domingo, 30 de dezembro de 2007

Feliz Natal e um 2.008 redondinho, como papai Noel

O ano correu rápido e já é natal. Sim, o espírito de natal já ilumina as áureas de todos nós. São dias em que experimentamos a magia dos olhares mais sinceros, dos braços e gestos mais fraternos e solidários. Dias em que percebemos a importância do amor, da paz, da família e da fundamental importância de lutarmos por uma pátria mais generosa e um mundo melhor e mais justo para todos.

É natal! E que em 2.008, todos os nossos dias sejam dias de Natal. Seja segunda, seja terça-feira, não importa! Agora é lei. Está decretado. Em 2.008, todos os nossos dias serão dias de natal. Não teremos mais aqueles dias mais ou menos, aqueles dias tristes e enfadonhos. Serão todos dias alegres, felizes, em que emprestaremos todo o nosso suor e esforço para tornar o Brasil um país sem tantos desequilíbrios e diferenças. Um país que mantenha-se invulnerável às ratazanas, aos lobos do homem.

Sempre neste período do ano me pego cantarolando a bela canção que John Lennon dedicou ao natal. Não por acaso sua composição Feliz Natal foi por ele também denominada A Guerra Acabou. E porque fez assim o carismático timoneiro dos Beatles?

Porque temos que internalizar o natal como um momento, sobretudo, de cultivar a paz, o que implica desmobilizar nossa vertente violenta, egoísta, que evoca a agressão, a prepotência e a guerra.

Que tal nos lembrarmos dela? Está no álbum Imagine, gravado e lançado em 1971. Logo abaixo da original, segue a versão traduzida para o português:

Happy Xmas (War Is Over)

Happy christmas, Kyoko.
Happy christmas, Julian.

So this is christmas and what have you done?
Another year over, a new one just begun.

And so this is christmas, i hope you have fun,
The near and the dear one, the old and the young.

A very merry christmas and a happy new year,
Let's hope it's a good one without any fear.

And so this is christmas for weak and for strong,
(war is over if you want it,)
For the rich and the poor ones, the road is so long.
(war is over now.)

And so happy christmas for black and for whites,
(war is over if you want it,)
For the yellow and red ones, let's stop all the fight.
(war is over now.)

A very merry christmas and a happy new year,
Let's hope it's a good one without any fear.
And so this is christmas and what have we done?
(war is over if you want it,)
Another year over, a new one just begun.
(war is over if you want it,)

And so this is christmas, we hope you have fun,
(war is over if you want it,)
The near and the dear one, the old and the young.
(war is over now.)

A very merry christmas and a happy new year,
Let's hope it's a good one without any fear.

War is over
If you want it,
War is over now.

Happy christmas!
Happy christmas!
Happy christmas!
Happy christmas!
Happy christmas!


E a tradução:

Feliz Natal (A Guerra Acabou)
Feliz Natal Kyoko
Feliz Natal Julian

Então é natal
E o que você tem feito?
Um outro ano se foi
E um novo apenas começa
E então é natal
Espero que tenhas alegria
O próximo e querido
O velho e o Jovem

Um alegre Natal
E um feliz ano novo
Vamos esperar que seja um bom ano
Sem sofrimento

E então é natal
Para o fraco e para o forte
Para o rico e para o pobre
O mundo é tão errado
E então feliz natal
Para o negro e para o branco
Para o amarelo e para o vermelho
Vamos parar com todas as lutas

Um alegra Natal
E um feliz ano novo
Vamos esperar que seja um bom ano
Sem sofrimento

E então é Natal
E o que você fez?
Um outro ano se foi
E um novo apenas começa
E então feliz Natal
Esperamos que tenhas alegria
O próximo e querido
E velho e o Jovem

Um alegre Natal
E um feliz ano novo
Vamos esperar que seja um bom ano
Sem sofrimento
A guerra acabou, se você quiser
A guerra acabou agora


Feliz Natal.

O Coral Itaipu & Orquestra caprichou numa versão bem especial. Veja se não estou correto, clicando AQUI.

E de Lennon, como não lembrar também de Imagine?

Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today, ah-ha

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in piece

You, may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us

And the world will live as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You, may say that I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope someday you'll join us
And the world will live as one


E a tradução:

Imagine que não exista nenhum paraíso,
É fácil se você tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo o dia de hoje...

Imagine que não exista nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada porque matar ou porque morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...

Imagine nenhuma propriedade,
Eu me pergunto se você consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.

Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não sou o único.
Eu espero que algum dia você junte-se a nós,
E o mundo viverá como um único.


Não posso deixar de compartilhar com os amigos a incomparável versão de Neil Young.
Veja, basta clicar AQUI.

Na realidade, ao evocar a memória e as canções de John Lennon queria desejar, de uma forma muito especial, a todos vocês que acompanham este blog, um Feliz Natal e um ano novo repleto de realizações.

Feliz Natal!!!!!

Feliz 2.008!!!!!

Mas não se assanhem, queridos amigos. Não os deixarei por muito tempo. No dia 07 de janeiro estarei de volta. Sem falta. Aqui, no mesmo bat-endereço. Chova canivete.

Até lá e boas festas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Celulares, caldo de galinha & ramo de arruda


Os aparelhos celulares tornaram-se um dos presentes mais cobiçados pelos nossos filhos. Com modelos desenvolvidos por artistas, designer’s e estilistas – e exalando tecnologia avançada, de ponta – torna-se quase impossível resistir aos seus encantos e utilidades.

Mesmo porque, talvez o que menos se faça com um desses modernos aparelhinhos móveis seja - por incrível que pareça - falar, conversar, comunicar-se com um outro.

Com a modernização os celulares incorporaram a câmara fotográfica. E logo depois a filmadora. Sucumbiram à magia da música e passaram também a oferecer gravador de voz e tocadores de música e vídeo como o MP3 e o MP4. Num escalada que parece não ter fim, já disponibilizam editores de texto, agendas, gerenciadores de arquivos, além de substituir, com maior eficácia, os pen-drives. As inovações e a capacidade de memória explodem a cada novo modelo lançado no mercado. Alguns aceitam cartões de memória de 4GB, comportam câmaras fotográficas de 5 megapixels e esnobam uma tela sensível ao simples toque. Pouco? No Japão e na França já funcionam como cartão de crédito e pagam até mesmo a corrida de taxi e a passagem do metrô.

Agora a indústria prepara-se para popularizar modelos que substituem o controle remoto universal e divirtam muito mais, reproduzindo a programação dos canais de TV, abertos e fechados.

A lógica é fazer o aparelhinho ganhar ares de imprescindível, o equipamento impossível de não desejar e possuir, o companheiro de todas as horas e jornadas.

A onipresença dessa modernidade muitas vezes compromete a qualidade das relações. Em público, as pessoas se acostumaram a falar ao celular sempre em tom alto, elevando a voz a uma tonalidade completamente desnecessária, como se o interlocutor (e as pessoas próximas) fossem surdos ou tivessem problemas de audição. No teatro e no cinema, apesar dos ostensivos avisos para manter o aparelho desligado, os mal educados incomodam, importunam, e com que inconveniência!?

Mas não existe nada tão perturbador e fora de contexto que sua utilização em sala de aula: na mão de aluno ou de professor, jamais deixará de ser uma inaceitável falta de respeito, quando menos.

Utilizando alta freqüência de 1850 MHz – as redes sem fio wi-fi chegam a 2,4GHz – há suspeitas de que a super exposição aos campos magnéticos cause dores de cabeça, queda de cabelo, insônia, tortura e problemas digestivos.

Todavia, a própria Organização Mundial de Saúde coordenou estudos que envolveram a análise de mais de 25.000 pesquisas, não encontrando correlação entre a exposição a campos magnéticos e distúrbios à saúde.

Como até mesmo seguro morreu de velho, não custa adotar medidas preventivas. É o que já fazem governos de países desenvolvidos. Na Suíça, por exemplo, o governo aconselha que aparelhos elétricos e sem fio permaneçam a uma distância mínima de 2 metros da cama das crianças.

Já na Inglaterra, o governo através do Departamento de Saúde recomenda aos menores de 16 anos que utilizem o celular apenas para ligações essenciais.

O governo alemão optou por sugerir que a população evite a utilização de redes em fio wi-fi até que os impactos de suas ondas eletromagnéticas nas pessoas sejam devidamente esclarecidos.

Não se tem notícia de que prudência, caldo de galinha e ramo de arruda tenham causado mal a ser vivente.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro, escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Para auferir coisa alguma


Os organismos internacionais freqüentemente se surpreendem com o volume de recursos que o Brasil aloca em seus programas de desenvolvimento. É uma quantidade de recursos orçamentários e financeiros vultosos, expressivos, compatíveis com a dimensão econômica do país, sempre oscilando em torno das dez mais substantivas economias do mundo.

Mas se surpreendem muito mais quando verificam que parte considerável dos investimentos realizados se pulverizam, desmancham-se no ar, levando a resultados efêmeros, ineficazes, pífios e medíocres.

Dentre as causas dos reiterados fracassos, a que se destaca - por indecorosa e aviltante - é a corrupção, que carreia para o aterro sanitário o esforço de gerações, de milhões e milhões de brasileiros. E a corrupção, todos sabem, tem como nutriente preferencial a vasta teia de labirintos onde adquire músculos de aço a gigantesca burocracia estatal. Rotinas operacionais, fluxos administrativos, procedimentos gerenciais, um marco regulatório que refuga a livre iniciativa, o empreendedorismo e o crescimento sustentável, além da cultura corporativa originam o miasma nauseabundo de que se sorvem as negociatas, o tráfico de influência, o clientelismo e a troca de favores.

E mesmo a corrupção decorre também de problemas de administração. Para dirigir com eficácia qualquer empreendimento é preciso assegurar que a arte da gestão esteja sob completo domínio. É necessário se apropriar das ferramentas mais adequadas, se cercar dos profissionais mais qualificados, estabelecer metas e objetivos claros e exeqüíveis, monitorar e retro-alimentar o processo com zelo e persistência férrea, vontade inquebrantável. Não basta querer, desejar, é necessário saber.

Todavia, embriagado pelo viés perverso do ‘jeitinho brasileiro’ quem lá vai querer saber de compromissos, de metas, de controle e avaliação, de se comprometer com qualidade e cobrança de resultados? “Deixa a vida me levar”, não é a cantiga da vez, a cantilena que embala o sonho de quase todos?

Em todos os níveis do ensino, os investimentos governamentais têm sido expressivos e crescentes. O problema é que a corrupção e a má gestão acompanham o ritmo.

No ensino superior, por exemplo, efetuando as correções decorrentes de perdas inflacionárias, os investimentos – apenas nas universidades públicas – saltaram de 7,0 bilhões de reais em 1997 para 9,9 bilhões em 2.006. Em qualquer lugar do mundo essa quantia não é nada desprezível. É muito dinheiro. Nos países desenvolvidos, investimentos desse porte traduzem-se em riqueza social porque a corrupção e a má gestão, lá, são enquadradas e os responsáveis obrigados a passar longas temporadas nos presídios federais, vendo o sol nascer quadrado.

O universitário brasileiro demanda 2,5 vezes mais investimentos dos que seus colegas dos países desenvolvidos. Enquanto no Brasil, o custo de um estudante da universidade pública equivale à renda anual média do brasileiro, nos países desenvolvidos, a média com dificuldades chega a 40%. Tomando as regras da proporcionalidade é fácil perceber que alguém nesta história está muito errado.

Nossos problemas estão longe, muito longe da tão propalada insuficiência de investimentos. Tem quase tudo a ver com leniência e brandura com que são tratadas a corrupção e a má gestão dos recursos públicos.

É evidente que os investimentos deverão continuar crescendo para assegurar qualidade à educação brasileira. Mas sem lidar com a questão da súcia de gatunos que assaca contra os cofres públicos, por mais que se invista, os resultados sempre estarão muito aquém do efetivamente necessário. É quando se mobiliza o trabalho, esforço e o suor de várias gerações para auferir coisa alguma.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro, escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A arte de chicotear os números


Há os que preferem lidar com os números de uma forma artificial e enganosa, uma maneira capciosa de atribuir seriedade a certos assuntos e questões, fidedignidade a dados incorretos, crédito a informações deturpadas.

De fato, os números emprestam um grau relativo de confiabilidade mesmo às temáticas de natureza incerta e duvidosa, mesmo quando o foco, enfoque e abordagem apresentam-se claramente estapafúrdios.

Se a assunto é por demais inverossímil, então basta acrescer um tempero arábico-decimal e lá estará o dito cujo, elevado à condição de crível, inquestionável, infalível, imperativo.

Aos afeitos aos mistérios do ocultismo, existe inclusive a numerologia, o estudo dos números e seus significados, da influência que exerce no caráter e mesmo no destino dos homens.

Pitágoras, muito antes de Cristo, desenvolveu um teorema que fez escola. O Teorema - que leva o seu nome - dispõe que em um triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. Fundador da escola pitagórica, Pitágoras fundou em Crotona, colônia grega, uma associação científica e política, que defendia o número, as relações matemáticas, como a essência, o princípio fundamental de que são constituídas todas as coisas.

O engenheiro Leonel Brizola ilustrava este cenário - criado para elevar a estatística e as informações duvidosas aos píncaros da glória - com uma curta narrativa. O que tem de perspicácia, tem de ironia e lucidez: “(...) seus números e sua estatística são como o sujeito que morreu afogado numa lagoa cuja profundidade média não passava de um palmo”.

Com boas ou más intenções, os institutos de pesquisa já macularam a história da política brasileira com erros grosseiros, memoráveis, que não poucos acreditam propositais. Para fugir do descrédito e das conseqüências, a justificativa e os arrazoados já figuram devidamente decorados na ponta da língua: “os resultados expressam o exato instante da coleta da informação. E no justo instante do voto, o eleitor mudou de opinião”. E fica o dito por não dito.

Mas chicotear os números não é privilégio dos institutos de pesquisa de opinião. Até mesmo instituições de reconhecida importância às vezes vacilam e, ainda que sem segundas intenções, lançam mão da vergasta.

E quem poderia imaginar que a Organização das Nações Unidas, a tão expressiva ONU, a mais relevante instituição de colaboração internacional poderia estar entre elas?

A organização criada no pós-guerra para promover e fortalecer a paz entre as nações divulgou num estudo que, em 1996, havia no Brasil 500 mil adolescentes em situação de completa vulnerabilidade sexual, já em estágio de prostituição explícita.

Para chegar a estes números, como procederam os pesquisadores da ONU? Tomaram os dados relativos à capital pernambucana – onde o problema é latente – e, mecanicamente, os projetaram para todas as demais unidades da federação. Deu no que deu. Um erro crasso que obrigou a instituição a fazer um pedido público de desculpas em razão do dado correto ser 100 vezes inferior ao anteriormente divulgado, com pompa e circunstância.

No ano de 2.002, o procedimento se repetiu e a organização, novamente, submeteu a suplícios e punições os números relativos ao Brasil. Em relatório sobre o volume de drogas e entorpecentes disponibilizado no mundo, atribuiu ao país a posição de segundo maior mercado de cocaína do planeta. E mais uma vez o erro tosco e rude. Mas as desculpas só vieram dois anos depois, quando as Nações Unidas perceberam que o Brasil ocupava na realidade o décimo lugar no aludido ranking.

O mais recente vitupério da instituição ocorreu com o relatório dando conta que São Paulo concentra nada menos que 1% de todos os homicídios praticados no mundo.

Como das vezes anteriores, não demorou e a organização teve que se desculpar porque simplesmente não conseguiu, até hoje, apurar o número total de homicídios praticados no mundo. E porque utilizou como fonte da pesquisa, dados do jornal argentino La Nación, índices relativos ao, já nem tão recente, exercício de 2.002.

Neste caso, o mais intrigante é que todos têm se surpreendido com a significativa redução do índice de homicídios em São Paulo, conquista que resulta, sobretudo, da ampliação das vagas nos presídios estaduais, numa equação simples e direta: mais bandidos e homicidas na cadeia, menos assaltos, agressões e assassinatos nas ruas.

Uma velha canção de amor, ironizando a situação caótica por que passa o casal, afirma que tudo está certo, como dois e dois são cinco. Como na melodia, também na vida sempre existirão os que procuram afastar os números do que eles têm de mais belo e nobre: a precisão milimétrica, a exatidão perfeita. Por isso, toda a atenção ao encontrá-los ilustrando um belo texto. Busque outras fontes e referências, compare, relacione, questione... Não podemos nos fiar na primeira impressão, formar juízo baseado em uma única fonte. Se a diversidade dá substância à cultura, muito mais empresta à busca da verdade.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A pontapés e açoites


A sociedade se moderniza celeremente e impulsiona tudo e todos para frente. Para não se deixar tragar por uma zona cinzenta e obtusa é necessário não ficar para trás, não perder tempo, não perder a vez.

E o remédio é manter-se sempre atento, desperto, preparado para os desafios, cada vez mais crescentes, em número e também em complexidade.

Um sábio ensinamento herdado de nossos tataravôs mantém-se atualizado apesar do correr do tempo: o sucesso de amanhã depende de nosso trabalho de hoje. Que não deixa de ser um axioma. Também uma forma comedida, parcimoniosa, de discorrer sobre a histórica fábula da cigarra e das formiguinhas.

As formigas trabalharam o tempo todo, se mataram na lida, dia e noite, noite e dia, acumulando e poupando o máximo do que conseguiram amealhar. E quando a estação das vacas magras rompeu, a dispensa estava cheia, repleta do que comer, sinal eloqüente de que a fome seria mantida distante. Já a cigarra que ficara todo o tempo a cantar, sucumbiu na fome e na desgraça... Não poupou porque passou a vida a se divertir, sem preocupar-se em trabalhar, se lixando para a reserva que permitiria atravessar o rigoroso inverno.

Esta é a alegoria atribuída ao mestre grego das fábulas, Esopo.

Mas Monteiro Lobato apresentou uma versão mais fraterna, bem em conta para esses tempos de natal e festas de final de ano.

Na versão do mestre da literatura infantil, ao solicitar abrigo e alimento para as formigas, a cigarra encontrou abrigo, guarida, solidariedade, e passou a animar as novas amigas com seu cantar alegre e radiante de vida. Porque a vida não deve ser só trabalho e labuta.

Experimentamos tempos em que os séculos correm na efemeridade das horas, dos minutos. Os satélites tratam de tornar as distâncias tão voláteis como as cortinas de fumaça.

Também por isso é preciso se preparar, manter-se plugado, antenado, captando o que de importante deve ser apreendido, processando o que de substantivo a vida nos apresenta.

E a melhor forma de manter-se vivo, presente, em permanente estado de aceleração é estudando – meu Deus! ainda há quem duvide.

Para os que ignoram ou desdenham a máxima, a vida costuma cobrar um preço alto.

Em um dos seus trabalhos mais recentes, o BNDES identificou que a participação de brasileiros - que não concluíram o ensino fundamental - no mercado formal de trabalho caiu significativamente.

Para os que não completaram a 8ª série do ensino fundamental, a queda foi de quase 50%, precisamente 47%.

Os dados cotejados referem-se à década que inicia em 1995 e termina em 2005. Considerando que as transformações continuam em pleno curso, é de supor que a queda, hoje, seja substancialmente mais aguda.

Em 1995 este contingente de trabalhadores respondia por 28% do total de servidores do poder público. Em 2.005 o índice reduziu-se para 15%.

No comércio, a performance foi de 39% para 16%; e na indústria a queda foi de 56% para 29%.

Na agropecuária, um setor importante para a economia brasileira, os índices decresceram, de 85% para 71%.

O mundo globalizado não tem lugar para os trabalhadores não qualificados. Ao contrário, trata-os a pontapés e açoites.

Para este tipo de trabalhador os espaços no mercado de trabalho diminuem na velocidade da luz.

E não existe mistério algum, nenhuma dificuldade para explicar o que vem ocorrendo na economia brasileira: como a escolaridade média da população aumentou, as empresas exigem mais na hora de contratar com carteira assinada.

Para os que não querem ou não têm oportunidade para estudar, uma das poucas alternativas é o mercado informal.

Não bastassem as atividades intrínsecas da informalidade, deve-se acrescer outra: a saturação, o inchaço, o gigantesco número de trabalhadores que são expurgados para a informalidade, tornando a concorrência selvagem, insana, predatória.

É uma daquelas situações clássicas em que ficamos enclausurados, imobilizados, sem ter para onde fugir ou correr. Ou como nos sonhos malucos, quando diante do perigo, corremos, corremos, sem conseguir sair do lugar.

Felizmente, neste caso de emprego ou ocupação sustentável, as alternativas não variam muito. Para garantir, hoje, o emprego ou a ocupação que nos garantirá o amanhã, devemos estudar, precisamos nos qualificar, urge reciclar, importa capacitar, e tudo o mais que redunde em aprender... Só assim seremos capazes de fazer mais e melhor, utilizando menos tempo e insumos.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

O Brasil chegou lá!!!


A Organização das Nações unidas acaba de informar que o Brasil passa, a partir de agora, a integrar o conjunto de países considerados de alto desenvolvimento humano.

O governo naturalmente estourou champanhe e fogos de artifício e o presidente chegou a afirmar que o país ficou “chique”.

Os critérios que levaram a organização internacional a colocar o Brasil na lista do primeiro mundo estão ancorados no IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano.

O IDH é resultado de um trabalho que a ONU iniciou na década de 50. Nos anos 80, estimulada pelos trabalhos do economista indiano - premio Nobel - Amartya Sen, a metodologia foi aperfeiçoada e a partir de 1990, o indicador passou a ser disponibilizado com regular periodicidade.

Para chegar aos resultados leva em consideração três áreas estratégicas: saúde, educação e padrão de vida. E utiliza dados relativos à expectativa de vida, alfabetização adulta, quantidade de alunos matriculados nos três níveis de ensino e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Para ser inserido no rol dos tidos como de "alto desenvolvimento humano" o PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, estabelece que o país deve atingir média de pontuação igual ou superior a 0,800. Se o IDH for inferior aos 0,500 será considerado de "baixo desenvolvimento humano".

O Brasil ficou no limite, com o IDH igual a 0,800. É a justificativa para a promoção. Isto apesar do país ter despencado sete posições de 2003 para cá. Ocupa agora a 70ª posição no ranking, bem atrás dos vizinhos Chile, Uruguai, Argentina e também do México.

Aliás, a Argentina ocupa na lista a 38ª posição e passou a figurar no grupo que hoje o Brasil passa a integrar, exatas duas décadas atrás.

Motivos para comemoração? Nem tanto.

"O copo do Brasil ainda está meio vazio. Há muito o que ser feito para se aproximar da Argentina, que desde a década de 80 está no grupo de alto desenvolvimento humano". São afirmações do economista Flávio Comim, assessor especial para Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.

É fato que o IDH não consegue expressar a realidade e foi adotado com alternativa para fugir dos indicadores restritivamente econômicos, utilizados pelo Banco Mundial. Não obstante o avanço por abrir-se à vertente social, apresenta falhas e distorções e deve ser encarado com certa cautela. Ignora componentes importantes como a concentração da renda, a criminalidade, o analfabetismo funcional, e o saneamento básico, para citar alguns exemplos.

Nesta questão do saneamento o país exala irresponsabilidade política e institucional, é pura catástrofe. Para se ter uma idéia da gravidade do problema, considerando a dinâmica dos atuais investimentos governamentais, o esgotamento sanitário só estará disponível para todos os brasileiros no ano de 2.122, portanto, daqui a 115 anos. E um país que não consegue dar destino adequado ao seu excremento não pode ser considerado de alto desenvolvimento Humano, convenhamos.

O próprio PNUD reconhece as limitações de seu indicador e faz reparos quanto à sua capacidade de aferir o nível de desenvolvimento humano de um país.

Os que lidam com este tipo de indicador sabem das limitações do IDH, sobretudo quando ignora o conceito de desenvolvimento sustentável.

O especialista britânico Stephen Morse, professor da Universidade de Reading e autor de livros sobre estatísticas em desenvolvimento humano com freqüência recorre a um exemplo esclarecedor para explicar a vulnerabilidade da metodologia da ONU.

"Hipoteticamente, se o Brasil devastasse completamente a floresta amazônica e usasse a terra para plantar soja ou criar gado, o país subiria diversas posições e talvez até liderasse o ranking. Mas isso não pode ser chamado de alto desenvolvimento humano. O índice do PNUD só leva em consideração os benefícios de um país, mas não os seus custos”.

É evidente que as distorções não inviabilizam o instrumento e não esvaziam sua importância. O IDH deve ser recebido como mais uma ferramenta para auxiliar os governos e a sociedade. Agregado a outros índices, compondo uma cesta de indicadores, aí sim, poderá auxiliar na avaliação quanto à real eficácia das políticas públicas em execução.

Ou alguém em são consciência – que não o governo – acreditou com sinceridade que o Brasil se inseriu dentre os países de alto desenvolvimento humano?

Um problema genético do procedimento da ONU, é que o IDH utiliza apenas quatro variáveis para alcançar um conceito tão complexo como o desenvolvimento humano. Por isto o ranking da ONU é quase que ignorado pelos acadêmicos da área, esclarece Stephen Morse.

Com tantas inconsistências, fica fácil explicar as razões de países como Cuba (51º posição), Bugária (53º), e Tonga (55º) terem ficado bem à frente do Brasil.

A travessia para o outro lado, onde se acomodam os países desenvolvidos, será longa, exaustiva, árdua. Exigirá esforços concentrados da sociedade. O caminho não é plano e calçado. Está mais para uma ladeira íngreme e escorregadia, repleta de armadilhas.

O Brasil já ostenta uma pujança que causa inveja a muitos países do mundo. Sua economia, nas ultimas décadas, sempre está a gravitar em torno das dez mais expressivas do planeta. Mas problemas estruturais como a concentração da renda, a educação sem qualidade, marcos regulatórios defasados, burocracia excessiva que alimenta e robustece a corrupção, e os graves entraves de logística e infra-estrutura física, nos mantêm aprisionados ao grupo dos países em desenvolvimento.

E não tem como chegar lá sem fazer o dever de casa. A não ser para os que acreditam em papai Noel.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br


Na listagem do PNUD, o ranking da ONU. Seguem os países com seus respectivos IDH’s:

1) Islândia: 0,968
2) Noruega: 0,968
3) Austrália: 0,962
4) Canadá: 0,961
5) Irlanda: 0,959
6) Suécia: 0,956
7) Suíça: 0,955
8) Japão: 0,953
9) Holanda: 0,953
10) França: 0,952
11) Finlândia: 0,952
12) EUA: 0,951
13) Espanha: 0,949
14) Dinamarca: 0,949
15) Áustria: 0,948
16) Reino Unido: 0,946
17) Bélgica: 0,946
18) Luxemburgo: 0,944
19) Nova Zelândia: 0,943
20) Itália: 0,941
21) Hong Kong: 0,937
22) Alemanha: 0,935
23) Israel: 0,932
24) Grécia: 0,926
25) Cingapura: 0,922
26) Coréia do Sul: 0,921
27) Eslovênia: 0,917
28) Chipre: 0,903
29) Portugal: 0,897
30) Brunei: 0,894
31) Barbados: 0,892
32) Rep. Tcheca: 0,891
33) Kuait: 0,891
34) Malta: 0,878
35) Qatar: 0,875
36) Hungria: 0,874
37) Polônia: 0,870
38) Argentina: 0,869
39) Emirados Árabes: 0,868
40) Chile: 0,867
41) Bahrain: 0,866
42) Eslováquia: 0,863
43) Lituânia: 0,862
44) Estônia: 0,860
45) Letônia: 0,855
46) Uruguai: 0,852
47) Croácia: 0,850
48) Costa Rica: 0,846
49) Bahamas: 0,845
50) Ilhas Seychelles: 0,843
51) Cuba: 0,838
52) México: 0,829
53) Bulgária: 0,824
54) São Cristóvão e Névis: 0,821
55) Tonga: 0,819
56) Líbia: 0,818
57) Antígua e Barbuda: 0,815
58) Omã: 0,814
59) Trinidad e Tobago: 0,814
60) Romênia: 0,813
61) Arábia Saudita: 0,812
62) Panamá: 0,812
63) Malásia: 0,811
64) Belarus: 0,804
65) Ilhas Maurício: 0,804
66) Bósnia e Herzegóvina: 0,803
67) Rússia: 0,802
68) Albânia: 0,801
69) Macedônia: 0,801
70) Brasil: 0,800
71) Dominica: 0,798
72) Santa Lúcia: 0,795
73) Cazaquistão: 0,794
74) Venezuela: 0,792
75) Colômbia: 0,791
76) Ucrânia: 0,788
77) Samoa: 0,785
78) Tailândia: 0,781
79) República Dominicana: 0,779
80) Belize: 0,778
81) China: 0,777
82) Granada: 0,777
83) Armênia: 0,775
84) Turquia: 0,775
85) Suriname: 0,774
86) Jordânia: 0,773
87) Peru: 0,773
88) Líbano: 0,772
89) Equador: 0,772
90) Filipinas: 0,771
91) Tunísia: 0,766
92) Fiji: 0,762
93) São Vicente e Granadinas: 0,761
94) Iră: 0,759
95) Paraguai: 0,755
96) Geórgia: 0,754
97) Guiana: 0,750
98) Azerbaijão: 0,746
99) Sri Lanka: 0,743
100) Maldivas: 0,741
101) Jamaica: 0,736
102) Cabo Verde: 0,736
103) El Salvador: 0,735
104) Argélia: 0,733
105) Vietnã: 0,733
106) Palestina: 0,731
107) Indonésia: 0,728
108) Síria: 0,724
109) Turcomenistão: 0,713
110) Nicarágua: 0,710
111) Moldova: 0,708
112) Egito: 0,708
113) Uzbequistão: 0,702
114) Mongólia: 0,700
115) Honduras: 0,700
116) Quirguistão: 0,696
117) Bolívia: 0,695
118) Guatemala: 0,689
119) Gabão: 0,677
120) Vanuatu: 0,674
121) África do Sul: 0,674
122) Tadgiquistão: 0,673
123) São Tomé e Príncipe: 0,654
124) Botsuana: 0,654
125) Namíbia: 0,650
126) Marrocos: 0,646
127) Guiné Equatorial: 0,642
128) Índia: 0,619
129) Ilhas Salomão: 0,602
130) Laos: 0,601
131) Camboja: 0,598
132) Mianmar: 0,583
133) Butão: 0,579
134) Comores: 0,561
135) Gana: 0,553
136) Paquistão: 0,551
137) Mauritânia: 0,550
138) Lesoto: 0,549
139) República do Congo: 0,548
140) Bangladesh: 0,530: 0,547
141) Suazilândia: 0,547
142) Nepal: 0,534
143) Madagascar: 0,533
144) Camarões: 0,532
145) Papua-Nova Guiné: 0,530
146) Haiti: 0,529
147) Sudão: 0,526
148) Quênia: 0,521
149) Djibuti: 0,516
150) Timor Leste: 0,514
151) Zimbábue: 0,513
152) Togo: 0,512
153) Iêmen: 0,508
154) Uganda: 0,505
155) Gâmbia: 0,502
156) Senegal: 0,499
157) Eritréia: 0,483
158) Nigéria: 0,470
159) Tanzânia: 0,467
160) Guiné: 0,456
161) Ruanda: 0,452
162) Angola: 0,446
163) Benin: 0,437
164) Malauí: 0,437
165)Zâmbia: 0,434
166) Costa do Marfim: 0,432
167) Burundi: 0,413
168) República Democrática do Congo: 0,411
169) Etiópia: 0,406
170) Chade: 0,388
171) República Centro-Africana: 0,384
172) Moçambique: 0,384
173) Mali: 0,380
174) Niger: 0,374
175)Guiné-Bissau: 0,374
176) Burkina Fasso: 0,370
177) Serra Leoa: 0,336

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Escola ou campo de batalha?



O poema “Enjoadinho” de Vinícius de Moraes é uma ode aos nossos filhos.

Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!


Os alunos são como nossos filhos. Melhor dizendo, são nossos filhos sob a guarda e orientação de um mestre.

E como em casa, os filhos na escola costumam aprontar. Ás vezes uma simples brincadeira, de gosto duvidoso, sem maiores conseqüências. Mas quando os limites não são claramente pactuados, as conseqüências podem se tornar imprevisíveis, traumáticas, trágicas.

Dentre os casos extremos estão aqueles em que crianças levam para a escola a arma deixada pelos pais ao alcance das pequeninas e curiosas mãos. Progenitores relapsos e irresponsáveis, levianos e incapazes. O burburinho, a roda pequena em torno do instrumento letal que faz do policial e do super herói, justiceiros; o prenúncio da tragédia, o dedinho com dificuldade acionando a engrenagem, estampido seco, e um coleguinha ferido ou prostrado no chão.

Mas entre a normalidade e os casos extremos, existe um sem número de possibilidades que amesquinham o ambiente escolar.

A cidade da Rolândia, no interior do Paraná, serviu de cenário para um desses casos. Quem poderia supor que uma professora correria qualquer risco numa sala de aula, em seu ambiente de trabalho, enquanto exercia com responsabilidade seu ofício de educadora?

Quando se sentou na cadeira para fazer a chamada dos presentes, a professora sentiu um calor nas pernas, mas não deu tempo de se levantar sem que o estrago já estivesse consumado. Numa dessas brincadeiras sem limites, os alunos urdiram um plano travesso, janota: colar a professora na cadeira. Como desconheciam as conseqüências resultantes da interação de diferentes substâncias e solenemente ignoravam a química, ciência que elucida a estrutura das substâncias e suas reações, o que era para ser uma brincadeira traquina, uma peraltice, tornou-se caso de polícia.

A cola que lambuzava a cadeira reagiu com a camada de verniz que protegia a madeira, provocando o acidente que queimou as pernas da professora.

Auxiliada por uma servidora, a professora de matemática teve que recorrer ao hospital da cidade. E tão logo deixou o hospital, foi desabafar com o delegado, quando formalizou queixa de agressão. E o aluno identificado como responsável pela estultice foi punido, recebendo um gancho de três dias.

Já em Vacaria, interior do Rio Grande do Sul, na Escola Técnica Bernardina Padilha, um aluno da 6ª série resolveu, em plena sala de aula, praticar tiro ao alvo, fazendo, dos colegas, alvo. E a esmo, começou a atirar giz utilizando uma bodoqueira, um estilingue.
A inconseqüência não poderia render bons frutos. Um dos ‘petardos’ lacerou o olho esquerdo de uma coleguinha que perdeu 90% da visão. A criança terá que se submeter à uma cirurgia para transplantar a córnea.

Pais e mestres devem redobrar a atenção sobre as crianças e adolescentes. A irresponsabilidade é própria dos pirralhos, por isto são menores, estão com a consciência e a identidade em processo de formação. Mas faz parte – e parte importante – dessa formação a imposição de limites, a utilização apropriada da palavra ‘não’, a disciplina pactuada, exaustivamente discutida. Liberdade não pode ser confundida com licenciosidade e democracia com democratismo.

Pais e mestres devem aprender a desenvolver com os filhos e alunos relações democráticas. E enganam-se os que imaginam que democracia é o sistema do laissez faire e da libertinagem. Uma das grandes virtudes do verdadeiramente democrata é saber exercer a autoridade sem se fazer autoritário. E com todo o rigor, disciplina e responsabilidade que isto implica. Traduz-se em premiar com louvor quando merecido e punir com rigor quando necessário. O famoso jeitinho brasileiro, o nem-lá-nem-cá, o nem-uma-coisa-nem-outra, não gera referências, o que para uma criança em processo de formação soa tão grave quanto um crime. O melhor é deixar claros os limites; os direitos, os deveres, e a fronteira que os separam; e que apesar dos marcos delimitantes existe um largo espaço para a negociação. Daí, estabelecer os pactos e compromissos para que se extraia da convivência tudo o que dela se espera e pode oferecer.

Não sendo assim, teremos de nos resignar com a dor de receber nossos filhos retornando para casa maltratados, judiados, feridos. Como se regressando de um campo de batalha, não de uma escola.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Quem paga o pato pela récua de açougueiros?



Todas as profissões são importantes e beneficiam a sociedade. Mas a esmagadora maioria não necessita de instituições como os Conselhos Regionais e Federais. Sob o pretexto de defender os interesses da sociedade, essas instituições, na realidade, estimulam um corporativismo nefasto que – se protege os filiados, inclusive quanto aos seus crimes profissionais – funciona como uma barreira insurgindo contra os legítimos interesses da coletividade. A despeito de todo o referencial teórico que as legalizam, não passam de pelotões paramilitares para assegurar reserva de mercado Mas algumas poucas categorias profissionais (uma conta tão rarefeita que mal alcança a quantidade dos dedos de uma mão) efetivamente necessitam de regulamentação específica, mais criteriosa, e de instâncias de regulação e controle. É o caso do ofício da medicina.

Mesmo com todos os desvios e distorções dos Conselhos Regionais e Federal de Medicina, eis aí algumas organizações imprescindíveis para a defesa dos interesses da sociedade.

Mesmo que os processos internos de sindicância, inquérito e averiguação das irregularidades e crimes praticados pela categoria encontrem, quase que invariavelmente, colossal má vontade, celeridade paquidérmica e resultados pífios, os aludidos conselhos são necessários. Os desvios - não poucos, gritantes - decorrem do viés corporativo que os asfixiam, e da quase indiferença da sociedade que os mantêm sacrários, raramente recorrendo ao judiciário.

Corrigir as extremas disfunções que os atrofiam é uma tarefa premente da sociedade organizada, da pressão social, vez que governo e partidos políticos parecem tragados por outro tipo de preocupação. Pressionar para o eficaz funcionamento do Ministério Público e do judiciário já seria um bom começo.

Ainda que tardiamente, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo – CRM/SP - vem promovendo uma iniciativa importante, exemplar: a avaliação do ensino de medicina no Estado e conseqüentemente, da categoria médica.

E os resultados têm sido catastróficos por um lado, porque revelam a insolvência do sistema, mas animadores por outro lado, porque desvelam o que se encontrava encoberto, porque identifica a chaga exposta e porque evidencia de forma eloqüente o longo caminho a percorrer para a superação definitiva do problema.

Desde 2.005, o CRM/SP assumiu a corajosa iniciativa de avaliar os formandos de medicina na unidade da federação mais desenvolvida do país. E edição após edição, o quadro vai se mostrando tão deteriorado que não escapa a visão sequer de um cego dos dois olhos. No primeiro ano de implementação da avaliação, num universo de 998 estudantes, 69% foram aprovados. No ano seguinte, em 2006, dos 688 inscritos, lograram êxito 62%. A ultima edição, efetuada este ano, apresenta os piores resultados. Dos 2.200 graduandos de 23 escolas de medicina de São Paulo, 833 se inscreveram para fazer o exame. E menos da metade desses estudantes foram aprovados.

Trocando em miúdos, significa dizer que, precisamente, 56% dos formandos de medicina em São Paulo foram reprovados nas provas do Conselho Regional da área, uma forma categórica de concluir que as escolas de medicina – como, aliás, seria de se esperar - integram a fria e desqualificada cumbuca onde foi desleixadamente abandonada a educação brasileira.

Qualquer exame que se faça para aferir o nível de ensino e da educação do país, os resultados sempre estão como o velho samba de uma nota só: transitam de ruim para pior, de pior para péssimo, de péssimo para pífio, de pífio para medíocre, de medíocre para vergonhoso, e segue a infindável cantilena, no ritmo do alazão quando é para a inépcia, e do pangaré se o objetivo é qualificar.

O cenário é dos mais improdutivos e preocupantes, mas a situação não é irremediável nem a escuridão se apossou da esperança. Ao contrário. Por paradoxal que possa aparecer, agora há mais luz, mais claridade. Exatamente quando todas as avaliações, nacionais e internacionais, comprovam que a educação brasileira está no fundo do poço é que as esperanças se revigoram. E muito do renascimento da esperança resulta da determinação do Ministério de Educação de legar ao país a cultura da avaliação, do diagnóstico preciso, detalhado; identificando com exatidão o problema, sua real dimensão e onde se localiza, com precisão milimétrica.

O bom médico é aquele que, para aviar a receita eficaz, consegue realizar um diagnóstico primoroso, promover uma radiografia fiel do paciente, identificar a enfermidade de maneira irreparável. É o que está fazendo o MEC, e com louvável competência.

Iniciativa que vai se espraiando pelos demais setores da sociedade e que, a partir da experiência vitoriosa do Conselho de São Paulo, deve, em curto espaço de tempo, ser absorvida pelos demais conselhos regionais.

A realidade que está emergindo desses sistemas de avaliação é como uma hidra de sete cabeças, horrífica. Porém, mais vergonhosa e covarde era a postura anterior de não revelá-la, forma de manter as coisas inalteradas, insuscetíveis às mudanças. Conseguindo enxergar a quantas andam a educação e o ensino brasileiros, teremos aumentadas as chances de acertar no receituário.

E algumas boas soluções já emergem naturalmente deste processo virtuoso. Como, por exemplo, a decisão do Ministério de cobrar das escolas públicas metas de desempenho. E a decisão do governo de São Paulo de bonificar com até três salários mínimos a mais, por ano, o professor que atingir e superar as metas estabelecidas. Desafios que fazem tremer a malha sindical, tão preocupada com a defesa dos direitos corporativos que muitas vezes afronta os da coletividade.

O exame do CRM de São Paulo apresenta uma característica que torna o resultado do processo mais preocupante. Como é voluntário, não tem caráter punitivo e a reprovação não impede o exercício da medicina, pressupõe-se que a maioria dos que se submeteram ao processo figuram no quadro dos melhores alunos. Caso fossem obrigatórias, as provas inexoravelmente levariam a um percentual maior de reprovados.

Estão aí as explicações para a existência de academias e mais academias que produzem, a exemplo da grande indústria robotizada, ‘carons’ em série, uma súcia de delinqüentes devidamente ‘doutorados’.

Aos bons profissionais da medicina, poucos mas valorosos missionários, nossas reverências.

E quem paga o pato pela récua de açougueiros? A sociedade. Eu e você, caro leitor.

Um alerta a mais para os pais cuidadosos que amam seus rebentos: em pediatria, só 32% acertaram um simples diagnóstico de pneumonia.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O risco que nos assombra.




As conquista humanas se dão para o bem e também para o mal.

No caso da energia nuclear, por exemplo, a medicina testemunha avanços fantásticos que melhoram a longevidade e a qualidade de vida de pacientes que, e outra circunstância, sequer teriam sobrevivido.

Mas as forças que apontam para uma extremidade, apontam também para a outra. É o caso da indústria armamentista que utiliza o potencial da criatividade humana para provocar pavor, despertar o terror, a destruição e a morte.
E neste contexto os limites inexistem, são tão consistentes e rígidos como uma barreira de neblina. Neste cenário o horizonte será sempre um infinito a desbravar, para desgraça da humanidade.

A bomba atômica inaugurou uma nova fase para os propósitos de destruição em massa: a bomba de hidrogênio, as armas nucleares táticas, os mísseis balísticos intercontinentais de ogivas múltiplas, a bomba de nêutrons, os mísseis móveis, lançados de submarinos ou de plataformas montadas em locomotivas e caminhões, o projeto Guerra nas Estrelas... Há ainda quem acredite na existência de limites para a perpetração do mal, para a cultura do maligno?

Alguns cientistas acusam a existência de algo terrífico, um armamento que se acreditava na efemeridade das intenções, em estágio de prancheta, ainda na incubadora de projetos: a bomba termo-nuclear de cobalto, tão poderosa que, detonada, seria capaz de deslocar a terra de seu eixo gravitacional.
Independentemente do uso que se faça da energia nuclear, vários problemas decorrentes continuam insolúveis. Um deles: como armazenar os rejeitos resultantes do processamento do átomo?

Casos escabrosos de irresponsabilidade em seu nível mais aviltante levaram ao setembro negro goiano, ano fatídico de 1987, quando a violação de uma cápsula de césio-137 produziu o mais grave acidente nuclear brasileiro, um dos maiores do mundo. Os rejeitos estão armazenados em Abadia de Goiás e lá permanecerão por centenas de anos.

Geralmente o lixo atômico necessita ser armazenado por, no mínimo, mil anos.

As bombas nucleares já explodidas – na 2ª Guerra Mundial e nos experimentos aéreos, aquáticos e subterrâneos – estenderam a contaminação para todo o mundo. Essa contaminação generalizada aliada às demais formas de exposição, incorporou a todo ser vivo que hoje habita o planeta um derivado dos processos industriais da fissura nuclear. Na era do desmembramento do átomo, todo organismo que ostenta vida na terra já tem incorporado, em sua estrutura óssea, traços do estrôncio-90.

Um outro problema grave é que tudo que se refira ao assunto recebe dos governos tratamento sigiloso, como segredo de estado, assunto de segurança nacional. É a justificativa técnica-política para que toda a sujeira seja escondida, varrida para debaixo do tapete, mantida a inalcançável distância da opinião pública. E sequer as democracias mais robustas e dinâmicas conservam-se imunes à perversa manipulação.

No caso de acidente nuclear os governos nada, ou quase nada, informam. Pior, apegam-se a artificialidades para deformar a informação, procurando a manipulação mais rasteira, criando valhacoutos de hipocrisia.

Liverpool - a cidade industrial que presenteou o mundo com os Beatles – foi atingida, em 1957, pela radioatividade que escapou de uma usina ali localizada. Mas só em 1983 o governo inglês reconheceu o falecimento de 39 britânicos, vitimados pelas doenças cancerígenas resultantes da radioatividade provocada pelo acidente. Estamos discorrendo sobre acidente nuclear ocorrido em uma das mais desenvolvidas democracias, mas que, nem por isto, mantém-se invulnerável às urdições da manipulação política efetuada para obliterar a opinião pública.

Quando os ingleses guerreavam para retomar as Ilhas Malvinas, o destróier britânico Sheffield foi a pique, não suportou a artilharia, o pesado fogo das baterias aéreas argentinas. Esta batalha ocorreu no mês de maio de 1982. Apesar do sepulcral silêncio do governo britânico, a Agência Internacional de Energia Atômica denunciou que o navio estava carregado com armas nucleares. Com a salinidade e as condições de temperatura e pressão do ambiente marítimo, em que condições estariam hoje essas bombas atômicas? Em que nível estaria se dando o escape da radiação e a contaminação ambiental? O oceano Atlântico que banha a costa Argentina é o mesmo que conforma boa parte dos limites do Brasil.

Existem navios e submarinos - chineses, norte-americanos e da antiga União Soviética - de propulsão nuclear e convencional, carregados com artefatos nucleares, que foram a pique e que, desde então, contaminam os oceanos de todos os continentes.

Mas, sem dúvidas, o maior acidente nuclear da histórica ocorreu em abril de 1986 em Chernobyl. A explosão de um dos quatro reatores da usina nuclear soviética imundou a atmosfera do centro-sul europeu formando um céu maculado por densas nuvens radioativas. Pouco depois do acidente, o governo ‘informou’ as conseqüências mais sentidas da tragédia: 31 mortos e 200 feridos. Não demorou e a máscara foi ao chão. Exatamente seis anos depois, o governo publicou comunicado oficial revelando a dimensão da tragédia: ao invés de 31, o número de mortes chegou a 10 mil. E no mês de abril de 1995, nova revelação: o Ministério da Saúde da Ucrânia reconheceu que mais de 125 mil pessoas morreram entre 1988 e 1994, vitimadas pela radiação. Um ano depois, um comunicado conjunto da Ucrânia e da Bielorússia ajustava a revelação: o número de mortes que iniciou com 31 passou para 300 mil, o número de pessoas contaminadas para cinco milhões e a área inutilizada pela radiação para 140 mil km², equivalente ao tamanho de Pernambuco e Paríba juntos.
Só no processo de limpeza da região atingida, o governo da então União Soviética mobilizou cerca de dois milhões de servidores e voluntários.

Mais de 20 anos depois, a Ucrânia e os países próximos lidam com as vítimas do que ocorreu em Chernobyl: as pessoas apresentam doenças no sangue, no sistema nervoso, nos aparelhos digestivo e respiratório e, sobretudo, problemas psicológicos.

As imagens da destruição de Hiroxima e Nagasaki, 62 anos depois, ainda chocam. As fotos das vítimas japonesas ainda escandalizam, apesar da violência mais brutal ter se tornado banal nos dias de hoje. Pois a Organização Mundial de Saúde calcula que a radioatividade desprendida no acidente de Chernobyl superou em 200 vezes à liberada pelas bombas que reduziram a pó as duas metrópoles japonesas.

Além do ocorrido em Goiânia, o Brasil já passou por outras situações de grave perigo. Em julho de 1997, o reator da usina nuclear de Angra 1 teve que ser desligado por um defeito técnico ocorrido em uma de suas válvulas. À época, os físicos brasileiros atribuíram a razão do acidente à falha nas varetas de combustível. E o avaliaram semelhante ao ocorrido na usina de Three Mile Island, nos Estados Unidos.

Desta vez escapamos ilesos, mas o risco, agora sabemos, assombra e paira também sobre nossas cabeças.

Não devemos tomar a energia nuclear como um bem ou mal em si. A panacéia, a redenção ou o Hades. A resposta esta condicionada ao domínio do conhecimento e a responsabilidade para com a sustentabilidade do planeta e para com o futuro da humanidade – atributos que, convenhamos, escapam de parte considerável dos governos.

Mas uma preliminar básica para a sobrevivência da vida deve ser buscada a todo custo: a sociedade planetária precisa se apropriar do saber, universalizar a educação de qualidade para manter-se permanentemente em estado de mobilização, exigindo dos governos clareza, discernimento, compromissos, competência e ampla divulgação das iniciativas no setor. É o mínimo para lidar com uma energia tão poderosa, ao mesmo tempo criativa e destruidora. A única capaz de pulverizar, na fração do segundo, um nódulo cancerígeno, para o bem; ou, no limite, erradicar a vida terrena, para o mal.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O Santo Graal


"Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem".
Saramago

O homem jamais se conformou com suas atividades instintivas. As reações efetuadas de forma mecânica - que dispensam o aprendizado e a reflexão crítica - como os atos de respirar, comer, defecar e se arrastar jamais satisfizeram o Homo sapiens.

Desde os primórdios sentiu a premência de avançar, de evoluir, de comunicar a experiência vivida, incorporando um discurso significativo. E neste contexto a aprendizagem está para a evolução da humanidade assim como o Santo Graal está para algumas seitas religiosas.

Aprender a dominar o fogo; dar novas formas à pedra, lascando-a; captar a forma de lidar com a argila, o ferro, o cobre, o aço... E transmitir o conhecimento adquirido, se diferenciando das demais espécies porque o que acumulou e acumula diuturnamente não depende exclusivamente das informações genéticas e do comportamento que se desenvolve automaticamente de sua relação com a natureza.

Portanto, uma característica fundamental do homem reside na capacidade de aprender, de processar as experiências e conhecimentos que recebe dos antecedentes e das antigas gerações para transmitir para os contemporâneos e para os que virão. É esta especial característica que elevou a espécie, possibilitando exercer completo domínio sobre o planeta, e que decorre da habilidade de criar sistemas de símbolos - sobretudo a linguagem - mecanismos de que se utiliza para dar significado às experiências vividas, transmitindo-as aos seus semelhantes.

Por esta razão, no planeta terra, tão somente ao Homo sapiens é dado pensar.

Todavia, no decorrer da evolução humana parece que modificações genéticas acometeram indivíduos e grupos deles, criando uma sub-espécie que cultua a mediocridade, a ignorância e a delinqüência intelectual. É deste grupo de pessoas – hoje tão numerosos que em alguns extratos sociais, amplamente majoritários – que se refere Saramago. De uma forma sentida, dolorida, num incontido desabafo, dá testemunho dos que menosprezam o idioma, a fala, o pensamento...

Porque a escalada dos que são incapazes de pensar e falar bem, parece não ter fim. Como pragas de vampiros vão galgando posições, ocupando todos os espaços, sugando todo o sangue e energia disponível à volta. São os dráculas modernos, arrogantes e presunçosos, artificiais e preguiçosos ao extremo, incapazes de ler um bom livro, freqüentar uma boa escola, encantar-se por um museu, um teatro ou um cinema.

Não desenvolveram a habilidade de escutar, de ouvir. Simplesmente simulam prestar atenção ao interlocutor porque todas as respostas já estão predefinidas, na ponta da língua, pronta para a erupção que exala estultícia, tolice.

Os néscios compõem uma caterva de malandros que avacalha o idioma, sempre testando nossa paciência para administrar o insuportável, o que afronta a harmonia e desequilibra, o que agride a lógica e aos ouvidos, o que distorce e desfigura a verdade.

Incapazes de compreender as virtudes do diálogo diplomático, discreto e de conteúdo, estão sempre como prolixos papagaios, repetindo citações imbecis e o que já foi dito e reiterado inúmeras vezes, falando alto e com estardalhaço.

Como não têm o poder da palavra, não dominam o idioma e ignoram a lógica, jamais alcançam o pensamento, o raciocínio, a reflexão. Então utilizam a verborragia dos retardados e, conseqüentemente, não convencem. Daí, para vencer, só pela força.

Como cansa escutar alguns políticos, alguns intelectuais, alguns professores,...broncos que infestam todas as categorias profissionais.

Jamais compreenderão o poder do silêncio, do instante mágico para processar o que se escutou, o que se viu, o sentimento que emergiu, quando as coisas se revelam em sua verdadeira intensidade. Quando sentimos a doce presença de Deus.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de teatro Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Renovando o mundo



Gonzaguinha é um dos maiores músicos brasileiros, de todos os tempos, dos idos do descobrimento aos dias de hoje.

Não há quem, apaixonado, tenha deixado de navegar no remanso de sua melodia, doce, serena, espirituosa. Tão pouco quem não tenha embalado algum protesto político com sua poesia contundente, vigorosa, altiva e ferina.

Gonzaguinha era mesmo assim. A um só tempo guerreiro e poeta, gladiador e amante. Quando combatente e destemido opositor, amante. Quando apaixonado pela musa inspiradora, irreverente gladiador. Com naturalidade transitava de uma extremidade à outra sem sequer amarrotar a camisa, porque adquiriu a habilidade dos iluminados, dos abençoados, das pessoas ditas ‘bem resolvidas’.

Esta é a questão chave, construir as condições que nos levem a um estado espiritual que permita o ‘bem resolvido’, a paz interior, condições de todo necessárias para acender a fagulha capaz de iluminar o caminho.

Mas o que fazer para chegar lá? Para alcançar este estágio de desenvolvimento e crescimento pessoal, que oceano singrar? Convivendo em condições tão adversas, em cenários tão inóspitos, seria possível alcançar o equilíbrio?


Com a música “O que é? O que é?” Gonzaguinha responde no compasso da canção:
Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...

Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...

É isto. Fácil assim. Sem complicação e mistério algum.

A felicidade não deve ser confundida com um instante efêmero, uma alegria episódica. Sem entranhar no teoricismo hermético, é um processo, uma caminhada, uma longa jornada que inicia com o nascimento e só termina quando as cortinas se fecham derradeiramente. Se algum segredo mágico perdura em tempos tão conflituosos, é a necessidade de cultivar a humildade para se fazer eterno aprendiz. Sem as vestes da humildade não existe a mínima possibilidade de entoar com Gonzaguinha o refrão:

Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...

Só sei que nada sei. Quem não se lembra da célebre frase de Sócrates, mestre de Platão de Atenas? Reconhecer a ignorância é se abrir para a curiosidade que conduz ao conhecimento.


Todavia, humildade é palavra banalizada na boca de quase todos. Facílima de ser dita, pronunciada aos quatro ventos sem qualquer parcimônia, é na hora da prática que se percebe o quanto é desfigurada, aviltada e prostituída. É assim porque o predicado é patrimônio de gigantes. Não lida com os anões da intelligentsia-miúda, com os que andam de mãos dadas com a hipocrisia. Sim, a humildade é atributo dos prodigiosos, dos viris. Está tão somente para Hércules e Atlas. Eis aqui o aparente paradoxo. Só os bravos e fortes conseguem calcar as sandálias da humildade. Somente o soberano de si mesmo se verga. Como faz a haste de trigo quando repleta de grãos dourados.


Aprendizagem permanente, humildade, fortaleza, felicidade, realização... são os paradigmas capazes de assegurar o equilíbrio, o ‘estar de bem com a vida’, o ‘não ter vergonha de ser feliz’. São os paradigmas que nos aproximam da verdade, da sabedoria, e nos deixam tranqüilos, equilibrados, sorvendo a sombra de Deus.

Aguçando a curiosidade, mantendo a mente aberta e dando asas à vontade de arriscar, estaremos nos renovando sempre, aprendendo sempre. Porque para mover e transformar o mundo é necessário, preliminarmente, revolver e transformar o quadrante mais profundo do coração, o lugar secreto onde habita nosso verdadeiro ser.

Arquimedes, o grande matemático grego ensinou: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio,e eu moverei o mundo ”. A alavanca interior existe: humildade, equilíbrio, a habilidade de nos tornarmos eternos aprendizes, felicidade.


Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico QuasarK+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A diáspora




A grande mobilidade demográfica não ocorre somente dos países periféricos em direção aos mais desenvolvidos. Ela também se dá internamente, nos blocos em que se vinculam os países e, sobretudo, nos que alcançaram o primeiro mundo.

A Alemanha, por exemplo, um dos países mais desenvolvido do planeta, experimenta uma verdadeira diáspora. O fluxo migratório dos germânicos para a Suíça, Estados Unidos e Áustria chega a ser substancialmente maior do que o verificado logo depois da 2ª grande guerra quando a nação foi subjugada e reduzida à ruínas, a economia destruída, o país completamente destruído pelas forças aliadas.

E o número de alemães insatisfeitos que deixam o santuário de Goethe, Wagner e Brecht aumenta de ano para ano. Em 2.000, os emigrantes alemães somavam 111 mil. No ano de 2006, este número atingiu o patamar de 155 mil.

Levantamentos efetuados pelo governo alemão indicam as três principais razões da mobilidade demográfica num dos propulsores da pujança européia.

A primeira é que, no exterior, os salários são mais altos e compensatórios. E salário melhor é cobiça que acomete todo moral, indiferentemente da nacionalidade.

A segunda é a busca da felicidade em comunhão. Os alemães procuram em outros países parceiros, a cara metade, companheiros com quem possam se casar.

E a ultima razão é o simples espírito aventureiro, o desejo de conhecer outras culturas, de experimentar viver em outros países.

Ao contrário da migração interna que ocorre entre as nações desenvolvidas, a que se verifica no Brasil é de cunho diferente.

Os brasileiros migram, preferencialmente para os EUA e para os países europeus. E fundamentalmente em busca da sustentabilidade econômica, do desejo de realização, de se fazer presente, de assegurar lugar no mundo.

Não são poucos os que ainda imaginam tratar-se de uma fuga, de covardia, de fraqueza, de incapacidade e falta de equilíbrio para enfrentar as dificuldades. O que, categoricamente, não é o caso.

O êxodo dos brasileiros, ao contrário do que muitos apregoam, é corajosa, patriótica, porque os que partem, não rompem os laços com os país. Mais que isto. Remetem de volta ao Brasil uma quantidade de recursos financeiros muito superior aos alocados por Bancos e Agencias Internacionais de Fomento.

Lá fora, lavam defunto, desentopem vaso sanitário, médicos e arquitetos trabalham como pedreiro e garçom, cuidam de crianças, executam toda sorte de bico. Sem jornada definida, trabalham à exaustão, exalando sangue pelos poros para – com os recursos que amealham – movimentar a economia daqui, não de lá.

Por isto é importante insistir. Ao se deparar com um familiar de quem tenha partido, emigrado, verga a cabeça em sinal de respeito. Como faria se encontrasse um graduado funcionário do Banco Mundial.

Uma pitada a mais de respeito não seria exagero. É que os brasileiros exilados, para a economia, fazem mais que as agencias financeiras internacionais (Leia aqui).


Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Quando a desgraça é inevitável

Estudo recente publicado pela Fundação Getúlio Vargas e coordenado pelo economista Marcelo Néri apresenta uma conclusão inconteste: a maioria absoluta dos consumidores de drogas brasileiros faz parte dos seletos extratos das classes média e alta.

Os resultados dos estudos foram obtidos através do cruzamento dos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.

Nada menos que 70% dos usuários de drogas compõem famílias com renda mensal superior a seis mil reais. Importa ressaltar que este é um universo que encerra menos que ¼ da população brasileira.

Outras duas informações relativas aos consumidores de drogas merecem especial atenção.

A primeira é que quase a metade, precisamente 43% possuem cartão de crédito. Uma quantidade surpreendente considerando que, no conjunto da população, apenas 17% dos brasileiros têm condições de acessar essa modalidade de manejo de crédito.

A segunda não é menos surpreendente. Enquanto o sistema bancário só destina cheque especial para 12% da população, dentre os usuários de drogas este índice chega ao patamar de 35%.

Pouco tempo atrás a polícia prendeu uma quadrilha de oito jovens. Distribuíam drogas em colégios particulares e instituições de ensino superior. A polícia classifica o bando de “playboys” do tráfico. São todos belos, corados, bem nutridos, estampando nas faces e nas vestes a classe social de onde originam. Um dos traficantes foi preso no instante em que assistia aula na universidade. O trafico não entra mais nas escolas pela porta dos fundos (aqui).

Não é fácil lidar com uma operação dessa envergadura. O setor de inteligência policial demandou cinco meses de investigação, com 16.000 ligações grampeadas.

O episódio que acabo de narrar ocorreu no Rio de Janeiro. Uma semana antes foi a vez da polícia mineira mostrar serviço: prendeu cinco estudantes com 5.000 comprimidos de ecstasy.

Dentre os alunos e a juventude as drogas sintéticas são as mais comercializadas, com o LSD e o ecstasy ocupando o topo de cadeia de preferências.

Um dos grandes obstáculos ao combate eficaz ao tráfico que denomino estudantil, é que os jovens não vêem problema na atividade criminosa. Para eles, está tudo na mais absoluta normalidade. Naquela privilegiada situação expressa pelo ‘se melhorar estraga’. Com longa experiência com essa vertente do crime, o coordenador de repressão a entorpecentes da polícia Federal explica: “Eles acham que não estão fazendo nada de errado, pois não há disputas entre as quadrilhas”.

Todos os estudos e pesquisas enfatizam o grande perigo que está embutido no consumo do LSD e do ecstasy: a associação da droga à festa, ao prazer, à diversão, à música e ao bem estar levam a uma avaliação mais que equivocada, de toda distorcida, a de que os riscos da droga são facilmente administráveis, que as coisas jamais escaparão do controle, o que definitivamente não procede, e os casos pregressos estão todos aí demonstrando.

Também o consumo da maconha e da cocaína bate recordes sucessivos, assustadoramente letais. Um fato que demonstra o descaso das autoridades no tratamento do mega-problema é que o país não produz uma só grama de cocaína.

Como as autoridades não conseguem lidar com os 16.000 quilômetros de fronteira seca, o país tornou-se um importador de peso no cenário internacional, tornou-se entreposto, centro de distribuição de drogas para os EUA e para o continente europeu. Das cem toneladas que, segundo estimativas, ingressam no Brasil – sobretudo através das fronteiras com a Colômbia, Peru e Bolívia – não chega a 10% a quantidade apreendida pela Polícia Federal.

Dentre as causas da tragédia brasileira que agora subverte as escolas, a desarticulação das instituições governamentais responsáveis pelo combate ao tráfico, e a corrupção, já encorpada e endêmica.

Assistir à este deprimente espetáculo sem nada fazer é como vislumbrar a aproximação do maior dos tornados e do mais destrutível tsunami e permanecer imóvel, apático, indiferente. Agindo assim, não restam duvidas, a desgraça será inevitável.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A lição esquecida

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE – chegou à resultados que levam a imaginar que o Brasil fica no fim do mundo. A pesquisa da OCDE é referência internacional quando se trata de medir o desempenho dos estudantes do ensino médio. A edição que está sendo agora divulgada foi finalizada com os dados obtidos através de testes realizados no ano passado e seu índice de confiabilidade é de 95%. A cada três anos o ciclo se repete e uma nova edição do documento é divulgada.

Fim do mundo é aquele lugar onde tudo que se refira à educação é elevado à prioridade absoluta, mas tão somente no discurso e no proselitismo político. Porque quando se trata de viabilizar o proposto, aí tudo cai na terra-rasa, na ‘densa’ consistência de um naco de algodão doce, o divertimento preferido das crianças.

A OCDE apresenta uma lista de 57 países, onde o Brasil se consagra como um dos piores quanto ao nível de educação para estudantes de 15 anos.

A performance do Brasil chega a ser insidiosa, pérfida, para dizer o mínimo. Apenas cinco países, Colômbia, Tunísia, Azerbaijão, Catar e Quirguistão estão em situação pior que Pindorama. Todos as demais 52 nações - demonstram os estudos - têm muito ou algo mais a nos ensinar.

Dos mais de 200 países existentes no mundo, a Organização tomou como universo 57 países. Apesar de contemplar apenas algo em torno de 25% do número de países existentes no planeta, a fatia não é inexpressiva e representa nada menos que 90% da economia mundial.

Mais de 400 mil alunos foram submetidos a testes para avaliar a aprendizagem. As áreas de conhecimento enfocadas foram ciências, capacidade de leitura e noções de matemática. E o mais interessante é que a metodologia utilizada possibilitou avaliar também de que forma os estudantes lidavam com o conhecimento acumulado, como aplicavam o assimilado em sala de aula na resolução das questões que se colocam no dia a dia, no curso da rotina diária. A velha e tão sonhada práxis, a aplicação do conhecimento teórico na realidade objetiva, ajudando a melhorar a vida das pessoas.

Encabeçando a lista estão os que lograram melhor aproveitamento, os estudantes da Finlândia, Hong Kong e Canadá.

Angel Gurría, secretário-geral da OCDE, após defender a educação de qualidade como um dos mais valiosos patrimônios que a sociedade e um indivíduo podem amealhar, expôs o grande objetivo do trabalho: “a lista é muito mais do que um ranking. Ela mostra o quão bem os sistemas de educação individuais estão capacitando os jovens para o mundo de amanhã. Antes de mais nada, mostra aos países seus pontos fracos e fortes”.

Esta é mais uma pesquisa dentre tantas evidenciando o que parece um CD furado, que repete infinitamente, e que todos estamos cansados de saber: a educação no Brasil anda muito mal das pernas, vai de péssima a pior, muito mais para péssima que para pior. Ziguezagueia qual um andarilho bêbado e trêmulo, que não consegue parar em pé, que não discerne sequer a direção a seguir. Não encontra equilíbrio na vertical e tão pouco na horizontal. É como se nossa educação despencasse continuamente, cavalgando um devastador buraco negro.

Ensina o antigo ditado popular que “casa onde não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Neste cenário de desfaçatez e negligência, quando – em decorrência da incúria das autoridades – os brasileiros pressentem as portas do futuro sendo vedadas por intransponíveis barreiras de concreto armado, cada um tenta puxar a sardinha para o seu lado.

Não são poucos os que atribuem o caos institucionalizado aos salários pagos aos professores e servidores do sistema. Esta é uma parte importante do problema. Os professores recebem muito mal, cumprem uma jornada de trabalho estafante, em tudo diferente das demais, de modo que a recomposição salarial é uma necessidade inconteste. Mas o problema não se encerra com a superação do problema salarial.

Outros concentram suas baterias na infra-estrutura física degradada, com muitas escolas desmoronando, literalmente caindo aos pedaços: salas sem iluminação, ventilação inadequada ou simplesmente inexistente, coberturas repletas de goteiras, banheiros que envergonham os que dele se utilizam, e daí por diante... Para resumir, numa tosca, mas eficaz comparação, digamos que nossas escolas estão como nossas estradas, esburacadas e quase intransitáveis. Nas estradas sem manutenção perdemos carga, tempo, esforço, dinheiro e o custo-Brasil vai galgando as alturas. Perdemos todos. Nas escolas sem manutenção deixamos de gerar oportunidades, mantemos o flanco aberto, escancarado para as ameaças, desdenhamos a importante e nobre missão de formar cidadãos para produzir exércitos e mais exércitos de marginais, e toda a visão de futuro do país se esvai num ralo de esgoto. Perdemos todos.

Sim, os problemas são muitos. E o resgate da qualidade do ensino no país passa pela recomposição salarial dos trabalhadores do sistema, não há como negar. Mas passa também pela adoção de uma política que conceba nossas escolas como um ambiente decente, agradável, limpo, harmônico, produtivo, que guarde longa distância do que se vê nas instalações atuais, sempre ávidas por reformas, sequiosas por arranjos estruturais, por puxados, gatos e improvisações de toda ordem.

Mas fundamentalmente, de um componente que precede todos os demais e que se refere à gestão. Para seguirmos adiante temos de cuidar para que a gestão do sistema seja profissionalizada. O que isto significa? Aprimorar a formação de nossos professores, estabelecer metas claras, exeqüíveis e perseguí-las com obstinação, monitorando-as passo a passo; adotar sistemas de cobrança por resultados, o que exige a mudança de paradigmas, de nossa cultura corporativista para dar guarida à cultura do mérito, quem cumpre suas metas e resultados deve ser reconhecido e quem as supera, premiado. Na extremidade oposta, os que se apegam ao marasmo da burocracia e à tendenciosidade do corporativismo, devem ser chamados à responsabilidade e punidos quando for o caso. Difícil? Talvez, mas necessário, provam os paises que fizeram a travessia e alcançaram a tão sonhada sustentabilidade.

Das grandes políticas e diretrizes estratégicas à mais elementar operacionalização, como a institucionalização dos pactos de compromissos e a adoção de sistemas de cobrança por resultado, por exemplo, o ‘x’ da questão encontra-se precisamente na gestão do processo.

No plano estratégico, a sociedade dever se fazer mais organizada e presente. Para exigir que a sempre decantada prioridade na educação escape do proselitismo e do lugar comum para se materializar, tornar uma realidade palpável. O planejamento deve ser claro, específico e detalhado. De longo, médio e curto prazos, é fundamental que explicite as metas e os recursos orçamentários. Como medida adicional, no mesmo grau de importância, devemos fortalecer os órgãos de fiscalização e controle como os tribunais de contas, o Ministério Público, as redes de ouvidorias, controladorias e similares. E cuidar para que a corrupção e o desvio de recursos públicos sejam cabalmente reprimidos, eliminando o clima de impunidade que grassa entre nós. É esta áurea de impunidade que alimenta a continuidade da ladroagem.

Quatro décadas atrás estávamos no mesmo patamar que Austrália, Irlanda, Coréia e os tigres asiáticos. Mas deixamos de fazer o que eles priorizaram, investir com coragem e determinação na educação, na formação de cientistas e de capital humano. Façamos agora então a lição que irresponsavelmente foi protelada. Antes tarde do que nunca.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O que fazer com os anjos emprestados por Deus?

A violência é um componente que oprime, amargura e degenera a sociedade. Sua eclosão vai se intensificando e a autoridade parece ter sido tragada por um estado de inércia, profunda sonolência.

É um processo que desconhece fronteiras e limites, avançando sobre todas as classes sociais e faixas etárias. Como elo mais fraco da corrente, os pobres sofrem mais, muito mais.

A escola não consegue se manter ao largo deste ambiente caliginoso e sofre as conseqüências da letargia dos responsáveis. A violência nua e crua que se manifesta nas ruas com todas as suas nuances e facetas, resolveu romper as salas de aula. E de forma definitiva.

Quando acorre à mente, a primeira imagem do ambiente escolar sempre é a de alunos em sala de aula, compenetrados, o mestre ministrando a disciplina, no intervalo o zumzumzum habitual, a algazarra do recreio; de tempos em tempos, a aflição nos momentos de prova, de sabatina... Vez por outra uma rusguinha aqui, um bate boca acolá, algum entrevero chegando às vias de fato na pelada de futebol, mas nada que não se resolvesse, no ápice, com uma advertência, uma ligeira penitência e uma boa prosa com os pais.

Mas as coisas mudaram, e neste caso, para pior, para bem pior.

Não se trata mais dos pequenos conflitos, das discussões e embates pueris, das brigas quase infantis, das indisposições circunstanciais que não resistiam à fração do instante. A violência dos dias de hoje está vestida para matar, carrega drogas, facas, estilete, soco inglês, armas de fogo, crack e drogas pesadas. O beicinho, o ‘ficar de mal’, o ‘belém-belém-nunca-mais-ficar-de-bem’ só resiste na pré-escola, e olhe lá!

O traficante já não é o alienígena, o desconhecido, o estranho com cara de malandro que sorrateiramente ronda a escola, aquela caricatura facilmente identificável, como o bandido das velhas estórias de quadrinho. Este personagem sucumbiu e só persiste nas películas cinematográficas. O traficante contemporâneo é aquele acima de qualquer suspeita, não raro o mauricinho da turma, o esportista, o exímio artista, a figura mais bacana e popular, cooptados que foram pelo mundo do crime, que colhe dinheiro numa floresta inesgotável. A ameaça não provém mais de fora, não salta furtivamente os muros da escola, não invade pela janela ou utiliza a porta dos fundos. A ameaça está no interior, na sala de aula, na biblioteca, na secretaria, na cantina. Presentemente, o traficante se faz o melhor amigo, companheiro de primeira hora, o colega sempre pronto para auxiliar, socorrer, sobretudo quando se trata de dinheiro e de pequenos préstimos que levem à dependência emocional.

Já vai longe o tempo em que era exigida uma complexa operação, uma logística meticulosa, um planejamento primoroso e detalhado nas minúcias para fazer com que a droga adentrasse a escola, com cenas de perseguição policial, tiroteio e bang-bang. Também assim, mas neste formato, em volume quase irrelevante. Hoje, o entorpecente viaja, sobretudo, dentre lápis, livros e cadernos, abrigado displicentemente nas mochilas mais tenras e discretas.

E nesta guerra subterrânea não há quem escape. Alunos, servidores, professores, pais e responsáveis são as vítimas do descalabro, do desatino, do infortúnio, da desgraça em sua face mais ameaçadora e fatal.

Na sala de aula – cenário untado pelos céus para alavancar os estudos e a esperança de dias melhores - as ameaças e agressões verbais aos professores tornam-se rotina. Como conseqüência imediata, a crescente evasão dos protagonistas, sobretudo dos professores, que não mais suportam perseguições, toda sorte de intimidação, ameaças que se materializam numa rede infernal de recados, bilhetes, telefonemas e e-mails.

Os antigos traques e estalinhos cederam lugar às bombas artesanais que estouram nos corredores, nos banheiros, comprometendo ainda mais a segurança da comunidade escolar, depauperando as já sucateadas instalações físicas.

Com muito custo, a escola consegue adquirir equipamentos importantes. Estações de trabalho, aparelhagem de som, máquina fotográfica, vídeo cassete, e quando Deus dá bom tempo, até mesmo filmadora e data-show. São inumeráveis rifas, festejos, solicitações de contribuições junto aos pais e aos comerciantes locais, num esforço gigantesco para fazer um pequeno caixa que possibilite este tipo de investimento. E mesmo tudo sendo mantido a correntes e cadeados, o saque e o roubo se generalizaram. E como se não bastasse, danificam a fiação de telefone e a rede elétrica para provocar apagão e a suspensão das aulas.

O pior é que os pais acreditam que, nas escolas, seus filhos estão seguros. Sem dúvida, muito mais seguros que nas ruas. Mas, definitivamente, os alunos não usufruem a segurança que os pais inocentemente imaginam.

Este deve ser um alerta para que os pais passem a freqüentar mais as escolas de seus filhos. E discutindo em profundidade a questão da violência, possam se mobilizar para exigir providências do governo, dos políticos, das autoridades, das áreas competentes. Aos altíssimos impostos pagos pela sociedade, as autoridades têm correspondido com indolência, incúria e preguiça.

Nos mobilizemos agora para que depois não choremos pelo leite derramado. E o leite, neste caso, nos é muito caro, porque é o que temos de mais nobre e gracioso, nossas crianças, os anjos emprestados por Deus.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O bochinche, a tragédia anunciada.

O céu da Escola Estadual Fonte Nova não é azul, jamais ostentou a cor celeste. O cinza escuro e duro do concreto armado é a tintura que coloria o céu dos professores, servidores e alunos de uma das unidades de ensino de Salvador na Bahia. É como se os 600 alunos que lá estudavam estivessem sendo coletivamente punidos, não com os decrépitos e centenários instrumentos de castigo como a palmatória, o suplício de ajoelhar em caroços de milho ou a obrigatoriedade de ostentar o maldito chapéu de burro com o nariz encostado no quadro negro. A pena imposta aos estudantes da Escola Estadual Fonte Nova foi áspera, vingativa: privá-los do céu. Estivesse o céu nublado e triste ou ensolarado e alegre, a vista de sua abóbada sempre esteve fora do alcance, e os estudantes só vislumbravam sobre suas cabeças as escuras e sombrias arquibancadas do Estádio Octávio Mangabeira.

Meteoritos caindo do céu não é coisa rara, nem novidade para ninguém. É bonito vê-los à noite, singrando o espaço, ostentando a longa calda de fogo reluzente. Mas não se tem conhecimento que algum tenha despencado sobre uma escola, uma sala de aula, sobre um pátio onde as crianças se divertiam no horário do recreio. Já na Escola Estadual Fonte Nova, raro era o dia em que não chovia astrólitos. Segundo o vigilante, era comum que pedaços de cascalho e pedras se soltassem da estrutura da arquibancada, caindo na calçada, no ginásio e no pátio da escola.

A tragédia que ocorreu no Estádio Fonte Nova deixou sete mortos e mais de 80 feridos. No dia em que Bahia e Vila Nova se enfrentavam pelo campeonato brasileiro, parte da estrutura da arquibancada cedeu, deixando aberto um vão de 17 metros.

O Estádio inaugurado em 1951 tem capacidade para 60.000 torcedores, mas já suportou quase o dobro. No ano de 1988, mais de 110.000 pessoas presenciaram a partida em que o Bahia derrotou o Fluminense do Rio de Janeiro.

O pior desta que é uma das maiores tragédias do esporte brasileiro é que vem sendo anunciada há muito tempo. O que agrava e acentua o desleixo, a negligência e o desmazelo das autoridades responsáveis.

Engenheiros, arquitetos e promotores vinham alertando para os riscos de acidentes desde 2005. O Ministério Público chegou a pedir a interdição do estádio.

Três meses atrás, o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia promoveu vistorias e avaliou os principais estádios brasileiros. O objetivo era levantar as praças esportivas habilitadas para abrigar os jogos da Copa de 2014. Pois bem, dos 29 estádios avaliados, a Fonte Nova ficou em último lugar, apresentando as piores condições de segurança. O documento do Sinaenco é tão claro como um dia de sol escaldante: relata que o estádio está em "estado lastimável" em decorrência da falta de manutenção e não oferece "nenhum conforto e segurança para os usuários". Eis aí o diagnóstico efetuado (e DIVULGADO!!!) com praticamente três meses de antecedência.

Era sob este céu de brigadeiro que funcionava a Escola Estadual Fonte Nova. Nos corredores da escola a ferragem do teto está inteiramente exposta, oxidando e corroendo o concreto armado que esfarinha, deitando pó e sujeira sobre o chão. Também o forro de gesso apodreceu, e o que se vê são muitos buracos. Da escola, a visão da gigantesca e carcomida arena é quase completa: a cena da tubulação do estádio completamente enferrujada é chocante, uma prova inconteste do bochinche.

Muitas escolas brasileiras se encontram em estado de penúria, com as instalações físicas aviltadas, ostentando uma paisagem de ruína, de destruição e decadência. Algumas estão como escombros do pós-guerra.

É a miséria que acomete a parte física de grande número de nossas escolas, comprometendo a segurança e a aprendizagem de nossos alunos. É a miséria mais indigente e deplorável que acomete a moral de grande número de nossos dirigentes, comprometendo até mesmo a subsistência da nação, da sociedade, da cidadania.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A incúria, a desídia.

A pequena L. tem quinze anos, mas o corpo tísico aparenta não mais que dez. A fragilidade da adolescente e o rosto de criança não foram suficientes para impedir que fosse presa por uma delegada (repare no gênero!), mantida encarcerada por uma juíza (mais uma espiada no gênero!), num estado gerenciado por uma governadora (novamente o gênero??).

A pequena criança fixou enclausurada durante 15 dias numa cela com cerca de trinta homens. Trinta! Relutou, não aceitou as propostas indecorosas, resistiu o quanto pode, administrou a fome rompendo os limites das impossibilidades. Chegou a ficar três dias sem comer, sem colocar pedaço de pão ou um grão de arroz na boca... e para ter acesso ao prato de comida foi obrigada a se sujeitar à sanha maquiavélica dos íncubos e com eles manter relações sexuais. E na cidade de Abaetetuba, pertinho da capital paraense, a somente 89 quilômetros de Belém, no Pará, foi restaurada a ignomínia, a barbárie absoluta e inconteste, a escravidão mais abjeta, aquela que submete a infância à depravação sexual.

O caso em tudo se assemelha a um folhetim policial criado nos porões mais profundos do inferno.

Quando se escutava ainda os ecos da explosão inicial originada pela divulgação do insidioso escândalo, três policiais passaram a perseguir a família. Pressionaram, ameaçaram, intimidaram, utilizaram todo o poder do estado policial de que estavam investidos para submeter a paupérrima família à mais completa humilhação. Obrigaram o pai a mentir sobre a verdadeira idade de sua filha e chegaram a fazê-lo falsificar uma certidão de nascimento, numa tramóia urdida para dar como ‘de maior’ a franzina L. de apenas 15 anos.

Infelizmente, o caso não é isolado. Nos grotões do país persistem ainda as inaceitáveis cadeias mistas, atuam em profusão autoridades relapsas, incompetentes (criminosas!) que transformam mulheres em vítimas “ocultas” do sistema penitenciário brasileiro. É o que denuncia a Anistia Internacional, chocada com o episódio ocorrido no Estado do Pará, que ganhou o mundo para se transformar num dos mais vergonhosos atos de agressão aos direitos humanos.

Um recente documento da OEA - Organização dos Estados Americanos – denuncia que, em Mato Grosso do Sul, na cadeia mista de cidade de Amambai, um funcionário manteve relações sexuais com uma presa dentro da cela, na presença de dez mulheres. A impunidade chegou a um estágio que já não sentem necessidade de praticar o ilícito às escondidas. Tudo é perpetrado às claras, à luz do meio dia, na presença de comuns e de autoridades institucionais, que às vezes são parceiras e cúmplices.

O Brasil não é uma república de bananas. Temos lá muitos problemas, boa parte deles gravíssimos, mas vivemos uma democracia, temos instituições com certa solidez, um marco regulatório inspirado nos países mais avançados do planeta, várias leis carecem de adequações mas outras colocam-se dentre as mais atuais, similares às que vigoram em países como a Suécia e a Alemanha. Temos instituições e uma burocracia voltada exclusivamente para a proteção dos presos, dos reeducando e da sociedade. Os servidores do ministério público e do judiciário estão entre os que recebem os maiores salários do setor publico. E no caso da pequena L., o ministério público e a juíza local são cúmplices explícitos do massacre a que foi submetida a pequena criança.

Devem ser exemplarmente responsabilizados pela incúria e pela desídia.

Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br