domingo, 12 de setembro de 2010

Quando o crack de Nova Iorque se encontra com o crack que assola o Brasil

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
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Quando o crack de Nova Iorque se encontra com o crack que assola o Brasil

Até pouco tempo atrás os pais preocupavam-se em explicar para os filhos o significado até então mais expressivo da palavra crack.

E pacientemente discorriam sobre a crise de superprodução ocorrida no final dos anos vinte.

Tão logo terminou a primeira guerra mundial os Estados Unidos apresentaram um vigoroso processo de crescimento econômico. A indústria norte-americana chegou a responder por metade da produção mundial. O novo padrão de vida denominado american way of life caracterizava-se pela valorização dos bens de consumo, pelas aquisições de automóveis, eletrodomésticos e demais industrializados.

Ao mesmo tempo em que ocorria o boom do crescimento ianque, os países europeus recuperavam-se da destruição causada pela grande guerra, reorganizavam os sistemas de produção e iniciavam a disputa pelos mercados consumidores. Enquanto a Europa impunha restrições às importações de produtos norte-americanos, os EUA continuavam produzindo com sua conhecida e inesgotável voracidade capitalista.

O cenário explosivo estava estruturado: mercado internacional desorganizado; cotações em permanente estado de oscilação; falências generalizadas; agudo desequilíbrio decorrente, de um lado, do excesso de mercadorias produzidas e, de outro, do diminuto poder aquisitivo dos consumidores.

Até que no dia 29 de outubro de 1929, a face mais perversa do desenvolvimento capitalista se apresenta ao mundo, fazendo sua aparição na Bolsa de Valores de Nova York. As tensões que – dez anos depois – conduziriam à Segunda Grande Guerra, materializam-se bem no centro, no coração econômico do mundo.

A população acorre em massa tentando vender suas ações – que já haviam perdido todo o seu valor de face – indústrias e corporações vão à bancarrota, dezenas de milhares que haviam dormido trilionários acordam miseráveis... mais de 15 milhões de desempregados...

Para melhor explicar a tragédia que representou este período, os pais faziam questão de recorrer às locadoras para assistir com os filhos uma das obras primas de Sydney Pollack, A Noite dos Desesperados (They Shoot Horses, Don't They?, 1969), onde Jane Fonda, de maneira categórica, magistral e irreparável, mostra toda a sua virtuosidade na arte da interpretação.

A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack, com Jane Fonda

Mas como que picado por uma cobra peçonhenta, sendo tragado pela areia movediça, ou imerso em uma película de terror, um outro crack – que não o de 29 - é a atual fonte de pesadelos dos pais. Seu avant-première ocorreu em junho de 1990 quando o Denarc - Departamento de Investigações sobre Narcóticos – de São Paulo, apreendeu 220g com um barbeiro na zona leste da cidade. Mal decorridos dois anos e a nova droga estava disseminada pela maior cidade do continente americano.

Ao contrário da heroína e da cocaína, o crack é barato e está ao alcance de qualquer um, até mesmo dos mais pobres e despossuídos. Sua produção é obtida a partir da sobra do refinamento da merla (resíduo do processamento, do refinamento da cocaína). Essa sobra – ou ainda a pasta não refinada – é misturada ao bicarbonato de sódio e água, resultando na droga que ameaça transformar nossos estudantes e a juventude numa massa disforme, doentia, numa corja de zumbis sem alma ou vontade.

O Instituto Datafolha comemora seu um quarto de século de existência. E para não deixar a data passar em branco, refez uma pesquisa realizada no ano de 1983.

Ao processar os questionários e tratar os dados, o que emergiu virulentamente da pesquisa é que, hoje, o maior temor da sociedade é que um jovem da família se envolva com as drogas.

Alba Zaluar, doutora em antroplogia e coordenadora do Núcleo de Pesquisas das Violências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, comentando os resultados da pesquisa é enfática quanto ao que vem ocorrendo no Brasil:

• Há agora essa epidemia de crack, que contribuiu muito pra aumentar o medo da droga
• É uma droga que arrebenta com a pessoa, faz cometer loucuras e que é barata.
• A cocaína é muito mais temida que a maconha. Mas o crack é a mais temida de todas.


Para a antropóloga os sentimentos da família não se limitam a temer que um de seus membros venha a se curvar ao vício: Se envolver com cocaína e crack é se envolver com traficantes, com a criminalidade.

Mas não é só a relação dos filhos com as drogas e traficantes que deve preocupar pais responsáveis e educadores dedicados. Sobretudo a sustentabilidade das relações familiares deve ganhar prioridade em nossa hierarquia de preocupações. E neste contexto urge resgatar valores imprescindíveis às sociedades saudáveis como amor, virtude, altruísmo, respeito, autoridade (que em nada se assemelha a autoritarismo),...

Tão importante quanto qualificar as forças policiais para, como eficácia e inteligência, combater e debelar o tráfico e o crime, tão importante quanto construir mais presídios para manter os traficantes confinados longe de nossos filhos, tão importante quanto investir em educação de qualidade, é regatar os valores e princípios familiares, dotá-los do amor e da fraternidade que, às vezes, parecem ter se perdido no tempo.

Sugiro a leitura de três outros artigos que escrevi sobre esta questão. Não tenho dúvidas que estamos numa encruzilhada. O amanhã só corresponderá às nossas expectativas caso consigamos impregnar nosso hoje de zelo, coragem, responsabilidade e amor. Basta clicar sobre os títulos para acessá-los:

1) Quando o homem deixa de ser homem

2) Quando a desgraça é inevitável

3) O que fazer com os anjos emprestados por Deus?

Antônio Carlos dos Santos – criador de metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg,Br


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Quem paga o pato pela récua de açougueiros?


Deu em O Globo
Plantão de alto risco
Polícia prende estudante de Medicina atendendo pacientes em hospital da Baixada

Vera Araújo e Mariana Belmont

Uma equipe da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Saúde Pública (DRCCSP) prendeu, na manhã de ontem, Silvino da Silva Magalhães, estudante do 9 período de Medicina da Universidade de Nova Iguaçu (Unig), atuando ilegalmente como médico.

Ele foi flagrado dando consultas como ginecologista no Hospital das Clínicas de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O estudante, de 41 anos, atendeu quatro mulheres pela manhã — a última delas foi uma policial que se passava por paciente e que o prendeu em flagrante.

Segundo o delegado titular da DRCCSP, Fábio Cardoso, Silvino usava um carimbo com o próprio nome e o número de registro no Conselho Regional de Medicina (Cremerj) de um outro profissional. Além disso, ele tinha, na maleta, o carimbo do dono da clínica, o médico Deodalto José Ferreira.

O estudante Silvino afirmou que atendia há dois anos na clínica como acadêmico, auxiliando os médicos. Segundo ele, o profissional de plantão ontem foi fazer uma cirurgia e, por isso, ele teria feito um pré-atendimento a algumas pacientes. Ao ser perguntado se já havia prescrito receitas, ele se calou.

No último domingo, O GLOBO denunciou que hospitais, médicos e cooperativas contratavam estudantes de Medicina para atuarem como profissionais, principalmente para fugir dos plantões de fim de semana. Os alunos receberiam de R$ 200 a R$ 1 mil.

O caso veio à tona depois da morte, no mês passado, da menina Joanna Marcenal, de 5 anos, atendida por um estudante do 4 período de Medicina. O falso médico Alex Sandro Cunha chegou a prescrever remédios controlados para Joanna.

Segundo o delegado, desde a reportagem do GLOBO, o número de denúncias recebidas pelo telefone do Disque-Denúncia (2253-1177) e encaminhadas à delegacia cresceu sete vezes:

— Recebíamos uma média de cinco denúncias por semana. Na semana passada, foram 35, a maioria na Baixada Fluminense e na Zona Oeste.
Assinantes, aqui.

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Quem paga o pato pela récua de açougueiros?

Todas as profissões são importantes e beneficiam a sociedade. Mas a esmagadora maioria não necessita de instituições como os Conselhos Regionais e Federais. Sob o pretexto de defender os interesses da sociedade, essas instituições, na realidade, estimulam um corporativismo nefasto que – se protege os filiados, inclusive quanto aos seus crimes profissionais – funciona como uma barreira insurgindo contra os legítimos interesses da coletividade. A despeito de todo o referencial teórico que as legalizam, não passam de pelotões paramilitares para assegurar reserva de mercado Mas algumas poucas categorias profissionais (uma conta tão rarefeita que mal alcança a quantidade dos dedos de uma mão) efetivamente necessitam de regulamentação específica, mais criteriosa, e de instâncias de regulação e controle. É o caso do ofício da medicina.

Mesmo com todos os desvios e distorções dos Conselhos Regionais e Federal de Medicina, eis aí algumas organizações imprescindíveis para a defesa dos interesses da sociedade.

Mesmo que os processos internos de sindicância, inquérito e averiguação das irregularidades e crimes praticados pela categoria encontrem, quase que invariavelmente, colossal má vontade, celeridade paquidérmica e resultados pífios, os aludidos conselhos são necessários. Os desvios - não poucos, gritantes - decorrem do viés corporativo que os asfixiam, e da quase indiferença da sociedade que os mantêm sacrários, raramente recorrendo ao judiciário.

Corrigir as extremas disfunções que os atrofiam é uma tarefa premente da sociedade organizada, da pressão social, vez que governo e partidos políticos parecem tragados por outro tipo de preocupação. Pressionar para o eficaz funcionamento do Ministério Público e do judiciário já seria um bom começo.

Ainda que tardiamente, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo – CRM/SP - vem promovendo uma iniciativa importante, exemplar: a avaliação do ensino de medicina no Estado e conseqüentemente, da categoria médica.

E os resultados têm sido catastróficos por um lado, porque revelam a insolvência do sistema, mas animadores por outro lado, porque desvelam o que se encontrava encoberto, porque identifica a chaga exposta e porque evidencia de forma eloqüente o longo caminho a percorrer para a superação definitiva do problema.

Desde 2.005, o CRM/SP assumiu a corajosa iniciativa de avaliar os formandos de medicina na unidade da federação mais desenvolvida do país. E edição após edição, o quadro vai se mostrando tão deteriorado que não escapa a visão sequer de um cego dos dois olhos. No primeiro ano de implementação da avaliação, num universo de 998 estudantes, 69% foram aprovados. No ano seguinte, em 2006, dos 688 inscritos, lograram êxito 62%. A ultima edição, efetuada este ano, apresenta os piores resultados. Dos 2.200 graduandos de 23 escolas de medicina de São Paulo, 833 se inscreveram para fazer o exame. E menos da metade desses estudantes foram aprovados.

Trocando em miúdos, significa dizer que, precisamente, 56% dos formandos de medicina em São Paulo foram reprovados nas provas do Conselho Regional da área, uma forma categórica de concluir que as escolas de medicina – como, aliás, seria de se esperar - integram a fria e desqualificada cumbuca onde foi desleixadamente abandonada a educação brasileira.

Qualquer exame que se faça para aferir o nível de ensino e da educação do país, os resultados sempre estão como o velho samba de uma nota só: transitam de ruim para pior, de pior para péssimo, de péssimo para pífio, de pífio para medíocre, de medíocre para vergonhoso, e segue a infindável cantilena, no ritmo do alazão quando é para a inépcia, e do pangaré se o objetivo é qualificar.

O cenário é dos mais improdutivos e preocupantes, mas a situação não é irremediável nem a escuridão se apossou da esperança. Ao contrário. Por paradoxal que possa aparecer, agora há mais luz, mais claridade. Exatamente quando todas as avaliações, nacionais e internacionais, comprovam que a educação brasileira está no fundo do poço é que as esperanças se revigoram. E muito do renascimento da esperança resulta da determinação do Ministério de Educação de legar ao país a cultura da avaliação, do diagnóstico preciso, detalhado; identificando com exatidão o problema, sua real dimensão e onde se localiza, com precisão milimétrica.

O bom médico é aquele que, para aviar a receita eficaz, consegue realizar um diagnóstico primoroso, promover uma radiografia fiel do paciente, identificar a enfermidade de maneira irreparável. É o que está fazendo o MEC, e com louvável competência.

Iniciativa que vai se espraiando pelos demais setores da sociedade e que, a partir da experiência vitoriosa do Conselho de São Paulo, deve, em curto espaço de tempo, ser absorvida pelos demais conselhos regionais.

A realidade que está emergindo desses sistemas de avaliação é como uma hidra de sete cabeças, horrífica. Porém, mais vergonhosa e covarde era a postura anterior de não revelá-la, forma de manter as coisas inalteradas, insuscetíveis às mudanças. Conseguindo enxergar a quantas andam a educação e o ensino brasileiros, teremos aumentadas as chances de acertar no receituário.

E algumas boas soluções já emergem naturalmente deste processo virtuoso. Como, por exemplo, a decisão do Ministério de cobrar das escolas públicas metas de desempenho. E a decisão do governo de São Paulo de bonificar com até três salários mínimos a mais, por ano, o professor que atingir e superar as metas estabelecidas. Desafios que fazem tremer a malha sindical, tão preocupada com a defesa dos direitos corporativos que muitas vezes afronta os da coletividade.

O exame do CRM de São Paulo apresenta uma característica que torna o resultado do processo mais preocupante. Como é voluntário, não tem caráter punitivo e a reprovação não impede o exercício da medicina, pressupõe-se que a maioria dos que se submeteram ao processo figuram no quadro dos melhores alunos. Caso fossem obrigatórias, as provas inexoravelmente levariam a um percentual maior de reprovados.

Estão aí as explicações para a existência de academias e mais academias que produzem, a exemplo da grande indústria robotizada, ‘carons’ em série, uma súcia de delinqüentes devidamente ‘doutorados’.

Aos bons profissionais da medicina, poucos mas valorosos missionários, nossas reverências.

E quem paga o pato pela récua de açougueiros? A sociedade. Eu e você, caro leitor.

Um alerta a mais para os pais cuidadosos que amam seus rebentos: em pediatria, só 32% acertaram um simples diagnóstico de pneumonia.


Antônio Carlos dos Santos - metodologia Quasar K+ de planejamento.

domingo, 5 de setembro de 2010

Sakineh Ashtiani e as 99 chicotadas

Deu no Globo
Sakineh Ashtiani é condenada a receber 99 chicotadas

A iraniana Sakineh Mohamadi Ashtiani, ameaçada de ser executada por apedrejamento, foi condenada a receber 99 chicotadas sob acusação de propagar corrupção e indecência, segundo informações do filho da ré e da ONG Comitê Internacional contra o Apedrejamento.

Segundo Sajjad Mohamadi Ashtiani, filho da iraniana de 43 anos, a mãe foi condenada depois que teve uma fotografia publicada em um jornal britânico. O não uso do véu islâmico é crime passível de prisão no Irã.

- O advogado de minha mãe, Hutan Kian, foi informado por detentas da penitenciária que acabavam de ser libertadas - explicou Sajjad, que estava na cidade de Tabriz, noroeste do Irã. - Ele entrou em contato com o juiz independente da penitenciária, que confirmou a pena.

O jornal britânico Times publicou na edição de 28 agosto a fotografia de uma mulher sem véu que apresentou como Ashtiani. A foto era, na realidade, de uma ativista política iraniana que mora na Suécia.

Na edição de sexta-feira, o Times pediu desculpas aos leitores e explicou que a imagem havia sido entregue por Mohamad Mostafaei, segundo advogado de Sakineh, que disse ter obtido a mesma do filho Sakineh. Mas Sajjad Ashtiani negou que fosse sua mãe.

A condenação à morte por apedrejamento de Sakineh provocou uma ampla campanha internacional para evitar a execução, provisoriamente suspensa.

- Mas suspensa não quer dizer anulada - destacou o filho da iraniana em uma entrevista a Bernard-Henri Lévy publicada na sexta-feira no jornal Libération.

Guillermo Fariñas


Dissidente cubano Guillermo Fariñas está em estado grave após cirurgia


DA EFE, EM HAVANA

O dissidente cubano Guillermo Fariñas, que passou mais de quatro meses em greve de fome para pedir a libertação de presos políticos doentes, está em estado "grave", mas estável, após uma cirurgia urgente de vesícula nesta sexta-feira.

Segundo a mãe do opositor, Alicia Hernández, Fariñas "segue em estado grave" e "se mantém estável" após a cirurgia para retirada da vesícula cheia de cálculos. Ela disse que os médicos lhe deram sedativos por causa de "dor intensa".

Hernández explicou que o filho está na mesma sala de terapia intensiva do hospital de Santa Clara, no centro de Cuba, onde passou a maior parte da greve de fome e sede com a qual exigia que o governo de Raúl Castro libertasse 26 presos doentes.

Além disso, ela disse que os médicos "cuidam bem de perto" da trombose na jugular que ele contraiu durante a greve de fome, e devido à qual temiam operá-lo, depois de apresentar ao menos duas crises de vesícula.

Fariñas, jornalista e psicólogo de 48 anos, começou a greve de fome em 24 de fevereiro após a morte do dissidente preso Orlando Zapata Tamayo, por uma greve de fome de 85 dias.

Em 8 de julho, Fariñas abandonou o protesto depois de o governo cubano anunciar o compromisso de libertar 52 dissidentes do Grupo dos 75, condenados em 2003, fruto de um inédito diálogo com a Igreja católica da ilha.

Até o momento, 28 dos presos políticos já foram soltos e viajaram para a Espanha.

domingo, 29 de agosto de 2010

34,8 milhões sem coleta de esgoto

Meus queridos leitores, vejam o que saiu no Estadão de hoje. Retomo no final da matéria.


Brasil tem 34,8 milhões de pessoas que vivem sem coleta de esgoto

O número de brasileiros que vivem em municípios sem rede coletora de esgoto aumentou no País em oito anos - e o crescimento do serviço, bastante tímido, não acompanhou o avanço populacional no período. Em 2008, a falta de infraestrutura sanitária afetava 34,8 milhões de pessoas (18% da população). Em 2000, eram 34,7 milhões (20,4%) - 100 mil pessoas a menos.

Os dados são da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mostra também que mais da metade dos domicílios brasileiros (56%) não tem acesso à rede de esgoto - as Regiões Norte e Nordeste são as mais deficientes nesse ponto.

Os números sobre o tratamento do material coletado também são preocupantes: pouco mais de um quarto dos municípios (28%) trata o esgoto coletado. Também foi pequeno o crescimento dos municípios com rede coletora de esgoto: de 52% em 2000 para 55% em 2008. Isso representa um aumento de apenas 194 municípios.

O estudo do IBGE é feito com base em dados fornecidos pelas prefeituras, associações comunitárias e órgãos públicos e privados responsáveis por serviços de saneamento de todos os municípios brasileiros. Portanto, são dados oficiais dos governos.

O retrato do saneamento básico no País pode ser ainda mais preocupante do que revelam esses números. Na metodologia adotada, o IBGE considera que o município tem rede coletora de esgoto quando pelo menos um distrito é atendido. Nem a extensão nem a qualidade da rede estão incluídas nessa conta. Ou seja, mais brasileiros podem estar à margem das estatísticas.

A extensão das mazelas provocadas pela falta de saneamento é grande. A Organização Mundial de Saúde calcula que cada R$ 1 gasto em saneamento gera uma economia de R$ 4 em despesas com saúde. O próprio IBGE reconhece na pesquisa que "o saneamento básico é fundamental em termos de qualidade de vida, pois sua ausência acarreta poluição dos recursos hídricos, trazendo prejuízo à saúde da população, principalmente o aumento da mortalidade infantil".

Desigualdade. Além de ter avançado pouco, o saneamento básico no País é distribuído de maneira desigual entre as regiões e é deficiente especialmente no Nordeste e no Norte. Dos 34,8 milhões de brasileiros que vivem em municípios sem rede coletora, 15,3 milhões (44%) são nordestinos.

O País tem hoje 32,2 milhões de casas sem acesso à rede. Apenas Distrito Federal (86,3%), São Paulo (82,1%) e Minas Gerais (68,9%) têm mais da metade dos domicílios atendida por rede geral de esgoto. Rio de Janeiro, com 49,2%, e Paraná, com 46,3%, ficaram acima da média nacional (44%). Os outros Estados apresentaram menos de 35% de cobertura.

"Uma parcela importante da população ainda não tem acesso a rede de esgoto", analisa Antônio Tadeu de Oliveira, gerente da pesquisa. "Os dados mostram que houve evolução em todos os serviços. Mas o avanço mais tímido foi o esgotamento sanitário. Cresceu pouco. É preciso implantar o sistema nos municípios e fazer com que chegue às residências", sugere.

Para Yves Besse, presidente da Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto, é preciso mais que isso. "Estamos patinando em termos de rede de esgoto", diz. Segundo ele, hoje 90% da rede é administrada pelo poder público. "O setor precisa de políticas para o saneamento", acredita.

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Pois bem; o artigo que segue abaixo, escrevi em 2.009. De lá pra cá o que mudou quanto à questão do saneamento? Muito pouco, muito aquém do necessário. E as consequências da irresponsabilidade governamental é uma tragédia sem dimensões. No texto abaixo faço uma homenagem à pequena Kênia Barreto. Quantas Kênias não continuam sendo, todos os dias, assassinadas pela descaso, pela incompetência, pela corrupção?...

ESTAMOS PERDENDO OS NOSSOS ANJOS

Algum tempo atrás a pequena Kênia Barreto, de apenas nove anos de idade, foi ter com Deus.

Kênia era como as outras crianças de sua idade. Brincava, estudava, irritava-se ao ter que comer folhas e verduras amargas nas refeições, acalentava sonhos e esperanças.

Como todas as crianças da sua idade, em virtude da falta de segurança que assola nossas cidades, era mantida em seu castelo de fadas, e pouco saía do perímetro de sua casa. Que pai e mãe não respiram melhor e aliviados ao saber que a filha de nove anos brinca no quintal de casa?

Kênia morava em Santa Bárbara D’Oeste, município distante 138 km da capital do Estado mais rico e desenvolvido do país, São Paulo.

E a pequena criança de apenas nove anos de idade morreu num estado deplorável, envolto em vômito e diarréia, picada que foi em uma das mãos por um escorpião. E isto não ocorreu enquanto desbravava a floresta amazônica. Aconteceu enquanto brincava no quintal de sua casa.

Lembrei-me de um tempo já longínquo, quando coordenava um programa de saneamento rural e educação ambiental com recursos do Banco Mundial. Em uma comunidade rural goiana, o lixo, o entulho e as condições ambientais faziam proliferar um exército de escorpiões.

Como a pobreza e a miséria estavam enraizadas em todas as residências, optamos por uma solução alternativa para combater os escorpiões: distribuir galos e galinhas para a comunidade. Predadoras de insetos, escorpiões e pequenos animais peçonhentos, as galinhas fariam o papel de “agentes” capazes de sanear o ambiente e, ao mesmo tempo, agregar ao cardápio alimentar ovos e frangos, oriundos da criação.

O planejado, contudo, não logrou êxito porque, famintos e miseráveis, a comunidade não teve alternativa que não fosse comer todos os “agentes” saneadores.

No Brasil, as questões sanitárias e de educação ambiental, são, desde sempre, tratadas de maneira deplorável. O caso da morte da pequena Kênia é prova do descaso das autoridades e dos agentes públicos. Nesses últimos anos os recursos federais destinados às ações de saneamento foram os que mais receberam cortes para atender ao superávit primário.

Carcomidos pelos escorpiões, pela esquistossomose, pela cólera, pela amebíase, pela giardíase, pela febre tifóide, pela salmonelose, pela hepatite infecciosa, pela poliomielite e pela disenteria, são nossas crianças que pagam o alto preço da irresponsabilidade de nossos políticos, de nossos gestores públicos.

A sociedade deve se mobilizar para impedir que os lobos continuem a devorar nossos anjos.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+.

sábado, 21 de agosto de 2010

Um abrigo para nossos sonhos e esperanças

O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.

E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.

A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não têm sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo.

Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina.

Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.

Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C. tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$20 milhões.

Também no império bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.

O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.

Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.

No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.

É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las efetivas e eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre as duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?

Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.

No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto aos condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria.

A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.

Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficiência e eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.

E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.

Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.

Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga - estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.

Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado no portal "Nota 10 - Notícias diárias de educação", do Paraná.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Só se interrogam bandidos?


O século XXI encontrou um mundo com os vínculos sociais fragilizados e a individualidade ávida – exclusivamente - pela satisfação pessoal.

O egocentrismo como centro da construção da personalidade individual e o descaso para com os interesses alheios, vão tornando as pessoas seres brutais, soldados de um exército obcecado pelas aspirações pessoais, ainda que conquistá-las exija o sacrifício ou da coisificação do outro.

Neste contexto não sobra tempo para ninguém, vez que todo o tempo de que dispomos está direcionado ao atendimento de nossas necessidades individuais.

Por isto é tão difícil nos dias de hoje conquistar a atenção de alguém. Porque toda a atenção do mundo é desviada do interesse coletivo.

Daí o surgimento de técnicas e teorias para tornar possível a possibilidade do outro. E nessa ciranda, os exageros viram regras, não exceção.

O exemplo mais eloqüente talvez seja o representado pela figura do marqueteiro, que consegue transformar candidatos presidenciais em sabonete e creme vaginal.

Qualquer um de nós que queira ou necessite transmitir uma mensagem precisa contar com a atenção de seu interlocutor. E nos dias que correm, com tudo se reduzindo a numerário – sobretudo o tempo – a atenção do outro é uma preciosidade que não se conquista com facilidade.

Para conseguir acolhida para a mensagem, muitos recorrem a toda sorte de maquinações e invencionices.

Enéias do Prona sagrou-se campeão de votos, sendo eleito deputado federal pelo estado mais poderoso da federação. Conquistou mais de um milhão de votos com seu estriônico “meu nome é Enéias”, jargão repetido à exaustão nos parcos minutos que dispunha nos programas eleitorais.

Mas existem também os que navegam em águas mais profundas para se promoverem: se penduram em anzóis, seguram os filhos de ponta cabeça do enésimo andar de um espigão, os que não se incomodam em vender a mãe, os possessos de arremessar pedra em sombra de avião, e patéticos imbecis como o que se colocou à frente do maratonista olímpico Vanderlei Cordeiro. Tudo para que sejam percebidos.

Quanto mais indiferentes ao que se passa à volta, quanto mais submergidos no mundo próprio, maior a necessidade de distinguir, destacar, sobressair, para que a idéia se eleve e encontre porto para atracar. Este processo se bifurca em duas direções.

Na primeira, a atenção é conquistada à custa de criatividade, de inovações que estimulem o olhar para fora, a percepção da realidade em volta. Para que uma decisão mais conseqüente possa ser tomada.

Na segunda, a grosseria, a baixaria compõem o arcabouço, o pano de fundo do estratagema de conquistar o interesse das pessoas. Movidas a indicadores que aferem a audiência de suas programações minuto a minuto, as redes de televisão se esmeram em apresentar uma produção de mau gosto, em que a mediocridade e a superficialidade são marcas registradas.

De igual modo, os políticos lançam mão deste substrato, assumindo projetos e proposições pautados pela demagogia e artificialidade.

Em quase todos os momentos de nossas vidas estamos em busca da atenção de alguém. O governo, de seus contribuintes; os empresários, de seus clientes; os apaixonados, de seus amores; os políticos, de seus eleitores; os pais, de seus filhos; os filhos, de seus pais; ...

É que num sistema em que a tônica é a competição, a atenção é como uma jóia rara, cobiçada, e por isto disputada a ferro e fogo.

Também nas salas de aula o professor se depara com este problema. Procura seduzir, conquistar a atenção. E encerra a aula satisfeito quando consegue despertar o interesse dos alunos. Alguns mestres, mais envolvidos, se enveredam por atuações performáticas, lançando mão da música, da dança, do teatro para tornar a exposição mais oxigenada, viva e instigante. Conseguem transformar fórmulas matemáticas e composições químicas em rimas métricas. Como recompensa pelo esforço, recebem dos alunos aplausos e um tipo de comprometimento que desemboca na substancial melhoria do rendimento escolar.

Boa parte dos alunos apresentam-se na escola desinteressados, desestimulados, com um grau de passividade e alienação preocupantes. E isto vem ocorrendo da pré-escola à universidade.

O universo em que o sistema educacional brasileiro está mergulhado é um caos absoluto. Os três níveis de governo não cumprem o dispositivo constitucional que determina o repasse dos recursos orçamentários, e nem priorizam – a não ser no discurso – a educação como estratégia para alcançar o desenvolvimento. Resulta um cenário em que todos se sentem descontentes: alunos, professores, pais e responsáveis, comunidade ...

Mas nos estreitos limites das possibilidades, os professores podem muito. E uma boa forma de, na sala de aula, poder mais, é resgatar o “interrogatório” como instrumento de mobilização e participação.

O problema é que, muito mais no passado e com menor intensidade nos dias de hoje, o “interrogatório” sempre esteve relacionado a contextos punitivos, a mecanismos de afirmação da autoridade e do poder discricionário dos mestres sobre os aprendizes. Para os que se atrasam, os que se dispersam, os que enveredam por conversas paralelas, “nada melhor” que uma bateria de perguntas capciosas. De efeito instantâneo, o “interrogatório” de natureza punitiva é o sucedâneo da palmatória e do castigo em que se dispunha o “culpado” ajoelhado sobre grãos de milho.

Essa é, em parte, a razão desse importante recurso de mobilização ter caído em descrédito. Ressalte-se ainda que a palavra interrogatório nos remete ao “auto em que se escrevem as respostas do indiciado ou do réu às perguntas feitas pela autoridade competente”. Em virtude da definição do vocábulo, a primeira lembrança estará quase sempre associada a repressão, a problemas com o judiciário ou com a polícia, coisas nesse sentido.

Todavia, utilizado num outro contexto, o “interrogatório” pode estimular os alunos a estabelecer novos pactos, novas relações, assumindo uma postura participativa e de compromisso com a consecução das metas traçadas.

Neste novo contexto, o “interrogatório” conduz a uma participação mais intensa, e conseqüentemente, favorece o envolvimento de toda a classe nos debates e discussões. A reflexão passa do individual para o coletivo, agregando substância, refinando a lógica e o raciocínio, qualificando as aulas.

Para manter-se distante do ultrapassado estigma, o sistema pergunta-resposta deve ser livre e multidirecional. Livre no sentido de todos se sentirem bastante a vontade para indagar o professor sobre assuntos de qualquer natureza. Caberá ao mestre a habilidade de fazê-los convergir ao conteúdo de interesse, de que trata o ementário. E multidirecional no sentido de que os alunos devem se perceber parte do processo, devem se sentir estimulados a formular perguntas e respostas – para o professor e para os colegas. Já o mestre - para responder às questões - deve se certificar que extraiu o máximo dos alunos, e mais, que a classe tenha exaurido os meios de pesquisa disponíveis. Quando o aluno desconhece a resposta deve se habituar a investigar recorrendo a estudos, pesquisas, anotações, mas sobretudo interrogando colegas, professores, lideranças da comunidade,... O mestre deve orientar a busca, ensinar a pescar, incutir no aluno que ele é capaz caso queira.

Enganam-se os que imaginam que os “interrogatórios” só se prestam para aferir ou recordar conhecimentos adquiridos. Colocados nos devidos termos, despertam o interesse pelo tema proposto, reforçam a atenção atuando em contraponto às distrações, conduzindo o raciocínio por uma via menos congestionada, além de auxiliar na identificação de deficiências e incompreensões dos participantes.

O “interrogatório” efetuado de forma correta chama à participação, possibilita comparações, relações e julgamentos.

Mas é necessário precisar o que, como, quando e a quem perguntar. Esta sistematização é que dará ao sistema o encadeamento lógico capaz de levar a um aprendizado consistente. Porém, todo este processo só alcançará resultados satisfatórios se revestido de simplicidade. Os chineses costumam ensinar que só a simplicidade leva à verdadeira harmonia.

Importa evitar perguntas compostas, complexas, longas, desestruturadas. Clareza, objetividade e inter relacionamentos. Eis os predicados.

Também não categorizar as questões como fáceis, difíceis ou medianas. Devem estar compatíveis com a capacidade de resposta dos alunos. É fundamental que sejam interessantes e estimulantes.

Outro ponto a destacar é que não existe pior questionamento do que aquele formulado com a resposta embutida. Identifica, quando menos, um investigador prepotente, pretensioso a ponto de prescindir de seu interlocutor, um arrogante que conversa consigo mesmo imaginando estar dialogando com o outro.

De nada adiantará todo o esforço e trabalho se o professor ficar refém de três ou quatro alunos mais interessados. É imperativo que todos os alunos sejam envolvidos na dinâmica, democratizando e universalizando o processo, evitando assim que o processo seja apropriado exclusivamente pelos mais prolixos e espontâneos. Os tímidos, os que se sentem fora do tempo e do espaço, devem receber atenção redobrada, até que estejam equiparados aos demais colegas.

Um surrado ditado popular repercute ao longo da história da humanidade: quem tem boca vai a Roma.

Os educadores deveriam atinar mais sobre os antigos ensinamentos.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal Goiás Educação

domingo, 8 de agosto de 2010

Não matem Sakineh

Não matem Sakineh
De Gaudêncio Torquato - O Estado de S.Paulo

Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 43 anos, mãe de dois filhos, aguarda o momento de ser enterrada até o pescoço e apedrejada. Condenada pelo artigo 83 do Código Penal do Irã (Lei de Hodoud), que prescreve a lapidação por adultério, a iraniana da etnia azeri confessou sob chicote ter mantido relações ilícitas. Das cem chicotadas preconizadas pela sharia (lei), recebeu "apenas" 99 por "senso humanitário" do juiz. No sábado 31/7, Luiz Inácio, amigo do líder do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, foi impelido a sugerir, em praça pública, a acolhida da condenada entre nós. Depois da decisão de colocar o Brasil, juntamente com a Turquia, na defesa do programa nuclear do Irã, nosso presidente não esperava receber o troco em forma de deboche: "Pessoa humana e emotiva, que provavelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso." Entre a humanidade do juiz, dispensando a última chicotada em Sakineh, a da Corte Suprema, que pode demonstrar "sensibilidade" e transformar o apedrejamento em enforcamento, e o toque sentimental de Lula, em seu esforço para evitar o "açoite" sobre o Irã, materializado em sanções impostas pela ONU àquele país, desenrola-se o fio de concepções relativas sobre vida, culturas e sistemas políticos.

A comovente história da iraniana serve para escancarar a hipocrisia de nações e a lógica que move seus interesses e trocas. Nem sempre se paga a solidariedade de um país a outro com reciprocidade. A fraternidade demonstrada por Lula para com o Irã acabou sendo correspondida com desdouro. O Brasil nem se recupera do impacto negativo sofrido pela decisão de apoiar o programa nuclear iraniano e vê o apelo de seu mandatário, mesmo feito informalmente, ser transformado em bobagem, coisa ingênua de pessoa desinformada. O que as autoridades iranianas possivelmente pretendem transmitir é a feição dogmática de sua cultura: o apedrejamento tem o amparo do Hadith, a palavra sagrada do profeta Maomé, e é acolhido pela Justiça. A questão, ampla, envolve o conflito entre o Islã e o Ocidente, que tem como pressuposto fundamental a intransigente defesa de seus sistemas. O islamismo não recua em sua disposição de se impor como guia cultural, religioso, social e político no mundo moderno.

Esse pano de fundo abriga o antagonismo histórico Islã-Ocidente, centrado menos em posições territoriais e mais em temáticas que ferem os modos civilizatórios, tais como a proliferação de armamentos, os direitos humanos, as liberdades individuais e sociais, as questões relacionadas à imigração, o terrorismo fundamentalista e as ameaças de intervenção do Ocidente. Convém, aqui, avaliar a posição de certas nações, entre as quais o Brasil, para as quais a geopolítica contemporânea deve pautar-se no pragmatismo de orientação econômica, cujo vetor aponta para a complementaridade de seus nichos negociais. Sob este prisma, as relações comerciais entre países importam mais que injunções de natureza social e política. Ora, a perspectiva que privilegia a matéria econômica em detrimento dos valores éticos e morais não pode ser aceita nos moldes em que é argumentada pela diplomacia. É inconcebível que países de talhe democrático, à moda dos três macaquinhos (fechando olhos, ouvidos e boca), se sintam confortáveis com afagos e abraços dados em déspotas de regimes ditatoriais.

É bem verdade que boa parte do mundo frequenta a zona cinzenta de um relativismo moral e cultural. Sob esta pisada, sistemas fechados tentam legitimar a repressão. Não é esse o caso do Irã? Quando esse país diz com todas as letras que o presidente brasileiro está desinformado, na verdade quer sugerir outras respostas: "Não se intrometa em nossos costumes, não dê palpites em nosso sistema judiciário, não bote o bedelho onde não é chamado." Ou, de modo mais educado: "Nós apreciamos sua humanidade para defender nosso território no concerto das Nações, mas, por favor, não a use para contrariar nossos códigos de conduta e justiça." Se Luiz Inácio der o dito pelo não dito, esquecendo o apelo que fez por Sakineh, imitará os três macaquinhos. Principalmente neste momento em que a defesa dos direitos humanos ganha relevo nos foros internacionais - basta olhar para a libertação de 50 prisioneiros políticos de Cuba -, nosso presidente, pessoa afeita a lances de grande visibilidade, poderia ancorar a imagem brandindo a sagrada bandeira das liberdades. O Itamaraty, por sua vez, deve conter o ímpeto de construir pontes de fraternidade com qualquer pedaço do mundo a título de reforçar laços comerciais. Poderia dosar seu pragmatismo com pequena lição dos clássicos: "As culturas são relativas, mas a moral deve ser absoluta." A fatia ética há de fazer parte do bolo que o Brasil busca extrair dos fornos do planeta.

Com espaço continental, incomensuráveis riquezas, povo acolhedor, sentimental, alegre e criativo, o País terá voz mais elevada se decidir integrar a vanguarda da luta pelos direitos humanos. Basta de tergiversação. Sob essa crença, e ante a confirmação da sentença pela Alta Corte do Irã, Lula poderia insistir, agora formalmente: "Sr. presidente Ahmadinejad, adicione uma pitada de grandeza ao Irã. Liberte Sakineh. O gesto abrirá espaços de solidariedade para sua nação. Entendemos a identidade cultural de seu povo. No campo ético e moral, porém, não deve haver relativismo."

Abro espaço para Marina Nemat, autora de Prisioneiros em Teerã, livro de memórias em que descreve a prisão Evin, em Teerã: "De 1982 a 1984, ainda adolescente, presa política, fui ali torturada e estuprada. Vi meus amigos sofrerem e morrerem. Tantas vidas jovens e inocentes devastadas ou perdidas. Mas o mundo continuou como se nada tivesse acontecido."

Em tempo: as pedras para a lapidação não podem ser muito grandes, porque a ré deve sofrer o suficiente e não pode morrer logo; tampouco devem ser pequenas, porque os lapidadores demorariam muito. Mas a humanidade dos juízes poderá "conceder-lhe" a morte por enforcamento.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

Jovem mutilada no Afeganistão

Meus queridos, leiam o texto que segue. Retomo na seqüência:

Jovem mutilada no Afeganistão será operada na Califórnia
(AFP)

LOS ANGELES — Uma jovem afegã de 18 anos, que posou para a controversa capa da revista Time deste mês, exibindo o nariz e as orelhas mutiladas como forma de denunciar a crueldade dos talibãs contra as mulheres, será operada na Califórnia, oeste dos Estados Unidos.

Segundo a publicação, Aisha foi mutilada pelo marido como punição por ter fugido de casa. A jovem, que se casou ainda adolescente e fugiu de casa por causa dos maus-tratos que sofria do marido, disse que seu castigo foi aplicado com a aprovação de um comandante talibã, regime que aceita este tipo de punições contra as mulheres que se rebelam contra as suas leis.

A moça, que encontrou refúgio em uma organização não-governamental, viajou aos Estados Unidos para ser operada, confirmou à AFP a presidente da Fundação The Grossman Burn, Rebecca Grossman.

"A intervenção foi doada pelo cirurgião plástico e reconstrutivo Peter Grossman e pela equipe do centro The Grossman Burn, situado no Hospital West Hills", em Los Angeles, informou Grossman, sem dar maiores detalhes sobre a operação.

A foto do rosto desta jovem mulher, publicada na capa da edição da primeira semana de agosto da revista americana, acompanhada do título "What happens if we leave Afghanistan" (O que acontece se deixarmos o Afeganistão), causou polêmica.

O título serviu de gancho para uma reportagem com fortes implicações políticas sobre a permanência militar dos Estados Unidos no país asiático, com enfoque na situação das mulheres que vivem sob o domínio do regime talibã.

O chefe de redação da Time, Richard Stengel, escreveu um editorial para este número, explicando a escolha da capa.

"Nossa imagem da capa é poderosa, horrível e perturbadora. (...) A publicamos para mostrar qual é a situação no terreno. (...) Nosso trabalho é dar contexto e perspectiva a um dos temas de política externa mais complicados dos nossos tempos", explicou Stengel.

Atualmente, a administração do presidente Barack Obama alcançou seu pior nível de popularidade após o crescente vazamento de documentos militares secretos que levantaram o debate sobre a guerra no Afeganistão e as possíveis atrocidades cometidas pelas forças lideradas pelos Estados Unidos.

Segundo pesquisa realizada em 3 de agosto, a campanha militar liderada por Washington no Afeganistão é mais impopular do que nunca entre os americanos: 43% dos entrevistados consideraram que os Estados Unidos cometeram um erro ao enviar tropas, contra 38% que pensavam assim antes da divulgação na internet de 92.000 documentos confidenciais, destacou o estudo do instituto de pesquisas Gallup e do jornal USA Today.

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O artigo que segue abaixo, escrevi quase quatro anos atrás. Nele retrato uma angústia que me assola, o trato com a língua mater e a forma como muitos deturpam o sentido das palavras para esconder interesses inconfessáveis. A palavra "transparência" por exemplo... como tem sido açoitada, vilipendiada, aviltada...

Palavras importantes que tem sido sistematicamente adulteradas: "progressista", "engajado", "orgânico", "avançado"...

Pergunto como pode ser "avançado" quem se encanta com déspotas e autoritários, com os tiranos e torturadores, com fundamentalistas e sebastianistas?

Com que responsabilidade estamos tratando a última flôr do Lácio?... Leiam, meus queridos leitores, o artigo abaixo, e partilhem comigo dessa angústia ferina:

O Santo Graal

"Hoje, existe uma espécie de menosprezo por essa coisa tão simples que antes era falar com propriedade. Quando eu era trabalhador, sempre tinha as ferramentas limpas e em bom estado. Não conheço uma ferramenta mais rica e capaz que o idioma. E isso significa que se deve ser elegante na dicção. Falar bem é um sinal de pensar bem".
Saramago

O homem jamais se conformou com suas atividades instintivas. As reações efetuadas de forma mecânica - que dispensam o aprendizado e a reflexão crítica - como os atos de respirar, comer, defecar e se arrastar jamais satisfizeram o Homo sapiens.

Desde os primórdios sentiu a premência de avançar, de evoluir, de comunicar a experiência vivida, incorporando um discurso significativo. E neste contexto a aprendizagem está para a evolução da humanidade assim como o Santo Graal está para algumas seitas religiosas.

Aprender a dominar o fogo; dar novas formas à pedra, lascando-a; captar a forma de lidar com a argila, o ferro, o cobre, o aço... E transmitir o conhecimento adquirido, se diferenciando das demais espécies porque o que acumulou e acumula diuturnamente não depende exclusivamente das informações genéticas e do comportamento que se desenvolve automaticamente de sua relação com a natureza.

Portanto, uma característica fundamental do homem reside na capacidade de aprender, de processar as experiências e conhecimentos que recebe dos antecedentes e das antigas gerações para transmitir para os contemporâneos e para os que virão. É esta especial característica que elevou a espécie, possibilitando exercer completo domínio sobre o planeta, e que decorre da habilidade de criar sistemas de símbolos - sobretudo a linguagem - mecanismos de que se utiliza para dar significado às experiências vividas, transmitindo-as aos seus semelhantes.

Por esta razão, no planeta terra, tão somente ao Homo sapiens é dado pensar.

Todavia, no decorrer da evolução humana parece que modificações genéticas acometeram indivíduos e grupos deles, criando uma sub-espécie que cultua a mediocridade, a ignorância e a delinqüência intelectual. É deste grupo de pessoas – hoje tão numerosos que em alguns extratos sociais, amplamente majoritários – que se refere Saramago. De uma forma sentida, dolorida, num incontido desabafo, dá testemunho dos que menosprezam o idioma, a fala, o pensamento...

Porque a escalada dos que são incapazes de pensar e falar bem, parece não ter fim. Como pragas de vampiros vão galgando posições, ocupando todos os espaços, sugando todo o sangue e energia disponível à volta. São os dráculas modernos, arrogantes e presunçosos, artificiais e preguiçosos ao extremo, incapazes de ler um bom livro, freqüentar uma boa escola, encantar-se por um museu, um teatro ou um cinema.

Não desenvolveram a habilidade de escutar, de ouvir. Simplesmente simulam prestar atenção ao interlocutor porque todas as respostas já estão predefinidas, na ponta da língua, pronta para a erupção que exala estultícia, tolice.

Os néscios compõem uma caterva de malandros que avacalha o idioma, sempre testando nossa paciência para administrar o insuportável, o que afronta a harmonia e desequilibra, o que agride a lógica e aos ouvidos, o que distorce e desfigura a verdade.

Incapazes de compreender as virtudes do diálogo diplomático, discreto e de conteúdo, estão sempre como prolixos papagaios, repetindo citações imbecis e o que já foi dito e reiterado inúmeras vezes, falando alto e com estardalhaço.

Como não têm o poder da palavra, não dominam o idioma e ignoram a lógica, jamais alcançam o pensamento, o raciocínio, a reflexão. Então utilizam a verborragia dos retardados e, conseqüentemente, não convencem. Daí, para vencer, só pela força.

Como cansa escutar alguns políticos, alguns intelectuais, alguns professores,...broncos que infestam todas as categorias profissionais.

Jamais compreenderão o poder do silêncio, do instante mágico para processar o que se escutou, o que se viu, o sentimento que emergiu, quando as coisas se revelam em sua verdadeira intensidade. Quando sentimos a doce presença de Deus.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia Quasar K+ de planejamento estratégico. vilatetra@gmail.com

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Protesto.

Iraniana simula uma execução por apedrejamento, durante manifestação em Bruxelas, 2005

segunda-feira, 2 de agosto de 2010



Não se omita!!! Ajude a libertar Sakineh

Sakineh Mohammadi Ashtiani, mãe iraniana, pode ser executada a qualquer momento.

9 de julho de 2010: Mohammad Mostafavi, advogado de Sakineh Ashtiani, disse à AFP:"ainda não fui informado de qualquer suspensão da sentença. Minha cliente continua na prisão." Uma mulher iraniana encara a morte após ser torturada por um suposto adultério.

Em 2006, Ashtiani foi condenada por ter mantido .relações ilícitas. e recebeu 99 chibatadas. Desde então, esta mulher de 43 anos está na prisão, onde se retratou da confissão feita sob a coerção das chicotadas.

Só recentemente é que ela foi levada ao tribunal e recebeu um novo julgamento. De novo ela foi condenada e, desta vez, apesar de já ter sofrido uma punição, foi sentenciada à morte por apedrejamento. Essa prática desumana envolve enrolar firmemente a mulher, da cabeça aos pés, com lençóis brancos, enterrá-la na areia até os ombros e golpeá-la à morte com pedras grandes.

Ontem, no final da tarde, o governo do Irã negou a informação de que Ashtiani seria executada por apedrejamento, embora sua sentença de morte ainda possa ser levada a cabo por outro método, provavelmente o enforcamento.

Os ativistas dos direitos humanos no Irã, incluindo a Anistia Internacional, duvidam da veracidade dessa declaração e continuam preocupados com o destino de Ashtiani. Mais, aqui.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O sistema de ciclos

Deu na folha de hoje:
CICLOS, OU PROGRESSÃO CONTINUADA É O MELHOR SISTEMA NA EDUCAÇÃO!

(Fernando Barros - FSP, 30) 1. Quem implantou o sistema de progressão continuada em São Paulo foi o educador Paulo Freire, insuspeito de "tucanismo", quando secretário de Luiza Erundina. Mário Covas adotou o modelo no Estado em 1995. O desafio daquela época era, fundamentalmente, colocar (e manter) a criança na escola. As taxas de repetência e de evasão escolar eram alarmantes. Hoje, ao menos no ensino fundamental, as crianças estão na escola. O que é um avanço.

2. Reprovar mais não é sinônimo de elevar o nível do ensino. Pode, dizem especialistas, significar o contrário. Estudos mostram que o aluno repetente aprende menos, e não mais que seus colegas; que a reprovação pode ser fator de "deseducação", além de estímulo à exclusão social.

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E o que publiquei sobre o assunto, algum tempo atrás:

Erro histórico? Bah!!! ou "O sistema de ciclos"

Muitos apelidos e paradigmas pegam em função das oportunidades, dos interesses e até do humor do freguês. Às vezes escudam-se em justificativas inconsistentes, meias-verdades, arrazoados apenas envernizados de lógica. Não são poucas as vezes em que caem no domínio público em decorrência da mesquinharia que acomete meio mundo, mas não devemos perder de vista o impacto do preconceito sobre nosso comportamento.

Quantas vezes na vida já refugamos um bom livro, um filme interessante, uma idéia instigante por puro preconceito? Quem jamais se abrigou nas entranhas do jargão “não li, não vi, não conheço, e não gostei”?

Já faz um bom tempo que não encontro questão que galvanize tanta resistência e má vontade quanto o sistema de ciclos.

Este modelo surgiu como alternativa para substituir as antigas séries que avaliam os alunos ao término de cada ano letivo. No novo modelo as avaliações são realizadas ao longo do ciclo. Em decorrência da nova sistemática de avaliação, não existe mais a possibilidade do aluno ser reprovado ao final de cada ano, ao final de cada série. Quando não consegue responder ao demandado pelos professores, o aluno é reprovado ao final de cada ciclo. O ensino fundamental, por exemplo, está estruturado em dois ciclos, um da primeira à quarta série e o outro da quinta à oitava.

Como marco regulatório, o sistema de ciclos está amparado pela Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que assegurou autonomia para estados, municípios e unidades escolares decidirem se incorporam ou não a nova estratégia.

Cá entre nós, o sistema é o que existe de mais produtivo. Despreza a possibilidade das provas e testes estanques, determinados num único instante, e abraça a visão larga do processo continuado, onde as avaliações não constituem um fim em si, mas uma sistemática diuturna, que incorpora múltiplos formatos, variados componentes, ensejando a interação do ensino formal com apreendido no universo familiar e social do estudante. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Prisioneiros da idade média


Houve épocas em que foi diferente, mas, em tempos contemporâneos, o recurso econômico que vinca, faz diferença, que tem se mostrado mais expressivo e importante não é outro senão a educação.

Uma rápida incursão pela história da humanidade demonstra que nem sempre foi assim.

As civilizações antigas utilizaram o trabalho escravo para alavancar o progresso econômico. Na idade média a organização social se processou tendo como referência as terras dos senhores feudais. ‘Fábrica’, ‘maquinário’, ‘produção em série’ foram as palavras mágicas capazes de mover a moderna civilização industrial na direção da acumulação do capital.

E rompendo o século XX e em pleno curso no século XXI explode em toda a sua intensidade a sociedade do conhecimento.

Sociedade do conhecimento? O que é isso? Um pássaro? Um avião? Não, é o Super-Homem. É verdade, caro leitor... Não vai aqui nenhuma ironia ou piada de salão.

A sociedade do conhecimento resulta da educação que re-elabora, recria valores, revoluciona paradigmas, uma indústria ininterrupta de produção de novas tecnologias, capital humano e qualidade sustentável. É o que mais pode aproximar a espécie das estórias em quadrinhos que povoaram nossa infância, é o que mais pode nos fazer parecer com o homem de aço do planeta Krypton.

Países que - até algumas décadas atrás - situavam-se no mesmo estágio de desenvolvimento que o Brasil, hoje se encontram anos-luz à frente. Parece que ficamos imobilizados num desses atoleiros fantasmagóricas onipresentes nas estradas federais.

Por mais que doa, a verdade não deve ser ignorada: Pindorama ficou para trás. Boa parte do país parece aprisionada, é como se gigantescos grilhões nos impedissem de romper com a idade média e com os primórdios da revolução industrial. Enquanto o mundo desbrava o futuro, gastamos o suor e a energia da nação conquistando fatias de um passado já longínquo, distante, atrasado e obsoleto.

Mas a Ásia, Irlanda, Austrália, e aqui bem próximo, o Chile, avançaram, e continuam avançando, progredindo, deixando a república Tupiniquim submersa numa nuvem densa de poeira vermelha. Investindo de forma decisiva e progressiva na educação, esses países vêm alcançando elevados níveis de emprego, sustentabilidade e bem estar social.

O Brasil que desdenhou o dever de casa amarga indicadores perversos, vergonhosos, abomináveis, sempre ocupando as últimas posições nos exames internacionais que avaliam o ensino, que mensuram o nível de conhecimento agregado pelos alunos. Uma panorâmica pelas últimas edições do PISA-OCDE mostram que o mar não está para peixe.

Por considerarem a educação uma alavanca para o progresso, países como Coréia, Irlanda e Austrália estão em vias de encontrar o super-homem, pelo menos a parte humana do super, aquela que usufrui privilégios triviais, como o de ter acesso a emprego e renda; o de não ser achincalhado com bombardeios diários denunciando maracutaias e corrupção; como o de poder levar a família para um simples passeio familiar, sem temer a parada no semáforo, sem a preocupação com o estampido seco e fatal. Vai dizer que não é um privilégio ter a certeza de que gatunos da merenda, dos livros didáticos ou do transporte escolar acordarão vendo o sol nascer quadrado? Vai garantir que não é privilégio ter a convicção de que corruptos cumprirão longas penas nas cadeias?

Tudo correndo bem, sendo a corrupção endêmica estancada (e os corruptos encarcerados!), assegurando que os investimentos não sofram solução de continuidade, o Ministério da Educação prevê cerca de duas décadas para que o Brasil alcance a média dos estudantes dos países-desenvolvidos. Vinte anos. É um tempo longo, por demais longo.

Tivéssemos uma maioria de políticos com vergonha na cara e este tempo se reduziria substancialmente. Mas este é o Brasil real e de nada vale dar asas à ilusão.

Fixemo-nos então nas projeções do MEC. Pelo menos é uma oportunidade e não uma daquelas miragens tão ao gosto dos nossos legítimos ‘representantes’. É importante atenção e vigilância. E ante o perigo e a iminência do primeiro desvio, gritar, berrar, espernear, indignar, protestar. É nossa obrigação romper os grilhões que nos aprisionam à idade média. Devemos isso à nossos filhos e netos.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado no portal da Associação dos Professores de São Paulo

domingo, 18 de julho de 2010

Camões e a ideologia de matula

“Só o tempo cura o queijo”, desejaram ensinar nossos avós. Poucos conseguiram, verdadeiramente, aprender este milenar ensinamento.

O tempo – cansou-se de versar o poeta – é o senhor da razão.

Na arte como na vida, é o tempo que determina o que – qual flecha pontiaguda – vai atravessar a linha que separa o presente do futuro. O juiz soberano que separa o efêmero do perene não é outro senão o tempo.

O conjunto Legião Urbana transformou em música um dos mais belos e singelos poemas de todos os tempos, escrito pelo poeta maior da língua portuguesa.

A poesia que sustenta a melodia entoada pelo Legião foi escrita nos idos do descobrimento do Brasil e sua transposição para os dias de hoje é comprovação de que a arte, quando consistente e inundada de qualidade, brinca com a linha do tempo, transforma passado, presente e futuro num único instante, um ponto indivisível da quarta dimensão.

Na realidade, a banda capitaneada por Renato Russo (Monte Castelo) entremeou trechos de Camões com outros de Paulo, o Aposto.

Aqui está o soneto de Camões:

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


A magnífica obra é de Luiz de Camões que, presumivelmente, nasceu em 1525, vindo a falecer no ano de 1580.

Camões revolucionou a poesia lírica portuguesa. A condição humana e o intrincado universo dos sentimentos são explorados de forma sutil, mas densa o suficiente para promover a reflexão filosófica.

Vejam a beleza deste soneto, outra obra prima do mestre do classicismo lusitano:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


No período do Renascimento, a expansão comercial gerou um movimento cultural denominado Classicismo, estilo literário logo abraçado por Luís de Camões.

A obra de Camões adentrará o futuro eterno influenciando os escritores de todo o mundo, sobretudo os que receberam a graça de escrever em português.

“Soneto de Carnaval” de Vinicius de Moraes é mais um exemplo da presença inspiradora de Camões:

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.


Os livros didáticos e para-didáticos utilizados em nossas escolas preocupam-se sobremaneira em politizar nossas crianças e jovens, incutindo – muitas vezes extemporaneamente – conceitos do viver politicamente correto. E tome cidadania, inclusão, ações afirmativas, participação popular, sustentabilidade, etc. e etc. Nada de mal. Tudo bem se é para formarmos cidadãos de bem com o mundo e com as pessoas. O problema é que muitos de nossos educadores acreditam que para vestir um santo devem descobrir o outro. E esquecem-se do conhecimento básico, que dá suporte aos demais; e desdenham deixando de lado a ciência dos números e a das letras.

Sim, passam a tratar a matemática e o português como uma espécie de filhos bastardos, aos quais se dá uma certa atenção, mas nada que implique maiores comprometimentos. Pitágoras e Camões são aprisionados no lugar mais ermo da escola, no canto mais escuro e empoeirado da biblioteca.

E esta é – não tenho a menor dúvida – uma das causas (das principais!!) do Brasil ter se tornado especialista em ocupar os últimos lugares nos ranking’s que hierarquizam a qualidade e o nível da educação. Sejam as sucessivas edições do Pisa, seja qualquer outro indicador, sempre estamos segurando a lanterna, atrás até mesmo dos vizinhos sul-americanos.

Como é possível acreditar que, desconhecendo as quatro operações da aritmética e sem conseguir extrair de um texto elementar seu sentido figurado, pode um aluno alcançar a cidadania? Não pode. A não ser que o objetivo seja inflar os números e maquiar os relatórios pedagógicos.

Caros mestres. Tratem com mais carinho e apreço seus alunos. Matemática e português neles. Pitágoras e Camões jamais farão mal a ninguém. Ao contrário, sem eles, inclusão e cidadania não passam de jargões e palavras de ordem, ideologia de matula, uma sistemática de todo incompatível com educação de qualidade.

Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

domingo, 4 de julho de 2010

A República Federativa do Sugabão

O Brasil sempre foi um país onde riquezas naturais nunca faltaram. Sempre existiram em profusão. Daí a naturalidade com que ostentamos a posição de uma das maiores economias do planeta.

A pujança que a natureza nos presenteou se fez fartura econômica e não poucos estudiosos estimam que – passada a atual crise mundial – o país passará a ocupar a posição de 8ª maior potência econômica do planeta, superando economias estabelecidas, como a da Inglaterra.

O grande problema do Brasil, portanto, não se refere ao volume e dimensão de suas riquezas e potencialidades e sim como elas são distribuídas, como chegam ao conjunto da população. E aqui, temos um problema gigantesco, um nó górdio que cinco séculos de história não foram suficientes para equacionar e resolver.

A distribuição da riqueza brasileira é tão nefasta e perversa que os extratos da população que compõem a base da pirâmide social –os mais pobres – encontram-se em condições de exclusão similares aos das nações mais miseráveis do planeta. Em contra-posição, as faixas que ocupam o topo da pirâmide, igualam-se, em posses, luxo e ostensividade, aos extratos mais ricos e poderosos das primeiras potências do mundo.

Já me referi, em outros artigos, ao Brasil como uma república resultante da simbiose entre o que de melhor existe na Suécia com o que de pior foi gerado no Gabão. Um nome semelhante a Sugabão não nos faria injustiça, porque, verdadeiramente, é o que somos.

E como se não bastasse a gravidade da situação, um quadro mais terrífico acaba de ser anunciado pelas Nações Unidas.

Relatório do PNUD que analise as mais recentes informações do Índice de Desenvolvimento Humano demonstra que os 20% de brasileiros mais ricos vivem em situação melhor que os extratos mais ricos da população da Suécia, Alemanha, Canadá e França.

O estudo "Desigualdade no Desenvolvimento Humano: Uma determinação empírica de taxas de 32 países" revela que, no Brasil, a fatia mais rica da população tem um IDH de 0,997, indicador muito próximo do máximo (1,000) e que ultrapassa o valor correspondente aos 20% mais ricos de todos os outros países calculados, incluindo o do Canadá (0,967) e o da Suécia (0,959).

Quando descemos para os recônditos do subsolo, verificamos que o atual IDH do Brasil, é, na média geral, de 0,807. Contudo, os mais pobres gravitam em condições correspondentes a um IDH de 0,610, o que os colocam em um universo mais indigente que os mais excluídos da Indonésia (0,613), do Vietnã (0,626), do Paraguai (0,644) e da Colômbia (0,662).

Portanto, os opulentos brasileiros são mais ricos que os ricos suecos; e a plebe verde-amarela, mais pobre que os pobres paraguaios. O relatório das Nações Unidas conclui ainda que “no Brasil e em países como Guatemala e Peru, a diferença do IDH dos 20% mais pobres para o IDH dos 20% mais ricos só não é superior à de alguns países da África, como Madagascar e Guiné”.

Os números enfatizam que nos encontramos numa encruzilhada, num daqueles famosos “becos sem saída”. A solução, sabemos todos, consiste em priorizar investimentos para qualificar nossa educação. Porque qualificando a educação, qualificamos as pessoas, qualificamos o voto, qualificamos nossa representação, corrigimos as injustiças e distorções... para então – coletivamente - nos distanciarmos do Gabão, nos colando indissoluvelmente à Suécia.

domingo, 13 de junho de 2010

Vamos substituir os computadores por réguas de cálculo?

Para os mais dados à observação sempre esteve claro que alguma coisa não vai bem.

Sim, é verdade, não há quem não veja o esforço nacional pra dotar as escolas de melhores condições tecnológicas, sobretudo de computadores. Participa deste esforço não apenas o governo, mas também a sociedade organizada, empresas e fundações privadas, nacionais e internacionais.

O PC e a rede mundial de computadores são instrumentos imprescindíveis no mundo moderno. Estão para a vida contemporânea como a água e o alimento estão para o peixe. Definitivamente, não há como navegar pelo século XXI mantendo-se ao largo das tecnologias de informática, sobretudo quando o foco é o ensino, a educação.

Que educador em sã consciência pode ignorar ou desdenhar a importância do computador e da internet no aprendizado dos alunos? A praticidade, racionalidade, eficiência; o acesso ilimitado a dados e informações, o livre ingresso para freqüentar e desbravar universos antes intangíveis, a irrestrita disponibilidade de obras clássicas, acervos seletos e das melhores bibliotecas dos EUA e da Europa, tudo isso possibilitado pela existência da WEB. É o mundo na tela de um simples monitor.

Em que pese a velocidade muito menor que a necessária, nossas escolas têm se adequado às demandas dos novos tempos. Investem na atualização dos hardwares, em redes, softwares e aplicativos mais eficazes, instalam espaços e laboratórios para otimizar a utilização, democratizar o conhecimento, promovem oficinas... E tudo parecia correr conforme o planejado até que começaram a surgir aqui e ali – ainda que de maneira assistemática, tímida e dispersa – estudos alertando que, ao contrário de ajudar, os computadores estão atrapalhando a vida dos estudantes brasileiros.


- Mas como pode? É uma aberração, um acinte, uma aleivosia - apressaram-se em bradar os ‘entendidos’.

- Um computador, qualquer que seja a circunstância, jamais será um entrave para um estudante, esteja no Brasil, esteja na Cochinchina – completaram outros ‘especialistas’ ostentando a empáfia característica dos que acreditam que o mar se limita à crista das ondas.

Por outro lado, os adeptos das práticas conservadoras e avessos a tudo o que soe modernidade, não ficaram para trás:

- Com ábacos e os antigos instrumentos os alunos aprendem mais – e concluem frenéticos. – Vamos substituir os computadores por réguas de cálculo.

Este é um caso em que os ‘entendidos’ e os avessos à modernidade estão errados. Completamente errados.

Pois o Ministério da Educação acaba de divulgar uma pesquisa demolidora sobre o assunto: a instalação de computadores, redes virtuais e laboratórios de informática em nossas escolas não têm agregado qualidade à educação, ao contrário, tem piorado o já deplorável ensino brasileiro.

Se o caro leitor acredita que a conclusão do MEC sobre o impacto do uso do computador em nossas escolas é de nocautear, então durma com essa: os alunos que costumeiramente utilizam o computador na escola estão seis meses atrasados nas disciplinas quando cotejados com os que não tem acesso ao equipamento.

Para alcançar este diagnóstico os pesquisadores do ministério, utilizando as três últimas edições do Saeb – o exame aplicado para avaliar o ensino básico – lançaram mão dos modelos estatísticos mensurando o impacto da utilização do computador no aproveitamento pedagógico dos estudantes com acesso ao PC. E não custa registrar que nada menos que 38% das escolas públicas brasileiras contam com computadores instalados.

A questão central é que o aluno, sem um professor capacitado para guiar seus passos neste novo mundo, fica a mercê do efêmero, da mera diversão, e utiliza o tempo - que deveria destinar às tarefas, trabalhos escolares e aos estudos - para se aprimorar nos jogos virtuais ou esquentar conversa nos sites de relacionamentos, salas de bate-papos e similares.

Portanto, nem tanto o céu, nem tanto a terra. O PC não deve ser encarado como uma panacéia, mas também não deve ser subestimado. É obvio ululante que – no devido contexto – está a milhares e milhares de anos-luz da régua de cálculo utilizada por nossos avós.

Tão importante quanto prover as condições materiais e assegurar a instalação de wardwares e softwares em nossas escolas, é garantir um processo de educação específica para o professor. Só assim nosso estudante terá um supervisor habilitado para auxiliá-lo na travessia, no domínio e na conquista da nova tecnologia. Muitos de nossos educadores sequer conseguem ligar um computador e muitos outros nem se preocupam em esconder a aversão pelas novas tecnologias, sejam relacionadas à informática ou não. Refugam o novo como o diabo refuga a santa cruz.

Os países desenvolvidos conseguem extrair o máximo da relação tecnologias de informática/estudantes porque – além de investir no meio físico – investem também no professor, capacitam-no entusiasticamente e o utilizam para monitorar e supervisionar a incursão dos alunos pela rede.

É um modelo antigo, simples, exitoso e eficaz. Mas que as autoridades brasileiras só agora começam a se dar conta. Se existe algum consolo, vale um antigo ensinamento de nossos avós: antes tarde do que nunca.

Artigo publicado no portal da Associação dos Professores de São Paulo

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A fartura do lixo

O desperdício é um mal que grassa entre nós. E nas dimensões que vem ocorrendo, reflete o nível e a qualidade de nosso desenvolvimento: sofrível, perdulário, indigente.

Para onde se mira o olhar, qualquer que seja a direção, o horizonte se apresenta sempre fosco e nublado, tomado por uma fuligem densa que impede a claridade e o sopro do ar. A paisagem é emoldurada por um deserto inóspito e o que se vê na tela é desperdício, puro desperdício, nada que escape à noção de desperdício.

Na indústria, no comércio, na prestação de serviços, não há setor da economia que consiga se manter ao largo dos gigantescos e avassaladores tentáculos do desperdício.

E não se trata de coisa pequena ou figura de retórica. Os índices são alarmantes, vergonhosos, indecorosos para dizer o mínimo.

Na construção civil, por exemplo, a conta chega a um patamar incestuoso: 30% de desperdício. Seria como se, de cada dez edifícios construídos, três fossem escolhidos para serem implodidos, destinados aos containers de lixo, computados como custo desperdício. Mas em alguns setores específicos da engenharia civil, os índices deixam de ser alarmantes para cair na vala do “acredite se quiser”. É o caso de alguns materiais como argamassa, cujas perdas, com freqüência, chegam à casa dos 90%. Isso mesmo, 90%! E não há aqui o mínimo de exagero. Esses dados foram obtidos com rigor científico. Resultam de pesquisa realizada pela UFMG em conjunto com 15 outras universidades brasileiras, levantamento amplo, largo, realizado em 12 unidades da federação.

Na agricultura, o IBGE retirou um véu que escondia a realidade medonha do calvário. O Brasil jogou na lata do lixo 81,5 milhões de toneladas de grãos de arroz, feijão, milho, soja e trigo nas fases de pré e pós-colheita das safras agrícolas entre 1996 a 2003.

Com um problema tão candente como a fome e a subnutrição, o país consegue a proeza de jogar fora mais alimentos do que consome. Quando se trata de hortaliças, por exemplo, a soma anual de desperdício chega a 37 quilos por habitante, enquanto o consumo por cidadão é de dois quilos a menos, 35 quilos de alimentos por ano. Só na Central de Abastecimento do Rio de Janeiro o desperdício diário é de 40 toneladas de alimentos. Não custa enfatizar, desperdício que ocorre em um único dia e que se repete invariavelmente.

Um outro setor estratégico também apresenta diagnóstico de absoluta gravidade. O desperdício chega a ser um escândalo para qualquer um dotado de uma mente medianamente sã. Nada menos que 45% da água tratada para abastecimento das 27 capitais brasileiras é desperdiçada antes mesmo de chegar ao consumidor. Traduzindo para o bom português, quase metade da água potável produzida no país não chega, sequer, às torneiras do consumidor. São 6,14 milhões de litros do líquido precioso perdidos dia sim e o outro também, volume suficiente para abastecer 38 milhões de brasileiros diariamente.

Tanto desperdício decorre, naturalmente, de um sem número de problemas, a maioria deles, de uma forma ou de outra, relacionada a questões de logística e infra-estrutura física, mas, fundamentalmente relacionados à educação e a cultura. Sim, porque um certo grau de desperdício é administrável e ocorre mesmo nos países desenvolvidos. Mas no volume e na dimensão que o problema se verifica por aqui, só mesmo nos países periféricos.

Muito do desperdício resulta de um caldo cultural direcionado para o consumismo, o esbanjamento, a completa ignorância sobre o que seja reduzir, reutilizar, reciclar. A educação não é a panacéia capaz de per si resolver – qual uma varinha mágica – todos os nossos problemas. Mas não resta dúvidas que sem ela, o destino sempre nos parecerá ingrato. E o desperdício sempre será maior.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br