segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Corrupção e variações sobre um mesmo tema


Todos sabemos que para certas espécies de moscas varejeiras uma simples gota de mel vale mais que dez mil litros de vinagre.

O mesmo vale para uma categoria de humanos que se especializou em lançar mão sobre o patrimônio público. São como algumas espécies de moscas varejeiras. Homens vorazes e maléficos, pérfidos e inescrupulosos, indiferentes às necessidades da coletividade, jamais regateando esforços para perpetrar o mal.

Essa turba de humanos gravita em torno de setores da atividade estatal em que o dinheiro se acumula com facilidade, e para tungá-lo, organizam-se em grupos, redes, quadrilhas, maltas de larápios e corruptos.

E um de seus alvos prediletos reside exatamente nos setores responsáveis pela regulação e organização do trânsito de veículos, os Detrans.

Em decorrências das taxas, sobretaxas, infrataxas, supertaxas, sistema de regulação sempre ávido por mais e mais penduricalhos “legais” para municiar a insaciável industria das multas, os departamentos de trânsito transformaram-se em máquina de fabricar dinheiro fácil.

Daí extraíram do fundo do saco uma lei capaz de cassar a carteira do motorista, aplicando uma multa de quase R$ 1 mil, por conta de uma taça de vinho ou uma lata de cerveja... uma estupidez sem tamanho. Não demorou, e os tentáculos da rede de corrupção se fizeram sentir em sua magnitude. Leiam abaixo o que extraí dos jornais:

“PMs compram bafômetros para extorquir

A Inteligência da Polícia Militar (P-2) do Rio investiga um novo esquema de extorsão praticado por PMs no Estado: eles compram bafômetros pela Internet, entre 100 e 500 dólares, flagram motoristas alcoolizados e os ameaçam de prisão, como prevê a Lei Seca, a menos, é claro, que paguem propina. Flanelinhas cúmplices anotam placas dos motoristas que bebem à mesa de bares para a serem abordados pela PM à saída.

A deputada e policial civil Marina Maggesi (PMDB-RJ) reúne documentos para a Câmara investigar o novo tipo de extorsão de PMs, no Rio.

Segundo a assessoria da Polícia Militar do Rio, só na Zona Sul já foram recebidas mais de 30 denúncias de extorsão por parte dos PMs.”

É óbvio ululante que os que transgridem a lei, os que utilizam os veículos como instrumentos para o morticínio, os que exageram na bebida devem ser punidos, e de forma exemplar. O problema é quando o Estado todo poderoso, sob o pretexto de punir os efetivamente erráticos, lança seus tentáculos sobre as pessoas de bem, sobre os que sabem de seus deveres e responsabilidades, sobre os que sabem dos limites e que bebem para se divertir e não para se embriagar, que são a maioria da população. É aquela velha e surrada cantilena hipócrita, politicamente correta, de que os bons e justos pagam pelos pecadores.

A questão de fundo é que, sempre que políticos e autoridade recorrerem a modos e modelos extremistas, fundamentalistas, sebastianistas e salvadores da pátria, coloque – querido leitor – todos os fios da barba de molho... seu bolso estará prestes a se assaltado.

A metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo são criações originais de Antônio Carlos dos Santos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Feliz Natal!!!

Feliz Natal e um 2.009 repleto de sucessos e realizações!!!

O ano correu rápido e já é natal.

Sim, o espírito de natal já ilumina as áureas de todos nós.

São dias em que experimentamos a magia dos olhares mais sinceros, dos abraços e gestos mais fraternos, calorosos, solidários. Dias em que percebemos, de uma maneira única e especial, a real importância do amor, da paz, da família e do fundamental compromisso de empregarmos todas as nossas forças e energias por uma pátria mais generosa e um mundo melhor e mais justo para todos.

É natal!

E que em 2.009, todos os nossos dias sejam dias de Natal. Seja segunda, seja terça-feira, não importa! Agora é lei. Está decretado. Em 2.009, todos os nossos dias serão dias de natal. Não teremos mais aqueles dias mais ou menos, aqueles dias tristes, cinzentos e enfadonhos. Serão todos, literalmente todos, dias alegres, radiantes de sol e energia, dias felizes, em que emprestaremos todo o nosso suor e esforço para tornar o Brasil um país sem tantos desequilíbrios e diferenças. Um país que mantenha-se invulnerável às ratazanas, aos lobos do homem.

Sempre neste período do ano me pego cantarolando a bela canção que John Lennon dedicou ao natal. Não por acaso sua composição Feliz Natal foi por ele também denominada A Guerra Acabou. E porque fez assim o carismático timoneiro dos Beatles?
Porque temos que internalizar o natal como um momento, sobretudo, de cultivar a paz, o que implica desmobilizar nossa vertente violenta, egoísta, que evoca a agressão, a prepotência, a arrogância e a guerra.
Que tal nos lembrarmos dela? Está no álbum Imagine, gravado e lançado em 1971. Logo abaixo da original, segue a versão traduzida para o português:

Happy Xmas (War Is Over)
Happy Xmas (War Is Over)

Happy christmas, Kyoko.
Happy christmas, Julian.

So this is christmas and what have you done?
Another year over, a new one just begun.

And so this is christmas, i hope you have fun,
The near and the dear one, the old and the young.

A very merry christmas and a happy new year,
Let's hope it's a good one without any fear.

And so this is christmas for weak and for strong,
(war is over if you want it,)
For the rich and the poor ones, the road is so long.
(war is over now.)

And so happy christmas for black and for whites,
(war is over if you want it,)
For the yellow and red ones, let's stop all the fight.
(war is over now.)

A very merry christmas and a happy new year,
Let's hope it's a good one without any fear.
And so this is christmas and what have we done?
(war is over if you want it,)
Another year over, a new one just begun.
(war is over if you want it,)

And so this is christmas, we hope you have fun,
(war is over if you want it,)
The near and the dear one, the old and the young.
(war is over now.)

A very merry christmas and a happy new year,
Let's hope it's a good one without any fear.

War is over
If you want it,
War is over now.

Happy christmas!
Happy christmas!
Happy christmas!
Happy christmas!
Happy christmas!

E a tradução:

Feliz Natal (A Guerra Acabou)
Feliz Natal Kyoko
Feliz Natal Julian

Então é natal
E o que você tem feito?
Um outro ano se foi
E um novo apenas começa
E então é natal
Espero que tenhas alegria
O próximo e querido
O velho e o Jovem

Um alegre Natal
E um feliz ano novo
Vamos esperar que seja um bom ano
Sem sofrimento

E então é natal
Para o fraco e para o forte
Para o rico e para o pobre
O mundo é tão errado
E então feliz natal
Para o negro e para o branco
Para o amarelo e para o vermelho
Vamos parar com todas as lutas

Um alegra Natal
E um feliz ano novo
Vamos esperar que seja um bom ano
Sem sofrimento

E então é Natal
E o que você fez?
Um outro ano se foi
E um novo apenas começa
E então feliz Natal
Esperamos que tenhas alegria
O próximo e querido
E velho e o Jovem

Um alegre Natal
E um feliz ano novo
Vamos esperar que seja um bom ano
Sem sofrimento
A guerra acabou, se você quiser
A guerra acabou agora

Feliz Natal.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A forma mais vil de educar

O latim nos brindou com o termo “scientia”, ciência, que poderia, no seu sentido mais exato, ser traduzido como um conjunto de conclusões certas e coerentes sobre determinado objeto.

Mais precisamente, ciência pode ser tida como o ramo de conhecimento sistematizado como campo de estudo ou observação e classificação dos fatos atinentes a um determinado grupo de fenômenos ensejando a formulação das leis gerais que os regem. Já ciências exatas são somente as que admitem princípios, conseqüências e fatos rigorosamente demonstráveis.

Nossas escolas precisam repassar esse ensinamento – tão elementar! - aos economistas.

Não poucos burocratas acreditam que a economia seja uma ciência exata, propagando e a vendendo como se de fato fosse. Neste contexto, bastaria encerrar a sociedade num pedestal de fórmulas e pressupostos matemáticos e os problemas do mundo teriam dia, hora e local para se diluírem em infinitas e eficazes soluções. O que vale e importa são as equações em sua perfeição matemática, os relatórios em sua peremptória exatidão. Quanto às prioridades da sociedade, às necessidades da nação, quanto aos críticos que defendem o desenvolvimento sustentável como conseqüência dos investimentos em educação ... oras, oras, raios que os partam!!!

E por acreditarem nesta aleivosia não sentem pingo sequer de remorso quando se deparam com a realidade de que o governo brasileiro, de forma insana e irresponsável, gasta em juros mais de 8 vezes o que aplica em educação.

A informação é do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – instituição de pesquisas e estudos do Ministério do Planejamento, e se refere aos gastos do governo com pagamento de juros do endividamento público, contemplando o período que se estende de 2000 a 2007. Neste período, os gastos com pagamento de juros totalizaram R$ 1,268 trilhão, enquanto os valores investidos em educação se limitaram a R$ 149,9 bilhões. Traduzindo em miúdos, o governo brasileiro torrou na agiotagem e na ciranda financeira do pagamento de juros 8,5 vezes o dinheiro investido em educação no mesmo período.

O próprio IPEA, em nota oficial, critica e procura ensinar o governo do qual é apêndice: (...) além de o gasto com juros ser "improdutivo, pois não gera emprego e tampouco contribui para ampliar o rendimento dos trabalhadores", também colabora para a concentração de renda.

Tanto quanto a educação, também a saúde é vítima desta perversa inversão de valores e prioridades: o total despendido com o pagamento de juros supera, em muito, o que foi destinado à saúde, meros R$ 310,9 bilhões.

A situação é por demais grave e aviltante: ainda que somemos todos os recursos despendidos pelo governo com saúde, educação e investimento, não conseguimos alcançar a metade do volume destinado ao pagamento dos juros. A mais terrífica realidade é que, quando totalizamos os gastos da União com saúde, educação e investimento, chegamos tão somente a 43,8% do total das despesas com juros.

Antes da eclosão da atual crise econômica mundial, os bancos e instituições financeiras exultavam com os lucros estratosféricos obtidos exercício após exercício, ano sim e o outro também; lucros auferidos em grande parte, agora todos sabemos, da forma mais vil e abominável, exaurindo a saúde e a educação da nação, corroendo nossas esperanças, comprometendo nossas perspectivas por dias melhores. Agora que a crise se acentuou, Brasília presta novas carícias e favores ao sistema bancário, cobrindo-o de generosidades com os recursos do tesouro, que a rigor, pertencem ao conjunto da sociedade.

Quanto à educação, à saúde, ao desenvolvimento sustentável da nação, ao povo, ... oras, oras, raios que os partam!!!

A metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e a tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo são criações originais de Antônio Carlos dos Santos

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Uma república de bananas?


Quando assistimos, ao vivo e a cores, a forma humilhante e degradante como os países europeus deportam os milhares de brasileiros que lá procuram abrigo e emprego, percebemos o quando são injustos e ingratos.

Todos sabemos como foram construídas as bases do desenvolvimento europeu. Às custas do saque e do confisco das riquezas surrupiadas de nós outros, os países colonizados.

Não bastasse a histórica pirataria, quando – nos séculos XIX e XX – viram-se diante da necessidade de exportar sua mão de obra excedente, fomos nós que recebemos milhares e milhares de famílias e trabalhadores desempregados.

De modo que deveriam receber os brasileiros que para lá emigram com pompa e circunstância, com tapetes vermelhos e fogos de artifício.

Mas qual?!, jamais farão isso; seria mais fácil encontrar uma cédula de três reais.

E por duas razões simples. A primeira é porque está na gênese da colônia tratar os colonizados como ralé e escravos. E, não há aqui nenhum exagero, os europeus ainda acreditam que não passamos de mazombos bobinhos.

A outra razão é que temos uma diplomacia medíocre, regada a regalias, nababos e uísque 12 anos, que - qual os colonizadores - acreditam que não passamos de uma república de bananas que deve eterna reverência aos cult das metrópoles.

Em outros lugares as coisas são diferentes.

O governo do Peru, por exemplo, tomou uma importante decisão: vai processar a Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que roubou milhares de artefatos do famoso sítio arqueológico de Machu Picchu.

Machu Picchu é uma antiga cidade inca – data do século XV - cujas ruínas foram descobertas por Hiram Bingham, acadêmico de Yale.

O explorador norte americano achou que não teria nada de mais levar para os EUA mais de 45 mil peças peruanas e assim procedeu. Dentre o acervo roubado constam peças de cerâmica, tecidos e jóias que foram levadas a título de empréstimo e nunca mais devolvidas.

Não se sabe ao certo se o governo do Peru levará adiante o processo, ou se trata de estratégia para forçar a instituição de pesquisa norte americana a devolver o que jamais lhe pertenceu.

O fato é que lá, o governo se movimenta. Já por aqui...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Jean Charles e Eloá

O erro é mais facilmente admitido em alguns setores que em outros. O erro de uma criança impacta, quando muito, sua roda de amigos, parentes e vizinhos. O de um empresário, no máximo, sua esfera de influência. Já o erro promovido por um político ou servidor público pode até mesmo comprometer os destinos de uma nação.

Há aqueles intencionais, os meramente ocasionais e incidentais, mas, infelizmente, não há pra onde correr: para a espécie humana, o erro é inexorável, e está sempre a nos espreitar nas esquinas. O que resta à parte responsável da humanidade é cuidar para que as possibilidades de ocorrência se reduzam ao extremo. E manter a incidência de erros sob controle, em estado vegetativo, numa margem administrável não é tarefa das mais fáceis; e exige investimentos pesados, sobretudo em educação.

Por mais eficaz que seja a ação para aproximar a margem de erro de zero, quando ocorrer, a polêmica estará estabelecida, ainda que no plano da individualidade. Explico.
Qual a margem de erro admissível para o médico que deixa o recém-nascido escorregar das mãos, fazendo com que o bebê estatele a cabecinha no chão duro da sala de parto? Para os pais da criança, com certeza, nenhuma!

Coletivamente, será sempre possível demonstrar, através de gráficos coloridos e relatórios vistosos, que o erro se reduziu a um algarismo insignificante – um efêmero traço – quando cotejado com o sem número de ocorrências exitosas. Mas para as pessoas próximas, emocionalmente envolvidas, o que a estatística reduz à insignificância pode representar numa tragédia gigantesca, irreparável, de efeitos devastadores. A relatividade em ação: quando um mesmo episódio é insignificante para alguns e irreparável para outros.

A polícia é sempre um prato cheio quando queremos discutir forças e fragilidades, virtuosidades e deficiências.

Os policiais geralmente são levados a trabalhar no limite. Diuturnamente arriscam a própria vida, e como o salário mal dá para o gasto, são obrigados a recorrer a bicos e improvisos. Apesar do cenário adverso, cotidianamente praticam nobres ações de solidariedade humana que deveriam merecer o reconhecimento da sociedade. Por força das circunstâncias, não raro utilizam as viaturas policiais como ambulâncias, fazem às vezes de parteiros; de aconselhadores que evitam suicídios; de professores que, nas escolas, alertam alunos para os perigos das drogas e das más companhias. E quantos bandidos são retirados das ruas, quantos crimes e delitos impedem que acorram? Mas basta um passo em falso e...

Sobretudo nos estados onde a politicagem grassa, a polícia erra e muito. Porque falta salário, faltam viaturas e equipamentos, faltam investimentos em educação, faltam diretrizes e políticas públicas adequadas. E nessas circunstâncias, os erros são mera conseqüência da irresponsabilidade governamental.

Resultam dessa irresponsabilidade casos grotescos como o que vitimou o pequeno João Roberto Soares, de apenas três anos. No dia 06 de junho deste ano, policiais militares do Rio de Janeiro perseguiam um veículo suspeito. No meio do caminho confundiram um carro com o veículo dos bandidos e dispararam 17 tiros. No carro confundido estava a mãe, Alessandra, e seus dois filhos. Um deles, João Roberto Soares, de três anos, morreu com um tiro na cabeça.

Cerca de um mês depois, Luiz Carlos Soares da Costa, administrador de empresas, 35 anos, foi feito refém por um assaltante na zona norte do Rio de Janeiro. O bandido entrou em seu Siena, obrigando Luiz a passar para o banco de passageiros. Desconfiada, a polícia passou a perseguir o veículo. Segundo relataram os policiais, ao se aproximarem do Siena, o bandido, de 18 anos, disparou contra a viatura, obrigando-os ao revide, com o que acertaram dez tiros no Siena, três dos quais mataram Luís, a vítima. O bandido levou um tiro no abdome, foi socorrido e sobreviveu.

Mas mesmo onde se valoriza o planejamento e se busca a eficácia, os erros acontecem. E erros crassos. Como exemplifica o caso Jean Charles.

A polícia britânica é uma das que mais investem na formação de seus policiais. É a típica polícia de primeiro mundo. Veículos e equipamentos de ultima geração, e investimentos abundantes em formação e capacitação profissional. Fazendo assim remetem a margem de erro às proximidades de zero, mas não conseguem se manter incólumes a ele.

Como aceitar que uma das polícias mais modernas e eficazes do planeta cometa um erro tão primário e ignóbil como o que levou à morte de Jean Carlos. Confundido com um terrorista, em 2.005, o brasileiro foi estupidamente executado no metrô de Londres.

Segundo depoimento colhido recentemente de um agente da Scotland Yard, o jovem eletricista poderia ter sido abordado e detido sem problemas antes de a polícia ter feito os disparos fatais na estação de Stockwell, sul de Londres, na manhã fatídica de 22 de julho.

Outro festival incompreensível de erros ocorreu recentemente, em Santo André, quando o país se viu hipnotizado diante dos aparelhos de televisão: a tragédia que culminou na morte de Eloá.

Toda a operação policial foi executada pelo Grupo de Ações Táticas Especiais da polícia de São Paulo. O GATE de São Paulo é uma referência quando se trata de eficácia policial. Em uma década de operações promovidas pelo Grupo, há o registro de apenas duas vítimas, Eloá e uma outra.

Apenas neste ano, o GATE realizou 18 ações, salvando 47 cidadãos brasileiros. São números que atestam qualidade da polícia paulista; mas o festival de besteiras perpetradas no caso Eloá demonstram, de maneira cabal, que investimentos em treinamento, capacitação, educação devem ser atividades diuturnas em qualquer setor da atividade humana, em qualquer instituição, seja militar ou não, esteja ela num elevado nível de sustentabilidade e eficácia ou não.

Se não conseguimos eliminar, de todo, o erro de nossas vidas, com a educação de qualidade podemos manter a margem bem próxima a zero, num ponto em que a dor, para a coletividade, se torne um pouco mais suportável.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Mais verbas ou mais gestão?

Deveríamos desconfiar sempre que a bandeira do “mais verbas para isso” ou “mais verbas para aquilo” fosse solenemente hasteada.

Não há setor na administração pública que, diuturnamente, não seja sacudido por movimentos, ONG’s, servidores, lobbies que, com estardalhaço e em uníssono, clamam por mais, mais e mais recursos públicos.

Enquanto todos se deixam embalar e embair pelos protestos, pela ‘lógica politicamente correta’ de irrigar com recursos estatais os setores sucateados, a verdadeira causa dos problemas continua – deliberadamente – encoberta: a questão da gestão, o modo como ela é ensinada e aplicada no país.

Tomemos como exemplo a saúde pública.

O setor sempre amargou problemas dos mais graves, com a população sendo aviltada pelos serviços que recebe, invariavelmente de péssima qualidade.

As pessoas morrem nas filas dos hospitais?, então tome como solução “mais verbas para a saúde”. Faltam medicamentos?, “mais verbas para a saúde”, protestam os de sempre. A Dengue recrudesceu? “mais verbas para a saúde”, é a saída definitiva; e daí segue...

Repetida à exaustão, a “falta de verbas para a saúde” virou unanimidade nacional. A ponto de facilitar o propósito do governo federal de sangrar as forças vivas da nação com sua prole infindável de tributos, como é o caso da CPMF e CSS.

Quem não se lembra das ameaças, o governo propagando que o fim da Contribuição implicaria na hecatombe, no caos absoluto, inclusive com o fechamento de hospitais e postos de saúde. A CPMF caiu no Congresso Nacional, e tudo continuou como dantes.

Os que não se deixam embalar pelo canto da sereia já perceberam que o buraco é mais embaixo, bem mais embaixo. A realidade é que os recursos existem – e em abundância. O que falta, está claro, é boa gestão e vergonha na cara.

Mais precisamente no campo da saúde, envergonha saber que, dos R$ 1,6 bilhão destinados à área, nada menos que R$ 426,5 milhões evaporaram, sumiram, desapareceram, foram tragados pela péssima gestão, fada-madrinha de todos os tipos de corrupção.

Os dados foram extraídos dos relatórios de fiscalização da CGU, a Controladoria-Geral da União. Custa acreditar, mas o levantamento do governo federal mostra que dos R$ 1,5 bilhão transferidos pelo Ministério da Saúde - nos últimos quatro anos - para 1.341 municípios, ¼ ou 25% se destinaram aos ratos que se locupletam na corrupção.

É pouco? Então tome “mais verbas para a saúde”.

O desvio de recursos públicos já alcançou tal grau de gravidade, que os gestores públicos sequer se constrangem em avançar sobre orçamentos estratégicos, fundamentais para a população carente, como o Programa de Atenção Básica. E dinheiro que deveria atender aos mais necessitados é canalizado para confeccionar abadas de carnaval temporão, adquirir eletrodomésticos e promover festas e confraternizações.

Outro setor onde esta realidade afronta a vista é o dos esportes. Em quatro anos, a União investiu na área desportiva R$ 692 milhões. E onde foram parar esses recursos? Só a Confederação de Judô recebeu do Comitê Olímpico Brasileiro R$ 10,86 milhões. Mas o judoca Eduardo Santos foi lutar em Pequim sem dispor dos R$ 1,5 mil para trocar de faixa.

A realidade é que jamais, em toda a história do país, houve tanto dinheiro para a preparação dos atletas, considerando o ciclo olímpico.
Em que pese o expressivo incremento dos recursos, a olimpíada em que o Brasil obteve o melhor aproveitamento foi a de Atenas, em 2.004, que rendeu cinco medalhas de ouro. No ciclo da Grécia foram gastos R$ 250 milhões.

Se o Brasil desejava, na Olimpíada de Pequim, realizar o negócio da China, deu com os burros n’água. Cada medalha nos custou R$ 53 milhões, excluída, naturalmente, as obtidas com o futebol, considerando que a CBF não conta com dinheiro público.

E o ultimo escândalo estampado em todas as páginas dos jornais confirmam que “o mais verbas para isso” e “o mais verbas para aquilo” é o grande jargão que acoberta a nefasta prática de corrupção, já cristalizada no imaginário coletivo.

Quinze anos atrás, a política brasileira foi sacudida com a divulgação do escândalo protagonizado pela máfia dos “anões do orçamento”. As apurações efetuadas à época resultaram na formalização de acusação contra 15 parlamentares, seis cassados e quatro que optaram pela renuncia. As investigações que desnudaram os anões do orçamento apuraram um desvio de R$ 101 milhões.

No escândalo que acaba de sair do formo, o secretário nacional do Partido dos Trabalhadores está no centro de um gigantesco processo de corrupção que, pelos dados do Ministério Público, desviou mais de R$ 700 milhões. O esquema criminoso envolve 23 construtoras e 119 prefeituras nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins. O achaque ocorreu contra as verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), estruturando uma rede de informações privilegiadas, com participação de funcionários do Ministério das Cidades, Integração Nacional, Saúde e até do Tesouro Nacional.

Portanto, caro leitor, quando se deparar com o tal de “mais verbas para isto” e “mais verbas para aquilo”, coloque todos os fios da barba de molho.

Ao invés de “mais verba” o correto seria “mais gestão”. Mas esta é uma palavra de ordem sem rima, pelo menos no Brasil da corrupção.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A porcaria que custa ouro



Preocupada com as questões ambientais, a sociedade civil se organiza, se mobiliza, faz das tripas coração para assegurar um planeta mais limpo e saudável para as futuras gerações. Movimenta mundos e fundos, mas quando chega o instante da aferição, os resultados que emergem da ponta do lápis enfatizam contas que nunca fecham, sempre distantes dos números positivos.

E se assim ocorre, a responsabilidade é quase sempre dos governos e das grandes empresas e corporações. É que os objetivos destes muito dificilmente convergem para os da sociedade, a não ser na propaganda e no proselitismo fácil e enganador.
Tomemos o caso da Petrobrás como exemplo.

Empresa governamental, deveria ser a primeira a dar exemplo de sustentabilidade ambiental, e de fato o faz... nas peças publicitárias; setor onde gasta jazidas e mais jazidas de dinheiro vivo... ou – melhor dizendo – de dinheiro imantado pelo viscoso óleo negro.

Utilizando modelos matemáticos sobre dados obtidos com farto material colhido na atmosfera de São Paulo, a pesquisadora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, professora Leila Martins, chegou à conclusão que a gasolina nacional gera muito mais ozônio do que o necessário, pior, do que o fartamente propagado.

Quando compara o combustível produzido pela Petrobrás com a gasolina fabricada na Califórnia, nos Estados Unidos, a pesquisadora conclui que a produção do poluente em São Paulo cairia 43% se os automóveis utilizassem combustível com padrão californiano de refino.

Ou seja, falando francamente e sem rodeios: os brasileiros pagam muito mais caro que os californianos para encher o tanque de seus veículos, mas, em contrapartida, são obrigados a receber um produto de muito pior qualidade. Não bastasse a gasolina suja e batizada com água, benzeno, e ‘otras cositas mas’ que polui o ambiente e funde o motor dos nossos carros, temos ainda que pagar pela porcaria, preço de gasolina de primeiro mundo.

Enquanto o meio ambiente padece e o povo lamenta o prejuízo no bolso e na qualidade de vida, a Petrobrás (com ‘p’ minúsculo, mesmo!) exulta.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Quando meia palavra basta

Quando nos deparamos com a ignorância fora da escola já estão colocadas as condições para a plena indignação, aquela mais aguda e revoltante. Porque a ignorância é a mãe da brutalidade, da estultice, da insanidade intelectual. Além de embrutecer as pessoas, corrói as forças da sociedade, as emergias do país.

Já é grave assim quando se manifesta nas ruas. Mas quando a ignorância finca raízes no interior das escolas - configurando claramente os equívocos e distorções das políticas públicas levadas a efeito na área educacional - então o sentimento tangencia a perplexidade e a hedionda repulsa.

A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE traz à luz uma realidade perversa, terrífica: temos no Brasil 2,1 milhões de alunos entre 7 e 14 anos analfabetos. E o mais grave é que, deste universo, quase 88% freqüentavam a escola no ano passado. .

Um outro dado de levantar defunto: 29% das crianças com 7 anos de idade não sabiam ler e escrever, em que pese 90,8% delas estarem presentes em sala de aula, freqüentando a escola.

Geograficamente, a região nordeste é o quadrante do país onde o problema mais se evidencia, se manifestando de maneira avassaladora. Nada menos que 44% das crianças nordestinas com 7 anos encontram-se na situação de iletrados. É quase a metade dos brasileirinhos que lá residem.

Na região Norte, este indicador chega a 39,6%.

Já na faixa que se inicia nos 8 e se estende até os 14 anos de idade, o índice de analfabetismo bate a casa dos 5,4%, segundo o IBGE. E o mais curioso e inaceitável: a esmagadora maioria desses brasileirinhos - vítimas da desídia governamental - são estudantes, estão nas escolas, e se não aprendem não é em razão do abandono, da perambulação pelas ruas, becos e esquinas. Não, freqüentam as aulas, prestam com habitual regularidade as provas e exames de avaliação, registram diligentemente a freqüência. Para se ter uma idéia do quão acintosa é esta realidade, do universo de 1,3 milhão de analfabetos no extrato, 84,5% estão estudando, ou seja, 1,1 milhão.

E aqui, importa abrir um parêntese: a eloqüência dos dados apresentados na Síntese de Indicadores Sociais do IBGE pode esconder uma situação ainda mais absurda. Na faixa contemplada pelo estudo, dos 8 aos 14 anos, o analfabetismo seguramente é muito maior em virtude de desconsiderar a população de 7 anos, que, pelo menos em tese, deveria cursar a 1 série do ensino fundamental, ainda em fase de alfabetização.

São números que deveriam falar por si, indicadores que deveriam ser suficientes para alterar as políticas públicas estabelecidas pelo MEC. Ensina o ditado popular que, para os que têm vergonha na cara, meia palavra basta. Já para os que não têm, uma locomotiva é insuficiente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Quando o homem deixa de ser homem ou De como o espírito de Phineas Gage deixará de assombrar o Brasil


“Se quiser que os seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que sejam ainda mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas”. Albert Einstein

Por incrível que pareça, existem pais que jamais leram um conto de fadas para seus filhos. Um sequer. Talvez por isto a sociedade amargue a existência de tantos sem brilho nos olhos, sem senso de justiça, ética e solidariedade. Talvez por isto a sociedade amargue a existência de tantos homens que, em algum momento do passado, permitiram escapar a alma, deixaram esvair o espírito, consentiram perder a humanidade.

Na tarde do dia 13 de setembro de 1848, o médico John Harlow foi surpreendido com a inesperada chegada de um paciente em estado gravíssimo. Da cabeça dilacerada esvaia um rio de sangue misturado com massa encefálica. Teve pena do pobre coitado e desejou que a morte socorresse o trabalhador, livrando-o da dor e do suplício insuperável, insuportável. Pensou em mandar buscar o vigário da pequena localidade para ministrar a extrema unção, até que, surpreso, percebeu estar diante de um daqueles casos clássicos, emblemáticos, que a medicina não consegue explicar.

Apesar da barra de ferro ter desfigurado a cabeça, entrando pela face e saindo pelo topo do cérebro, o paciente falava quase normalmente e podia, inclusive, caminhar. Após prestar os primeiros socorros e administrar os medicamento de praxe, o doutor foi se inteirar do ocorrido.

Logo, o Dr. Harlow descobriu que Phineas Gage trabalhava para a Rutland e Burland, supervisionando a construção de ferrovias em Vermont, nos Estados Unidos. Os colegas de trabalho que o conduziram ao hospital relataram angustiados:

- Gage preparava uma carga de pólvora para explodir uma pedra, uma enorme rocha – disse um, num só fôlego, mal conseguindo manter-se em pé de tão assustado.

- Mas ele não se deu conta que socou uma barra de aço no buraco, uma barra grande, com mais de um metro de comprimento... 2,5 cm de diâmetro – interrompeu o outro, com a voz embargada, quase chorando.

Então o terceiro trabalhador, que desde o primeiro instante confortava Gage jamais se distanciando, tentou completar o relato:

- Com a explosão a barra de ferro foi direto para a cabeça de Gage, foi isso doutor, foi isso...Gage é o meu melhor amigo, meu único amigo... Ele vai se salvar, Dr, vai escapar dessa? – perguntou numa mistura de aflição, desespero e sincera preocupação.

Absorto em suas análises e divagações, surpreso com a desenvoltura do paciente que, não obstante a extrema gravidade dos ferimentos, falava com espantosa naturalidade, o Dr. Harlow completou o diagnostico: a barra de ferro iniciou a trajetória entrando pela bochecha esquerda, atingiu o olho, esmagando-o completamente, avançou pela parte frontal do cérebro, e foi sair pela parte superior, pelo topo do crânio, do outro lado.

O Doutor aspirou todo ar que conseguiu encontrar e mal recuperara o equilíbrio, foi surpreendido por uma violenta convulsão de Phineas Gage. Mandou que todos se retirassem e com a ajuda de enfermeiros imobilizou o paciente na maca encharcada de sangue.

Para surpresa de todos, Gage se recuperou e logo estava circulando pelas ruas do pequeno povoado. Mas algo mudara radicalmente na vida do até então respeitável supervisor da construção da estrada de ferro: sua personalidade agora era outra. Sobretudo os amigos e colegas de trabalho perceberam que “Gage já não era Gage”. Mudava de humor bruscamente, sem motivo aparente. Ao longo da vida forjara seu caráter como um trabalhador correto, honesto, ético, calmo, sociável, mas a barra de ferro parecia ter gerado um outro homem, extravagante, presunçoso, anti-social, mentiroso, agressivo, vagando de emprego em emprego, lançando maldição e praga sobre quem dele se aproximasse.

O episódio que acabo de relatar é verídico e ocorreu em 1848. Gage morreu em 1861, na miséria e acometida por horrendas crises de epilepsia.

O Dr. John Harlow impressionado com a evolução do caso passou a estudá-lo cientificamente. Aprofundou a investigação entrevistando colegas de trabalho, amigos e parentes de Phineas Gage, recorreu a pesquisadores e colegas médicos, e chegou a publicar dois artigos sobre a história médica reconstruída de seu paciente.

Este caso tornou-se referência no ensino da medicina, sobretudo da neurologia. Permitiu que os neurologistas concluíssem que a parte do cérebro que Gage perdera, os lobos frontais, tinha estreita vinculação com as funções mentais e emocionais que ficaram alteradas. Ao término de suas análises e estudos sobre o caso, o Dr. Harlow chegou a concluir que "o equilíbrio entre as faculdades intelectuais e as propensões animais parecem ter sido destruídas”.

Mudanças comportamentais tem sido uma característica latente nas sociedades modernas. E talvez o caso Gage nos ajude a melhor compreender mudanças comportamentais tão radicais e profundas como as que nos surpreendem cotidianamente.

Nossas crianças nascem sãs, radiantes de pura inocência, iluminadas pela áurea mágica de Deus, os olhos brilhando como estrelas no firmamento. Enquanto crescem são alegres, cantam, dançam, brincam e se esbanjam num caldo fértil de felicidade. Emitem luz e energia tão inebriantes que contagiam o mais enfadonho dos ambientes, irradiando felicidade e alegria onde viceja a tristeza e a amargura. Mas num dado instante, no decorrer da caminhada, algumas perdem a graça e começam a se distanciar do humano para se assemelhar, mais e mais com os lobos e algozes do homem. Até que deixam de ser homens, por completo. Algo em muito semelhante às conclusões do Dr. Harlow “o equilíbrio entre as faculdades intelectuais e as propensões animais parecem ter sido destruídas”.

À nossa volta, diuturnamente somos surpreendidos por pessoas aparentemente sãs, mas que em algum momento da vida se deixaram atingir por uma barra de ferro. Como algumas autoridades e políticos que – se arvorando defensores da moralidade e da ética – avançam sobre os cofres públicos, criando redes infindáveis de corrupção, ignorando a dor alheia (máfia da saúde, das sanguessugas, do plasma, das ambulâncias...) e a fome e a educação de nossas crianças (máfia do livro, do transporte escolar, da merenda, do leite...).

Phineas Gage não morreu. Seu espírito assombra a sociedade brasileira lançando lama e nódoa purulenta sobre a mente de dezenas de milhares, sobretudo de políticos corruptos e ‘empresários’ sem caráter.

O alento é que a mentira sobrevive por algum tempo, às vezes por muito tempo, mas jamais por todo o tempo. E a verdade vai redimindo os indivíduos, a sociedade e a nação brasileira. Vamos aprimorando nossa capacidade de separar o joio do trigo, o certo do errado, o bem do mal.

Apesar dos milhares e poderosos que têm barras de aço invisíveis encravadas em suas cabeças, a sociedade vai evoluindo e percebendo que – por maiores que sejam os problemas das forças de segurança, devemos optar sempre pela polícia e não pelos bandidos, que jamais poderemos considerar natural que traficantes e latrocidas mantenham intimidade com nossos filhos, que políticos e empresários éticos existem, e que serão em profusão e exuberância se priorizarmos os investimentos em educação de qualidade.

A cada dois anos o Brasil experimenta a epopéia das eleições livres e democráticas. E assim vai se livrando da maldição de Phineas Gage. Porque nosso destino está escrito nas estrelas e o construímos no dia a dia, vertendo sangue, sacrifício e suor com nosso trabalho digno e honesto. Enganam-se os que acreditam que o Brasil será dos corruptos, dos traficantes, dos bandidos. Esta terra está predestinada a ser dos justos, dos honestos, dos bons, dos éticos... e aproxima o momento em que nos libertaremos do julgo dos que ostentam barras de aço encravadas nas cabeças. Então o Brasil e os brasileiros seremos de todo livres, progressistas e felizes. Porque Gage - como afirma o neurobiologista da universidade de Iowa - será apenas “o início histórico dos estudos das bases biológicas do comportamento”.

Atinemos para a importante lição que Einstein fez questão de ensinar: “Se quiser que os seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que sejam ainda mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas”.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Para os que se deleitam atirando a primeira pedra

Deu nos jornais:
DNA livra acusado de estupro após 26 anos nos EUA

Um acusado por estupro que passou quase 26 anos na prisão foi libertado por uma corte de Dallas, nos Estados Unidos. Um juiz recomendou a revisão da pena de Johnnie Earl Lindsey, após um teste recente de DNA demonstrar sua inocência. O caso de 1981 envolvia uma mulher de Dallas, e Lindsey foi condenado no ano seguinte.

Segundo a advogada Michelle Moore, o acusado sempre alegou inocência e inclusive tinha o cartão de ponto provando que ele estava no trabalho no momento do crime. Morre afirmou que houve um erro das testemunhas ao identificá-lo. Além disso, os policiais teriam se equivocado na ordenação das fotos dos suspeitos, o que contribuiu para o engano.

Lindsey é o 20º réu do condado de Dallas a ser inocentado por testes de DNA desde 2001, quando passou a valer uma nova lei estadual que aceita esses exames como provas em processos.

E escrevi pouco tempo atrás:

Um país refém da ideologia dos batedores de carteira

“Castigat ridendo mores”


Alguns costumes castigam as pessoas e o mundo.

Muitos deles vêm de milênios, acompanhando os diferentes estágios da evolução humana, mas mantendo a espécie num limiar entre o moderno e o bárbaro.

Dos mais graves é o costume de julgar, um hábito embebido de preconceito, açodamento, irresponsabilidade, leviandade, arrogância, posto que, na maioria das vezes, ocorre sem que se tenham os elementos mínimum minimórum de convicção, sem que a verdade esteja – de maneira irretocável – disposta, sem que os fatos estejam plenamente esclarecidos.

E realizado nessas condições, as possibilidades de erro, equívoco, engano, se multiplicam, elevam-se à enésima potência, escancarando as portas para que a injustiça mais vil e atroz se estabeleça soberanamente.

Circula na web uma fábula - O pitbul & o coelho – uma boa ilustração para o assunto que tratamos:

Eram dois vizinhos.

O primeiro vizinho comprou um coelhinho para os filhos.

Os filhos do outro vizinho pediram um bicho para o pai, que decidiu comprar um cão pitbul.

Conversaram os vizinhos:
- Mas o seu cão vai comer o meu coelho.
- Que absurdo!, de jeito nenhum, imagina, o meu pitbul é filhote, os bichanos crescerão juntos, pegarão amizade, e olhe que eu entendo de bicho como ninguém.


E tudo levava a crer que o dono do cachorro estava coberto de razão. E não é que juntos os animais cresceram e mais que amigos ficaram?! De tal modo que ninguém mais estranhava ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa.

Eis que o dono do coelho resolve passar o final de semana na praia com a família e deixou o bichinho sozinho.

Domingo, final de tarde, a família saboreava o lanche quando entra o pitbul na cozinha.
Dentre os dentes, o cão trazia o coelho, todo imundo, vermelho de terra e, morto.

Não tiveram dúvidas. Mataram o cachorro de tanto agredi-lo.
Berrava o homem:
- O vizinho estava certo, e agora, o que vai ser? Só podia dar nisso!

Mais algumas horas e os vizinhos chegariam. Angustiados, todos se olhavam num misto de revolta e incredulidade.
O cachorro jazia prostrado no meio da casa, morto, irremediavelmente morto.

-Já pensaram como vão ficar as crianças?

Não se sabe exatamente quem teve a idéia, mas parecia infalível:
-Vamos lavar o coelho, deixá-lo limpinho, depois a gente seca com o secador e o colocamos na casinha dele.

E assim foi feito.
Até perfume colocaram no coelhinho. Ficou lindo, parecia vivo, diziam.
Logo depois escutam os vizinhos chegando. E os gritos desolados das crianças.

- Descobriram!

Não passaram cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.

- O que foi? Que cara é essa?
- O coelho, o coelho...
- O que tem o coelho?
- Morreu!
- Morreu? Ainda hoje à tarde parecia tão bem.
- Morreu na sexta-feira!
- Na sexta?
- Foi antes de viajarmos, as crianças o enterraram no fundo do quintal e agora reapareceu!

Um cão massificado com a fama de malvado, todos os dias ilustrando as páginas dos jornais com cenas de agressividade e violência explícitas, estraçalhando crianças, matando velhinhos, atacando pessoas, avançando em tudo o que ousasse simples movimento... Como não ser o pitbul? Está julgado, condenado e executado! ‘Tua fama te condena!’ Não é assim que procedemos? E mesmo quando não prevalece a fama, prevalecem os preconceitos.

Pouco importa que o pitbul seja inocente, que não tenha nada a ver com o ‘crime’. Pouco importa que, desesperadamente, tenha procurado o amigo de infância, esquadrinhado toda a redondeza, farejado por todos os quarteirões, numa busca frenética, angustiante, como a do pai que procura o filho perdido. Pouco importa que tenha desejado morrer junto com o amigo-coelho quando o encontrou enterrado. E que, carinhosa e cuidadosamente, tenha desenterrado o companheiro de todas as horas, e – se apegando num tênue fio de esperança - decidido recorrer ao dono, acreditando, com todas as forças, possível a ressuscitação... afinal não são os humanos tão poderosos e criativos?

Sim, os humanos sempre foram muito poderosos e criativos... para o bem e para o mal. E muitas vezes, a única ‘verdade’ que interessa é a urdida nos escaninhos do imaginário coletivo. Se o vermelho é púrpuro, torne-se azul; se o sabor é limão... ei-lo chocolate; se a textura é rugosa, num estalar de dedos está plenamente lisa e uniforme.

Mas... e os fatos, os antecedentes, a lógica, os indícios, as provas, os interesses, as contradições?

Qual o quê?! Se é noite, basta afirmar que o sol está a pino. É inverno? Decrete-se verão. É inocente? Oficialize-se culpado. O que importa são as convenções sociais. Se à consciência dói prender, então sejamos politicamente corretos, interne-se no manicômio. Bradam os hipócritas:

- A média é tudo! E não interessa que os pés estejam esturricando no forno em brasas e a cabeça petrificando, no congelador, pois que a temperatura média está em equilíbrio.

Vivemos o império da mentira. Os honestos, os íntegros, os éticos, os que cultuam e propagam a verdade são diuturnamente vítimas de ciladas, tramóias, intrigas, fuxicos, armações ilimitadas, urdis medonhos e mesquinhos...

Em Miami, na Flórida, EUA, um homem permaneceu durante 26 anos preso, condenado por ter cometido sete crimes sexuais. Foi detido no dia 29 de agosto de 1979 e acusado por nada menos que 25 mulheres. Todas, sob juramento, asseguraram terem sido violentadas ou vítimas de tentativas de violação.

A organização norte-americana “Projeto Inocência” - que investiga casos de possíveis erros judiciais - conseguiu convencer as autoridades a providenciar testes de DNA e escutar novamente as testemunhas, com o que se comprovou a inocência do indivíduo de origem cubana Diaz, no mais importante caso de reabilitação – dentre os 160 - já resolvido pela instituição.

O Ministério Público local se manifestou informando que encerraria o caso contra Diaz, visto que as provas de DNA indicam que o criminoso é uma outra pessoa e que algumas das presumíveis vítimas alteraram os testemunhos apresentados.

Porém, 26 anos da vida de Diaz foram parar no esgoto, na lata de lixo. O pujante sistema judiciário ostentado pelo país mais poderoso e desenvolvido do planeta não foi eficaz o suficiente para impedir que o erro fosse perpetrado.

Um outro caso ficou como mácula indelével na história.

No início dos anos 20, dois imigrantes italianos foram detidos pela polícia de Boston, EUA. Nicola Sacco, sapateiro, e Bartolomeo Vanzetti, peixeiro, integravam o movimento político anarquista e foram acusados de responsáveis por um assassinato ocorrido no dia 15 de abril de 1920.


O sistema encontrou em Sacco e Vanzetti uma forma de reafirmar suas referências conservadoras e conduziu o julgamento para ‘verdadeirar’ suas versões e visões. O sentido de tudo era, sobretudo, nortear os estrangeiros imigrantes quanto aos valores defendidos pela América e deixar um exemplo suficientemente convincente para os que ousassem questionar o stabilishment.

Acusados de assassinato, em 1921 foram levados a julgamento e condenados num dos mais escandalosos episódios de erro judicial do século XX. O Estado acusava-os do homicídio de um contador e de um guarda de uma fábrica de sapatos. Nem o aparecimento de um outro homem admitindo a autoria dos crimes foi suficiente para inocentá-los.

E no dia 23 de agosto de 1927 a sentença foi executada com Sacco e Vanzetti sendo eletrocutados na cadeira elétrica. Todo o processo manteve-se a léguas de distância da reparação judicial para conforma-se no caldo raso e mesquinho dos interesses políticos.

Filmado pelo diretor italiano Umberto Marino, o filme teve – no período da ditadura militar - sua exibição proibida no Brasil.

Por aqui, um caso que chocou o mundo foi o que vitimou a família Shimada, proprietários da Escola Base, de São Paulo.

Em 1994, Maria Aparecida e seu marido Icushiro Shimada, além do colaborador Maurício de Alvarenga, foram acusados pela polícia de promover orgias com menores na escola infantil que mantinham no bairro da Aclimação, cidade de São Paulo.

Boa parte da mídia, ávida por escândalos que dêem visibilidade aos indicadores de audiência, embarcaram de corpo e alma na cantilena policial, ajudando a mobilizar o povo para o justiçamento. E foi o que literalmente aconteceu.

Tudo começou quando duas mães de alunos acusaram os proprietários da Escola Base de promoverem orgias com as crianças lá matriculadas. O delegado Edélcio Lemos, no afã de aparecer, acatou imediatamente a denúncia e, estabanadamente, deu curso aos procedimentos atropelando tudo o que a boa lógica e a gestão serena recomendavam.

Um delegado incompetente aliado à parte da imprensa sensacionalista e irresponsável conceberam e edificaram o ambiente propício para a caçada às bruxas.

Pedofilia, violência contra crianças, abusos sexuais e estupros são questões que a plebe ignara utiliza para purgar os pecados coletivos, para redimir fracassos e frustrações. Pouco importa se, de fato, algum crime foi perpetrado, e se existem suspeitos. Como nos idos dos gladiadores romanos, a massa clama e requer martírio e sangue. Objetivam a catarse coletiva. Se não existe crime, invente-se. Não existem suspeitos? Criem-se culpados. O que resta? A aplicação da pena máxima, o justiçamento, preferencialmente por linchamento seguido de incineração do corpo.

Neste caso, a formalização dos procedimentos deu ao episódio uma vestimenta de seriedade, ‘lógica’ e consistência oficial. Os trâmites dispostos nas normas foram observados, testemunhas foram ouvidas, laudos técnicos elaborados. O circo estava preparado para o trágico e insidioso espetáculo. A parte da imprensa que integrou a súcia gozava o êxtase. A Folha da Tarde chegou a estampar: “Perua escolar carregava crianças para orgia”. E a Revista Veja, num de seus piores momentos, deu como manchete: “Escola de horrores”.

Plenamente convencido da existência do crime e da cabal identificação dos ‘criminosos’, o povo foi cuidar de garantir – com as próprias mãos – a defesa dos interesses sociais, promovendo o que o Estado se mostrava incapaz de cumprir: através de telefonemas, bilhetes, cartas e gritos passaram a ameaçar de morte o casal Shimada; invadiram e depredaram a escola de educação infantil, levando-os à bancarrota; roubaram-lhes a paz e até hoje as seqüelas persistem. Raramente o casal sai de casa, e tanto Maria Aparecida como seu marido Icushiro Shimada só conseguem dormir à custa de medicamentos tarja preta.

Logo o Estado teve que admitir o descomunal erro da polícia e a imprensa não teve como deixar de noticiar que as denúncias eram inteiramente falsas, desprovidas de qualquer fundamento.

Maiores vítimas da orquestração, os acusados foram considerados inocentes e o delegado tratou de arquivar, com a maior celeridade, o inquérito policial. Era necessário que todos esquecessem a sórdida trama: intimidação e tortura, testemunhas mentindo, provas arranjadas, laudos forjados, a ética profissional tripudiada e um conjunto indecoroso de procedimentos urdidos para consolidar o mal.

Um dos casos que devem angustiar Franz Kafka, impedindo-o de descansar no túmulo. Delegados, policiais e jornalistas saíram ilesos, ninguém foi punido, a não ser as vítimas que hoje, lutam na justiça por um mínimo de reparação.

A lição se prestou para alguma coisa? Qual?!

Todos os dias fatos similares ao da Escola Base ocorrem Brasil afora.

O ex-Ministro Alceni Guerra foi praticamente linchado por, segundo as autoridades/imprensa, ‘estar comprometido até os ossos’ com a corrupção e o desvio de dinheiro público, como o superfaturamento na compra de bicicletas. Provado a inocência, quem foi punido senão o ex-ministro, a vítima da tramóia?

Em 1996, na Choperia Bodega ocorreu um assalto seguido de dois assassinatos. Foi um episódio emblemático que gerou, inclusive, o surgimento do movimento Reage São Paulo. Em 15 dias as autoridades policiais chegaram a apresentar nove suspeitos. Posteriormente todos foram absolvidos e liberados por falta de provas. A tortura foi o mecanismo novamente utilizado para arranjar as confissões. E novamente parte considerável da imprensa caiu no conto de sereia policial, fotografando os suspeitos algemados, estampando-os nas primeiras páginas como marginais, delinqüentes, assassinos confessos.

A comédia - gênero da dramaturgia universal originada na Grécia antiga - tem um lema que classifico como uma das regras de ouro do teatro: “castigat ridendo mores” - rindo, castiga os costumes. Na realidade, ao que tudo indica, o país transformou-se numa grande comédia aos avessos. Ri, e ri muito, mas não consegue castigar seus costumes. E o ‘julgue e execute primeiro para comprovar depois’ tem sido um de nossos mais hediondos costumes.

Ainda que a culpa esteja comprovada, todos deveriam ter direito a um julgamento nos moldes preconizados na lei, todos deveriam ter garantido o direito de apresentar defesa, contraprovas, testemunhas, todos deveriam ter assegurado direito ao contraditório. É o que preconiza a lei maior da nação.

A passagem registrada pelo evangelista João parece não ter mais sentido no mundo de hoje. Inocente ou não, o que vale é a lei do talião, a Lex Talionis, o Código de Hamurabi de 1730 a.C: olhos por olho, dente por dente. Na passagem bíblica, Jesus adverte aos que acusavam uma pecadora: “Aquele que não tem pecado que atire a primeira pedra...”.

Pouco tempo atrás escrevi uma fábula expressando minha indignação contra os que, qual gado em estouro de boiada, se deixam conduzir pela manada, sem sequer refletir sobre o rumo e a direção que perseguem. É um retrato de minha indignação contra os que semeiam a mentira e contra os que anseiam, os que estão sempre ávidos, solícitos e sedentos por uma nova rede de intrigas, novas teias de mentiras, urdindo fofocas e mais fuxicos, plantando boatos e mentiras, sequiosos por enganar e serem enganados. Ei-la aqui:

A raposa e o estancieiro

A raposa, sendo surpreendida pelo dono da estância, não se fez de rogada:

- Foi o coelho quem comeu as galinhas, os pobres dos pintinhos e os suculentos patos também.
- Mas coelhos não são herbívoros? – replicou indignado o homem.

Procurando manter a pose e a empáfia, a raposa não se deixou intimidar:

- Não acompanhas a evolução do conhecimento, estúpido? Nada sabes sobre as revolucionárias inovações da genética, das pesquisas com células tronco, da nanobiologia? – E, impávida, arrematou toda impoluta e senhora de seus botões: - Com a modernidade, os coelhos tornaram-se vorazes carnívoros e nós, as raposas, redimidas de todo o mal, transformamo-nos em inofensivas devoradoras de relva e gramíneas, intelectuais orgânicas, cidadãs dos processos de inclusão e transformação social e baluartes do politicamente correto.

Respirando fundo para manter o controle, o estancieiro deu trelas ao animal, como que desejando investigar até onde chegaria a perversidade e a delinqüência do outro:

- Se é de relva que se alimenta, então qual a razão de tanto sangue e penugem nesses pontiagudos caninos?

Arfando ar autoritário e professoral, a raposa esquadrinhava o universo tentando localizar, no pantanal, um naco de chão onde pudesse firmar as pernas bambas:

- Como é insuportável lidar com a ignorância e a estultice. – E prosseguiu, intrépida e afoita: - Com o novo ordenamento dos filamentos helicoidais do DNA, a verde clorofila tornou-se púrpura intensa e a apetitosa gramínea adquiriu o formato de penas, plumas e penugens...

Não cabendo de revolta e repulsa, o homem riscou o facão no ar para ver a cabeça da raposa cair distante do restante do corpo. Náusea, fastio e asco lhe turvaram os sentimentos quando viu estampada na cabeça inerte da sanguinária e impiedosa assassina o olhar singelo, cândido e inocente só dado aos puros de coração.

Moral da história: jamais acuse o outro de fazer o que você faz. Ainda que tarde, haverá um dia em que a mentira sucumbirá frente ao inexorável e avassalador romper da verdade.

Poderíamos resgatar um antigo hábito que se esvaiu no tempo: o de questionar, fazer perguntas, inquirir, duvidar, analisar criticamente, identificar e refletir sobre os interesses em jogo, passar e repassar os fatos, checando com rigor os procedimentos adotados, assegurar como cláusula pétrea o contraditório, a premissa de que todos são inocentes até prova cabal em contrário, até esgotadas todas as instâncias processuais.

Onde foram parar os princípios que, desde a antiguidade, norteiam o raciocínio lógico, o encadeamento racional dos acontecimentos, as questões estratégicas que deveriam balizar o procedimento investigativo?

Quem não se lembra da piada do ladrão batedor de carteira que, correndo em fuga, ia abrindo caminho dentre a multidão gritando “pega o ladrão, pega o ladrão”?

Temos que zelar para que o Brasil não se torne o paraíso dos gatunos batedores de carteira.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Observação - a luz que ilumina o caminho


O ator é uma das referências do teatro. Para que um espetáculo chegue a bom termo, pelo menos sob o ponto de vista técnico, há que se ter no mínimo dois sujeitos: de um lado o ator, e do outro, o espectador.

Para transmitir sua mensagem, o ator se municia de diversos instrumentos e técnicas, como a linguagem gestual e a presença de palco; a impostação da voz e o aperfeiçoamento da dicção; a re-elaboração do texto, do contexto e de suas diferentes nuances; a interpretação cênica e um conjunto de outras ferramentas que tornam sua ação dramática mais eficaz.

É este conjunto de técnicas que faz do teatro - enquanto instrumento de transmissão de conteúdos - a manifestação artística mais ampla, abrangente e adequada de todos os tempos.

Foi por esta razão que originalmente no Egito, e depois na Grécia e no restante do mundo, os sacerdotes e as elites religiosas utilizaram o teatro para reverenciar suas principais divindades.

Foi este conjunto de técnicas que levou Padre Anchieta a utilizar o teatro como instrumento de catequese, de conversão dos índios à causa cristã.

O teatro consegue - de forma presencial - aglutinar as demais atividades artísticas como a dança, a música e a oratória, tornando-se, além de ponto de convergência, o mais ameno, agradável e eficaz veículo de comunicação.

Não foi outro o motivo que levou o clero, na idade média, a conduzir o teatro para o interior das igrejas, promovendo autos que realçavam o conflito entre bem e o mal, massificando os valores da moral cristã.

Por suas exclusivas características e poder de mobilização, o teatro também tem servido aos propósitos dos sistemas autoritários de direita e de esquerda. Na Itália e na Alemanha nazi-fascista; nos países comunistas da então cortina de ferro; em Cuba, China e na Coréia comunista, é utilizado como caixa de ressonância da ideologia vigente.

Assim como um bisturi pode ser manuseado para o bem e para o mal, também o teatro é um instrumento apto para ser utilizado conforme a conveniência e interesses de plantão.

O teatro - e a arte de uma forma geral - atuam sobre os cidadãos, que tencionam a sociedade e a realidade, transformando-as para o progresso que expande e liberta, mas também para a inércia que limita e comprime.

No contexto de uma educação que atue sobre os indivíduos habilitando-os para compreender, interpretar e modificar a realidade; e no contexto do exercício de um tipo de liderança que mobilize a equipe – do setor público ou privado - para a superação dos desafios, o teatro tem lugar de destaque.

Por isto deve ser utilizado em profusão tanto no ensino regular como no informal, tanto nas linhas de produção quanto nas reuniões de planejamento estratégico. Das creches e pré-escola, passando pelos ensinos fundamental, médio e superior, o teatro pode se constituir num grande canal de condução dos conteúdos pedagógicos. Da base da pirâmide produtiva, onde se operacionalizam as tarefas, ao vértice superior, onde se instala a alta direção, o teatro pode se constituir num grande canal de condução dos conteúdos de qualidade, de difusão do empreendedorismo.

Nas relações que se estabelecem nos centros de ensino, unidades de produção e instituições públicas, perpassam mensagens e valores que muitas vezes se desviam do destino, ou chegam de forma distorcida, truncada e alterada. O domínio das técnicas dramáticas por todos que vivenciam o espaço educacional pode contribuir para a desobstrução dos canais, para a limpeza do lixo que congestiona nossas vias de integração.

Nos locais em que o teatro é utilizado como ferramenta de internalização de valores e princípios, os compromissos se intensificam, as responsabilidades se aprofundam resultando em conquistas mais expressivas, com as metas sendo sucessivamente superadas.

Um dos grandes segredos do teatro é a observação. O autor da peça teatral, o diretor e os atores do espetáculo exercitam-na à exaustão, pois disto depende a performance dramática de cada um. A caracterização de qualquer personagem será tanto mais profunda quanto mais detalhados forem os estudos originados das observações, efetuadas com rigorosa acuidade. É comum, por exemplo, atores que interpretarão personagens mais marcantes como doentes mentais ou presidiários, internarem-se em sanatórios e centros de detenção para, observando em profundidade a realidade em foco, levar ao palco uma representação mais qualificada. Quando se verifica um teatro medíocre feito por atores medíocres, no fundo o que ocorre é a absoluta carência da habilidade da observação. Sem uma primorosa capacidade de observação, o teatro perde substância e qualidade.

Também na ciência é assim. Grandes descobertas se devem não às intenções dos cientistas, mas às suas capacidades de observar fatores que ocorrem ao largo do planejamento e da lógica traçada para o projeto de pesquisa.

Alexander Fleming, o pai da penicilina, deve esta esplendorosa descoberta à observação. No ano de 1928, enquanto concentrava todo o seu esforço e atenção numa pesquisa sobre a gripe, observou que sobre uma lâmina de culturas de estafilococos originou-se, acidentalmente, um mofo com um círculo em torno de si. Dando continuidade às experiências, comprovou que uma cultura líquida do mofo - que denominou penicilina - impedia o crescimento das bactérias mesmo quando diluída centenas de vezes. Por conta do experimento, fruto de observação, Fleming ganhou o Prêmio Nobel de Medicina e a penicilina desde então tem ajudado a salvar milhões e milhões de vidas humanas.

O fato do exercício teatral exigir de seus integrantes exaustivas investigações alicerçadas na observação metódica, é mais uma forte razão para que esta manifestação artística seja apropriada pelos educadores, pelos gestores, pelos dirigentes, pelos líderes, pelos empreendedores.

Um professor que não tenha desenvolvido um tino apurado para a observação, será quando muito um catequizador, jamais um educador. Formará alunos incapazes de enxergar a si, em conseqüência incapazes de enxergar o outro e o mundo.

Um gestor que não domine com profundidade as técnicas de observação jamais estará em condições de sistematizar alternativas e oportunidades, jamais estará apto a identificar as ameaças, jamais conseguirá o respeito de sua equipe.

O mesmo ocorrerá com o empreendedor que estará atuando num ambiente hostil na condição de um perneta cego.

Em decorrência deste tipo de deficiência, caso ignore as relações de causa e efeito, caso não consiga desvendar a realidade a sua volta, o cidadão dificilmente saberá organizar, sistematizar e extrair do pensamento o componente capaz de lhe dar materialidade e eficácia.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O número saído das trevas: 8.097.513 de eleitores analfabetos

A boa nova recém divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral é que o Brasil superou a casa dos 130 milhões de eleitores.

Com um crescimento de 7,5% em relação a 2004, já somos 130.391.630 aptos a votar. Todavia, como no Distrito Federal não existem eleições municipais, votarão 128.805.829 brasileiros, distribuídos nos 5.564 municípios dos 26 estados do país.

O TSE informa que as mulheres compõem a maioria do eleitorado. São 67.483.419 e correspondem a 51,72% do total.

O estado de São Paulo é, disparado, o maior colégio eleitoral com 29.143.392 eleitores. Na seqüência aparecem Minas Gerais com 14.070.606, Rio de Janeiro com 11.259.336, Bahia com 9.153.703, Rio Grande do Sul com 7.925.459, Paraná com 7.299.999 e Pernambuco com 6.067.589.

Neste contexto, um número – como que saído das trevas – macula a alma nacional. Do total de eleitores, 8.097.513 são analfabetos.

Outro dado que assombra é que a maioria, 44.456.754 eleitores, não conseguiu concluir sequer o primeiro grau.

Na extremidade oposta, apenas 4.558.845 têm curso superior completo.

Como já era de conhecimento geral, os dados recém divulgados pelo TSE demonstram que a maioria dos eleitores brasileiros são jovens. São 31.620.929 cidadãos situados na faixa etária que vai de 25 a 34 anos.

Os eleitores de primeira viagem, com 16 anos de idade, somam 1.119.028; e os com 17 anos, 1.803.404.

As eleições estão para as democracias como as águas para os peixes. Se o que desejamos é um Brasil democrático, progressista, com instituições fortes e sustentáveis, então devemos dimensionar este momento como um instante mágico, mais que importante para nossas vidas, para o futuro de nossos filhos e netos.

O mínimo a fazer é estimular o debate sobre os programas eleitorais e os candidatos, fomentar a discussão e a reflexão crítica sobre a vinculação das eleições com a melhoria das condições da saúde, do ensino, com a geração de emprego e renda, com a segurança...

Omitir-se será mais que um ato de covardia, será um ato de alta traição, será perfilar-se ao lado dos que pretendem um Brasil medíocre e cabisbaixo, um país-covil de corruptos e larápios, uma pátria subjugada por patifes, bandidos e canalhas.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Quem quer passar além do Bojador, Tem que passar além da dor

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.

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Quem quer passar além do Bojador, Tem que passar além da dor

Quando o sapato aperta, o bolso morde e a esperança fica rarefeita, a solução para muitos se restringe à porta de saída. Literalmente.

Para responder aos ininterruptos períodos de crise institucional e financeira, para fugir do desenvolvimento marginal, dos indomáveis índices de desemprego, de uma torpe realidade inimiga dos sonhos, não poucos brasileiros se vêem na contingência de buscar outros destinos, singrar mares distantes, mirar rincões onde a vida não refugue as possibilidades da existência.

Houve tempo em que o espírito aventureiro era o grande motor capaz de promover uma mobilidade social dessa envergadura – verdadeiro processo social que nada deve a qualquer outro, posto que o número de brasileiros que emigram cresce vertiginosamente. Mas nos atuais dias de tormenta e borrasca, a força propulsora atende pelo nome de sustentabilidade econômica. É uma peleja derradeira para escapar da mediocridade, da vida vegetativa, insossa e miserável. Se é para embalar e perseguir os sonhos e os projetos de vida, então qualquer sacrifício vale a pena, até mesmo o de se deparar com a discriminação hedionda e a insana repressão das polícias-cães de fronteira. A lição aprendemos com Fernando Pessoa:

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”.

Até chegar ao destino e se estabelecer há que se encarar um espelho em que a imagem refletida é a da via crucis, “(...) Tem que passar além da dor”. É como ser tragado por um buraco negro, atravessar um campo de guerra, ser lançado no olho do furacão. O que seria pior que atravessar um campo minado, permanentemente bombardeado com bombas incendiárias, rajadas de vento e metralhadora disputando o que restou do espaço milimétrico?

Mas tão logo se estabelece, a primeira ação do desterrado é encaminhar os dólares do sacrifício para os que ficaram. E fazem o dinheiro percorrer o caminho inverso para aliviar as agruras e sofrimentos dos familiares. A moeda conquistada chega para irrigar uma economia moribunda criada para servir aos interesses da corrupção e do clientelismo.

Enganam-se os que imaginam que os recursos enviados pelos conterrâneos a terra brasilis é coisa de pouca monta, tesouro de latão e velhacarias.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID - e o Fundo Internacional da ONU para o Desenvolvimento Agrícola – FIDA – juntaram-se para produzir, pouco tempo atrás, o relatório Sending Money Home (Mandando Dinheiro para Casa). As estimativas que constam neste documento dão conta de que, apenas no ano passado, os brasileiros que residem no exterior enviaram para o Brasil remessas equivalentes a um total de US$ 7,4 bilhões, algo em torno de R$ 13,5 bilhões. Os valores representam um incremento de 13,5% quando cotejados com os verificados no ano anterior. É um volume de recursos que representa mais de 1/3 de tudo o que o governo esperava arrecadar com a CPMF, no ultimo ano de vigência do malfadado tributo.

No mundo, os países que mais receberam remessas de seus exilados foram a Índia, US$ 24,5 bilhões, seguido do México, US$ 24,2 bilhões e da China, US$ 21 bilhões.

Na América do Sul, o Brasil ostenta a mais elevada taxa de remessas.

O mais curioso é que, segundo o BID e o FIDA, as remessas mundiais - correspondentes a US$ 300 bilhões - excedem substancialmente o total de doações e investimentos efetuados por bancos de fomento e instituições de desenvolvimento que investem em países de economia periférica. As doações materializadas por essas entidades em 2.006 mal chegaram à casa dos US$ 104 bilhões.

É o próprio diretor geral do Fundo de Investimento do BID, Donald Terry, quem reconhece a fragilidade das políticas de apoio levadas a efeito pelos bancos e agências de desenvolvimento. Quando questionado sobre o fato do valor das remessas sistematicamente exceder o de investimentos, é categórico: ''o que quer que nós tenhamos feito por esses países, isso não foi suficiente''. E complementa: “as remessas hoje em dia atuam não somente como uma forma de atenuar a pobreza, mas como um fator de desenvolvimento que deverá indicar novas formas de ação para bancos de fomento e organizações assistenciais.

Portanto, não nos esqueçamos de agradecer aos familiares dos desterrados que, não obstante distantes da terra-mãe, fazem mais pelo Brasil do que muitos demagogos e oportunistas que se arvoram patriotas defensores dos interesses nacionais.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Sobre a ‘doce língua’ e aleivosias

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.

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Sobre a ‘doce língua’ e aleivosias

Após 16 anos de idas e vindas, Portugal aprovou o acordo ortográfico que unifica o português em sua forma escrita, de modo que os países lusófonos começam a estabelecer as condições para a internacionalização da língua.

No Brasil, as editoras têm até 2.010 para providenciar as adequações necessárias.

Computando as alterações acordadas, Portugal deverá trocar cerca de 1,5% das palavras enquanto no Brasil as alterações ficarão em torno de 0,43%.

Em que pese a iniciativa da unificação, não serão eliminadas todas as diferenças. No berço de Camões, polémica e génesis continuarão ostentando acento agudo, enquanto por aqui, as palavras manterão o acento circunflexo.

Outras interessantes mudanças que ocorrerão em Portugal: como o “p” da palavra recepção não é pronunciada, a letra será simplesmente suprimida. Por outro lado, os portugueses manterão a letra “c” na palavra facto – que no país do Fernando Pessoa, significa roupa.

As questões lingüísticas preocupam todos os povos do mundo. Na Alemanha, por exemplo, uma pesquisa encomendada pela Sociedade da língua Alemã registra o grande receio de dois terços dos conterrâneos de Goethe e Haendel: a decadência lingüística originada principalmente da enorme incidência de estrangeirismos, abreviaturas e palavrões.

Na Espanha, a preocupação é com a “ameaça das línguas regionais”, que podem levar à completa desfiguração do castelhano.

Hoje, a última flor do Lácio é a 5ª língua mais falada no mundo. Se considerarmos apenas a parte ocidental do planeta, passa à 3ª posição no ranking das mais utilizadas. São mais de 215 milhões de pessoas, a maioria delas brasileiros. E o objetivo maior da reforma ortográfica é uniformizar o uso da língua.

A busca pela unificação da língua vem de longo tempo. Em 1911, Portugal promoveu - de forma unilateral - uma reforma que resultou em duas ortografias diferentes.

Em 1931, 1943 e 1971, novos acordos foram formalizados na tentativa de dar unidade à língua. Em 1975 e 1986 ocorreram tentativas que não se sustentaram devido às reações contrárias, ocorridas tanto no Brasil como em Portugal.

Com o novo acordo, começa a se consolidar o processo de internacionalização da língua. No Brasil, em Portugal, Angola, São Tomé e Príncipe e Moçambique o português é a primeira língua.

Cabo Verde e Guiné-Bissau também adotam a língua portuguesa como língua oficial. Já Guiné Equatorial, Timor-Leste e Macau adotam-na, mas de forma conjunta com outros idiomas.

Apesar de não ser língua oficial, o português é muito usual em Luxemburgo, Andorra, Namíbia e Paraguai.

As mudanças, desde já, apresentam-se como novos desafios para os educadores. Boa parte dos estudantes que concluem o ensino médio não conseguem lidar com a gramática e sequer interpretar um texto elementar. Também não conseguem resolver problemas da aritmética básica. E se não conseguimos ensinar para nossa juventude o que estava consolidado, como ensinar as novidades?

Garantir que nossas crianças concluam os ciclos escolares sabendo a doce língua e matemática já seria uma vitória e tanto! Mas não parece ser o objetivo de tantos que as pretendem doutoras em “inclusão social”, em “cidadania & politicamente correto”, em “sexo sustentável” (eis que o MEC está dotando nossas escolas de máquinas de distribuição de camisinhas) e outras aleivosias mais.

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BOX – O que muda?

HÍFEN
Não se usará mais:
1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"- como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"
2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"

TREMA
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados

ACENTO DIFERENCIAL
Não se usará mais para diferenciar:
1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)
2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo)
3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo")
4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo)
5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica)
ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y"

ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"
2. em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo"

ACENTO AGUDO
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia"
2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem

GRAFIA
No português lusitano:
1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo"
2. será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil -"erva" e "úmido"

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Antônio Carlos dos Santos – professor da UEG, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Sobre corrupção & saúvas

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.

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Sobre corrupção & saúvas


O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.

E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.

A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não tem sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo, de uma nação.

Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina.

Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita, a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.

Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C. tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$ 20 milhões.

Também no Império Bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.

O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.

Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.

No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.

É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?

Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.

No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto as condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria.

A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.

Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.

E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.

Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.

Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga - estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.

Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Sobre harmonia, São Francisco e cafajestes

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

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Sobre harmonia, São Francisco e cafajestes

Tudo no universo é energia. E a energia circula, interage, integra, assume diferentes formatos e intensidades. É assim no universo, é assim na natureza, é assim na vida e no dia a dia das pessoas. Por isto, ao trocar, partilhar e interagir não estamos fazendo mais que observar a lei maior que rege o cosmos.

Assim como no universo os astros – de uma forma ou de outra – interagem entre si, no corpo humano, uma célula também percorre o mesmo caminho e só captura a existência porque interage com outras. De igual modo ocorre com os átomos e com as partículas subatômicas, de sorte que tudo é pura e intensa interação, intercâmbio de energia.

Mas como poucos se dobram às certezas, digamos assim, científicas, da necessidade da troca e da interação, não custa recorrer aos ensinamentos espirituais e cristãos, como os apregoados por São Francisco de Assis, não por acaso o santo católico protetor da natureza.

São Francisco compreendeu e capturou a lei que regula as trocas de energia, a mesma que assegura equilíbrio e harmonia ao universo, e soube traduzi-la para o meio onde labutam os homens. Por isto, quando o batizado Giovanni Bernardone ensinou

“... é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...”


explicava, na realidade, que tudo no universo só tem sentido se envolto em trocas, em intercâmbios, em partilha, em ofertar e receber...

O ensinamento do fundador da “Ordem dos Frades Menores” - canonizado em 16 de julho de 1228 pelo papa Gregório IX - é tão poderoso que não resisto à tentação de reproduzi-lo por inteiro:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...

A troca que assegura a contínua expansão do universo é a mesma que assegura o crescimento das pessoas e da sociedade.

Desde a mais tenra célula até o grupo social estratificado e a mais complexa das constelações estelares, nada faz sentido sem o ‘dar e receber’ preconizado por São Francisco.

Daí a importância de fazer com que valores como o amor, o perdão, a amizade, a solidariedade e a generosidade estejam em permanente circulação, permeando as relações entre as pessoas e os grupos sociais.

Todavia, se a lei é cristalina como parece, porque razão as pessoas estariam tão indispostas e resistentes à incorporação desses valores, por que ao invés da generosidade e do altruísmo, cultuam o egoísmo e o individualismo exacerbado? Por que ao invés do perdão, enamoram o ódio; ao invés da união, cultuam a discórdia; e mergulham a verdade num lodaçal de mentiras, intrigas e tramóias?

A teoria dominante é que as pessoas resultam da educação que recebem, da história de vida e do meio em que vivem.

Mas como toda regra, essa também tem suas exceções. O problema aqui é que as exceções ocorrem com tamanha freqüência que estão quase se convertendo em regra-mater.

Como explicar, por exemplo, que dois irmãos, criados pelos mesmos pais, com semelhante nível de atenção, recebendo as mesmas condições educacionais, culturais e amorosas, um consiga construir uma personalidade fraterna, generosa; e o outro destile avareza e rancor?

Aqui talvez valha a pena investigar o componente biológico. E ao que tudo indica as descobertas que se avizinham demolirão e lançarão por terra um bom número de paradigmas consolidados. Um deles consiste em subestimar a importância que a questão biológica tem no comportamento do individuo.

Pelo menos é o que parecem indicar pesquisas realizadas ao redor do mundo, como a promovida pelo Departamento de Psicologia da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os experimentos estão demonstrando que o material genético tem um determinado nível de importância na composição da personalidade.

Um dos pesquisadores do grupo de estudos da universidade israelense, o psicólogo Ariel Knafo, é bastante enfático quanto aos resultados: "a conclusão central do trabalho é que há influência genética nas diferenças do comportamento altruísta das pessoas, porque existem diferenças no DNA, que estão relacionadas às diferenças em seu modo de se comportar”.

Um dos especialistas em genética do grupo de pesquisa, o professor Richard Ebstein se manifestou afirmando que todos os participantes que externaram generosidade tinham o gene denominado receptor 1A de arginina-vasopressina (AVPR1a) com uma forma mais alongada que nas outras pessoas. A conclusão é que gene AVPR1a exerce papel fundamental na química do cérebro, permitindo que o hormônio arginina-vasopressina (AVP) atue sobre as células cerebrais. A vasopressina foi relacionada com o estabelecimento de vínculos afetivos e sociais.

Os resultados da pesquisa apontaram numa direção bem definida: há maior disponibilidade para o altruísmo nas pessoas que possuíam uma parte específica e fundamental de maior tamanho neste gene.

Se ‘dar e receber’ é uma lei que regula a harmonia no universo, talvez esteja aqui, na genética, o início das explicações para que tantos se mantenham indiferentes à solidariedade, à verdade e ao amor. Talvez esteja na genética parte da explicação para a existência entre nós de tantos canalhas e cafajestes.

Alto lá. É muito cedo para extrair qualquer conclusão a respeito. Como também é inadmissível mergulhar as novas e incipientes descobertas no caldo medíocre do preconceito e do ‘politicamente correto’.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br