quinta-feira, 13 de março de 2014

Michelangelo, o gigante da humanidade!

Morto há 450 anos, Michelangelo foi genial na arte e na autopromoção

Do Deutsche Welle
Diretor dos Museus Vaticanos diz que a vida do grande artista do Renascimento foi marcada pela autorrepresentação de uma criatura sofrida e que hoje é muito difícil ter uma imagem exata de como era esse gênio.
Como pintor, escultor ou arquiteto, Michelangelo Buonarroti foi genial em tudo que fez. Ele morreu em Roma há exatamente 450 anos, em 18 de fevereiro de 1564.
Para saber mais sobre esse gênio renascentista, a DW conversou com Arnold Nesselrath, professor de história moderna e medieval na Universidade Humboldt em Berlim. Desde 1995, ele também é diretor do departamento de arte moderna, bizantina e medieval nos Museus Vaticanos.
DWQual a importância da origem humilde de Michelangelo no desenvolvimento do artista?
Arnold Nesselrath: Com certeza, ele era uma pessoa muito complexa, mas pode ter havido várias razões para isso. Ao longo de sua vida, Michelangelo ganhou muito dinheiro, tornando-se um homem rico. Em retrospecto, portanto, é difícil avaliar o impacto psicológico que a origem do artista teve em seu desenvolvimento.

Detalhe do Davi
Apesar de sua incrível riqueza, o pintor viveu modestamente. Por quê?
A forma de viver de cada um é uma decisão pessoal. Como falei, ele tinha uma personalidade muito complexa. Pode-se supor várias coisas, mas uma afirmação concreta sempre será especulativa.
De onde veio o apelido "O Divino"?
No Renascimento havia muitos desses apelidos para artistas, era algo frequente. Embora Michelangelo tenha feito uma forte autopropaganda, ao mesmo tempo ele se apresentava de forma muito modesta. Tudo isso faz parte de sua autopromoção.
Como mestre da autoencenação, muitas anedotas foram espalhadas sobre ele. Você gosta de alguma em particular?

Artista projetou cúpula da Basílica de São Pedro
É difícil ter uma anedota predileta, pois isso leva a discussões sobre história da arte. Foi o próprio Michelangelo quem pôs em circulação, muitas vezes, a difamação de colegas. Por isso declarações sobre Michelangelo, incluindo as de seus biógrafos, que em parte foram ditadas por ele, têm de ser analisadas criteriosamente. Naturalmente, há estudos sobre isso. Um exemplo é a afirmação de que o papa Júlio 2° lhe encomendou a pintura de toda a Capela [Sistina] e a retirada dos afrescos do século 15 [das paredes laterais]. Isso pôde ser refutado por Michael Hirst [historiador britânico e especialista em renascimento italiano].
Por um lado, ele foi um gênio, por outro, um automarqueteiro de mão cheia?
Em minha opinião, ele era relativamente neurótico e, portanto, uma pessoa difícil. O papa Leão 10°, que preferia Rafael, obviamente reconheceu que Michelangelo era um grande artista, mas reconheceu também que ele e Rafael juntos, em Roma, era algo que não funcionava. Por esse motivo, ele lhe fez encomendas em Florença, para que ficasse um pouco afastado e, mesmo assim, fosse possível usufruir de seus serviços. Leão 10° conseguiu, de alguma forma, lidar com esse homem difícil.
Michelangelo nos parece colérico e arrogante. Hoje ele nos pareceria simpático?

A criação de Adão: detalhe do teto da Capela Sistina
Isso sempre dependeu da pessoa que se deparasse com ele. Creio que eu não o acharia muito simpático. Muitos de seus contemporâneos pensavam o mesmo. Mas, como falei anteriormente, tudo depende da pessoa que o encontrasse. Para muitos, ele teria sido, provavelmente, motivo de compaixão, pois carregava consigo, por assim dizer, uma "hipoteca" lastimável.
O grande artista teria de fato sofrido, seja por motivos familiares ou por conflitos internos. A partir de que ponto devemos sentir compaixão por ele?
Ele certamente queria nos fazer crer quer realmente sofria. Ele simplesmente não era capaz de se alegrar com as coisas, com o seu legado que hoje nos dá tanta alegria, e de vivenciar seu sucesso. Naturalmente, isso pode ser motivo de compaixão. No entanto, se ele realmente sofreu muito, ou se isso não seria antes um elemento de sua autoencenação – essa é outra questão. Certamente, tanto uma coisa quanto a outra não teria sido fácil para ele. O fio comum que atravessa a sua vida é a autorrepresentação de uma criatura sofrida.
Mas é preciso esclarecer: nos dias de hoje, Michelangelo é uma construção sobrecarregada de hipóteses. Assim, é muito difícil ter uma imagem desse homem. Aquilo que sabemos não nos dá uma impressão particularmente simpática dele – mas quem sabe como essa imagem foi pintada?
Qual foi a grande oportunidade na vida de Michelangelo?

'Pietà', uma das principais obras
Ele se destacou já nos jardins em Florença e nos trabalhos para a família Médici. As pessoas que entendiam um pouco de arte reconheceram logo que se tratava de um artista genial. Nessa época, também teve destaque a grande estátua de Baco, que hoje se encontra no Museu Nacional de Bargello. Quando se observa com calma e de perto a Pietà, vê-se que é um trabalho incrivelmente emocionante e impressionante. É algo irresistível para o observador. Ao longo de sua vida, ele provou que esse trabalho é o seu padrão.
Que termo poderia descrever Michelangelo e sua obra?
Pode-se falar da arte à moda antiga. Michelangelo é um dos grandes artistas que a história já produziu. Esse é um termo que não se deve subestimar.
Michelangelo foi pintor, arquiteto e escultor. Ele trabalhou principalmente em Florença e Roma. Em sua opinião, qual a sua obra-chave?
Eu tenho uma predileção pelo Ricetto da Biblioteca Laurenziana, o hall de entrada ao lado da grande biblioteca em São Lourenço. Arquitetonicamente, é algo genial. Simplesmente tudo é perfeito: a total compreensão das ordens arquitetônicas, dos materiais, da recepção da Antiguidade. É simplesmente uma obra única. Mas isso não quer dizer que a Capela Sforza, que foi restaurada há alguns anos, seja menos importante. Ela é uma obra clássica. A construção espacial é muito sutil, mas consistente. Também o conjunto da Basílica de São Pedro foi executado por ele. Além disso, a já mencionada Pietàestá entre as grandes obras.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Hastes de trigo, cheias de grãos, aprendem a curvar a cabeça”


A imprensa nacional tem registrado com bastante freqüência a barbárie que está assolando nossas escolas.

A violência – que antes, quase sempre, incidia fora dos limites da escola – hoje se manifesta no seu interior, em plena sala de aula.

Os alunos utilizavam jogos juvenis e peladas de futebol para resolverem seus conflitos. Hoje se organizam em gangues e com freqüência preocupante, lançando mão de armas de fogo.

A este quadro se soma a desmedida progressão do consumo de drogas, popularizadas através do craque e da cola de sapateiro.

Até certo tempo atrás, os debates ocorridos entre os candidatos à presidência da república, eram polarizados por temas como educação, saúde, habitação... Mas a segurança pública adentrou um estágio tão traumático que passou à prioridade absoluta nas plataformas dos candidatos.

Este cenário não se restringe aos países subdesenvolvidos. Escócia, Estados Unidos, Alemanha e muitos outros, quase sempre se vêem surpreendidos pelos mais brutais atos de ferocidade ocorrendo no interior de suas escolas e universidades. Com armas letais, inóspitos personagens – muitos deles alunos – desatam a disparar sobre colegas e professores, deixando atrás de si um rastro de sangue, dor e indignação.

A TV via satélite transforma estes banhos de sangue num espetáculo transmitido ao vivo e a cores, com a humanidade estupefata perguntando as razões de tamanha insanidade.

A violência é um fenômeno mundial, globalizado. Sempre foi. A história do desenvolvimento humano é permeada de violências, tragédias, conflitos de todos os tipos e graus. Pois não suportamos até Guerras Santas (tamanha estupidez!) e contemporaneamente, conflitos religiosos entabulados em nome de Deus, não ocorrem praticamente em todos os continentes?

Mas em países como o Brasil, a violência tem também um outro perfil. Aqui, não há quem escape, mas atinge de maneira infinitamente desigual os mais pobres, os excluídos. Em muitos casos, a violência é como que encomendada, uma crônica anunciando permanentemente a desgraça.

A violência mais abominável se manifesta numa das mais perversas distribuições de renda de todo o planeta. Poucos têm tudo, de forma escandalosamente excessiva, e a maioria da população tem quase nada. Os péssimos serviços públicos, prestados de forma indigente por governos indigentes, as políticas públicas ineficazes, a corrupção endêmica engessando o país a ponto de atrofiá-lo, levá-lo a expressar os piores indicadores de desenvolvimento humano do mundo.

Inexorável que um dia este contexto envolvesse as escolas. Porque até então imaginávamos que – como num sonho infantil – seria possível manter as escolas, os berçários, as creches, nossas crianças e nossos familiares longe da violência, como se numa ilha pujante de paz e felicidade.

Infelizmente a escola está vivenciando a realidade produzida pela própria sociedade, que a gera e mantém. É preciso ter este ensinamento sempre em foco, abordar o problema despido de filtros, sob pena de desenvolvermos ações artificiais que levem do nada para lugar algum. Tudo será paliativo e efêmero se não atingirmos o cerne do problema, o desenvolvimento econômico social. O país precisa voltar a crescer, de modo que possamos alavancar o desenvolvimento através de investimentos que resultem em geração de mais conhecimentos, mais empregos e renda.

Mas a violência tem uma variedade de outras nuances, muitas subliminares, difíceis de identificar, mas que se manifestam com igual virulência nas salas de aula.

É correto afirmar que as últimas décadas registraram avanços significativos no campo da educação brasileira.

Temos uma gama de formuladores, gestores e educadores que permanentemente estão a refletir sobre os rumos deste setor tão estratégico para a promoção humana e para o desenvolvimento auto sustentado do estado.

Esta efervescência teórica influenciou legisladores que legaram ao país, em dezembro de 1996, um precioso insumo, a lei 9394 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, a LDB.

Impregnada de um sentido renovador, a LDB dispõe sobre o processo educacional utilizando uma terminologia ousada para os padrões nacionais: prática social; princípios de liberdade e solidariedade humana; cidadania e qualidade; apreço à tolerância; valorização da experiência extra-escolar; vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais. Cada um desses componentes, de per si, encerraria um compêndio de teses sobre a cidadania e o desenvolvimento humano.

Todavia é lamentável o descompasso verificado quando se coteja os avanços obtidos na legislação e nas formulações teóricas, com nossa prática diária, com o dia a dia de nossas escolas.

Muitos “educadores” e “gestores públicos” se cercam de referências teóricas mais que sustentáveis, mas não conseguem se livrar dos paradigmas, das práticas autoritárias herdadas do passado. Como consequência, os expressivos avanços de concepção assemelham-se aos fortes clarões, às explosões de luz que, ao contrário de iluminar e desnudar o caminho, cega, prostra e imobiliza.

Armados da mais densa teoria dotam o discurso de uma carapaça – só na aparência - renovadora e revolucionária. A prática, contudo, guarda na essência os dogmas do autoritarismo. E o que torna este tipo de violência mais grave é a forma como se manifesta, sutil, sub-reptícia, envolta num discurso democrático, mas umbilicalmente retrógrado. Encerra conceitos de liberdade e democracia apenas como artifício para perpetuar a dominação, replicando velhos conceitos e impedindo o advento da criatividade que transforma.
Aos alunos e servidores públicos é repetido, à exaustão, que somos iguais, parceiros, que estamos ao lado e não acima, mas no dia a dia, nas salas de aula e locais de trabalho, utilizando a sutileza das palavras, cuida-se de reproduzir modelos defasados. Pior, na maioria das vezes ainda são utilizados instrumentos que nada deixam a dever à ardência das palmatórias: “castigos”, “testes” e “notas” para os alunos; “trabalhos” e “retrabalhos” para os servidores. Como retaliação, “serviços de orientação”, “transferências”, “suspensão”; “geladeira”...

É preciso refletir sobre nossas escolas e sobre todo o tipo de violência que incide sobre elas. Não há dúvidas que estão agora na mira da violência explicita. Mas atinemos para a violência intelectual provocada pelo professor colonizador, aquele que apresenta um invólucro de renovador, mas semeia o espírito catequizador, o que de forma unilateral impõe e dispõe valores, e não se habilita para lidar com as diferenças.

É preciso refletir sobre as celas de tipo novo onde certos educadores estão encerrando nossos filhos.

Tão importante quanto combater a violência explicita, é a necessidade de adotarmos tolerância zero para com a violência subliminar dos discursos esteticamente libertários, mas vazios da práxis democrática.

Atinemos para as pedras de falso quilate, aos arrogantes e onipotentes representantes das academias do atraso, incapazes de compreender a dimensão que sábios e verdadeiros educadores emprestam à tolerância, à generosidade e à humildade. São incapazes de aprender que “hastes de trigo, cheias de grãos, aprendem a curvar a cabeça”.

Por outro lado, políticas de segurança pública deveriam considerar não somente a modernização dos equipamentos. Mas, sobretudo, com a valorização das ações de inteligência e a formação de policiais que saibam conviver com a cidadania. Mais ainda: as políticas públicas só se tornam eficazes se planejadas e implementadas de forma conjunta, articulada, integral. O combate sistemático à violência urbana deveria caminhar paralelamente à implementação de políticas consistentes de geração de empregos de qualidade, de incremento da renda, de políticas de educação, saúde e segurança que incorporassem, no bradar dos manifestantes, no “padrão Fifa de qualidade”...

Não sendo assim, estaremos tão somente entoando a velha cantilena de preservar os dedos, enquanto todo o restante do corpo já estará exalando o odor nauseabundo da putrefação.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos, criador da Metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.


terça-feira, 11 de março de 2014

“Terrorismo? Na guerra deve-se matar o inimigo: legítima defesa”

 O fundamentalismo islâmico está no centro de 'A Lista', novo romance de Frederick Forsyth
“Espiões, terroristas, mercenários... esse mundo continua o mesmo”
Do El País 
                      O escritor britânico Frederick Forsyth, no hotel Villa Real, Madri. / ÁLVARO GARCÍA

Na gíria dos serviços de inteligência anglo-saxões um clean skin ou lily-white —dois termos que correspondem a uma personalidade aparentemente sem máculas– é uma pessoa que nunca se uniu a um grupo passível de ser vigiado, que vive e trabalha nas sociedades ocidentais sem chamar a atenção, que só na sua mente guarda as motivações e os planos para perpetrar um atentado.
“O assassino solitário é o mais perigoso”, ressalta durante entrevista em Londres o escritor britânico Frederick Forsyth, um dos grandes do suspense contemporâneo, que em sua última novela The Kill List  aborda esse perfil do terrorista de linha islâmica que “está fora do radar e é a grande dor de cabeça” para as forças de segurança.
O título do livro alude a uma lista secreta reavaliada todas as semanas no Salão Oval da Casa Branca e que contém os nomes dos terroristas mais ameaçadores para os Estados Unidos, seus cidadãos e interesses. A missão de uma unidade que opera na sombra é identificá-los, localizá-los e destruí-los
Obra selecionada
Chacal (The day of the jackal, 1971).
O dossiê Odessa (The Odessa file, 1972).
Cães de guerra (The dogs of war, 1974).
A alternativa do diabo (The devil’s alternative,1979).
O quarto protocolo (The fourth protocol, 1984).
O manipulador (The deceiver, 1991).
O punho de Deus (The fist of God, 1994).
O manifesto negro (Icon, 1996).
O vingador (Avenger, 2003).
O afegão (The afghan, 2006).
Cobra (The Cobra, 2010).

Forsyth (Ashford, Inglaterra, 1938) recorre ao seu hábil estilo jornalístico, que se fundamenta em uma documentação meticulosa, para relatar com grande dose de adrenalina a operação de caça de um desses homens. Não tem nome, rosto e paradeiro conhecido, mas os efeitos de suas proclamações na Rede são letais. Apelidado de O Pregador por um ex-marine encarregado de neutralizá-lo (O Rastreador), ele utiliza a Internet como “controle remoto” para radicalizar jovens muçulmanos e instigá-los a matar.
“Primeiro vem o ódio e depois a justificativa”, escreve o Forsyth narrador sobre esses cidadãos convertidos ao terrorismo que em seu livro atentam contra personagens da vida pública ao seu alcance. E o fazem à luz do dia, do mesmo modo que na vida real dois irmãos sem filiação conhecida fizeram explodir dois artefatos caseiros em plena maratona de Boston (abril de 2013) e um mês depois dois britânicos de origem nigeriana assassinaram a golpes de facão um soldado nas ruas de Londres.
Diante de fatos como esses, e que ocorreram depois que o escritor havia começado a trabalhar em The Kill List, Forsyth não segue motivações de tipo social e político: “Ainda não sabemos porque esses jovens se radicalizam, o segredo continua encerrado em suas mentes”.
De conhecido perfil conservador, o qual não lhe tira nenhum pouco da independência em suas opiniões, o escritor que antes exerceu o jornalismo na Reuters e na BBC não compartilha os argumentos da guerra contra o terrorismo que conduziram às invasões do Afeganistão e do Iraque. “A guerra do Iraque foi um desastre pessoal de George W. Bush, que quis vingar-se de Saddam Hussein por tentar matar seu pai e, ainda por cima, o estúpido do Tony Blair embarcou.”
Esse é o seu veredito. Forsyth se agita quando fala do ex-primeiro-ministro britânico, um político que nunca perdoará, diz, “por ter mentido ao Parlamento” (garantindo que existiam provas sobre o arsenal de armas de destruição em massa de Saddam) e a quem responsabiliza pela enorme desconfiança que a classe política hoje suscita no Reino Unido. Ele também se mostra contundente na hora de qualificar Edward Snowden, o ex-analista de inteligência que vazou milhares de documentos sobre a espionagem da Agência de Segurança Nacional norte-americana: “É um traidor que revelou à Al Qaeda o segredo dos programas de defesa e com isso nos tornou mais vulneráveis”.
O autor, que alcançou o sucesso já com a publicação de seu primeiro livro, O Dia do Chacal, em 1971, continua a focar mais de uma dezena de livros depois (O Dossiê OdessaO Punho de DeusO Cobra...) “na mesma gama de personagens, de espiões, mercenários e terroristas... esse mundo continua sendo hoje o mesmo embora mudem os atores, antes, o IRA e o ETA, e agora, o fundamentalismo islâmico”. Desde os tempos daquele assassino contratado que tentava matar o presidente francês, Charles de Gaulle, até a presente era cibernética, as ferramentas que um escritor tem em mãos se sofisticaram muito, mas Forsyth prefere continuar ajeitando-se com suas fontes diretas, os seus contatos nos serviços de inteligência ou militares e os peritos em diversos campos, em lugar de recorrer à Internet para se documentar (“Em muito raras ocasiões checo datas no Google”, afirma).
A precisão nos dados continua sendo sua grande obsessão, seja quando descreve minuciosamente as operações das agências de inteligência ou o sofisticado trabalho de um dos protagonistas de The Kill List, um jovem gênio da informática que ajuda o Rastreador a interceptar na rede o ciberpregador islâmico. A lista que tem como principal alvo esse instigador de terroristas “é necessária” no mundo de hoje, opina Forsyth, que não apoia a pena de morte no âmbito civil embora endosse, sim, a execução de terroristas identificados: “Terrorismo? Na guerra deve-se matar o inimigo. Legítima defesa”.

segunda-feira, 10 de março de 2014

É muito? Não, não é. É apenas o mínimo.



Um antigo ditado latino ensina que o tempo é o senhor da razão, a quarta-dimensão capaz de curar todos os males: Mala omnia tempore finiunt. É verdade. O tempo é uma dimensão que desconhece a efemeridade humana. Sempre esteve aí e sempre estará. E como não há mal que resista à eternidade, está explicado a razão de, às vezes, a cura tardar, mas inexoravelmente se apresentar, mais dias, menos dias; mais séculos, menos séculos; mais milênios, menos milênios,... “O tempo cura o queijo, meu caro”, martelariam nossos avós.

Superando Galileu e Newton, Einstein com sua teoria da relatividade mostrou que tempo e espaço não estão separados. E provou também que nem mesmo o tempo é absoluto.

Discutir a relação existente entre a cura dos males e o tempo tem sido a sina de muitos brasileiros. É que o Brasil já foi mais rico que os Estados Unidos, mas ficou para trás, lá atrás, bem lá atrás, em algum lugar longínquo do passado. A república tupiniquim rompe os 500 anos atolada num lamaçal e patina sem conseguir mover milímetro sequer. A não ser de ré.

Dando asas ao pensamento poderíamos exclamar: como o tempo tem sido indiferente para conosco. E ‘indiferente’ aqui tem um significado contrário ao do ‘amor. Peçamos arrego: o tempo tem nos tratado com repulsa e ódio. Vejam se não é assim: em apenas 40 anos Coréia e Cingapura emergiram do terceiro para o primeiro mundo, enquanto Pindorama... Pindorama continua mergulhada em seu lodaçal.

Os países que lá chegaram, que conseguiram lidar de forma inteligente com o tempo, ensinam diuturnamente que investir na educação é o caminho mais rápido, justo e seguro para chegar ao mundo desenvolvido. Investiram de forma massiva e determinada em educação e sustentabilidade econômica, por isso chegaram à outra margem.

O subdesenvolvimento e o atraso geram problemas e muitos males, não temo dizer, a maioria deles. Romper o tempo, atravessá-lo como um bólido e fincar raízes no rol dos países desenvolvidos significa virar uma página que para nós, tem se mostrado horrenda, vergonhosa. Exatamente a página onde estão inscritos as desigualdades, o analfabetismo, a exclusão, a burocracia, a corrupção, a miséria intelectual, o clientelismo e a políticagem patife, ordinária e traiçoeira.

Como o Brasil não faz o dever de casa, assume características de um imã eletromagnético, um corpo que atrai poderosas energias negativas, descomunais forças deletérias. Então se intenta o próprio círculo vicioso, o rolo compressor que arrasta tudo e todos em direção ao precipício, ao despenhadeiro da terra arrasada onde nada viceja, nadada germina.
Quando não se irriga e se investe no bem, é o mal que comemora. O descaso com que o país trata a educação implica no fortalecimento de vetores que aprofundam as desigualdades e as injustiças. Basta verificar a relação dos brasileiros com o Congresso Nacional e com os demais poderes da República, sobretudo após os episódios criminosos do mensalão...

O caldo cultural resultante do descaso para com a educação engendra uma mega-burocracia que torna o Brasil porto seguro para a mais avassaladora corrupção. Que já atravessou fronteiras tornando o país ilha idílica, retiro, paraíso onírico para os maiores traficantes internacionais, seja de drogas, seja de influência.

Não faz muito tempo ocorreram, no Brasil, as prisões dos colombianos Juan Carlos Ramírez Abadía e Gustavo Durán Bautista e, logo depois, a de Pablo Rayo Montano mostrando a ponta de um ignóbil iceberg. Especialistas da Polícia Federal, juízes e procuradores federais identificaram o motivo pelos quais os mega-traficantes adotam o Brasil como pátria-mãe-generosa: a corrupção.

Máfia dos gafanhotos, do INSS, das sanguessugas, dos correios, o valerioduto e o mensalão, as obras superfaturadas,... a cada dia uma nova quadrilha toma conta dos noticiários, e casos como o da compra de parlamentares e o de Rosemary Nóvoa de Noronha, da Operação Porto Seguro, apenas evidenciam que a corrupção enraizou, fixando-se em todos os meandros do estado nacional.

A corrupção abre as portas para a lavagem de dinheiro em grande escala, estimula o suborno de policiais, autoridades, juízes e parlamentares, irriga o processo de cooptação de laranjas e faz vista grossa às aquisições de bens valiosos com dinheiro vivo.

Banalizou-se de tal forma que até cueca virou embalagem para dinheiro sujo.

E por que tudo isto ocorre? Porque a população – privada dos meios que só a educação proporciona – não tem como interpretar a realidade que mal vislumbra, e como não consegue criticar, interpretar e refletir, se mobiliza tão somente para ser tangida qual boi no pasto.

Não podemos aceitar que, em pleno século XXI, continuemos a experimentar a vida amargada pelos vassalos da idade média. Façamos como a Coréia e Cingapura. Vamos resgatar a educação brasileira. A frase é curta, mas o significado largo: traduz-se em tomar as rédeas do nosso destino, recuperar nossas próprias vidas, reinventar nossas esperanças, acreditar e construir um futuro digno, melhor e radiante para os que herdarão nossa terra e nossos sonhos.

É muito? Não, não é. È apenas o mínimo.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.



segunda-feira, 3 de março de 2014

sábado, 1 de março de 2014

Recesso de carnaval...

Meus queridos, enquanto o dragão da inflação se empaturra... feriado de carnaval, de modo que dia 10, estarei de volta.
Divirtam-se a valer, fiquem com Deus, e até lá!

 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Educação & desenvolvimento



Nas ultimas décadas, o Brasil vem amargando derrotas amargas. Os indicadores sociais - destacando-se a perversa concentração da renda - estão todos os dias evidenciando o quanto a caminhada tem sido traumática.

O quadro se mostra um expoente do mundo surrealista quando cotejamos os ultrajantes indicadores, que expressam nossa miséria bruta, com a riqueza bruta nacional, situando o Brasil dentre as maiores economias do planeta.

Um atenuante deve ser considerado. Apesar do acintoso processo de exclusão social, cada vez mais se consolida na opinião pública nacional a consciência de que recursos aplicados na educação não representam gasto, e sim investimento cujo retorno implica em melhores oportunidades para todos.

Hoje qualquer político, mesmo um que se candidate à guarda de quarteirão, não consegue deixar de lado – em seu proselitismo eleitoral - o componente educação. O conjunto da sociedade já está convencido que o setor é de importância estrutural quando se discute o desenvolvimento de uma nação. Já é senso comum que os países só logram alcançar a posição de desenvolvidos quando insistem e persistem nos investimentos em educação.

Uma das pesquisas da UNESCO revela um dado sintomático: ao tomar como referência a soma das despesas públicas efetuadas do dia em que o aluno entra na escola até completar 15 anos, a Coréia do Sul investe R$ 90.000,00 em cada uma de suas crianças; enquanto o Brasil investe um terço disto, R$ 30.000,00.

Mas não basta investir mais, é necessário investir bem, assegurar que os recursos cheguem à ponta, e que beneficiem efetivamente os mais carentes e necessitados. A aplicação deve levar em conta a adoção de um sistema de planejamento que reconheça as diferenças regionais e as discrepâncias sociais.

Todavia, enganam-se os que imaginam a educação como panacéia capaz de resolver todos os problemas e enigmas. Crescentes e continuados investimentos em educação são medidas mais que necessárias para alavancar o desenvolvimento, mas definitivamente, não são medidas suficientes, ou que bastem por si.

Alguns anos atrás cerca de 131 mil pessoas se inscreveram para disputar emprego de gari no Rio de Janeiro. A Companhia Municipal de Limpeza Urbana daquela cidade estava a oferecer seis mil vagas de reserva de gari, remunerando salário mínimo. A relação de candidatos por vaga ficou em 21,83. Muito maior que o verificado nos vestibulares de alguns dos principais cursos oferecidos pelas universidades brasileiras.

O quadro de crise social tem se aprofundado com o decorrer do tempo. Num dos concursos da Limpeza Pública da cidade maravilhosa, realizado no ano de 2001, se inscrevem 44,5 mil candidatos. Destes, apenas 3.600 foram contratados.
É importante observar que uma grande massa destes candidatos é portadora de diploma de curso superior. São advogados, engenheiros, médicos, arquitetos, que passaram mais de cinco anos na universidade, lidando com a lógica e o conhecimento científico, e que – face às dificuldades – não relutam em buscar certa estabilidade ainda que isto implique em varrer as ruas e cuidar do lixo da capital fluminense. Nas grandes metrópoles, mesmo MBA`s e títulos de pós-graduação não tem impedido as dispensas e achatamentos salariais.

Se antes a profissão de gari não apresentava o encanto necessário para atrair setores da classe média, hoje este atrativo se chama estabilidade. E estabilidade atende pelo nome de segurança, num cenário adverso que se prima pela completa incerteza sobre o futuro.

Fica evidente que, além de priorização da educação, um conjunto de outros fatores deve ser buscado, tal como uma democracia saudável, ética e robusta; distribuição de renda compatível com os princípios da justiça social; infra-estrutura física e econômica capaz de atrair sempre mais investimentos produtivos, consequentemente gerando empregos e aumento da massa salarial.

O caminho a ser perseguido não mais é novidade para ninguém. Mas a sociedade precisa se organizar de maneira eficaz, para que a pressão sobre as elites dirigentes se exerça de maneira determinante e que a máxima “a voz do povo é a voz de Deus”, possa se materializar no dia a dia.

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Educação, gestão & democracia



A palavra democracia já se popularizou entre nós. Tornou-se parte do vocabulário popular, se incorporando ao cotidiano das pessoas. Se por um lado esta situação representa um avanço expressivo, dado que qualquer que seja o significado adotado, falar em democracia sempre será oxigenar o ambiente político; por outro pode encerrar certa hipocrisia, um invólucro bem produzido para escamotear formas mais sutis de opressão e dominação. Quem não se lembra que a parte da Alemanha assumidamente bucocrático-comunista do período muro de Berlim se denominava pomposamente “democrática”? 

De origem grega, a palavra democracia na realidade encerra uma multiplicidade de significados ditados sobretudo pela teoria política, ou mais apropriadamente pelas idiossincrasias circunstanciais. Originalmente significa uma forma de governo caracterizada pelos cidadãos exercerem diretamente o poder de decisão, quando prevalece a maioria. 

Mas mesmo a maioria grega era bastante relativa, pois dela se excluíam as mulheres e a esmagadora maioria da população escrava.

O crescimento das cidades e a explosão demográfica ensejaram a modernização do estado e as necessárias adaptações foram tomando forma, de sorte que da democracia direta passamos para a democracia representativa, quando o exercício da decisão se processa através de representantes preliminarmente eleitos.

No Brasil, a história democrática é caracterizada por idas e vindas - infelizmente mais vindas que idas. Momentos de expansão – vezes acelerados - revezando com outros letárgicos e sonolentos. Longos períodos de obscurantismo e opressão cedendo uma fração do tempo aos frágeis, curtos e efêmeros períodos das liberdades.

Desde a proclamação da república já tivemos sete cartas magnas. Sete constituições, o que registra nossa extrema vulnerabilidade e o quanto nosso ordenamento legal é volátil.

Os limites da constituição imperial de 1824 estavam mais que evidentes quando estabeleceram inamovíveis vinculações do exercício dos direitos políticos ao nível de renda dos cidadãos, uma forma nada sutil de excluir a maioria da população do processo de participação institucional. Como que para redimir a tendência ultra-elitista, a constituição de 1891 se volta para outra direção, garantindo alguns direitos, assegurando a representação das minorias e instituindo o sufrágio universal masculino. Mas manteve os analfabetos, mendigos, soldados e religiosos ao largo desta importante conquista política e social.

Decorre daqui, portanto, dois problemas que de certa forma perduram até a atualidade. 

O primeiro é que o voto aberto, nas condições em que foi estabelecido, permitiu a manipulação eleitoral, o voto de cabresto e o coronelismo, que de certa forma – assumindo formatos mais sofisticados – ainda dominam o panorama político em vários rincões do país.

E o segundo é que a falta de justiça eleitoral independente depositou nas mãos do governo o reconhecimento dos deputados eleitos.

No ano de 1934 surge uma nova constituição, inspirada na alemã, e que incorpora a Justiça do Trabalho e outras conquistas trabalhistas.

Se sete foram as constituições, as intervenções militares foram nove, testemunhando nossa cultura autoritária e a onipresença dos quartéis.

Quando lançamos o olhar sobre o conjunto dos mandatários da nação, percebemos que dos trinta e três presidentes brasileiros, dez não completaram o mandato. Destes dez, quatro foram depostos por golpes, três morreram, e um sofreu impeachment.

Do total dos presidentes brasileiros é curioso observar que apenas quinze foram escolhidos pelo voto direto, portanto menos da metade.

Mas a história política brasileira mostra um outro viés: a utilização do eleitorado como massa de manobra das elites dirigentes. Esta situação chegou a tal grau que, durante a república velha, apenas 3% dos que poderiam votar eram chamados a colocar o voto na urna.

Em contrapartida, mais recentemente foi a opinião pública que, mobilizada, possibilitou o impedimento do ex-presidente Fernando Collor.

Já tivemos presidente que imaginava ser a gestão pública um ramo da engenharia civil. Era o caso de Washington Luiz que chegou a afirmar que “governar é construir estradas”. 

Se Washington Luiz foi o benemérito originário das grandes empreiteiras, não ficou atrás quando o assunto era a exclusão social. Conseguiu atribuir às forças policiais uma função muito maior que a de assegurar a elucidação de crimes e a prisão de delinqüentes. Foi Washington Luiz quem perenizou a expressão “a questão social é caso de polícia”.

Mas nossa sina autoritária tem raízes mais profundas. Nosso primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891), determinou o fechamento do congresso, decretando a seguir o estado de sítio.

Floriano Peixoto (1891-1894) arquitetou durante todo o tempo contra as liberdades individuais, sobretudo a de opinião e foi o primeiro a fazer prisões políticas.

Arthur Bernardes (1922-1926) conseguiu aprimorar os desvios despóticos de Floriano Peixoto, tornando-se o primeiro a construir uma prisão especial para presos políticos.

E daí segue um conjunto de acontecimentos de cunho autoritário, incorporados às nossas tradições e imaginário; registrando o quanto a democracia tem sido até o momento uma cantilena principalmente para os excluídos. 

Mesmo nos dias de hoje, quando vivemos uma experiência democrática jamais experimentada, salta aos olhos o que parece uma inesgotável capacidade de nossas elites políticas de promover exclusão social. A verdade é que, se avançamos na democratização da vida política, no campo econômico o que se fez foi muito pouco, haja vista o país ostentar uma das mais perversas concentrações de renda do planeta.

Este passado histórico afeta todos nós e, de uma maneira especial, os educadores. É que cabe a esta categoria especial de pessoas uma atividade por demais nobre: a de reproduzir o conhecimento, reciclá-lo, torná-lo assimilável para os aprendizes; desvendar os mistérios que emolduram as artes e o saber, e torná-los disponíveis e acessíveis a todos. E como conviver neste ambiente ignorando esta herança autoritária já incorporada – ainda que inconsciente - ao nosso modo de ser, pensar e agir? Este é o desafio do verdadeiro educador, transformar-se em um agente em permanente renovação, transformador de si e das coisas, um homem capaz de re-elaborar permanentemente o mundo, ao mesmo tempo em que re-elabora a si próprio. Um agente que enxerga o outro, e não só seus alunos, como literais parceiros neste processo dinâmico e ininterrupto de resgate da ética e da solidariedade. Um cidadão que não entenda a sala de aula como seu universo, e sim que perceba o universo como sua sala de aula.

É deste professor que nossos alunos e alunas necessitam. Nada de falsos libertários, loquazes ventríloquos, papagaios de pirata, cintilantes, onipresentes; sempre com as respostas prontas e definitivas na ponta da língua, mas hipócritas e pobres de conteúdo. Precisamos do professor que consiga superar e romper a redoma autoritária em que a sociedade está envolta. Do professor que ao invés de se colocar acima, se coloque ao lado do aluno, que partilhe com ele as dúvidas e que aceite o desafio de comungar a busca pela melhor das alternativas. Sim ao professor que - ao contrário da prepotência e arrogância da academia, dê guarida à humildade, à troca, à generosidade. 

Se o que queremos construir é uma sociedade que partilhe os valores e as condições que nos transformem todos em cidadãos, então teremos que procurar por novos educadores e gestores públicos, por um agente que entenda a educação e a gestão como uma troca entre iguais com diferentes tipos de conhecimento. E que todo conhecimento tem, no seu devido contexto, importância individual e social. 

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A angustia da escolha



Há uma fase na vida do estudante em que tudo é dúvida e o futuro pode ser reduzido a um inquietante ponto de interrogação. As dúvidas pululam freneticamente, sobretudo, quando se trata de optar pelo destino a seguir, a carreira a escolher.

É uma etapa em que nada está claro, nada está definido. Nesta situação de insegurança e instabilidade emocional, solicitar que o aluno responda à angustiante pergunta (O que deseja da vida?) pode parecer crueldade das mais maquiavélicas, mas é como dor de parto, aquela dor tipicamente necessária, aquela tensão que antecede alguns raros momentos de genuína graça.

“O que você quer da vida?” é a questão chave argüida por todas as orientadoras vocacionais e que coloca muitos adolescentes e jovens na berlinda, no fio da navalha, tremendo como vara de bambu verde.

Tomar, quando se é tão jovem, uma decisão que – para o bem ou para o mal – será capaz de conformar toda a vida futura é tarefa das mais complexas, por isto o primeiro passo, a primeira resposta, seguramente não se encontra fora e distante, no mundo exterior, mas bem rente, dentro, pertinho, como cantam os poetas “no lado esquerdo do peito/dentro do coração”. Nesta fase da vida é necessário mergulhar, lançar o olhar para a alma, debruçar sobre o próprio interior, auscultando os valores e, nos valores, selecionando o que existe de mais íntimo e revelador.

É deste universo particular que o estudante deve resgatar – num bravio oceano de interesses difusos, quase todos alienígenas – os que efetivamente lhe pertencem, os que verdadeiramente guardam consonância com sua identidade, com sua vida pregressa e seus desejos e aspirações.

Neste ambiente estão fincadas as âncoras da carreira corretamente identificada, sabiamente definida, alicerce de uma vida profissional exitosa e satisfatória.

Uma série de testes e questionários ajuda o estudante a esquadrinhar este mundo um tanto inóspito, ainda misterioso e turbulento, mas que logo – com a ajuda de um profissional habilitado - se mostrará inteiro, claro e límpido.

Ao término deste processo o jovem terá acumulado insumos vitais: seu perfil, as habilidades mais destacadas, o temperamento, a personalidade, as aptidões, as preferências e, sobretudo, as profissões mais adequadas e que melhor se encaixam nas características encontradas. O potencial estará quase todo à mostra. Insisto, não todo. Porque na vida existe um conjunto de variáveis que sempre escapam ao nosso controle e domínio.

A vida de um iluminado naturalista britânico ilustra com perfeição a situação a que me refiro.

Quando adolescente, Charles Darwin, o homem que fez tremer o planeta ao lançar sua obra “A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural”, estava predestinado a seguir a carreira médica.

Pelo menos assim desejava seu pai, o proeminente físico Dr. Robert Darwin, que o conduziu à Escola de Medicina de Edimburgo mal completara 16 anos. Desde os pajés, xamãs e curandeiros primitivos, os que exercitam as lides medicinais sempre encontraram respeito de suas tribos e comunidades.

Mas a medicina mostrava-se aos olhos do adolescente um fardo insuportavelmente pesado, capaz de arriar seus sinceros desejos de corresponder às expectativas dos progenitores. Para enfrentar e seguir a carreira médica há que se ter um estômago a toda prova, como o da avestruz, atributo que, definitivamente, o jovem Charles jamais possuiu.

Não restou alternativa senão negociar com a família. Em troca da carreira médica, ofereceria a eclesiástica. Na época, as famílias e a sociedade estimulavam em seus filhos o interesse pelas coisas de Deus, pelas missões religiosas, de modo que, ao matricular-se no Christ’s College, de Cambridge, para tornar-se pastor, lançou uma pá de cal sobre o assunto, satisfazendo simultaneamente a gregos e troianos.

Pá de cal? Qual, meu caro! Enquanto há vida, há movimento. E como bem poderia ter dito Drummond No meio do caminho havia uma pedra / Uma outra alternativa pairava no meio do caminho”. E no caso de Charles Darwin a sorte grande o espreitava na esquina.

Dada as habilidades como professor das disciplinas relacionadas à história natural e a fama conquistada de dedicado colecionador de besouros, foi indicado por John Henslow, seu professor de botânica, para uma instrutiva e inusitada missão.

O navio HMS Beagle partiria para longa viagem numa missão cartográfica para mapear as águas do sul do continente americano. Mas seu capitão, como que antevendo a explosão de luz iluminando no futuro, resolveu levar quem pudesse se dedicar ao estudo científico das espécies encontradas.

E lá foi Darwin, em dezembro de 1831, iniciar um cruzeiro ao redor do mundo, uma viagem que demandou cinco longos anos, e que embasou a obra que marcaria a história da humanidade.

Portanto, Darwin passou por médico, pastor missionário, professor, colecionador de besouros, classificador de espécies encontradas, para se encontrar como grande cientista que revolucionou o mundo com sua doutrina evolucionista.

A leitura da obra de Darwin ensina que os seres vivos sobreviventes às grandes catástrofes planetárias não foram os mais fortes e sim os mais flexíveis.

Ao se deparar com o instante da decisão sobre o curso a seguir, o vestibular a fazer, a profissão a escolher, o jovem deve refletir sobre o fato de que, muitas vezes, a força reside na capacidade de flexionar, de se adaptar ao cenário e às circunstâncias.

Este artigo está publicado no portal Goiás Educação.

Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Os demônios da educação



Em 2007, o Brasil acompanhou a tragédia que assolou o Estado do Pará, quando inúmeras pessoas utilizando-se de rituais satânicos, bruxaria e magia negra, seviciaram e assassinaram crianças indefesas. Um episódio terrível, dos mais covardes e abomináveis que a história recente brasileira registra.

No segundo semestre do ano de 1993, Goiás também viveu um episódio semelhante, quando seis pessoas realizaram um ritual satânico com o sangue retirado da estudante Fernanda Militão, assassinada no dia 21 de maio, em Guapó, por Vicente Natal do Nascimento e João Maria Rocha Silva.

A feitiçaria é uma manifestação de origem religiosa e está presente de forma determinante em todas as culturas primitivas. A ignorância e o desconhecimento sobre as pestes, as doenças e os fenômenos da natureza, levaram o homem primitivo a elaborar um imaginário misterioso, onde povoavam demônios e potestades capazes de tudo, inclusive explicar o que a razão desconhecia.

Os hebreus incorporaram os demônios da antiga civilização mesopotâmica e os legaram aos cristãos modernos, para quem o diabo - Satã, Satanás ou Belzebu - e toda a sua corte seriam anjos rebelados contra Javé e expulsos do paraíso.

Na idade média a Igreja Católica chegou a criar um tribunal eclesiástico para julgar os que estigmatizava como hereges. Em 1484 o papa Inocêncio VIII introduziu o suplício e a tortura para extrair dos acusados de bruxaria a confissão que os redimiria. E três anos depois, em 1487, o dominicano Jakob Sprenger publicou Malleus maleficarum - O martelo das feiticeiras -, que se constituiria no abecedário, na cartilha e manual que conduziria a rotina de insanidades dos inquisitores – tudo em nome de Deus.

Uma das características deste tribunal de inquisição eram os processos sumários. Mulheres, crianças e escravos eram estimulados a dele participar como testemunhas de acusação, mas jamais de defesa. A delação, sobretudo de parentes e amigos, ensejava para os acusados benefícios de toda ordem, inclusive o perdão. Às execuções promovidas pelo Santo Ofício em que as vítimas eram queimadas em fogueiras dispostas em praças e logradouros públicos, denominavam-se autos-da-fé.

Em Lisboa, na torre do Tombo estão registrados quase 40 mil processos deste tipo. Antônio José da Silva, o Judeu, nascido no Rio de Janeiro no ano de 1705, e nome dos mais significativos na dramaturgia de língua portuguesa, foi queimado no fogo da santa igreja católica no ano de 1739, em Portugal.

Ao contrário destes casos recentes que tem pontuado a realidade brasileira, grande parte dos processos do Santo Ofício se prestavam à perseguição religiosa – no caso contra os judeus e muçulmanos – e sobretudo à perseguição política.

A reação científica e filosófica contra estas crenças supersticiosas se origina a partir do séc. XVII, se robustece com o Iluminismo e o desenvolvimento da psiquiatria, também com a influência dos racionalistas como Descartes, Voltaire e D`Alembert; e com as idéias que acompanharam a Revolução Industrial.

Atualmente estas práticas remanescem isoladamente e invariavelmente, de tempos em tempos, ocupam as páginas policiais dos jornais, como a mostrar o quanto a modernidade mantém-se vinculada à barbárie de nossos antepassados.

Desde sempre, estas práticas primitivas tiveram como essência o exercício da influência e do poder, seja sobre o Estado, seja sobre o próximo, ou seja ainda sobre os fenômenos da natureza.

Hoje, setores das elites criaram um racionalismo funcional que regula a existência do Estado, e mantém sob controle as válvulas de pressão para que as transformações ocorram na casca e a substância não seja alterada.

Os fenômenos da natureza são – cada vez mais – tratados pela mais fina tecnologia, com a utilização intensiva de satélites, pesquisas efetuadas no espaço sideral, e estudos cosmológicos. Já as relações de dominação sobre o outro, que no passado – de forma predominante – passavam por pactos com o diabo, deitação de cartas, prestidigitação efetuadas por feiticeiros e embusteiros de adivinhações e malefícios, são hoje substituídas ora pela sutileza dos acordos sociais, ora pela mesquinhez, pela ideologia do controle das massas, pela hipocrisia reluzente dos discursos bombásticos, perfeitos na poética, mas desprovidos de conteúdo. E tudo potencializado pela propaganda e pela onipresente televisão.

Nas relações inter-pessoais, diuturnamente nos deparamos com esse tipo de pessoas. As que justificam o Estado mantenedor de privilégios para os poucos iluminados. As que referendam as práticas calcadas na dominação e opressão. As que entoam a cantilena de que os fins justificam os meios. Na escola ou no trabalho lá estão elas, sempre bem falantes, bem sucedidas na vida, com um rosário de vantagens pregressas, ou providenciais “desvantagens” como: “já fui engraxate”; “já vendi picolés e quitandas para sobreviver”, “tive uma infância pobre”, e coisas do gênero. Circundam-nas um mar de mentiras e falsidades. A produção por elas obtida se circunscreve ao superficial e volátil, ao periférico, a nada que guarde semelhança com o estrutural, que sequer tangencia o que de fato importa. Neste ambiente impera a intriga e o perjúrio. A fofoca e a versão tem mais sentido que os fatos. As relações são ancoradas pelo que há de mais fugaz: a vaidade. Neste contexto o outro só existe enquanto escada, instrumento, ou obstáculo a ser suprimido. Esta categoria de pessoas só são visíveis integralmente, sem os invólucros, quando conquistam o poder. Basta presenteá-las com uma porção, ainda que diminuta de poder, e ei-las, desnudas, se mostrando por inteiro, sem as inúmeras máscaras; exalando o cheiro nauseabundo da decomposição. Lobos em peles de cordeiro.

Para conquistar espaço social e poder, alguns ainda acorrem à magia e à feitiçaria dos tempos da barbárie, distúrbios que a civilização dos tempos modernos procura resolver através da psicanálise, da psicopatologia e do conjunto das ciências médicas e sociais.

O universo em que se encerra a sociedade tem uma amostragem no ambiente escolar, acadêmico e do serviço público. As relações de dominação são reproduzidas em menor escala, mas a resultante não se apresenta de menor intensidade. Como tornar harmônicas e produtivas as relações na escola, na academia, nas organizações privadas e estatais se, as que se verificam no universo social são pautadas pela violência e autoritarismo. Este é um senhor desafio.

Na Educação, a relação educador-educando se torna extremamente delicada, haja vista a função exercida pelo professor que o coloca - no mínimo, numa posição destacada e privilegiada.

Já deveria estar longe o tempo do professor senhor da vida e da morte, conhecedor de tudo e de todos, imperador do saber e dos caminhos, olhando de soslaio e com desdém o conhecimento incorporado pelo aluno. Deveria, mas não está. Grandes avanços foram verificados, mas infelizmente estas situações ainda persistem.

Se o bom educador é aquele capaz de se situar ao lado e não acima do educando, como ignorar que o saber do aluno se constitua num dos insumos capazes de levar ambos a um patamar superior, espaço onde deverão interagir todos os diferentes tipos de conhecimento: o produzido pelas sucessivas e interpenetradas fases da vida – infantil, juvenil, adolescente, adulto e senil; o elaborado no espaço comunitário, o construído nas relações familiares, os obtidos na pesquisa empírica, científica, na lida acadêmica, ... Importa perceber que tanto o conhecimento do professor quanto o do aluno são importantes, na exata medida em que um será incapaz de desenvolver sem a presença do outro; que ambos são re-elaborados a cada encontro. É deste ciclo dinâmico, deste choque de saberes e vivências que se nutre o conhecimento transformador, o que substancia o futuro progressista. E não vai aqui nada que se assemelhe ao democratismo, à libertinagem: o professor não pode abrir mão de sua autoridade, mas na exato limite do respeito para com o educando.

Com as devidas adaptações esta realidade se reproduz na instituição pública, conformando a relação dos servidores públicos entre si e destes com os demandantes de serviços, a comunidade.

No Brasil os demônios mais representativos em cultos de origem africana são os Exus e entre os de origem indígena, o Anhangá e o Jurupari. Mas na educação e na gestão pública existem demônios infinitamente mais devastadores: é o professor e o gestor público democratistas, aquele que tece loas à liberdade mas tão somente para escamotear sua verve autoritária; aquele que se faz de bonzinho e popular, mas que se desmascara ante um naco qualquer do poder. Portanto nos lambuzemos da mais absoluta liberdade democrática, do permanente combate aos dogmas e paradigmas, do mais absoluto amor ao outro, e estaremos varrendo da face da terra estes vampiros de nossos sonhos e esperanças.

Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

As lições de Jetro!



Jetro, sacerdote de Mídia, teria se aborrecido ao aguardar durante o dia inteiro, em uma fila, a oportunidade para falar com o genro, Moisés.

Quando, após a longa espera, viu Moisés à sua frente, questionou, sem meias palavras:

-Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o pôr-do-sol?

Ao obter a resposta, ficou mais impaciente ainda. Moisés tentou explicar a longa fila argumentando que a ele acorria todo o povo em busca de solução para seus problemas. Jetro então orientou que Moisés escolhesse, dentre seus homens mais capazes e que não comungassem da avareza, líderes do povo, que seriam designados chefes de 1.000, chefes de 100, chefes de 50 e chefes de 10. A esses chefes caberia a resolução dos problemas de mais simples solução, restando a Moisés somente os que passassem pela peneira da hierarquia dos líderes, os problemas de natureza mais complexa.

Ao atender ao conselho do sogro, Moisés estabeleceu um dos primeiros arranjos organizacionais que se tem referência na civilização.

A um só tempo descentralizou a gestão, hierarquizou o comando e o nível das decisões, delegou competências, incorporou os mais aptos no processo gerencial, conseguindo impregnar a administração do Êxodo de racionalidade, de eficácia.

No período que se estende de 4.000 a.C a 2.000 a.C, os egípcios perceberam as vantagens do planejamento e desenvolveram técnicas eficazes de organização e controle, estimulando a descentralização nas suas organizações.

Apesar do aprendizado humano nessa área remontar a períodos tão distantes, como demonstram os exemplos descritos, no Brasil muito pouco avançamos nesses setores.

É raro o cidadão comum recorrer a uma instituição qualquer, pública ou privada, sem que seja submetido a uma via sofrida e tortuosa de filas e esperas, mais filas e mais esperas. E quando de desvencilha de um setor, lá vai ele enfrentar fila em novo departamento.

Nas repartições públicas, as filas se multiplicam como erva daninha. Rompem em todos os departamentos e setores, desdenhando e fazendo pouco caso dos contribuintes, dos cidadãos.

Num mundo globalizado em que as relações econômicas e financeiras se processam em tempo real, todos nos tornamos escravos do sistema bancário. A agência bancária é, sem dúvida, o lugar onde amargamos as mais longas e estressantes filas, o lugar onde percebemos nossas vidas se perder como areia escapando dentre os dedos. Ao contrário de diminuir, à medida que passam os anos, as filas se tornam mais longas e estressantes.

Em 1994, os 11 maiores bancos do país tiveram um lucro de R$ 1,3 bilhão. Passados nove anos, em 2003, esses mesmos bancos acumularam lucro da ordem de R$ 13,8 bilhões, um incremento de mais de 1.000%. Vá o leitor pesquisar os lucros obtidos em 2013... Se uma parte desses lucros - irrisória que fosse - tivesse sido aplicada na erradicação das filas e na qualificação do atendimento ao cliente, o problema estaria solucionado ou ao menos reduzido a um tamanho administrável.

Mas também na educação, a modernização administrativa se restringe ao acervo documental e às cartas de intenções. As filas se multiplicam por todos os lados. Há filas para solicitar informações, filas para se inscrever aos processos seletivos, filas para pré-matricular, filas para confirmação de matrícula, filas para requerer documentos, declarações e certificados, filas para acessar a secretaria, filas para demandar a coordenação pedagógica, filas para interagir com a direção, filas até mesmo para utilizar os equipamentos culturais e esportivos e para fazer uso do banheiro.

E de tal forma as filas se tornaram parte de nosso cotidiano que passamos a acreditar que elas são naturais, inerentes, da estrutura e da essência do sistema.

Se as escolas e unidades de ensino se constituem (deveriam ao menos!) num centro de estudos, pesquisas e reflexões sobre a sociedade e suas organizações, seria razoável supor que pelo menos nelas, este tipo de distorção encontrasse algum tipo de reação. Não é o que ocorre.

Os educadores não podem perder de vista que, pelo fato de lidar com a pesquisa, a reflexão social e a investigação científica, cabe a eles um papel muito maior de racionalizar o fluxo de pessoas – sejam ou não clientes - e os processos de atendimento. Admitir filas em qualquer instituição já é uma distorção, uma mostra da incompetência generalizada da direção responsável. Já filas numa instituição de ensino é aberração injustificável e das mais inaceitáveis.

Quem sabe deveríamos retornar aos idos de Moisés e escutar com mais atenção às lições do velho sacerdote Jetro?!

Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.