Meus queridos, logo
abaixo segue um texto que escrevi em 2007, mas que – infelizmente – mantem-se
na ordem do dia:
As últimas
pesquisas, efetuadas pelo MEC e por organismos internacionais, registram a
mediocridade em que se encontra o sistema de ensino brasileiro, sobretudo, no
que refere-se à qualidade.
Em torno de 50% dos alunos brasileiros situados na faixa etária dos 15 anos,
estão no chamado nível 1 de alfabetização, indicador estabelecido pela Unesco
para classificar a performance dos estudantes. Neste patamar, estão aqueles que
mal conseguem efetuar leitura e interpretação de textos. Em um dos mais
recentes levantamentos, considerando 41 países pesquisados, o Brasil ficou na
37ª posição, à frente apenas de quatro países. No continente americano vencemos
apenas o Peru.
A gravidade da situação que estes indicadores desnudam, está a enfatizar que
metade dos alunos brasileiros, com bom aproveitamento acadêmico, que desde
sempre estiveram na escola, não dominam a língua pátria e são incapazes de
extrair dos textos seus significados. Passam quase dez anos na escola regular
sem quase nada aprender. É uma pantomina em que todos enganam-se mutuamente: o
estado presta contas divulgando inaugurações de novas e mais novas escolas, os
pais contentam-se com um espaço onde possam deixar os filhos, qualquer espaço -
desde que fora da violência das ruas - e os alunos acomodam-se na ignorância,
que não exige esforço, estudos e trabalhos. E o país amplia a distância que o
separa dos países desenvolvidos.
Para construirmos uma nova realidade para a educação, urge entendermos o caos
em que nos encontramos. É o primeiro passo, identificar com precisão nossos
problemas, para que tenhamos condições de encará-los de frente, estabelecendo
políticas, diretrizes e estratégias que os conformem aos objetivos e metas
traçados. Para criar um país desenvolvido, em que as oportunidades e a justiça
sejam patrimônio de todos, será preciso muito mais.
As edificações destinadas ao ensino carecem de reformas, adequações e
principalmente, um novo conceito. Estes espaços devem ser reconcebidos. As
salas de aula convencionais, não mais respondem às necessidade contemporâneas.
O espaço em que interagem professor e aluno deve se ampliar para todo o espaço
de convivência comunitária. As ruas, praças e demais logradouros e equipamentos
públicos devem ser extensões de nossas salas de aula. Todo o ambiente que nos
envolve deve ser utilizado como salas de aula, laboratórios de pesquisas e
oficinas de aprendizagem. A realidade é que a escola sempre funcionou como uma
instituição externa à sociedade. Sobretudo neste momento em que a violência
urbana as têm tangido para o isolamento. Muralhas de concreto armado, cercas
eletrificadas, sistemas de monitoramento eletrônico, cães de guarda... vultosos
investimentos que deveriam se destinar à área pedagógica, são carreados para o
setor de segurança.
De igual modo, os conteúdos ministrados estão defasados, inadequados. Os
assuntos são tratados e abordados de forma cartesiana e mecânica, de modo que
não exercem fascínio, não exercem encanto sobre os alunos. Agrava o quadro o
sistema adotado de remuneração dos professores: salários miseráveis que retiram
de um dos principais atores deste processo, o estímulo. Pior, afeta de maneira
irremediável a auto-estima dos educadores.
Mas nem tudo foi ou está perdido.
No último século o país investiu na universalização do ensino, massificando a
oferta de vagas. E neste sentido, muito foi conquistado. No ano de 2000, a taxa
de escolarização da população de 7 a 14 anos - faixa destinada ao ensino
fundamental - chegou a 94,5%. É um dado extremamente relevante, que não deve
ser ignorado.
Outras conquistas merecem registro. Nos idos de 1940, a taxa de analfabetismo
se situava em torno de 65,1% da população com mais de 15 anos de idade. No ano
de 2000, esta taxa era de 13,6%. São indicadores que ainda não satisfazem ao
anseio de progresso e desenvolvimento da sociedade, mas enfatizam
categoricamente que é possível avançar quando há vontade política e
determinação.
É evidente que muito ainda há o que fazer. Quando cotejamos estes dados com os
dos demais países - inclusive os latino-americanos - é que percebemos o quanto
estamos atrasados. Mas ignorar os progressos obtidos até aqui seria um erro tão
elementar quanto o de ignorar a necessidade de novos e urgentes investimentos,
agora priorizando a qualidade e não a quantidade.
Assim como estamos ganhando a batalha da massificação da oferta de vagas,
deveremos agora enfocar o desafio de massificar a qualidade.
E qualidade refere-se, sem dúvida, à edificações, conteúdos e didáticas
adequadas. Mas refere-se também à criação de um eficiente e continuado processo
de qualificação da mão de obra, o que inclui a adoção de vigorosos processos de
capacitação, planos de progressão funcional, e de políticas salariais
consistentes.
Direção, professores, servidores e comunidade, devem estar plenamente engajados
na construção deste novo cenário, onde a universalização se dê pelo acesso,
como também pela qualidade.
Hoje, na área da educação, é visível o descompasso entre estes dois
componentes: quantidade e qualidade. E mais: o buraco negro que separa o acesso
(quase universalizado) da qualidade do ensino, compromete de maneira
determinante nosso desenvolvimento social, fazendo com que gerações e gerações
percam sonhos e oportunidades.
Responder, com sabedoria e rapidez, a este desafio é o que está na ordem do
dia.
Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal Goiás
Educação.
Em
fevereiro de 1914 surgiu nas telas o mendigo profissional mais famoso da
história do cinema, criado por Charles Chaplin, que se tornou Carlitos
Charles Chaplin, Charlot, em um fotograma de 'O garoto'
de 1921.
Do Deutsche Welle
Em fevereiro de 1914 apareceu nas telas o vagabundo
profissional mais famoso da história do cinema. Nasceu entre a fuligem de
Londres de 1889, no ano em que o filho de Sisi e Francisco José de Habsburgo se
suicidou.O canto de
dois séculos turbulentos, quando as crises europeias empurravam a emigração a
América.Charles Chaplinnos mostraria seu ritual azarado
emImigrante(1917). O cômico fugitivo judeu
dos subúrbios londrinos, do abrigo, dos problemas familiares, da loucura
materna, parou em Hollywood em 1914 e, em seus três primeiros curta-metragens
compõe sua iconografia detramp,
de vagabundo, com ecos de Dickens deOliverTwist, da malandragem de Henry Fielding
e do teatro de pantomima.
Sua composição é uma verdadeira paródia: adota o
chapéu-coco e a bengala próprios da burguesia, o bigodinho dos galãs sedutores,
mas seus sapatões bagunçados e suas calças esfarrapadas evidenciam sua
contradição. É o ano em que Freud publicaIntrodução ao
narcisismo.Anti-herói grotesco, inventa uma linguagem corporal que
torna a palavra desnecessária e se permite às vezes a heresia dramática de
olhar à câmera, isto é, ao público, para ativar sua empatia. Logo inaugura sua
famosavoltinhaao virar uma esquina, geralmente
fugindo de um policial ou de um jagunço: para ele são a mesma coisa. Nos
Estados Unidos se tornou rapidamente o familiar Charlie, Carlitos na América
Latina e Charlot na França e Espanha.
A poética da marginalização suburbana, que nos conduzirá
ao romanceTortilla Flat(1935),
de JohnSteinbeck, nasce no ano da
Primeira Guerra por obra de Carlitos, o anti-herói da periferia e marginalizado
que nos faz rir, porque executa as irreverências e estragos que todos
gostaríamos de provocar alguma vez. Mas também nos comove, exercendo de um pai
ao que arrebatam seu filho adotivo no filmeO Garoto(1921). Ou buscando o amor nos olhos
de Mabel Normand, sua colega habitual. O mundo intelectual se rende diante
dele: Gómez da Serna fala de “Charlotismo” e Francisco Ayala o define como “o
homem que sobra” das ruas e dos cais. E, a pesar das muitas mutações, seu
bigodinho permanecerá inalterável até que se confunda com o de Hitler na
tragicomédia doGrande ditador(1941).
A distribuição de
músicas por portais de streaming como o YouTube foi um dos temas mais
discutidos no Midem, feira de música em Cannes. O futuro do setor pode estar
nesse tipo de serviço online, dizem especialistas.
Há cerca de dois
anos, Marius Lauber, um músico alemão completamente desconhecido, postou na
internet, sob o pseudônimo Roosevelt, uma faixa demo com o belo
título Sea. Pouco tempo depois, o músico estava tocando em clubes
famosos como o Berghain, em Berlim, ou o Le Bain, em Nova York – e os
críticos musicais lhe prognosticavam uma grande carreira.
"Fiz o upload
da música no YouTube, sem pensar em ser descoberto. Mas a faixa chamou a
atenção do selo Greco-Roman, e então nos encontramos", disse Lauber, pouco
depois da divulgação de sua primeira música numa rádio pela internet, no final
de 2012. "Um ano depois, tudo estava assinado e selado", conta.
A história de
sucesso de Roosevelt não é um caso isolado e mostra como portais de streaming
como YouTube, Soundcloud, Spotify ou o recém-criado Beats Music estão mudando a
maneira como músicos são descobertos e ouvidos. Esse desenvolvimento preocupa a
indústria musical – que culpa parcialmente os portais de streaming pelas perdas
financeiras do setor – há bastante tempo. Nos últimos 15 anos, as vendas caíram
quase pela metade.
Em busca de talentos pelo
Twitter
Thom Yorke (d) diz
que streaming prejudica a sua banda, Radiohead
Mas nem todos veem
a situação de forma tão obscura. Lyor Cohen já foi chefe do selo de hip-hop
americano Def Jam e executivo da Warner Music Group. Na maior feira mundial da
indústria musical, o Midem (Mercado Internacional do Disco e da Edição
Musical), ele apresentou em Cannes, na França, o seu novo projeto 300,
afirmando: "Eu acredito firmemente que o streaming é o futuro de uma
indústria musical saudável."
Ao filtrar e
analisar dados relacionados à música da internet, Cohen pretende contornar a
morosa burocracia dos grandes selos. O nome 300 já diz tudo:
ele alude à Batalha das Termópilas, na Grécia antiga, quando 300 espartanos
conseguiram derrotar milhares de soldados persas.
Cohen explicou que
a ideia central de seu modelo é uma parceria com o serviço de microblog
Twitter, de onde, futuramente, ele poderá acessar grandes quantidades de dados
musicais, incluindo informações como a localização de usuários (artistas), não
acessíveis publicamente.
Em contrapartida,
o projeto 300 irá utilizar suas descobertas para apoiar o
Twitter no desenvolvimento de um software que deverá ser útil também para
outros empresários musicais.
As intenções de
Cohen são claras: graças a tais informações da web, ele pretende descobrir
novatos como Roosevelt antes de caírem nas redes de um caça-talentos
convencional. A ideia é saber que artistas estão atraindo atenção e onde.
YouTube – pirataria legal?
Quando ouvem falar
de um novo artista, o YouTube é frequentemente o ponto de partida. Em Cannes,
ficou bastante evidente a frustração da indústria musical com esse fato. Axel
Dauchez, executivo-chefe do serviço de streaming Deezer, foi direto ao ponto: a
falta de pagamento a muitos artistas transforma tais websites em
"importantes piratas legais", disse.
will.i.am, do
Black Eyed Peas, faz palestra no Midem
Também o líder da
banda Black Eyed Peas, o cantor americano de rap will.i.am, criticou que os
artistas são deixados de fora de todas as operações de pagamento. Outros
serviços de streaming também sentiram recentemente a fúria de músicos como Thom
Yorke, da banda Radiohead, ou de David Byrne, líder do lendário grupo pós-punk
Talking Heads. Eles se queixaram de que a remuneração dos serviços de streaming
seria desproporcional ao esforço artístico.
As vendas nos EUA
mostram os efeitos dos sites de streaming. A consultoria de dados SoundScan
relatou no site da revista Billboard que, em 2013, o número de
downloads no mercado americano – o maior do mundo – caiu pela primeira vez.
Também a venda de CDs caiu por volta de 14%, enquanto o streaming de canções
aumentou em quase 32%, para 120 bilhões de acessos.
Na Alemanha, que
pertence aos cinco maiores mercados musicais do mundo, os números de 2013 ainda
não foram divulgados. Estatísticas preliminares, no entanto, apontam que as
vendas de CDs caíram 2%, enquanto a receita na área digital cresceu, por outro
lado, em 12% – e isso engloba o streaming.
Possível crescimento
bilionário
Marc Geiger, chefe
do departamento de música da agência de talentos William Morris Endeavor, não
vê nenhum motivo para pessimismo nesses números. No Midem, ele apelou a seus
colegas para que, finalmente, reconheçam que o download de músicas irá
pertencer, em breve, ao passado – e que o futuro está no streaming.
Ele estima que a
indústria musical tenha conseguido a sua maior receita até agora no final da
década de 1990, quando o setor lucrou cerca de 40 bilhões de dólares. Ele
prognosticou aos participantes do Midem que, em 15 anos, os lucros com o
streaming poderão girar em torno de mais de 100 bilhões de dólares.
Essas projeções
têm como base os seguintes pré-requisitos: no início, o preço das assinaturas
deve ser baixo, depois deve aumentar continuamente. Taxas mensais devem ser a
regra e não a exceção, e os serviços de streaming poderiam, no futuro, ser
associados a outros serviços.
A empresa de
telefonia americana AT&T, por exemplo, coopera com o Beats Music. Esse
serviço de streaming, criado pelo produtor e cantor de hip-hop Dr. Dre, pode
vir a ser um precursor dessas ofertas combinadas.
Evitar o "efeito
jukebox"
O streaming inclui
também outro problema, disse o executivo-chefe da Deezer, Axel Dauchez, à
Deutsche Welle. Os usuários só escutam músicas e artistas que já conhecem.
Segundo Dauchez, os caminhos se fecham então para que artistas novos e
experimentais possam divulgar as suas músicas.
"Se o streaming é para
ser algo sustentável, devemos todos trabalhar para que este serviço possibilite
ao usuário a descobrir coisas novas", disse Dauchez. No entanto, antes que
os internautas descubram novas músicas nos exclusivos serviços de streaming, é
preciso pagar as taxas. Quantos desses usuários estarão dispostos a pagar tais
assinaturas será, nos próximos anos, uma questão chave para a indústria
musical.
Há 25 anos, último fugitivo era morto ao
tentar pular o Muro de Berlim
Do Deutsche Welle
Chris
Gueffroy tinha apenas 20 anos quando tentou escapar do regime comunista alemão
de uma maneira extremamente arriscada: atravessando a fronteira vigiada que
dividia Berlim. Nove meses depois, o Muro caía.
Era pouco antes da meia-noite de 5 de
fevereiro de 1989. Os jovens Chris Gueffroy e Christian Gaudian atravessam uma
área de pomares de Berlim Oriental, dirigindo-se ao Canal Britz. Através dele,
esperam conseguir atravessar uma das fronteiras mais bem vigiadas do mundo: o
Muro de Berlim.
Os dois
têm a informação – que depois se verificou falsa – de que a ordem para matar
quem tentasse fugir pelo Muro teria sido revogada. Ela foi obtida junto a uma
fonte que consideram confiável: um guarda de fronteira que trabalha na
Turíngia.
Bravamente,
eles pulam a primeira barreira de mais de três metros – o chamado "muro
interior" – e tentam passar por uma cerca. Sem querer, um deles aciona o
alarme, e holofotes rapidamente se acendem, iluminando toda a área.
Correndo,
os dois chegam ao último obstáculo, uma cerca de quase três metros de altura.
Desesperados, eles tentam se ajudar mutuamente a vencer também aquela barreira.
Mas guardas de fronteira descobrem os dois fugitivos e abrem fogo. Chris
Gueffroy morre com um tiro no coração, e Christian Gaudian é gravemente ferido
e, depois, preso.
O barulho
de tiros chega a ser ouvido por Karin Gueffroy, mãe de Chris. Só dias depois,
ela soube que seu filho tinha morrido naquela noite. Ele foi a última vítima da
ordem de disparo obedecida pelos guardas de fronteira do antigo Muro de Berlim.
Cifras incertas
Chris Gueffroy é considerado o último morto a
tiros no Muro de Berlim
Não
existem cifras precisas sobre o número de mortos pela polícia de fronteira da
Alemanha Oriental. Além da área do Muro propriamente dito, os guardas vigiavam
também os 1.400 quilômetros que separavam as duas Alemanhas. Mas uma rede de
pesquisa ligada à Universidade Livre de Berlim quer, agora, detalhar os
números.
"Atualmente,
estamos analisando 1.036 casos de pessoas que são conhecidas nominalmente. Há
também 192 casos de pessoas desconhecidas", diz o pesquisador Jan Kostka.
O historiador
explica que as autoridades da Alemanha Oriental não costumavam listar as
pessoas mortas na fronteira. Pelo contrário, elas procuravam esconder essas
mortes. As famílias das vítimas eram forçadas ao silêncio pela Stasi, a polícia
secreta dos comunistas.
A própria
família de Chris Gueffroy recebeu uma informação vaga de que o rapaz havia
morrido quando, segundo a versão oficial, atacou uma zona militar interditada.
Mas a mãe levantou dúvidas, pois havia ouvido tiros naquela noite. Duas semanas
mais tarde, a família colocou um comunicado de morte no jornalBerliner
Zeitung, mencionando um "acidente", uma expressão então
indicada para tais casos.
Caso foi exceção
Guardas tinham ordens para atirar em quem
tentasse fugir do país
Vários
jornalistas ocidentais compareceram ao enterro. A Rias, antiga estação de rádio
de Berlim Ocidental, relatou: "A formulação vaga sobre a maneira trágica
que Chris fechou seus olhos para sempre foi repetida no discurso do orador
profissional do funeral.
Não foi
possível saber mais nada de oficial sobre a causa da morte. Um grande
contingente de forças da Stasi se espalhou desde cedo pelo cemitério."
A atenção
tornou o caso Gueffroy uma exceção. Na maioria das mortes, a intimidação das
famílias e a ocultação por meio da Stasi tinham sucesso pleno, com efeitos que
podem ser sentidos até hoje.
"Este
trabalho de pesquisa é muito detalhista e outras informações têm que ser sempre
acrescentadas ao processo", explica Kostka. "Avaliamos relatórios
mensais ou mesmo diários de instituições que foram envolvidas nos
acontecimentos na fronteira para saber se havia relatos de mortes."
Sistema desumano
Até agora foram contabilizadas 138 mortes no
Muro de Berlim. O número é baseado nas mais recentes descobertas da rede de
pesquisa da Universidade Livre de Berlim e complementa um projeto do Memorial
do Muro de Berlim e do Centro de Investigação Histórica de Potsdam.
Fronteira entre as Alemanhas, fora de Berlim,
tinha 1.400 quilômetros
As
pesquisas levaram em conta apenas as mortes em que houve uma conexão direta com
o regime da fronteira, incluindo pessoas baleadas que não tinham intenção de
atravessar a divisa ou de guardas que foram mortos ao tentar fugir da Alemanha
Oriental. No entanto, não estão incluídos aqueles se suicidaram por não
suportarem viver presos num país cercado por um muro.
A
vice-diretora do Memorial do Muro de Berlim, Maria Nooke, diz que as histórias
de vida dessas pessoas é mais importante que o número de mortos na fronteira:
"A questão decisiva é saber o que essas pessoas viveram, porque assumiram
tal risco e quais foram seus motivos."
Chris
Gueffroy tinha apenas 20 anos quando foi morto. Ele deveria se apresentar ao
serviço militar, mas preferia viver em liberdade e viajar o mundo a servir à
Alemanha Oriental. Nove meses depois de seu assassinato, em 9 de novembro de
1989, o Muro de Berlim caiu.
De líder estudantil a camareiro de
hotel; a 'mudança' de um bengali para o Brasil
Mariana Della
Barba, da BBC Brasil
Faruk Hussain teve seu dinheiro roubado
e foi obrigado a atravessar parte da Amazônia a pé
"Depois que eles me ameaçaram com uma arma, eu
disse: 'Chega'. Sentei com a minha família e decidimos que eu precisava fugir
de Bangladesh. E rápido. Tentei visto para a Alemanha e para a Noruega, mas não
consegui. Fiquei sabendo de um agente que me levaria em poucos dias para o
Brasil por US$ 10 mil. Paguei US$ 5 mil adiantado, me despedi de todos e
embarquei com ele em um avião."
Assim começou a jornada de Faruk Hussain, administrador e
líder estudantil de 25 anos, para deixar Daca (capital de Bangladesh) e tentar
uma vida no Brasil. Leia o depoimento que o bengali deu à BBC Brasil, por
telefone, de Brasília, onde vive atualmente.
"Eu era ligado ao movimento político e estudantil
havia muito anos, então tinha uma certa influência nessa área lá em Daca. Mas
homens ligados ao partido (governista) Awami não gostavam dessa minha posição
política, porque eu sou ligado à oposição. Então eles começaram a me perseguir.
A maioria deles é viciada em drogas, o que só piorava minha situação.
Um dia, estava de moto e me pararam. Me levaram para uma
área meio deserta e encostaram uma arma em mim. No final, eles roubaram minha
moto, não sem antes fazerem muitas ameaças. Então, vi o quanto era sério e tive
de fugir.
Todo mundo me pergunta por que eu atravessei meio mundo e
vim parar no Brasil, por que eu não poderia fugir para um país mais perto de
casa. Mas não teria com eu ir para nenhum país próximo a Bangladesh. No Oriente
Médio, você pode ser baleado ao tentar entrar em alguns países sem visto. Para
um bengali também é muito difícil entrar e permanecer na Europa.
Já no Brasil tudo mundo me falava que era, sim, possível.
Então, eu me agarrei nessa certeza e paguei o agente.
Para chegar aqui, primeiro passei pelo Peru e depois pela
Bolívia. Ninguém me pediu visto, ninguém me fez nenhuma pergunta sequer. O
agente que estava comigo dava dinheiro para os oficiais nos aeroportos e pronto”.
Na Bolívia, ele pagou US$ 75 e pronto, o cara carimbou meu passaporte.
Perigo na Amazônia
O trajeto de avião até a Bolívia, via Peru, até que foi
simples. O problema começou depois. Do aeroporto de Santa Cruz (Bolívia),
pegamos um ônibus até a fronteira com o Brasil. Lá, o tal agente roubou todo o
meu dinheiro e me entregou para um outro cara, que me obrigou a entrar na
selva.
Cada vez que eu tentava reclamar, dizer que não era esse
o trato ou dizer que estava havia dois dias sem comer, ele me batia ou me
chutava. Isso no meio da Amazônia. Foi muito difícil essa travessia, muito
perigoso, não gosto muito de lembrar.
Refúgio
x Residência
Juntamente com Faruk Hussain, mais de 4 mil estrangeiros
tiveram sua situação regularizada pelo governo brasileiro. Todos eles haviam
entrado com pedido de refúgio e estavam aguardando uma resposta. No entanto, o
governo entendeu que eles não apresentavam os requisitos necessários para se
enquadrarem como refugiados, mas optou por regulamentar a situação (evitando
que fossem extraditados) lhes concedendo a residência permanente no país.
Em relação à reclamação de Hussain sobre não haver prazos
para a entrega da residência, o Ministério do Trabalho informou que esse
processo leva em média 6 meses devido ao grande volume de pedidos e é um
período em que é feita a análise do histórico do estrangeiro.
Chegando em Corumbá, ele me botou num ônibus para
Brasília. Cheguei sem falar nada de português e não conseguia achar ninguém que
falasse inglês. Mas encontrei um taxista que entendeu que eu queria chegar no
bairro de Samambaia, onde sabia que teria outros bengalis e eles poderiam pagar
a corrida.
Chegando lá, realmente encontramos um grupo de bengalis e
eles pagaram a corrida. Mas em seguida eles pegaram meu passaporte e cobraram
outros US$ 2 mil para me conseguir o visto. Eu não tinha o que fazer, não
conhecia ninguém.
Mas outras pessoas que estavam nessa casa comigo, na
mesma situação, resolveram chamar a polícia. E então fomos ajudados pela irmã
Rosita (Milese, diretora do Instituto de Migrações e Direitos Humanos - IMDH).
Devo tudo a ela.
Emprego
Depois disso as coisas começaram a melhorar. Eu entrei
oficialmente com um pedido de refúgio ao governo brasileiro. E pouco depois,
comecei a fazer aula de português na UnB (Universidade Federal de Brasília) e
arrumei um trabalho como camareiro em um hotel.
Bengali trabalha em um hotel em
Brasília, mas não conta o que faz para a mãe
É um ótimo emprego, mas eu não conto para minha família
que trabalho como camareiro. Eu sou formado, fiz faculdade de negócios e
administração, tinha um bom emprego em Daca, na minha área. Então, é
complicado. Quando ligo para minha mãe, falo só que trabalho em um hotel e que
é um bom emprego para mim, não entro em detalhes.
Eu acho que vou arranjar em emprego melhor em breve,
talvez no hotel mesmo, mas em outro cargo. Eu já achava isso, mas depois que
tive a notícia da residência, passei a ter certeza.
Em dezembro, fiquei sabendo que minha situação seria
regulamentada pelo governo e eu ganharia residência permanente. Até participei
de um encontro em que fui cumprimentado pelo ministro (do Trabalho e Emprego,
Manoel Dias).
Eu já podia trabalhar somente com o protocolo temporário,
que recebi quando fiz o pedido de refúgio. Mas com essa residência - e com as
aulas de português - posso consegui um cargo melhor.
Mas apesar da cerimônia com o ministro, ainda não recebi
nenhuma previsão de quando vou ter o documento na mão e poder viver no Brasil
permanentemente. O governo simplesmente não me dá nenhum prazo. Muitos estrangeiros
ficam esperando, sem ter nenhuma ideia de quando vão receber a residência.
Mas enquanto eu espero, vou aproveitando minha vida no
Brasil, que é muito boa. Não quero mais voltar. Vou construir minha vida aqui
agora. E vou matando a saudade de Bangladesh experimentando de tudo que vem da
cozinha brasileira. Sei que é difícil acreditar, mas a comida aqui é muito
parecida com a que comia em casa. Quer dizer, aqui é minha casa agora."
Após o sucesso de "O Lobo de Wall Street",
Leonardo DiCaprio e Jonah Hill voltarão a formar uma dupla em "The Ballad
of Richard Jewell", um filme do estúdio Fox baseado em artigos da revista
"Vanity Fair" sobre o atentado ocorrido durante os Jogos Olímpicos de
1996, em Atlanta.
De acordo com publicação do blog especializado
"Deadline", Hill interpretará Richard Jewell, o segurança que
descobriu uma mochila com artefatos explosivos e evitou um maior número vítimas
ao ajudar a evacuar a área.
Leonardo DiCaprio encarnará o advogado de Richard Jewell,
que conseguiu limpar o nome de seu cliente três meses depois do atentado.
EFE/Arquivo
Leonardo DiCaprio encarnará o advogado de Richard Jewell,
que conseguiu limpar o nome de seu cliente três meses depois do atentado.
EFE/Arquivo
Jewell estava de plantão na noite de 27 de julho de 1996 e
encontrou o pacote-bomba pouco antes que ele explodisse. Logo no início, o
segurança foi apresentado com um herói, já que sua intervenção salvou vidas.
Mas, de repente, Jewell passou de herói a vilão ao ser o
suspeito número um e foi investigado como suposto culpado, embora depois tenha
sido inocentado.
DiCaprio encarnará o advogado de Jewell, que conseguiu
limpar o nome de seu cliente três meses depois dos fatos após uma minuciosa
investigação do FBI.
O filme será produzido pela Appian Way, do próprio DiCaprio,
que concorre ao Oscar de Melhor Ator por "O Lobo de Wall Street".
Jonah Hill foi indicado ao prêmio de Melhor Ator Aoadjuvante.
Uma mulher morreu e outras 111 pessoas ficaram feridas na
explosão de uma bomba no Parque Centenário de Atlanta (EUA) durante a
realização dos Jogos Olímpicos. O americano radical de extrema-direita Eric
Rudolph foi condenado como autor da ação terrorista.
O Lobo de Wall Street
The Wolf of Wall Street (no Brasil e em Portugal, O Lobo de
Wall Street4 5 ) é um filme norte americano de 2013 dirigido por Martin
Scorsese, baseado nas memórias de Jordan Belfort, o best-seller de mesmo nome. Foi
lançado em 25 de dezembro de 2013. O roteiro foi escrito por Terence Winter, e
estrelado por Leonardo DiCaprio como Belfort, um corretor de títulos de Nova
York que dirige uma firma, a Stratton Oakmont, que praticava fraudes de seguro
e corrupção em Wall Street na década de 1990.
O filme também apresenta Jonah Hill e Matthew McConaughey. É
a quinta colaboração entre Scorsese e DiCaprio, e a segunda entre Scorsese e
Winter depois de Boardwalk Empire.
dia 4 de fevereiro de
1974, o grupo terrorista paramilitar norte-americano SLA sequestrou Patricia
Hearst, herdeira de um império jornalístico.
"Não tive infância
normal. Eu e minhas quatro irmãs crescemos numa família rica. Éramos muito
privilegiadas, mas não mimadas." Assim a norte-americana Patricia Hearst,
herdeira do império jornalístico Hearst, descreve sua infância numa cena do filmePatty
Hearst(1988),
baseado no livroEvery Secret Thing - Minha própria
história.
Ela se definiu como
"mais prática do que intelectual, mais esportista do que estudante, social
e não solitária. Sempre fui segura de poder dominar qualquer situação".
Mas um acontecimento modificaria definitivamente sua vida: no dia 4 de
fevereiro de 1974, terroristas do grupo paramilitar Exército Simbionês de
Libertação (SLA) sequestraram a estudante de 19 anos em Berkeley, onde morava
com o noivo, Steven Weed.
O SLA exigiu de seu pai,
filho do magnata da mídia William Randolph Hearst, alimentos no valor de vários
milhões de dólares para distribuir aos pobres. Dessa "doação forçada"
nasceu mais tarde a fundação filantrópica "People in Need".
A
reviravolta na vida
Dois meses depois do sequestro, Patty Hearst reapareceu, armada,
participando de um assalto a banco. Num vídeo publicado pelo SLA, Patty disse
que agora se chamava Tanya e que havia aderido livremente ao Exército Simbionês
de Libertação. Ela garantia também a autenticidade da gravação. Dirigindo-se
aos pais e ao noivo, alegou que teve a opção entre ser libertada num local
seguro ou aderir ao SLA, "para lutar pela minha libertação e a de todos os
oprimidos. Decidi ficar e lutar".
Seis integrantes do SLA
foram mortos em maio de 1974, num tiroteio com a polícia, que havia descoberto
o esconderijo dos sequestradores em Los Angeles. Em setembro de 1975, Tanya
(Patty) foi presa em São Francisco.
Embora tivesse denunciado os integrantes do SLA durante o
processo, acusando-os de a terem submetido a uma lavagem cerebral e forçado a
participar de atos terroristas, foi condenada a sete anos de prisão por assalto
armado. Em 1979, 22 meses depois do anúncio da sentença, o presidente Jimmy
Carter mandou suspender a pena de reclusão.
Patricia Hearst-Shaw casou
com Bernhard, um ex-funcionário da segurança pública, e teve dois filhos. Ela
realizou o sonho de se tornar atriz – atuou em filmes de cinema e televisão – e
publicou vários livros.
Indulto de
Clinton
Patty Hearst figurou na lista de 140 norte-americanos que
receberam o indulto do presidente Bill Clinton no último dia de seu mandato.
"Agradeço profundamente a confiança depositada em mim pelos presidentes
Clinton e Carter e, ao mesmo tempo, estou aliviada por saber que esta questão
está resolvida definitivamente", disse.
Mas o passado de integrante
do SLA a continuou incomodando. Em 2001, Patty Hearst teve que testemunhar no
processo contra Sara Jane Olson, que, sob o nome de Kathleen Ann Soliah, tentou
explodir duas viaturas policiais em 1975 para vingar a execução dos integrantes
do SLA.
Olson não se irritou com o
indulto de Patty Hearst, mas comentou que, pela segunda vez, o dinheiro e a
influência foram decisivos para o perdão da herdeira do magnata da mídia.
Patricia é neta de William Randolph
Hearst (1863-1951), em cuja biografia se baseia "Cidadão Kane",
filmado por Orson Welles em 1941. O filme, que virou clássico do cinema, conta
a história de um magnata norte-americano das comunicações. Na obra de Welles,
Hearst é apresentado como um homem que conseguiu tudo o que queria e acabou
morrendo solitário.
Publicadas
na Espanha as famosas e polêmicas memórias do franco-atirador de Stalingrado
que inspirou o filme ‘Círculo de fogo’
Do El País
Jude Law, como Záitsev no filme Enemy
at the gates.
“Use
cada bala com consciência, Vassili”, recomendava-lhe seu pai quando ele era
criança, enquanto caçavam lobos na taiga. Foi o que ele fez em Stalingrado, com
outro tipo de lobos, estes humanos, mas também cinzentos. “Matava quatro ou
cinco alemães todos os dias”, escreveu. As impressionantes memórias do
franco-atirador Vassili Zaitsev (1915-1991), condecorado como Herói da União
Soviética, um dos mais famosos em seu difícil e atroz ofício, fazem-nos
mergulhar na luta particular que esse tipo de soldados travou durante a II
Guerra Mundial, uma história de escuridão e violência. Recém-publicadas na
Espanha pela editora Crítica, as memórias nos transportam ao coração mais frio
e letal da batalha — onde o soldado mira agachado nos olhos de quem ele mata —
e permitem que nos debrucemos sobre a personalidade e as táticas de combatentes
tão admirados quanto temidos, que sempre provocaram uma fascinação doentia: a
mística dos franco-atiradores.
Vassili Záitsev, em Stalingrado.
As memórias de Vassili Grigorievich
Zaitsev concentram-se na atividade do franco-atirador em Stalingrado, onde sua
contagem particular chegou a 242 militares alemães, incluindo 11
franco-atiradores (abater atiradores do lado inimigo era uma das prioridades
desses combatentes). As vicissitudes do certeiro Zaitsev serviram de base para
o filmeCírculo de fogo,
de Jean-Jacques Annaud. Parte do relato do franco-atirador — incluindo o longo
e épico duelo com o exímio atirador alemão enviado para caçá-lo, que é o núcleo
do filme — é muito polêmica e é considerada pura invenção por historiadores
como Antony Beevor. Isso não impede que as memórias nos deem uma
interessantíssima descrição da luta selvagem e brutal em Stalingrado e sejam
lidas com o coração na mão.
Em um trecho, Zaitsev impede que sua
equipe de três duplas de franco-atiradores dispare contra alguns oficiais que,
acreditando estar em segurança, estavam se lavando perto de uma trincheira.
“Esses caras são só tenentes”, afirmou. “Se desperdiçamos balas com peixes
pequenos, os grandes nunca vão pôr a cabeça para fora.” No dia seguinte, voltam
à área de banho. Não atiram contra um soldado que aparece. E então chegam os
que eles esperavam: um coronel acompanhado por um franco-atirador com um
precioso fuzil de caça, um major com a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho
e outro coronel fumando numa longa e aristocrática boquilha. “Nossos tiros
assobiaram. Apontamos na cabeça, como exige o manual, e os quatro nazistas
caíram dando o último suspiro.” Em outra ocasião, ele atira em outro oficial
que traz a Cruz de Ferro no peito. “Apertei o gatilho e a bala atravessou a
medalha do alemão, que caiu para trás com os braços abertos.”
Zaitsev inicia suas memórias explicando
sua infância. Seu avô, que pertencia a uma longa extirpe de caçadores dos
Urais, foi quem lhe presenteou com a primeira escopeta. Quando saía para caçar,
cobria-se de óleo de texugo para ficar camuflado pelo cheiro do animal. Matando
lobos, aprendeu a rastrear e espreitar, o que lhe serviria “para lutar contra
aqueles outros predadores bípedes que invadiram nossa pátria”. O futuro
franco-atirador não era nenhum iletrado. Ele entrou numa escola técnica de
construção, estudou contabilidade e foi inspetor de seguros. Em 1937, foi
convocado e entrou como marinheiro na frota do Pacífico — sempre exibiu com
orgulho sob o uniforme a camiseta de listras zuis e brancas, atelniashka. Em busca de ação, pediu para entrar numa
companhia de fuzileiros e foi parar em Stalingrado. Chegou como suboficial em
21 de setembro de 1942: foi como pousar no inferno; em seu diário, anotou que o
ar fedia a carne queimada.
Em seu primeiro combate, Zaitsev,
baixo, robusto e de cara larga — não se parecia em nada a Jude Law —, chega ao
corpo-a-corpo e, perdidas as baionetas e as pistolas, mata seu primeiro alemão
por estrangulamento. É a guerra em toda sua crueza: “Finalmente ele parou de
opor resistência e aí senti um cheiro nauseabundo, no momento de morrer ele
havia defecado”.
Na defesa das posições na famosa
fábrica Outubro Vermelho, Zaitsev vive momentos angustiantes,. É aRatenkrieg, a “guerra de ratos” nos porões e esgotos da
cidade em ruínas. No fim de outubro, um coronel observa como ele mata, com três
disparos de seu fuzil padrão de infantaria, vários operadores de uma metralhadora.
“Arranjem um fuzil de franco-atirador para ele”, ordena. Trazem um Moisin
Nagant 91/30, que o coronel entrega a Zaitsev dizendo: “Já foram três, continue
a contagem”.
Assim começa sua carreira. Ele ganha
gosto pelo ofício: “Eu gostava de ser franco-atirador e ter a licença para
escolher minha presa, a cada disparo era como se pudesse ouvir a bala
atravessando o crânio do inimigo”. Atira a longa distância, 550 metros ou mais.
A mira telescópica revela detalhes do alvo. “Você sabe se ele fez a barba, pode
ver a expressão de seu rosto, cantarolando. Enquanto seu homem coça a testa ou
inclina a cabeça para ajeitar o capacete, você busca o melhor ponto para
receber o impacto da bala; ele não tem a menor ideia de que só lhe restam
alguns segundos de vida.” Não há nenhuma dúvida, nem remorso. “Apertei o
gatilho, ele se debateu por alguns segundos e depois ficou imóvel.”
No relato de Zaitsev, os soviéticos são
invariavelmente nobres e heroicos e os alemães, cruéis: executam os feridos com
lança-chamas ou jogando-os aos cachorros. O franco-atirador vê os nazistas como
“serpentes” que se retorcem enquanto ele as aperta em seu punho.
As memórias estão recheadas de
conselhos para franco-atiradores — nosso homem se transformou num instrutor. Um
manancial ou uma fonte são bons lugares para matar inimigos. É preciso mudar de
posição após o disparo para não ser localizado. O atirador não precisa de mais
do que dois segundos para apontar e disparar, mas os preparativos requerem
horas e até dias de observação e camuflagem. É preciso tornar-se invisível. A
paciência é tudo. Os franco-atiradores — que, ao contrário do estereótipo, não
lutam sozinhos, mas em duplas ou até em grupo — usam iscas para caçar os
rivais.
O grandioso duelo que aparece emCírculo de fogoocupa
um capítulo inteiro do livro. O autor explica que um soldado alemão prisioneiro
revelou que o alto comando, preocupado com o crescente número de baixas, havia
enviado “um tal major Konings” (Koenig em outras versões), “diretor da escola
de franco-atiradores da Wehrmacht nos arredores de Berlim”, com o objetivo
exclusivo de abater “o grande coelho russo” (Zaitsev significa coelho).
O “superfranco-atirador” alemão
(interpretado no filme por Ed Harris) e o russo disputam um jogo mortífero.
Zaitsev o caça no final com algumas artimanhas. Depois o retira arrastado de
seu esconderijo, agarra seu fuzil e sua documentação e os entrega ao comandante
de sua divisão. A suposta mira desse suposto (e fracassado) ás alemão é exibida
no museu das forças armadas em Moscou.
“Nunca houve um franco-atirador alemão
chamado major Konings”, insiste Beevor, que abordou amplamente o assunto em seu
livroStalingrado.
“Investiguei todos os informes de franco-atiradores em Stalingrado que existem
nos arquivos do Ministério da Defesa em Podolsk e posso dizer como toda
segurança que o épico ‘duelo de franco-atiradores’ entre os ases alemão e russo
nunca ocorreu. Se tivesse ocorrido, teria sido relatado naquele momento, já que
era exatamente a história que queriam em Moscou para propaganda.
Definitivamente, isso foi inventado depois da batalha.”
Beevor me diz que Annaud o convidou a
ver seu filme “com a vã esperança” de que ele não fizesse muitas críticas. “Eu
o havia advertido claramente sobre qual era minha posição. Ele tinha comprado
os direitos do livro de William Craig, que havia acreditado na história
propagandística do longo duelo com o franco-atirador e nas pretensões
fantasiosas de Tania Chernova (Rachel Weisz no filme) de que ela também teria
sido franco-atiradora e amante de Zaitsev. Pobre velho, reescreveram sua vida
transformando-a em lenda. Zaitsev foi completamente manipulado pelos oficiais
da GlavPurkka, o braço político do Exército Vermelho, e caiu em depressão
depois da guerra, entregando-se à bebida.”
Na verdade, assinala o historiador, as
façanhas de Zaitsev foram muito exageradas e ele não foi nem mesmo o melhor
franco-atirador soviético em Stalingrado. Este teria sido o sargento Anatoli
Chekhov, a quem o grande Vassili Grossman entrevistou e até acompanhou em uma
missão em Mamaiev Kurgan, uma das zonas quentes da batalha, para observar como
atuava. Diferentemente de Zaitsev (que Grossman também conheceu), Chekhov, que
usava uma espécie de silenciador, não mirava no rosto, mas no uniforme do
inimigo. Em seu primeiro dia matou 9 alemães; no segundo, 17; em oito dias, 40.
No total, eliminou 256 inimigos em Stalingrado. Em 1943, em Kursk, perdeu as
duas pernas. Mas nem ele nem Zaitsev foram os melhores franco-atiradores
russos: Ivan Sidorenko tem o recorde de 500 mortes, seguido por outros cinco
com mais de 400 mortes cada um. Uma mulher franco-atiradora, Lyudmila
Pavlichenko, contabilizou 309. Após a guerra, virou historiadora.
Gorssman não deixou notícia de nenhum
duelo épico, mas sim de um breve e singular combate entre Zaitsev e um
franco-atirador alemão, que durou... 15 minutos. Foi esse episódio, opina
Beevor, que provavelmente se exagerou até virar a saga épica de um prolongado
duelo entre Zaitsev e o nunca localizado comandante Konings.
Em suas memórias, Zaitsev explica as
feridas que sofreu no final da batalha de Stalingrado. Perdeu temporariamente a
visão por causa da metralha do projétil de um lança-foguetes alemão Newerberfer
e passou por uma via-crúcis até recuperá-la. Não o deixaram voltar à frente de
batalha para evitar que tombasse uma valioso ícone patriótico. Ele se dedicou
então a formar franco-atiradores. Seus textos sobre o assunto ainda são
estudados nas escolas militares russas. Ao terminar a guerra, com a patente de
capitão, foi desmobilizado e trabalhou numa fábrica têxtil em Kiev, sem deixar
jamais de recordar seus dias de combate. Morreu apenas dez dias antes da
dissolução da União Soviética e seus restos repousam na colina Mamaiev, de onde
o fantasma do velho atirador talvez continue espreitando presas entre as
desvanecidas ruínas da antiga Stalingrado, hoje Volgogrado.
A
morte agachada
Pelas fileiras dos franco-atiradores já
passaram personagens como estes:
O finlandêsSimo Hayha(a
“Morte Branca”), o maior franco-atirador de todos os tempos, que matou 505
soldados soviéticos durante a Guerra de Inverno entre Finlândia e União
Soviética, sem usar mira telescópica.
O chinêsZhang Taofang, com 214 mortes entre soldados americanos
e da ONU em 32 dias (com apenas 442 balas), durante a Guerra da Coréia.
O americanoChris Kyle, atirador dos Navy SEALs assassinado no ano
passado no Texas por com companheiro de armas. Com 160 mortes atribuídas a ele
(a primeira, uma mulher que se aproximou com explosivos de um grupo de
marines), era conhecido entre a insurgência iraquiana como Shaitan ar-Ramadi,
“o demônio de Ramadi”. Sua autobiografia,American Sniper,
foi um best seller. Não se pode esquecer deLee Harvey Oswald,
outro ex-marine de assombrosa pontaria.
O melhor franco-atirador das forças
alemãs na II Guerra Mundial — o equivalente real do major Konings — foi o
austríacoMatthãus
Hetzenauer, com 345 vítimas, incluindo uma atingida a 1.100
metros de distância. Ganhador da Cruz do Cavaleiro, era membro, como muitos dos
franco-atiradores de destaque do III Reich, dos Gebirgsjäger (os caçadores da
montanha), cujo emblema era a flor edelweiss que pode ser vista no gorro de Ed
Harris emCírculo de fogo.
Outro notável franco-atirador da
Wehrmacht,Josef Sepp
Allerberger, que somou 257 mortes e usava um guarda-chuvas para
se camuflar, é autor das memórias mais estremecedoras do ofício:Sniper on the Eastern Front, Pen & Sword, 2007; em um
trecho, explica como literalmente saltam os globos oculares de um soldado
atingido por uma bala atrás da cabeça.