domingo, 27 de junho de 2010

Sobre cegueiras e oportunidades


Como a pequenina aluna, apenas seis anos de idade, não conseguiu responder à questão formulada, o professor cerrou os dentes, resmungou alguns impropérios, deu à face amedrontadora um ar ainda mais severo e, resolutamente, disparou em direção à estudante para, com um alfinete pontiagudo, perfurar um dos olhos vívidos da inocente criança, cegando-a irremediavelmente.

A cena típica de um filme de terror ocorreu no Estado de Chhattisgarh, centro da Índia, o país que somado ao Brasil, China e Rússia, integra os BRIC’s, os quatro gigantes que, conforme previsão dos mais renomados estudiosos, emergirão como as grandes potências nas décadas vindouras.

Brasil e Índia apresentam muitas características em comum, muitas delas decorrentes de seus injustos sistemas de distribuição de renda.

A Índia tem a segunda maior população do planeta, com mais de um bilhão de habitantes, quantidade só inferior à da China.

Como o Brasil, o país asiático nas últimas décadas alcançou grandes progressos econômicos. Domina todo o ciclo da fissão nuclear acreditando-se que possua em seus arsenais militares mais de 50 bombas atômicas. Também nos setores vinculados à tecnologia de informação, o país de Gandhi tornou-se referência mundial, destacando-se na produção e exportação de software.

E também como o Brasil, a Índia ostenta elevados indicadores de analfabetismo e grandes contingentes populacionais embrutecidos pela pobreza, miséria e indigência. Mas a mais destacada e perversa característica que ambos historicamente têm mantido em comum, talvez seja a corrupção endêmica, parasitando e devorando os Estados soberanos, vampirizando suas forças sociais e, qual chaga incurável, avassalando as almas nacionais.

Uma corrupção descomunal, hedionda, nauseabunda, e que resulta do gigantismo de burocracias criadas e mantidas para alimentar - em seus infinitos escaninhos, arquivos e labirintos, com uma infinidade de fluxos, normas e rotinas – ratazanas, vampiros e a malta da malandragem de colarinho branco.

A educação de qualidade possibilita avanços que surpreendem. A criação do CTA/ITA, o Centro e o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de onde surgiu a Embraer possibilitou que o Brasil se consolidasse na posição de um dos maiores exportadores de aviões a jato, despachando-os, inclusive, para os Estados Unidos, a maior potência aeroespacial do planeta. À índia, educação de qualidade legou o domínio da indústria da energia nuclear e o posto de maior exportados de softwares do mundo.

Portanto, acertamos juntos quando priorizamos investimentos em setores estratégicos como educação e tecnologia. E erramos juntos quando damos guarida à corrupção desenfreada e lidamos com a renda nacional de modo estúpido e improdutivo.

Mas, tanto aqui no continente sul-americano, como lá, no asiático, investimentos em educação de qualidade estão mais para exceção que para regra. Aqui como lá, muitos educadores – confrontados com a inocente ignorância infantil e juvenil – preferem responder criminosamente. Cegando as crianças simplesmente, decepando parte do dedo, ou obstruindo suas melhores possibilidades.

A metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo são criações originais de Antônio Carlos dos Santos

domingo, 13 de junho de 2010

Vamos substituir os computadores por réguas de cálculo?

Para os mais dados à observação sempre esteve claro que alguma coisa não vai bem.

Sim, é verdade, não há quem não veja o esforço nacional pra dotar as escolas de melhores condições tecnológicas, sobretudo de computadores. Participa deste esforço não apenas o governo, mas também a sociedade organizada, empresas e fundações privadas, nacionais e internacionais.

O PC e a rede mundial de computadores são instrumentos imprescindíveis no mundo moderno. Estão para a vida contemporânea como a água e o alimento estão para o peixe. Definitivamente, não há como navegar pelo século XXI mantendo-se ao largo das tecnologias de informática, sobretudo quando o foco é o ensino, a educação.

Que educador em sã consciência pode ignorar ou desdenhar a importância do computador e da internet no aprendizado dos alunos? A praticidade, racionalidade, eficiência; o acesso ilimitado a dados e informações, o livre ingresso para freqüentar e desbravar universos antes intangíveis, a irrestrita disponibilidade de obras clássicas, acervos seletos e das melhores bibliotecas dos EUA e da Europa, tudo isso possibilitado pela existência da WEB. É o mundo na tela de um simples monitor.

Em que pese a velocidade muito menor que a necessária, nossas escolas têm se adequado às demandas dos novos tempos. Investem na atualização dos hardwares, em redes, softwares e aplicativos mais eficazes, instalam espaços e laboratórios para otimizar a utilização, democratizar o conhecimento, promovem oficinas... E tudo parecia correr conforme o planejado até que começaram a surgir aqui e ali – ainda que de maneira assistemática, tímida e dispersa – estudos alertando que, ao contrário de ajudar, os computadores estão atrapalhando a vida dos estudantes brasileiros.


- Mas como pode? É uma aberração, um acinte, uma aleivosia - apressaram-se em bradar os ‘entendidos’.

- Um computador, qualquer que seja a circunstância, jamais será um entrave para um estudante, esteja no Brasil, esteja na Cochinchina – completaram outros ‘especialistas’ ostentando a empáfia característica dos que acreditam que o mar se limita à crista das ondas.

Por outro lado, os adeptos das práticas conservadoras e avessos a tudo o que soe modernidade, não ficaram para trás:

- Com ábacos e os antigos instrumentos os alunos aprendem mais – e concluem frenéticos. – Vamos substituir os computadores por réguas de cálculo.

Este é um caso em que os ‘entendidos’ e os avessos à modernidade estão errados. Completamente errados.

Pois o Ministério da Educação acaba de divulgar uma pesquisa demolidora sobre o assunto: a instalação de computadores, redes virtuais e laboratórios de informática em nossas escolas não têm agregado qualidade à educação, ao contrário, tem piorado o já deplorável ensino brasileiro.

Se o caro leitor acredita que a conclusão do MEC sobre o impacto do uso do computador em nossas escolas é de nocautear, então durma com essa: os alunos que costumeiramente utilizam o computador na escola estão seis meses atrasados nas disciplinas quando cotejados com os que não tem acesso ao equipamento.

Para alcançar este diagnóstico os pesquisadores do ministério, utilizando as três últimas edições do Saeb – o exame aplicado para avaliar o ensino básico – lançaram mão dos modelos estatísticos mensurando o impacto da utilização do computador no aproveitamento pedagógico dos estudantes com acesso ao PC. E não custa registrar que nada menos que 38% das escolas públicas brasileiras contam com computadores instalados.

A questão central é que o aluno, sem um professor capacitado para guiar seus passos neste novo mundo, fica a mercê do efêmero, da mera diversão, e utiliza o tempo - que deveria destinar às tarefas, trabalhos escolares e aos estudos - para se aprimorar nos jogos virtuais ou esquentar conversa nos sites de relacionamentos, salas de bate-papos e similares.

Portanto, nem tanto o céu, nem tanto a terra. O PC não deve ser encarado como uma panacéia, mas também não deve ser subestimado. É obvio ululante que – no devido contexto – está a milhares e milhares de anos-luz da régua de cálculo utilizada por nossos avós.

Tão importante quanto prover as condições materiais e assegurar a instalação de wardwares e softwares em nossas escolas, é garantir um processo de educação específica para o professor. Só assim nosso estudante terá um supervisor habilitado para auxiliá-lo na travessia, no domínio e na conquista da nova tecnologia. Muitos de nossos educadores sequer conseguem ligar um computador e muitos outros nem se preocupam em esconder a aversão pelas novas tecnologias, sejam relacionadas à informática ou não. Refugam o novo como o diabo refuga a santa cruz.

Os países desenvolvidos conseguem extrair o máximo da relação tecnologias de informática/estudantes porque – além de investir no meio físico – investem também no professor, capacitam-no entusiasticamente e o utilizam para monitorar e supervisionar a incursão dos alunos pela rede.

É um modelo antigo, simples, exitoso e eficaz. Mas que as autoridades brasileiras só agora começam a se dar conta. Se existe algum consolo, vale um antigo ensinamento de nossos avós: antes tarde do que nunca.

Artigo publicado no portal da Associação dos Professores de São Paulo