quarta-feira, 18 de julho de 2018

O dono da caneta salvadora


Depois da fracassada tentativa de tirar o ex-presidente Lula da cadeia com a escandalosa liminar de um desembargador militante, o PT aposta em Dias Toffoli para ver seu comandante máximo nas ruas de novo
Foi tudo de caso pensado. O trio de deputados petistas Paulo Pimenta, Wadih Damous e Paulo Teixeira tentou soltar o ex-presidente Lula no último domingo com a ajuda de um velho amigo do PT: o desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região Rogério Favreto, filiado ao partido por 20 anos antes de ser indicado ao cargo em 2011 pela ex-presidente Dilma Rousseff. A manobra não deu certo, mas eles não desistiram. A legenda agora deposita sua esperança em outro antigo aliado: o ministro Dias Toffoli, ex-advogado do PT, ex-assessor do Palácio do Planalto durante os anos Lula e nomeado pelo petista para o Supremo Tribunal Federal em 2009. São dois os caminhos possíveis que enchem Lula e seu séquito de esperança. Um deles, mais curto, repetiria em Brasília o estratagema adotado em Curitiba. A ideia é não deixar passar a oportunidade caso Dias Toffoli assuma o plantão do Supremo ainda neste mês, quando, em meio ao recesso judiciário, a presidente Cármen Lúcia pode ter de assumir a cadeira de Michel Temer, que tem três viagens previstas ao exterior. Nesse caso, Dias Toffoli, como vice-presidente da corte, ficaria responsável por julgar todos pedidos protocolados, incluindo o de um eventual habeas corpus para Lula. A outra opção é aguardar que Toffoli assuma em definitivo o lugar de Cármen, em setembro, o que abriria caminho para o plenário finalmente rediscutir a questão da prisão em segunda instância, algo que, até agora, a ministra bravamente tem resistido a fazer.

Nos dois casos, Dias Toffoli é fiel depositário das melhores expectativas dos petistas. Abertamente, são raros os líderes do partido que falam sobre o assunto. Mas, em privado, eles nutrem a confiança de que, com Toffoli na mais importante cadeira do Supremo, tudo ficará mais fácil. Depois de o PT perder nas mais diferentes frentes o poder que experimentou durante treze anos à frente do Planalto, há até quem veja na chegada do ex-companheiro ao posto de presidente do Supremo, do outro lado da Praça dos Três Poderes, a oportunidade de restaurar em parte a influência perdida no tabuleiro de Brasília. Nem que para isso seja preciso radicalizar. Não por outra razão, petistas de proa já fazem circular que Dias Toffoli levaria para compor seu staff no Supremo alguns dos mais empedernidos auxiliares de Lula no Planalto. É o caso, por exemplo, de Franklin Martins, que, segundo gente próxima da cúpula do partido, teria sido convidado por Toffoli para assumir a seção de comunicação do tribunal. Franklin, não custa lembrar, é até hoje um dos mais próximos conselheiros de Lula. Essa, porém, é a parte menos relevante da história. O essencial, dizem, é conseguir tirar Lula da prisão. Nos bastidores, o comando petista já analisa até mesmo qual seria o melhor momento para que isso ocorra. “Talvez seja melhor não desgastá-lo agora e esperar para ele pautar as ADCs (contra a prisão em segunda instância)”, diz o deputado petista Vicente Cândido, amigo do peito de Lula e um dos baluartes da “ala jurídica” do PT, que conta ainda com o trio Damous-Pimenta-Teixeira. Vicente Cândido não descarta, porém, a possibilidade de encurtar o caminho. Diz que, entre as opções, está sobre a mesa a ideia de recorrer a “um atalho ainda durante a presidência da ministra Cármen”. Ele se recusa a explicar qual seria esse atalho, mas a resposta passa necessariamente pela caneta de Dias Toffoli.

“Toffoli certamente conduzirá o STF na defesa da Constituição e do estado democrático de direito”, disse a Crusoé o deputado Paulo Teixeira, em mais uma demonstração explícita de que a perspectiva de ascensão do ex-companheiro ao comando da Suprema Corte tem animado os petistas. Por um bom tempo, a relação do ministro com o partido e a sua militância andou prejudicada. Especialmente a partir do julgamento do mensalão, quando Toffoli surpreendeu ao votar pela condenação de antigos dirigentes petistas, como José Genoino e Delúbio Soares. Nos últimos anos, o clima piorou ainda mais devido à aproximação do ministro com o colega Gilmar Mendes, um velho desafeto do PT. Mais recentemente, como ambos passaram a ser críticos ferrenhos da Lava Jato e a fazer na Segunda Turma da corte dobradinhas que têm causado danos à operação, o sentimento começou a mudar. A recente decisão de soltar José Dirceu com um habeas corpus de ofício, sem que a defesa do chefão tivesse sequer feito o pedido, proporcionou a reaproximação. O bom e velho Dias Toffoli de alma petista receberia a indulgência plena dos antigos companheiros logo na sequência, ao atropelar o juiz Sergio Moro para permitir que Dirceu, além de seguir livre, pudesse viver sem as agruras de uma tornozeleira eletrônica.

Mesmo diante de tantos sinais, quem conhece o ministro acredita que a ajuda que ele poderá dar a Lula não será tão explícita. À diferença do desembargador Favreto, Dias Toffoli é visto como alguém mais pragmático, que não se disporia a colocar em xeque os 25 anos que lhe restam no Supremo (ele tem 50 e pode ser ministro da corte até os 75) para salvar a pele de Lula. Assim como Favreto, o ministro tem uma longa trajetória de serviços prestados ao PT desde a década de 1990, quando ingressou no grupo de advogados que passou a defender o partido nos tribunais. Mas, assim como foi cauteloso no julgamento do mensalão, ele pode repetir a dose agora. Não significa que vá agir com independência em relação ao chefão petista, claro. A questão é que ele procuraria fazer tudo de maneira mais calculada, de modo a se preservar. Entre os que o conhecem bem, a aposta é que Dias Toffoli resistiria a assumir sozinho o ônus de soltar Lula. Mas, evidentemente, isso depende de outros fatores — como a pressão que os petistas são capazes de fazer sobre ele, usando todo o histórico de convivência de décadas a fio e os segredos que derivam dessa relação.

No jogo pesado da política, é natural que nas horas de aperto ocorram jogadas controversas. Recentemente, Crusoé ouviu de fonte primária, sem intermediários, uma conversa que dá a exata dimensão de como funcionam esses subterrâneos. José Dirceu ainda estava preso quando duas pessoas de sua intimidade, em um encontro de trabalho, se puseram a pensar sobre formas de convencer Dias Toffoli a ajudar o ex-ministro da Casa Civil. Uma delas lembrou que, em meio às chantagens que marcaram o auge do mensalão, o ex-aliado Roberto Jefferson chamou uma pessoa do círculo de Dirceu para uma conversa reservada. Durante o encontro, segundo esse relato, ele teria sacado uma série de imagens que comprometeriam gente importante do PT. Era um recado para o ministro da Casa Civil de Lula. Em uma dessas imagens, ainda de acordo com essa mesma fonte petista, o então desconhecido Dias Toffoli aparecia exposto a uma situação controversa, juntamente com Antonio Palocci. O assunto foi levado às instâncias superiores do partido e do governo. Chegou a Lula, inclusive. Era 2005. No drama petista de 2018, treze anos depois, o episódio voltou à tona no momento em que se tentou puxar pela memória histórias que pudessem constranger Dias Toffoli. Ameaças desse tipo dificilmente falham, mas ao que tudo indica nem foi preciso usar o enredo das fotografias: Toffoli, voluntariamente, se dispôs a lançar a corda para o ex-chefe Dirceu.

No caso de Lula, se de fato não vingar a ideia de obter um habeas corpus ainda durante este recesso de julho, aproveitando a possível ausência de Cármen Lúcia, gente próxima a Dias Toffoli dá como certo que a partir de setembro, assumindo de vez a presidência do tribunal, virá uma solução que, além de ajudar o comandante petista, terá grande valor também para outros investigados da Lava Jato. A expectativa é de que, nos dias subsequentes à posse de Dias Toffoli, o ministro Marco Aurélio Mello peça para que sejam levadas ao plenário as ações declaratórias de constitucionalidade que tentam reverter o entendimento da corte sobre a execução imediata de prisão após condenação em segunda instância. Como o plenário hoje tende acolher o pleito, Lula conseguiria sair da prisão e, ainda que não consiga viabilizar sua candidatura, o PT já se daria por satisfeito com a possibilidade de ele gravar o horário gratuito de TV e rodar o país ao lado do candidato a ser escolhido pelo partido.

Seja concedendo um habeas corpus no recesso, seja pautando a discussão sobre prisão em segunda instância mais adiante, os próximos passos de Dias Toffoli têm sido medidos com régua e compasso na corte. Ante a possibilidade de o ministro assumir o plantão nas próximas semanas, Cármen Lúcia se recusa a dizer se, com a confirmação das viagens de Michel Temer para Cabo Verde, México e África do Sul, poderia acumular a Presidência da República com a presidência do Supremo. Essa é uma possibilidade que a lei dá à presidente do corte, caso ela queira evitar o risco de deixar a caneta nas mãos de Dias Toffoli e enfrentar os danos de uma possível liminar para soltar Lula. Perguntada por Crusoé sobre o que Cármen pretende fazer diante do dilema, a assessoria da ministra diz que ela ainda não tem a resposta porque Temer nem sequer confirmou oficialmente, até o momento, que fará as viagens. Uma outra opção, para evitar o furdúncio que uma repentina soltura de Lula poderia causar, está nas mãos do próprio Michel Temer: ele pode desistir das viagens. Assim, Cármen Lúcia seguiria como responsável pelo plantão e Dias Toffoli, em férias, sem chances de ter a caneta. Por ora, de parte a parte, o que há é suspense. A resposta virá nos próximos dias – a primeira viagem de Temer está agendada já para a semana que vem. Seja como for, neste momento Dias Toffoli repõe as energias na Europa, juntamente com a sua mulher. O roteiro do casal incluiu uma visita à Escócia, na companhia da ex-ministra do TSE Luciana Lóssio e do advogado Técio Lins e Silva — autor de uma das ações de constitucionalide que tentam mudar o entendimento do Supremo sobre prisões a partir de condenação em segunda instância. Recentemente, com um discurso incisivo contra a Operação Lava Jato, Lins e Silva defendeu no plenário da corte o fim das conduções coercitivas.

É certo que a gestão Dias Toffoli será bem diferente da de Cármen Lúcia. Há pressão de ministros do Supremo para organizar a pauta de maneira que ela seja mais previsível e consensual. Hoje, Toffoli gosta de cultivar a discrição e se vangloria de ter, administrativamente, um gabinete bem gerido e moderno. São duas características que ele diz pretender levar à presidência. Enquanto Cármen Lúcia mostra preocupação com a repercussão dos casos, na sociedade e na imprensa, Toffoli deverá ser um presidente intramuros, dizem os amigos. Assim, pautas como a prisão em segunda instância e até reajustes salariais para ministros e juízes devem voltar à discussão.

Quando entrou no Supremo, Dias Toffoli atraiu para si todos os tipos de desconfiança. Àquela altura, ele ostentava uma (justa) fama de bon vivant. Ao longo dos anos, foi tentando se repaginar. Optou por um comportamento mais low profile e aproximou-se de dois dos mais influentes ministros do Supremo: Teori Zavascki, morto em 2017, e do já citado Gilmar Mendes. Embora de estilos diferentes, Teori e Gilmar tinham em comum a capacidade de articulação e diálogo nos bastidores, algo que Toffoli também tenta cultivar. O ministro foi empossado em 2009, com 41 anos, por escolha do então presidente Lula. A vaga foi aberta depois da morte de Carlos Alberto Menezes Direito. Para além de ser um dos ministros mais jovens a chegar ao Supremo desde a criação do tribunal, ele recebeu críticas pelos laços com o PT e por seu currículo pífio. Não tinha livros escritos, tampouco fez pós-graduação, mestrado ou doutorado — uma ficha de apresentação que o fazia destoar dos colegas. Para piorar, foi reprovado duas vezes em concurso para juiz nos anos 1990. Toffoli trabalhou para a liderança do PT na Câmara, para a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e advogou nas três campanhas de Lula à Presidência. No governo do petista, assessorou o Palácio do Planalto como subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil, subordinado a José Dirceu. Em seguida, foi nomeado advogado-geral da União. De lá, foi guindado ao STF. A inesperada promoção foi festejada à exaustão em Brasília, mas também em Marília, no interior de São Paulo, sua terra natal. Em uma das comemorações, amigos, familiares e o próprio ministro vestiam camisas produzidas sob medida para a ocasião, onde era possível ler, à frente da sigla STF, os dizeres “Somos Todos Família”. É justamente a ideia que o PT repete, esperançoso com o que há de vir da caneta do ex-companheiro: “Somos Todos Família”.

Por Eduardo Barreto e Igor Gadelha, na Revista Crusoé

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terça-feira, 17 de julho de 2018

RAÍZES DO BRASIL


Livro explica por que o sistema político do Brasil foi feito sob medida para aproximar empresários corruptos e políticos igualmente corruptos

Ao longo dos seus quase cinco anos de existência, a Operação Lava-Jato revelou que um restrito grupo de empresários, aliado a um restrito grupo de políticos, saqueou os cofres públicos em prol de seu respectivo enriquecimento, sendo que, em alguns casos, o impulso dos padrinhos foi tamanho que grupos empresariais subiram vertiginosamente, a ponto de alcançar o olimpo da liderança mundial em seu setor. Na outra ponta, a gratidão dos beneficiados, expressa em muitos milhões de reais (via caixa um, dois e três), permitiu ao pequeno grupo de políticos uma sólida, longeva e confortável permanência no poder. Nessa sociedade informal, por muito tempo, o céu foi o limite.

Dita assim, a história parece até singela. Mas é apenas a parte conhecida de um enredo assustador que há décadas se desenrola silenciosamente nos subterrâneos da República. Um levantamento do economista Bruno Carazza lança, pela primeira vez, uma luz meridiana sobre esses porões. Em 2012, o economista, funcionário do Ministério da Fazenda desde 2002, decidiu estudar as fundações do emaranhado de escândalos de corrupção registrados no Brasil nas últimas décadas. Para isso, mergulhou por seis anos num conjunto colossal de dados que, reunidos no livro Dinheiro, Eleições e Poder (Companhia das Letras, 2018), formam o mais completo inventário das causas e consequências da roubalheira generalizada que tomou conta do país.

Por meio do cruzamento de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com informações obtidas em milhares de tabelas fornecidas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, o pesquisador descobriu, por exemplo, que não mais do que 450 empresas e 33 indivíduos doaram um montante superior a 60% do total arrecadado por todos os candidatos e partidos na eleição de 2014. Uma vez que o universo de pessoas jurídicas registradas no país é da ordem de 5,4 milhões, conclui-se que a atual elite política brasileira foi alçada ao poder com a fundamental ajuda de um segmento da elite econômica nacional, formada por 0,008% dos empresários do país — que cobraram caro a contrapartida.

Carazza aponta razões que explicam a ânsia do empresariado pela proximidade com os políticos e a disposição desses últimos em servi-lo. A primeira é o modelo de eleição legislativa em sistema proporcional. Ele define que a quantidade de votos recebidos por um partido ou coligação é mais relevante para apontar o vencedor do que os votos diretos que cada candidato obteve. Essa dinâmica estimula o surgimento de um grande número de candidaturas em grandes coligações, todas concorrendo entre si e famintas por dinheiro para financiar suas campanhas — uma necessidade, até 2015, quase completamente coberta pelos empresários. Eleitos, os ávidos candidatos se transformam em poderosas excelências.

Num sistema em que partidos de situação se apoderam de órgãos estatais, loteiam cargos comissionados e são responsáveis por criar leis capazes de fazer empresas ganhar e perder dinheiro, ter um mandato significa muito. E colaborar para a conquista desse mandato também. Se ele for presidencial, tanto melhor. Como revela Carazza em seu livro, 66% das leis criadas nas últimas duas décadas no Brasil foram editadas pelo Poder Executivo — boa parte delas por meio de medida provisória. Já no âmbito do Legislativo, é particularmente importante para empresários desonestos ter no bolso deputados e senadores responsáveis por, na tramitação das MPs, propor emendas capazes de favorecer a eles ou ao seu setor. Na famosa MP dos Portos, editada em 2015, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, hoje inquilino do complexo penal de Pinhais, conseguiu, com a redação e inclusão de um único artigo, avalizar a renovação da concessão do grupo Libra no Porto de Santos, mesmo sendo a empresa devedora de 2 bilhões de reais ao governo — antes da MP, a operação seria vedada por lei.

Carazza descobriu ainda que, entre 2003 e 2014, dos autores das quase 4?000 emendas que beneficiavam claramente um setor específico, 55% receberam doações precisamente de empresas favorecidas pelas mudanças. Já entre os relatores das MPs que davam vantagens a setores específicos, 54% receberam doações das companhias beneficiadas. É uma troca. O senador Romero Jucá, freguês da Lava-Jato em pelo menos cinco ações penais e conhecido nos corredores do Congresso como “o resolvedor-geral da República”, foi, de longe, o político que mais relatou medidas provisórias na história do país: 73. O segundo lugar é ocupado por Romeu Tuma. Morto em 2010, o ex-delegado relatou apenas quinze MPs.

Os números levantados por Carazza apontam ainda um terceiro motivo que ajuda a explicar a simbiose entre políticos desonestos e empresários gananciosos no Brasil: o tamanho do Estado na economia. Empresários querem estar próximos do governo porque o governo está em todos os lugares — dos bancos estatais às obras de infraestrutura, passando pelo generoso Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelos fundos de pensão de empresas públicas que investem o dinheiro de seus cotistas no setor privado. Só o BNDES desembolsou mais de 1,5 trilhão de reais em crédito subsidiado nas últimas duas décadas. Parte desse valor foi direcionado a obras das empresas de Eike Batista, ex-bilionário hoje condenado a trinta anos de prisão. A Justiça comprovou que Eike depositou 16,5 milhões de dólares no exterior em favor do ex-governador Sérgio Cabral como pagamento pela ajuda recebida na obtenção de licenças para obras de suas empresas no Rio de Janeiro.

Evidentemente, as doações eleitorais de empresários em troca de benefícios vindos do setor público não surgiram ontem no Brasil. Emilio Odebrecht, patriarca do grupo de mesmo nome, revelou em sua delação premiada que o dinheiro dado aos políticos, por dentro e por fora, era praxe já na época de seu pai, Norberto (1920-2014), fundador da empreiteira. O que os números de Carazza detalham é a proporção inédita que a prática atingiu. A própria Lava-Jato mostrou que, na forma, a promiscuidade entre empresas e políticos não mudou nas últimas décadas. O que mudou foram as cifras — exponencialmente anabolizadas depois da chegada do PT à Presidência da República, em 2002. O chamado “preço do voto” (resultado da divisão do dinheiro arrecadado pelo candidato pelo número de votos que ele teve), por exemplo, explodiu entre 2002 e 2014. Para a Presidência da República, o custo do voto passou de 2 reais para quase 11. As candidaturas a deputado federal e estadual mais “caras” estavam entre 6 e 7 reais em 2002. Ultrapassaram os 14 reais doze anos depois. Essa explosão também pode ser observada quando se compara o total arrecadado legalmente em campanhas em 1994 e 1998 (menos de 1 bilhão de reais em cada ano) com as cifras de 2002 (quase 2 bilhões de reais). Em 2014, período em que a máquina de distribuição de caixa dois funcionava a todo o vapor, quase 5 bilhões foram depositados legalmente em todas as candidaturas.

Diante das descobertas da Lava-Jato, que revelaram cerca de 40 bilhões de reais desviados dos cofres públicos por meio de esquemas corruptos, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 2015, pôr um ponto-final nas doações privadas. O resultado, visto nas eleições municipais do ano seguinte, foi a predominância, entre os vitoriosos, de políticos ricos, capazes de financiar a própria campanha. A partir deste ano, a quase totalidade do dinheiro para financiamentos de campanha virá dos cofres públicos — o chamado fundo eleitoral, criado pelos próprios parlamentares no apagar das luzes de 2017. Ele servirá para bancar as cifras que não poderão mais ser depositadas por empresas (leia o artigo da seção Página Aberta, na pág. 58).

Em nenhuma democracia bem resolvida as coisas funcionam assim. Países como Inglaterra, Estados Unidos e Holanda conseguem manter o funcionamento correto de suas instituições num sistema em que a colocação de dinheiro privado em candidaturas políticas é permitida sem restrições. Carazza explica que, no quesito “vedação total” de doações de empresas e teto flexível para pessoas físicas, o Brasil se assemelha a nações como Honduras, Libéria e Filipinas. O autor não acredita que o fundo eleitoral vá dissolver a atração incorrigível entre políticos e empresários corruptos. Limitar os gastos de campanha, para que elas sejam obrigatoriamente baratas, extinguir partidos de aluguel e tirar de caciques a prerrogativa de distribuir o fundo partidário podem ser alternativas mais eficazes, em sua avaliação. Como os únicos aptos a empreender tais mudanças são os próprios políticos, resta ao eleitor dar a canetada final nessas eleições.

“O jogo favorece o país velho”

DINHEIRO E PODER – Bruno Carazza: seis anos de pesquisa

O senhor diz que o sistema político brasileiro se baseia em um ciclo no qual as elites econômicas e políticas se retroalimentam. É possível haver uma renovação neste ano?

Estou pessimista. A situação é muito confortável para a casta política atual. O volume de dinheiro que os grandes partidos ganharão com o novo fundo eleitoral é alto e favorece a continuidade, não a renovação. O jogo é favorável para o Brasil velho.

O senhor defende a troca do modelo presidencialista?

Todo problema complexo tem uma resposta simples e, em geral, errada. O que temos de fazer é encarar o duro trabalho de reformas e persistir para que o presidencialismo de coalizão não seja de cooptação.

Por que o senhor critica a proibição de doações eleitorais de empresas?

Entendo que esse veto era um clamor da sociedade que foi atendido pelo STF em uma decisão pouco embasada. Mas uma forma de melhorar a medida seria estabelecer tetos nominais baixos para doações de pessoas físicas, jurídicas e de candidatos. O me­lhor sinal de vigor de uma democracia se dá quando um eleitor é convencido a tirar do próprio bolso uma quantia para custear uma campanha. Num país democrático, partidos não podem depender de financiamento público.

Houve um caso determinante para que o senhor iniciasse as investigações que resultaram no livro?

Eu trabalhava na Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda quando, em meio à discussão da Lei de Falências, vi duas cabeças coroadas de partidos antagônicos — PT e PSDB — falando sobre a necessidade de enviar o projeto a um lobista de um poderoso grupo de comunicação, que prefiro não identificar. Esse caso me estimulou a pesquisar como e por que alguns agentes econômicos conseguem privilégios e acesso diferenciado aos agentes políticos.

Por EDOARDO GHIROTTO, na Revista Veja

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Pediatras brasileiros criticam investida dos EUA contra amamentação


Após investida dos Estados Unidos para mudar uma resolução da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre defesa e promoção do aleitamento materno, pediatras e entidades brasileiras criticaram a ação dos norte-americanos e sugerem posicionamento do Brasil nos fóruns internacionais em defesa da amamentação.
Na última terça-feira (10), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou nota pública criticando a posição da delegação dos Estados Unidos na reunião de maio da OMS, em Genebra, na Suíça.
Em entrevista à Agência Brasil, o 1º vice-presidente da SBP, Clóvis Constantino, propôs reuniões entre representantes da entidade e especialistas com representantes dos ministérios da Saúde, das Relações Exteriores e do Trabalho para formular propostas que possam ser apresentadas pelo governo brasileiro nos fóruns internacionais. 
“Cidadãos saudáveis significa segurança de uma nação. A gente entende que a cidadania saudável começa no início da vida e o aleitamento materno faz parte dessa saúde”, disse.
Na promoção do aleitamento materno no país, o médico defende a licença-maternidade de seis meses para trabalhadoras públicas e do setor privado, aumento no número de locais de amamentação e a ampliação da licença-paternidade.

Pediatas brasileiros criticam EUA por tentativa de mudar resolução da OMS sobre aleitamento materno - Valter Campanato/Agência Brasil
Durante reunião, em maio, da Assembleia Mundial da Saúde, promovida pela OMS, representantes dos Estados Unidos tentaram retirar trecho de uma resolução que prevê que os países devem proteger e promover a amamentação. O texto recomenda ainda que os governos coíbam propaganda e campanhas para uso de fórmulas industrializadas em substituição ao leite materno.
De acordo com reportagem do jornal The New York Times, a investida seria a favor dos fabricantes de fórmulas infantis. Apesar da ação, os EUA não conseguiram eliminar o trecho do texto final.
A recomendação da OMS, órgão das Nações Unidas, se baseou em estudos de décadas que comprovaram que o leite materno é o alimento mais saudável para as crianças.

Brasil e aleitamento materno

A política brasileira de aleitamento materno é referência em outras partes do mundo. Segundo a gerente do Banco de Leite Humano (BLH) do Instituto Fernandes Figueira da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz), Danielle Aparecida da Silva, o modelo, adotado desde os anos 80 e atualizado com frequência, é seguido por 23 países, que compõem a rede internacional de bancos de leite na América Latina, Península Ibérica, no Caribe e na África.
Nos últimos anos, técnicos da Fiocruz têm recebido estrangeiros que querem conhecer o trabalho e também foram aos países para a formação de equipes e auxiliar na implantação de bancos de leite.
Conforme a engenheira de alimentos, uma mudança que fortaleceu o aleitamento no país foi “trazer a mulher para o centro da cena”, ao deixar de ser vista apenas como a que produz o leite, mas também a que precisa de apoio e atenção, especialmente, para aquelas com filho prematuro.
O Brasil é o país com o maior número de bancos de leite (220) e de postos de coleta (195). “Os bancos de leite, mais do que tudo, são centros de promoção e apoio ao aleitamento materno, independente se for uma mãe de bebê a termo [que nasce no prazo previsto] ou de um bebê que nasceu prematuro”, afirmou Danielle Silva à Agência Brasil.
Nos bancos, o leite doado é analisado individualmente e não há mistura do alimento, o que permite oferecer diferentes tipos de leite e atender as necessidades específicas dos recém-nascidos.

Dúvidas

A especialista reconheceu que as mães ainda têm dúvidas com relação ao aleitamento materno, especialmente as de primeira viagem. “É um período em que elas têm muitas dúvidas, em que não sabem se o bebê está pegando o seio, se produz leite suficiente, se ele está satisfeito, se está chorando porque tem fome. Elas buscam a gente para solucionar estas dúvidas. A amamentação é um período em que podem existir algumas intercorrências como rachaduras no bico do seio, empedramento de leite, as mastites. As mães procuram os bancos de leite e postos de coleta justamente para solucionar esses problemas”, disse.
A Organização Mundial da Saúde preconiza que o aleitamento materno deve ser mantido, exclusivamente, por seis meses, sem dar água ou chá aos bebês, e de forma continuada até dois anos e meio. “A mãe não tem necessidade de dar outro líquido, porque o leite humano também mata a sede e a fome, além de ajudar na nutrição e no crescimento das crianças”.
EBC

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domingo, 15 de julho de 2018

Brasileiros ganham medalhas em Olimpíada Internacional de Matemática


Estudantes brasileiros estão trazendo para o país uma medalha de ouro e quatro de bronze, conquistadas na Olimpíada Internacional de Matemática (IMO, do nome em inglês), realizada em ClujNapoca, Romênia.

A medalha de ouro foi obtida por Pedro Lucas Lanaro Sponchiado, de 17 anos, de São Paulo, classificado na 12ª posição geral no certame, que contou com a participação de 594 mil estudantes e mais de 107 equipes de todo o mundo. Os seis representantes do Brasil foram escolhidos depois de quatro provas seletivas realizadas entre os premiados da fase nacional da 39ª Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM).
As medalhas de bronze foram conquistadas pelos estudantes Bruno Brasil Meinhart, de 17 anos, e Pedro Gomes Cabral, de 15 anos, ambos de Fortaleza (CE); e Bernardo Peruzzo Trevizan, de 16 anos, e André Yuji Hisatsuga, de 18 anos, de São Paulo (SP). Lucas Hiroshi Hanke Harada, de 17 anos, também de São Paulo, ficou com a menção honrosa.
A equipe foi liderada pelos professores Régis Prado Barbosa (São Paulo) e Armando Barbosa Filho (Fortaleza) e ficou na 28ª posição no quadro geral da competição. O resultado superou o do ano anterior, quando o Brasil alcançou a 37ª colocação, com duas medalhas de prata, uma de bronze e duas menções honrosas. Em 2017, a IMO foi disputada no Rio de Janeiro.

Coroação

“A conquista vem coroar um trabalho que está sendo realizado há vários anos de preparação dos representantes brasileiros na olimpíada internacional”, avalia Claudio Landim, diretor adjunto do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), entidade que coordena as olimpíadas nacionais de matemática.
A IMO é a mais antiga e prestigiada olimpíada científica para estudantes do ensino médio. Foi criada em 1959 e conta com a participação do Brasil desde 1979.
A primeira medalha de ouro obtida pelo Brasil na disputa foi nos anos de 1980. Ao longo dos últimos 39 anos, as equipes brasileiras conquistaram 130 medalhas, sendo 10 de ouro, 43 de prata e 77 de bronze, além de 32 menções honrosas.

Participação feminina

Claudio Landim, que também é coordenador-geral da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), afirmou que a participação feminina tanto na Olimpíada Brasileira de Matemática, como no certame internacional ainda é reduzida.
“Na OBMEP, por exemplo, se nota uma diminuição do número de alunas premiadas ao longo dos anos. Isso significa que, no sexto ano do ensino fundamental, a porcentagem de alunas que recebem medalhas fica entre 30% e 40%. Mas já no terceiro ano do ensino médio, essa proporção cai para 10%”, diz.  Segundo ele, esse é um fenômeno que precisa ser compreendido para que se possa explicar o porquê dessa diminuição do número de alunas premiadas.
Para estimular a participação de meninas, no ano passado o instituto contribuiu enviando uma equipe para participar, na Europa, da primeira olimpíada de matemática exclusiva para estudantes do sexo feminino. “E, aliás, o time brasileiro foi muito bem nesse ano”. Landim observou que são poucas as meninas que escolhem áreas de engenharias ou ciências exatas, mas o número vem aumentando.
A partir de agora, o IMPA vai se dedicar à preparação da próxima OBMEP, que acontece em setembro e classifica para a OBM. Essa competição seleciona então as equipes que vão representar o Brasil nas olimpíadas internacionais. Em 2019, a IMO será na Inglaterra e, em 2020, na Rússia.
EBC

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