sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Redes sociais, o monstro digital que é preciso domar

Para gerar engajamento nas redes sociais, apela-se às emoções, especialmente ao medo e ao ódio

Com papel central nas sociedades, gigantes da internet disputam atenção dos usuários. Medo e ódio geram lucros, mas também polarização. É preciso regulamentação

 

Quem nunca passou pela seguinte situação? Ia só dar uma olhada nas redes sociais, aí, quando por fim tira os olhos, agora avermelhados, do monitor, passou-se de novo uma hora, ou mais.

Plataformas de internet são devoradoras de tempo, e intencionalmente: graças ao nosso tempo e atenção, os conglomerados de Silicon Valley entraram para a liga das companhias mais valiosas do mundo, nossos dados "pescados" em massa por elas não passam de um acessório indispensável.

Na "economia da atenção", a competição é dura. Como dano colateral, restam nossas sociedades cada vez mais divididas: iradas, polarizadas, deprimidas, desinformadas – e à disposição de "flautistas de Hamelin" de todas as tendências ideológicas possíveis.

Isso porque, diante da questão de o que oferecer ao usuário, as inteligências artificiais dos supercomputadores só atentam para uma coisa: o que prende a atenção? O que promove engajamento? O que faz se envolver com a plataforma? A resposta: o que fala mais às emoções. E que sentimentos são mais fáceis de provocar? Medos. E, intimamente relacionada a eles, a raiva.

 

Modelo hate for profit

Quem se pergunta por que de repente velhos conhecidos começam a tagarelar sobre chemtrails, ou a acusar Bill Gates de querer, furtivamente, implantar chips na humanidade através da vacinação, encontra aqui pelo menos parte da resposta.


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Quando os algoritmos recomendam novos conteúdos, para eles tanto faz quanta verdade contenham e o que desencadeiem nos usuários. Decisivo é apenas: o usuário permanece no site? Para monetizar nossa atenção, conteúdos cada vez mais extremos tendem a ser mais reforçados, numa espécie de espiral descendente movida a tecnologia. E a "voz da razão", talvez um tanto mais monótona, fica de fora.

Ativistas designaram esse modelo de negócios com a fórmula hate for profit – ódio traz lucro. Mesmo que apenas um indivíduo em cada 100 seja receptivo a teorias de conspiração, o Facebook tem mais de 2 bilhões de usuários em todo o mundo, e o Youtube, quase isso.

No entanto, as redes sociais, enquanto distribuidoras de informação centrais, direcionam o modo como vemos o mundo. E enquanto, por um lado, conteúdos não comprovados e extremos são varridos das margens da sociedade para seu interior; por outro, cada vez mais as informações pesquisadas e verificadas das mídias estabelecidas desaparecem por trás dos paywalls de acesso pago.

 

Melhoras meramente reativas

Para existir, a democracia depende de cidadãos que possuam uma base comum de diálogo. Não é difícil imaginar para onde se encaminha uma sociedade de gente desinformada que não encontra mais uma linguagem comum.

Sob a pressão pública, Facebook, Google e companhia estão agora dando um pouco de jeito nessa situação, ao empregar um punhado de estudantes para, reativamente, apagar as aberrações mais gritantes. Mas isso não basta. Por um lado, pelo fato de os gigantes da mídia social operarem em escala global e em centenas de idiomas – enquanto a verificação dos conteúdos basicamente só ocorre em algumas línguas ocidentais.

Um exemplo, em que até mesmo o Facebook admite parte da culpa, foi a expulsão de Mianmar da minoria muçulmana dos rohingya, em 2017. A rede social se tornara a tal ponto um polo de discurso de ódio e incitação à violência que em 2018 uma investigadora das Nações Unidas a tachou de "monstro".

Apesar disso, na sede da Facebook em Menlo Park, Califórnia, não se sabe hoje sobre os conteúdos em outros idiomas da Ásia e África muitos mais do que se sabia em 2017 sobre o em birmanês. O mesmo vale para o Youtube e demais concorrentes.

 

Regulamentar como água ou energia

Acima de tudo, uma abordagem reativa não bastará enquanto o sucesso da empresa depender de nos manter o maior tempo possível na plataforma apelando aos nossos instintos mais baixos, sem levar em consideração os eventuais danos.

Atualmente os serviços de internet desempenham um papel tão central em nossas sociedades que precisam ser regulamentados, da mesma forma que o abastecimento de água ou eletricidade. Para o bem da saúde pública, faz mais sentido tratar a água antes de ela fluir pelos encanamentos do que instalar filtros em cada residência.

As redes sociais deveriam ser encaradas com pelo menos esse grau de cuidado. A questão não é "censurar": já se ganharia muito se não apenas os conteúdos mais extremos fossem promovidos. Mais ainda, se se oferecesse, em primeira linha, aquilo que contribua para evoluirmos, como indivíduos e como sociedade. Por exemplo, se o critério para concessão de licenças fosse "seres humanos na frente dos lucros".

Nossa atenção é um recurso importante demais para pô-la nas mãos de empresas sem qualquer regulamentação. Muito obrigado pela sua atenção.

Por Matthias von Hein, na Deutsche Welle (com adaptações)


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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

'Judas e o Messias Negro' trata de questões raciais com impacto e vigor

 


Filme produzido pelo diretor de 'Pantera Negra' impressiona pela ótima direção de Shaka King e pela trilha sonora. Daniel Kaluuya, de 'Corra!', é o destaque do elenco como Fred Hampton.

 

Temas como representatividade, racismo e desigualdades sociais foram amplificados pelo movimento Black Lives Matter.

Por isso, um filme como "Judas e o Messias Negro" se torna ainda mais relevante para levar o público a refletir, mesmo com uma história ambientada no final da década de 1960. A estreia nos cinemas brasileiros ocorre hoje (25).

Dirigido por Shaka King, estreante na direção de longas para um grande estúdio, o filme mostra como o jovem ativista Fred Hampton (Daniel Kaluuya, de "Corra!") ascendeu no movimento Panteras Negras, em 1969. Ele chegou a se tornar o líder do grupo no estado de Illinois.

Os atos dele acabaram chamando a atenção de J. Edgar Hoover (Martin Sheen, de "Os Infiltrados", com uma estranha maquiagem). O chefão do FBI resolve acabar com a "ameaça" que Hampton representa.

Assim, o agente Roy Mitchell (Jesse Plemons, de "Vice") resolve transformar o ladrão de carros William O’Neal (LaKeith Stanfield, de "Corra!") em seu informante. Ele é colocado dentro dos Panteras Negras para ficar de olho em Hampton e repassar informações sobre ele.

O'Neal começa a entrar em conflito ao perceber que está simpatizando com Hampton e se envolvendo mais do que gostaria com a causa dos manifestantes. Mas ele sabe que, se não fizer o que mandam, ele pode acabar atrás das grades.

Ispirado em uma história real, "Judas e o Messias Negro" mantém um clima de tensão. O diretor, também roteirista ao lado de Will Berson, se mostra seguro na condução da trama. Ele bota o suspense sempre em alto nível, sem exageros.

 

Coração de pantera

Outra questão bem trabalhada no filme é a relação que Hampton desenvolve com Deborah Johnson (Dominique Fishback). Além de mostrar a vulnerabilidade do ativista, tímido na intimidade, ganha pontos quando discute a possibilidade de morrer por uma causa que a jovem levanta após engravidar dele.

Nesses momentos, os dois atores tornam ainda mais convincente o envolvimento do casal. Numa das cenas mais belas do filme, Deborah explica que teme pelo bebê que espera, embora admire o fato de que ele nascerá com o coração de uma pantera.

'Eu sou um revolucionário!'

No entanto, o que mais deve causar impacto a quem assistir a "Judas e o Messias Negro" é ver os incendiários discursos de Fred Hampton para o público.

Daniel Kaluuya mostra mais uma vez que é uma das melhores revelações dos últimos anos. Quando diz "Eu sou um revolucionário!", frase que tornou Hampton conhecido nos Estados Unidos, ele se entrega.

Não é por acaso que seu nome vem sendo lembrado na temporada de premiações, com grandes chances de ser indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante.

Quando ele sai de cena momentaneamente no meio da trama, o filme cai um pouco de ritmo, centrando-se ainda mais nos conflitos do personagem de LaKeith Stanfield (embora muito bem em seu papel). Mas isso dura pouco. Após o ressurgimento de Kaluuya, o filme fica ainda mais intenso e impactante.

Além da boa direção e do elenco afiado, "Judas e o Messias Negro" se destaca na parte técnica pela ótima direção de arte. Ela transmite bem a ambientação de época e a trilha sonora, assinada por Craig Harris e Mark Isham, que ajudam a criar a tensão que permeia o filme.

Como disse Ryan Coogler, diretor de "Pantera Negra" e um dos produtores de "Judas e o Messias Negro", a luta mostrada no filme permanece atual. Ainda mais com tantos conflitos raciais que acontecem no mundo nos últimos tempos.

Isso fica bem claro quando são mostradas imagens da época em que se passa a trama, num recurso que lembra um pouco o também ótimo "Infiltrado na Klan", de Spike Lee.

A sequência revela que muita coisa ainda precisa ser mudada em termos de relações pessoais, não só nos Estados Unidos, mas também em boa parte do mundo.

O trailer oficial do filme:



Por Célio Silva, no G1.com (com adaptações)


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