terça-feira, 6 de outubro de 2015

Salman Rushdie, a eterna polêmica

Um dos maiores escritores vivos explica por que não se rende à intolerância e do ódio

Por ÁLVARO ENRIGUE, no el país
  • O escritor Salman Rushdie, em Nova York. / PASCAL PERICH
    Quem sabe que razões levaram Anis Khaliqi Dehlavi a mudar de nome. Era um jovem milionário de uma família de ascendência muçulmana de Mumbai e um estudioso sério do Islã – ainda que fosse militantemente ateu. Antes de ter filhos, chamava-se Anis Rushdie em homenagem a seu filósofo preferido, Ibn Rushd, conhecido no Ocidente pela versão latinizada de seu nome, já que era cordovês: Averroes. A mudança de nome revelou-se visionária, mas o dom profético de Anis só se manifestaria na geração seguinte. Durante os 11 anos de vigência da fatwa imposta a ele pelas autoridades iranianas, Salman Rushdie, o filho de Anis, encarnou a defesa dos ideais seculares de tolerância e liberdade de expressão contra as definições unicamente religiosas do mundo.

    Entrevistei Salman Rushdie no escritório de seu agente, Andrew Wylie. Pudemos nos reunir para falar durante os dias mais quentes do ano na Costa Leste dos Estados Unidos, em que faz tanto calor e a umidade é tanta que altera a visão. Nova York é, nesses dias, uma miragem, no pior sentido da palavra: parece estar inteira atrás da fumaça de uma turbina de avião.Borges se perguntava em O Golem se existe uma rosa nas letras da palavra “rosa”. Estaria Salman no sobrenome Rushdie? Como Ibn Rushd, o escritor inglês sofreu uma perseguição desproporcionada por defender uma visão racionalista do mundo – Ibn Rushd foi tradutor de Aristóteles. Ambos foram enclausurados, ambos viram seus livros arderem em fogueiras. Averroes recuperou a liberdade em 1197 e deixou Al-Andalus. Morreu no exílio em 1198. Salman Rushdie teve melhor sorte; desde março de 2002 anda livre e em paz pelo mundo. É um homem alegre. Bastam alguns minutos em sua presença para se contagiar do entusiasmo quase infantil com que vê as coisas.
    Rushdie é um homem de sua geração. Apesar da absoluta inclemência do tempo, chegou à entrevista de camisa, paletó e calças de lã – tudo leve, mas insuportável nesses dias. Vestia-se com a formalidade de um escritor britânico de sua idade – 68 anos – que comparece a uma entrevista marcada. Tirou o chapéu e sentou-se na principal poltrona da sala em que foram assinados contratos mais caros da história da literatura. Foi só então que notei que os alicerces de seu traje não condiziam com o resto de sua aparência: usava grandes tênis brancos – talvez a contribuição de Nova York a seulook – sem meias. É ali embaixo, naquilo que está tão evidente que não vemos a menos que prestemos muita atenção, onde talvez se defina inteiro. Rushdie parece o que se espera dele, mas, de perto, está claro que não o é. Perguntou para que time de beisebol torço. Respondi que para o Orioles. “Então lamento te informar”, disse, “que somos rivais: sou torcedor dos Yankees”.
    Antes precisava de uma arquitetura prévia ao conceber um romance. O que escrevo hoje não obedece a nenhum plano geral”
    Quando os personagens de Rushdie, – incluído Joseph Anton, o de suas memórias – se lembram da Índia, cedo ou tarde retornam ao prazer de jogar críquete à tarde nas ruas de Mumbai. Saiu de seu país de nascimento aos 13 anos, para ir ao internato na Inglaterra, e nunca voltou; estudou História em Cambridge, foi publicitário em Londres, pertence a uma deslumbrante geração de escritores: Amis, Hitchens, Barnes, McEwan. Dele se pode esperar tudo, menos a mais docemente gringa de todas as atividades: assistir a jogos de beisebol todos os dias, ir ao estádio com frequência. “Adoro beisebol”, disse. “A experiência do estádio é interessantíssima, mas o que gosto mesmo é, ao fim de um dia de trabalho, ligar no jogo dos Yankees e sentar-me para vê-lo durante horas. Isso relaxa, você vai adormecendo, se desligando”.
    É um homem de estatura mediana, com o cabelo já muito espaçado pela idade. Suas pálpebras cansadas – são uma condição física, não um estado de ânimo – dão a ele o aspecto de certo distanciamento, mesmo que esteja muito atento à conversa. Não demora nada a esquecer-se de que é um escritor sendo entrevistado para falar com desenvoltura sobre essa coisa afinal tão estranha que é o ofício da escrita: contar histórias como profissão. “É a única coisa que faço. Acordo de manhã, sento-me e escrevo durante o dia. Vejo os amigos ou o beisebol quando termina minha jornada”. Em Joseph Anton(2012), sua autobiografia, Rushdie relata que, quando criança, seu pai lhe contava as fábulas e histórias míticas da vasta tradição literária indiana. E diz algo essencial: que ouvindo essas narrativas aprendeu que as histórias pertencem a todos e estão aí para serem reconstruídas e contadas como você quiser.
    Quando conversamos, disse a ele que Two Years, Eight Months and Twenty-Eight Nights (Dois anos, Oito Meses e 28 noites), seu novo livro, não parecia produto dessas jornadas cartesianas que me descreveu. É um romance muito romance, mas, como as Mil e Uma Noites a que se refere seu título, é composto por uma série de relatos fantásticos que ricocheteiam, se entrelaçam e desentrelaçam, vão e voltam sem uma ordem convencional pelo tempo e a geografia. Pensou um pouco e me disse: “É minha própria loucura: o que escrevo não obedece a nenhum plano geral. Quando era mais jovem precisava de uma arquitetura bem trabalhada antes de poder escrever um romance, porque sem isso me perdia. Agora tenho alguns personagens e algumas ideias que coloco em jogo, vejo aonde me levam. Descubro o livro, em vez de fazê-lo antes de fazê-lo”. O romance é, ao mesmo tempo, uma peça literária contemporânea, um livro de ficção científica contada mil anos depois dos fatos que relata, e uma coleção de relatos sobre o que aconteceria se o mundo dos gênios do Oriente se irritasse com a Nova York de nosso tempo.
    Rushdie se estende falando das raízes de seu método de trabalho com fruição infantil: “Na Índia, as histórias ainda são uma versão da história. Há contadores que reúnem grande quantidade de pessoas e narram contos de uma maneira muito pouco convencional. Normalmente começam com uma anedota mitológica, que depois se conecta a um evento político contemporâneo, que irradia para uma história pessoal, que pode chegar a transformar-se em uma musiquinha. Não existem regras. Qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento”.
    O escritor indiano Salman Rushdie. /PASCAL PERICH
    Ouvindo-o falar entendi que na maneira de contar seu novo romance havia sim um plano, ainda que não fosse evidente – é, afinal de contas, o britânico com tênis de jogador de basquete. O que se desdobra diante do leitor é o conto da destruição mítica de Nova York, narrado mil anos depois. “Quando falamos do futuro”, disse-me, “há uma bela mistura do que é sólido com o que é líquido, assim pensei: se trato o presente como costumamos tratar o futuro, nosso presente adquiriria essa textura, seria nosso presente e, ao mesmo tempo, seria fictício”.
    Mais adiante confirmou que não se vê como autor unicamente de literatura fantástica: “Kundera diz que o romance tem dois pais: um deles é a Clarissa de Samuel Richardson, e o outro, o Tristram Shandy de Laurence Stern. Eu venho de duas tradições: as fábulas mágicas do Oriente, mas também fui estudante de História. O que me interessa é juntar ambos os caminhos”.
    Dois Anos, Oito Meses e 28 Noites começa em Lucena, na Espanha do século 11, onde Ibn Rushd, já velho, vive exilado em uma comunidade judaica que finge ter se convertido ao Islã. Ali é visitado certo dia por uma adolescente que fica com ele cumprindo as funções de dona-de-casa e amante.
    Rushd era a epítome da racionalidade em seu tempo, assim nunca se deu conta de que Dunia, a mulher com quem teve dezenas de filhos, era uma jiniri, uma gênia. Muito menos suspeitou que, quando 900 anos mais tarde começasse a Era da Estranheza e os jinn maus e bons retornassem ao mundo, seriam os descendentes mestiços do filósofo e Dunia que poderiam negociar a continuidade do mundo tal como o conhecemos. Um deles, o senhor Geronimo, jardineiro de Long Island, absolutamente ignorante não só de que é descendente de Averroes, como também de que é idêntico a ele, é a primeira vítima do senso de humor selvagem com que os jinn atacam: a partir de certa manhã não pode mais fazer seu trabalho porque foi abandonado pela gravidade. Caminha, dorme e senta-se a cinco milímetros acima da superfície de contato.
    Há muito do próprio Rushdie no senhor Geronimo, obrigado a lutar com a intolerância dos jinn; algo desses tênis gigantes na flutuação de seu personagem. “Minha vida”, diz, “sempre se caracterizou pelo movimento, estive em muitos lugares. Às vezes invejo esses escritores que passaram a vida toda em um único lugar e o conhecem magnificamente. Faulkner trabalhou com um pedacinho de terreno. Interessam-me as coisas com raízes profundas, mas afinal você precisa trabalhar com o que tem, e o que me foi dado como artista é o oposto, uma vida que aconteceu aqui e ali. Parte na Índia, parte na Inglaterra, parte nos Estados Unidos. Deu-me outras possibilidades e eu faço uso delas”.
    Minha vida se caracterizou pelo movimento. Invejo os escritores que passam a vida toda em um único lugar e o conhecem magnificamente”
    Salman Rushdie é a celebridade literária por excelência: foi, talvez, o escritor mais famoso do mundo durante toda a minha vida profissional que chegou perto disso, por causa dessa movimentação de loucos que invocou em nossa conversa. Ele é era o convidado de honra no primeiro evento literário realmente glamouroso para o qual fui chamado – um jantar na casa de Carmen Boullosa, há pouco menos de 20 anos, na qual estavam todos os radicais chics da Cidade do México. Naquela época, ainda estava protegido por um esquema de segurança intimidante. Na festa, o escritor britânico passava de grupo em grupo com a velocidade de um anjo. Eu, que provavelmente nunca conversara com um escritor estrangeiro, não me atrevi a me aproximar. Eu o vi muitas vezes depois dessa primeira, em diferentes cidades do mundo, e sempre me pareceu que ele se movia rápido demais para ser agarrado. Ou tem um talento natural para se deslocar pelo mundo como uma celebridade, ou permaneceu durante tanto tempo no exclusivo clube dos autores mais famosos do mundo, ocupando o palco principal, que é difícil se aproximar com naturalidade porque sente que deve estar neles.
    No último Hay Festival de Xalapa, eu o vi fazer uma conferência em um auditório imenso e lotado; vi-o no palco do Conselho Britânico, no mero centro de uma mesa tão comprida que ocupava todo um pátio do restaurante. Em seguida, no coquetel da editora mexicana Sexto Piso – sempre a festa mais exuberante -, ele ocupava uma mesa que teria sido apropriada ao senhor Gerónimo: estava cerca de um metro acima de todas as demais.
    Quando conversei com ele no escritório de Andrew Wylie, insisti apenas na questão da mobilidade. “Vou com frequência à Espanha”, disse-me. “Vou muito. É por isso que tantas paisagens dos meus livros estão ali. São lugares onde estive pessoalmente e nos meus livros, porque o período árabe da Espanha foi sempre muito interessante para mim”. Carmen Boullosan se lembra de ter viajado com ele para Cholula e Oaxaca, de ter visitado mais sítios arqueológicos do que poderia recordar. O próprio Rushdie me contou de uma viagem a Tequila, Jalisco, que fez com Carlos Fuentes. Fez um gesto engraçado com os olhos antes de começar a história e preferiu guardá-la para si: “Acabamos muito mal”. Ele conhece a Nicarágua com perfeição, e fala de Buenos Aires com familiaridade.
    Aproveitei o momento para lhe perguntar sobre sua relação com a literatura latino-americana: Carlos Fuentes está presentíssimo em Os Filhos da Meia-Noite (1980); García Márquez é a figura totêmica que respira debaixo do decisivo Versos Satânicos (1988) e no recenteTwo Years, Eight Months and Twenty-Eight Nights (“Dois anos, oito meses e 28 noites”, em tradução literal). “Uma das coisas que sinto sobre a América Latina como lugar, mas também como casa literária, é que tem muitas semelhanças com a Índia”, disse. “Ambas são regiões que padeceram de um sistema colonial forte, em ambos os casos uma língua europeia se desenvolveu de maneira vigorosa, a religião é importantíssima, têm problemas políticos parecidos. São regiões com diferenças abismais entre ricos e pobres, e a vida no interior e na cidade é diametralmente distinta. Lembro que quando comecei a ler a literatura latino-americana tive um choque de reconhecimento. São mundos parecidos também no fato de que a literatura se desloca livremente em ambas as regiões”.
    Em todas as ocasiões em que vi Rushdie antes de poder falar com ele, me pareceu um homem poderoso, onipresente, cinético, envolvido com todo o vigor no que fazia. Durante os anos em que Rushdie foi presidente do Festival Vozes do Mundo do PEN, de Nova York, o evento passou de ser uma reunião de leitores com curiosidade sobre as literaturas estrangeiras a uma máquina que paralisa a cidade uma semana por ano. Além disso, é um homem com um perfeito treinamento midiático. Quando perguntei-lhe como via sua condenação à morte a 15 anos de ser cancelada, me respondeu com uma cortesia tão requintada quanto taxativa: “Uma das coisas boas de escrever minhas memórias foi tirar de cima esse peso, não ter que voltar a falar desses anos. Pus 600 páginas sobre a mesa: se alguém quiser falar sobre isso, que vá a essa janela”. Sabe dirigir uma conversa perfeita e gentilmente.
    Salman Rushdie. / PASCAL PERICH
    Há alguns meses, eu o vi esperando para cruzar a guarita de entrada nos Estados Unidos no aeroporto JFK, de Nova York. Estávamos os dois na triste fila de residentes no país que merecem uma segunda inspeção. São filas lentas e ele não sabia quem eu era. Portanto, pude estudá-lo com certa impunidade. Ali, sozinho e confuso, me pareceu pela primeira vez um homem já mais velho a quem pesava seguir arrastando uma maletinha esquálida e um blazer amarrotado. Talvez este perfil tenha começado a se delinear ali: ele era mais velho do que eu pensava e estava cansado, mas tinha uma vida interior muito mais vasta que a dos passageiros que o rodeavam. Não olhava para o vazio. Murmurava. Fazia pequenos gestos. Claramente, estava pensando, talvez discutindo com um interlocutor ausente.
    Rushdie é um homem que passou a vida guerreando. Por sua crítica ao Governo e à figura de Indira Gandhi em Os Filhos da Meia-Noite(Companhia das Letras) foi processado pela primeira-ministra por difamação. Recentemente, protagonizou uma polêmica brutal contra meio mundo literário de Nova York, defendendo um prêmio que a organização PEN entregou aos sobreviventes do ataque terrorista aoCharlie Hebdo. Pouco depois de ser alvo de um fatwa [decreto religioso] pelo qual o aiatolá Khomeini o condenou à morte por considerar blasfemo um episódio de Os Versos Satânicos(Companhia das Letras), sua primeira declaração numa entrevista pela TV foi: “Gostaria de ter escrito um livro muito mais crítico”.
    Essa habilidade para se meter em problemas vem de uma valentia notável: fala do que tem vontade e com enorme clareza, seja quando se refere à agenda política dos outros, ao seu próprio trabalho ou ao de seus colegas. Em nossa conversa me falou, por exemplo, sobre Roberto Bolaño: “Foi muito imprudente com García Márquez e muito grosseiro comigo, por isso já tenho preconceito contra ele.” Com essa frase, deslizou que não vai perder tempo lendo Bolaño. Sua crítica sobre outro autor que está na moda é muito mais ácida e divertida – falávamos da vitória absoluta do realismo na literatura inglesa e hispana. Disse: “Tudo está homogeneizado. Estamos ante a vitória de Knausgård, essa autoficção que consiste em contar como você lava a roupa.”
    Suspeito que Rushdie se vê como um sobrevivente, mas não pela obviedade de ter enfrentado um fatwa especialmente inflamado e persistente, mas por sua devoção a um tipo de escritor mais comprometido com a literatura que com o desenho de sua própria pessoa, mais afeito a opinar sobre assuntos políticos urgentes que a entregar um relato diminuto e primoroso. Escritor com ambições extraordinárias. Um tipo de autor que talvez já não exista, o que sai tão caro que a indústria editorial global dele prefere prescindir. Desde que a morte levou Günter Grass, Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez, Rushdie talvez se sinta um pouco sozinho – me pergunto se seria com os seus fantasmas que discutia no JFK. Fala deles e de Kundera com um respeito que não dedica a ninguém mais. Seus livros podem agradar ou não, mas não se pode dizer que ele seja irrelevante.
    “Quando eu crescia, na Inglaterra”, disse “houve uma mudança de humor e minha geração beneficiou-se disso, de uma urgência em ler coisas novas. Durante 20 anos foi assim, mas de repente algo aconteceu e voltamos ao realismo mais bobo”. Às vezes seus olhos brilham atrás das pálpebras sonolentas. Então fala o Rushdie mais profundo, o do princípio. Não o historiador britânico, nem o nova-yorkino que assiste ao beisebol de noite, e sim o menino de Mumbai que escutava, alucinado, as histórias míticas que seu pai contava. “Mas há uma coisa que aprendi com a literatura”, conclui. “É cíclica.” E sorri, como possuído por uma picardia sobrenatural, prima-irmã da dos anjos e gênios que povoam seus livros.
    Quando nos despedimos, me perguntou com muita ansiedade pela tradução de seu romance ao espanhol. Respondi que era muito boa, embora fosse um livro difícil. Assentiu, abotoando o casaco como se lá fora não fizesse o calor de 40 graus: “O estranho: quanto mais velho você fica, mais se preocupa com o momento do lançamento.” Insisti que Javier Calvo, seu novo tradutor ao espanhol, tinha feito um bom trabalho. Colocou o chapéu. “A tradução ao inglês também é bastante boa”, respondeu.

    segunda-feira, 5 de outubro de 2015

    Inteligência artificial: máquinas que pensam devem surgir 'até 2050'

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    Foto: ThinkstockImage copyrightThinkstock
    Image captionPesquisas sobre inteligência artificial avançaram a partir dos anos 1990 com nova abordagem
    Especialistas acreditam que a inteligência das máquinas se equiparará à de humanos até 2050, graças a uma nova era na sua capacidade de aprendizado.
    Computadores já estão começando a assimilar informações a partir de dados coletados, da mesma forma que crianças aprendem com o mundo ao seu redor.
    Isso significa que estamos criando máquinas que podem ensinar a si mesmas a participar de jogos de computador – e ser muito boas neles – e também a se comunicar simulando a fala humana, como acontece com os smartphones e seus sistemas de assistentes virtuais.
    Fei-Fei Li, professora da Universidade de Stanford e diretora do laboratório de visão computacional da instituição, passou os últimos 15 anos ensinando computadores a enxergar.
    Seu objetivo é criar olhos eletrônicos para robôs e máquinas e torná-los capazes de entender o ambiente em que estão.
    Metade da capacidade cerebral de um humano é usada no processamento visual, algo que fazemos sem um grande esforço aparente.
    "Ninguém diz para uma criança como enxergar. Ela aprende isso por meio de experiências e exemplos do mundo real", disse Li em sua palestra na conferência TED neste ano.
    "Se você pensar, os olhos de uma criança são como um par de câmeras biológicas que tiram fotografias a cada 200 milissegundos, o tempo médio dos movimentos oculares. Então, aos 3 anos de idade, uma criança teria centenas de milhões de fotos. Isso é um grande treinamento."
    Ela decidiu ensinar computadores da mesma forma. "Em vez de só me concentrar em criar em algoritmos cada vez melhores, minha ideia é dar aos algoritmos o treinamento que crianças recebem por meio de experiências, quantitativamente e qualitativamente."

    Treinamento

    Foto: TEDImage copyrightTED
    Image captionCientista de Stanford, Fei-Fei Li busca ensinar máquinas como enxergar
    Em 2007, Li e um colega de profissão deram início a uma tarefa desafiadora: filtrar e identificar 1 bilhão de imagens obtidas na internet para que sirvam de exemplos do que é o mundo real para um computador.
    Eles pensavam que, se uma máquina visse imagens suficientes de uma determinada coisa, como um gato, por exemplo, seria capaz de reconhecer isso na vida real.
    Eles pediram ajuda em plataformas de colaboração online e contaram com o apoio de 50 mil pessoas de 167 países. No fim, tinham a ImageNet, uma base dados de 15 milhões de imagens relativas a 22 mil tipos de objetos, organizada de acordo com seus nomes em inglês.
    Isso se tornou um recurso valioso usado por cientistas ao redor do mundo que buscam conferir aos computadores uma forma de visão.
    Todos os anos, a Universidade de Stanford realiza uma competição, convidando empresas como Google, Microsoft e a chinesa Baidu, para testar a performance de seus sistemas com base na ImageNet.
    Nos últimos anos, estes sistemas tornaram-se especialmente bons em reconhecer imagens, com uma margem de erro média de 5%.
    Para ensinar computadores a reconhecer imagens, Li e sua equipe usaram redes neurais, nome dado a programas de computadores feitos a partir de células artificiais que funcionam de forma muito semelhante à de um cérebro humano.
    Uma rede neural dedicada a interpretar imagens pode ter desde algumas centenas a até milhões destes neurônios artificiais, dispostos em camadas.
    Cada camada reconhece diferentes elementos de uma imagem. Uma aprende que uma imagem é feita de pixels. Outra reconhece cores. Uma terceira determina seu formato e assim por diante.
    Ao chegar à camada superior – e as redes neurais hoje têm até 30 camadas –, esta rede é capaz de ter uma boa noção do que se trata a imagem.
    Foto: StanfordImage copyrightUniversidade de Stanford
    Image captionPesquisa em Stanford criou programa capaz de identificar imagens com grande precisão
    Em Stanford, uma máquina assim agora escreve legendas precisas para vários tipos de imagens, apesar de ainda cometer erros, como, por exemplo, dizer que uma foto de um bebê segurando uma escova de dente foi identificada como "um menino segurando um taco de beisebol".
    Apesar de uma década de trabalho duro, disse Li, esta máquina ainda tem a inteligência de uma criança de 3 anos. E, ao contrário desta criança, ela não é capaz de compreender contextos.
    "Até agora, ensinamos um computador a ver objetivamente ou a nos contar uma história simples quando vê uma imagem", afirmou Li.
    Mas, quando pede para que a máquina avalie uma imagem de seu filho em uma festa de família, o computador simplesmente diz se tratar de um "menino de pé ao lado de um bolo".
    "O computador não vê que é um bolo especial que é servido apenas na época da Páscoa", explicou Li.
    Este é o próximo passo de sua pesquisa no laboratório: fazer com que máquinas entendam uma cena por completo, além de comportamentos humanos e as relações entre diferentes objetos.
    A meta final é criar robôs que "enxergam" para que auxiliem em cirurgias, buscas e resgates e que, no fim das contas, promovam melhorias em nossas vidas, segundo Li.

    Progresso

    Foto: APImage copyrightAP
    Image captionNos anos 1950, Alan Turing já especulava sobre máquinas pensantes
    O complexo trabalho realizado em Stanford tem como base o lento progresso obtido nesta área nos últimos 60 anos.
    Em 1950, o cientista da computação britânico Alan Turing já especulava sobre o surgimento de uma máquina pensante, e o termo "inteligência artificial" foi cunhado em 1956 pelo cientista John McCarthy.
    Após alguns avanços significativos nos anos 1950 e 1960, quando foram criados laboratórios de inteligência artificial em Stanford e no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês), ficou claro que a tarefa de criar uma máquina assim seria mais difícil do que se pensava.
    Veio então o chamado "inverno da inteligência artificial", um período sem grandes descobertas nesta área e com uma forte redução no financiamento de suas pesquisas.
    Mas, nos anos 1990, a comunidade dedicada à inteligência artificial deixou de lado uma abordagem baseada na lógica, que envolvia criar regras para orientar um computador como agir, para uma abordagem estatística, usando bases de dados e pedindo para a máquina analisá-los e resolver problemas por conta própria.
    Foto: SPLImage copyrightScience Photo Library
    Image captionCientistas estão ensinando máquinas a como agir como humanos
    Nos anos 2000, um processamento de dados mais veloz e a grande oferta de dados criaram um ponto de inflexão para a inteligência artificial, fazendo com que esta tecnologia esteja presenta em muitos dos serviços que usamos hoje.
    Ela permite que a Amazon recomende livros, o Netflix indique filmes e o Google ofereça resultados de buscas mais relevantes. Algoritmos passaram a estarem presentes nas negociações feitas em Wall Street, indo às vezes longe demais, como em 2010, quando um algoritmo foi apontado como culpado por uma perda de bilhões de dólares na Bolsa Nova York.
    Também serviu de base para os assistentes virtuais de smartphones, como a Siri, da Apple, o Now, do Google, e a Cortana, da Microsoft.
    Neste momento, máquinas assim estão aprendendo em vez de pensar. É alvo de controvérsia se é possível programar uma máquina para pensar, já que a complexa natureza do pensamento humano tem intrigado cientistas e filósofos há séculos.
    E ainda assim restarão elementos da mente humana, como sonhar acordado, por exemplo, que máquinas nunca serão capazes de replicar.
    Ainda assim, a habilidade destes computadores vem melhorando, e a maioria das pessoas concorda que a inteligência artificial está entrando em sua era de ouro e só se tornará mais eficiente aqui daqui em diante.

    sábado, 3 de outubro de 2015

    Nove momentos que determinam sua identidade antes mesmo de você nascer

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    Image copyrightSPL
    Image captionDe uma a um trilhão de células em nove meses
    Da BBC Brasil
    Mesmo antes de você respirar pela primeira vez, muito da sua aparência e dos seus comportamentos instintivos já estão formados.
    A maneira como você passa os nove meses se desenvolvendo de uma célula microscópica para um bebê humano influenciou no que você é hoje. Veja abaixo nove momentos decisivos nesse processo:
    Dia zero - O começo
    Um entre 250 milhões dos espermatozoides de seu pai conseguiu navegar por uma perigosa jornada para alcançar o óvulo de sua mãe, dando início ao processo que te formou.
    A "planta" do projeto que resultaria na sua pessoa já estava decidida desde a primeira célula. A célula vencedora define o seu gênero. Se ela contivesse um cromossomo X, você seria mulher. Se fosse um Y, homem.
    O espermatozoide e o óvulo, combinados, também criam uma novíssima coleção de genes.
    Os efeitos desses genes foram se desenvolvendo ao longo de nove meses para criar um ser humano novo e único, você.

    Seis dias – Você sobreviveu ao primeiro round

    Aos seis dias de idade, quando você era apenas um amontoado de células, você passou por um teste crucial.
    Image captionCombinados, o esperma e o óvulo criam uma novíssima e única coleção de genes
    Já no útero da sua mãe, para continuar a se desenvolver, você precisava se implantar na mucosa que recobre a face interna do útero. Mas mães são exigentes – um embrião precisa ser saudável para valer a pena ser nutrido pelos próximos nove meses.
    Cerca de dois terços dos embriões falham nesse estágio ou logo em seguida, e se perdem – muitas vezes antes de suas mães saberem que ele existiu.
    No seu caso, suas células liberaram sinais químicos que mostraram que você estava se desenvolvendo bem. E você foi ancorado no útero de sua mãe.

    Quatro semanas - A formação do rosto

    O formato de seu corpo, seus membros e suas feições mais reconhecíveis estão sendo formadas.
    Nos próximas semanas, o seu rosto se forma à medida que 14 estruturas diferentes se juntam para formar a base de intrincadas camadas de tecido.
    Faces humanas têm a mesma estrutura, mas nenhuma é exatamente igual a outra. Cientistas acreditam que possa haver centenas de mudanças no seu DNA que, sutilmente, formam as suas feições.

    11 semanas - Destro ou canhoto?

    Você começa a mexer seus membros na fase das 11 semanas. E começa também a dar preferência a um lado em detrimento do outro. Pode começar, por exemplo, a esticar um braço mais que o outro ou a sugar um dedo específico.
    Image copyrightAP
    Image captionPor volta da 11ª semana, começa a ser definido se você será destro ou canhoto
    Nove de 10 fetos se tornam destros - e um em 10 escolhe o lado esquerdo. Menos de 1% é ambidestro, ou seja, usa confortavelmente os dois lados. Sua opção também está ligada, claro, aos seus genes.

    12 semanas - Impressão digital: uma em 7 bilhões

    À medida que você continua a se mover no útero, protegido pelo líquido amniótico, outro traços únicos estão se formando.
    As camadas de pele em volta dos dedos começa a enrugar, empurrando o líquido ao redor. Essa interação ajuda a moldar uma combinação única de arcos, espirais e loops da sua impressão digital.
    Mesmo gêmeos idênticos têm impressões digitais levemente diferentes.
    No final de 17 semanas, você tem um conjunto de 10 impressões digitais que vão te diferenciar das outras sete bilhões de pessoas no mundo.

    14 semanas - Sistema imunológico e afinidade com outras pessoas

    Com o seu corpo tomando forma, você também vai desenvolvendo um sistema imunológico único.
    Com 14 semanas, você produz o chamado antígeno leucocitário humano (HLA, na sigla em inglês), que ajuda o seu sistema imune a reconhecer bactérias e vírus.
    Image copyrightThinkstock
    Image captionSistema imunológico desenvolvido antes do nascimento influencia o 'cheiro' que cada pessoa tem
    Existem milhares de combinações possíveis de HLAs - que foram herdados de seus pais. Uma teoria sugere que as proteínas HLA podem mudar seu aroma para outros adultos e que nós escolhemos um parceiro sexual com uma composição muito diferente de HLA, ou seja, de cheiro diferente.
    Portanto, o seu sistema imunológico desenvolvido antes do nascimento pode ter alguns efeitos surpreendentes na vida adulta.
    15 semanas - O quanto o seu cérebro é masculino?
    Nesse estágio, você já tem genitália masculina ou feminina, definida por uma dose de testosterona na oitava semana. Agora, uma segunda dose ajuda a formar seu cérebro.
    Um feto masculino recebe uma grande carga de testosterona, criada em seu testículo. Já o feto feminino recebe uma dose bem menor, vinda da glândula suprarrenal.
    Assim, aspectos da sua personalidade são conectados ao seu cérebro.
    Exposição a altos níveis de testosterona pode contribuir a um comportamento "mais masculino", como assumir riscos.

    28 semanas - Vendo o mundo do seu jeito

    Vocês está quase pronto para ver o mundo pela primeira vez. Dois olhos munidos com sensores de cor são formados, com pigmentos que podem detectar as ondas que uma luz produz, criando cores.
    A maior parte das pessoas pode diferenciar 10 milhões de cores. Mas 8% dos homens e 0,5% das mulheres nascem com algum grau de daltonismo.

    37 semanas - Contagem regressiva para o nascimento

    Em nove meses, você cresceu de uma célula para um trilhão ou mais. Seu tamanho ao nascer depende de fatores como gênero, raça ou genética.
    Mas fatores externos como a dieta da mãe, níveis de estresse e se ela é fumante ou não também influenciam.
    Uma teoria que vem ganhando cada vez mais força é a de que o ambiente no útero pode alterar marcadores químicos no DNA, que controlam como os genes são ativados à medida que crescemos.
    Há evidências de que seu peso ao nascer pode impactar aspectos da sua vida adulta, como índice de massa corporal e risco de diabetes.

    sexta-feira, 2 de outubro de 2015

    O discurso de Viola Davis ao receber um Prêmio Emmy histórico

    "A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade"

    Viola Davis foi a primeira negra a receber um Emmy na categoria de Melhor Atriz em drama

    ÁLVARO P. RUIZ DE ELVIRA, no El País
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  • Viola Davis exibe seu Emmy após a premiação. / MIKE BLAKE (REUTERS)
    Entre os melhores momentos da cerimônia de entrega dos Emmy deste ano, o discurso de Viola Davis, a primeira intérprete negra a ganhar um prêmio Emmy na categoria de Melhor Atriz em drama, está entre aqueles que entraram para a história. O prêmio foi resultado de sua atuação na série How to Get Away with Murder, ficção produzida por Shonda Rhimes.
    "A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade", disse Davis, emocionada. A primeira atriz negra a ser nomeada (durante quatro anos consecutivos) para esse prêmio foi Debbie Allen, por Fame,em 1982. Depois dela vieram Alfre Woodard, Cicely Tyson, Regina Taylor, Kerry Washington e, também este ano, Taraji P. Henson.
    Assista ao discurso emocionado de Davis:

    quinta-feira, 1 de outubro de 2015

    Por que músicas ‘tocam’ nossas emoções?

    Image copyrightThinkstock
    Image captionImpacto da música sobre nossos sentimentos intrigou o 'pai da teoria evolutiva', Charles Darwin
    Quem nunca sentiu uma canção brincando de marionete com seu coração? Seja a sensação de euforia em uma festa ou o choro solitário durante uma balada melancólica, a música pode nos partir ao meio, fazendo emoções aflorarem de maneira mais eloquente do que gestos ou palavras.
    Mas os motivos para isso não são nada óbvios. Até mesmo o pai da teoria da evolução, Charles Darwin, se dizia perplexo diante de nossa aptidão musical. Para ele, tratava-se de uma "das mais misteriosas habilidades do ser humano".
    Alguns pensadores, como o cientista cognitivo Steven Pinker, já chegaram a questionar se essa capacidade teria algum valor fisiológico. Na visão dele, gostamos de música porque ela agrada algumas das faculdades mais importantes de nosso cérebro, como o reconhecimento de padrões. Mas, sozinha, ela nada mais é do que "um bálsamo para os ouvidos".
    Mas se isso fosse verdade, todos nós estaríamos perdendo um tempo enorme com essa atividade. Se você acha que é obcecado por música, precisa conhecer o povo BaBinga, da África Central, que tem canções e danças elaboradas para praticamente todas as suas atividades diárias – de recolher mel a caçar elefantes.
    Sedução e comunicação
    Image copyrightThinkstock
    Image captionEstudos científicos demonstram papel agregador e altruísta da música
    Por isso, muita gente custa a acreditar que a música não tenha sido mais do que uma trilha sonora incidental para a evolução humana.
    Felizmente, há outras teorias sobre o assunto. Uma das ideias mais populares na Ciência é de que a música teria surgido da "seleção sexual": ela seria uma espécie de exibição sensual que faria um indivíduo se destacar dos rivais no acasalamento.
    Mas há poucas evidências disso. Um estudo realizado pela Universidade Karolinska, na Suécia, com 10 mil gêmeos, não conseguiu provar que músicos sejam particularmente sortudos no sexo (talvez Mick Jagger e Harry Styles discordem).
    Outros cientistas levantaram a hipótese de que a música teria surgido como uma forma primitiva de comunicação. Pesquisadores da Universidade do Wisconsin, nos Estados Unidos, estabeleceram que certos temas musicais podem, de fato, carregar algumas das marcas registradas de apelos emocionais de nossos antepassados. O som de um staccato ascendente tende a nos colocar em alerta, enquanto tons longos e descendentes parecem ter um efeito calmante – só para ficarmos em dois exemplos.
    Esses padrões sonoros parecem ter um sentido universal para adultos de diferentes culturas, crianças pequenas e até outros animais.
    Portanto, talvez a música tenha sido calcada em associações feitas com os sons emitidos pelos animais, ajudando-nos a expressar nossos sentimentos antes de termos as palavras. Seria uma forma de "protolíngua", que poderia ter aberto caminho para a fala.
    Amálgama social
    Além disso, a música pode ter ajudado a moldar as sociedades humanas quando começamos a viver em grupos cada vez maiores. Dançar e cantar juntos parece ajudar os agrupamentos a serem mais altruístas e a terem uma identidade coletiva mais forte.
    De acordo com uma pesquisa inovadora na área de neurociência, realizada na Grã-Bretanha, quando você se move em sincronia com outra pessoa, seu cérebro começa a criar uma névoa na sua percepção de si mesmo. Você passa a pensar que os outros se parecem mais com você e compartilham das suas opiniões. E a melhor maneira de fazer as pessoas se moverem juntas é com música.
    Apesar de aumentar seu impacto, a participação ativa na música não é absolutamente necessária para sentir seus benefícios. Simplesmente ouvir uma canção que produza um "frisson musical" pode aumentar o altruísmo.
    Com mais solidariedade e menos disputas internas, um grupo pode ficar melhor equipado para sobreviver e se reproduzir. E isso talvez seja melhor ilustrado pela musicalização dos BaBinga.
    Mas o papel da música como um amálgama social também pode ser visto nas canções entoadas por escravos quando trabalhavam, por marinheiros e seus cânticos de navegação e por soldados e suas marchas.
    A música realmente tem um poder de união. E, ao tomar um lugar tão importante em nossas relações, parece lógico que ela também mexa com nosso coração, nos ajudando a criar uma conexão emocional.
    Cada cultura depois pode desenvolver esse instinto rudimentar à sua maneira, criando seu próprio léxico de acordes e melodias, relacionados a sentimentos específicos.
    Hoje não conseguimos imaginar a música sem que ela esteja associada a alguns dos acontecimentos mais importantes de nossas vidas. Temos uma trilha sonora do momento da concepção até o funeral, e as melodias cercam tudo entre uma coisa e outra.
    Não é de espantar, portanto, que todos nós mergulhemos em um coquetel de sentimentos e memórias toda vez que ouvimos nossas canções favoritas.