segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Protestos na China: a nova geração que impulsiona as manifestações

Onda de protestos é marcada pelo uso de papéis em branco

Na China, uma nova geração saiu às ruas no último fim de semana. Muitos participavam de seu primeiro protesto.

Eles se manifestaram contra a política de covid zero que está em vigor há quase três anos no país.

Em Xangai, aqueles que participaram dos atos ficaram quietos a princípio, quando se reuniram para prestar homenagem às vítimas de um incêndio em um prédio de apartamentos na região oeste de Xinjiang. Muitos acreditavam que as medidas contra a covid-19 impediram que os moradores fugissem das chamas.

Sob forte policiamento, eles levantaram papéis em branco em protesto, colocaram flores no local e permaneceram em silêncio. Mas então alguns começaram a gritar: "Liberdade! Queremos liberdade! Fim dos bloqueios!".

À medida que a noite avançou, a multidão cresceu e se tornou mais ousada. Às 03h de domingo (27/11), no horário local (16h de sábado, no horário de Brasília), gritaram: "Xi Jinping, desista! Xi Jinping, desista!".

Um participante de vinte e poucos anos disse que correu para a rua depois de ouvir a multidão de seu quarto. "Eu vi muitas, muitas pessoas com raiva na internet, mas ninguém jamais foi para a rua para protestar", disse ele à BBC.

Ele levou sua câmera para registrar o que considerava ser eventos históricos. "Muitas pessoas estão aqui - um policial, um estudante, idosos, estrangeiros. Eles têm opiniões diferentes, mas pelo menos podem se expressar. É significativo que se reúnam aqui. Acredito que esta será uma lembrança significativa para mim."

Uma jovem que estava próximo da multidão disse que achou aquele momento emocionante, mas frágil. "Nunca vi nada assim na minha vida na China. Sinto um alívio. Finalmente podemos nos reunir e nos unir para dizer algo que queríamos falar há muito tempo."

Para ela, a política de covid zero roubou os melhores anos de suas vidas. Sua geração havia perdido renda e meios de subsistência, oportunidades de educação e viagens. Às vezes, confinados por meses, eles foram separados da família e adiaram ou cancelaram planos e projetos. Eles estavam "com raiva, tristes, desamparados".

Como a China está acabando com protestos contra restrições da covid

Declarações semelhantes foram ouvidas em várias grandes cidades do país naquele fim de semana. Na Universidade de Tsinghua, em Pequim, estudantes inspirados por protestos que viram na internet também se reuniram.

Um vídeo que viralizou mostrou uma jovem falando rapidamente, com medo, em um alto-falante. Sua voz chegou a falhar enquanto ela chorava, mas a multidão a incentivou: "Não tenha medo!"

"Se não falarmos porque temos medo de ser desacreditados, acho que nosso povo ficaria desapontado conosco", disse ela, com a voz rouca. "Como estudante da Universidade de Tsinghua, eu me arrependeria para sempre."

Inteligente ou ingênuo?

Para os chineses mais velhos, as manifestações políticas - que não eram vistas há décadas - despertaram lembranças dos protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial, também liderados por estudantes que pediam mais liberdade na China.

Mas alguns dizem que o entusiasmo desta geração vem do desconhecimento sobre o desfecho daqueles protestos - uma repressão sangrenta.

"A combinação de idealismo juvenil - destemor sem o fardo da memória dolorosa - leva os jovens a ir para a rua para exigir seus direitos", diz Yaqiu Wang, pesquisador da ONG Human Rights Watch na China.

Outros argumentam que isso turva a visão dos manifestantes. Sua juventude não os deixa perceber o quanto eles estão em linha com o sistema chinês e suas regras, diz Wen-ti Sung, cientista político da Universidade Nacional Australiana.

Ele está maravilhado com a "inteligência tática" dos manifestantes. Os jovens manifestantes hoje "são a geração mais bem educada que a China já viu", diz ele.

"Eles conhecem os limites. Eles estão testando esses limites sem rompê-los", completa.

Os manifestantes em Xangai fizeram apelos pela remoção de Xi de seu cargo. Em quase todos os comícios, entretanto, os manifestantes reprimiram demandas que temiam ser demasiadamente políticas.

Papéis em branco - sem nada escrito - tornaram-se o símbolo. Quando instruídos pela polícia a interromper os pedidos pelo fim da política de covid zero, eles responderam sarcasticamente, pedindo mais testes e mais restrições.

"Basta observar o cuidado que eles tomam para prevenir e minimizar acusações que o governo chinês pode fazer contra eles", diz Sung.

Os manifestantes também estavam atentos às vozes que subvertiam sua mensagem.

Em Pequim, quando um homem alertou sobre "influências estrangeiras", ele foi ridicularizado por outros que gritaram: "Por influência estrangeira, você quer dizer Marx e Engels? Stalin? Lenin?". O Partido Comunista chinês cita o marxismo como a ideologia que o orienta.

A multidão de Pequim insistiu: "Foram forças estrangeiras que iniciaram o incêndio em Xinjiang? Foram forças estrangeiras que viraram o ônibus em Guizhou?".

"Foram forças estrangeiras que trouxeram todos até aqui esta noite?", um homem gritou para a multidão e respondeu em seguida com raiva: "Não!".

'Liberais nacionalistas'

Antes da pandemia, os jovens chineses estavam satisfeitos com suas perspectivas futuras. A covid-19 mudou isso, com a imposição de restrições e seu impacto na economia.

"Não posso viajar pelo mundo, não posso ver minha família", disse o jovem com a câmera em Xangai. Ele afirmou à BBC que temia por sua mãe, que tem câncer e vive na cidade de Guangzhou, no sul do país.

As autoridades da cidade suspenderam as restrições contra a covid-19 na maioria de seus distritos na quarta-feira (30/11).

"Eu realmente quero vê-la. Há muito tempo eu não a vejo, não toco em seu rosto, não janto com ela", contou. "Espero que esta política de bloqueios seja flexibilizada o mais rápido possível." Ele foi detido mais tarde naquele dia pela polícia.

Muitos que falaram com a BBC ou são vistos falando em vídeos na internet dizem que querem ver seu país progredir. Nos protestos, as multidões cantaram o hino nacional da China repetidas vezes - particularmente o trecho que exorta as pessoas a defender seu país.

Algo que difere esta geração é seu patriotismo feroz, que cresceu em meio à ascensão da China na cena mundial, diz Sung. Ele rotula muitos deles de "liberais nacionalistas" - que, por acreditarem tanto no sistema, o responsabilizam quando algo falha.

"O sentimento pode mudar de pró-governo para antissistema muito rapidamente", pontua. Mas permanece um desejo coletivo de provar que seus protestos são legítimos e estão do lado certo da lei.

No vídeo do campus de Tsinghua, depois que o orador manifestou preocupações de que o protesto poderia ser apropriado por encrenqueiros, a multidão gritou: "Não há infratores aqui! Não há infratores aqui!".

Ouviu-se então uma voz masculina, em tom de preocupação: "Se perdermos o controle disso, seremos derrotados". "Não temos experiência em fazer isso... Mas vamos aprender aos poucos."

BBC News, Frances Mao 

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sábado, 3 de dezembro de 2022

Ações civis contra a fome


“(...) Hortas urbanas têm um papel importante no combate à insegurança alimentar, provendo alimentos frescos, a preços acessíveis (...)”

Historicamente, temos observado uma dificuldade do Estado Brasileiro no enfrentamento da fome. Embora tenhamos conquistado direitos importantes, não se observou a inclusão de parcela significativa da população, que permaneceu em estado de pobreza e vulnerabilidade, sem fazer valer os direitos assegurados. Políticas públicas não foram capazes de resolver as necessidades dessas famílias, e têm sido insuficientes ou desconsideradas.

É nesse contexto que verificamos a presença importante da sociedade civil, tornando-se protagonista em ações no sentido de mudança desse cenário, particularmente com relação ao combate à fome.

A Pastoral da Criança, na década de 1990, é indicada como a mais bem sucedida iniciativa não-governamental no combate à desnutrição e à fome infantil, atingindo mais de um milhão de famílias por mês e mais de 150 mil voluntários. Também a Ação da Cidadania contra a fome (1993) liderada por Herbert de Souza, o Betinho, foi a que ganhou maior visibilidade, e culminou com a criação do Consea, numa ação incisiva de fazer o Estado assumir a responsabilidade sobre o problema.

Posteriormente, vamos observar a constituição de diferentes modalidades de organizações não governamentais que assumem para si a responsabilidade de lutar contra a fome, com a ideia de que esta não é apenas uma questão do Estado, mas que a sociedade pode contribuir com soluções adequadas.

A pandemia da infecção pelo sars-cov-2 em 2020 veio encontrar um Brasil em franca crise política e socioeconômica, com os níveis de insegurança alimentar aumentando desde 2017, majoritariamente por conta da redução de investimentos relacionados às políticas sociais nos anos recentes. A então chegada da covid-19 escancarou as desigualdades sociais e acentuou ainda mais a insegurança alimentar no Brasil. A política fiscal de teto de gastos do governo Michel Temer com retração em relação aos investimentos nos programas que asseguram a segurança alimentar e desmonte de políticas públicas federais acentuadas no governo Bolsonaro associados à diminuição de recursos para populações em vulnerabilidade e a incompetência administrativa dos quadros federais resultou numa das piores gestões da pandemia em âmbito mundial e culminou no aumento brutal da insegurança alimentar.

Tantos desmontes resultaram na ausência de resposta, ou respostas tardias para a fome durante a pandemia de covid-19 pelos órgãos públicos. É quando se observa, uma mobilização rápida e articulação dos mais variados setores da sociedade, nas mais variadas ações, para cuidar daqueles mais desassistidos. Em abril de 2020, um mês após decretada a pandemia, a plataforma PonteaPonte já contava com mais de 450 organizações da sociedade civil com ações de enfrentamento à pandemia.

Em resposta ao desmantelamento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), à extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), e às crescentes violações de direitos socioambientais a sociedade civil criou a Conferência Popular Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN). Durante a pandemia foi elaborado um manifesto de 150 movimentos/ organizações com um conjunto de propostas de combate à fome a serem implementadas, em caráter urgente e emergencial, pelos governos nas esferas federal, estadual e municipal.

O setor empresarial e diversos segmentos de classes médias urbanas organizaram inúmeras iniciativas de doação direta de recursos financeiros, para fornecimento de alimentos, produtos de higiene e limpeza num caráter filantrópico a comunidades ou moradores de rua. Por exemplo em São Paulo, um grupo grande de pessoas, organizadas em volta da hoje instituída ONG o Amor Agradece passou a cozinhar em suas próprias casas durante a pandemia, distribuindo hoje cerca de 3.500 marmitas por semana, em 12 núcleos na cidade de São Paulo e Guarulhos, além de cobertores e artigos de higiene pessoal.

Em todo o território nacional um sem-número de iniciativas de auto-organização aconteceram em comunidades e bairros populares nas periferias de centros urbanos, ampliando iniciativas já existentes, mas constituindo um repertório de práticas inovadoras atualizadas. O exemplo de organização da favela Paraisópolis, na zona Sul de São Paulo, onde criatividade, solidariedade e decisões de lideranças locais em relação a distribuição de alimentos e cuidados médicos contribuíram para que a mortalidade nesta favela fosse a metade da mortalidade da cidade de São Paulo e um quinto da mortalidade da região periférica da zona Norte, a Brasilândia.

No estado de São Paulo, diversas iniciativas promoveram a aproximação entre a agricultura familiar agroecológica e comunidades necessitadas. Na cidade de São Paulo, a Frente Alimenta, conectou agricultores, inclusive urbanos, com cozinhas comunitárias da periferia fornecendo através de doações de empresas e indivíduos alimentos frescos, ajuda na montagem das cozinhas e formação de cozinheiras.

Situação semelhante acontece em Piracicaba com o Movimento Tô Aqui, movimento de financiamento coletivo de produção agroecológica, visando a insegurança alimentar na periferia da cidade, que surgiu durante a pandemia da covid-19, devido ao agravamento de dois cenários: agricultores familiares de base agroecológica, que encontraram dificuldades para comercializar os alimentos produzidos; e nas periferias, famílias que enfrentaram o agravamento da situação de vulnerabilidade. Envolve pessoas físicas e jurídicas, que apoiam o movimento tanto como voluntários como financeiramente.

Hortas urbanas têm um papel importante no combate à insegurança alimentar, provendo alimentos frescos, a preços acessíveis. A Horta da Faculdade de Medicina da USP tem doado semanalmente, durante a pandemia, ervas, temperos e folhagens para associações que cozinham para moradores de rua e atendem refugiados no centro da cidade de São Paulo, mostrando o potencial produtivo destes pequenos locais na malha urbana.

Outra iniciativa especialmente interessante de conexão entre comunidades, foi o Do quilombo para a favela, que surgiu entre as populações quilombolas do Vale do Ribeira. Antes da pandemia, a Cooperativa dos Quilombos do Vale do Ribeira – Cooperquivale, fornecia alimentos para as escolas, por meio do PNAE, e também para prefeituras. Durante a pandemia a Cooperquivale e parceiros criaram um plano emergencial de captação de recursos para a distribuição de alimentos para famílias vulneráveis, que permitiu a entrega de 20 toneladas de alimentos /mês para cinco municípios, entre eles a favela San Remo, da periferia de SP.

Vale ressaltar o trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra que doou desde o início da pandemia sete mil toneladas de alimento em todo o Brasil, além da venda de alimentos a preço de custo e doação de sementes, mostrando o papel fundamental que tem a agricultura familiar na segurança alimentar no Brasil, em detrimento do modelo extensivo do agronegócio.

Enfim, observa-se que as múltiplas iniciativas da sociedade civil organizada em todo o país foram muito importantes para a manutenção da segurança alimentar em comunidades desprovidas, exibindo alto grau de solidariedade, criatividade e inovação social. Que tais iniciativas possam ser entendidas e incorporadas por gestores públicos na construção de políticas de inclusão e segurança alimentar a partir de então.

Jornal da USP, Thais Mauad e Maria Elisa de Paula Eduardo Garavello

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