quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

EUA, um país latino-americano

Felipe Fernández-Armesto reivindica em um livro as raízes hispânicas desta nação




Por JAVIER LAFUENTE, no El País
A década de 1850 trouxe consigo a corrida do ouro na Califórnia. Milhares de imigrantes em busca do desejado metal. Daquela época, datam as aventuras de Joaquín Murrieta, o bandido de origem mexicana que resistia à conquista anglo-saxã da Califórnia. Sua vida inspirou algumas aventuras do Zorro. E este, com o tempo, outros personagens sem traços latino-americanos, como O Cavaleiro Solitário ou o Cisco Kid, de O. Henry. "A tradição dos super-heróis norte-americanos vem das raízes hispânicas, do exemplo do Zorro, essa pessoa à margem da sociedade que se converte magicamente em um indivíduo ao serviço dela. O estrangeiro, o estranho, que vira um salvador", argumenta o historiador Felipe Fernández-Armesto, que brinca, entre risos: "Todos os grandes super-heróis, exceto o Super Homem, herdaram essa estética de cobrir o rosto antes de exercer seus poderes".
A relevância do Zorro para a história dos Estados Unidos pode parecer uma anedota, mas para Fernández-Armesto (Londres, 1950) mostra até que ponto as raízes hispânicas estão fixadas no país, o que aborda em seu novo livro Nossa América: uma história hispânica dos Estados Unidos (Galaxia Gutenberg, em colaboração com a Fundação Rafael del Pino); desse passado desconhecido, em um país que fala cada vez mais espanhol e vive a cultura latina, e cujos cidadãos aprenderam a história "como se tivesse sido estabelecida exclusivamente de leste a oeste", lamenta o historiador. "Mas nada teria sido possível sem fios fortes que cruzassem perpendicularmente de baixo para cima. A história hispânica dos Estados Unidos são esses fios: um eixo norte-sul em torno do qual se formou os Estados Unidos, que se cruza com o eixo leste-oeste, em geral prevalecente na visão convencional. Dar visibilidade à contribuição hispânica é como inclinar o mapa para um lado e ver os Estados Unidos de um ponto de vista incomum".

Doutor em História pela Universidade de Oxford e atualmente professor da Universidade de Notre Dame, em Indiana, Fernández-Armesto, filho de espanhol, coloca a gênese do livro em uma visita à Academia das Forças Aéreas dos Estados Unidos, no Colorado, de tradição conservadora, onde anos atrás deu algumas palestras. Manteve uma longa conversa sobre imigração com um dos professores. Não discordam muito. Até que o militar disse que todos deveriam aprender a língua nativa. "Estou completamente de acordo", respondeu o historiador: "Todos deveriam aprender espanhol". Diante da incredulidade do militar, prosseguiu. "Como se chama o estado em que estamos? Como era o Colorado, me deu razão", ri Fernández-Armesto durante uma conferência em Madri, na qual lembra o relato com o qual inicia o livro.
Sobre até que ponto os americanos são conscientes de seu passado hispânico, o historiador menciona uma entrevista posterior: "Em absoluto, mas os hispânicos também não. Em certos locais, como o sul do estado da Flórida, o sistema educacional aborda a presença e o passado hispânico. Mas, em termos gerais, os americanos são muito ignorantes sobre a sua própria história. A educação básica nos Estados Unidos é um processo de mitificação. O que sabem são pequenas histórias, não história. A educação continua sendo um processo pouco ambicioso, que consiste em evitar que os jovens saiam das ruas e assim se tornem bons cidadãos que aceitam todos os mitos básicos fundamentais da formação do país"
Fragmento de Unidade Panamericana,de Diego Rivera. / CITY COLLEGE OF SAN FRANCISCO
Por meio da obra, um ensaio que pouco tem de exaustivo estudo acadêmico, o autor busca "estimular uma reflexão mais do que acumular conhecimentos" e revelar essa parte da história "que não foi enfatizada o suficiente". Desde as primeiras colônias espanholas em Porto Rico, até o papel que os espanhóis tiveram na expansão da Califórnia em meados do século XIX, com uma linguagem mordaz, repleta de humor, Fernández-Armesto também reivindica por que os Estados Unidos "é e tem que ser" um país latino-americano, e rejeita a dicotomia entre hispânicos e anglo-saxões. "Esses vícios do caudilhismo, dos pronunciamentos e da intervenção militar nos conflitos são características tanto das colônias espanholas quanto das inglesas. No século XIX, os países mais miseráveis eram hispânicos. Isso deu lugar ao mito da superioridade protestante e anglo-saxã. A Espanha e suas repúblicas foram vítimas dessa tendência, de menosprezar o hispânico e exaltar o anglo-saxão. Essa herança ainda é um ponto em comum entre os povos dos dois lados do oceano".
Além do gosto pelo herói marginal, em lugares como Texas ou Califórnia, destaca o historiador, aprecia-se o legado da cultura hispânica: "Há vestígios da tradição da jurisprudência espanhola, da presença do código civil nas leis. Também na Louisiana, mas talvez mais por herança francesa. As estruturas políticas derivam do modelo inglês".
A crescente presença hispânica no dia a dia dos Estados Unidos também é perceptível na obra. Fernández-Armesto não acredita, no entanto, que haja uma série de características em comum entre a atual população hispânica. "Eu gostaria que fosse assim, mas a única coisa que os une é a imigração", com um componente claro: "Claro que há hispânicos que contribuíram para a vida acadêmica, empresarial, mas em termos gerais continuam sendo mão de obra barata. Nesse sentido, valorizam mais as prioridades morais do que suas necessidades econômicas. Por isso, vejo natural que acabem recorrendo ao Partido Republicano".

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Em um ano, escritora lê um livro de cada país do mundo

Ann Morgan sentia que só conhecia autores que escrevem em inglês
A escritora britânica Ann Morgan se impôs o desafio de, em um ano, ler um livro escrito em cada país do mundo. Ao todo foram 196 livros – de 195 países reconhecidos pela ONU e de Taiwan, que hoje é considerada província rebelde chinesa.
Em muitos casos, o desafio foi encontrar edições em inglês, língua da escritora-leitora. Em relação a outros países, a dificuldade foi encontrar algo publicado. Ela recorreu diretamente a alguns autores para ajudá-la.
No Brasil, Morgan optou por ler A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, que ela considerou "um desempenho envolvente e persuasivo de um escritor de ponta na cena literária mundial." A forma como o escritor retrata o pensamento feminino é "impressionante", para ela.
As impressões foram transformadas em um livro a ser lançado em fevereiro de 2015: Reading the World: Confessions of a Literary Explorer ("Lendo o Mundo: Confissões de uma Exploradora Literária", em tradução literal).
Mas para os curiosos, Ann Morgan divulga, em seu blog em inglês, a lista completa junto com cada avaliação. No artigo abaixo, escrito para a BBC, ela descreve como foi essa curiosa experiência de ler um livro de cada país do globo.
Eu sempre pensei que fosse uma pessoa razoavelmente cosmopolita, mas minha biblioteca pessoal conta uma história diferente. Com exceção de alguns romances da Índia e um ou outro livro da Austrália ou África do Sul, minha coleção literária só tem autores britânicos e americanos. Para piorar, eu quase nunca havia lido livros traduzidos. Meu universo está todo restrito a autores que escrevem em inglês. No Reino Unido, 62% dos britânicos conseguem ler apenas em inglês.
Eu queria descobrir o que estava perdendo. Então no começo de 2012, me propus o desafio de ler um livro de cada país do mundo – em um ano, foram 195 países reconhecidos pela ONU e Taiwan, que já não é mais reconhecido como tal.
Imaginei que não encontraria livros de quase 200 países na livraria perto da minha casa, então montei o blog A Year of Reading the World, pedindo recomendações de leitores de todas as partes do mundo.
A resposta foi incrível. Em pouco tempo, recebi uma avalanche de recomendações. Alguns leitores chegaram a me mandar livros de seus países pelo correio. Outros passaram horas pesquisando autores para mim.
Alguns escritores chegaram a me enviar manuscritos traduzidos para o inglês e que ainda não haviam sido publicados, como Ak Welsapar, do Turcomenistão, e Juan David Morgan, do Panamá.
Mas mesmo com toda essa "equipe de apoio", a tarefa foi dura. De todos os livros publicados no Reino Unido, apenas 4,5% são traduções. Ou seja, conseguir obras estrangeiras em inglês ainda é um desafio.

Países lusófonos

A dificuldade maior foi conseguir obras de países africanos francófonos ou lusófonos. Há poucas obras em inglês de lugares como Comoros, Madagascar, Guiné Bissau e Moçambique. Em vários desses países, precisei recorrer a manuscritos que não foram publicados.
Em São Tomé e Príncipe, eu teria perdido minha batalha, não fosse pelo esforço de leitores europeus e americanos que traduziram contos de Olinda Beja – só para que eu tivesse algo para ler do país.
Há países onde sequer existe uma tradição escrita. Para conseguir uma boa história das Ilhas Marshall, por exemplo, é melhor pedir permissão ao "iroji" (um líder tribal local) para ouvir algum caso narrado por um dos contadores de histórias. A literatura local não tem a mesma riqueza.
No Níger, as melhores lendas são contadas pelos "griots", poetas populares treinados desde os sete anos de idade para misturar música e ficção. Há poucos registros escritos de suas performances incríveis – e mesmo essa experiência é pobre comparada com a apresentação ao vivo.
Como se não bastassem esses obstáculos, há sempre a política para complicar tudo. A criação de um novo país, o Sudão do Sul, em 9 de julho de 2011, também colocou um desafio. O país possui vários problemas de infraestrutura, com deficiências em estradas, hospitais e escolas. Com tantas necessidades mais urgentes, quem teria escrito um livro em apenas seis meses?
Se não fosse por um contato local, que me apresentou à escritora Julia Duany, minha única solução seria tomar um avião até Juba para ouvir um contador de história. Mas Julia se dispôs a escrever uma história só para mim.
Pesquisar autores e livros me tomou tanto tempo quanto ler e escrever meu blog. O processo foi muito cansativo, pois tive de conciliá-lo com meu próprio trabalho de escritora. Passei muitas madrugadas em claro para manter de pé minha meta de ler um livro a cada 1,87 dias.

Dentro da cabeça

Mas o esforço valeu a pena. Muito mais do que só "viajar sem sair do lugar", me senti como se estivesse habitando a cabeça de várias pessoas pelo mundo. Na "companhia" do escritor Kunzang Choden, do Butão, eu não apenas "visitei" os templos exóticos locais – fi-lo como fazem os budistas nativos.
O mesmo aconteceu com as montanhas de Altai, na Mongólia, que tive a chance de conhecer pela imaginação de Galsan Tschinag. Em Mianmar, um festival religioso me foi narrado por um médium transgênero – criação de Nu Nu Yi.
Essa experiência é mais poderosa que mil notícias de jornais e revistas, e me fez perceber melhor como vivem as pessoas longe de mim. Isso e o contato com leitores de todas as partes do mundo me fizeram sentir mais parte do nosso planeta.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A surpresa da literatura negra

Conhecem a realidade de onde vieram e os códigos ocidentais

Uma geração de autoras tem como objetivo definir a nova mulher do continente africano.


Por ELENA MEDEL, no El País


Jennifer Nansubuga homenageia sua tradição oral. / D. R.

Nem americana, nem africana, nem cidadã do mundo. O termoafropolita, impulsionado pela escritora Taiye Selasi, equivale a uma realidade: ser africana do mundo, que é a sua própria. Esta ganesa residente em Berlim – cujo livro Ghana Must Go – faz referência a “uma noção mais flexível de identidade.” Faz parte de uma geração de narradoras nascidas no continente e educadas no Ocidente, lançadas ao mundo a partir do Canadá, dos EUA ou do Reino Unido, que mostram o outro lado de sua sociedade. “As representações ocidentais reduzem todo um continente ao clichê que convém a eles”, comenta Selasi, que viu como as traduções para o italiano e o alemão de seu livro suprimiam a alusão ao país no título. “E despojada de suas complexidades culturais, políticas, religiosas, linguísticas e econômicas – acrescenta –, a história se transforma em uma tragédia, nada mais. Tenho muita fé em meus leitores e confio em que conseguirão ver além disso.”
Revelou-se com The Sex Lives of African Girls, um texto entre o ensaio e a ficção publicado na prestigiosa revista Granta. Taiye Selasi não tem certeza “se o talento vai ser repatriado”. /NANCY CRAMPTON
Se os seus personagens mantêm uma relação complicada com sua origem, ela vive o paradoxo de contar sobre a África sem residir ou publicar lá. “Acho antiquado reduzir o problema aos escritores locais e leitores ocidentais. Um escritor atinge o mundo inteiro”, diz ela. Aminatta Forna concorda, seu livro The Hired Man (Donde crecen las flores silvestres), acabou de ser traduzido ao espanhol pela Alfaguara. Criada entre a Escócia e Serra Leoa, e orgulhosa de sua “dupla herança”, Forna evita os estereótipos: “Muitas atitudes das mulheres no leste da África são mais progressistas do que as das ocidentais. A mulheres de Serra Leoa trabalhavam e mantinham seus sobrenomes muito antes que as europeias”.
We Should All Be Feminists, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (publicado em formato digital pela Vintage Books), argumenta que o feminismo é também uma luta dos homens. /GETTY IMAGES
De fato, países como Ruanda (56%), África do Sul (45%) e Moçambique (42%) têm uma representação política feminina igual ou superior à de muitos países europeus. Os esforços destas autoras “podem mudar a ideia predominante sobre a mulher africana”, explica Izaskun Legarza, responsável pela Librería de Mujeres das Ilhas Canárias. “As revoluções devem ser geradas de baixo para cima e não vendidas a partir do exterior”, acrescenta. Contribuindo com isto estão novos personagens como Ifemelu, a protagonista do romance Americanah(Literatura Random House, 2014), da nigeriana Chimamanda Ngozi. Depois de passar pela universidade nos Estados Unidos, afasta-se do sucesso para recuperar sua vida na Nigéria e decide quem e como quer amar, viver e trabalhar. O destino reserva infelicidade para aquelas que se submetem aos homens; para Ifemelu também, quando renega seu cabelo afro e, sutilmente, sua raça.
Aminatta Forna insiste no erro de pensar que “um escritor é desconhecido por não ser popular no Ocidente”, e defende que há características da mulher africana desconhecidos por aqui. / GETTY IMAGES
Nova fornada. Outros nomes de destaque são o da combativa NoViolet Bulawayo, do Zimbabwe, que acaba de ganhar o Prêmio PEN/Hemingway por seu romance We Need New Names; o de Carole Enahoro, filha de nigeriano e britânica, que divide editores com Alice Munro e analisa em Doing Dangerously Well a conversão capitalista da Nigéria usando a ironia; Chinelo Okparanta, também nigeriana e premiada nos EUA por seus romances e livros de contos, que aborda questões como o lesbianismo na África ou a religião católica no seu país de origem; ou a ugandesa Jennifer Nansubuga Makumbi, vencedora pela saga de Kintu do Prêmio Kwani de melhor manuscrito – um dos poucos prêmios na África para obras inéditas – em uma espécie de viagem contra a corrente: ela mora em Manchester, Reino Unido, embora publique em Nairóbi, capital do Quênia.
Toni Morrison, a única mulher negra que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. / GETTY IMAGES
Qual o impacto deste novo feminismo na África promovido a partir da literatura? “Talvez haja uma sensibilização, mas muitas vezes é uma ilusão. Você não pode falar de direitos quando não tem dinheiro para a educação dos seus filhos, ou para ir ao médico, quando a sua opinião não importa”, diz a escritora madrilenha María Ferreira, que trabalha em Nairóbi. “Além disso, não é uma sociedade homogênea. Na minha cidade, por exemplo, as mulheres podem optar por ter cargos de responsabilidade, vão à faculdade... mas nas zonas rurais, muitas não foram à escola.”

“O termo feminismo é controverso por seu viés ocidental”, diz Soledad Vieitez, professora da Universidade de Granada, que trabalha em seu livro Revoluciones de género em África. “No entanto, uma nova geração de autores (também homens) está reinterpretando estes conceitos.”

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Michael Keaton voa alto como ator frustrado em 'Birdman'

Ator e diretor Alejandro Iñarritu são favoritos a indicação ao Oscar 2015.
Keaton interpreta ator que ficou famoso por papel de super-herói.


Michael Keaton interpreta ator decadente em 'Birdman' (Foto: Divulgação)


Da Reuters

Michael Keaton pendurou a capa de Batman há mais de duas décadas, mas o versátil ator alcançou um novo patamar com uma atuação de fôlego, no momento em que tenta recuperar a carreira na comédia dramática com o potencial favorito ao Oscar "Birdman".

No filme do diretor mexicano indicado ao Oscar Alejandro Gonzalez Iñarritu ("21 gramas", "Babel" e "Biutiful"), que estreia nos cinemas dos EUA na sexta-feira (17), Keaton interpreta o ator Riggan Thomson, o qual, como ele próprio, ganhou fama interpretando um super-herói em uma franquia de ação muitos anos antes.

Mas Riggan é atormentado por seu superego de Birdman e por um sentimento de fracasso e mediocridade, e lança mão de uma desesperada tentativa de reconquistar sua credibilidade profissional e sua autoestima ao montar uma peça na Broadway baseada no conto "De que falamos quando falamos de amor", de Robert Carver.

"Ele é um personagem realmente complicado, o que sempre dificulta o trabalho, mas o deixa mais interessante também", disse Keaton, de 63 anos, em entrevista.

"Birdman" é um filme sobre uma peça que Iñarritu engenhosamente filmou no famoso St. James Theater, na Broadway, no que parece uma tomada longa, contínua e sem emendas.

Foi um novo território tanto para o diretor quanto para sua equipe. Cada cena segue o fluxo da próxima, à medida que a câmera segue Riggan por estreitos corredores de teatros, em camarins, para o palco e para fora do teatro na movimentada Times Square, com tambores dando o ritmo.

Keaton disse que nunca viu um filme como esse e admite que houve momentos nos quais ele se questionava por que estavam fazendo daquele jeito, que exigia muitos ensaios, pouco espaço para erros e um comprometimento total dos atores.

"A verdade é que isso não funciona se não fizer assim, porque você não embarca na viagem. Você não conseguiria entrar profundamente", explicou Keaton.

"Há um momento quando se assiste ao filme e você, em silêncio, ouve uma porta fechar atrás de você, e você não vai sair. Você está dentro. Então você entra na cabeça do sujeito".

Keaton escava profundamente o personagem, em uma atuação que conquistou impressionante sucesso de crítica, e a qual a revista "Variety" chamou de "a volta do século".

"Michael Keaton irrompe na corrida pelo Oscar com 'Birdman'", proclamou a revista.

Keaton disse que uma das coisas mais inteligentes que Iñarritu fez foi apresentar aos atores uma foto do equilibrista francês Philippe Petit, que andou entre as torres gêmeas do World Trade Center em 1974.

Estrelam também no filme as atrizes Naomi Watts e Emma Stone.

"Birdman", de González Iñárritu, lidera as indicações ao Spirit Awards


EFE | LOS ANGELES
O filme "Birdman", do mexicano Alejandro González Iñárritu, recebeu seis indicações ao prêmio Spirit de cinema independente, anunciou nesta terça-feira a organização Film Independent.
"Birdman" foi indicado para melhor filme, melhor ator (Michael Keaton), melhor diretor (González Iñárritu), melhor atriz coadjuvante (Emma Stone), melhor ator coadjuvante (Edward Norton) e melhor fotografia (Emmanuel Lubezki).
Filme de Alejandro González Iñárritu, indicado como melhor diretor, lidera as indicações para Spirit Awards. EFE/Arquivo
Filme de Alejandro González Iñárritu, indicado como melhor diretor, lidera as indicações para Spirit Awards. EFE/Arquivo
Ele concorrerá a melhor filme com "Boyhood: da Infância à Juventude", "O Amor é Estranho", "Selma" e "Whiplash: Em Busca da Perfeição".
González Iñárritu disputará com Damien Chazelle ("Whiplash: Em Busca da Perfeição"), Ava DuVernay ("Selma"), Richard Linklater ("Boyhood: da Infância à Juventude") e David Zellner ("Kumiko, The Treasure Hunter", sem título em português).
Os favoritos aos prêmios são "Birdman", "Boyhood", "Nightcrawler" e "Selma", cada um com cinco indicações.
O anúncio dos indicados foi feito pelos atores Rosario Dawson e Diego Luna no hotel W, em Hollywood.
A cerimônia de premiação acontecerá no dia 21 de fevereiro, véspera da do Oscar, em uma praia de Santa Mónica, na Califórnia. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Apaixonado por leitura, filho de boias-frias faz livros artesanais

Luciano Serafim dos Santos foi para a escola com 9 anos de idade e, para não trabalhar no corte de cana junto com os pais, escolheu estudar. Acabou se apaixonando pelos livros, foi fazer o curso de Letras em Dourados, no interior do Mato Grosso do Sul, e, agora, produz artesanalmente os próprios livros.

Jornal Dia Dia

Ele é acadêmico do curso de Letras e escritor. Foi para a escola com 9 anos de idade, no interior do Nordeste brasileiro e, para não trabalhar no corte de cana junto com os pais, escolheu estudar. A leitura possibilitou a Luciano Serafim dos Santos conhecer vários lugares e histórias sem sair do lugar, abrindo “outro mundo” em sua vida.

Em Dourados desde 1994, foi com uma professora do ensino médio, em escola pública, que Luciano foi incentivado a confeccionar suas próprias publicações. Segundo ele, a professora reunia os textos dos alunos produzidos durante o ano, montava um livro da disciplina “e quem não se dedicava não entrava no livro. Rosa Decian fazia o aluno ter interesse em produzir seu próprio livro”, conta.

Hoje, Luciano ensina professores a fazerem o mesmo em sala de aula, tema do minicurso oferecido durante a Feira do Livro e da Leitura, que integra a programação da Maratona Cultural promovida pela UFGD, na Unidade 2. “Além disso, essa forma de atuação desperta o aluno para a aula de redação, incentivando a leitura e o estudante a tornar-se escritor”.

Integrante do Grupo Literário Arandu desde 1997, Luciano veicula, desde o ano passado, juntamente com outros autores, o “Arrebol Coletivo”, uma série de publicações confeccionadas artesanalmente, com capa de cartolina colorida, miolo impresso e grampeado. Já foram lançadas cinco edições: ‘Contos Infames’, ‘Nu Silencioso’, ‘Só não disse’, ‘Raiz Transeunte’ e ‘Rabiscos que Sufocam’.

“O livro possui técnicas perenes e foi uma das maiores invenções do homem. A ideia do minicurso foi levar o entendimento desses aspectos de construção e que, no fundo, passam despercebidos ao leitor comum. Hoje já é mais fácil ser um escritor iniciante”, destacou.

O minicurso

O minicurso "Produção de Livros Artesanais: da seleção de textos à festa de autógrafos” abordou a história da escrita desde o tempo do antigo Egito até a invenção do papel e da impressão no oriente e no ocidente. Luciano também apontou a popularização do livro e da leitura no século 19 e o desenvolvimento da imprensa e da literatura.

Depois, o escritor apresentou os trabalhos da Câmara Brasileira do Livro e do Plano Nacional Biblioteca da Escola, criado para promover o acesso à cultura e incentivar a leitura nos alunos e professores, por meio da distribuição de acervos de obras literárias, de pesquisa e referências.

Na segunda parte do minicurso, Luciano ensinou os professores participantes a manusearem o livro artesanal e a produzi-lo, incluindo seus textos, impressão e acabamento.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Single destinado à luta contra o ebola é número um em vendas no Reino Unido



EFE | LONDRES
A nova versão da canção "Do they know it's Christmas?", que lembra o 30° aniversário da campanha beneficente da Band Aid, se tornou número um em vendas no Reino Unido após a comercialização de mais de 300 mil cópias na última semana.
Esta canção natalina, que foi apresentada em 16 de outubro no programa do concurso de música "X Fator", da emissora "ITV", tem como objetivo conseguir dinheiro para a luta contra o ebola no oeste da África.
Bob Geldof (dir.), o diretor do single beneficente do ebola comemora sucesso da canção. EFE/Arquivo
Bob Geldof (dir.), o diretor do single beneficente do ebola comemora sucesso da canção. EFE/Arquivo
Bob Geldof, o diretor do single de maior sucesso em 2014, agradeceu todo o apoio recebido e disse estar "muito orgulhoso" pelos resultados que o projeto está tendo.
Esta é a quarta versão da canção que foi lançada, disponível nas plataformas "online" por um preço de 99 pence (1,26 euros; 1,57 dólares), e nela destaca-se a participação da banda Bastille e da cantora e atriz Rita Ora.
Bono, Ed Sheeran, Chris Martin e Emeli Sandé colaboraram nesta nova versão da canção que há 30 anos foi parte da campanha benéfica Band Aid contra a crise de fome na Etiópia e que nesta ocasião destina todas as arrecadações à luta contra o ebola.
No número dois da lista das canções mais vendidas no Reino Unido está o single "Real Love", do grupo de música eletrônica Clean Bandit e a cantora britânica Jess Glynne.
Olly Murs, o jovem cantor britânico que ficou famoso através do programa "X Fator", entrou nesta semana no número três da lista com o single "Wrapped Up", no qual conta com a colaboração do rapper americano Travie McCoy.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Como a Pixar usa a matemática para criar personagens apaixonantes

Embora o encanto dos filmes da casa nos faça lembrar de contos clássicos, são os números que nos seduzem subliminarmente


Por Carlos Carabaña, no El País

Se pensamos nos magos da Pixar, talvez imaginemos seus inesgotáveis diretores ou a magia que tiram de atores bastante conhecidos. Ou os roteiristas que elaboraram essas fábulas ilusoriamente simples que parecem parar o tempo; está aí a trilogia de Toy Story como prova. Ou inclusive os designers que conseguiram que um velho intratável como o Up: Altas Aventuras termine parecendo simpático, que o monte de metal sem capacidade de falar de Wall-E emocionasse como se tivesse sido parido pelo E.T. Mas poucas pessoas pensam nos matemáticos.


Na realidade, o verdadeiro segredo dessa magia aparentemente intangível da casa não está na arte, mas na ciência. Sem a matemática pura e dura, muitas das histórias não teriam sido contadas como as conhecemos agora. Um novo vídeo, protagonizado pelo físico-chefe na Pixar, Tony DeRose, no portal matemático Numberphile, revela tudo isso. A chave não está nos uns e zeros dos computadores da empresa, mas na geometria. Nas milhões de diminutas formas que, graças à arte de DeRose, se escondem sob a pele dos personagens e que são o que lhes dá personalidade.

Tão importante quanto os roteiros são as formas geométricas sob a pele dos personagens

Para entender isso basta ver o vídeo no minuto 1:30: DeRose converte um losango em uma superfície suave. No minuto 2:45 mostra o mesmo processo em 3D e no 3:17, o uso que ele tem no cinema. Se o processo parece excessivamente simples – o próprio apresentador diz isso –, podem passar à explicação que começa no minuto cinco com todos os números. Tudo obedece a um sentido estético cimentado nos números que ditam as proporções de cada forma microscópica.

Se não conseguiram ver o vídeo, DeRose explica sua técnica com um losango. Seu método cria pontos médios nas arestas do polígono e depois desloca todos os pontos até a metade da distância do ponto vizinho convertendo o losango em um hexágono irregular. Repete este processo quantas vezes achar necessário até conseguir a suavidade que está procurando, deixando a forma cada vez mais semelhante a um círculo. Isto é o que faz, com maior complexidade, com os modelos em três dimensões que criam os animadores até lhes dar o aspecto desejado.

Do departamento de matemática da Pixar saem a cada ano numerosos artigos sobre animação com nomes tão sugestivos como Simulação artística do cabelo encaracolado, que explica a criação do motor gráfico que anima o cabelo da protagonista Merida, de Brave

E por que tudo isto é tão especial? Tony DeRose, formado em Física e com doutorado em Ciência Computacional pela universidade da Califórnia, é uma das mentes matemáticas mais respeitadas da Pixar. Tem dezenas de artigos científicos em seu currículo. Professor de 1986 a 1995 na universidade de Washington, seus escritos tocam sempre no mesmo tema, o campo dos gráficos gerados por computador. Não é casualidade que, depois de deixar a academia, tenha se unido à divisão das mentes matemáticas da Pixar, onde sua primeira grande contribuição lhe valeu um Oscar com O Jogo de Geri (Geri's Game), um curta-metragem de um ancião que vence a si mesmo no xadrez.

E a técnica que ele explica – claro, no edifício batizado com o nome do benfeitor econômico da empresa, Steve Jobs –, é a que lhe deu fama, reunida em um texto com o título Subdivision Surfaces in Character Animation. O texto é um clássico na área e tem sua origem no momento em que DeRose chegou ao mundo da animação: a forma mais habitual de modelar superfícies complexas e suaves era usando NURBS, um modelo matemático que calcula superfícies curvas a partir de polígonos.


Mas, conforme explica o artigo do DeRose, esse modelo apresentava alguns problemas. Era caro, tendia a apresentar falhas nas cifras e, ao animá-los, aquela suavidade necessária desaparecia. O autor dava como exemplo todo o trabalho manual que foi preciso no Toy Story para esconder esse defeito no rosto do protagonista.

É aí que entra sua técnica. “A experiência é extremamente positiva”, avisa em seu artigo, acrescentando que dá aos modeladores uma liberdade que não tinham com o NURBS, “o que reduz dramaticamente o tempo que devem dedicar a criar e planejar um modelo inicial” e facilitando seu trabalho. DeRose lidera hoje a divisão de pesquisa da Pixar, que emprega onze pessoas, principalmente especialistas em computação.

O verdadeiro segredo dessa magia aparentemente intangível da Pixar não está nas artes, mas na ciência

A Pixar se alimenta da paixão no casamento entre a ciência e a arte. Suas origens remontam a 1979, quando George Lucas, depois do recorde de bilheteria de Guerra nas Estrelas, contratou Ed Catmull, um cientista louco por animação, para sua divisão de gráficos computadorizados. Depois de anos dedicando-se a desenvolver as técnicas de efeitos especiais gerados por computador para a LucasFilm, Catmull decidiu tornar-se independente e fundar a Pixar junto com 38 colegas de trabalho, com Steve Jobs como principal investidor.

Doutor em Ciências da Computação, Catmull é um pioneiro em sua área, criador de várias técnicas de animação, como o efeito de profundidade conhecido como z-buffer, e programas como o Renderman, usado nos efeitos do Titanic ou nas prequela de Guerra nas Estrelas. As equações que a técnica do DeRose usa para formas complexas foram desenvolvidas há 40 anos por Catmull e seu parceiro Clark. Seu braço direito era Alvy Ray Smith, outro desses gênios da animação com um doutorado em Ciências da Computação, professor em Berkeley até 1974 e que acabou indo trabalhar para a Microsoft após vários desentendimentos com o fundador da Apple.


Com essa bagagem não é de se estranhar que a Pixar tenha, desde seus inícios, esse departamento científico. Dali saem a cada ano numerosos artigos sobre animação com nomes tão sugestivos como Simulação artística do cabelo encaracolado, que explica a criação do motor gráfico que animou o cabelo da protagonista de Brave, ou Todo mundo pode cozinhar, dentro da cozinha de Ratatouille. Há outros com títulos tão soporíferos como Problemas avançados no nível de detalhe ou Mapeamento de texturas para um melhor modelo dipolar. A questão é que tanto os artigos divertidos como os entediantes são os que fazem os personagens da Pixar triunfarem como resultado do amor entre a ciência e a arte.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Unesco lança biblioteca científica gratuita e multilíngue para estudantes


EFE

A Unesco anunciou nesta segunda-feira o lançamento de uma biblioteca científica, de forma gratuita e multilíngue, a estudantes de todo o mundo, além da comunidade científica, por ocasião da jornada mundial da ciência ao serviço da paz.
Este instrumento, batizado como Biblioteca Mundial de Ciência (WLoS, por sua sigla em inglês), conta com a parceria e patrocínio da revista científica "Nature" e do laboratório farmacêutico "Roche", indicou em comunicado a Agência da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
A diretora geral da Unesco, Irina Bokova, acredita que o mundo precisa de mais ciência e cientistas para enfrentar os desafios atuais. EFE/Arquivo
A diretora geral da Unesco, Irina Bokova, acredita que o mundo precisa de mais ciência e cientistas para enfrentar os desafios atuais. EFE/Arquivo
Seu objetivo é "dar acesso a estudantes do mundo inteiro, sobretudo nas regiões mais pobres, às informações mais recentes sobre a ciência".
Além disso, "os estudantes terão também a possibilidade de compartilhar suas experiências e lições através de debates com outros estudantes em um contexto de ensino compartilhado".
Por enquanto, a WLoS conta com mais de 300 artigos de referência, 25 livros e mais de 70 vídeos, cedidos pela "Nature".
"O mundo necessita de mais ciência e cientistas para enfrentar os desafios atuais", indicou a diretora geral da Unesco, Irina Bokova, que pediu "uma educação científica mais apropriada e acessível".
Com este instrumento, a Unesco pretende favorecer a igualdade de oportunidades, melhorar a qualidade do ensino, reforçar a ciência e a educação, promover o uso de conteúdos educativos de livre acesso e fomentar a criação de comunidades de estudantes e docentes.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Desperdício de tempo em sala de aula ‘drena’ investimentos em educação

Na América Latina e no Brasil, perde-se 1 dia de aula por semana por conta do desperdício de tempo, diz Banco Mundial
Por Paula Adamo Idoeta, na BBC

Alunos brasileiros perdem em média um dia de aula por semana por conta de desperdício de tempo em sala de aula, gasto com atrasos, excesso de tarefas burocráticas (fazer chamada, limpar a lousa e distribuir trabalhos) e em aulas mal preparadas pelo professor - tempo este que deixa de ser gasto com o ensino de conteúdo.

Essa foi uma das principais conclusões de um estudo recém-lançado pelo Banco Mundial que analisou o trabalho de professores na América Latina e seu impacto sobre a qualidade do aprendizado, a formação dos alunos e o desempenho desses países em rankings internacionais de educação.

A pesquisadora Barbara Bruns, uma das autoras do estudo, lembra que o tempo de interação entre aluno e professor é o momento para qual se destinam, em última instância, todos os investimentos em educação. "Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não ser que impacte sobre o que ocorre na sala de aula", diz ela.

O Banco Mundial avaliou 15,6 mil salas de aula, mais da metade delas no Brasil (classes dos ensinos fundamental e médio em MG, PE e RJ), e calcula que, em média, apenas 64% do tempo da classe seja usado para transmissão de conteúdo, 20 pontos percentuais abaixo de padrões internacionais.

Confira a entrevista que Bruns, estudiosa da educação brasileira há 20 anos, concedeu por telefone à BBC Brasil:

BBC Brasil - O fato de um tempo tão significativo de aula ser perdido ajuda a explicar o desempenho abaixo da média dos países latino-americanos em avaliações internacionais?

Barbara Bruns - Sim, definitivamente é um fator. Em escolas no leste da Ásia, Japão, Cingapura, Finlândia e Alemanha, você não vê professores chegarem à sala de aula sem um material pronto, sem essa percepção de que o tempo precisa ser usado para ensinar e manter os alunos engajados, algo crucial para o aprendizado.
E com frequência nas salas de aula da América Latina parece haver uma falta de organização por parte do professor. Não parece haver a percepção da limitação do tempo e do que economistas chamam de custo de oportunidade de não usar esse tempo para o ensino.
E o tempo entre alunos e professores na sala de aula é o ponto em que culminam todos os investimentos em educação: gastos com salários dos professores, com a formulação do currículo escolar, infraestrutura, material, gerenciamento. Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não ser que impacte no que ocorre na sala de aula.
Vemos que na América Latina muitos países gastam uma proporção alta de seu PIB na educação, e não estão obtendo resultados porque esses investimentos não estão sendo usados (para aprimorar) o momento que os professores têm com os alunos.
Se professores estão perdendo 20% do tempo de instrução com os estudantes, é como dizer que estão sendo perdidos 20% dos investimentos em educação, porque não estão sendo usados para o ensino.

BBC Brasil - Como resolver isso?

Bruns - Primeiro, mudar a forma como o professor é preparado antes de entrar ao sistema de ensino. Na América Latina, há muito pouca ênfase (nos cursos preparatórios) sobre como gerenciar uma sala de aula, como ser um professor eficiente. Ouço com frequência de ministros e autoridades: as faculdades de pedagogia falam muito de filosofia, história da educação, das disciplinas (do currículo), mas muito pouco sobre a prática do ensino.
Barbara Bruns estuda educação no Brasil há 20 anos
Fazendo uma analogia com a medicina, ninguém ia querer um médico que fosse treinado apenas em história da medicina e em questões teóricas. Médicos passam vários anos aprendendo como lidar com pacientes reais. Os professores precisam dessa mesma oportunidade de praticar.
E o que vemos em sistemas educacionais de alta performance, desde Cuba – que tem boa tradição de treinamento de professores – ao leste da Ásia e ao norte da Europa, é que professores em treinamento passam muito tempo observando outros professores e sendo orientados. Isso quase não ocorre na América Latina.
Outra coisa que precisa mudar é o apoio a professores que já estão em sala de aula. Eles precisam receber "feedback" sobre sua performance, ver bons exemplos e ser estimulados a compartilhar conhecimento.
O Rio está fazendo isso no Ginásio Experimental Carioca (projeto que traz mudanças em gestão e currículo escolar nos anos finais do ensino fundamental da cidade), mudando o calendário escolar para criar momentos em que os professores se reúnem para trabalhar juntos; ou colocando professores novos para observar os melhores e mais experientes.
Uma das descobertas mais importantes e surpreendentes de nossa pesquisa é que, dentro de uma mesma escola, há grande variação na forma como os professores ensinam – desde o professor excelente até o que é muito pouco eficiente.
Por isso, é preciso encontrar formas de estimular os professores a trabalhar juntos na escola, como fazem no Japão e na Finlândia.
O Banco Mundial tem um projeto com a Secretaria de Educação do Ceará para criar uma comunidade de aprendizado dentro de cada escola. Daqui a um ano saberemos que tipo de impacto isso terá (no ensino) de 350 escolas.

BBC Brasil - A preparação de professores é um dos maiores desafios educacionais da América Latina?

Bruns - Uma das estratégias mais importantes de curto prazo na região deve ser o treinamento de professores para que eles usem o tempo de aula de forma mais eficiente e, além disso, mantenham os estudantes engajados.
Ao observar as salas de aula, descobrimos que, mesmo enquanto os professores estão ensinando, metade do tempo eles não conseguem manter os alunos focados no conteúdo.
Víamos os estudantes dormindo, digitando no celular, conversando entre si, olhando pela janela. E isso jamais seria permitido pelos professores do leste asiático, por exemplo – eles estariam dando um jeito de fazer com que todos estivessem engajados. Sabemos que, para aprender, os estudantes têm de estar engajados.
Mesmo durante o tempo gasto com o ensino de conteúdo, muitos alunos estão dispersos
No longo prazo, porém, o desafio é atrair um novo tipo de profissional à carreira de professor: fazer com que ela seja uma carreira atraente para os formandos de melhor performance (acadêmica), como acontece na Finlândia e Cingapura. Daí ficará muito mais fácil obter professores excelentes.
Já na América Latina e nos EUA, a profissão ficou tão degradada que os professores acabam sendo recrutados entre estudantes de pior performance. Ou seja, é necessário criar incentivos para que pessoas com bom desempenho escolham a carreira.
E também acho que, quanto aos aumentos salariais – e há muitas evidências de que os salários dos professores precisam aumentar para atrair pessoas competentes -, eles devem ocorrer de forma diferenciada (de acordo com o desempenho). Não pode ser que professores bons e professores ruins ganhem a mesma coisa.
É preciso criar incentivos para que as pessoas trabalhem melhor e para que os mais inteligentes entrem na profissão. Na América Latina, a maioria das promoções de carreira é com base em tempo de casa, em vez de desempenho. Então em alguns casos, dois professores ganham o mesmo salário, mas um faz um trabalho excelente e outro não faz nada.
A cidade de Washington fez uma grande reforma educacional, estabelecendo claros parâmetros para a excelência de professores e avaliando professores segundo esses parâmetros. Os que não os cumprissem eram demitidos ou tinham um ano para melhorar seu desempenho. Já os excelentes tiveram seus salários dobrados. Passados quatro anos, mesmo em meio a polêmicas, os professores gostaram (do projeto), e o desempenho dos alunos de Washington passou a estar entre os melhores do país.
Mas é bom acrescentar que o Brasil vive um momento empolgante: muitos secretários de educação e prefeitos querem fazer mudanças. Vemos diversas experimentações e inovações promissoras pelo país. Se conseguirmos medir esses experimentos, teremos (armas) poderosas. Nos 20 anos que estudo o Brasil, pude ver muitos avanços. Mas obviamente há muito a melhorar.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Por dentro da rotina da Academia Brasileira de Letras

Após renovar três cadeiras em outubro, a entidade fundada em 1897, segue com a missão de cultuar a língua e a literatura do Brasil. Saiba como ela funciona


Por Camila Moraes, no El País


A fachada da ABL, no Rio de Janeiro. / Guilherme Gonçalves/ABL

“Vocês aí gastando o nosso dinheiro público!”, diz um ou outro que passa pela avenida Presidente Wilson, onde fica a Academia Brasileira de Letras, no centro do Rio de Janeiro. A reclamação, segundo Domício Proença Filho, é constante, ainda que descabida. A ABL guarda um tom estatal, é verdade. É um lugar de tradições, ritos e com uma importante missão para o país – cultuar e preservar sua língua e sua literatura –, mas ela faz isso com recursos próprios, coisa que poucos sabem, explica o acadêmico. Aliás, pouco se sabe, além do velho papo sobre imortalidade, fardões e discursos longos e inflados, sobre o dia a dia da Academia, que em outubro deste ano substituiu três de suas 40 cadeiras, num processo de renovação pouco comum para a casa.

A Academia Brasileira de Letras é o retrato de um Brasil. Um Brasil elitista, mas que resiste e é necessário. Foi fundada em 1897, em solo carioca, por um grupo de letrados que escolheu Machado de Assis para presidir a instituição privada e independente, criada para advogar pelos direitos e deveres da língua e das letras nacionais. À época, o país tinha uma população de cinco milhões de pessoas, das quais só 30% sabiam ler. Por isso, ela surge com um pensamento meio messiânico, de transmitir o conhecimento de um pedestal, afirmando que “toda sociedade tem suas elites” e que a ABL “é a elite do pensamento brasileiro”. Era preciso angariar os eruditos para instruir as massas e sentá-los em cadeiras perpétuas, só substituídas em caso de morte.

O modelo do projeto foi a Academia Francesa de Letras, com toda sua pompa e circunstância. E é da França, em 1923, que a ABL ganha finalmente uma sede: o Petit Trianon, prédio que ela ocupa até hoje, construído aqui pelos franceses que queriam uma réplica do palácio de Maria Antonieta em Versailles para um evento diplomático. Foi só nos anos 60 que o presidente da Academia à época negociou com o Governo Juscelino Kubitscheck e conseguiu que o terreno ao lado fosse também doado. Ele então levantou um financiamento para construir nele um prédio de 27 andares, hoje ocupado por escritórios e afins, e essa passou a ser a renda primeira da casa, junto com outros imóveis no Rio de Janeiro, também doados.



Domício Proença queima os votos após eleições. / G. Gonçalves/ABL

Hoje, mais dinâmica, aos 117 anos, algumas coisas mudaram. Alguém se deu conta de que esse grupo exclusivo não sobreviveria se não abrisse suas portas também aos “notáveis” da sociedade, ampliando um pouco a coisa da erudição.

Foi assim que Ivo Pitanguy, o famoso cirurgião, conquistou em 1990 seu assento, sentando-se à mesa com grandes escritores da nação. “Pitanguy é um dos maiores cirurgiões plásticos do mundo. Ele melhorou a beleza de várias mulheres... Mulheres famosas etc. Além de ter um trabalho social fantástico”, diz Domício Proença. Algo parecido aconteceu em 2002 com a chegada de Paulo Coelho, ele sim um escritor, porém, para muitos, mais localizado no setor dos best sellers que no do olímpio literário.

As mulheres – que atualmente correspondem a 12,5% dos acadêmicos –, também foram abrindo espaço. Hoje elas são Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e Rosiska Darcy de Oliveira. Mas a estreia feminina só aconteceu em 1977, 80 anos depois da fundação da ABL, com a romancista, dramaturga e prolífica cronista Rachel de Queiroz. Para Domício, “a entrada da mulher na Academia é um evento totalmente natural, tranquilo, no ritmo da mudança da sociedade”.

Os imortais são sempre escolhidos mediante eleição por escrutínio secreto. Neste passado mês de outubro, os acadêmicos tiveram de se reunir para esse evento tão especial, geralmente bem mais espaçado no calendário, três vezes. Elegeram Ferreira Gullar, depois de anos de resistência do poeta em lançar sua candidatura, para a cadeira de Ivan Junqueira; Zuenir Ventura no lugar de João Ubaldo Ribeiro; e Evaldo Cabral de Mello em substituição a Ariano Suassuna. Apesar dessa mudança ter um efeito imediato de revigoração, o principal impacto da morte repentina dos companheiros foi o que mais afetou a casa, explica Domício. “É muito raro acontecer isso: em três semanas, três partidas inesperadas. São como membros da família que se vão”.

Mas o dia a dia da Academia tem que seguir, e hoje em dia ele é até que bem agitado. Não só os acadêmicos opinam e se alinham em torno de opiniões oficiais sobre temas atuais, como os direitos de autor e a polêmica ao redor das biografias, como tratam – desde 1907 – de chegar a um acordo com os demais países lusófonos sobre a reforma ortográfica que pretende criar um consenso de caráter principalmente político e mercadológico entre todos. Também têm de criar uma programação cultural interna ativa, que inclui conferências com os imortais, seminários com palestrantes externos, exposições, concertos e até sessões de cinema e shows de música popular. Tudo o que eles pensam e fazem é decidido no tradicional chá das quintas-feiras às 16h, ao qual a maioria (residente no Rio, como obriga o estatuto) tenta estar presente, apesar disso ser realmente difícil para alguns por conta da idade avançada.

O tal chá, apesar de rotineiro, é um evento que obedece perfeitamente o gosto da Academia pelo ritual. Muito ali é tradição, afinal o protocolo e as regras são seu grande patrimônio. “Isso é o que nos garante. Eu costumo dizer que “o rito avaliza o mito”, afirma Domício. A verdade é que para ser um membro da ABL não basta publicar livros, fazer densos discursos e assumir como sua a missão da casa. É preciso acreditar que essa dança das cadeiras mantém viva a nossa reduzida e notável sociedade intelectual. Afinal, que seria do Brasil sem suas elites?

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Brasil tem uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes


Indice é o mesmo de cinco anos atrás; dados são do Ministério da Cultura.
Tocantins é o estado com a maior oferta; Rio de Janeiro tem a pior taxa.

Por Thiago Reis, no G1

Habitantes por bibliotecas públicas (Foto: Editoria de Arte/G1)





Brasil tem uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes, em média. São 6.148 no país. É o que mostra levantamento feito pelo G1 com base nos dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, do Ministério da Cultura, atualizados neste segundo semestre.
O índice é o mesmo de cinco anos atrás. Apesar de terem sido criados mais espaços no período, o aumento da oferta não foi maior que a taxa de crescimento da população.
A meta do governo de zerar o número de municípios sem bibliotecas também não foi alcançada ainda. Hoje, 115 cidades ainda não contam com o equipamento de cultura. Em 2009, eram 361.
Biblioteca Pública dos Barris, em Salvador (Foto: Mateus Pereira/Secom)Biblioteca Pública dos Barris, em Salvador
(Foto: Mateus Pereira/Secom)
A presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), Regina Céli de Sousa, diz que os dados não refletem a realidade, ainda mais crítica. “Há casos em que a biblioteca é listada no sistema, mas ela está fechada.” O conselho diz que não estão em funcionamento várias das bibliotecas listadas no site do governo federal.
“Em muitos estados, o que existem são apenas espaços com amontoados de livros sem nenhum tipo de controle, organização, serviço e produtos para a sociedade. Estão lá apenas para justificar as verbas recebidas”, afirma a presidente do CFB. “É difícil encontrar nas bibliotecas públicas do país espaços prazerosos, com um acervo atualizado, e isso é fundamental para que a população frequente os espaços.”
Na semana passada, foi comemorado o Dia Nacional do Livro. Segundo o Instituto Pró-Livro, 76% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. Dados da associação mostram também que 50% das pessoas com mais de 5 anos não praticam o hábito da leitura no Brasil – mais da metade diz que a falta de tempo é um dos principais motivos.
Para Regina Céli, um outro problema é a falta de profissionais qualificados atuando nos espaços. “Grande parte não conta com um bibliotecário, que tem um papel fundamental. Além de gerir bases de dados e desenvolver produtos e serviços de qualidade à população, ele atua com mediação e rodas de leitura, com a hora do conto”, diz.

Diferenças regionais
O estado com a maior oferta de espaços por habitante é o Tocantins. São 141 bibliotecas – uma para cada 10 mil pessoas. Já o Rio de Janeiro registra o pior índice: um equipamento para cada 111 mil. O estado, que tem 16 milhões de habitantes, abriga apenas 148 bibliotecas.
Entre as regiões, a que possui o maior número absoluto de bibliotecas é a Sudeste: 1.968. Na Nordeste, são 1.873. A região Sul possui 1.263, a Norte, 525, e a Centro-Oeste, 519.
Compromisso
A Fundação Biblioteca Nacional diz, no entanto, que tem realizado ações para ampliar a quantidade de bibliotecas e que a meta de zerar o número de municípios “vem sendo pactuada junto aos governos estaduais e municipais”. O órgão não comenta as críticas do CFB.
Segundo a fundação, por meio do projeto ‘Mais Bibliotecas Públicas’, o Sistema Nacional de Bibliotecas tem realizado um processo de “mobilização local” em busca da ampliação. O órgão diz ainda que, com o programa, foi possível reunir 1.400 gestores públicos de mais de 350 cidades do país. Vários encontros já foram feitos nos estados.
Também está em curso, de acordo com a fundação, um projeto que tem o objetivo de transformar bibliotecas em referência em acessibilidade. “O governo federal investe na área de bibliotecas integrando as instituições de ensino na área de biblioteconomia”, informa
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