domingo, 27 de maio de 2018

Os cinco anos da Lei Anticorrupção


Às vésperas das próximas eleições e Copa do Mundo, talvez um fato relevante tenha passado despercebido para muitos: 5 anos se passaram desde a entrada em vigor da Lei Anticorrupção.

Por se tratar de um marco temporal relevante na implementação de uma cultura em torno da ética e governança corporativa, a retrospectiva dos avanços imprimidos pela Lei Anticorrupção merece ser feita.

Mas qual a verdadeira marca e o impacto causado pela Lei Anticorrupção ao longo deste período? A resposta é quase que intuitiva, isto é, a percepção de que a figura do corruptor deve ser tão repudiada quanto a do corrupto, em especial quando o corruptor é uma empresa.

Se de um lado o corrupto estava sujeito às sanções penais dos crimes de corrupção passiva e ativa, as empresas envolvidas transitavam de forma quase que imperceptível a cada nova investigação.

Ao longo dos últimos cinco anos, a Lei Anticorrupção passou pelo crivo de inúmeros testes.

O primeiro deles envolveu a estruturação de um regime de responsabilidade administrativa capaz de impor sanções a todo um grupo empresarial, na exata medida em que tenha contribuído para a perpetuação de um ilícito.

Em grande medida, o regime de responsabilização administrativa de empresas revelou que o combate à corrupção poderia ter uma feição diversa daquela imprimida pelo Direito Penal.

E, de fato, o modelo conseguiu demonstrar eficiência na condução de investigações, no regime de responsabilização e na imposição de sanções, como se percebe a partir das quantias recuperadas pela Controladoria Geral da União (CGU), Advocacia Geral da União (AGU) e Ministério Público Federal (MPF) ao longo da Operação Lava Jato.

Outro fator a ser destacado ao longo destes 5 anos envolve a conjugação das perspectivas criminal e administrativa, mediante a intersecção entre acordos de leniência e acordos de colaboração premiada.

Em linhas gerais, grande parte dos acordos de leniência celebrados pelo MPF originou-se de uma prisão ou de um acordo de colaboração premiada de um indivíduo.

O desdobramento das investigações relacionadas a estes fatos, posteriormente culminou na celebração de acordos de leniência entre a pessoa jurídica com a qual o indivíduo tinha algum vínculo e o MPF ou CGU.

Ou seja, o modelo da Lei Anticorrupção se mostrou propenso ao diálogo com outros mecanismos de investigação e capaz de estabelecer uma ampla rede de conexões para combater a corrupção.

No entanto, se por um lado o modelo da Lei Anticorrupção se demonstrou capaz de fomentar a intersecção entre fatos e investigados, por outro ele não foi previu o descompasso entre órgãos de controle e fiscalização.

Pelos primeiros anos, uma incessante batalha e insegurança jurídica rondou a interação entre MPF, CGU, AGU e Tribunal de Contas da União (TCU).

Somente em 2018, os quatro órgãos conseguiram sentar à mesma mesa para celebrar um acordo de leniência coordenado, sem farpas, insegurança e incerteza.

O despeito do primeiro passo, a construção do caminho comum entre os órgãos ainda exigirá um período maior de maturação.

De outro lado, a corrupção não obedece fronteiras.

Sistemas eficientes de combate à corrupção precisam ser capazes de interagir com outros, tal como ocorre com a legislação americana, o Foreign Corrupt Practices Act (FCPA), e a britânica, o UK Bribery Act.

Neste quesito, a Lei Anticorrupção também cumpriu bem o seu papel.

Apesar de estabelecer um regime de responsabilização e sanções particulares, ao longo dos 5 anos a Lei Anticorrupção foi utilizada como parâmetro em várias investigações e acordos de leniência transnacionais, em conjunto com o FCPA e UK Bribery Act.

O resultado foi a construção de uma rede de cooperação internacional em relação à qual o Brasil tem exercido muito bem o seu protagonismo.

Além da capacidade de combater a corrupção internacional, a Lei Anticorrupção ainda conseguiu criar um efeito multiplicador e se capilarizar internamente por todo o país.

Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e o Distrito Federal incorporaram em suas práticas de atuação e contratação pública medidas de combate à corrupção e programas de integridade, a revelar que a preocupação não era restrita ao âmbito da União Federal.

Na mesma linha dos Estados e Municípios, as empresas estatais - foco inicial das investigações de corrupção da Operação Lava Jato - também sofreram o influxo das medidas impostas pela Lei Anticorrupção, o que resultou na reformulação de políticas de contratação e governança corporativa.

No entanto, a Lei Anticorrupção foi apenas o primeiro passo para a mudança estrutural pela qual passariam as estatais.

A repaginação completa somente veio com a aprovação da Lei das Empresas Estatais, que coibiu por completo o modelo de nomeação política para cargos de direção, um dos principais fatores de propagação de corrupção.

Apesar do saldo positivo até aqui, ainda há muito a ser feito.

Decerto, o balanço da primeira fase de implementação da Lei Anticorrupção revelará que algumas reformas serão necessárias para que se continue a perpetuar a cultura da ética e governança corporativa.

Ampliar os poderes e melhor estruturar a CGU, publicizar os critérios de cálculo para imposição de multas e outras sanções, aperfeiçoar o regime de prescrição, fomentar a institucionalidade e cooperação entre todos os órgãos de controle e fiscalização e reformular a lei para também coibir a corrupção privada são apenas alguns dos desafios para os próximos anos.

O mais importante é que o principal desafio foi alcançado: a cultura da anticorrupção se disseminou.

Por Thiago Luís Sombra, em O Estado de S. Paulo

Teatro completo

sábado, 26 de maio de 2018

Um Senado comprometido



Quase 70% dos senadores estão sendo investigados pela Justiça. As acusações vão do recebimento de propina à violência contra mulheres. É o exemplo mais bem acabado da falência política
O quadro é desalentador. O Senado brasileiro virou a síntese da decadência da política. Levantamento feito por ISTOÉ revela que 69% dos 81 senadores possuem alguma pendência judicial. Os números mostram que 56 estão encrencados com a Justiça. Os crimes envolvendo os parlamentares da Câmara Alta são de fazer inveja aos ocupantes de qualquer penitenciária brasileira. Há casos de violência contra a mulher, ocultação de bens, peculato, crimes contra a fé pública, ocupação ilegal de apartamentos funcionais, crimes eleitorais, enriquecimento ilícito, corrupção, lavagem de dinheiro, além de muitos inquéritos derivados das delações premiadas da Odebrecht. O delito preferido dos senadores, no entanto, é a corrupção ou atos de improbidade administrativa: 49 deles respondem por crimes dessa natureza. A maioria, no entanto, se esconde atrás do foro privilegiado e os processos abertos para que possam ser julgados e condenados caminham a passos de cágado.

Desse cenário lamentável, porém, sobressai um dado positivo: os resultados da Operação Lava Jato no processo de saneamento da política brasileira. Afinal, houve um aumento significativo no número de senadores investigados após a deflagração da operação pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal. Seis senadores, inclusive, já se tornaram réus no Supremo Tribunal Federal: Aécio Neves (PSDB-MG), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fernando Collor (PTC-AL), José Agripino Maia (DEM-RN), Romero Jucá (MDB-RR), Renan Calheiros (MDB-AL) e Valdir Raupp (MDB-RO). Collor foi denunciado por propinas de R$ 26 milhões desviadas da BR Distribuidora. Gleisi, Agripino, Jucá e Raupp se tornaram réus por repasses ilícitos de empreiteiras para suas campanhas eleitorais. Jucá também é investigado em outros 12 procedimentos. Agripino, por propinas na construção da Arena de Dunas, estádio de Natal da Copa do Mundo de 2014. Já Aécio foi acusado por pedir R$ 2 milhões ao empresário Joesley Batista, da JBS, em março de 2017. O tucano é alvo de mais nove inquéritos, que vão desde propinas para campanhas até fraude na licitação da cidade administrativa de Minas Gerais.

Nem o presidente escapa

A Lava Jato também levou o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), a ser investigado no STF. Delatores da Odebrecht revelaram repasses de R$ 2 milhões a ele. O ex-diretor de Relações Institucionais da Hypermarcas Nelson Mello, também em delação premiada, detalhou pagamentos de R$ 5 milhões em despesas de empresas que prestavam serviços à campanha de Eunício em 2014. Quem também está enrolado na Lava Jato é Renan Calheiros (MDB-AL), alvo de pelo menos 15 inquéritos no STF. Ele já é réu por usar recursos ilícitos da construtora Mendes Júnior para pagar a pensão de uma filha. Ainda na Lava Jato, há os casos dos senadores Benedito de Lira (PP-AL), incluído no chamado ‘quadrilhão do PP’ e Edison Lobão (MDB-MA), alvo de quatro inquéritos. José Serra (PSDB-SP) é investigado por fraudes na licitação do Rodoanel Sul.

O senador Telmário Mota (PTB-RR) é dono de um prontuário de corar a face: é investigado por violência contra a mulher. Uma universitária de 19 anos fez a denúncia em 2016 e disse ter sido agredida pelo senador, depois de viver maritalmente com ele por três anos. Na verdade, espancada a chutes e socos, que a fizeram desmaiar. Ele nega a agressão. “Desafio provar”, diz.

Entre os processos por atos de improbidade administrativa, chama atenção os do senador Lindbergh Farias (PT-RJ). São pelo menos 12 procedimentos contra ele no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro por irregularidades na sua gestão como prefeito de Nova Iguaçu, se é que é possível chamar aquela barafunda administrativa de gestão.

Todos os parlamentares citados, por óbvio, refutam as acusações. De qualquer forma, o eleitor precisa ficar atento ao passado dos candidatos. Em outubro, cada brasileiro escolherá dois senadores para representá-los em Brasília. Dos 54 com mandatos terminando neste ano e que pretendem disputar a reeleição, 24 são investigados na Lava Jato. É possível que até a eleição algum deles já esteja condenado pelo STF. Aí viram fichas-sujas. De caras limpas.
Por Tábata Viapiana, na Revista IstoÉ

Teatro completo


sexta-feira, 25 de maio de 2018

Justiça autoriza uso de dinheiro da "lava jato" em escolas do Rio de Janeiro



O juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, autorizou o uso de R$ 17,9 milhões recuperados em processos da operação 'lava jato' para reforma de escolas no estado.

Em fevereiro, o Ministério Público Federal, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o Ministério da Educação, a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e a Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro assinaram termo de cooperação técnica que estabeleceu os critérios de aplicação dos recursos.

Também assinaram o documento de cooperação técnica como intervenientes o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (RJ e ES), a Procuradoria Regional da República da 2ª Região e o Ministério Público fluminense.

Pelo acordo, os recursos devem ser utilizados exclusivamente na execução de obras e melhoria de infraestrutura das escolas públicas estaduais. Um diagnóstico da rede estadual de ensino, feito pelo projeto Ministério Público pela Educação - conduzido em parceria pelo MPF e o MP-RJ -, revelou que pelo menos 64% das 1.221 unidades escolares mapeadas no Rio têm deficiência na estrutura física.

A Secretaria de Educação estabelecerá uma relação das escolas a serem beneficiadas, em ordem de prioridade. No documento, a pasta também detalhará as respectivas intervenções, a previsão de custo e da quantidade de alunos beneficiados.

O projeto básico de cada obra deverá ser apresentado em 60 dias a partir da assinatura do termo, e a licitação terá de ser feita em até 30 dias após a liberação dos recursos. Toda a execução das obras, bem como as respectivas prestações de contas, serão acompanhadas pelo FNDE através de sistema eletrônico já existente, porém adaptado para essa finalidade.

'A decisão do juízo da 7ª Vara Federal Criminal é histórica e materializa a destinação para a educação valores arrecadados em processos relacionados ao combate à corrupção' afirma o procurador da República Sergio Pinel. Com informações da Assessoria de Imprensa do MPF.
Consultor Jurídico



Teatro completo




quinta-feira, 24 de maio de 2018

O PODER E O DESPUDOR



VEJA teve acesso aos 76 anexos e aos documentos da segunda etapa da delação da JBS

Há um ano, a JBS, a maior processadora de carne do mundo, tornou-se também uma referência entre os campeões nacionais da propina. Em 11 de maio de 2017, a homologação do acordo de delação dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da empresa, e de cinco de seus subordinados, revelou ao país o repasse de 1 bilhão de reais a políticos e servidores públicos. Desde então, a pessoa jurídica, JBS, e as pessoas físicas, Joesley e Wesley, percorrem trajetórias distintas. A companhia, depois do sufoco, anunciou na semana passada aumento do lucro líquido, redução do endividamento e um novo acordo de renegociação com os bancos. Já os irmãos Batista perderam a imunidade criminal, permaneceram seis meses na cadeia e já figuram como réus. O caso de Joesley é ainda mais espinhoso. O Ministério Público denunciou-o por crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.

Com medo de ser hostilizado ou agredido nas ruas, Joesley vive recluso em sua mansão, em São Paulo, e nem aparelho celular tem mais. Quando selou sua delação, o empresário estava certo de que asseguraria pelo menos a liberdade ao passar sua vida a limpo, o que significou revelar a simbiose entre uma empresa sem limites para comprar favores, partidos venais e governantes sem limites para se vender. A primeira parte da delação contou com 42 anexos. Agora, na tentativa de recuperar os benefícios que perdeu no acordo, Joesley está detalhando uma segunda leva de revelações, que foi apresentada em agosto passado e contém 76 anexos. VEJA teve acesso à íntegra de todos esses textos. No conjunto, a leitura dos anexos, somada aos depoimentos complementares que Joesley vem prestando, revela o envolvimento explícito de três presidentes da República nos achaques de propinas.

Já se sabia que a JBS contou ter depositado 150 milhões de dólares no exterior para Lula e Dilma Rousseff, e que os valores, administrados pelo ex-­ministro Guido Mantega, seriam comissões por aportes do BNDES e de fundos de pensão na companhia. Sabia-se, também, que a JBS disse que Temer recebeu quantias diversas, como uma bolada de 15 milhões de reais em 2014, da qual saiu o montante de 1 milhão de reais entregue em dinheiro vivo ao coronel João Baptista Lima, suspeito de ser laranja do presidente. Joesley agora se dedica a narrar as negociações por trás de cada transação. O empresário revela que a corrupção atingiu níveis tão rocambolescos nos últimos quinze anos que Dilma e Temer chegaram a tratar de propina pessoalmente com ele, dispensando os intermediários de praxe. Algo que nem Lula, preso por corrupção, fez. Ele nunca falava do assunto abertamente e sempre o delegava a subordinados. Era seu disfarce.

Na quarta-feira 16, Joesley prestou depoimento sobre uma mesada paga pela JBS a Fernando Pimentel quando este ocupava o cargo de ministro do Desenvolvimento. Pimentel aparece em outro enredo que Joesley pretende revisitar. A história é a seguinte: segundo o empresário, Dilma lhe pediu, dentro do Palácio do Planalto, que fizesse uma doação, em 2014, a Pimentel. Até então, os dois nunca tinham tratado de dinheiro. Como a iniciativa partiu da presidente sem nenhum rodeio, Joesley disse que a ajuda solicitada sairia da conta de propina administrada por Mantega no exterior — e que, com a doação a Pimentel, o saldo da conta secreta ficaria zerado. Dilma deu o o.k. A JBS liberou 30 milhões de reais.

Em seus depoimentos, Joesley apresenta contextos parecidos no caso de Michel Temer, que, segundo o empresário, nunca teve pudor de falar de dinheiro irregular. Aos investigadores, Joesley fez questão de informar que a JBS recorreu a dois aliados do presidente numa tentativa de destravar um projeto de interesse da empresa no Porto de Santos. São eles: Wagner Rossi e Milton Ortolan, que recebiam mesadas da JBS e foram presos na Operação Skala, da Polícia Federal. Joesley costuma contar um caso para ilustrar como Temer e a turma do MDB são agressivos quando o assunto é grana. Ele diz que a dez dias da votação do impeachment de Dilma — a dez dias de virar presidente, costuma ressaltar, com ar de espanto — Temer lhe pediu pessoalmente 300 000 reais. Todos esses enredos já são de conhecimento da polícia. “A gente diz que o Joesley virou funcionário da PF. A cada depoimento, ele brinca que pedirá estabilidade”, diz um de seus interlocutores.

Os depoimentos recorrentes do empresário são uma aposta para manter sua delação de pé. Em 2017, Rodrigo Janot, então no comando da Procuradoria-Geral da República (PGR), pediu a rescisão do acordo por entender que Joesley omitira informações às autoridades. O pedido ainda depende de homologação do ministro Fachin. Em vez de liberdade, Joesley vislumbra o risco de uma nova temporada atrás das grades. Em setembro do ano passado, chegou a ser preso em razão das tais omissões. Dias depois, foi a vez de Wesley, acusado de usar informações privilegiadas na compra e venda de ações da JBS. Os irmãos Batista ficaram numa ala da carceragem da Polícia Federal em São Paulo em que tinham a companhia de servidores encrencados com a Justiça. A cela de um era ao lado da cela do outro. Ambos tinham direito a duas horas de banho de sol por dia e podiam deixar a tranca para conversar com os advogados. Joesley, então, pediu a um de seus defensores que o visitasse, diariamente, de manhã e à tarde.

Na temporada no cárcere, os irmãos Batista tiveram bom comportamento. Cortaram o cabelo um do outro e até deram banho no deputado Paulo Maluf, quando este, adoentado, passou rapidamente pela carceragem da PF em São Paulo. Num fim de semana, conseguiram autorização para limpar a ala feminina. Wesley acabou solto em fevereiro passado. Joesley, no mês seguinte. Hoje, os dois, criminosos confessos, sentem-se injustiçados. Wesley insiste na tese de que não é correto que os delatores sejam presos enquanto os delatados continuam nos cargos mais poderosos da República. Joesley afirma ter sido constrangido a corromper, já que sua empresa estaria subordinada às regras do Estado e era chamada frequentemente pelos representantes do governo para tratar de propinas e dólares no exterior.

Os irmãos Batista decidiram fazer um acordo de delação premiada em fevereiro de 2017, depois que operações de combate à corrupção e delatores se aproximaram da JBS. Era questão de tempo a empresa cair na rede dos investigadores. Naquele mês, o então diretor jurídico da companhia, Francisco de Assis e Silva, que também se tornou delator e coordenou pelo lado da empresa a operação controlada que mergulhou o governo Temer numa crise que não terminou até hoje, entrou em contato com o Ministério Público e prometeu uma colaboração ampla, geral e irrestrita: “Vamos fazer uma delação sobre os donos do poder”.

São sete os delatores da JBS. No varejo, eles detalharam pagamentos em espécie, depósitos no exterior e doações eleitorais, por dentro e por fora. No atacado, jogaram luz sobre grandes esquemas de corrupção protagonizados pelas maiores legendas do país. “Não tem o ‘Escola sem Partido’? A nossa foi a delação sem partido”, diz-se na empresa. De 1 bilhão de reais repassados pela JBS à classe política, 600 milhões de reais foram doações eleitorais, por dentro e por fora, 200 milhões de reais, destinados em espécie ao grupo do ex-deputado Eduar­do Cunha, hoje preso, e 200 milhões de reais, gastos com funcionários da Receita Federal e despesas nos estados.

Parece uma contabilidade detalhada e organizada, mas não é. Ali, o mundo da propina funciona como numa operação mambembe, com pouco controle e muito amadorismo. Dos 400 milhões em doações registradas, a JBS não soube informar quanto foi dado em troca de vantagens indevidas. No caso da Odebrecht, a operação para pagamento de propina era descentralizada. Por isso, foram 77 os delatores da empreiteira. Na JBS, Joesley era o chefe e abria o crédito pedido pelos políticos. Demilton Antônio de Castro, “o planilheiro”, registrava o valor a ser pago. Ricardo Saud, o negociador, combinava com os políticos quanto e como cada um deles receberia — em espécie, doação eleitoral ou no exterior. A Florisvaldo de Oliveira, “o homem da mala”, cabia distribuir a grana. Era tudo tratado de maneira tão simples que, numa de suas incursões, Oliveira entregou 250 000 reais ao então ministro da Agricultura, Neri Geller, dentro do ministério. Depois, posou ao lado de Geller para uma foto, despachada para o seu e-mail pela própria assessoria da pasta. Wesley Batista e Valdir Boni, diretor de tributos, desempenhavam papéis secundários, dedicando-se às negociações nos estados.

Eram tantos e tão recorrentes os repasses de recursos que a JBS até dividiu os três maiores partidos do país em perfis. O MDB era apelidado de “partido conta-corrente” — descobria uma demanda da empresa, batia à porta da JBS e dizia que ela só seria aprovada mediante propina. O PT acolhia todas as demandas da JBS de pronto — e só mais à frente, sobretudo em épocas de eleição, cobrava a conta. O PSDB pedia sem parar e não se comprometia com nada. Queria a grana pelo simples fato de estar bem posicionado no tabuleiro. “O Joesley não procurou ninguém. Ele não procurou Geddel Vieira Lima para dizer que tinha um pedido de empréstimo na Caixa. As operações da JBS no BNDES também eram redondas”, diz um de seus interlocutores. Não é bem assim. O próprio Joesley, ao complementar sua delação, listou políticos que receberam doações sem que houvesse contrapartida, numa espécie de investimento futuro. “O que se queria com esses pagamentos era que os beneficiários se tornassem ou continuassem benevolentes com a empresa”, disse.

Já as operações do BNDES só têm de redondos os muitos zeros das cifras envolvidas. A área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) calculou em mais de 700 milhões de reais o prejuízo do banco só com a compra de ações e títulos da dívida da JBS. A empresa rechaça as conclusões do TCU. Um representante do grupo explica que a companhia não precisava de verba pública para crescer, que podia captar dinheiro no mercado e que, por isso, o repasse de propina não visava à compra de facilidades. Era só uma forma de evitar chateação com agentes públicos. Ele acrescenta ainda que a JBS, ao contrário da Odebrecht, a campeã em pagamento de propina, não distribuía dinheiro sujo obtido com contratos superfaturados, mas subtraído das próprias margens de lucro. Era quase uma ação de caridade.
Daniel Pereira, na revista Veja


Teatro completo

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A Lava-Jato e a democracia brasileira



O fortalecimento das chamadas instituições de controle talvez tenha sido uma das maiores conquistas do Brasil nos últimos anos, e não me refiro apenas à Magistratura
Os regimes democráticos caracterizam-se por uma série de elementos estruturantes. A ideia de governo da 'maioria' é requisito mínimo para assentar uma democracia representativa, mas há diversas fórmulas para se chegar à maioria, e aí já reside um campo vasto para diagnosticar diversidade de modelos.
Há consenso de que, para além do princípio majoritário, existem forças contra majoritárias necessárias aos regimes democráticos, para legitimar o governo do povoe pelo povo, que possam produzir controles, especialmente porque a maioria não possui cheque em branco para governar.
Neste contexto, as democracias devem viabilizar instrumentos de formação de consensos, ou mesmo canais de resolução técnica dos conflitos, assentando-se essencialmente na raiz da divisão de funções e poderes, assim como na primazia das leis e regras que norteiam a interdição à arbitrariedade das maiorias.
Os mecanismos de combate à corrupção constituem um freio importante aos governantes nas democracias contemporâneas. Por isso mesmo, processos de impeachment são comuns em regimes democráticos.

Da mesma forma, prisões de altos detentores de cargos públicos ou empresários poderosos não são fatos que abalam regimes democráticos. Ao contrário, mostram que ninguém está acima das leis.

O Brasil, fora de dúvidas, é uma democracia consolidada. Os Poderes de Estado funcionam normalmente. As eleições em nosso país têm sido auditadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, e os partidos políticos já se movimentam para as eleições de 2018.

Além disso, uma presidente eleita foi submetida a processo de impeachment pelo Congresso (também eleito pelo povo), sob controle e supervisão do Supremo. E o país vem resistindo a uma das maiores operações anticorrupção do mundo, efetivada por suas próprias instituições, e com livre cobertura dos meios de comunicação.

O fortalecimento das chamadas instituições de controle talvez tenha sido uma das maiores conquistas do Brasil nos últimos anos, e não me refiro apenas à Magistratura e ao Ministério Público, pilares da Lava-Jato. Falo da Polícia Federal, do Tribunal de Contas da União, da Receita Federal, do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Banco Central, da Controladoria-Geral da União, da Comissão de Valores Mobiliários, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica - instituições estas que tendem a atuar, cada vez mais, como autênticas autoridades administrativas independentes.

Suas áreas técnicas primam pela excelência e qualidade. O Ministério Público de Contas também é um órgão que tem sido decisivo no combate à corrupção, e nem sempre tem merecido o devido destaque. Assim também posso falar da Advocacia Pública Federal, que desempenha notável protagonismo na defesa do Erário.

Seria positivo que o Brasil começasse a reconhecer seus méritos perante a comunidade internacional. A Lava-Jato não acabou com as empresas. O problema foi a falta de 'compliance efetivo' nas empresas envolvidas em esquemas criminosos e de um arcabouço mais robusto para acordos de leniência. Há que se aperfeiçoar mecanismos de controle? Evidente que sim. As autoridades fiscalizadoras tampouco estão acima das leis.

Porém, o que se percebe, em numerosas situações, é um movimento de retaliação em curso, por conta de interesses atingidos pela Lava-Jato, e a insistente tentativa de ataques espúrios a membros das instituições de controle e ao regime democrático brasileiro. Chegou-se ao ponto de se alegar que a prisão de um ex-presidente significaria o fim da democracia. E são frequentes as investidas contra prerrogativas, direitos e garantias de agentes públicos fiscalizadores. Esse é um caminho perigoso.
Por Fábio Medina Osório , em O Globo


Teatro completo