quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Resultado da segunda chamada do ProUni já está disponível


Estudantes têm até o dia 28 para apresentar documentação

O Ministério da Educação divulgou o resultado da segunda chamada do Programa Universidade para Todos (ProUni) para o primeiro semestre de 2020. Os estudantes selecionados para receber a bolsa de estudos precisam comprovar as informações fornecidas no ato da inscrição. A documentação solicitada deve ser apresentada às instituições de ensino até o dia 28 de fevereiro.

O resultado pode ser conferido na página do ProUni

As bolsas eventualmente não preenchidas poderão ser ocupadas por participantes da lista de espera. O prazo para se inscrever na lista de espera é de 6 a 9 de março e a divulgação será feita no dia 12 de março.
Neste semestre, o ProUni está oferecendo 252.534 bolsas. O sistema registrou mais de 1,5 milhão de inscrições, feitas por 782.497 estudantes.

O número de inscrições é maior que o de inscritos porque cada participante pode escolher até duas opções de instituição, curso e turno.

ProUni

O ProUni é um programa do Ministério da Educação que oferece bolsas de estudos, integrais e parciais (50%), em instituições particulares de educação superior.

Podem participar estudantes que tenham cursado todo o ensino médio na rede pública, ou na rede particular na condição de bolsista integral; estudantes com deficiência; professores da rede pública de ensino, no efetivo exercício do magistério da educação básica, integrantes de quadro de pessoal permanente de instituição pública.

Para concorrer às bolsas integrais, o estudante deve comprovar renda familiar bruta mensal, por pessoa, de até um salário mínimo e meio. Para as parciais, a renda familiar bruta mensal deve ser de até três salários mínimos por pessoa.

Só pode se inscrever no ProUni o estudante que não tiver diploma de curso superior, que tenha participado do Enem mais recente e obtido, no mínimo, 450 pontos de média das notas, e nota acima de zero na redação.

Da Agência Brasil




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O livro preferido de Woody Allen: Memórias Póstumas de Brás Cubas


Memórias Póstumas de Brás Cubas é um dos 5 livros preferidos de Woody Allen
“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra de Machado de Assis, aparece em lista que o cineasta Woody Allen escreveu para o jornal britânico “The Guardian” sobre os seus cinco livros prediletos.

Segundo o cineasta, ele recebeu o livro em sua correspondência. “Algum brasileiro desconhecido me mandou por correio e escreveu ‘você vai gostar disso’. Como é um livro pequeno, eu li. Se tivesse sido um livro grosso, eu teria descartado”, afirmou.

Allen disse que ficou surpreso como o livro é encantador e divertido. “Eu não pude acreditar que ele [Machado de Assis] viveu há tanto tempo. Você pode pensar que ele escreveu o livro ontem. É tão moderno e tão divertido. É uma obra de trabalho muito, muito original. Tocou um sino em mim assim como ‘O Apanhador no Campo de Centeio’. Foi tratado com grande inteligência, originalidade e sem sentimentalismo.”

No livro, é o próprio protagonista, morto, quem conta sua história. Os outros livros que compõem a lista são “O Apanhador no Campo de Centeio” de JD Salinger, “Really the Blues”, de Mezz Mezzrow e Bernard Wolfe, “O Mundo de S. J. Perelman”, de S. J. Perelman, e “Elia Kazan: A Biografia” de Richard Schickel.
Todo Dia

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

ÁSIA - O TIGRE AFIA AS GARRAS


Sucesso no Oscar ilumina uma dupla condição do país — a de uma nação que em muitos aspectos já ultrapassou o Japão, mas ainda é um poço de desigualdades

Parasita, a obra-prima do sul-coreano Bong Joon-ho, quebrou a banca no Oscar de 2020 — levou os prêmios de melhor filme (o primeiro não falado em inglês nos 92 anos da festa de Hollywood), melhor diretor (dobradinha rara), melhor roteiro original e, claro, melhor filme internacional, a nova alcunha para produções estrangeiras. Ao agradecer a láurea, numa das quatro vezes em que subiu ao palco, Bong prometeu encher a cara. Cumpriu a promessa, dignamente, em um bar de Los Angeles, diante de uma banda de k-pop — o gênero musical nascido na Coreia do Sul que usa e abusa dos efeitos audiovisuais, predominantemente adolescente e que, de alguns anos para cá, disseminado pelo YouTube, conquistou o mundo. Depois da coroação, o cineasta fez troça. “Embora eu esteja aqui, o BTS tem 3?000 vezes mais poder e influência do que eu”, brincou, numa alusão à banda de meninos que em abril de 2019 ocupou o topo do ranking global da Billboard.

Juntar Parasita e k-pop não é mera coincidência. Foi um modo de mostrar a força cultural de um país que cresce e aparece — apesar de todo o fosso social que o drama (ou será comédia? Ou suspense?) leva à tela, magistralmente, em uma crítica muito mais contundente que a feita por Bacurau pelos lados de cá. A proeminência da Coreia do Sul, que as estatuetas iluminaram, impõe uma indagação, um tanto livre, olhando-se ao redor, para a vizinhança asiática: que país serviria de contraponto ao rugir sul-coreano, um modo didático de entender o crescimento que emana de Seul? O Japão. O inimigo histórico, de relações mercuriais, desde o período da ocupação nipônica, que foi de 1910 a 1945, com a derrota do Eixo na II Guerra Mundial. Muito tempo se passou, houve até uma Copa do Mundo dividida entre os dois países, em 2002, mas a temperatura cisma em não baixar. Brigava-se com armas, antes, e agora com manifestações culturais. A unanimidade em torno de Parasita, ressalve­se, não apaga a história inigualável de beleza e contrição, aventura e drama, do cinema japonês, num arco que vai de Yasujiro Ozu (1903-1963) a Akira Kurosawa (1910-1998) e chega às animações, os animes, cujo ápice é A Viagem de Chihiro (leia a reportagem). Não se trata, portanto, de dizer que a Coreia do Sul aplicou um golpe de tae kwon do no Japão, mas há comparações interessantes demais para ser descartadas — nas artes, na economia, no cotidiano.

No pós-guerra, o Japão brotou como uma potência exportadora de tecnologia e, por que não, de um estilo de vida. Nos últimos trinta anos, a Coreia começou a ocupar esse espaço — com a música e com o cinema, mas também com a produção de manufaturados, a partir de um processo chamado de “indústria sem chaminés”. No mercado de eletrônicos, a Samsung ultrapassou em faturamento os grandes concorrentes japoneses. No campo de automóveis e cosméticos, idem. Tudo é K. Tem o k-pop, mas há também o k-beauty etc. Na educação, com uma política rigorosa e investimentos públicos pesados, a Coreia deu o mais espetacular salto em todo o mundo. Trata-se de um país capitalista, sim, de louvação à iniciativa privada — mas com presença maciça do Estado. No cinema, para não perder o fio da meada, houve um momento de virada que culminou com Parasita. Em 1993, em um determinado período do ano, todas (todas!) as salas foram ocupadas por Jurassic Park, de Steven Spielberg. Naquele ano, a bilheteria de produções locais alcançou apenas 2% do total — desde então, sentindo-se jurássicos, os coreanos mudaram o jogo, e a Embrafilme sul-coreana alimentou um amplo sistema de cotas. Atualmente, 56% do caixa de cinema vem de Bong e de outros grandes nomes, como Park Chan-wook (Oldboy).

E, no entanto, apesar de mostrar as garras à base de soft power, a Coreia do Sul não é só Oscar, festa e rapapés. As desigualdades são muitas, e os escândalos de corrupção, contumazes — cassada em março de 2017, a ex-presidente Park Geun­hye foi condenada a 24 anos de prisão. Não há melhor catálogo dessas discrepâncias para revelar o porão que existe debaixo da superfície, o fosso entre ricos e pobres, do que Parasita. Eis a ironia: a joia da coroa sul­coreana traz embutidas, como um cavalo de Troia, as denúncias de uma sociedade apodrecida. De acordo com o coeficiente de Gini, medidor de desigualdade criado pela ONU, o país está entre os mais mal colocados entre os membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o clube dos privilegiados. Aparece atrás do Japão. Na Coreia, os 10% mais ricos concentram 45% da renda, número que quase dobrou em quinze anos — a título de comparação, nesse quesito, o da vergonha de ter duas categorias de cidadão, o Brasil fica na rabeira, à frente apenas de um punhado de nações africanas e do Suriname.

Nesse aspecto, o Japão, um pouco mais equilibrado, sorri timidamente — sabe que a Coreia ainda tem chão para caminhar. O governo de Tóquio reconhece que não pode perder oportunidades, e a próxima está logo ali. A Olimpíada, entre 24 de julho e 9 de agosto, será uma vitrine para mostrar o que tem de mais avançado e competitivo, como fez nos Jogos de 1964, também realizados na capital japonesa. Não por acaso, no encerramento dos Jogos de 2016, no Rio de Janeiro, o primeiro-ministro Shinzo Abe apareceu vestido com o boné vermelho de Super Mario, o popular personagem da franquia de videogames da Nintendo, criado ainda nos anos 1980. Os coreanos querem fazê-lo dançar ao som de k-pop.

JOGO ACIRRADO

Em muitos indicadores, os coreanos já ultrapassaram os japoneses

Por Alexandre Salvador, na Revista Veja




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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

CONCORDAMOS EM DISCORDAR - ESTEBAN × REZENDE


Especialistas divergem sobre o método do ministério para medir a capacidade de apreensão das crianças

MARIA TERESA ESTEBAN, 57 anos, fluminense

O que faz e o que fez: é professora do programa de pós-graduação em educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora com ênfase em avaliação de aprendizagem. Tem graduação em pedagogia e mestrado em educação pela mesma instituição e doutorado pela Universidade de Santiago de Compostela

WAGNER SILVEIRA REZENDE, 35 anos, mineiro

O que faz e o que fez: conselheiro da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave), é professor e pesquisador do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF), insituição onde fez a graduação e a pós-graduação

Qual a melhor forma de secretários de educação diagnosticarem se os alunos de suas redes estão aprendendo?

MARIA TERESA ESTEBAN A melhor forma é aproximar a gestão e os processos escolares, com diálogo, e observar a situação do funcionamento das escolas. Isso inclui saber quais são as condições de trabalho do docente e os processos de formação continuada. Quando a gestão se volta para observar as circunstâncias de vida e trabalho na escola, ela vai formando um conjunto de informações bastante significativo. Inclusive sobre a aprendizagem e as ações necessárias para ampliar a qualidade desse trabalho com as crianças e o conhecimento adquirido na escola.

WAGNER SILVEIRA REZENDE O caminho é a avaliação de larga escala. Como instrumento, a avaliação pode servir para diagnosticar desigualdades e problemas de aprendizagem. Mas essa estratégia exige cuidados porque pode também hierarquizar escolas e criar uma espécie de disputa, o que não faz sentido nenhum. Essa é uma competição absolutamente sem sentido. A comparação é da escola com ela mesmo. A escola passa a ter diagnóstico periódico e se avaliar. Toda avaliação deveria produzir um processo de autoavaliação. O que a gente precisa pensar agora é em avançar nos métodos. Fazer avaliação digital, que não precisa de papel e deixa o aluno conduzir o processo. Os avanços das tecnologias na educação vão trazer reflexões. O mundo está mudando e a gente vai continuar fazendo as mesmas avaliações do começo do século XX?

Devemos avaliar a fluência na leitura de crianças no 2º ano do ensino fundamental, quando elas têm 7 anos, como pretende o Ministério da Educação (MEC)?

MTE Não. Quem tem de acompanhar a fluência das crianças são os professores e a equipe pedagógica. Elas devem se perguntar: nessa semana elas estão lendo melhor do que na passada? Estamos oferecendo propostas pedagógicas que mobilizem as crianças para fazer a leitura? Quando é que estamos pedindo para que leiam em voz alta? Em quais situações? Que materiais e em que contexto elas estão sendo desafiadas ou convidadas a ler em voz alta? Para isso, o professor precisa ter bons instrumentos de registro daquilo que está fazendo e de como as crianças estão se desenvolvendo. O que está ou não está funcionando bem. De quais alternativas ele lança mão, onde precisa de ajuda. Isso tudo faz parte da avaliação do cotidiano e precisa ser registrado e pode ser reportado à gestão central.

WSR É importante, sim. E não se restringe ao ciclo de alfabetização. A fluência é um elemento em todas as etapas. Tanto que o Ceará já fez esse teste no ensino médio. A hipótese por trás disso é que, quando um aluno lê fluentemente, entende melhor o que está sendo dito. O instrumento da avaliação nacional é importante para diagnosticar problemas em alunos que não são fluentes. Esse tipo de avaliação no Brasil é recente. Toda literatura de base é estrangeira. E existem diferentes formas de fazer isso. Uma delas é o professor fazer a gravação por um aplicativo e enviar para o MEC. A experiência que eu tive no CAEd/UFJF, com a gestão anterior do MEC, e que avaliou o Programa Mais Alfabetização, foi feita dessa forma para logisticamente dar conta de um número grande de alunos.

Quais benefícios essa avaliação pode trazer?

MTE A avaliação em larga escala e censitária, mostram as pesquisas, tem tido um efeito negativo na educação, no sentido de padronizar processos, fortalecer dinâmicas pedagógicas de natureza mecanicista, dar mais densidade aos processos que vão trabalhar a alfabetização como codificação e decodificação — e não como leitura e compreensão da palavra como forma de diálogo com o mundo. Os estudos mostram que as escolas vão adotando ações no sentido de se voltar mais àqueles estudantes que podem ter bom desempenho nos exames e ir colocando em segundo plano aqueles que não demonstram as mesmas possibilidades, além de trazer para a sala de aula atividades que sejam treinamento para que as crianças façam os exames. Tudo isso diminui a dimensão pedagógica do trabalho. E vai reduzindo a escola como o lugar de trabalho para o conhecimento e fortalecendo a escola como lugar de treinamento e reprodução de informação.

WSR Os resultados são utilizados de forma reflexiva para entender o desenvolvimento dos alunos, diagnósticos individuais. Uma criança pode passar de ano com problemas na fluência sem que isso seja percebido. Os resultados das avaliações podem servir ainda como instrumento para que problemas sejam identificados levando a uma reflexão do professor. As diferenças entre alunos que são leitores fluentes e alunos que não têm essa mesma compreensão vão se tornando cada vez maiores ao longo da trajetória escolar da criança e podem significar um futuro promissor ou não na vida e no mercado de trabalho. O mundo gira em torno da capacidade de ler e se manifestar sobre isso. Faz muita diferença para o aluno. Talvez por isso seja tão importante esse tipo de avaliação. Mas o exame da fluência é um complemento. Sozinho não resolve todo problema. A minha premissa é que, quanto mais aspectos o sistema conseguir avaliar, melhor. Não é o único. Tem ainda a avaliação de leitura com testes objetivos e de escrita.

Crianças de 7 anos devem passar por avaliações de larga escala?

MTE Para as crianças pequenas, que estão começando o ensino fundamental ainda no processo de alfabetização, esse tipo de avaliação tem muita pouca capacidade de contribuir para o trabalho pedagógico. Alguns pesquisadores, no entanto, vão defender que, quando a avaliação é amostral, reduz os problemas que elas causam. Não inibe, mas reduz esse efeito de controle e classificação na sala de aula e permite que o gestor tenha uma noção de como vai o sistema. A avaliação deveria ser do sistema, mas é cada vez mais da criança. A gente olha o desempenho do aluno, mas não se atém a todo o contexto: o que o sistema de ensino proporcionou para que a criança tenha esse resultado favorável ou desfavorável?

WSR A ideia de avaliar é amalgamada à própria ideia de escola. A avaliação é um direito, não uma imposição. O aluno tem o direito de saber como está seu desenvolvimento. E avaliação externa sofre muita resistência, desde a criação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), em 1990. Pode avaliar criança? Pode, claro. O cuidado que se tem de ter é se o que está sendo exigido é condizente com a idade e se está no currículo. E, principalmente, como os resultados serão usados. Não é punir, categorizar, mas identificar problemas. Dar suporte a outras instâncias. Pensar o planejamento de acordo com a dificuldade, até chegar no nível da secretaria de Educação. Minas Gerais tem 854 municípios. O secretário não consegue saber o que acontece em todos. Ele precisa de um indicador com uma imagem um pouco mais mapeada da rede. E isso já é realizado, na alfabetização, em estados como Ceará, Minas Gerais, Pernambuco. No Espírito Santo, isso é feito nos três primeiros anos do fundamental.

Segundo o MEC, ao fim do 1º ano, os estudantes devem ser capazes de ler 60 palavras por minuto. Essa é uma boa métrica?

MTE Como toda métrica, é um padrão único que, por princípio, desenvolve desigualdade. Crianças diferentes vão tendo possibilidades diferentes de ir se apropriando da escrita e da fluência da leitura oral. Mais uma vez, é um padrão que deve estar baseado em algum estudo, mas que vai atender a um grupo restrito de crianças. Vamos ter muitas que não vão atender a essa métrica e que vão ser vistas como aquelas que não estão lendo na fluência desejada. E, ao olhar para a métrica e para o resultado, a gente deixa de olhar para a criança.

WSR Essa não é uma métrica rigorosa. No Programa Mais Alfabetização, a expectativa de leitura de uma pessoa fluente era de mais ou menos 60 palavras por minuto, considerando palavras que existem e pertencem ao vocabulário do aluno e pseudopalavras, que são palavras que não existem. Elas são incluídas com o objetivo de que o aluno leia de fato o que está escrito. Não é uma métrica absoluta, é uma estimativa baseada em literatura consolidada. Não pode se transformar numa medida absoluta porque alfabetização é um processo no qual os alunos vão aprendendo juntos com velocidade diferentes.

O MEC pretende passar a avaliar todas as etapas, do 1º ano do ensino fundamental até o 3º do médio. Qual é sua opinião?

MTE Isso vai agravar ainda mais os processos de classificação e, portanto, de produção de desigualdade dentro da escola. Essa medida tem ainda uma possibilidade grande de ir reduzindo cada vez mais a ação pedagógica, enquanto aumenta o treinamento das crianças para as avaliações externas. Muda o foco. Tira da aprendizagem e desloca para o controle, classificação e redução do conhecimento aquilo que pode ser verificado em exames de larga escala, que são conteúdos bastante reduzidos.

WSR Avaliar o fim do ciclo, como é feito atualmente, se baseia na ideia de que a aprendizagem é cumulativa. Ou seja, essa avaliação está averiguando o conhecimento acumulado dos anos anteriores. Em minha perspectiva, a avaliação é um direito. Então, é justo que só o professor de português e matemática tenha acesso a essa excelente informação? Não é importante para todos? E por que só no 9º ano? As redes públicas mostraram que querem e até desenvolveram sistemas próprios. O perigo que há nisso é o excesso de avaliação para os alunos. Às vezes fica parecendo o tempo todo que eles estão sendo avaliados. A questão não é mais se vai ter ou não, mas a inteligência dos instrumentos que a gente aplica.

Por Bruno Alfano, na Revista Época






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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

EDUCAÇÃO - CHACOALHADA NO CURRÍCULO


As novidades. implantadas nos ensinos fundamental e médio de escolas particulares da capital, atendem às exigências do Ministério da Educação

Empreendedorismo, ioga, produção e edição de vídeo e até desenvolvimento de um creme hidratante são apenas algumas das novas habilidades que serão trabalhadas com alunos dos ensinos fundamental e médio das principais escolas particulares de São Paulo a partir deste ano letivo. As novidades fazem parte de uma adequação às exigências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), promulgada em dezembro de 2017. O foco principal é a formação integral de um aluno com capacidade de tomar decisões, trabalhar em equipe e resolver problemas com autonomia e autoconhecimento. Por trás de todas as aulas que fogem do formato da lousa e giz, está também uma tentativa de prender a atenção dos mais jovens. “Essas disciplinas promovem um saber mais aplicado à realidade, fortalecem a formação do aluno e o ajudam a se colocar no mercado de trabalho”, defende a educadora Lilian Neves, autora de Gestão da Transformação Educacional. “O objetivo é promover um aprendizado com significado.”

No Colégio Bandeirantes, na Vila Mariana, por exemplo, os estudantes do ensino médio terão aula de cosmetologia — isso mesmo, vão criar um produto cosmético. A escolha do tema não surgiu ao acaso. Foi pensada justamente para atender a uma demanda dos jovens por saber mais sobre a indústria da beleza, uma das que mais crescem no mundo. Em sala, serão trabalhados conhecimentos de química, física, biologia, geografia e história, além de marketing e design. “Vamos criar um creme hidratante e a partir dele abordar questões de pH do produto, viscosidade, estabilidade, textura, essência, cor. Também vamos pensar na embalagem e nas estratégias de venda. Tudo com base na interdisciplinaridade”, diz Carolina Zambrana, professora de química da escola.

De olho nas plataformas digitais, a Escola Pueri Domus, com unidades na Chácara Santo Antônio, na Aclimação, no Itaim e em Perdizes, pôs à disposição dos estudantes uma série de disciplinas eletivas ligadas ao chamado “letramento digital”, como design de games e DJ. Na matéria de YouTube, serão ministrados conceitos de programação, filmagem e edição de vídeo para usar nas diversas plataformas. Nas atividades realizadas dentro de um laboratório audiovisual completo, porém, a meta não é formar youtubers ou influenciadores digitais. “Todos têm um celular com câmera nas mãos. Vamos ensiná-los a usar o recurso de maneira mais competente e profissional”, explica a diretora-geral Lady Christina Sabadell, que destaca a possibilidade de a garotada treinar habilidades em diferentes linguagens. Também estreiam neste ano as aulas na cozinha para as crianças do ensino fundamental. A estratégia é ensinar a composição dos alimentos, o reaproveitamento, a produção de sucos, o desenvolvimento do paladar e conceitos de gastronomia. “É um trabalho muito mais de consciência do que de aprender a cozinhar”, explica Lady.

Uma das maiores preocupações das escolas é formar cidadãos empreendedores, especialmente preocupados em contribuir para um mundo mais sustentável, e que saibam cuidar das próprias finanças. No Colégio Visconde de Porto Seguro, no Morumbi, a disciplina de educação financeira passa a compor obrigatoriamente a grade de 2020. Meninas e meninos vão trabalhar quatro eixos — ganhar, gastar, investir e doar — para saber como arrecadar fundos, desenvolver planilhas, conhecer taxas de mercado, investimentos, lidar com o dinheiro virtual. Em outra disciplina, “escola de negócios”, uma situação problema deverá dar origem a um projeto para apresentar uma solução para a empresa. Com o objetivo de tornar as dinâmicas mais práticas, a escola fez uma parceria com cerca de quarenta empresas de diferentes ramos que abasteceram os professores de situações do dia a dia.

Ainda pensando no empreendedorismo aliado à sustentabilidade, os matriculados no Colégio Dante Alighieri, nos Jardins, poderão cursar uma disciplina chamada “sustentabilidade, projetos ao redor do mundo”. Segundo Sandra Tonidandel, diretora pedagógica, os alunos vão abordar a questão ambiental sob o pon- to de vista da produção de arte. Uma das aulas terá como inspiração o artista plástico brasileiro Vik Muniz e suas ações com catadores de lixo. No caso, vão reutilizar tampas de todo tipo de embalagem plástica. “É sustentabilidade não apenas como ciência, mas como obra de arte através do lixo”, explica.

Na contramão da tecnologia, o Colégio Presbiteriano Mackenzie, em Higienópolis, vai investir na pesquisa de documentos em livros e acervos, sem o uso da internet. Com o mantra “Máscara na cara e cara na poeira”, o professor Gabriel Neves, coordenador do curso de história, pretende estimular o aluno com o encantamento gerado pelo acesso real a itens históricos. Ainda que os recursos digitais sejam abordados, o ponto alto da aula será a utilização de documentos impressos para fazer refletir. Visitas a alguns acervos também estão previstas. “Quando formos falar da República Velha e da Revolta da Vacina (motim popular ocorrido no Rio de Janeiro em 1904 por causa da obrigatoriedade da vacina contra varíola), por exemplo, vamos mostrar o documento com a lei editada na época para que os alunos entendam a mentalidade daquele período.”

Estão no radar ainda momentos lúdicos e de autoconhecimento. Na Escola Móbile, na Vila Nova Conceição, a disciplina voltada para estudantes de ensino médio recebeu o nome de “corpo e movimento”. Jogos e brincadeiras (que não demandem uso da internet) entram em cena para que o aluno se desligue da rotina escolar e consiga relaxar, especialmente em um período de stress por causa do vestibular. “O 3o ano é um período muito intenso na vida desse jovem. Queremos que ele ‘desligue’ por sessenta minutos, aprenda a respirar, a se concentrar, a brincar. Isso vai formar uma pessoa mais confiante”, avalia Wilton Ormundo, diretor do ensino médio. Outra disciplina da Móbile é “impressões e expressões”. Temas que parecem abstratos como os conceitos de eu, outro, presente e futuro ajudam a trabalhar a empatia e o diálogo. Na hora da avaliação, o aluno escolherá a forma de se expressar, de acordo com suas aptidões. Pode ser um vídeo, um conto, um desenho. “Nesse caso, vamos potencializar as habilidades de cada um, já que ninguém é igual a ninguém”, completa Ormundo.

No Cambuci, o Colégio Marista Glória também terá uma classe específica para desenvolver a autopercepção. Segundo o professor Marcos Aurélio Pereira, será um momento de interromper a rotina intensa de estudos e dedicar a atenção a um momento voltado ao universo interior, “em que não existe tempo”. Por meio do uso de técnicas de ioga, o aluno faz uma pausa para ouvir o seu entorno, sua própria respiração, os sons da natureza. “Vivemos num tempo de abundância de informações e de recursos tecnológicos. Queremos que o estudante entenda o fluxo natural das coisas. É preciso oxigenar”, diz.

Apesar de trabalhar um “desmame” da tecnologia, o Marista Glória vai implementar entre as aulas complementares a disciplina de robótica. Em parceria com a Lego Education, tanto os frequentadores do ensino fundamental quanto os do ensino médio terão a oportunidade de desenvolver conceitos de programação e aprimorar suas competências (de acordo com a faixa etária, claro). Rafaela Jorge de Oliveira, coordenadora do núcleo, espera assim incentivar espírito de equipe, planejamento, coopera- ção e tomada de decisões.

Para Cristina Nogueira Barelli, coordenadora do curso de pedagogia do Instituto Singularidades, em Pinheiros, todas essas disciplinas demonstram o esforço dos colégios de se aproximar dos interesses dos alunos contemporâneos, ampliando o leque de possibilidades. “Não existe melhor ou pior. O trabalho é buscar atender à necessidade de evolução, por meio do estímulo às habilidades dos alunos”, avalia Cristina. “Você vai estudar química e física em aulas práticas e aplicadas. As escolas estão criando caminhos para trabalhar as aptidões dos alunos e tornar o projeto curricular muito mais interessante”, diz Cristina. Os métodos e disciplinas variam de uma instituição para outra, mas os educadores concordam em que há necessidade urgente de atualização. “A aprendizagem só acontece e passa a ser significativa se faz sentido na vida do aluno”, finaliza a educadora Lilian Neves.

Por Fernanda Bassette, na Veja/SP






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