quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Universidade de Maryland põe um ponto final aos livros



Por Rodney Eloy, no Canal Superior/Portugal

A University of Maryland University College tornou-se a primeira instituição de ensino superior a eliminar os livros como material de ensino. A medida entra em vigor este ano letivo.

Para além do valor das mensalidades, os estudantes do ensino superior têm custos muito elevados com livros e outros materiais escolares. Para reduzir estes custos, a University of Maryland University College decidiu acabar com a utilização de livros.

Já no início deste ano letivo, a universidade norte-americana vai limitar a aprendizagem dos estudantes a materiais digitais grátis, disponíveis online.

Kara Van Dam, vice-reitoria da instituição, disse à Associated Press que entre os materiais usados podem estar textos e vídeos, mas sempre sem custos.

Já Bob Ludwig, responsável pela comunicação da universidade, acredita ser uma medida positiva a vários níveis, uma vez que os estudantes poupam dinheiro e não têm de carregar os livros.

«Há tanta informação atualmente e tem tudo a ver com a forma com as pessoas chegam à informação», refere ainda Bob Ludwig, ao Mic..

A University of Maryland University College é uma das maiores instituições públicas de ensino superior norte-americanas e conta com quase 90 mil alunos.

Segundo um estudo do governo norte-americano, as despesas com livros escolares cresceram 82% entre 2002 e 2012 e cada estudante paga, em média, 1200 dólares por livros, por ano.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Conflitos deixam 13,7 milhões de crianças fora das escolas, diz Unicef


Relatório do Unicef aponta impacto da violência.
Mais de 8,5 mil colégios na Síria, Iraque, Iêmen e Líbia estão destruídos.


Conflitos deixam 13 milhões de crianças fora das escolas, diz Unicef. Relatório da Unicef divulgado nesta quinta (3) aponta impacto da violência. 9 mil colégios na Síria, Iraque, Iêmen e Líbia estão destruídos. (Foto: Reprodução/Unicef)
"Educação sob Ataque", capa do estudo divulgado
pela Unicef. (Foto: Reprodução/Unicef)

Do G1.com
Relatório divulgado pelo Unicef nesta quinta-feira (3) aponta que conflitos armados e crises políticas em países do Oriente Médio e do Norte da África deixam 13,7 milhões de crianças fora das escolas.

De acordo com o Unicef, o foco do levantamento é o impacto da violência no sistema educacional de nove países das duas regiões (Síriax, Iraque, Iêmen, Líbia, Palestina, Sudão, Jordânia, Líbano e Turquia). O total verificado representa 40% das 34 milhões de crianças em idade escolas nesses países.

O impacto da violência na rotina das crianças também é mostrado no levantamento de instituições afetadas: mais de 8,5 mil colégios na Síria, Iraque, Iêmen e Líbia estão destruídos. Muitas servem agora de abrigo para famílias desalojadas ou viraram instalações militares.
Além do fechamento de escolas, o relatório aponta diversos casos de ataques feitos diretamente contra crianças e professores, a maioria enquanto estavam na própria escola.
Síria
Na Síria, uma em cada quatro escolas não pode ser usada porque foi destruída ou passou a ser usada como instalação militar e cerca de 52,5 mil professores deixaram suas funções. Quando as escolas ainda estão ativas, não estão livres do risco: ao menos 20% das crianças precisam cruzar linhas de conflito para chegar às escolas em atividade.

O levantamento aponta que, na Jordânia, no Líbano e na Turquia, 700 mil crianças sírias refugiadas não podem estudar. O motivo é a falta de capacidade dos sistemas educacionais desses países. A estimativa do órgão é que nações vizinhas à Síria tenham recebido 4 milhões de refugiados sírios.
Iêmen
No Iêmen, a escalada da violência se agravou em março. Mais de 3,5 mil escolas foram fechadas e 1,8 milhão de crianças ficaram sem estudar.

O órgão aponta que já antes do atual acirramento da violência já havia 1,6 milhões de alunos com idades entre 6 e 11 anos fora da escola. A estimativa é que 80% da população do país precise de assistência humanitária.

África
No Sudão, o Unicef aponta que "quase quatro décadas de guerra deixaram mais de 3 milhões de crianças fora da escola".

Na Líbia,  o acirramento dos conflios desde maio provocam o colapso de infraestrutura e interrupção de serviços básicos. A estimativa é que dois milhões de pessoas sejam afetados pelo conflito. Escolas no noroeste e no sul do país abrigam deslocados internos e na cidade de Bengazi, a taxa de frequência escolar caiu 50%. Nesta cidade, apenas 65 das 239 escolas funcionam.
Faixa de Gaza
O ano de 2014 foi marcado por conflitos que mataram ao menos 551 crianças palestinas e outras 3,4 mil feridas. Quando o ano letivo de 2014-2015 começou,  mais de 500 mil crianças não tinham possibilidade de retomas as aulas. Os especialistas afirmam que os prédios das escolas são usados como abrigos por crianças que tiveram suas casas destruídas.

Iraque
No Iraque, escolas acomodam parte das três milhões de pessoas obrigadas a fugirem de conflitos. Pelo menos 950 mil crianças em idade escolar foram afetadas e 1,2 mil escolas em áreas de conflito foram transformadas em abrigos. Além disso, 2014 foi o ano com mais mortes desde 2008: quase 700 crianças foram mortes e outras 500, feridas.
Menina palestina é vista por um buraco na parede de uma escola atingida por bombardeio israelense na última semana em Gaza. (Foto: Mahmud Hams/AFP)Menina palestina é vista por um buraco na parede de uma escola atingida por bombardeio israelense na última semana em Gaza. (Foto: Arquivo/Mahmud Hams/AFP)
Estudantes palestinas assistem a uma aula em escola que testemunhas dizem ter sido atingida por um bombardeio israelense durante o mais recente conflito entre Israel e o Hamas, em um dia chuvoso no leste da Cidade de Gaza  (Foto: Suhaib Salem/Reuters)Estudantes palestinas assistem a uma aula em escola que testemunhas dizem ter sido atingida por um bombardeio israelense durante o mais recente conflito entre Israel e o Hamas, em um dia chuvoso no leste da Cidade de Gaza (Foto: Arquivo/Suhaib Salem/Reuters)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Uma 'ponte' com homens modernos: Por que é tão importante a descoberta do novo esqueleto



Por Pallab Ghosh, na BBC News
Cientistas acabam de descobrir uma possível nova espécie do gênero humano em uma tumba em cavernas da África do Sul - algo que pode mudar o que sabemos hoje sobre os ancestrais humanos.
A descoberta de esqueletos parciais de 15 indivíduos é a maior do seu tipo na África do Sul e impressionou os pesquisadores.
Os estudos, divulgados na publicação científica Elife, também indicam que esses indivíduos seriam capazes de ter um comportamento ritual.
As espécies, que foram nomeadas naledi, foram classificadas no grupo, ou gênero,Homo, que é o mesmo a que pertence o humano moderno.
Os pesquisadores não conseguiram precisar a data exata em que essas criaturas viveram, mas o cientista que liderou a equipe, Lee Berger, disse à BBC que esses indivíduos poderiam ser os primeiros desse tipo (Homo) e poderiam ter vivido na África há cerca de 3 milhões de anos.
Berger acredita que o Homo naledi pode ser considerado uma "ponte" entre os primatas bípedes e os humanos modernos.
"Fomos para lá com a ideia de recuperar um fóssil. Isso acabou se tornando uma descoberta de múltiplos fósseis. Que se tornou a descoberta de múltiplos esqueletos e múltiplos indivíduos!"
Image copyright
Image captionDiferenças entre o crânio do Homo naledis e do humano moderno
"Então, até o fim daquela experiência inesquecível de 21 dias, nós tínhamos descoberto o maior conjunto de fósseis humanos (da história) no continente africano. Essa foi uma experiência extraordinária!"
Chris Stringer, do Museu de História Natural britânico, classificou a descoberta como "muito importante".
"Estamos descobrindo mais e mais espécies de criaturas, o que sugere que a natureza estava 'experimentando' qual seria a melhor forma de evoluir os seres humanos, dando assim origem a vários tipos diferentes de criaturas 'humanoides' em diferentes partes da África. Apenas uma linha deles, porém, sobreviveu para dar origem a nós", disse ele à BBC.

Importância

As ossadas estão sendo mantidas em um quarto seguro na Universidade de Witwatersrand, em Johannesburgo, na África do Sul, e a BBC visitou o local com Lee Berger.
A porta para o quarto parece aquelas que fecham os cofres de bancos. Berger explicou que todo o nosso conhecimento sobre os ancestrais humanos é baseado em esqueletos parciais e crânios.
As ossadas de 15 esqueletos parciais incluem ossos de homens e mulheres de idades variadas – desde crianças a idosos. A descoberta é inédita na África e jogará luz sobre futuras conclusões sobre como os primeiros seres humanos evoluíram.
Image captionLee Berger foi o cientista que liderou a pesquisa
"Nós vamos saber tudo sobre essas espécies", disse Berger.
"Nós vamos saber quando seus filhos pararam de mamar, quando eles nasceram, como eles se desenvolveram e em que velocidade, as diferenças entre homens e mulheres em cada estágio de desenvolvimento, da infância para a adolescência, como eles envelheceram e como eles morreram."
É impressionante a preservação dos ossos encontrados: o crânio, os dentes e os pés pareciam ser de uma criança humana - mas eram do esqueleto de uma mulher idosa.
As mãos pareciam humanas também, até seus dedos, que se enrolam um pouco como os de um macaco.
Homo naledi não é como um humano primitivo encontrado na África. Ele tem um cérebro minúsculo – mais ou menos do tamanho do de um gorila – e uma pélvis e ombros primitivos. Mas ele é colocado no mesmo gênero humano por causa do formato mais progressivo do seu crânio, dos dentes pequenos, das pernas longas e dos pés modernos.
"Vi algo que eu jamais pensei que fosse ver em toda a minha carreira", disse Berger. "Foi um momento para o qual, mesmo depois de 25 anos de paleoantropologia, eu não estava preparado."
Image captionEsqueleto da mão do Homo naledi e do homem moderno

Como aconteceu a descoberta

Uma das perguntas mais intrigantes que surgiram após a descoberta foi: como aqueles ossos foram parar ali?
A BBC visitou o local onde os esqueletos foram encontrados, a uma hora de carro da universidade. É uma área chamada de "Berço da Humanidade". A caverna leva a um túnel subterrâneo por onde parte da equipe de Berger foi rastejando em uma expedição bancada pela National Geographic Society.
Como o túnel era estreito, coube às mulheres menores rastejar pela escuridão, iluminadas apenas por suas lanternas na cabeça em uma jornada precária que durou 20 minutos - até encontrarem uma câmara que continha centenas de ossos.
Uma dessas mulheres era Marina Elliott. Ela mostrou a entrada estreita para a caverna e depois descreveu como se sentiu quando viu pela primeira vez a câmara.
"A primeira vez que fui para o local da escavação, eu comparava com a sensação que (o arqueólogo) Howard Carter deve ter tido quando abriu a tumba (do faraó egípcio) Tutancâmon – você está em um espaço muito pequeno e, de repente, ele se abre e você pode ver coisas maravilhosas! Foi incrível", disse ela.
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Image captionPé do Homo naledi e do homem moderno
Elliott e seus colegas acreditam ter encontrado uma tumba. As pessoas Homo naledi daquela época parecem ter carregado os indivíduos para aquele sistema de cavernas e deixado-os ali – possivelmente, por gerações.
Se essa percepção estiver correta, sugere que os naledi eram capazes de um comportamento ritual e possivelmente um pensamento simbólico a ponto de enterrarem os mortos em tumbas – algo que só era associado aos humanos muito mais evoluídos, que viveram há 200 mil anos.
"Nós vamos ter que contemplar algumas coisas muito profundas sobre o que é ser um humano. Será que estivemos errados por todo esse tempo sobre esse tipo de comportamento que nós achamos que era só de humanos modernos?", disse Berger.
Image captionEquipe de cientistas que fez a descoberta dos 15 esqueletos na caverna
"Será que nós herdamos esse comportamento de tempos muito antigos? Será que é algo que nossos ancestrais sempre foram capazes de fazer?"
Berger acredita que a descoberta de uma criatura que tem uma mistura tão grande de características primitivas e modernas deveriam fazer os cientistas repensarem a definição sobre o que é ser humanos – tanto, que ele próprio está relutante para descrever o naledi como humano.
Outros pesquisadores que trabalham na área, como Chris Stringer, acreditam que o naledi deve ser descrito como um ser humano primitivo. Mas ele concorda que as teorias atuais precisam ser reavaliadas e que apenas arranhamos a superfície da rica e complexa história da evolução humana.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A bisbilhotice (frutífera) das correspondências alheias

Carta de Carlos Drummond de Andrade a Lygia Fagundes Telles. / ACERVO IMS

'Correio IMS' disponibiliza cerca de 100 cartas trocadas entre personalidades brasileiras


Por Camila Moraes, no El País

Foi-se o tempo em que cartas, com envelope e selo, eram moeda corrente. Na atual época de e-mails, posts em redes sociais e até umaplicativo que avisa o remetente se determinada mensagem foi lida pelo destinatário, recebida mas não lida ou apenas enviada com sucesso, talvez só os mais velhos sintam falta da escrita à mão e da textura do papel. Mas, especialmente em tempos de internet e Big Brother, há algo que quase ninguém dispensa: uma boa bisbilhotice na intimidade alheia – nos termos da lei, claro.

Pensando nessa curiosidade frutífera que nos permite ler cartas de valor literário, biográfico ou histórico que não foram endereçadas a nós, oInstituto Moreira Salles lançou no último 11 de agosto um portal – o Correio IMS – que disponibiliza cerca de 100 correspondências trocadas entre personalidades brasileiras ou então estreitamente ligadas ao Brasil. As cartas, vindas de fontes variadas, publicadas ou inéditas, foram organizadas de acordo com seus remetentes e destinatários, o ano e o local onde foram escritas e os temas de que tratam. Por fim, foram digitalizadas e ganharam um breve texto explicativo, além de interrelacionadas, para que os interessados deixem a curiosidade fluir. “Cartas ajudam a compor a identidade de um povo” e “por serem íntimas, costumam surpreender quando vêm a público”, defende o site.

Com razão. É um deleite saber através de um telegrama breve e nervoso de Tom Jobim que o músico ficou arrasado depois da histórica edição do III Festival da Canção, de setembro de 1968, quando sua música Sabiá desbancou a favorita do público (Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré) e terminou vaiadíssima na final da fase brasileira. Não pela baixa em seu ânimo, que conforme Jobim pedia, Chico Buarque, letrista deSabiá e o receptor do telegrama, remediou com sua presença na grande final internacional, mas por interceptarmos um desabafo pessoal. Ou então que Chico, destinatário de outra carta, desta vez de Vinícius de Moraes, quem se dirigiu a ele no texto com um alegre “chiquérrimo!”, pôs a mão na letra de Valsinha quando estava em Mar del Plata, em 1971, justificando: “Claro que a letra é sua, eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor estas coisas”.
Também ajuda a ligar os pontos que desenham um país visto do exterior ficar sabendo que os escritores Fernando Sabino e Clarice Lispectoreram amigos que se correspondiam – ele, de Nova York (onde era funcionário do consulado brasileiro), e ela, de Berna (onde viveu com o marido em sua carreira diplomática). Em 1946, ele se desculpa desesperadamente por ter demorado para responder uma carta dela, em que percebe-se que Clarice havia perguntado novidades do Brasil. O pouco que ele sabe relatar passa por um estudante morto no Rio de Janeiro quando, no largo da Carioca, “choveu bala sobre os comunistas”. “Tenho xingado muito o Getúlio”, diz o autor de O menino no espelho, depois de citar o “Pajé” (apelido do jornalista Otto Lara Rezende), quem andava tomando aos domingos “porres gigantescos, colossais”. Ou que Ziraldo mandava postais a Carlos Drummond de Andrade, como conta o blog do projeto.
Fofocas postas de lado, a História do Brasil – aquela que se escreve com letra maiúscula – também não fica de fora do saboroso material, que inclui a histórica carta do escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral em sua viagem às nossas terras, Pero Vaz de Caminha, a Dom Manuel I. “Tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfear, mais do que aquilo que vi e me pareceu”, promete o cronista ao rei de Portugal. E assim fez ao falar dos brasileiros nativos: “Eram eles pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos e setas. Vinham todos rijamente sobre o batel. Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram”.

domingo, 13 de setembro de 2015

Filme tenta mudar forma como Ocidente vê o islã


Longa sobre Maomé, orçado em US$ 40 milhões, busca mostrar imagem positiva do islamismo e oferecer contraponto às interpretações religiosas extremistas. Um esforço corajoso do aclamado cineasta iraniano Majid Majidi.
Film - Muhammad
Por Shamil Shams, no Deutsche Welle
"Quanto mais filmes forem feitos sobre a vida do profeta, melhor", afirma Majid Majidi, diretor do filme Muhammad: The Messenger of God (Maomé: o mensageiro de Deus, na tradução livre). A primeira parte de uma planejada trilogia, exibida desde o dia 27 de agosto em salas lotadas no Irã, remete ao período anterior ao nascimento do profeta e à sua infância – há mais de 1.400 anos.
O diretor iraniano, famoso pelo filme Filhos do Paraíso, indicado ao Oscar em 1999, diz que resolveu tomar as dores da religião e mostrar "uma imagem mais justa do islã", atualmente prejudicada pela ação de jihadistas. O longa de 171 minutos, que teve sua estreia no Irã e internacional na semana passada, custou 40 milhões de dólares e sete anos de trabalho duro.
"Decidi fazer este filme para lutar contra a nova onda de islamofobia no Ocidente. A interpretação ocidental do islã é cheia de violência e terrorismo", disse Majidi à revista iraniana conservadoraHezbollah Line.
Os idealizadores do filme deixaram claro que a intenção é mudar a narrativa global dominante sobre o profeta do islã, particularmente no Ocidente. A religião costuma ser associada a grupos terroristas como a Al Qaeda, o "Estado Islâmico" (EI) e o Talibã e a ideias de intolerância e extremismo.
A lembrança do ataque jihadista ao semanário satírico francês Charlie Hebdo, que matou 12 pessoas, incluindo editores da publicação, ainda está bastante presente no Ocidente. O fato de o Charlie Hebdoter sido alvo de extremistas por publicar charges "desrespeitosas" sobre o profeta Maomé levou muitas pessoas a defenderem que os muçulmanos não acreditam num discurso racional.
Através da arte, Majidi quer convencer não muçulmanos de que o islã é uma religião de paz. O diretor pretende ressaltar que o massacre na redação do Charlie Hebdo, a queima de efígies e o vandalismo em propriedades públicas em reação ao filmes anti-islâmicos, como A Inocência dos Muçulmanos, somente reforçam uma impressão de que os adeptos da religião acreditam em violência.
Sensibilidade
Comentários negativos e sátiras do islã ou de Maomé irritam os muçulmanos pelo mundo. Qualquer representação pictórica do profeta é considerada não islâmica e uma blasfêmia, principalmente pela maioria sunita.
O diretor iraniano Majid Majidi, famoso pelo filme "Filhos do Paraíso", indicado ao Oscar em 1999
Em 1989, o ex-então líder supremo do Irã, o aiatolá Khomeini, emitiu uma fatwa – decreto emitido por autoridade religiosa muçulmana – incitando a morte do escritor britânico Salman Rushdie, por escrever o controverso romance Os versos satânicos. Para muitos muçulmanos, o livro denigre o profeta Maomé.
Em 1993, o autor Taslima Nasreen, de Bangladesh, escreveu o romance Lajja, que provocou a ira dos muçulmanos da região, sendo considerado ofensivo. A autora teve de se esconder na Índia por causa de ameaças de morte de grupos muçulmanos do seu país.
Muçulmanos também protestaram em 2005, quando o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou charges satíricas de autoria do artista dinamarquês Kurt Westergaard, retratando o profeta do islã.
Esforço corajoso
Independente de como o Ocidente vai receber o filme e se ele vai mudar as percepções sobre o islã, o esforço de Majidi é corajoso – mesmo se considerando que o Irã xiita é mais tolerante com representações.
Por esse motivo, o filme também trata do conflito interno do islã sobre razão e racionalidade. Muitos acadêmicos defendem a proibição do filme.
"Já há um consenso sobre essa questão. A sharia proíbe a personificação do profeta", diz Abdel Fattah Alawari, reitor da faculdade de teologia islâmica da Universidade de Al-Azhar, no Egito. "Isso não é admissível no islã [porque um ator] tem papéis contraditórios e conflitantes – às vezes nós o vemos como um cego bêbado, outras vezes como um mulherengo. E então ele incorpora um profeta. Isso não é admissível."
O crítico iraniano Masoud Ferasati também avaliou negativamente o filme. "É ambíguo e inquietante", define ele, acrescentando que hábitos, artistas e cenários não combinam com a época representada no longa.
Mas o pesquisador de história religiosa Dwayne Ryan Menezes, da Universidade de Cambridge, tem uma abordagem diferente sobre a repercussão desse tipo de filme.
"A abordagem que os religiosos escolheram para lidar com esses tipos de filme é mais relacionada com a força e maturidade de seus credos do que com a 'agressão retributiva'. Uma abordagem muito melhor seria tratar isso com indulgência e divulgar bastante o trabalho que promove o caminho correto de suas religiões, servindo e ajudando a causa da harmonia interreligiosa", diz Menezes.
No entanto, o poeta e pesquisador Iftikhar Arif acredita que a maioria dos religiosos – sejam muçulmanos, cristãos ou de qualquer outra religião – são sensíveis quanto a sua fé. "A reação não é exclusiva dos muçulmanos. Quando Martin Scorsese fez A última tentação de Cristo, muitos grupos de cristãos extremistas protestaram ", lembra Arif .
À frente no debate
Aparentemente os iranianos tomaram à frente na ideia de promover uma "imagem mais leve" do islã para o mundo. A mensagem, filme de 1976 dirigido pelo sírio-americano Mustafá Akkad, foi um grande sucesso entre os iranianos xiitas. Segundo a mídia iraniana, o filme de Majidi também tem excelente desempenhos de bilheteria e vendeu todos os ingressos antes do lançamento.
O funcionário de um cinema, Mehdi Azar, de 25 anos, diz que o filme é longo e parece meio desinteressante no início, mas é atraente o suficiente para chamar o público. "É visualmente muito atraente", afirma.
Apesar dos elogios ao filme, a questão permanece sendo se ele pode desafiar a percepção e o discurso dominante sobre o profeta e sua religião. Enquanto a mídia continuar inundada de matérias sobre decapitações e ataques suicidas de jihadistas tanto em países muçulmanos como ocidentais, um ou dois filmes não devem ser capazes de mudar a opinião sobre o islã.

sábado, 12 de setembro de 2015

O livreiro ambulante que herdou 300 obras de Gabriel García Márquez



Por Elizabeth Reyes L., no El País

No meio de uma tarde sonolenta, algo habitual no Caribe colombiano, um dos muitos celulares de Martín Murillo tocou várias vezes sem ser atendido. Uma amiga de Mercedes Barcha, a viúva de Gabriel García Márquez, estava procurando por ele para dar um recado. Murillo estava viajando por uma das muitas cidades perdidas no sul de Bolívar. A Gaba, por outro lado, estava hospedada em sua casa em Cartagena das Índias. Fazia pouco mais de um ano que o Prêmio Nobel tinha morrido e queria dar um presente.
“Isso ocorre quando se limpam as bibliotecas”, diz Murillo. Mas a verdade é que esse presente, que Barcha entregou há um mês sem protocolos, é uma pequena grande herança do escritor colombiano: 316 livros da biblioteca que ele tinha na cidade murada e que qualquer colecionador guardaria como um tesouro. Esse mulato, nascido há 47 anos na região do Pacífico e que vive há mais de 10 no Caribe, sabe que é um privilegiado. Ele não era, como se poderia pensar, amigo do escritor, embora tenham se conhecido. As razões para a doação têm a ver, na verdade, com esse personagem que Murillo construiu nos últimos oito anos e que parece tirado de Macondo.

Isso foi o que disse o Nobel em 2010, quando, na entrada dos escritórios da Fundação Nuevo Periodismo Iberoamericano, perguntou pelo famoso Carrinho Literário, uma livraria ambulante, minúscula, nômade e gratuita, que Murillo criou em 2007. Desde então, esse homem que estudou até a quinta série, que quando era jovem só lia sobre beisebol e basquete, que vendeu água, café e arepas recheadas na rua, se tornou o promotor da leitura com uma estratégia que surpreendeu muitos. Murillo percorre com sua biblioteca móvel as ruas de Cartagena e os caminhos empoeirados das cidades do estado de Bolívar. Empresta os livros, lê para crianças e nunca cobra.

“Sim, Gabo me disse: Isso é macondiano.”

Murillo criou em 2010 o Carrinho Literário, uma livraria ambulante, minúscula, nômade e gratuita

O escritor o viu pela primeira vez há mais de 30 anos em La Guajira, no norte da Colômbia, quando visitava uns parentes. A notícia se espalhou como fogo e Murillo teve a sorte de vê-lo atravessando uma rua. A segunda vez foi em 2007, em Cartagena, quando García Márquez foi o convidado de honra do Congresso Internacional da Língua Espanhola. “Fui tocado nesse momento maravilhoso, quando ele disse que, nem no seu sonho mais remoto imaginou que Cem Anos de Solidão teria uma tiragem de um milhão de exemplares”. Depois aconteceu o encontro em 2010 quando o escritor falou uma frase muito importante para Murillo: “É preciso gostar muito do que se faz, esse é um dos grandes segredos da vida”.

A ideia de construir um carrinho literário aconteceu de repente, quando falava com um amigo que vendia suco. Pensou em enchê-lo de livros e levar aos colégios, “onde for preciso procurar o leitor, mas que para o leitor não custasse um centavo”, lembra. O problema da sustentabilidade foi resolvido quase imediatamente com a ajuda de patrocinadores.

“É preciso gostar muito do que se faz”, disse García Márquez ao Carretero, como ele é chamado

É engraçado, ele diz, mas os estudantes muitas vezes perguntam: “E essa coisa dá dinheiro?”. A resposta continua sendo a mesma: “Está tudo na publicidade”. Portanto, desde o início, o Carretudo, como é conhecido, estava armado com uma câmera fotográfica para registrar a caminhada do carrinho. Também foi fundamental que Cartagena seja sede do Hay Festival, um espaço cultural no qual sua reputação transcendeu a tal ponto que escritores como Mario Vargas Llosa e Salman Rushdie não resistiram à tentação de empurrar seu carrinho.
Essa pequena caixa de madeira, que não supera um metro de altura e onde há espaço para apenas 200 livros, tem obras clássicas, de ganhadores do prêmio Nobel e literatura infantil. Durante muito tempo, todos os domingos, Murillo estacionava no Parque Bolívar, coração do centro histórico de Cartagena, onde atendia a jovens e turistas. Depois começou a ler em voz alta, a dar oficinas de leitura nas cidades e conferências a professores e pais.

Sua pequena caixa de madeira, que não supera um metro de altura e onde há espaço para apenas 200 livros, tem obras clássicas, de prêmios Nobel e literatura infantil

“Há escritores que não conheço, mas com os quais faço um grande binômio. Eles ilustram e eu interpreto. Sei que funciona porque as crianças me pedem para voltar e ler”, diz esse carroceiro que se declara felizmente autodidata. Agora, com a herança de Gabo, cujos livros marcará orgulhosos com a etiqueta BPGGM (Biblioteca Pessoal de Gabriel García Márquez), sabe que soprarão novos ares vindos diretamente de Macondo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Feira do Livro itinerante do Rio completa 60 anos



Akemi Nitahara - Agência Brasil 
Quem anda pelas praças do Rio de Janeiro já deve ter cruzado com uma enorme tenda cheia de bancas de livros e promoções para os leitores de todos os gostos e todas as idades. A Feira do Livro é itinerante e há 60 anos leva o livro aonde o povo está.

Tudo começou em 1955, com um vereador expondo seus livros em frente à Câmara Municipal. Um grupo de livreiros gostou da ideia e, em outubro daquele ano, foi organizada a 1ª Feira do Livro, na Cinelândia, surgindo, em 1957, a Associação Brasileira do Livro (ABL), que até hoje organiza os eventos.

O produtor cultural da ABL, Sérgio Lupper, informa que entre as novidades estão espaço para novos autores e lançamento de livros.

“O grande diferencial dessa feira para as livrarias já estabelecidas é o preço, porque a ideia é facilitar o acesso ao livro, ao conhecimento. A feira é acompanhada de uma série de intervenções artísticas e culturais, com performance teatral, música, sarau. Vários escritores participaram de um café da manhã, entre eles Conceição Evaristo, que fará uma tarde de autógrafo.

Também este ano, a ABL inaugurou o formato de Bienal Cultural, com um evento de 20 dias na Rocinha em agosto, com saraus, performances de atores e lançamento de novos autores. As comunidades do Alemão e da Maré também devem receber o evento este ano, ainda sem data programada.

Segundo Lupper, alguns municípios do estado já incluíram as feiras do livro em seus calendários de eventos. “A gente tem uma agenda no estado. Tem a Flim de Maricá, que é um projeto da ABL. Em alguns municípios, conseguimos com a prefeitura criar uma estrutura e fazer com que esse evento faça parte do calendário cultural. Temos feito um circuito em algumas cidades”.

Foi o que ocorreu com o promotor de merchandising e estudante de marketing Luciano da Silva. “Eu não sabia [da feira], estacionei minha moto ali e vi. Vim especificamente ver um livro de marketing que o professor sugeriu. Não achei, mas achei outro bem interessante”.

Não é a primeira vez que Luciano se depara com a tenda. “Eu já vi uma parecida no Largo do Machado, teve um ano em que comprei seis livros. É muito "maneiro", porque vai ao encontro do público, às vezes a gente não tem tempo de ir a uma livraria, num sebo, em algum lugar. Eu não vim comprar livro e comprei. É muito importante isso, até mesmo porque a leitura é importante para falar bem, conhecer as coisas e saber o que está falando".

Ex-dependente químico, Luciano relata que também comprou um livro sobre o tema. “É um livro que fala sobre prevenção do uso de drogas. Em novembro, vai fazer três anos que estou limpo, então faço essa administração na minha vida, e a leitura me ajudou muito”.

A pequena Júlia Ferreira Dias, de 5 anos, está aprendendo a ler e ganhou um livro que ensina os números, mas queria outros. “Eu gostei desses do Frozen e da Minie. A mamãe lê pra mim, ela lê o dos backyardigans”. O pai da menina, Wellington Corrêa, que trabalha com instalação de equipamento, diz que foi ao Largo da Carioca para Júlia ver os livros. “Eu vim por causa dos livros. Ela está começando agora a aprender tudo na escola, então o livro é importante. Ela não sabe ler ainda, mas fica sublinhando, me perturbou para comprar um livro, então eu a trouxe à feira”.

A Feira do Livro fica no Largo da Carioca até o dia 30 de setembro. Depois, será montada na Ilha do Governador. Este mês, o Rio de Janeiro recebe também a Bienal do Livro, entre 4 e 6 de setembro no Riocentro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A 1ª Biblioteca de Rua do interior de MG faz um ano



Por Karol Fonseca, no Br Blastingnews
O mês de setembro não trará apenas flores e a primavera para os moradores da cidade de Ituiutaba no Pontal do Triângulo Mineiro, um dos projetos mais ambicioso e comunitário-social, completará 01 ano de vida muito bem lido. O Projeto Biblioteca de Rua traz um conceito novo de empréstimo de livros sem qualquer burocracia, horários e taxas de inscrições. O usuário se sente dono do livro e é responsável pelo próprio projeto. Essa iniciativa surgiu em um grupo de uma rede social, reunindo internautas da cidade e desenvolvida por pessoas comprometidas e sonhadoras com a construção de uma sociedade mais leitora. Uma ideia simples e inédita na cidade, e para comemorar seu primeiro aniversário nada melhor que um sarau literário e claro o lançamento de um livro.

A cidade se tornou a primeira do Estado de Minas Gerais a disponibilizar livros à população, nas ruas, avenidas e praças, contando com a parceria de alguns comerciantes que cedem espaço na entrada de seus estabelecimentos e principalmente de doações para manter esse enorme mercado potencial de leitores. Hoje o acervo da BR conta com mais de 5 mil livros espalhados nos 06 pontos ao ar livre e a novidade de 03 minibibliotecas itinerantes, são gavetas de madeira recicladas situadas em bairros e pontos estratégicos fora do centro da cidade, sob a responsabilidade de Padrinhos Bibliotecários (voluntários que cuidam da manutenção do acervo enquanto as minibibliotecas permanecerem nesses locais).

Os Planos Futuros segundo informações de Helenice Queiroz uma das idealizadoras da BR é, "aumentar a quantidade de locais com o objetivo de levar as Bibliotecas e as minibibliotecas para quem não pode ir às ruas: como os orfanatos, lar dos idosos, hospitais, etc".

Atenção! As doações podem ser feitas nos próprios Pontos Culturais sendo aceitos todos os gêneros literários, desde que os exemplares a serem doados estejam em bom estado de conservação. Livros didáticos só poderão ser doados depois de avaliados na Biblioteca da Escola ou pela Delegacia Regional de Ensino.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Ideia de Livro Esquecido começou na zona urbana no MT



Do Diário de Cuiabá

O projeto “Livro Esquecido” é relativamente novo, existe há dois anos. Começou com a distribuição e incentivo à leitura de livros de escritores regionais.

Os primeiros foram “esquecidos” em pontos de ônibus, praças e parques de lazer da área urbana de Cuiabá. A ideia divertiu e agradou a comunidade em geral e a escolar.

Agora, em datas comemorativas, como aniversário da cidade, Dia do Livro, campanhas e outras, a Secretaria Municipal de Educação, por meio da Coordenadoria das Bibliotecas, lança mão desse mecanismo para chamar a atenção de crianças e adultos sobre a importância da leitura.

Além dessa iniciativa, a Prefeitura de Cuiabá mantém a rede “Saber com Sabor”, formada por sete bibliotecas públicas funcionando fora de espaços de escolas, em diferentes regiões da cidade.

De acordo com dados divulgados pela coordenadora Edvair Alves, cerca 85 mil livros estão disponíveis nessas unidades para leitura no local ou empréstimo.

Entre 2013 e 2014, informa a professora, as bibliotecas fizeram 74 mil atendimentos. Desse total, 15,7 mil foram de pessoas que levaram livros emprestados para casa.

O município também dispõe de uma biblioteca sobre rodas. É um ônibus com 9 mil livros, dotado de cadeiras e mesas internas e de uma tenda externa, que percorre bairros e comunidades rurais. O tempo de permanência em cada parada pode variar de dois a cinco dias.

Quiosque virará ponto de leitura


No distrito de Aguaçu, o quiosque construído na praça central para ser um bar ou lanchonete, vai sediar o “ponto de leitura” no qual o estudante Mateus Fornos, 13 anos, deve trabalhar como bibliotecário alguns dias da semana, no contraturno da escola.

No local, mais de 800 livros já estão organizados nas prateleiras que provavelmente acomodariam bebidas e outros produtos.

A cessão do espaço para terceiros com fins comerciais sequer chegou a ser cogitada pelo subprefeito, Domingos Sávio Ribeiro de Barros.

“Savinho”, que também é morador do distrito, de pronto atendeu ao pedido da diretora da escola, Maria Adevair da Silva, e da professora Eliane Miranda, líder do projeto “Mais Educação” e incentivadora de leitura, para transformar o quiosque em biblioteca.

Com o interesse à leitura despertado pelo “Livro Esquecido”, a coordenadora das bibliotecas municipais, professora Edvair Pereira Alves, acredita que esse ponto de leitura fará sucesso na comunidade.

A inauguração ainda não tem data agendada, mas deve ser nos próximo mês. Enquanto isso não acontece, o gosto pela leitura continua sendo disseminado pelos exemplares esquecidos.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Idosa que nunca foi à escola lança livro de poesias


Do G1.com

Uma moradora de Itupeva (SP) que nunca frequentou a escola realizou, aos 94 anos, o sonho de lançar um livro com suas poesias. Leonira Gentini teve o gosto pela literatura apurado por causa de um grande amor na adolescência. Apesar das dificuldades - devido a uma doença, ela perdeu parte das mãos - ela conseguiu aprender a escrever e publicar o primeiro livro, entitulado "Só Poesias".

A poetisa perdeu uma das mãos por causa de uma doença degenerativa em 1988 e, nove anos depois, teve um câncer na palma da mão esquerda, que tirou dela a outra parte do corpo.

Mas para Leonira, o coração foi o suficiente para sobrepor o que foi perdido. “Ele é grande, para caber tanta poesia, ele deve ser bem grande”, diz. E foi justamente por amor que a poetisa começou a escrever.

Aos 15 anos, conheceu o primeiro e único grande amor da vida, segundo ela. O namoro, que depois se transformou em noivado, não durou muito, mas criou lembranças que se tornaram fonte de inspiração para a vida toda. “Foi o meu grande amor. Depois até namorei alguém, mas nunca foi como o primeiro. Talvez o coração tenha ficado carente e começou a expelir, jogar fora as coisas bonitas, e eu comecei a escrever.”

Palavras cuidadosamente pensadas e letras caprichosamente escritas saem do coração da poetisa, que conhece a escola somente pelo nome.

Leonira conta que nunca frequentou um colégio. Aos 8 anos, o pai tentou apresentá-la às letras e, na primeira dificuldade, o alfabeto passou a ser algo distante de se completar. Leonira tinha dificuldade com as letras P, B e D. "Para mim eram sempre as mesmas coisas", conta.

Até que um dia, seu pai perdeu a paciência durante os estudos e atirou uma carteira em seu rosto. "Apontando o dedo na minha cara, disse em italiano: 'Santo Deus, você é uma burra'. Ele matou o meu desejo de aprender a ler com aquela brutalidade”, lembra.

Mais velha de quatro irmãs, Leonira mora hoje com a caçula, Judite André. Mas, além de cuidar da irmã, Judite também tem a responsabilidade de ser a primeira a ouvir cada novo poema. “Ela fica no quarto escrevendo e me chama para ouvir. É muito lindo”, diz Judite.

A realização do sonho demorou mais de 90 anos, mas o recém-lançado livro carrega nas páginas fragmentos do coração de Leonira, que garante ainda ter poesias, histórias e coração para outras publicações. “Eu me acho jovem ainda. Apesar das rugas, a juventude está aqui, na cabeça. Tenho bastante histórias para contar ainda."

Assista o vídeo clicando aqui.