segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Crianças precisam ler, diz menino de MT que arrecadou mais de 2 mil livros






Por Denise Soares, no G1.com

Desde que teve a ideia de construir uma biblioteca comunitária, Jefferson Gabriel da Silva Melo, de 12 anos, já conseguiu arrecadar mais de dois mil livros. O garoto mora com os pais no Distrito de Bonsucesso na cidade de Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá. No começo deste ano Jefferson começou a arrecadar os livros para permitir que as crianças e moradores da comunidade possam ter acesso à leitura, já que a única escola da região não tem biblioteca.

No Dia das Crianças, comemorado nesta segunda-feira (12), Jefferson vai participar de atividades com outras crianças e eventos em comemoração ao Dia de Nossa Senhora Aparecida, na comunidade onde mora.

“As crianças precisam ter alguma atividade, precisam ler”, comentou o garoto. Todos os livros que Jefferson ganhou ficam estocados na casa e na área da residência da família. Segundo o ele, não há mais espaço na área para colocar os livros, que não param de chegar na casa.

Pessoas que souberam da iniciativa de Jefferson se comoveram e decidiram doar materiais para a construção da biblioteca. A ideia é aproveitar o espaço de um centro comunitário e construir a biblioteca no mesmo local. Um empresário decidiu doar um computador para a futura biblioteca de Jefferson.

“Na minha casa não tem mais espaço. A área está cheia de livros. Ganhei um computador e vou usá-lo na biblioteca que vamos construir. Continuo juntando os livros até conseguirmos o local”, disse.

A casa de Jefferson está cheia de livros didáticos, enciclopédias, atlas, gibis, dicionários e romances. Enquanto a biblioteca não começa a funcionar, os moradores e estudantes visitam a casa do adolescente para consultar os livros.

Exemplo
A família ajuda o menino a conseguir mais livros e materiais que serão usados na biblioteca.

“Estamos correndo atrás. Conseguimos pessoas que vão doar os materiais e reformar o centro comunitário. Várias pessoas doaram livros, uma estudante de Santa Catarina veio visitar a mãe em Cuiabá e deixou diversos livros do curso de direito e livros de concursos para estudo”, lembrou a mãe de Jefferson, Janice Ferreira da Silva.

O adolescente cursa o 6º ano do ensino fundamental no período da manhã na Escola Maria Barbosa Martins. A ideia do menino é que a futura biblioteca funcione à tarde, para que ele possa ajudar a cuidar do local após os estudos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

E se Hitler acordasse nos dias de hoje?

Na comédia "Ele está de volta", ditador nazista reaparece em plena década de 2010. Filme questiona a relação dos alemães com o nazismo de forma nova, ao mesmo tempo cômica e inteligente.

Por Sarah Hofmann, na Deutsche Welle 
Adolf Hitler (Oliver Masucci) reencontra Berlim em Ele está de volta
Er ist wieder da, baseado no romance satírico Ele está de volta, não é a primeira vez que David Wnendt enfrenta o desafio de dirigir a versão cinematográfica de um best-seller de ficção.
Em sua visão radicalmente subjetiva, Zona úmidas, reunindo divagações da autora Charlotte Roche sobre drogas, higiene genital, práticas sexuais com vegetais e outros assuntos íntimos – também parecia, a rigor, impossível de adaptar para a tela.
O cineasta alemão de 38 anos igualmente teve que pesquisar a fundo os círculos neonazistas para seu filme Combat girls. Ele enfoca uma jovem do Leste da Alemanha dominada pelo ódio aos estrangeiros, aos judeus, policiais e todos que considera responsáveis pelo declínio de seu país.

O lançamento desta quinta-feira (08/10) não trata tanto da cena política de extrema direita, mas sim de como as pessoas comuns reagem ao serem confrontadas com a ideologia direitista. Ainda mais quando é Adolf Hitler em pessoa a lhes dar a impressão que alguém as ouve e está do lado delas.
Saudações ao "Führer"
O ponto de partida do longa é o do livro homônimo de Timur Vermes: um belo dia, em plena segunda década do século 21, Adolf Hitler desperta em Berlim, sem qualquer noção do que aconteceu no país e no mundo desde 1945.
Romance "Ele está de volta", de Timur Vermes, é best-seller na Alemanha
Os realizadores de Er ist wieder da foram mais além, atravessando de fato a Alemanha com o ator Oliver Masucci, que encarna o ditador nazista. Por toda parte vivenciaram cenas semelhantes: passantes cumprimentavam entusiásticos o falso Hitler que passava de carro, assumiam postura de soldado e faziam a saudação nazista. Se possível, aproveitavam para tirar uma foto ao lado do "Führer".
Mas o pior não era isso: alguns não conseguiram conter o impulso de abrir seus corações com essa encarnação do fascismo. A dona de um quiosque de salsichas currywurst não perdeu a oportunidade de comentar com "Hitler" a suposta liberdade dada aos estrangeiros para se comportarem mal – segundo a vendedora, tudo fruto do sentimento de culpa que os alemães portam consigo desde a Segunda Guerra Mundial.
"Havia uma ira silenciosa entre a população, que me lembrava 1933. Só que na época o termo 'desilusão com a política' ainda não existia", diz Hitler, a certa altura do filme, em referência ao ano em que os nacional-socialistas assumiram o poder na Alemanha.
Trata-se de um exagero, é claro. Mas, afinal de contas, numa comédia é legítimo usar tais recursos. Problemático é nem todas as cenas que dão a impressão de ser documentais, o serem de fato. Como quando "Hitler" visita a central em Köpenick do Partido Nacional-Democrático da Alemanha (NPD), de extrema direita. Lá, ele não se encontra com funcionários partidários verdadeiros, mas sim com atores – uma sutileza que pode escapar a parte dos espectadores.
Oliver Masucci como Hitler, ao lado de Fräulein Krömeier (Franziska Wulf)
Um povo, duas faces
Ainda assim, o filme merece que se perdoe tudo isso. Pois quando se viu tanto humor negro e profundidade política numa produção alemã? O espectador tem vontade de exclamar: "Finalmente ele chegou!"
Não o "Führer", claro, mas sim um filme desses, que questiona a relação dos alemães com Adolf Hitler de forma totalmente nova, ao mesmo tempo cômica e inteligente. Pois não é fácil avaliar a parcela da população que saúda o NPD, aberta ou secretamente; que na mesa do bar concorda que "no tempo de Hitler não era assim tão ruim"; ou que promove arruaças contra os refugiados.
Protestos xenófobos na Alemanha: relação dos alemães com a extrema direita tem seu espaço no filme
Numa passeata recente do movimento Pegida (sigla em alemão para "Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente") na cidade de Dresden, cerca de 9 mil cidadãos se reuniram para protestar contra uma suposta "estrangeirização excessiva" do país.
Isso não é muito, diante de uma população de 80 milhões. A maioria dos alemães, pelo contrário, mostra outro rosto, que dá boas vindas aos refugiados. Porém o que o filme deixa claro – do seu jeito exagerado de comédia – é que, ao que tudo indica, para jovens e velhos, o criminoso nazista Adolf Hitler não está tão presente como advertência permanente quanto os alemães gostariam de acreditar.
Suicídio em questão
Coincidindo com a estreia de Er ist wieder da nas salas alemãs, desponta um debate sobre se Hitler não poderia ter sobrevivido à Segunda Guerra. O catalisador é um documentário de TV dos Estados Unidos, que seguiu rastros supostamente deixados pelo ex-ditador em diversos países depois de 1945.
Consta que, ainda anos após o fim da guerra, o FBI teria perseguido traços da presença de Hitler na Argentina e no Brasil, entre outros. Os documentaristas examinaram centenas de documentos confidenciais do serviço secreto americano, divulgados apenas em 2014. Estes deixam margem à versão de que em 30 de abril de 1945 o líder nazista e sua companheira, Eva Braun, não se encontrariam no abrigo aéreo da Chancelaria do Reich, mas sim teriam desaparecido na clandestinidade.
Além disso, os trabalhos de filmagem teriam confirmado a existência de um túnel garantindo a ligação entre o "bunker do Führer" e o aeroporto Berlim-Tempelhof em 1945. A partir de meados de dezembro, o canal americano History transmite a série em oito partes.
"Eles não conseguem se livrar de mim", diz Hitler perto do fim do filme. "Eu sou parte deles."

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Como Portugal comprou o Nordeste dos holandeses por R$ 3 bi


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(Wikipedia)Image copyrightWikipedia
Image captionQuadro do pintor brasileiro Victor Meirelles de Lima retrata Batalha dos Guararapes (1648/1649), que encerrou período do domínio holandês no Brasil
Mesmo depois de terem sido derrotados, os holandeses receberam dos portugueses o equivalente a R$ 3 bilhões em valores atuais para devolver o Nordeste ao controle lusitano no século 17.
O pagamento ─ que envolveu dinheiro, cessões territoriais na Índia e o controle sobre o comércio do chamado Sal de Setúbal – correspondeu à época a 63 toneladas de ouro, como conta Evaldo Cabral de Mello, historiador e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), no livro O negócio do Brasil, que está sendo relançado em uma nova edição ilustrada pela Editora Capivara, de Pedro Correia do Lago, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional. A edição original foi lançada em 1998.
Em valores atuais, o montante equivaleria a 480 milhões de libras esterlinas (ou cerca de R$ 3 bilhões). O cálculo foi feito à pedido da BBC Brasil por Sam Williamson, professor de economia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, e co-fundador do Measuring Worth, ferramenta interativa que permite comparar o poder de compra do dinheiro ao longo da história.
"Esta foi a solução diplomática para um conflito militar. O pagamento fez parte da negociação de paz. O que não quer dizer que a guerra não tenha sido necessária", afirmou Cabral de Mello à BBC Brasil.

'Pechincha'

(Wikipedia)Image copyrightWikipedia
Image captionBandeira da Nova Holanda, como ficou conhecida a colônia da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no Brasil
Os holandeses ocuparam o Nordeste por cerca de 30 anos, de 1630 a 1654, em uma área que se estendia do atual Estado de Alagoas ao Estado do Ceará. Eles também chegaram a conquistar partes da Bahia e do Maranhão, mas por pouco tempo.
Por trás das invasões, havia o interesse sobre o controle do comércio e comercialização da matéria-prima.
Isso porque, como conta Cabral de Mello, antes mesmo de ocupar o Nordeste, os holandeses já atuavam na economia brasileira com o apoio de Portugal, processando e refinando a cana de açúcar brasileira.
(Wikipedia)
Image captionGravura holandesa retrata o cerco a Olinda em 1630
"Quando o reino português foi incorporado pela Espanha, essa parceria acabou. Os espanhóis romperam esse acordo, que rendia altos lucros aos holandeses. Além disso, a relação entre os holandeses e os espanhóis já não era boa, já que a Holanda havia se tornado independente do império espanhol em 1581", diz o historiador.
Durante o período em que ocuparam parte do Nordeste, os holandeses foram responsáveis por inúmeras mudanças importantes, inclusive urbanísticas, principalmente durante o governo de Johan Maurits von Nassau-Siegen, ou Maurício de Nassau.
Com o intuito de transformar Recife na "capital das Américas", Nassau investiu em grandes reformas, tornando-a uma cidade cosmopolita. Apesar de benquisto, ele acabou acusado por improbidade administrativa e foi forçado a voltar à Europa em 1644.

'Sem heroísmo'

(Wikipedia)
Image captionQuadro do pintor espanhol Juan Bautista Maíno retrata reconquista de Salvador pelas tropas hispano-portuguesas (1635)
Naquele ano, Portugal já havia se separado da Espanha, mas demorou para enviar soldados para retomar o Nordeste. A região só foi reintegrada em janeiro de 1654.
Cabral de Mello, que é especialista no período de domínio holandês, diz que a tese de que os holandeses foram expulsos pela valentia dos portugueses, índios e negros "não é completa".
"Os senhores de engenho locais financiaram a luta pela expulsão dos holandeses, já que deviam mundos e fundos à Companhia das Índias Ocidentais, que lhe havia emprestado dinheiro. Eles, no entanto, não tinham como pagar a dívida", explica o historiador.
"Os holandeses acabaram derrotados, mas não sem antes pressionar Portugal pelo pagamento dessa dívida, inclusive chegando a bloquear o Tejo (Rio Tejo). O pagamento não foi feito em ouro, mas um observador da época fez a correspondência para o metal precioso".
"Portugal teve de pagar 10 mil cruzados aos holandeses. Também fez parte do acordo a transferência do controle de duas possessões territoriais portuguesas na Índia ─ Cranganor e Cochim ─ e o monopólio do comércio do Sal de Setúbal".

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Svetlana Alexievich: “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”

A jornalista e escritora Svetlana Alexievich recebe o EL PAÍS, em sua casa em Minsk “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”, diz a escritora bielorrussa


Svetlana Alexievich durante a entrevista coletiva em Berlim. / J. M. (AFP)


















Por PILAR BONET, Minsk, no El País
“Que catástrofe!”, exclama Svetlana Alexievich, ao abrir a porta de seu apartamento com vista para um lago em Minsk. Desta vez a prêmio Nobel de Literatura 2015 não se refere às catástrofes retratadas em sua obra, como a Segunda Guerra Mundial ou a experiência bélica soviética no Afeganistão, passando pelo acidente de Chernobil ou o desmoronamento da URSS. Ao meio-dia desta sexta-feira estamos diante de uma “catástrofe em tom menor”, entendendo por tal o barulho em que vive a escritora desde que lhe concederam o prêmio, na quinta-feira à uma da tarde.
“Espero que exista um depois da catástrofe”, digo tentando conduzi-la a sua obra. “Sim, mas esta etapa será muito longa e ninguém sabe como vai acabar”, afirma enquanto entramos na pequena cozinha decorada com quadros e cerâmicas, que não parece ter mudado desde que a visitei em 2001, às vésperas das eleições presidenciais naBielorrússia. Hoje, quatorze anos depois, novas eleições, a mesma cozinha e o mesmo presidente.
“O povo estava enganado”A Rússia preocupa a Nobel. “Veja o que está acontecendo com o povo russo. Dá para esperar qualquer coisa”, responde à pergunta sobre suas inquietações. “Há cinco ou seis anos, quando falava do nacionalismo russo, ninguém acreditava em mim”, diz. No entanto, particulariza: “Existem várias Rússias”.
Alexievich começa a preparar um café. “O terceiro mandato de Putinnos tirou do romantismo dos anos 1990”, afirma. “Mudaram o país, enganaram o povo e é fácil para eles conduzi-lo como quiserem”, sentencia. “Refiro-me ao militarismo antiocidental”, acrescenta. “Quando fui à Rússia procurar material para meu último livro, vi que o povo estava enganado, que era agressivo, que isso acabaria mal, mas ninguém esperava que víssemos a era soviética voltar e se apoderar do país que tentava começar uma vida nova”.
“Antes a finalidade era preservar o império, mas não sei quais são a lógica e os motivos do que acontece agora”, diz, referindo-se à política externa russa. A inquietação de Alexievich se deve à rapidez com que se pôde dar marcha-à-ré nessa máquina”. “Nos anos 1990 pedíamos liberdade e as pessoas se calavam. Não estavam preparadas para a mudança. Chegou a violência, a degradação moral e, quando Putin de repente apertou o botão mais primitivo, o povo começou a falar e, quando falou, todos ficamos com medo”, afirma.
No transcurso da entrevista chega um diplomata alemão com fotógrafa e tradutora. “Entrem por favor, mas fechem a porta, que estou resfriada”, avisa a Nobel. “Perdoem-me, estou em roupa caseira”, desculpa-se. “Em nome da Embaixada alemã…”. “Recebeu o telegrama do ministro [Frank Walter] Steinmeier?”. Sim, recebeu. “Li que vai escrever um novo livro”, diz o diplomata. Os telefones não param de tocar. Os alemães tiram a câmera: Registram a entrega de um buquê de flores à Nobel. “Não dormi bem”, desculpa-se Alexievich, mas osflashs já estão iluminando o vestíbulo que leva a seu escritório e à cozinha.
Svetlana Alexievich, que viaja a Berlim neste fim de semana, promete ao diplomata uma conversa tranquila quando retornar a Minsk, para redigir o discurso da cerimônia de 10 de dezembro em Estocolmo e para “o pequeno segredo” de fazer uma roupa para o evento.
Gute reise” [boa viagem]. O diplomata desaparece e retornamos à cozinha. Alexievich é consciente da responsabilidade de seu discurso em Estocolmo. Afirma que é contra as revoluções, que é preciso encontrar um caminho sem sangue e que os bielorrussos têm uma tradição de tolerância.
O problema da língua
Svetlana Alexiévich, na sexta-feira passada, em sua casa de Minsk. / PILAR BONET
Toca a campainha. Um amigo vem buscar os cestos de flores que vão tomando o apartamento da Nobel. O ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt, recém-chegado de seu país, adverte, está esperando por ela. Falamos do “mundo russo”, do “outro mundo russo”, do “bom”, daquele que seus admiradores propõem que ela lidere. Conversa sobre a língua bielorrussa, que segundo Alexievich está em um gueto. “Havia um liceu bielorrusso, um só, mas Lukashenko o suprimiu e só se formaram umas poucas dúzias de pessoas”, afirma referindo-se a uma prestigiosa escola fundada em Minsk para a educação na cultura da Bielorrússia.
Os debates de Alexievich com os setores nacionalistas bielorrussos se acalmaram. “Antes parecia que resolvendo o problema da língua seriam resolvidos todos outros, mas enquanto discutíamos sobre a língua, Lukashenko chegou ao poder. Sempre opinei que a democracia deveria preceder a construção do Estado nacional, do contrário, outros chegariam ao poder, e foi o que aconteceu”. Para Alexievich, suas obras não podem ser qualificadas de pessimistas, mas “pode-se dizer que temos uma cultura de dor e tragédia, uma experiência de vida trágica e que as vítimas e os algozes estão misturados”.
A estudiosa da “alma humana” configurada na época socialista prognostica que as sequelas dessa época durarão “pelo menos dez anos”. Suas viagens por seu ex-país (a Rússia e os países da antiga URSS) convenceram-na de que “não há nenhum fundamento para o romantismo”.
O café fica sobre a mesa da cozinha. “Que pena. É um café muito bom”, diz. A Nobel troca rapidamente de pulôver e sai ao encontro do ministro sueco.

Uma vida polifônica

Academia sueca. Svetlana Alexievich, 67 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2015 por “seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”.
Jornalista e escritora, Alexievich retratou em língua russa a realidade e o drama de grande parte da população da antiga URSS, assim como dos sofrimentos de Chernobil, a guerra do Afeganistão e os conflitos atuais. É muito crítica ao Governo bielorrusso.
Nasceu na Ucrânia, filha de um militar soviético de origem bielorrussa. Quando seu pai se aposentou do Exército, a família se estabeleceu na Bielorrússia. Ali estudou jornalismo, na Universidade de Minsk e trabalhou em diversos meios de comunicação.
Ficou conhecida com A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (1983), sobre os testemunhos das mulheres soviéticas que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Entre suas obras estãoVozes de Chernobil e O Fim do Homo Sovieticus. Alexievich não tem livros editados no Brasil.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Bielorrussa Svetlana Alexievic ganha Prêmio Nobel de Literatura


Da EFE Copenhague

A bielorrussa Svetlana Alexievich é a vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2015, conforme anunciou nesta quinta-feira a Academia Sueca.
A academia explicou que a bielorussa recebeu o prêmio por sua obra polifônica que a torna um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo.
A obra de Alexievic, na qual se destacam suas reportagens literárias sobre Chernobyl e sobre mulheres na Segunda Guerra Mundial, tem a ver antes de tudo com a extinta União Soviética.
No entanto, há outros trabalhos nos quais também aborda a situação atual de seu país, Belarus, e da Rússia.
Em suas reportagens, Alexievich costuma criar uma espécie de "colagem" de vozes de pessoas comuns e, através delas, documenta uma história de dor relacionada em algumas ocasiões com Chernobyl, em outras com a guerra do Afeganistão - após a invasão soviética - e às vezes com assuntos mais recentes.
O recurso da colagem de vozes foi utilizado por Alexievich pela primeira vez em "A guerra não tem rosto de mulher", de 1983. Nesse livro recolhe testemunhos de mulheres que fizeram parte do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial.
Alexievich, que não tem nenhum livro publicado no Brasil, estava entre os favoritos para ganhar o Nobel ao lado de outros nomes frequentes nas apostas dos últimos anos como Philipp Roth, Joyce Carol Oates e Haruki Murakami.
A escritora e jornalista nasceu em 1948 no território do que hoje é o ocidente da Ucrânia e é a 14ª mulher a ser distinta com o Prêmio Nobel de Literatura.
O prêmio está dotado com 8 milhões de coroas suecas (pouco mais de US$ 970 mil) e será entregue, como todos os anos, no dia 10 de dezembro em Estocolmo.
"É maravilhoso receber este prêmio", disse Alexievich em uma primeira reação à emissora sueca "SVT".
A escritora acrescentou que se sentia orgulhosa de estar agora em uma lista de escritores à qual pertence alguém como Boris Pasternak, autor do célebre romance "Doutor Jivago", a quem então as autoridades soviéticas impediram de receber o Nobel de Literatura.

domingo, 11 de outubro de 2015

Projeto transformará táxis em bibliotecas móveis em Porto Alegre

Bolsões serão instalados em três mil veículos da capital gaúcha. Passageiros podem levar livros para casa como em uma biblioteca



Do portal G1

A prefeitura de Porto Alegre lançou, nesta quinta-feira (24), o projeto Bibliotáxi, que prevê a instalação de pequenas bibliotecas nos táxis da cidade. A ideia é disponibilizar livros para o passageiro levar para casa e depois devolvê-lo em outro veículo.
O projeto é fruto de uma parceria do Banco de Livros da Fundação Gaúcha dos Bancos Sociais e uma empresa de aplicativo de táxi. De acordo com a prefeitura de Porto Alegre, três mil veículos devem ser transformados em minibibliotecas. Atualmente a frota da capital gaúcha conta com 3.922 carros. Para ler mais, clique aqui.

sábado, 10 de outubro de 2015

Habermas e Charles Taylor dividem "Prêmio Nobel das Humanas"

Filósofos alemão e canadense são agraciados com Prêmio Kluge, da Biblioteca do Congresso, que incentiva representantes das ciências humanas. Ambos se destacaram com obras sobre a era moderna e pelo engajamento social.

Habermas e Taylor ao lado de Billington, durante a cerimônia de premiação, em Washington
Por Klaus Krämer/Stefan Reccius , na Deutsche Welle 
O mundo moderno está em constante transformação, e não há nada em que se apoiar. A obra dos filósofos Jürgen Habermas, alemão, e Charles Taylor, canadense, lida justamente com essa modernidade pouco confiável e em constante revolução. E por isso eles receberam, nesta terça-feira (29/09), em Washington, o Prêmio John W. Kluge, considerado o "Nobel das Ciências Humanas".
"É claro que estou contente com esse reconhecimento, que recebo aqui como primeiro alemão. Ao mesmo tempo, isso também faz pensar sobre o que devemos à relação com os Estados Unidos. Para minha geração, os Estados Unidos foram, depois do fim da Segunda Guerra Mundial – não somente em nível político, mas também cultural – uma influência eminente", afirmou Habermas em entrevista à DW, antes da entrega do prêmio em Washington.
A partir de meados da década de 1960, Habermas trabalhou como professor convidado em universidades americanas. Para ele, o Prêmio Kluge fecha o círculo do seu trabalho nos EUA: "Eu conheci muitos amigos tanto em nível pessoal quando profissional. Normalmente, os colegas mais próximos, aqueles com quem mais se aprende, estão no país natal. Eu tenho, aqui nos EUA, no mínimo o mesmo número de colegas realmente brilhantes e com quem eu muito aprendi."
Aos 86 anos, Jürgen Habermas ainda gosta de intervir no cotidiano da política alemã
O Centro John W. Kluge, da Biblioteca do Congresso, concede o Prêmio Kluge desde 2003, para incentivar pensadores fora das disciplinas do Prêmio Nobel. Entre os agraciados está a historiadora indiana Romila Thapar, o filósofo francês Paul Ricoeur e o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso. O termo "incentivo" não é nenhum exagero, pois o agraciado recebe 1,5 milhão de dólares – mais do que os ganhadores do Prêmio Nobel. Neste ano, com dois agraciados, o prêmio em dinheiro será dividido.
Habermas e sua Teoria da Ação Comunicativa
Natural de Düsseldorf, Habermas nasceu em 1929 e estudou nas universidades de Göttingen e Bonn. A partir de 1956, passou a atuar no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Esse think tankesquerdista também serviu de inspiração para os movimentos de direitos civis de 1968, que também seguiam uma orientação de esquerda. A obra de Habermas foca principalmente no espaço público: segundo o filósofo, nele se desenvolve uma forma de comunicação guiada pela razão e que mantém a coesão da sociedade.
Charles Taylor (84), o filósofo canadense que compartilhou o prêmio com Habermas, vai um passo além: não somente o discurso é necessário, mas também uma inserção ativa de cada indivíduo em sua rede social. Taylor adverte sobre a "falta de uma humanidade conjuntamente vivenciada" na atual "modernidade sem alicerces".
As teorias dos dois filósofos fornecem uma "compreensão enfática do indivíduo e de seus laços sociais", afirmou James H. Billington, bibliotecário-chefe da Biblioteca do Congresso, ao justificar a escolha dos nomes de Habermas e Taylor. Mas não foi somente por suas teses que os dois receberam o prêmio.
Para além da torre de marfim
Taylor adverte sobre a "falta de uma humanidade conjuntamente vivenciada"
Billington elogiou os dois pensadores por suas "perspectivas políticas e morais com profundidade filosófica." Em 1975, Taylor ganhou fama com um tratado de 800 páginas sobre o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Mesmo assim, ele sempre conseguiu, "escrever de forma compreensível também para leigos sobre autodeterminação, liberdade, espiritualidade e sobre a relação entre as ciências naturais e humanas", elogiou Billington. Taylor também se candidatou várias vezes pelo Novo Partido Democrático, de orientação social-democrata, no Canadá, e nunca se esquivou do debate público.
Com seus 86 anos, Habermas também gostar de intervir no discurso público. Em sua entrevista à DW, nesta terça-feira, ele sublinhou a sua visão filosófica particular sobre o tratamento dado atualmente aos refugiados na Europa.
"O direito de asilo é um direito humano, e cada um que solicita refúgio político deve ser tratado de forma justa e, se for o caso, deve ser acolhido com todas as consequências." Na Europa, disse o filósofo alemão, não se atentou para a crise "que já se anunciava há muito." Segundo Habermas, a Alemanha e a França já deviam ter desenvolvido há muito tempo uma política europeia comum, que também levasse à cooperação na política de refugiados.
Apesar de ser um crítico das políticas do governo em Berlim, Habermas disse saudar a recente reação na crise de refugiados. "Fazia tempo que eu não estava tão satisfeito com o governo na Alemanha como desde fins de setembro."
Theodor Adorno, o mentor filosófico de Habermas, disse uma vez de si mesmo que não tinha medo de uma torre de marfim – o pensador deve poder se retirar no abrigo proporcionado pelo pedestal da distância. Habermas, que atuou no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt sob a orientação de Adorno, costuma deixar a torre de marfim para interferir no cotidiano da política.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Cobrador monta biblioteca em ônibus no DF



Por Raquel Morais, no portal G1

O cobrador Antônio da Conceição Ferreira descobriu nos livros uma oportunidade de entreter passageiros que enfrentam até 90 minutos dentro dos ônibus diariamente para estudar ou ir ao trabalho em Brasília. O caixa do coletivo virou estante para clássicos como os de Clarice Lispector e Castro Alves, que passaram a ser cedidos por até três dias. O projeto ganhou o reconhecimento da Viação Piracicabana, e o rodoviário foi liberado da função há dez meses para expandir a iniciativa para 30 coletivos.

A inspiração para a ideia veio da própria paixão de Ferreira por literatura. Nascido no interior do Maranhão, ele começou a trabalhar ainda na infância para ajudar os pais agricultores e só foi alfabetizado aos 12 anos. Todo o ensino ocorreu em escolas públicas, e o homem diz que recebia pouco estímulo.

"Não sabia nem soletrar direito. Uma professora que, vendo a minha luta para soletrar, me ajudou bastante. Eu gostava de ler gramática. Via as pessoas conversando de uma forma bem solta, eu queria aprender a me expressar também", conta. "Mas, por um tempo, parece que havia um bloqueio na minha alma."

A virada aconteceu depois de ler "Capitães da areia", de Jorge Amado. Ferreira tinha se mudado havia pouco tempo para a capital do país em busca de emprego e viu semelhanças entre os anseios dos garotos criados pelo escritor baiano e os próprios.

"A falta de estudo e o desejo de comprar alguns produtos faz com que a pessoa cometa prática errada. Mas eu nunca fiz isso, porque sempre acreditei na cultura e educação como a melhor arma para mudar de vida. E ler aquele livro me sensibilizou", conta. "Na época da escola, eu às vezes passava uma semana indo ao colégio somente com uma calça, e aquilo me transmitia vergonha, timidez, porque eu via meus colegas com calça melhor. Às vezes eu passava um mês trabalhando roçando arame só para ter uma calça."

O homem, que trabalhou em mercados e lojas de eletrodomésticos, passou então a ler um livro por semana. O emprego como cobrador veio em 2000, e três anos depois Ferreira decidiu levar um livro para o caixa do coletivo e "testar" a reação dos usuários de transporte público.

"O passageiro foi se habituando, pegando emprestado, e eu ia anotando. Pegavam para ler no ônibus mesmo, depois para levar para casa, depois ofereciam outro em troca. Tive que passar os livros para debaixo da cadeira, depois pôr em uma caixa de papelão e então, no fim, montar estantezinha para abrigar os livros", conta.

A proposta foi se tornando conhecida, e Ferreira passou a receber cada vez mais doações de livros. Atualmente ele tem 5 mil obras, divididas entre uma quitinete alugada em Sobradinho e um espaço montado na Rodoviária do Plano Piloto para abastecer os ônibus que integram o projeto. A ideia é que cada coletivo tenha sempre seis volumes.

"Neste sábado fui a Samambaia Sul buscar uma doação de 60 livros. Tem coisas de Carlos Drummond de Andrade e Dalton Trevisan", afirma. "É muito bom, porque você vê que as pessoas se envolvem. E a cultura vai sendo produzida e espalhada de pouco em pouco."

Futuro
O sucesso do projeto também estimulou que Ferreira buscasse novos sonhos. O homem concluiu o ensino médio e, neste ano, começou a cursar letras em uma faculdade particular. Além disso, sempre participa de feiras literárias e encontros culturais.

O cobrador diz esperar que a iniciativa cresça ainda mais e estimule outras pessoas. "Não faço nem controle, não pego o nome da pessoa que pegou o livro emprestado. Isso burocratiza o negócio e pode ser que isso atrapalhe, que funcione como pressão psicológica. O que quero é a circulação, que a pessoa veja e leia. O ônibus é uma ponte, o passageiro sai de casa e vai para o serviço, aí aproveita para conviver com o livro."

"Aí, em casa, ele lembra que tem no ônibus um espaço para ter o livro e vai pôr para circular alguma obra que esteja parada, ajudando assim o próximo", completa. "Eu acho que isso é bom e que as pessoas têm que ler qualquer história, desde que seja benéfica para a vida dela."

O projeto ganhou inclusive uma página na web. O cobrador conta que está agora buscando novas parcerias. Entre os objetivos está estabelecer parcerias com livrarias e bibliotecas, estimular crianças não-alfabetizadas com ilustrações e gibis e promover campanhas para arrecadar obras e materiais escolares para estudantes de baixa renda da rede pública.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Pink Floyd chega aos cinemas com "Roger Waters The Wall"

Documentário mostra registros da turnê mundial do ex-integrante do Pink Floyd e apresenta elementos autobiográficos, como visitas aos túmulos do avô e do pai de Waters, mortos na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.
Por Nikolas Fischer, na Deutsche Welle
Com mais de quatro milhões de espectadores, a The Wall Tour (2010 – 2013), do músico Roger Waters, foi a maior turnê de um artista solo de todos os tempos. Ao longo de anos, o megaevento foi acompanhado por uma equipe de filmagem. O resultado é o documentário Roger Waters The Wall, dirigido pelo próprio Waters, que – como o título sugere – apresenta fortes elementos autobiográficos.
The Wall, o álbum duplo mais vendido no mundo, já havia revelado Waters como o cérebro do Pink Floyd. O disco é considerado o último grande trabalho da banda. Lançado em 30 de novembro de 1979 no Reino Unido, o álbum-conceito fala sobre a solidão do cantor de rock Pink, que tem de lidar com a morte do pai, a superproteção da mãe, abusos na escola e o fim do seu casamento.
Como reação, Pink imagina um muro, que ergue em torno de si com seus pensamentos, para se proteger. O que acontece em seguida é narrado canção por canção: Pink termina de construir seu muro (Goodbye, Cruel World) e apela para as drogas e passa o dia na frente da TV (Nobody Home). Os sedativos prescritos por um médico – o solo de guitarra de Comfortably Numb é um dos destaques de The Wall – fazem sua paranoia piorar (Run Like Hell).
No final, ele é julgado por suas ações (The Trial) e condenado. Sua punição: a parede do seu muro é derrubada (Outside The Wall). Waters deixa em aberto, no final do álbum, se o calvário de Pink realmente acabou, porque a última canção acaba exatamente na parte em que a primeira faixa (In The Flesh?) começa.
A "The Wall Tour" foi a maior turnê de um artista solo de todos os tempos
Referências autobiográficas
A faixa Another Brick in the Wall Part I refere-se ao pai de Waters, que morreu na Segunda Guerra Mundial na luta contra a Wehrmacht (Forças Armadas da Alemanha), quando Waters ainda era um bebê. Quando seu avô morreu – em 1916, também na luta contra os alemães –, seu pai tinha apenas 2 anos. No filme, o diretor visitou, juntamente com seus filhos, ambos os túmulos: o do pai, Eric Fletcher Waters, na Itália, e do avô, George Henry Waters, na França.
O músico contou ao jornal Der Tagesspiegel que ficou chocado quando, certa vez, não conseguiu se lembrar do nome do avô. "O passado se afasta de nós. Meu avô morreu na Batalha do Somme. Em Anzio, meu pai caiu contra os alemães ao defender uma ponte do Exército britânico."
Recentemente, Waters visitou, nos Estados Unidos, soldados que estavam no Iraque e no Afeganistão e não sofreram ferimentos graves. Para ele, esses soldados são "as vítimas inocentes de uma política irresponsável", afirmou ao Tagesspiegel. O encontro o chocou e o motivou a fazer da viagem para as sepulturas um fio condutor da narrativa de seu filme.
Muro entre os membros do Pink Floyd
Durante a gravações do álbum The Wall surgiram diferenças irreconciliáveis entre os membros da banda, a respeito de qual direção eles deveriam seguir. Richard Wright deixou o Pink Floyd e Waters, que em 1984 publicou seu primeiro álbum solo (The Pros and Cons of Hitchhiking), seguiu o mesmo caminho em 1985. A disputa entre ele e David Gilmour havia se intensificado.
Waters declarou que o Pink Floyd havia acabado. Gilmour, Nick Mason e mais tarde Wright queriam continuar se apresentando com o nome da banda, e ganharam uma longa e suja batalha judicial contra Waters. No entanto, ele conseguiu reter os direitos exclusivos de The Wall.
O show espetacular do álbum também foi, em grande parte, ideia de Waters. Na primeira metade, uma enorme parede era erguida com tijolos de papelão, e, na segunda, o Pink Floyd tocava atrás do muro. Diante do muro, uma banda de traços fascistas xingava o público. Sobre o muro eram projetadas animações, e bonecos gigantes entravam em cena. No final, o muro era destruído com uma explosão violenta, e o Pink Floyd tocava a última música (Outside the Wall), sem amplificação eletrônica.
Roger Waters apresentou o Show de "The Wall" em Berlim, em 1990, depois da queda do Muro
Show histórico
Em 21 de julho de 1990, o show The Wall - Live in Berlin ganhou projeção mundial: a história de Pink, que trata de repressão e ditadura, foi apresentada na antiga "terra de ninguém", que ficava diante do Muro de Berlim. Um show de rock grandioso para mais de 200 mil pessoas, além de milhões acompanhando pela TV.
Waters recebeu convidados como Van Morrison, Bryan Adams, The Hooters, Cyndi Lauper, Sinéad O'Connor e The Scorpions, entre outros. As músicas do álbum foram interpretadas como um símbolo de mudança, embora elas não tenham nada que ver com o Muro de Berlim e sua queda.
Originalmente, Waters havia planejado, junto com Leonard Cheshire e sua organização World War Memorial Fund for Disaster Relief, uma apresentação na Praça Vermelha, em Moscou, contou o músico ao Tagesspiegel. O plano já estava em andamento, disse Waters. "Aí caiu o Muro de Berlim, em novembro de 1989, e ele [Cheshire] me chamou e disse: 'Precisamos ir agora para Berlim!'. Eu concordei na hora."

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

"A Metamorfose" de Kafka completa 100 anos ignorada na República Tcheca


"A Metamorfose", obra mais famosa do autor tcheco Franz Kafka, completa 100 anos em outubror. EFE/Sociedade Franz Kafka

Da agência EFE/Praga


Apesar de Franz Kafka ser o autor tcheco mais conhecido do século XX e um dos ícones turísticos de sua cidade natal, a capital Praga, o centenário da publicação de sua obra mais famosa, "A Metamorfose", tem pouca repercussão na República Tcheca, onde o escritor nunca foi muito popular.

Foi em outubro de 1915 que o texto apareceu publicado em alemão, o idioma no qual escrevia Kafka, na revista "Die Weissen Blätter" ("As folhas brancas") de Leipzig, na Alemanha.

A primeira edição em formato de livro data de dezembro desse mesmo ano, por meio da editora alemã Kurt Wolff.

"A Metamorfose" é o assustador relato de Gregor Samsa, um viajante de negócios que certa manhã acorda transformado em uma barata gigante. Os estudiosos de Kafka interpretaram esta transformação como uma metáfora sobre o peso insuportável da responsabilidade.

A diretora da Sociedade Franz Kafka de Praga, Marketa Malisova, chancela esta interpretação da obra.

"Kafka a escreveu sob a influência de todas as circunstâncias que lhe afetavam. O sentido de 'A Metamorfose' foi válido há 500 anos e será válido dentro de mil", comentou Malisova à Agência Efe.

Com o tempo, esta obra de 72 páginas, escrita por Kafka em 1912, e que reflete de certa forma a experiência vital do autor, se transformou em seu romance mais conhecido.

Nascido em Praga em 1883, Kafka morreu de tuberculose justo um mês antes de completar 41 anos, trabalhou em uma empresa de seguros e deixou uma obra publicada muito curta e uma obra póstuma mais extensa, que pediu que fosse destruída, mas que se salvou e acabou sendo editada.

Apesar de seu sucesso mundial, primeiro nos Estados Unidos na década de 1940 e depois da Segunda Guerra Mundial na Europa Ocidental, em seu país natal quase não se conhece ou se lê a obra de Kafka.

"A Metamorfose", por exemplo, teve que esperar até 1929 para ser traduzida ao tcheco, o idioma oficial da Tchecoslováquia, um país que surgiu da decomposição do Império Austro-Húngaro.

Kafka nunca foi profeta em sua terra. Seu biógrafo tcheco, o filólogo Josef Cermak, lembra que suas primeiras traduções foram realizadas por intelectuais de tendência anarquista, o que criou a ideia de que era um autor revolucionário.

Após a guerra e a instauração da ditadura comunista, mudou o regime e a produção de Kafka esteve proibida por ser considerado um autor "reacionário", destacou Cermak.

Até mesmo os estudiosos de Kafka foram acossados pela polícia política do regime comunista.

Em 1990, quando foi derrubado o sistema socialista, se estabeleceu a Sociedade Franz Kafka de Praga, com o explícito objetivo de reviver a tradição cosmopolita que tornou possível o fenômeno da literatura germânico-praguense do qual surgiu Kafka.

No entanto, 25 anos mais tarde, muito poucos tchecos leem as obras de Kafka, em parte porque seus textos têm fama de serem difíceis de ser entendidos em tcheco, reconheceu Malisova.

Apesar de a República Tcheca oficialmente não preparar nenhum evento comemorativo do centenário de "A Metamorfose", a Sociedade Franz Kafka não deixará a data passar em branco.

Esta entidade dispõe de um dos exemplares originais da primeira edição em formato livro de 1915 e unirá o centenário a celebração de seus 25 anos como associação cultural.


Um concerto, uma mostra fotográfica e um espetáculo junto ao monumento de Franz Kafka em Praga são alguns dos eventos programados para lembrar a data.