sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Nossa Senhora e seu dia de cão

   Quando o pastor, novo administrador do Serviço Municipal de Saúde, adentrou o hospital público mantido pela prefeitura e se deparou com a enorme imagem de Nossa Senhora Aparecida, exposta num pedestal de mármore branco, não conseguiu conter a ira e avançou violentamente sobre a santa numa fúria demente, aplicando saraivada de murros, tapas e cotoveladas, fazendo-a minúscula, como que encolhida, sequiosa por algum tipo de trincheira ou proteção. Ao tempo em que espancava, o gestor protestante gritava aleives, palavras impronunciáveis, hediondas heresias e a Senhora Mãe de Deus restava prostrada no chão, feita em diminutos fragmentos.

   O gestor estrilava obrigando o sangue rajar convulsivamente, ameaçando romper as paredes da jugular. Bramia sobre o ato pecaminoso de cultuar imagens, vociferando os ensinamentos bíblicos que proíbem tais disparates. Atordoava os ouvidos denunciando a frontal desobediência às leis de Deus, tão pormenorizadamente expressas no livro dos livros, no compêndio divino. Apontava o fogo do inferno como destino dos infiéis apreciadores de imagens, enquanto pulverizava o ar com os minúsculos pedaços a que reduziu a santa, como que certificando que o contencioso não passava de barro amassado e cozido a fogo brando, preenchido por vento ordinário e cediço.

   A cada rompante destilava ira e ódio. E asseverava a inconstitucionalidade dado que, sendo o estado brasileiro laico, a promiscuidade verificada entre religião e coisa pública estava categoricamente vedada.

   Todavia, se à oportunidade, providencialmente, propagava o caráter secular do estado nacional, convenientemente permitiu-se esquecer que, na semana anterior, orientou a bancada de vereadores evangélica a aprovar projeto de lei obrigando fosse a bíblia disposta sobre todas as mesas das repartições públicas e, ainda, sobre todas as carteiras escolares das unidades educacionais mantidas pela municipalidade.

   Tanta bulha fez o administrador evangélico que médicos, enfermeiros e pacientes, pasmos com a sandice em curso, correram com o que restou da imaculada santa.

   O Pastor Nazareno Gustavo inspirava medo. No ano anterior, após ter doutrinado os servidores lotados na Delegacia de Polícia e na Guarda Municipal, organizou sua milícia particular. Mantinha sob férreo comando um disciplinado e bem treinado efetivo de dois mil e quinhentos homens, mobilizados para o combate militar.

   Não se sabe as razões, mas fixou na mente a ressurreição das Cruzadas, guerra em que se digladiaram cristãos e muçulmanos e que se estendeu de 1.095 a 1.270. Traçou então a meta obstinada e extemporânea: reiniciada a guerra, iria à desforra invertendo o resultando da contenda, conduzindo finalmente os cristãos à vitória peremptória.

   Durante boa parte da vida estudou as expedições armadas medievais.


   Decorou o discurso do Papa Urbano II, quando no Conselho de Clermont pregou a necessidade de libertar a Terra Santa dos turcos seljúcidas.

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