quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A universidade da disrupção



A Singularity University, escola de inovação do Vale do Silício, terá campus em São Paulo com uma questão-chave: Até os pessimistas vão se render ao otimismo com o futuro que os seus professores ensinam?

Já foi dito que, mais do que um lugar, o Vale do Silício é um estado mental, uma forma de abordar os negócios e as inovações. A criatividade que permeia as startups e invenções que tornaram a região da Califórnia famosa no mundo todo tem relação com as empresas fundadas lá, como Google, Apple, HP, Facebook, Intel, Netflix e Tesla. Mas talvez elas nem existiriam se não fosse pela forte cultura educacional da região, ilustrada pela tradicional Universidade Stanford, de 134 anos.

A grande novidade de ensino da última década, no entanto, responde pelo nome de Singularity University e tem uma história muito mais recente. Localizada dentro do Parque de Pesquisas da Nasa, em Santa Clara (próxima da Stanford e da sede do Google), ela surgiu em 2009 da cabeça de dois visionários nova-iorquinos. São eles o engenheiro, médico e físico Peter Diamandis, conhecido por criar o prêmio de exploração espacial da Fundação X Prize, e o diretor de engenharia do Google, inventor e futurista Ray Kurzweil, que causou polêmica mundial em 2002, quando revelou que o seu objetivo era não morrer e que imaginava que isso seria possível.

A abordagem vanguardista da nova instituição conquistou pessoas de negócios de todo o mundo. Mas, para os brasileiros, virou um verdadeiro frenesi. A empreendedores e principais executivos do País, parece que não existe nada melhor para entrar no estado de espírito que representa o Vale do Silício do que cursar a Singularity. Um exemplo é o da Dasa, grupo de laboratórios diagnósticos dono do Delboni Auriemo e do Lavoisier. Dez executivos, incluindo o CEO e sócio, Pedro Bueno, e dois conselheiros, Alexandre de Barros e Romeu Domingues, cursaram por quatro dias o programa de Medicina Exponencial, na Singularity, num investimento feito pela empresa há três anos. “Depois do curso, demos uma acelerada no processo de inovação na empresa, e avançamos na implementação de Inteligência Artificial e na pesquisa de usos de 3D, realidade aumentada e robótica”, afirma Domingues, presidente do conselho de administração da Dasa.

Em 10 anos, mais de 1 mil brasileiros se dirigiram à Califórnia para realizar seus cursos, como o Programa de Soluções Globais (rebatizado no ano passado como Programa de Startups Globais) e o Programa Executivo, que podem custar US$ 20 mil, por seis semanas de aulas presenciais. Thomas Kriese, vice-presidente da Singularity, diz que fora dos Estados Unidos, o Brasil tem a maior representação de alunos. “Os brasileiros participavam do curso e depois convenciam os amigos”, afirma. “Chegou ao ponto de precisarmos limitar o número de brasileiros por classe. Eles gostavam do conteúdo, mas sentiam que estavam no Brasil e que o curso deveria ser algo mais multicultural.”

PARCERIA COM HSM

A partir de 2020, isso não será mais uma preocupação. A Singularity está chegando ao Brasil. Mais especificamente a São Paulo, com expectativas de ter a primeira turma no início do próximo ano. Em parceria com a HSM, do grupo Anima Educação, ela finaliza a escolha de um local para o campus. “Se não chegarmos a 16 mil alunos brasileiros, sentirei que fracassei no meu plano de trazer o programa ao País”, afirma Kriese. “Tornando o conteúdo disponível em português e no Brasil, podemos chegar não só ao topo executivo das empresas, mas também atingir os empreendedores e a gerência média de grandes organizações.”

Na sexta-feira 4, deve ser finalizada a certificação do corpo docente brasileiro, que deve incluir 15 nomes dentre mais de 100 pessoas avaliadas, segundo Guilherme Soárez, vice-presidente de crescimento e educação continuada da Ânima Educação. Esse processo foi realizado em três fases, com visitas à sede da Singularity, aulas on-line sobre a sua história, treinamentos de apresentação em público e análise de projetos e de palestras dos candidatos. “Buscamos pessoas que realizaram algo. Não basta ter aprendido por um vídeo na internet e contar a história dos outros”, afirma Soárez. “Pode ser um executivo, um empreendedor ou um pesquisador de ponta. Mas é necessário ter também muito boas habilidades de comunicação, capacidade de passar mensagens de forma inspiracional e de levar as pessoas da platéia à ação.”

A unidade fará parte de um ecossistema global de estudos e ensino, que inclui também os campi da Singularity em Copenhague, Amsterdã, Johannesburgo, Lisboa, Milão, Toronto e Sidney. Os professores e alunos brasileiros deverão ajudar na troca de conhecimentos entre países.

O campus em São Paulo deve ter entre 3 mil e 5 mil metros quadrados, e deve abrigar também outros parceiros. Escolas de programação, de design thinking e de mindfulness estão sendo procuradas para se estabelecer no local. Também foram convidadas empresas e fundos de investimentos, além de startups, para apoiar algumas das áreas de estudos da unidade brasileira.

Foram identificadas oito áreas de foco para a unidade nacional. Metade delas tratará de grandes dificuldades do país em comparação com o mundo desenvolvido: saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. “Se usarmos um pensamento linear e analógico, levaremos até 2070 para resolvermos esses problemas”, diz Soárez. “E, sem superarmos essas dificuldades, não teremos nenhuma chance no mercado global.” As quatro disciplinas restantes são oportunidades de liderança global para o Brasil, incluindo agricultura, energia, meio ambiente e serviços financeiros.

Essa abordagem otimista quanto ao futuro faz parte do DNA da escola e ajuda a explicar o interesse dos brasileiros por ela. Afinal, uma das coisas mais em falta no País tem sido exatamente isso. Kriese cita uma estatística do Boston Consulting Group que descobriu que 72% dos brasileiros deixariam o País se tivessem essa possibilidade. “E um grande problema, porque as pessoas que querem sair não são aquelas que estão sofrendo. São as que têm mais capacidade de ter sucesso em outros lugares”, afirma o executivo. “Então, buscamos mostrar idéias para incentivá-las a acreditar num futuro melhor aqui no Brasil.”

O otimismo da Singularity está baseado no fato de que, mesmo com todas as más notícias pelo mundo, as macro- tendências mostram que menos pessoas estão abaixo da linha da pobreza e passam fome do que no passado. “O medo das pessoas falharem e das repercussões externas de tentarem algo novo é o que faz elas ficarem presas ao status quo, ou a desejarem voltar a um tempo em que as mudanças não eram tão rápidas”, afirma Kriese. “Mas acredito que as pessoas se esquecem de como o mundo era duro no passado.”

Para a Singularity, o futuro será de abundância. A energia será gratuita, com os avanços na captação de energia solar. Metade das doenças do mundo desaparecerá, por estarem ligadas ao consumo de água não potável. E o transporte será cada vez mais inteligente. “As empresas precisam pensar em como vão operar neste mundo de abundância”, diz Kriese. “Tudo isso está a nosso alcance.” Agora, para o brasileiros, o alcance será ainda mais facilitado, com a chegada da escola ao País.
Por Carlos Eduardo Valim, na Isto É Dinheiro

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Bullying




ENTREVISTA - Dave Cullen: ‘Eu vi a escuridão’
Jornalista americano que é o maior especialista em massacres juvenis fala do horror em Columbine, desmonta lugares-comuns e diz como evitar essas tragédias

Na manhã de 20 de abril de 1999, quando os jovens Eric Harris e Dylan Klebold deram o tiro que deu início ao mais famoso massacre dos Estados Unidos, o jornalista e escritor Dave Cullen almoçava perto da escola Columbine High School. Ao saber do tiroteio, correu para lá. A partir daí, dedicaria a vida ao massacre: foi o primeiro jornalista a entrar na escola, virou confidente dos sobreviventes e conversou com centenas de testemunhas para montar o quebra-cabeça da tragédia. Em 2009, lançou o relato mais completo do episódio: Columbine (Editora DarkSide) — que chega ao Brasil em versão atualizada, com os diários dos assassinos. Cullen, de 58 anos, foi afetado pelo objeto de estudo: o massacre o levou à depressão. Na entrevista concedida durante passagem por São Paulo, chorou ao exibir as pulseiras que ganhou de sobreviventes. Ele fala sobre as causas e lições de Columbine e atentados similares — até mesmo do massacre ocorrido em Suzano, em março deste ano.

Vinte anos após Columbine, o massacre ainda é a mais famosa tragédia do gênero e inspira novos atiradores em vários países. O que explica isso?

A crueldade, o planejamento, a tática utilizada pelos dois adolescentes assassinos, Eric Harris e Dylan Klebold, foram inéditos. Mesmo após outras dezenas de tiroteios, não houve nenhum tão espetacular. O episódio já não está entre os dez mais letais dos Estados Unidos. Mas Columbine é visto como um exemplo a ser seguido e superado. Podemos dizer que foi a mãe de todos os massacres.

Por que os tiroteios em escolas se tornaram tão frequentes?

As pessoas me perguntam o motivo dos tiroteios e quando isso vai acabar. A verdade é que estamos vivendo um momento em que elas mesmas se interessam por isso. A TV é inundada de programas sobre crimes reais e tiroteios semelhantes. As pessoas estão usando traumas reais como entretenimento. É um novo tipo de banalização da maldade, e isso é muito perigoso.

O senhor costuma questionar a imprensa e até fez um mea-culpa por ter ajudado a colocar os assassinos sob os holofotes. Mas noticiar os fatos não é dever do jornalismo?

Ajudar a propagar sua fama foi, infelizmente, um erro da imprensa. Isso começou lá atrás, mas depois vieram os muitos filhotes de Columbine. São jovens que planejam e executam massacres com o intuito de imitar Eric e Dylan. Foi o que ocorreu no Brasil neste ano, em Suzano. O rosto dos jovens matadores foi reproduzido no noticiário em diversas línguas. É essa exposição que eles almejam. Devemos omitir no noticiário o nome e as imagens de quem comete esse tipo de atentado. Em vez disso, é melhor chamá-los pelo que eles são: assassinos, atiradores, criminosos.

Como um dos primeiros a chegar à cena do massacre de Columbine, quando notou a magnitude do ocorrido?

Levou dias para cair a ficha. Ninguém estava preparado para aquela barbárie. A crueldade dos atiradores era chocante: eles atiravam em qualquer um para matar. Os corpos ainda estavam dentro da escola, e a lista de mortos não tinha saído. As pessoas choravam e diziam não saber por quem chorar, pois não sabiam quem estava vivo ou morto. O carro de uma das vítimas virou um ponto de homenagem e orações. Era o único veículo que estava fora da barreira policial, e os alunos não tinham um corpo para velar. O automóvel, soubemos depois, era de uma garota que foi a primeira vítima dos atiradores.

Há uma tendência a apontar primeiro os pais como culpados pelos atiradores juvenis. É justo?

Os pais não são os culpados. Eles não puxam o gatilho. As pessoas precisam culpar alguém. Elas necessitam de um vilão, e muitas vezes os familiares dos atiradores são colocados nesses papéis. Na maioria dos casos, contudo, não há sinais de que os pais tenham feito algo errado na educação dos filhos. Tom e Sue Klebold, pais de Dylan, eram ótimos e muito presentes.

Não caberia aos pais farejar sinais de desvio?

Um pai e uma mãe nunca vão achar que o filho deles é um psicopata. Psicopatas manipulam as pessoas, os amigos, a família. Podemos ver tudo na nossa frente, menos um psicopata. Os pais, geralmente, não sabem o que é um psicopata de verdade, não sabem quais são os sinais. E, para falar a verdade, não há um sinal de que o filho se tornará um assassino. Você passa o dia com ele, cuida dele, ensina-o a ser uma boa pessoa. E, quando vê, ele está na televisão atirando nos colegas de classe com armas e munições que possivelmente estavam escondidas dentro da sua casa. Gosto de usar Dylan como exemplo. Ele às vezes chegava em casa deprimido, sem vontade de fazer as coisas. Mas isso acontece na vida de mais da metade dos alunos de um colégio. São sinais inequívocos de que o jovem vai matar treze pessoas e cometer suicídio em seguida?

No Brasil, os atiradores de Suzano usaram a deep web para planejar o massacre. A internet tem sua parcela de culpa nesse tipo de crime?

Sim. No Canadá, potenciais atiradores se conheceram pela internet com o objetivo de perpetrar um ataque. Era um trio que incluía gente de cidades diferentes. Todos os três foram presos antes que pudessem pôr o projeto em ação. Não acho, naturalmente, que a internet seja capaz de produzir assassinos. No refúgio da deep web, no entanto, ficou mais fácil montar grupos de pessoas que comungam da ideia de que cometer atentados em massa é uma coisa legal.

A tragédia de Columbine desencadeou um debate sobre o porte de armas nos Estados Unidos, mas quase nada mudou. O senhor está entre os que acreditam que dificultar a compra de armas evitaria os massacres?

Na verdade, retrocedemos nesse ponto. Nem todo mundo deveria ter direito de portar armas de fogo. Hoje, qualquer um com mais de 21 anos pode comprar uma arma sem apresentar atestado médico ou de antecedentes criminais. As pessoas que em teoria não têm condições de comprar armas deveriam estar em uma lista on-line de incapazes. Se os atiradores usam a internet a favor deles, por que nós não a estamos usando ainda a favor da vida? Os Estados Unidos são o único país em que ocorrem massacres quase todos os anos, e nada acontece. A Austrália tinha leis de armas liberais até o tiroteio em Port Arthur. Desde então, decidiu controlar todo o processo de venda de armas de fogo. Tudo o que os governantes são capazes de produzir são ideias que podem piorar as coisas, como armar os professores.

Depois do massacre de Suzano, a ideia também foi defendida por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Não é uma medida razoável?

O presidente brasileiro adora imitar as coisas que Trump faz. A ideia de armar os professores é a proposta mais idiota que já ouvi sobre o assunto. Estaríamos apenas adicionando mais potencial de violência à rotina de adolescentes. Eles não precisam de mais gatilhos, e sim de aconselhamento, de supervisão. O trabalho de um professor é educar para o futuro — e isso funciona à base de confiança. Como os alunos terão confiança em um professor que a qualquer momento pode apontar uma arma para a cabeça deles e ameaçar dar um tiro?

Costuma-se citar o bullying como um dos motivos dos massacres. Ele é mesmo o grande vilão?

Creio que não. Falou-se muito que o ambiente da escola de Columbine era tóxico e que havia bullying. Mas era um ambiente normal de ensino médio. Vi vários sites culpando os sobreviventes, porque aqueles dois pobres adolescentes supostamente sofriam muito com o bullying. É mentira. Eric e Dylan mais cometiam do que eram vítimas de bullying. Eles queriam matar da maneira mais cruel a maior quantidade de alunos possível para entrar para a história e ser reconhecidos. Eles escolheram fazer aquilo.

A escola, então, não era um ambiente propício à violência?

Quem escreve num diário que quer estuprar pessoas e arrancar a cabeça de uma menina é um coitado? Pois foi isso que Eric escreveu antes de matar treze pessoas em Columbine. Ele era um psicopata que queria fazer coisas ruins aos outros. Nós pintamos a imagem da escola monstruosa que teria levado esses jovens com problemas a matar treze pessoas. Mas eles fizeram o que fizeram por vontade própria.

É possível traçar um perfil preciso de um atirador de massa?

Normalmente, esses jovens são pessoas cabisbaixas, tristes, que não são aceitas nos grupos principais do colégio e não se sentem amadas por ninguém. Chega um momento em que eles se cansam de andar nas sombras. Eles precisam se mostrar e ser vistos. Muitos sofrem de depressão e exibem tendências suicidas. “Por que me matar se eu posso matar a todos que não me amam e me maltratam de alguma forma? E o mundo saberá quem eu sou”, eles pensam. Um erro que muitas pessoas cometem é chamar todos de psicopatas. Nem todo atirador é psicopata, nem todo atirador sofreu bullying na escola. Eu os divido em dois grupos: os criativos e os que ambicionam provocar o maior número de baixas. Eric, infelizmente, era as duas coisas em um só. Criativo na hora de planejar o atentado com crueldade e focado na meta de elevar a contagem de mortos.

De que forma o senhor foi afetado emocionalmente ao passar uma década imerso no massacre de Columbine?

Sempre que há novos massacres, tento me desligar. Busco não ouvir nem ver nada sobre aquilo, porque se transformou em algo muito difícil para mim. E o problema maior é que isso se transformou também no meu trabalho, porque acabei me tornando um especialista em tiroteios em massa. Mas convivo com a depressão. Tive duas recaídas durante a elaboração do livro — no capítulo do funeral de Dylan e ao descrever a morte lenta do treinador da escola, que agonizou por três duras horas. Tomo remédios controlados e vou a um psicólogo pelo menos duas vezes por semana. Na época, um agente do FBI foi designado para me proteger em razão das ameaças que eu recebia de jovens que idolatravam os atiradores. Vivi na escuridão nesses vinte anos. É uma escuridão profunda, na qual não se consegue discernir um fiapo de luz.
Como o senhor superou o baque?

Só consegui de fato me libertar recentemente, com a ajuda de sobreviventes do atentado. Eles me mostraram que há esperança. É possível reerguer-se após a tragédia. Se eles, que estavam lá, se reergueram, por que não eu? Estou me curando aos poucos. Sinto alegria ao saber que aqueles jovens também estão conseguindo superar a dor. Essas crianças são extraordinárias, assim como a garotada de Suzano.
Por Amanda Capuano, Eduardo F. Filho, na Revista Veja


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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O raro mapa múndi do século 17 encontrado por acaso em uma loja de caridade

Intitulado "Um novo e preciso mapa múndi", o mapa data de cerca de 1626 e foi um dos últimos grandes projetos de John Speed ​​antes de sua morte, em 1629 — Foto: Woolley and Wallis


Artefato, que mostra a Califórnia como uma ilha, foi achado dentro uma moldura quebrada em um bazar de Londres.

Um mapa do século 17 descoberto em "péssimo estado" em um bazar de caridade foi vendido por 3.500 libras (cerca de R$ 17.500) em um leilão em Wiltshire, condado na região sudoeste da Inglaterra.

O mapa múndi, que mostra o Estado americano da Califórnia como se fosse uma ilha, foi encontrado "ensopado" pelos funcionários de um bazar da organização de caridade Oxfam, em Londres. Ele estava dentro de uma moldura de quadro quebrada.

Depois de secá-lo com uma toalha, um avaliador do bazar percebeu que o objeto era uma peça rara do renomado fabricante de mapas John Speed (1552-1629).

Esperava-se que seu valor no leilão atingisse cerca 600 libras (R$ 2.400), mas ele acabou sendo vendido por muito mais que isso na loja Woolley and Wallis, nesta terça-feira (2/10).

A avaliadora da Oxfam, Shelley Hitch, disse que o mapa estava em "um estado tão surrado" e com tantas manchas de umidade que poderia facilmente ter sido jogado fora sem que ninguém percebesse seu valor.
"Felizmente, nossa equipe reconheceu o potencial histórico do mapa quando ele foi encontrado", disse ela.

"A maneira cuidadosa em que o mapa foi secado fez com que, apesar do estado em que ele foi encontrado, seu valor aumentasse bastante", diz Hitch.

Intitulado "Um novo e preciso mapa múndi", o mapa data de cerca de 1626 e foi um dos últimos grandes projetos de John Speed ​​antes de sua morte, em 1629.

O mapa foi vendido a um comprador dos Estados Unidos.

"Este é um mapa raro e altamente desejável para os colecionadores", disse o especialista em arte Mark Yuan-Richards. "O fato de o litoral norte-americano ser impreciso em relação ao que conhecemos hoje fornece uma visão fascinante de como a cartografia se desenvolveu através da exploração e do estabelecimento de rotas comerciais".

Nascido em Cheshire, na Inglaterra, John Speed ​​começou a vida como alfaiate, seguindo os passos do pai, e só se voltou para a cartografia relativamente tarde na vida.

Seus talentos impressionaram a rainha Elizabeth 1ª, que concedeu a ele o uso de uma sala na Alfândega britânica para seu trabalho. Seus mapas continuaram a formar a base de todos os mapas múndi até meados do século 18.

Da BBC

domingo, 6 de outubro de 2019

Estudantes coletam 234 toneladas de lixo eletrônico em São Paulo



Mais de 234 toneladas de lixo eletrônico foram arrecadadas até o momento por cerca de 200 mil alunos de 150 escolas do estado de São Paulo, superando a meta, que era de 220 toneladas. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (4) durante a abertura da terceira edição do Greenk Tech Show, o principal festival de tecnologia e sustentabilidade do Brasil. O evento vai até domingo (6) em São Paulo.

A arrecadação é fruto do envolvimento dos estudantes de 13 a 18 anos de 150 escolas públicas e particulares do estado que participam do segundo Torneio Greenk Intercolegial. O volume coletado nessa edição superou o arrecadado ano passado, quando foram entregues 80 toneladas. Para a próxima edição, a meta é arrecadar 600 toneladas de lixo eletrônico.

Este ano, só a Escola Municipal de Ensino de Bebedouro Professor Stélio Machado Loureiro arrecadou 41 toneladas. "Nós limpamos a cidade: foram 41 toneladas de lixo eletrônico – em média, cada morador levou dois quilos. Foi surpreendente, todo mundo abraçou a causa. Conseguimos chegar na final, ainda estamos com o ônibus cheio de lixo eletrônico para entregar", disse a gestora da escola, Sônia Paro.

"É uma experiência muito importante para a gente, que é de longe da capital, estar aqui nesta final e participar de um torneio que é importante para todo mundo", disse Gabriele Pereira Lopes da Silva, de 10 anos, alunda do 5° ano da escola de Bebedouro.Felipe de Souza Lima, de 11 anos,colega de Gabriele, disse que aprendeu muito com o torneio. "Aprendi a descartar o lixo eletrônico corretamente. As pessoas não podem jogar o lixo eletrônico em locais públicos porque ele demora muitos anos pata se decompor."

Também aluno do 5° ano, Mateus de Souza Lima, de 11 anos, reconheceu que ainda tem muito o que aprender, mas disse que já ensina o que sabe até agora. Mateus ressaltou que o lixo eletrônico não pode ser descartado junto com o do lixo normal. "[Isso] faz grande estrago, e o lixo eletrônico faz muito mais estrago no meio ambiente, porque vai passando de geração em geração. Então, temos que tomar muito cuidado", alerta o estudante.

Por enquanto a escola de Bebedouro está em primeiro lugar no ranking, mas o vencedor só será conhecido no domingo (6), no encerramento do torneio, já que as escolas participantes continuam entregando lixo eletrônico durante o evento. Se a vencedora for uma escola pública, ganhará como prêmio um laboratório de informática, com equipamentos remanufaturados, patrocinado pelos parceiros ambientais.

"Todo o lixo arrecadado nas escolas é encaminhado para os nossos parceiros ambientais. O que tem reaproveitamento vira matéria-prima que volta como equipamentos de remanufaturados", explicou uma das organizadoras do Greenk Tech Show, Glaucia Palota.

O torneio incluiu uma campanha educacional ambiental na qual os estudantes foram desafiados a arrecadar a maior quantidade de lixo eletrônico, além de participar de campeonato de e-sports, projetos de sustentabilidade e tecnologia e cosplay.

As atrações do Greenk Tech Show 2019 ocorrem em diferentes arenas, como a e-Sports Zone, a Arena Geek, o Estúdio do Conhecimento e a Stone Zone. O evento está sendo realizado no Centro de Eventos Anhembi, em São Paulo, e a entrada é gratuita.
Movimento Greenk
Da junção de duas palavras, greek e green, surgiu o movimento Greenk, que tem como objetivo conscientizar a todos sobre a importância do descarte correto do lixo eletrônico.

O termo greek refere-se a apaixonados por tecnologia, computadores, smatphones, games, aplicativos, séries, desenhos, app e novidades da cultura pop. Green, verde em inglês, representa também quem se preocupa com o meio ambiente.

"O movimento surgiu justamente para conscientizar para o descarte correto do lixo eletrônico, mobilizando principalmente as novas gerações. Cada vez mais aumenta a arrecadação. Na primeira edição, tivemos 2,5 toneladas; na segunda, 80; e agora já ultrapassamos a meta de 220 toneladas. Para a próxima edição, a meta é mais ousada: triplicar esse volume para 600 toneladas", disse Glaucia Palota.

Da Agência Brasil

sábado, 5 de outubro de 2019

Fim de semana em São Paulo será dedicado à literatura



Até domingo (6), 11 pontos da capital paulista serão ocupados por mais de 150 atividades gratuitas entre conversas com autores, oficinas, espetáculos de rua, duelo de cordel, sarau, teatro, dança e música, em um fim de semana dedicado ao livro e à leitura. É o Festival Mário de Andrade - A Virada do Livro, organizado pela Secretaria Municipal de Cultura pela primeira vez na cidade. Estarão reunidos autores, editores, leitores, bibliotecários, livreiros, coletivos e públicos de todas as idades e de todo o país. 
O eixo central será o Corredor do Livro, trajeto entre a Biblioteca Mário de Andrade e a Praça das Artes, passando pela Rua Coronel Xavier de Toledo e pelo Theatro Municipal, compreendendo um quilômetro e meio ao ar livre, com tendas que abrigarão as principais editoras, livrarias, bancas e coletivos do país. O festival se espalhará ainda pelos centros culturais Tendal da Lapa e Cidade Tiradentes, Centro de Culturas Negras e Centro Cultural da Juventude.
Participam do trajeto editoras como Companhia das Letras, Record, Todavia, Planeta, Editora 34, Ubu, Zahar, Saraiva, Banca Tatuí, Malê, Libre, Editora da Unesp, Imprensa Oficial, Edições Sesc SP, Senac, Giostri, Leia Mulheres, Flima (Festa Literária Internacional da Mantiqueira), Quilombhoje, Poetas do Tietê, Coletivos Ponte Cultural, Nômade, Perifatividade e Fantasistas, Livraria do Comendador e Território Geek, entre outros. A Virada do Livro terá ainda espaço para iniciativas editoriais voltadas à diversidade LGBTQIA+, a questão racial e o feminismo.
Programação
O festival será aberto às 19h, na Praça das Artes, com a apresentação do espetáculo Yebo, no estilo gumboot (dança de botas de borracha). O estilo foi criado pelos trabalhadores das minas de ouro e carvão da África do Sul, no século 19, e a coreografia aborda a exploração dos minérios e dos povos que os extraíram, além da espera das mulheres por seus maridos mineiros. 
Em seguida, o autor moçambicano Mia Couto participa de conversa com a jornalista, escritora e atriz Bianca Ramoneda, na qual serão abordadas questões como a relação do homem com seus pares e o planeta. O atyor Silvio Restiffe lerá trechos da obra de Couto. 
Amanhã (5), no Theatro Municipal, a atriz Fernanda Montenegro, indicada ao Oscar por Central do Brasil, lança o seu livro de memórias “Prólogo, Ato, Epílogo”, relembrando a trajetória em conversa com a jornalista Marta Góes, colaboradora do livro. Na Praça das Artes, a neta de Nelson Mandela Zamaswazi Dlamini-Mandela e Sam Venther, organizadora das cartas da prisão, encerram o festival no domingo (6) com um tributo a Mandela, ganhador do Nobel da Paz. A conversa é mediada pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e o ator Felipe Soares fará leituras das cartas de Mandala.
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, disse que esse tipo de política pública tem como foco a resolução de problemas da cidade. como o desemprego, porque grande parte das ações culturais é vista como estratégica na geração de emprego e renda, sendo esse um dos motivos que justificam o investimento. "Quando falamos em ampliação da leitura, difusão dos livros, estamos falando da formação da consciência, da cultura crítica, do conhecimento do mundo e, portanto, da formação dos paulistanos. Fomentar o livro é fomentar uma sociedade mais crítica e mais consciente do seu papel”, afirmou. 
O secretário municipal de Cultura, Alê Youssef, ressaltou que a secretaria tem diversas ações para difundir a literatura e melhorar os índices de leitura na cidade, inclusive dentro das bibliotecas, conseguindo aumentar a presença de público em 24% com relação ao primeiro semestre do ano passado e aumentar em 74% o empréstimo de livros.
A programação completa pode ser vista no site da prefeitura.

Da Agência Brasil

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Neurociência aplicada à educação reinventa a forma de transmitir conteúdo




Antes restrita ao interesse de profissionais de medicina e psicologia, a neurociência avança cada vez mais em direção a outras áreas de conhecimento. Na educação, por exemplo, tem ajudado especialistas a entenderem o que acontece no cérebro quando ele entra em contato com novas informações. Pesquisas neurocientíficas, se aplicadas à educação, podem direcionar o trabalho de professores em sala de aula. Essa revolução na maneira de ensinar pode tornar as práticas de aprendizagem mais eficientes, facilitando a fixação do conteúdo. É o que defende o professor Marcelo Peruzzo, idealizador da metodologia Brain Model Canvas (BMC) e cofundador do primeiro aplicativo de neuroeducação do mundo, WeJoy. "A neurociência pode conduzir a pessoa por uma jornada fantástica de aprendizado", destaca Peruzzo.

E se a neurociência pode ser usada para decifrar o desenvolvimento do cérebro e o comportamento das pessoas, a união com a área de gestão era apenas questão de tempo. A oferta de cursos ligando as duas áreas mostra que essa é uma tendência que veio para ficar. A Universidade Positivo, de Curitiba (PR), oferece atualmente dois cursos de especialização com ênfase em neurociência aplicada aos negócios: MBA em Gestão de Pessoas e Coaching com ênfase em Neuroliderança e MBA em Marketing Digital com ênfase em Neuromarketing. Os cursos, que estão na 2° e 3° edição, respectivamente, contam com mais de 120 alunos de diversos estados do Brasil e, inclusive, de outros países.

O MBA em Marketing Digital é o único curso dessa categoria no Brasil a contar com Laboratório de Neuromarketing para análise dos projetos criados pelos alunos. Também é o único MBA no país a utilizar o aplicativo WeJoy, oferecendo aos estudantes a opção de assistirem às aulas de forma presencial ou a distância. Durante a especialização, a neurociência é utilizada para personalizar ao máximo a experiência e a transmissão do conteúdo. Os módulos vão sendo apresentados aos alunos de acordo com o estado emocional de cada um, a partir de um teste rápido realizado no aplicativo. A ferramenta indica inclusive o melhor horário para se realizar as atividades, baseado nos desempenhos anteriores da pessoa. "O curso não tem prazo específico para conclusão. O aluno é 100% protagonista de seu aprendizado e só é reprovado se ele se auto sabotar", destaca Peruzzo.

O empresário do ramo da Educação, Newton Andrade, 38 anos, concluiu o MBA em Marketing Digital com ênfase em Neuromarketing e classifica a experiência como sensacional. Formado em administração e com especialização em Logística Empresarial, ele diz que o curso quebrou todos os paradigmas da gestão e do marketing atual e ajudou, inclusive, a gerar novos negócios. "Minha visão do mundo mudou, tanto voltada para a vida profissional quanto pessoal. Ter o entendimento da mente humana me fez refletir e ajudou nas relações pessoais e profissionais", afirma Andrade, que também reforça a importância de poder trocar informações, durante o curso, com colegas de diferentes estados do Brasil e até dos EUA.

Sobre a Universidade Positivo

A Universidade Positivo concentra, na Educação Superior, a experiência educacional de mais de quatro décadas do Grupo Positivo. A instituição teve origem em 1988 com as Faculdades Positivo, que, dez anos depois, foram transformadas no Centro Universitário Positivo (UnicenP). Em 2008, foi autorizada pelo Ministério da Educação a ser transformada em Universidade. Atualmente, oferece mais de 60 cursos de Graduação presenciais, quatro cursos de Doutorado, sete cursos de Mestrado, mais de 190 programas de Especialização e MBA, sete cursos de idiomas e dezenas de programas de Extensão. A Universidade Positivo conta com três unidades em Curitiba, uma unidade em Londrina (PR), uma unidade em Joinville (SC), além de polos de Educação a Distância (EAD) em mais de 60 cidades espalhadas pelo Brasil. Em 2018, a Universidade Positivo foi classificada entre as 100 instituições mais bem colocadas no ranking mundial de sustentabilidade da UI GreenMetric.

Website: http://www.centralpress.com.br/


Teatro completo





domingo, 30 de junho de 2019

UMA LAVA-JATO NO CAMINHO


A Hypera Pharma (antiga Hypermarcas) turbinou os lucros e o valor de mercado, mas uma operação policial pôs o bom momento da empresa em teste

O ano de 2018 deveria consolidar uma guinada para a Hypermarcas, fabricante do antigripal Apracur e do analgésico Doril. Depois de vender seus negócios nas áreas de alimentos, limpeza, beleza e higiene pessoal, abrindo mão de linhas de produtos famosas, como Salsaretti e Bozzano, a companhia, fundada pelo bilionário goiano João Alves de Queiroz Filho em 2001, passava a ser definitivamente uma farmacêutica. Era a conclusão de um processo iniciado em 2011 que fez seu lucro subir 73%, para 965 milhões de reais no ano passado.

A empresa mudou de nome, em fevereiro, para Hypera Pharma, focada em remédios. “Escolhemos concentrar investimentos nesse mercado porque já temos posição de liderança em diversas categorias. Vemos um grande potencial de crescimento”, disse Breno Oliveira, presidente da Hypera, em mensagem por e-mail enviada a EXAME. Os investidores na bolsa de valores vinham compartilhando desse otimismo e levaram a companhia ao valor de mercado recorde de 24 bilhões de reais em março, 38% mais do que um ano antes. Mas, no meio do caminho, houve uma investigação anticorrupção da Polícia Federal.

Em abril, cumprindo mandados de busca e apreensão na Hypera, a Polícia Federal deflagrou a Operação Tira-Teima para esclarecer a suspeita de participação da empresa no pagamento de propinas a políticos do MDB e do PSDB entre 2013 e 2015. O esquema foi descoberto após indícios de os malfeitos terem aparecido em depoimentos de lobistas pegos na Operação Lava-Jato. Nelson José de Mello, ex-diretor de relações institucionais da Hypermarcas e homem de confiança de Queiroz Filho, confessou em acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, em 2016, ter repassado 26,4 milhões de reais a políticos em troca de futuro apoio a projetos de lei que poderiam beneficiar a companhia.

Mello, que deixou a empresa no mesmo ano da delação, disse que tomou a decisão por conta própria. O mesmo discurso tem sido adotado pela Hypera. No entanto, a queda de 25% das ações nos últimos três meses mostra que, assim como a PF, os investidores não estão acreditando nessa versão, e os respingos do maior escândalo de corrupção da história do país podem atravancar os planos da farmacêutica.

Depois de quatro anos e 52 fases da Lava-Jato, a Hypera se destaca no imenso rol de casos derivados da apuração de desvios na Petrobras porque é a maior empresa que não tem dependência vital de contratos com o setor público, como as empreiteiras e os estaleiros, nem calcou sua expansão em financiamentos de bancos do governo, a exemplo dos frigoríficos. Assim como outras companhias envolvidas, a farmacêutica tem sofrido por sua falta de transparência na divulgação de informações relativas à Tira–Teima, na visão de analistas.

Como companhia listada em bolsa, a Hypera tem obrigação de comunicar a seus acionistas qualquer evento que possa prejudicar seu balanço. Mas levou dez dias para que a empresa admitisse que a operação de busca e apreensão da PF em 10 de abril não teve como alvo apenas a sede da companhia em São Paulo, mas também a casa do presidente do conselho de administração, Queiroz Filho, e de Claudio Bergamo, que ocupava a presidência do grupo desde 2007. “Sem clareza do que de fato está acontecendo, é impossível tomar uma decisão sobre investir na empresa. Os resultados, os projetos, tudo passa para segundo plano”, afirma Eduar-do Guimarães, sócio da consultoria de análise de ações Levante.

Os dois principais executivos da Hypera, Queiroz Filho e Bergamo, deixaram voluntariamente seus cargos no dia 26 de abril. Em maio, surgiram rumores, igualmente rechaçados pela farmacêutica, de que ambos estão negociando uma delação premiada com o MPF e de que a Hypera considera fechar um acordo de leniên-cia com pagamento de uma multa de até 2 bilhões de reais. O montante equivale a quase cinco vezes os 463 milhões de reais de ativos líquidos da empresa no momento e a quase dois terços da dívida de 2,75 bilhões de reais que a farmacêutica tinha em 2010, antes de começar a vender seus outros negócios — na época, a quantia era tida como excessivamente alta. Ou seja, uma penalidade dessa monta significaria praticamente apagar o benefício financeiro obtido com a mudança estratégica. E também ficar sem folga de recursos para investir no desenvolvimento de novas formulações, um dos pilares da nova fase do grupo.

Calmaria que perdura?

A omissão, ou a demora para confirmar informações, como a incursão dos federais na casa de Queiroz Filho e de Bergamo, alimenta a especulação em torno da gravidade dos eventuais ilícitos e do grau de envolvimento da Hypera e de seus mais altos executivos. Essa lentidão é vista por advogados com conhecimento em acordos de delação e leniência como uma tática para conseguir uma proposta melhor por parte das autoridades. “O melhor a fazer nessas situações é sempre esperar o máximo para ver todas as provas que a polícia tem nas mãos”, diz um advogado que já atuou em diversos acordos desse tipo no Brasil e no exterior. “Se o caso contra a empresa não for muito sólido, pode-se pagar uma multa menor.”

Enquanto isso, nas fábricas e nos escritórios da Hypera, o ambiente é de relativa tranquilidade, segundo EXAME apurou. Assim como os investidores, os funcionários ficam sabendo primeiro de informações a respeito da Tira-Teima pela imprensa. Os empregados relatam, em condição de anonimato para não sofrer represálias, que o clima é de surpresa cada vez que um novo fato vem à tona. Diferentemente de outros grandes grupos envolvidos na Lava-Jato, segundo as acusações, as práticas apontadas como ilegais na Hypera ficaram restritas ao alto escalão e tiveram como objetivo benefícios específicos e limitados. De acordo com o depoimento do ex-diretor Mello, ele pretendia, com os pagamentos a políticos como o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (MDB-RJ), conseguir mudanças na Medida Provisória no 627, que aumentava a tributação de empresas brasileiras no exterior. Os advogados de Mello, Queiroz Filho e Bergamo não comentaram o caso.

Se no ambiente interno da companhia o clima está ameno, no exterior os danos à reputação e ao valor de mercado da Hypera nem se comparam, por ora, aos sofridos por outros grupos brasileiros atingidos por escândalos de corrupção. Além da Odebrecht, outras empreiteiras, como a Andrade Gutierrez, viram sumir seus contratos de obras com o poder público, sua principal fonte de renda, e correram o risco de quebrar quando as dificuldades financeiras as levaram a atrasar o pagamento de dívidas com investidores.

O frigorífico JBS perdeu 38% do valor de mercado na semana posterior à divulgação de que Joesley Batista, presidente do conselho de administração e um dos controladores do grupo, tinha gravado uma conversa com Michel Temer, no Palácio do Jaburu, em que o presidente da República supostamente concordava com a compra do silêncio de Eduardo Cunha (MDB-RJ) para que o parlamentar não delatasse o que seriam pagamentos de propina.

Ao mesmo tempo que a sombra da Tira–Teima tem desencorajado novos aportes, um grupo de investidores vem se agarrando aos robustos números financeiros e dando o benefício da dúvida à farmacêutica. No primeiro trimestre deste ano, na comparação com igual período de 2017, a receita cresceu 14%, para 928 milhões de reais, com uma elevação de 42% do lucro, para 302 milhões. A estimativa média do mercado financeiro é que as vendas alcançarão 3,7 bilhões de reais em 2018 (6% mais do que em 2017), com lucro de 1,5 bilhão (40% mais). A venda de ativos nos últimos anos possibilitou zerar uma dívida que era de 2,8 bilhões de reais em 2010, o equivalente a 3,7 vezes seu Ebitda. Com esses ganhos recentes, a Hypera aumentou em 84% a distribuição de dividendos aos investidores, com pagamento de 581 milhões de reais em juros sobre o capital próprio referentes a 2017.

A estratégia de apostar todas as fichas no mercado de remédios, com foco em genéricos e sem prescrição, está dando certo, na avaliação de Maria Cristina Costa, da consultoria de análise de ações Lopes Filho, do Rio de Janeiro. Existem atual-mente 120 laboratórios no país que fabricam medicamentos genéricos — eles custam, em média, 60% menos do que os de referência nas farmácias, segundo a PróGenéricos, a associação do setor. As vendas crescem a porcentagens de dois dígitos desde a liberação dessa categoria de remédios no Brasil, em 1999, e não diminuíram com a crise. “O mercado deve continuar crescendo consistentemente nos próximos anos, acompanhando o envelhecimento da população”, afirma a analista.

Ao se desfazer de negócios nas áreas de alimentos e beleza, a Hypera abriu mão de mercadorias de margem baixa e com vendas estagnadas por causa da crise. No entanto, trocou setores muito maiores (o faturamento combinado no país é de 750 bilhões de reais, 100 vezes o de genéricos) e que requerem baixo investimento por itens que exigem alto investimento em pesquisa e desenvolvimento. O risco estava calculado pelos executivos da empresa. Mas ninguém contava com uma operação policial no caminho.

Por Denyse Godoy, na Revista Exame


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