segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mais uma vez, a culpa é do judeu


Do Blog do Claudio Tognolli

Se a minha teoria da relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão, e a França, que sou cidadão do mundo. Mas se eu estiver errado, a França sustentará que sou alemão, e a Alemanha garantirá que sou judeu. Albert Einstein
Você não vai ler a seguir nenhum arrazoado sobre números, com balancetes de mortes praticadas no enfrentamento Israel versus Faixa de Gaza. Tampouco lerá discussões sobre de quem é a culpa do cômputo geral das baixas (nesta noite de quarta-feira, referia o Jornal Nacional, eram 1.346 palestinos mortos contra 62 judeus).
O eixo é outro: os neonazistas, sempre de plantão, já correm no vácuo da questão palestina para voltar aos ataques de sempre.
Isso porque o  neonazismo só ataca enquanto respira.
De janeiro para cá, este blogueiro contou, nas bancas da cidade de São Paulo, nada menos que 13 novas publicações sobre a vida de Hitler.
Foi  no mês de janeiro de 2014, também, que o site da 'Time' destacou que Mein Kampf,  autobiografia de Adolf Hitler, entrava na lista dos livros mais vendidos eletronicamente:
Uma editora brasileira, a Montecristo, de São Paulo, chegou a vender, em 2014, um exemplar deMein Kampf a cada 30 minutos ,via I-books. No Brasil custa US$ 3,99. Lá fora, a obra ainda é mais barata:  sai por US$ 0,99, nos EUA, e £ 0,99, no Reino Unido.
Os direitos do livro, que pertenciam a Hitler, foram entregues ao Estado da Baviera por ordem do líder nazista. O Estado da Baviera recusa-se a republicar e permitir republicações do livro: mas tais direitos cairão em domínio público no dia 31 de dezembro de 2015.
Outra obra que vende como água é a cascata chamada Os Protocolos dos Sábios de Sião. A obra foi escrita em russo, em 1897, pela pela Okrana, polícia secreta do Czar Nicolau Segundo.
Foi redigida  pelos mesmos que orquestraram os “pogroms”. Pogrom (em iídiche פּאָגראָם, derivado do russo погром) é um ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Judeus foram as cobaias dos primeiros pogroms.
Pois bem: a cascata dos Protocolos (com o delírio de que há um complô judaico-maçônico para dominar o mundo) tem um passado curioso.
Os Protocolos foram publicados nos EUA no Dearborn Independent, um jornal de Michigan, cujo proprietário era Henry Ford.
Hitler e seu Ministério da Propaganda citaram os Protocolos para justificar a necessidade do extermínio de judeus mais de 10 anos antes da Segunda Guerra Mundial.
Dois líderes egípcios no passado passaram a falar publicamente que os tais Protocolos eram “livros verdadeiros: Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat; na Arábia Saudita a obra era endossada pelo Reio Faissal; na Líbia, pelo coronel  Gaddafi.
No passado recente, Henry Ford imprimiu do seu bolso 500 mil cópias dos Protocolos.
É nessas épocas de crises que envolvem Israel que os neonazistas dançam seus sabás. É nessas épocas que  empresários neonazistas fazem negócios.
Fazer  negócio  e nome sobre o massacre da figura do judeu não é novidade.
Há 12 anos o jornalista americano Edwin Black lançou seu livro IBM e o Holocausto.
Segundo o autor, graças à tecnologia da Dehomag, subsidiária da IBM na Alemanha, os nazistas puderam localizar, identificar e assassinar os judeus. Tudo com a ajuda das máquinas de perfurar osholleriths.
Diz o jornalista: “A tecnologia  da IBM consistia na perfuração de cartões em pontos específicos que serviam para a identificação das características de um determinado indivíduo. Com colunas e linhas numeradas, havia centenas de combinações possíveis. As colunas relacionavam diferentes categorias e as linhas tratavam de particularizar o indivíduo. As colunas 3 e 4, por exemplo, enumeravam dezesseis categorias de cidadãos. O furo na linha 3 identificava o homossexual. A linha 12 indicava um cigano e a linha 8 identificava os judeus”.
A IBM usou suas subsidiárias européias, principalmente a suíça e a alemã Dehomag, para lucrar o dinheiro sujo do nazismo, refere Edwin Black. O fundador da IBM, Thomas J. Watson, acabou sendo condecorado por Hitler em 1937 pelos serviços prestados.
A IG-Farbe, antigo principal conglomerado industrial da Alemanha nazista, teve vários de seus executivos condenados por crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg. A empresa se repartiu em nanicas bem grandes, como Basf, Hoescht e Bayer.
Era tudo puro negócio: Hitler citou Henry Ford em Mein Kampf. Assim como  Watson,  da IBM, Ford também foi condecorado por Hitler em 1938. A Ford alemã chegou a receber uma encomenda de 100.000 caminhões para o Exército alemão em 1942.
Gente famosa surfou com o nazismo. A estilista Coco Chanel, por exemplo, se apaixonou por um oficial nazista e tenista:
"Na minha idade, quando um homem quer dormir com você, não dá para pedir seu passaporte", justificou-se depois. Ferdinand Porsche, o gênio dos carros, criou o Volkswagen ("carro do povo") em 1935, para Hitler, tentando competir com Henry Ford.
O ódio ao judeu tenta reduzir numeros já  pequenos. Atualmente, o número de judeus é de aproximadamente de 13,8 milhões, segundo o demógrafo Sergio della Pergola, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os judeus representam hoje 0,002% da população mundial, número três vezes menor do que o registrado em 1945.
A população judaica no mundo continua a ser muito menor do que em 1938, e só conseguiu crescer em Israel, onde “acaba de superar a simbólica marca de 6 milhões de pessoas”, diz o pesquisasdor.
Papo Cabeça
Na academia brasileira, os neonazistas gostam de citar duas obras de dois gênios: "Sobre a Questão Judaica", ensaio de 1843, de Karl Marx. E também “O mercador de Veneza”, de Shakespeare.
Marx, judeu, chamava aos negócios judaicos de “dirty jewish”. Concitava o leitor a buscar as raízes dos judeus não na religião, mas no dinheiro. Caiu como azul sobre dourado, aos nazistas, que Marx tratasse disso dessa forma.
Na peça de Shakespeare Shylock é um  agiota judeu, que empresta dinheiro a seu rival cristão, Antônio. Shylock fixa como fiança uma libra da carne do coração de Antonio – que, falido, não consegue pagar o judeu, e este se lhe exige o naco de carne coronária.
Todo esse mosaico de pitadas anti-semitas aparece aqui e acolá, em crises como a atual, como um avestruz dormente, mas atento.
E quando tais crises eclodem, tais avestruzes altissonantemente nazistas se levantam das tumbas: e, com os dedos em riste, recurvos, em seus novos bicos, agora de corvos, berram em vozes tresnoitadas:
--O culpado de tudo é o judeu.

domingo, 27 de julho de 2014

Ariano Suassuna: o gigante encantou...


Em entrevista inédita, Suassuna disserta sobre temas como Deus, morte e filosofia


Eric Nepomuceno relata conversa com o escritor, morto aos 87 anos
Ariano Suassuna no programa 'Sangue latino'
Ariano Suassuna no programa 'Sangue latino'
Não parecia a casa de um escritor, de um artista: parecia casa de avô, suspensa no tempo de um bairro chamado Casa Forte, no Recife. Pouco depois das três da tarde daquela terça-feira, 29 de abril, Ariano apareceu na sala de janelões abertos para o mundo. Estava magro, falava com voz rouca e enfraquecida, pouco mais que um sussurro. Mas o que dizia de maneira firme era brilhante.
Ariano Suassuna era um iluminado, com uma memória prodigiosa. Conversar com ele era uma aula de mundo e de vida. Tinha um olhar pícaro e ágil, e conversava com humor contido mas permanente. Era dono de um conhecimento assombroso, que desfazia qualquer fronteira entre a chamada cultura erudita e a popular. Para Ariano, a vida e a arte eram muito mais que essas divisões que ele desprezava olimpicamente. Eram o resultado da capacidade humana de sonhar e acreditar no sonho, de imaginar as realidades ocultas naquilo que se vê e, assim, recriar a vida. Dizia que a arte não tem uma utilidade prática, mas uma função clara: aumentar a beleza e a alegria do mundo. Tinha certeza de que imaginação e realidade estão altamente entrelaçadas.
Quando fundou o Movimento Armorial, mostrou que criar uma arte erudita a partir da cultura popular não era (nem é) nada mais que desfazer barreiras que ele sempre repudiou. Ariano era um visionário que acreditava na imaginação.
Assim levantou sua imensa obra. Foi da poesia ao romance, caminhou pelo teatro. Era ousado na escrita, que nascia de seus mergulhos profundos nas raízes populares nordestinas para voltar, universal, à superfície do mundo. Manteve uma aparente contradição ao longo de tudo que fez: para inovar, apegava-se às tradições populares. Para projetar o futuro, voltava ao passado. Foi um reflexo cristalino do emaranhado dos muitos pais e das muitas mães que geraram a alma nordestina e, por consequência, brasileira: a cultura ibérica, os ecos mouros, lusitanos, indígenas. Conhecia a fundo o teatro grego, a poesia clássica, sabia de memória Sófocles e Camões (sabia de cor uns cinquenta sonetos dele) e um mundo mais, apreciava especialmente os autores russos, a música dos grandes. Mas também reverenciava a viola e a rabeca, a poesia de cordel, as cavalhadas, os festejos religiosos, as danças do povo.
Dizia que, para ele, escrever era “uma vocação inexcusável. Eu nunca quis ser outra coisa senão escritor. Comecei a escrever aos 12 anos de idade, publiquei meu primeiro poema aos 18 e nunca mais parei. Continuo escrevendo. Todo dia eu leio e escrevo, e não é por obrigação, é por paixão”.
Na verdade, fazia tudo por paixão. Tinha uma visão religiosa do mundo e da vida. Dizia acreditar em destino, mas advertia: “Não como um grego, com uma visão fatalista. E é por isso que não sou um desesperado”. E prosseguia sua fala mansa recordando, com a naturalidade de quem menciona uma conversa com o vizinho, um poema de Sófocles, esclarecendo: “Faz parte da tragédia ‘Antígona’, na parte recitada pelo coro, uma meditação sobre o destino do homem”. E depois, recordava outro poema, um canto popular do Nordeste: “O nosso Deus corrige o mundo/ pelo seu dominamento/ eu sei que a terra gira/ pelo seu grande poder/ grande poder/ pelo seu grande poder”.
Ariano via nesse refrão atesourado em algum rincão de sua memória infinita como contraponto de Sófocles. “No caso do grego, que é o caso de um não cristão, o poema termina no desespero. O irremediável da morte acabaria com toda a sua história. Nós, que acreditamos em Deus, achamos que o mundo é governado pela vontade divina. E isso abranda a ideia de destino. Para os gregos, destino é fatalidade. Para mim, é a vontade de Deus que termina regulamentando tudo”.
A religiosidade de Ariano estava impregnada em todas as suas falas. E a razão, para ele, era muito simples: “Eu acredito em Deus por uma necessidade. Se Ele não existisse, a vida seria uma aventura amaldiçoada. Eu não conseguiria conviver com a visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo. Então, ou existe Deus, ou a vida não tem sentido nenhum. Bastaria a morte para tirar qualquer sentido da existência. Um grande poeta popular, Leandro Gomes de Barros, meu conterrâneo da Paraíba, escreveu três estrofes que eu creio que formulam aquele que eu acho o problema filosófico mais grave da Humanidade. Veja você: Camus, o grande escritor franco-argelino, tem um livro em que começa dizendo que o único problema filosófico realmente sério é o do suicídio. O suicídio é uma coisa muito grave: a pessoa avalia o mundo, avalia a si própria e acha que não vale a pena. Mas apesar dessa frase ser muito bonita, Camus, a meu ver, estava errado. O problema filosófico na verdade não é o do suicídio, que é apenas um aspecto dele. Mais grave, para mim, é o problema do mal e do sofrimento humano. Então, sinto que Leandro Gomes de Barros formulou muito melhor que Camus essa questão. Essa é a pergunta mais séria que as pessoas que não acreditam em Deus podem fazer às que acreditam. Repare:
Se eu conversasse com Deus
iria Lhe perguntar
por que é que sofremos tanto
quando viemos para cá?
Que dívida é essa
que o homem tem de morrer para pagar?
Perguntaria também
como é que Ele é feito
que não come, que não dorme
e assim vive satisfeito.
Por que foi que Ele não fez
a gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
e outros que sofrem tanto,
nascidos do mesmo jeito,
criados no mesmo canto?
Quem foi temperar o choro
e acabou salgando o pranto?
Veja que coisa linda! Isso coloca em questão a própria existência de Deus. É como se Deus tivesse querido temperar o choro e acabou errando na mão, como se Deus fosse capaz de dar um erro, e infringido um sofrimento terrível ao ser humano... Então, para mim Deus é uma necessidade. Então, repito: se eu não acreditasse, seria um desesperado”.
Dizia isso e sorria um sorriso serenado.
Privilégios extraordinários
Garantia ser um homem tranquilo. De poucos medos. Talvez, brincava, por irresponsabilidade. Sempre achava que as coisas iam dar certo. Quando alguém perguntava se tinha medo da morte, respondia rindo: “Não gosto de contar valentia por antecipado. Pode até ser que na hora eu me apavore. Mas até onde eu vejo, não tenho da morte não”.
Dizia que a vida não devia nada a ele. “Se ela acha que me deve alguma coisa, passo recibo de quitação agora mesmo. Não posso me queixar da vida. Tive privilégios extraordinários”, arrematava sorrindo.
Achava que os otimistas eram ingênuos e os pessimistas, amargos. E se dizia um realista esperançoso. Acreditava na utopia. Para ele, enquanto existir o ser humano haverá espaço para a utopia.
Era um homem muito afetivo. Prezava, acima de tudo, sua família. Graças à sua mulher Zélia, paixão de adolescência que durou para sempre, 67 longos anos, aos seis filhos e 15 netos, desconhecia a solidão.
Tive pouquíssimos encontros com Ariano Suassuna. Três ou quatro. O último foi naquela terça-feira de abril. Prometi voltar, não deu tempo. A Caetana, que é como a morte é chamada no sertão nordestino, chegou antes.
Fonte: O GLOBO

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Morre a Nobel Nadine Gordimer, a voz literária contra o ‘apartheid’

A escritora, que obteve o grande reconhecimento literário em 1991, morre em Joanesburgo


Do El País

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A escritora Nadine Gordimer, em sua casa de Joanesburgo. / JORDI MATAS
A escritora Nadine Gordimer, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1991, morreu ontem, domingo à tarde, aos 90 anos em sua casa deJoanesburgo, como confirmou hoje a família da autora à mídia sul-africana. Em seus últimos momentos, a escritora estava acompanhada de filhos Hugo e Oriane. Gordimer, nascida em Springs, uma localidade próxima a Joanesburgo em 20 de novembro de 1923, era considerada uma das grandes autoras do país. Foi uma das vozes mais poderosas contra o apartheid e defendeu seu compromisso “de devolver a dignidade à população negra sul-africana”.
Ao longo de uma prestigiosa carreira, escreveu 15 romances e uma dezena de relatos curtos. Entre seus títulos destacam-se My son’s story,A world of strangers e The conservationist (ainda não publicados no Brasil). Ao entregar-lhe o Nobel, o júri do prêmio destacou que “por suas magníficas obras épicas, Gordimer prestou importantes serviços à humanidade”. E em seu discurso ela afirmou: “O homem é o único animal com capacidade de observar a si mesmo e que foi dotado com a dolorosa capacidade de sempre querer saber por quê. E isso não é só a grande questão ontológica de por que estamos aqui, por meio de que religiões ou filosofias procuramos a resposta final que povos diferentes em tempos diferentes têm se formulado, mas a de que desde que o ser humano começou essa observação de si mesmo procurou também a explicação dos fenômenos cotidianos, como a procriação, a morte, a mudança das estações”.
A autora também recebeu um grande número de prêmios e distinções, entre eles 15 doutorados honoris causa de universidades como Yale, Harvard, Columbia, Cambridge, Lovaina (na Bélgica) e Cidade do Cabo. Publicou seu primeiro conto em uma revista sul-africana aos 15 anos. E em 1949, cerca de 10 anos depois, editou uma coleção de contos, Face to face. O primeiro romance, The lying days, por sua vez, é de 1953.
Em uma entrevista a este jornal no ano passado, ela dizia que nunca tinha sido uma escritora política, “mas a política está em meus ossos, em meu sangue, em meu corpo”. “Sou velha, talvez com espírito forte, mas com a carne frágil. Melhor falarmos de outra coisa”, afirmou ao ser perguntada sobre como se sentia.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Um grão de terra para Joãozinho

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(...)
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
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Um grão de terra para Joãozinho

A formiguinha revolve a terra
remexe os grãos
tira daqui leva pracolá

Na labuta e na luta
brinca, sorve, se embriaga
com a mágica poeira que tece e edifica sonhos
que sopra e conduz cacos, ciscos e vidas

E se cobre
se farta
lambuza-se de prazer a diminuta formiga

Inquieto e ensimesmado o esquálido Joãozinho assunta ... assunta ... assunta
empina o corpo tísico para só então perguntar

- Qui gostu tem essa terra daí, formiguinha?
- Sabor de framboesa, sim sinhô.
- Cunheçu não, sô.
- Humm ... umbu, açaí, cupuaçu, pequi, manga, caju ...
- Virge em cruz, gostoso toda vida, gosto de vida.

A formiguinha se enamora da terra
trabalho e construção
casa, coberta, abrigo de turmalina
lazer, pirraça e diversão
mel, comida, barriga cheia, água pura cristalina

Cada grãozinho de terra que a formiga amiga move, é o éden que revolve
Todo grão cintila ouro, exala prata
regurgita safira e diamante
Cada minúsculo pozinho tem trejeitos de mulher amante

Para a formiguinha que tem a terra
tudo é vida
tudo é trabalho tudo é ócio
tudo é mistério, aventura, tudo é só riso

Pobre Joãozinho
Criança miserável e travessa desdenhada por Deus e pelos homens
Só o anjo-pirralho não tem a terra para brincar, para plantar, para colher e para sonhar

Nesse mundão de valha-me-deus
Joãozinho não tem lugar ... qualquer lugar ... um único lugar

No gigante planeta Terra
descomunal santuário, templo sagrado dos espaços mais largos
a vida é estreita porque a gente simples não tem lugar

Não permitem existir na terra uma terra para amar.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

terça-feira, 8 de julho de 2014

O ‘tesouro’ oculto de Bob Dylan sai à luz 45 anos depois

Surgem 149 mini-LPs de gravações do cantor norte-americano num mezanino de Nova York


Por IRENE CRESPO, no jornal El País


Bob Dylan, em sua casa em Woodstock, no final dos anos sessenta. / COLUMBIA RECORDS

No fundo de um mezanino, no dormitório de um imóvel no térreo na rua Houston, 124-oeste, em Nova York. Lá, num canto, o último proprietário do edifício achou, depois da morte da sua irmã, a dona original, duas caixas de cartolina nas quais se lia: old records (discos velhos). Depois de abrir, se deparou com uma enorme coleção de discos, alguns com o nome de Bob Dylan nos envelopes, o endereço do seu selo discográfico, a Columbia Records, e o título da canção. Não sabia o que eram, só que deveriam ser importantes, porque recordava que sua irmã havia alugado aquele espaço para o cantor no final dos anos sessenta.
Eram 149 discos de acetato, mini-LPs de vinil. Ensaios e testes que Dylan fez entre o final dos anos sessenta e o começo dos setenta para seus álbunsNashville Skyline (1969), Self Portrait(1970) e New Morning (1970) e que nunca haviam saído dessas caixas. Até agora. “É definitivamente um dos achados mais importantes da minha carreira”, diz de Los Angeles, por telefone, Jeff Gold, ex-vice-presidente da Warner Bros. Records, conhecido colecionador musical fundador da Recordmecca e especialista na obra de Bob Dylan.
Foi para ele que o dono do imóvel telefonou quando percebeu o valor do que tinha em mãos. “Ele levou muito tempo para descobrir o que eram”, conta Gold, negando-se a revelar o nome do dono. “Os vinis contêm ranhuras em um só lado, são mais pesados do que o normal e não têm capa. Não sabia se eram todos de Dylan. Só que seriam peças de coleção.”


Um dos 149 acetatos, anotado com a caligrafia de Bob Dylan.
Depois de algumas conversas telefônicas, Gold voou para Nova York para ver o material de perto. “Quando abri as caixas e dei uma olhada, enlouqueci. Efetivamente todos eram discos de Dylan, em excelentes condições, e muitos deles tinham notas escritas à mão nos envelopes.” Embora não tenha podido escutá-los nessa viagem (porque é necessário um equipamento especial para discos tão delicados), não pensou duas vezes e ofereceu ao descobridor o dobro do valor que o proprietário havia imaginado. Quanto? O comprador se recusa a dar uma cifra, mesmo que aproximada. “Para mim não é uma questão de dinheiro: isto é história. O importante é descobrir como Dylan trabalhava em seus discos naquela época.”

Quando abri as caixas, enlouqueci", diz o colecionador Jeff Gold
No começo dos anos sessenta, Bob Dylan chegou a Nova York atraído pelo revival folk que se vivia então no bairro do Greenwich Village. Tudo mudou completamente com a chegada de Dylan, o dono da voz mais rouca entre todos os que cantavam em bares e praças por lá. Cantava melhor do que ninguém e, depois de lançar seus primeiros álbuns, alugou um apartamento na rua MacDougal e um térreo, a duas quadras, na rua Houston, 124-oeste, que ele usava como estúdio de gravação. Lá ele compunha, gravava os vinis que agora pertencem a Jeff Gold e os mandava a seu produtor, Bob Johnston, que morava em Nashville. Johnston fazia a mixagem e os mandava de volta com anotações – as mesmas que agora podem ser lidas nos garranchos recém-encontrados. “Mandei [a Johnston] algumas fotos dos vinis para ver se eram seus, e me confirmou que era a sua letra. As outras eram de Dylan”, continua. “Era a forma de manter o músico controlado à distância. E demonstra o quanto custava a Dylan refinar suas canções.”


O imóvel da rua Houston, 124-oeste, em Nova York, escondia o tesouro das gravações de Dylan.
Como reconhecido especialista e colecionador do cantor e compositor de Minnesota, Jeff Gold mantém uma boa relação com a equipe dele. Após passar três meses, com ajuda de amigos, “digitalizando, catalogando e fotografando todos os vinis”, chamou-os para oferecer cópias de tudo o que possuía. “E me agradeceram muito por isso. É provável que a Columbia Records tenha as matrizes de todos estes temas em seus arquivos, mas possivelmente não de algumas mixagens específicas.”
A maioria dos discos contém versões inéditas de canções que depois sairiam em três álbuns consecutivos. “Em alguns casos são desconhecidas”, diz Gold. “Nunca antes havia escutado as versões que ele fez dos temas de Johnny Cash,Folsom Prison Blues e Ring of Fire; nem a versão gospel que fez deTomorrow Is a Long Time, gravada, mas nunca incluída no álbum New Morning.”

Nunca antes havia escutado sua versão de 'Ring of Fire', do Cash"
Esses discos são alguns dos que ficarão com Gold, que considera esse descobrimento como um dos dois principais marcos em sua carreira de colecionador e fã de Dylan. “O outro foi quando encontrei em 2010 uma fita do seu show na universidade Brandeis, em 1963. Eu a vendi ao escritório de Dylan e o lançaram como um álbum ao vivo. E, sim, fico com os melhores e os mais interessantes”, diz, emocionado. O resto ele já começou a colocar à venda em seu site, o Recordmecca, a um preço que vai de cerca de 5.500 a mais de 16.000 reais.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

The Doors - Light My Fire



Jim Morrison: o tempo não apaga

Oficialmente, o líder da banda The Doors morreu de ataque cardíaco, aos 27 anos. Mas, três décadas depois, muitos fãs suspeitam de assassinato. E há os que acreditam que o músico ainda esteja vivo.

Marcos de Moura e Souza, na Revista Superinteressante


TEORIA - Jim Morrison foi assassinado
OBJETIVO - Evitar a propagação de idéias contrárias ao american way of life
A vida do vocalista e líder da banda The Doors, Jim Morrison, terminou no dia 3 de julho de 1971 devido a “causas naturais”. O músico americano foi encontrado por volta das 5 horas da manhã pela namorada, Pamela Courson, dentro de uma banheira, com os braços apoiados nas laterais, cabeça pendida para trás e o cabelo molhado. O local da cena foi um apartamento na rue Beautraillis 17, em Paris, onde Morrison morava fazia alguns meses. O médico francês que examinou o corpo decretou que a causa da morte foi ataque cardíaco. James Douglas Morrison tinha 27 anos. É essa, pelo menos, a versão oficial, difundida pela imprensa e estampadas em biografias e filmes sobre Morrison e The Doors. Mas, desde o anúncio da morte do músico, começaram também a surgir especulações, sugestões de complôs e teses bizarras em torno do desaparecimento do polêmico astro do rock. Algumas dessas histórias fazem com que, até hoje, muitos fãs questionem se Morrison realmente morreu do coração – ou se ele, de fato, morreu naquele verão em Paris.
Uma das teses mais disseminadas é a de que Morrison teria sido assassinado pelo FBI – à época comandado pelo lendário J. Edgar Hoover. Autor de vários livros, o poeta Morrison era aclamado pela juventude como um ícone libertário, um crítico do autoritarismo e do american way of life. Autoridades americanas o viam como um agitador, um militante anti-Guerra do Vietnã, alguém identificado com o ideário do movimento New Left (Nova Esquerda), combatido por Washington. A ficha do líder do The Doors era conhecida pelo FBI, que teria chegado a reunir 89 páginas de documentos sobre ele, segundo o pesquisador do rock Alex Constantino. Há quem suspeite que Jimi Hendrix e Janis Joplin também tenham sido apagados pela mesma conspiração. Numa entrevista concedida em 1991, o tecladista do The Doors, Ray Manzarek, disse acreditar que o FBI queria deter a influência de celebridades do rock, e que o alvo principal e mais “perigoso” era Jim Morrison. “Janis era só uma mulher branca cantando a respeito de encher a cara e transar bastante, enquanto Hendrix era um negro que cantava: ‘Vamos ficar loucos’. Morrison estava cantando ‘Queremos o mundo e o queremos agora’.”
O FBI teria armado um complô e infiltrado algumas pessoas no círculo pessoal de Morrison que, no final, providenciaram um cenário quase perfeito para a morte “por causas naturais”, como diria depois o empresário da banda, Bill Siddons. Alguns detalhes são suspeitos. À exceção da namorada Pamela, nenhum conhecido de Morrison viu o corpo. Quando Siddons chegou a Paris, “o que ele viu no flat de Jim e Pamela foi o caixão lacrado e o atestado de óbito com a assinatura de um médico. Não havia boletim policial ou médico no local. Não foi feita autópsia. Tudo o que ele tinha era a palavra de Pam de que Jim estava morto... Quem era o médico? Siddons não sabia; Pamela não se lembrava. Mas assinaturas podem ser forjadas ou compradas”, diz um trecho do livro No One Here Gets Out Alive (Daqui Ninguém Sai Vivo), de Jerry Hopkins e Danny Sugerman, biógrafos de Morrison. Pam morreria poucos anos depois. O médico que teria feito o exame, Max Vasille, nunca falou sobre o assunto.
Tem mais: Siddons esperou até 9 de julho – seis dias depois da morte – para anunciar publicamente o que havia ocorrido. Além disso, John Densmore, baterista dos Doors, afirmou ter achado estranho que o túmulo “era pequeno demais”. Nunca ficou claro como um pop star americano foi enterrado no cemitério de Père La Chaise, um monumento público francês onde estão os restos de notáveis como Balzac, Moliére e Oscar Wilde.
MORRISON, JIM MORRISON
Há, porém, outra história corrente que envolve a CIA no episódio. Morrison – consumidor de ácido e outras drogas, amante do álcool, habitué em orgias sexuais, acusado pela Justiça de atos obscenos, como exibir o pênis durante um show – seria também nada mais nada menos do que um agente da inteligência dos EUA. Sua morte teria sido forjada para que ele pudesse mergulhar em sua vida secreta. Um dos capítulos do livro Secret and Suppressed: Banned Ideas and Hidden History (Secretas e Suprimidas: Idéias Banidas e História Oculta, sem edição em português) diz que, logo nos primeiros anos após a “morte” do líder do The Doors, surgiram boatos de que alguém com nome de James Douglas Morrison – usando o codinome JM2 – vinha mantendo contatos com CIA, NSA e Interpol. Thomas Lyttle, autor do texto, diz que o “novo JM2 abandonou a velha identidade de estrela do rock and roll usada por JM1 para se tornar um James Bond de terno e gravata”.
O sumiço de Jim Morrison produziu também relatos quase sobrenaturais. Como o músico tinha interesse por misticismo, surgiram hipóteses de que ele poderia ter sido vítima de algum ritual de magia negra ou vodu. Se morreu ou não, Morrison, teria sido visto diversas vezes em 1973, em Los Angeles, freqüentando bares gays, segundo o mesmo Thomas Lyttle. Os rumores eram tantos que o tecladista Ray Manzarek declarou que não se surpreenderia se Morrison realmente estivesse vivo. “Se havia um cara que teria sido capaz de encenar a própria morte – pagando a algum médico francês para conseguir um atestado de óbito falso – e colocar sacos de areia com cerca de 70 quilos dentro do caixão e desaparecer em algum lugar deste planeta – África, quem sabe –, esse alguém seria Jim Morrison”, disse Manzarek, segundo um trecho de Secret and Supressed.
Em 1998, o fotógrafo e produtor de vídeo americano Gerald Pitts afirmou ter encontrado Morrison vivendo como um vaqueiro num rancho na região noroeste dos EUA. Pitts diz que o ex-músico fingiu ter morrido para escapar de um complô (mais um?) do governo francês, que desejava matá-lo por sua postura contra a Guerra do Vietnã. Evidentemente, Pitts vende vídeos produzidos por ele nos quais o ex-astro conta toda a “verdade”. Morrison teria hoje 62 anos.
Três décadas depois, quem poderá afirmar com certeza se a morte de Morrison foi provocada por um infarto, possivelmente pelo excesso de álcool e drogas, se foi resultado de uma overdose de heroína, como se sugeriu, ou se alguma das teorias tem um fundo de verdade? Morrison viveu intensamente seus 27 anos (ou mais). Em uma de suas canções, ele dizia: “Cancele minha inscrição para a ressurreição”. Uma vida assim basta.

7 cursos online para quem gosta de literatura

Complete seus estudos com vídeos gratuitos, sem ter que sair de casa
Por Edson Caldas, na Revista Galileu
Na web, você também pode aprender sobre literatura (Foto: Ginny/Flicker/Creative Commons)

Você nem precisa estar em época de vestibular: se curte literatura, estudá-la é o máximo. E que tal fazer isso sem sair de casa? Diversas instituições e até professores independentes disponibilizam vídeos gratuitos na web. Selecionamos sete alternativas para você:
Literatura, AulaDe.com.br
Material disponibilizado por um projeto educacional de professores brasileiros que querem democratizar o conhecimento por meio de aulas gratuitas.
Professor Wallace
O canal apresenta comentários e reflexões sobre língua portuguesa, literatura brasileira e redação para vestibulares.
Literatura, Aulalivre.net
Ministradas por Greice Cunha, as oito aulas ajudam a fixar e compreender conteúdos básicos da área.
Introdução à Teoria Literária, Yale
As 26 aulas ministradas por Paul H. Fry ajudam a dar o pontapé inicial para quem quer se aventurar por Teoria Literária. O curso aborda temas como semiótica, linguística e a construção institucional do estudo literário. Legendado em português.
Dante Alighieri e a Divina Comédia, Yale
Quer saber tudo sobre o poema épico de Dante Alighieri? Assista as 23 aulas de Giuseppe Mazzotta. O conteúdo é legendado em português.
Palavras, palavras, palavras!, TED
Uma seleção de palestras bem interessantes envolvendo literatura. Tem "Como a linguagem transformou a humanidade", de Mark Pagel, "tc mata a linguagem. OMG!!!", de John McWhorter, e muitas outras. Legendado em português.
Cervantes' Don Quixote, Yale
As aulas comandadas por Roberto González Echevarría facilitam uma leitura aprofundada de Don Quixote, situando seu contexto artístico e histórico. Em inglês.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A narrativa ausente


Demétrio Magnoli, no Jornal O Globo

"Decifra-me ou devoro-te!” O eco do desafio mitológico da esfinge de Tebas acompanha a divulgação das sondagens eleitorais. Na etapa final da campanha, não existem enigmas difíceis: a trajetória das intenções de voto diz tudo o que importa.
Contudo, nas etapas prévias, o panorama é mais complexo. Os analistas têm destacado as informações sobre a vontade de mudança do eleitorado e os índices de rejeição da presidente que busca a reeleição.
São dados relevantes na equação, mas não deveriam obscurecer um outro, que configura um paradoxo: o crescimento das intenções de voto nos candidatos de oposição continua longe de refletir a vontade majoritária de mudança. Se não interpretarem corretamente o paradoxo, os oposicionistas oferecerão a Dilma Rousseff um triunfo que ela não pode obter por suas próprias forças.
Publicamente, o PSDB e o PSB asseguram que o crescimento das candidaturas de Aécio Neves e Eduardo Campos é só uma questão de tempo — ou seja, de exposição no horário eleitoral. Na hipótese benigna, eles não acreditam nisso, mas falam para animar suas bases.
A hipótese maligna é que se refugiam no pensamento mágico, acalentando o sonho de uma vitória por default. De um modo ou de outro, parecem longe de admitir o que as sondagens eleitorais insistem em demonstrar: ambos carecem de uma narrativa política capaz de traduzir o desejo majoritário de mudança.
A candidatura de Eduardo Campos sofre de um mal de origem. O ex-governador de Pernambuco era, até ontem, um “companheiro de viagem” do lulismo, e sua vice, Marina Silva, fez carreira política no PT, ainda que sua dissidência já tenha uma história. Desse mal, decorre um frágil discurso eleitoral: a “terceira via”, ao menos na versão de Campos, é um elogio do “lulismo sem Dilma”.
O discurso viola a verdade política, pois o governo Dilma representa, em todos os sentidos, o prolongamento dos mandatos de Lula. De mais a mais, é inverossímil, pois o eleitorado aprendeu que “Lula é Dilma” e “Dilma é Lula”.
A candidatura de Aécio Neves sofre de um mal distinto, evidenciado nas campanhas presidenciais de Geraldo Alckmin, em 2006, e de José Serra, em 2010: o PSDB não sabe explicar o motivo pelo qual quer governar o país. Oito anos atrás, Alckmin apostou suas chances na tecla da denúncia de corrupção.
Há quatro anos, Serra investiu nas suas qualidades pessoais (a “experiência”) e no tema da “gestão eficiente”. A despolitização do discurso dos tucanos refletiu-se na apagada atuação parlamentar de Aécio, que nem sequer tentou transformar sua tribuna no Senado em polo de difusão de uma mensagem oposicionista.
Não é fortuito que, a essa altura da corrida presidencial, suas intenções de voto permaneçam tão abaixo dos índices de rejeição à candidatura de Dilma.
O PSDB tem algo a aprender com o PT. Nos seus anos de oposição, o PT construiu uma narrativa sobre o governo e a sociedade que, mesmo se mistificadora, sintetizava uma crítica fundamental às políticas de FH e indicava um rumo de mudança.
Naquele tempo, o PT dizia que os tucanos governavam para a elite, acentuavam as desigualdades sociais e, no programa de privatizações, queimavam o patrimônio público no altar dos negócios privados. O PSDB desperdiçou seus anos de oposição sem fazer a defesa do legado de FH, propiciando a cristalização da narrativa petista.
Consequência disso, não formulou uma crítica de conjunto aos governos lulopetistas, limitando-se a aguardar que, num passe de mágica, o poder retornasse às suas mãos. Agora, Aécio só triunfará se produzir, em escassos meses, a narrativa que seu partido não elaborou ao longo de 12 anos.
Lula disse, várias vezes, e com razão, que “os ricos nunca ganharam tanto dinheiro como nos seus governos”. O PT governa para a elite, subsidiando pesadamente o grande capital privado enquanto distribui migalhas do banquete para os pobres, a fim de comprar seus votos.
O contraste entre os valores envolvidos no Bolsa Empresário e os dispêndios no Bolsa Família contam uma história sobre o lulismo que o PSDB ocultou enquanto fingia fazer oposição. Terá Aécio a coragem de expô-la, mesmo às custas de desagradar ao alto empresariado?
Nos três mandatos do lulopetismo, o governo promoveu o consumo de bens privados, descuidando-se da geração de bens públicos. Os manifestantes de junho de 2013 foram rotulados pelo PT como “despolitizados” por apontarem essa contradição, levantando as bandeiras da educação e da saúde (“escolas e hospitais padrão Fifa”).
No fundo, as multidões que ocuparam as ruas até serem expulsas pelos vândalos e depredadores estavam tomando uma posição sobre as funções do Estado. Terá Aécio a lucidez de reacender esse debate, do qual o PSDB foge sempre que o PT menciona a palavra “privatização”?
O sistema político do país vive um longo outono, putrefazendo-se diante de todos. A “solução” oferecida pelo PT é uma reforma política que acentuaria seus piores aspectos, junto com a rendição do Congresso à pressão dos “conselhos participativos”.
Mas a raiz da crise crônica está fora do sistema político: encontra-se na própria administração pública, aberta de par em par à colonização pelos partidos políticos. Aécio promete operar uma cirurgia puramente simbólica, reduzindo o número de ministérios. Terá ele a ousadia de, desafiando o conjunto da elite política, propor um corte profundo, radical, no número de cargos públicos de livre indicação?
Ano passado, ouvi de uma assessora econômica tucana a profecia de que, antes do fim da Copa, um colapso econômico provocado pela inversão da política monetária americana decidiria a eleição presidencial brasileira.
Era um sintoma da persistência do pensamento mágico que hipnotiza o PSDB desde a ascensão de Lula à presidência. Não: o Planalto não cairá no colo de Aécio. Para triunfar, ele precisa oferecer ao país uma narrativa política coerente.

Demétrio Magnoli é sociólogo

segunda-feira, 30 de junho de 2014

As seis regras do George Orwell sobre como escrever bem

Alexandre Versignassi, na Revista super Interessante
orwell
O George Orwell, aqui em cima, fez um mini-guia de redação. São só seis regras – e tão boas que abrem o Manual de Estilo da Economist, a revista mais bem-escrita do mundo. A elas:
1. Em circunstância alguma utilize um vocábulo extenso onde um reduzido soluciona.
2. Se, por algum acaso, for possível cortar, eliminar, extirpar uma palavra, não se dê de rogado: elimine-a de uma vez por todas.
3. A voz passiva não deve ser utilizada quando a voz ativa puder ser escrita.
4. Nunca use figuras de linguagem que já viraram arroz de festa. Eles podem ser o calcanhar de aquiles do seu texto. Não faça isso, nem pela bagatela de um milhão de reais. Correm boatos de que, só evitando expressões assim, você garantirá textos de qualidade, se tornará uma figurinha carimbada da escrita e será regiamente recompesado por seus leitores, como nunca antes na história deste país.
5. Não empregue um calão tecnicista quando tiver o arbítrio de elocubrar uma elocução de uso anfêmero. E, finalmente:
6. Quebre qualquer uma dessas regras antes de escrever bosta.
————————–
Nossa, como eu sou engraçado. Agora em português:
1. Não use uma palavra longa se uma curta resolve.
2. Se der para tirar alguma palavra, tira.
3. Não use a voz passiva quando der pra usar a ativa.
4. Nunca use figuras de linguagem que você esteja acostumado a ler por aí. Elas viraram lugar-comum. Perderam a graça.
5. Não use um jargão quando você puder imaginar uma palavra do dia-a-dia. E finalmente:
6. Quebre qualquer uma dessas regras antes de escrever algo que soe tosco.
——————————-
E agora no original, porque quem escreve bem é ele, não eu:
1. Never use a long word where a short one will do.
2. If it is possible to cut a word out, always cut it out.
3. Never use the passive when you can use the active.
4. Never use a metaphor, simile or other figure of speech which you are used to seeing in print.
5. Never use a foreign phrase, a scientific word, or a jargon word if you can think of an everyday English equivalent; and finally.
6. Break any of these rules sooner than say something outright barbarous.
———
É isso.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

AS LIÇÕES DE JETRO!

Jetro, sacerdote de Mídia, teria se aborrecido ao aguardar durante o dia inteiro, em uma fila, a oportunidade para falar com o genro, Moisés.

Quando, após a longa espera, viu Moisés à sua frente, questionou, sem meias palavras:

-Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o pôr-do-sol?

Ao obter a resposta, ficou mais impaciente ainda. Moisés tentou explicar a longa fila argumentando que a ele acorria todo o povo em busca de solução para seus problemas. Jetro então orientou que Moisés escolhesse, dentre seus homens mais capazes e que não comungassem da avareza, líderes do povo, que seriam designados chefes de 1.000, chefes de 100, chefes de 50 e chefes de 10. A esses chefes caberia a resolução dos problemas de mais simples solução, restando a Moisés somente os que passassem pela peneira da hierarquia dos líderes, os problemas de natureza mais complexa.

Ao atender ao conselho do sogro, Moisés estabeleceu um dos primeiros arranjos organizacionais que se tem referência na civilização.

A um só tempo descentralizou a gestão, hierarquizou o comando e o nível das decisões, delegou competências, incorporou os mais aptos no processo gerencial, conseguindo impregnar a administração do Êxodo de racionalidade, de eficácia.

No período que se estende de 4.000 a.C a 2.000 a.C, os egípcios perceberam as vantagens do planejamento e desenvolveram técnicas eficazes de organização e controle, estimulando a descentralização nas suas organizações.

Apesar do aprendizado humano nessa área remontar a períodos tão distantes, como demonstram os exemplos descritos, no Brasil muito pouco avançamos nesses setores.

É raro o cidadão comum recorrer a uma instituição qualquer, pública ou privada, sem que seja submetido a uma via sofrida e tortuosa de filas e esperas, mais filas e mais esperas. E quando de desvencilha de um setor, lá vai ele enfrentar fila em novo departamento.

Nas repartições públicas, as filas se multiplicam como erva daninha. Rompem em todos os departamentos e setores, desdenhando e fazendo pouco caso dos contribuintes, dos cidadãos.

Num mundo globalizado em que as relações econômicas e financeiras se processam em tempo real, todos nos tornamos escravos do sistema bancário. A agência bancária é, sem dúvida, o lugar onde amargamos as mais longas e estressantes filas, o lugar onde percebemos nossas vidas se perder como areia escapando dentre os dedos. Ao contrário de diminuir, à medida que passam os anos, as filas se tornam mais longas e estressantes.

Em 1994, os 11 maiores bancos do país tiveram um lucro de R$ 1,3 bilhão. Passados nove anos, em 2003, esses mesmos bancos acumularam lucro da ordem de R$ 13,8 bilhões, um incremento de mais de 1.000%. Se uma parte desses lucros - irrisória que fosse - tivesse sido aplicada na erradicação das filas e na qualificação do atendimento ao cliente, o problema estaria solucionado ou ao menos reduzido a um tamanho administrável.

Mas também na educação, a modernização administrativa se restringe ao acervo documental e às cartas de intenções. As filas se multiplicam por todos os lados. Há filas para solicitar informações, filas para se inscrever aos processos seletivos, filas para pré-matricular, filas para confirmação de matrícula, filas para requerer documentos, declarações e certificados, filas para acessar a secretaria, filas para demandar a coordenação pedagógica, filas para interagir com a direção, filas até mesmo para utilizar os equipamentos culturais e esportivos e para fazer uso do banheiro.

E de tal forma as filas se tornaram parte de nosso cotidiano que passamos a acreditar que elas são naturais, inerentes, da estrutura e da essência do sistema.

Se as escolas e unidades de ensino se constituem (deveriam ao menos!) num centro de estudos, pesquisas e reflexões sobre a sociedade e suas organizações, seria razoável supor que pelo menos nelas, este tipo de distorção encontrasse algum tipo de reação. Não é o que ocorre.

Os educadores não podem perder de vista que, pelo fato de lidar com a pesquisa, a reflexão social e a investigação científica, cabe a eles um papel muito maior de racionalizar o fluxo de pessoas – sejam ou não clientes - e os processos de atendimento. Admitir filas em qualquer instituição já é uma distorção, uma mostra da incompetência generalizada da direção responsável. Já filas numa instituição de ensino é aberração injustificável e das mais inaceitáveis.

Quem sabe deveríamos retornar aos idos de Moisés e escutar com mais atenção às lições do velho sacerdote Jetro?!

Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.