Estados e o Congresso Nacional contam com um invejável staf de técnicos e profissionais especialistas nas funções legislativas. E, considerando os salários praticados país adentro, esses servidores contam com remunerações mais que privilegiadas. Não bastasse o quadro próprio de pessoal, o parlamento recorre a serviços de consultoria e escritórios de advocacia. Então como explicar que, das demandadas apresentadas no STF, 82,4% das leis dos Estados foram consideradas inconstitucionais?

E o pior de tudo é que, até que o Supremo se manifeste, a lei inconstitucional permanece em vigor, e os brasileiros são obrigados a se deixar guiar por um emaranhado de leis explicitamente ilegais.

Empresário que para auferir lucro vende a alma para o demônio e leite podre à população, governo federal que ao invés de ganhar em eficácia se deleita na arrecadação matreira (eivada de maracutaia!) da CPMF (qual viúva Porcina, aquela que foi provisória sem nunca ter sido), governos estaduais que administram escorados na magia de tornar a ilegalidade, legal... Temos que nos livrar desse lado nefasto do jeitinho brasileiro, resgatar a urbanidade, a ética, os valores e princípios que sustentam uma nação e que conduzem seu povo ao desenvolvimento e ao progresso. Lembram-se da peste negra que no século XIV arrastou 75 milhões de pessoas para a morte, um terço da população da época? Pois essa pandemia é fichinha considerando o que está ocorrendo no Brasil. A peste bubônica medieval foi transmitida para os humanos através das pulgas e de um tipo de rato originário da Índia. Já a enfermidade que assola o Brasil, deriva de um outro tipo de rato, o que se apresenta sempre impecavelmente bem vestido, perfumado, lábia de cantador de viúva rica, um rato genuinamente nacional, o que esnoba o colarinho branco.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Quilombo dos Palmares: Ganga-Zumba, o precursor.


Estamos já no mês de novembro, o mês em que ocorreu o assassinato de Zumbi dos Palmares. A grande emboscada ocorreu no dia 20 de novembro de 1.695, data oficializada como o Dia Nacional da Consciência Negra. Este mês publicarei neste espaço alguns artigos que discorrem sobre o herói nacional e o Quilombo dos Palmares, esta grande experiência libertária da gente brasileira. Logo abaixo segue o primeiro: Ganga-Zumba, o precursor.

Ganga-Zumba, o precursor.

O negro Ganga Zumba foi o primeiro grande líder, o primeiro rei do Quilombo dos Palmares. Mantinha um grau de parentesco com Zumbi - era tio do imortal guerreiro.

No ano de 1677, o governo colonial enviou para aniquilar o novo Quilombo a expedição portuguesa de Fernão Carrilho. A batalha foi dura e cruel. As tropas da coroa portuguesa feriram Ganga Zumba, e aprisionaram dois de seus – Zambi e Acaiene – além de dezenas de outros guerreiros negros. Mas o rei negro conseguiu escapar.

No ano seguinte, o governador da província, Pedro de Almeida tentou promover entendimentos apresentando a primeira proposta de paz aos quilombolas. Planejava com isso quebrar a unidade de Palmares. Como moeda de troca, o governador oferecia paz, tratamento condigno e terras, além de firmar compromisso de que devolveria com vida as mulheres e filhos de negros que tinha aprisionado.

Para negociar, Ganga Zumba enviou ao governador uma comitiva de 15 guerreiros tendo à frente seus três filhos.

A contra-proposta dos negros contemplava pontos fundamentais para a preservação do movimento. Solicitavam:

• liberdade para os nascidos em Palmares;
• permissão para estabelecer ''comércio e trato'' com os moradores da região e
• um lugar onde pudessem viver ''sujeitos às disposições'' da autoridade da capitania.


Comprometiam-se ainda a entregar os escravos que doravante fugissem para Palmares.

Fechado o acordo, em novembro de 1678, Ganga-Zumba em Recife assina o protocolo selando a paz. Estabelecem-se então em Cucaú, localizada a 32 km de Serinhaém.

Mas boa parte dos quilombolas manifesta-se contrária ao acordo por considerá-lo mais uma rendição, uma capitulação disfarçada. E liderados por Zumbi, palmarinos inconformados decidem ignorar Ganga Zumba e continuar em Palmares.

A situação em Cucaú torna-se insustentável. Os seguidores de Ganga vivem sob severa vigilância da autoridade portuguesa e são diuturnamente hostilizados pelos moradores das vilas e povoados próximos.

Não demora e Ganga Zumba percebe que caiu num grande engodo e que todo o seu esforço resultou infrutífero. Termina seus dias morrendo envenenado por um partidário de Zumbi.

Com a morte de Ganga – ocorrida em 1680 – o governador passa a assediar Zumbi, tentando firmar novo acordo. Mas Zumbi segue organizando o Quilombo e ignorando as tentativas da coroa.

Já na gestão do governo de João de Souza uma nova proposta – composta de 17 artigos - é elaborada. Um dos artigos assegurava que “... seriam considerados livres todos os negros e mulatos (...) que tivessem respeitado o acordo de 1678 e que não tinham se rebelado depois disso...''. Mas esta proposta jamais chegou às mãos de Zumbi.

Estava se consolidando o Quilombo que levaria o movimento libertário ao seu mais alto nível de organização. Palmares resistiu durante um período que se estende de 1.600 ao ano de 1694. São quase cem anos - praticamente um século - de lutas homéricas e heróicas. Estruturam algumas das mais densas e nobres páginas da história de constituição da nacionalidade brasileira.

Zumbi foi um bravo, um valente, um destemido. É um grande herói brasileiro. Representa todos os que tombaram em Palmares e os que tem dedicado a vida à construção de um Brasil melhor e mais justo para todos. Em sua homenagem tudo o que se fizer será pouco.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Bitrex & Preconceito

Os químicos costumam afirmar que não existe nada tão amargo quanto o Bitrex, um composto utilizado para evitar ingestões acidentais de produtos muito tóxicos como, por exemplo, pesticidas e inseticidas.

Pois se existe na vida algo tão amargo quanto o produto químico, é o preconceito, predicado de quem passa a substituir razão e lógica por valores, visões e ações resultantes de desvios pessoais, produtos de um diagnóstico efetuado antes que se adquira os conhecimentos necessários.

Quantas injustiças – grandes e pequenas, individuais e coletivas - não foram cometidas por conta dos preconceitos? E as oportunidades, quantas deixaram de ser aproveitadas, quantas volatizaram ante a simples possibilidade de concretização?

O preconceito tem poder concentrado e de tal ordem e dimensão que muitas vezes empresta contornos quadrados à roda, impedindo-a de movimentar, de oportunizar a junção dos dois pontos.

Para manter distante este filtro inverso - que suja ao invés de limpar - temos que manter abertas as comportas das inovações, temos que nos manter atentos aos indicadores que sinalizam testemunhando os processos de mudança.

E indicadores já não faltam quanto se trata de avaliar a Educação a Distância, uma modalidade de ensino vitima de preconceito, que tem apanhado mais que pandeiro em roda de samba.

Os novos resultados dos programas de avaliação do governo federal estão denunciando a farsa montada, comprovando que o novo sistema nada deve em relação ao ensino tradicional, efetuado de forma presencial.

A última edição do Enade - Exame Nacional de Desempenho de
Estudantes – incorporou os alunos dos cursos à distância, de modo que a comparação entre os diferentes modelos à luz de indicadores confiáveis já é plenamente possível.

Ao examinar as áreas contempladas pelo último Enade, não se verifica diferenças perceptíveis, acentuadas. Para ser mais preciso, o Exame Nacional registra ligeira vantagem para os alunos da educação a distância. Em que pesem todos os arranjos e adequações que o novo sistema ainda demanda em virtude da precocidade.

E tem mais: a Educação a Distância tem conquistado méritos e espaços que não se restrinjam ao novo sistema, extrapolam o modelo. As vantagens são tamanhas que têm impactado positivamente e de maneira determinante os cursos tradicionais presenciais. Nos casos em que a instituição mantém as duas modalidades, os benefícios resultantes da interação são eloqüentes. A verdade é uma só: os cursos presenciais estão se modernizando ao simples contato com características da EAD. E essas transformações não são aleatórias ou sazonais, chegam para ficar.

É bem provável que, no futuro próximo, ao se matricular em um curso superior, o aluno tenha acesso a um mix em que parte das disciplinas sejam oferecidas na forma presencial e a outra parte no formato EAD. Ou a mesma disciplina sendo oferecida sob a égide dos dois modelos.

Quem ganha e quem perde? Ganham quase todos, alunos que poderão administrar melhor o tempo, os recursos quase sempre escassos e as condições nem sempre adequadas; ganham as IES que mitigarão custos e agregarão qualidade aos seus processos; e ganha o país, que passará a dispor de profissionais com melhor formação.

Transcrevo logo abaixo um artigo que escrevi sobre o assunto:

A Educação a Distância veio para ficar

Ainda observado com desdém e desconfiança pela conservadora corporação acadêmica, o curso à distância vem se impondo, paulatinamente é bem verdade, mas de maneira irreversível.

Uma das mais destacadas e instigantes vantagens dessa nova tecnologia é o fato de ignorar fronteiras, fazer pouco caso da distância física, de modo que as pessoas –comungando do mesmo tempo – juntam-se, avizinham-se, tornam-se colegas de classe, ainda que estejam em continentes diferentes. Não é curioso e provocador criar uma sala de aula virtual onde colegas de sala interagem com um estando em Pirenópolis e o outro em Singapura?

Esta vantagem exclusiva, específica e inédita é que possibilitou fosse criado o primeiro curso à distância para o Japão. E não é nenhum curso Walita, desses penduricalhos de curtíssima duração que mal justificam um certificado. Não, nada disso. É um curso de graduação, isso mesmo! de graduação em Pedagogia, com 300 vagas, destinado a formar professores que, na Ásia, já estão na lida, no batente, ensinando para brasileiros.

A iniciativa resulta de uma parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o Ministério da Educação, que já reservou R$ 2,5 milhões para aplicar no projeto nos próximos cinco anos. O Banco do Brasil apóia a iniciativa e está propondo destinar outros R$ 2,5 milhões para turbinar o processo.

A vida de um migrante não é nada fácil. Não bastasse o preconceito, onipresente e radicalizado, quase sempre trabalham à exaustão, muito mais que os naturais do país para - ao final da jornada de trabalho – receberem muito menos. No geral tem quase nenhuma assistência médica, jurídica, social, além de amargar dia sim e o outro também, a saudade dolorida dos parentes, dos amigos, da pátria-mãe, saudade só levemente amenizada numa fotografia guardada com esmero no cantinho mais nobre e reservado da carteira.

E não é só. Outra questão por demais grave é a dos filhos dos dekasseguis que assistem aulas com professores improvisados, salvo um aqui e outro acolá, invariavelmente sem a habilitação e a formação adequadas.

O propósito é alterar este quadro, superar rapidamente esta etapa para enfrentar uma outra, tão carente quanto a da graduação, a especialização. Então se tratará de habilitar professores em disciplinas específicas como Biologia, História e Física, mas agora oferecidas não somente aos educadores brasileiros, como também aos professores japoneses que têm, dentre seus alunos, filhos de brasileiros.

Para dar suporte ao projeto será produzido material didático específico e, ao final de cada módulo – algo em torno de 40 dias - um professor brasileiro viajará ao Japão para cumprir a fase presencial do curso, ministrando aulas em caráter intensivo.

Estima-se que existam 320 mil dekasseguis no país do sol nascente. Todo esse contingente, no ano que vem, deverá estar mobilizado para comemorar os 100 anos da imigração japonesa no Brasil.

Se um projeto dessa dimensão não consegue demover a acidez e ojeriza cética dos críticos da Educação a Distância, o que mais na face da terra poderia sensibilizá-los?

A Educação a Distância está demonstrando no dia a dia que veio para ficar. Indiferente e independentemente dos críticos de plantão. Quem não se lembra quando, respondendo ao amargor dos mal humorados, nossos avós proclamavam: “enquanto a carruagem passa, os cães ladram”?


Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O financiamento estudantil melhorou!

Novas modificações no Fies - Programa de Financiamento Estudantil – estão vindo para facilitar a vida dos estudantes

O Fies é o sucessor do antigo Crédito Educativo, programa governamental criado no final da década de 70.

A partir de agora será possível obter financiamento para bancar todo o período necessário à conclusão do curso. Hoje o Programa financia 50% do valor da mensalidade e restringe o atendimento para os alunos que estão na graduação.

As modificações – adotadas para aperfeiçoar o já exitoso programa – não são poucas. Num dos pontos o projeto é generoso, ampliando o universo dos potenciais beneficiários: "(...) sempre que houver disponibilidade de recursos e cumprimento no atendimento prioritário aos alunos dos cursos de graduação" os alunos matriculados nos cursos de mestrado e doutorado poderão ser contemplados.

O teto do financiamento correspondia a 50% do valor da mensalidade. Apesar de auxiliar, esta limitação restringia o acesso de muitos, sobretudo, dos mais carentes, que não tinham de onde extrair a outra metade do dinheiro necessária para o pagamento das prestações. Com a nova sistemática, o teto atingiu o ponto máximo, de modo que os alunos terão, doravante, 100% do valor da mensalidade financiado.

Também o prazo para pagamento da dívida foi estendido. Esse prazo que anteriormente se limitava a uma vez e meia a duração do financiamento, pela nova proposta, passa a admitir duas vezes o período consumido pela transação bancária.

As modificações não param por aí. Os estudantes poderão lançar mão dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço quando chegar o momento do pagamento.

E para amenizar o sempre difícil e constrangedor desafio de conseguir um fiador, o governo instituiu a figura do “fiador solidário”. Nesta categoria poderão ser constituídos grupos de até cinco pessoas que se responsabilizarão pelo pagamento do empréstimo. E para integrar o grupo de “fiadores solidários” vale até mesmo os amigos e colegas de sala de aula.

Para alguns cursos, considerados pelo governo, prioritários em decorrência da demanda e de outras contingências estratégicas, os juros cobrados serão substancialmente menores. Enquanto nas graduações, de forma geral, o índice será de 5,5% ao ano; e na pós, de 6,5%; para os cursos de pedagogia, licenciatura e superiores de tecnologia as taxas se limitarão a 3,5%.

Mas o estudante deve tomar os devidos cuidados e atinar para a qualidade da instituição de ensino superior que cursa ou almeja ingressar. Faculdades de ponta de esquina, tidas como “empórios de certificados” e outras, de qualidade duvidosa, deverão ser literalmente ignoradas. É que somente alunos das IES com avaliação igual ou superior a 3 no Enade - Exame Nacional de Desempenhos de Estudantes - poderão participar, se habilitar ao benefício.

Outros quesitos de importância para a seleção do Fies são os socioeconômicos, que buscam identificar dentre os inscritos, os mais necessitados.

Este é um tipo de projeto muito em voga em períodos que antecedem as eleições, momento em que as autoridades estatais ficam mais sensíveis e determinadas a encarar o dia a dia, a rotina administrativa, promovendo ações que impactem positivamente a sociedade. Infelizmente, nas últimas décadas, os governos só têm atuado nesses breves interregnos. O novo Fies é uma exceção muito bem vinda.

Para qualquer governo, adotar medidas estruturais sempre que necessário é um avanço substantivo, pelo menos para manter longa distância do vício ‘Copa do Mundo’, aquele em que as autoridades só dão os ares da graça a cada quatro anos, justamente nos períodos eleitorais.

Antônio Carlos dos Santos é professor, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O mínimo a fazer é exigir que o governo faça o máximo!

Não faz muito tempo escrevi um artigo discorrendo sobre a iniciativa Um Computador por Aluno – UCA e a importância do Ministério da Educação ter endossado o Projeto. Tudo estava transcorrendo bem, na mais perfeita ordem, mas, ao que tudo indica, algum tipo de areia já está sendo misturada à nossa farofa. O artigo continua disponível no portal da revista eletrônica Goiás Educação (http://www.goiaseducacao.com/novo2/index.php). Para os que não leram, cuidei de reproduzi-lo, logo abaixo. Caso já tenha efetuado a leitura, então é só pular o texto e seguir lá para baixo, onde relato sobre a tal areia. Vamos ao artigo:

O computador e a nova escola – uma forma de confrontar os interesses subalternos.

Em 2005, Nicholas Negroponte, pesquisador de Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos EUA, apresentou ao governo brasileiro o projeto Um Computador por Aluno – UCA.

De lá pra cá o que andou, que medidas foram tomadas, que objetivos foram alinhavados pelo governo brasileiro?

Cinco meses atrás o Ministério da Educação deu início a um piloto disponibilizando os computadores para alunos e professores de cinco escolas públicas de cinco unidades da federação: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Tocantins e Brasília.

Cada uma das escolas beneficiadas está sendo monitorada e assistida por uma universidade da região que deverá produzir relatórios e análises para orientar o governo quanto ao formato e desdobramento do programa. Nos documentos e relatórios técnicos deverão constar as avaliações quanto as condições físicas do equipamento, sua conservação, mas, sobretudo a freqüência dos alunos e a aprendizagem verificada.

O Ministério da Educação mantém metas arrojadas. Entre os anos de 2008 e 2010 estão previstas a aquisição e distribuição de 150 mil laptops para alunos e professores de 300 escolas públicas distribuídas por todo o território nacional.

Nos cinco projetos pilotos em curso, a experiência tem sido avassaladoramente produtiva. O corpo de professores teve que rebolar, correr atrás, retomar os estudos para atualizar os conhecimentos. Os alunos - estimulados pela curiosidade e rara oportunidade - retomaram o interesse pelo espaço escolar e a aprendizagem atingiu patamares jamais alcançados. Resultado: a freqüência elevou-se significativamente, as aulas tornaram-se mais dinâmicas, ágeis e interessantes, e a escola agregou um plus, um diferencial de qualidade, um upgrad que a distancia anos-luz do sistema tradicional.

Os laptops são conectados a Internet e acessam a rede mundial sem a utilização de fios e cabos. Cada equipamento pesa 1,5 quilo e tem uma memória de 512 MB. A utilização em sala de aula com o acompanhamento de um professor é prioritário. Mas o aluno pode levar o computador para casa, familiarizando-se com a máquina de modo a extrair dela tudo o que é possível. Além de compartilhar o benefício com familiares, amigos e vizinhos.

Um grande diferencial do piloto é o processo de acompanhamento e supervisão, sempre efetuado através dos professores. É esta supervisão, realizada de forma pessoal e direta, que assegura o direcionamento de toda a potencialidade da tecnologia para o aprendizado, libertando o aluno, impedindo que utilize a máquina exclusivamente para jogos, salas de bate papo e entretenimento virtual.

É uma prova inconteste de que o governo só não acerta quando interesses subalternos o manipulam em direção a subterrâneos distantes dos largos e arejados espaços onde vigoram os legítimos interesses populares.


Pois bem, o laptop tinha o preço inicial estipulado em US$ 100, pulou para US$ 150 e já está sendo comercializado por U$ 200. Dobrou de preço o que implicará em duplicar os investimentos governamentais previstos, o que vai doer na pele, considerando que as quantidades envolvidas neste projeto são para lá de expressivas.

A One Lap Top per Child, fundação que toca o projeto no mundo, está tendo dificuldades para justificar as razões do aumento no preço do computador. Seja qual for o produto, majorar os preços em 100% é praticar uma política difícil de explicar.

Na realidade, os valores iniciais foram fixados considerando, sobretudo, a produção em larga escala. A idéia era simples e correta. A produção em mega escala achataria os preços mantendo-os em torno dos US$ 100. Nicholas Negroponte e o pessoal do Massachusetts Institute of Technology (MIT) acreditavam que os pedidos iniciais ficariam na casa das 2,5 milhões de encomendas. Como o projeto foi desenvolvido para beneficiar crianças pobres de todo o mundo, tinha-se como certo que, no mínimo, 100 dos países adeririam instantaneamente ao movimento.

Todavia, as encomendas ficaram muito aquém das expectativas e, preto no branco, com papel passado e tudo, até agora, apenas três países formalizaram as encomendas: Uruguai, Peru e Mongólia. Dos 2,5 milhões de computadores previstos inicialmente, especialistas estimam que as encomendas não ultrapassam 200.000 unidades, não mais que 8% da quantidade que moldou o sonho dos idealizadores do MIT.

Este mês se iniciará a produção dos computadores. Dadas as características de oferta de mão de obra, a China foi o país escolhido para fabricá-los. Como o software que carregará a maquina ficará disponível em dezembro, em janeiro do ano que vêem, as escolas estarão recebendo os equipamentos.

Talvez a partir daí os demais países se animem e canalizem suas energias para hipotecar adesão ao projeto, um dos mais importantes do milênio, não restam dúvidas. No que diz respeito ao Brasil, a roda está em movimento e caberá à sociedade exigir que o governo federal não permita que o programa sofra solução de continuidade e, melhor, seja acelerado. O mínimo a fazer é exigir que o governo faça o máximo.

Antônio Carlos dos Santos é professor, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br