Era uma vez uma menina invisível. O condomínio de luxo no setor nobre de Goiânia não via seus hematomas. A Escola Militar não enxergava o seu sofrimento. O Conselho Tutelar nada podia fazer para ajudá-la. Não tinha amigos nem família para protegê-la.
Seu nome era L. e engrossa a estatística das crianças brasileiras, que em rotina semelhante à escravidão, realizam os afazeres domésticos em troca de casa e comida. São crianças invisíveis, que no ambiente privado dos lares, fazem com que o trabalho infantil seja um fenômeno quase despercebido. A pobreza e o fator cultural são elementos que determinam que as próprias famílias das vítimas aceitem esta condição. Segundo o IBGE, em Goiás, são 70 mil crianças e adolescentes nesta mesma situação e a violência física e psicológica acontecem na maioria dos casos.
Mas a história de L. é muito mais grave. Durante dois anos, foi mantida em uma rede perversa e criminosa que envolvia sua patroa e a empregada da casa que a torturavam, diariamente, com requinte de extrema crueldade. O patrão e seu filho faziam de conta que não percebiam o cenário de horror. Estes, juntamente com a mãe biológica de L. , se omitiram todo o tempo. A menina continuava invisível.
Esta história chocou o Estado, o País, o mundo. Afinal, qual a justiça para um caso como este?
Portanto, para refletir sobre a infância de nossas crianças que está sendo roubada por criminosos travestidos de bem-feitores, é que estamos apresentando dois textos para sua análise.
O primeiro é um poema do professor e teatrólogo Antônio Carlos dos Santos, sobre as Calabresis infiltradas em nossos lares e corações.
O segundo é do escritor Francisco Perna Filho, mestre em Estudos Literários, sobre a dor e o silêncio dos inocentes que continuam sendo torturados.
Edmar José Carneiro
Diretor de Comunicação - UEG
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O mundo nao será das Calabresis ou Uma oração para canalhas
Saturno, que engolia os próprios filhos, como no quadro de Goya -1746-1826)
Meus queridos leitores, quem suportaria de forma impassível ou indiferente às barbáries perpetradas por Silvia Calabresi et alli? Por muito tempo manteve crianças num cárcere hediondo, mas agora começa a provar do próprio veneno. No poema abaixo escrevo que o sol sempre brilhará para todos, apesar das canalhas e patifes:
Quantas Calabresis não se encontram escondidas, disfarçadas, infiltradas, dissimuladas, em nossos lares e corações?
Vês, na obra de Goya, Saturno devorando o próprio filho?
Simulas indignação, desprezo, repulsa?
Como não tivesses incrustadas nos recônditos de tu’alma as palavras de Machado:
“O cinismo é a sinceridade dos patifes”.
Extorques e acusas o outro... Cretina!
Roubas e o ladrão é o outro... Mesquinha!
Corrompes e quem é canalha senão o outro? Torpe e soturna!
Liquidas, exterminas, assassinas e eis que sentencias o outro.
Urdes, engendras e conspiras contra a pátria e o outro é o traidor.
Em que te diferes de Saturno?
Não és tu a insana canibal a acusar o outro de sê-lo?
Quantos filhos devoraste impiedosamente enquanto acusavas o outro
do infanticídio, do aborto?
Em que te diferes de Saturno, mulher?
Não és tu que corrompes de maneira vil e torpe a verdade e cultuas satanicamente
a mentira, ao tempo em que propagas ao mundo que corrupto e mentiroso é o outro?
Não cultuaste tão diligentemente a Cannabis sativa – a que apelidaras “doce marijuana” – para agora avançares sobre o outro acusando-o de viciado, peçonhento, maconheiro?
Devoras o fruto de teu ventre e acusas Saturno?
Promoves a intriga e apontas o dedo para o primeiro que vislumbras?
Ensinas a covardia e abusas da mais tenra e amada criança ¬–
e quem assediou acabou de fugir?
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos –
e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro?
Tua fantasia doce, angelical, cândida e inofensiva – tecida para embair o mundo –
desmoronou... e vestes ‘coitadinha’, calças ‘sofridinha’, maquilas ‘vitimismo’.
Já não podes posar de cavaleira impoluta.
Praticas aos olhos do mundo o adultério –
e, doidivanas, acusas todos os homens de cometê-lo?
Jamais relutaste em atirar a primeira, a segunda e a terceira pedra.
Jamais renunciaste às tuas prioridades absolutas:
Tu sempre em primeiro lugar
Tu sempre em segundo lugar
Tu sempre em terceiro lugar
És Judas, o Iscariotes, e te queres Santa Joana d’Arc.
És Joaquim Silvério dos Reis, o coronel venal, e te queres Tiradentes.
És Calabar e te queres Maria Quitéria.
“Acuse-os sempre de fazer o que você faz” é teu lema, teu jargão, teu valor mais
nobre e soberano.
Não, mulher, tu não consegues mais surpreender qualquer homem de bem.
Como não recordar Nietzsche: “Todo homem vai se tornando aquilo que é”?
E Terêncio: “Sou homem. Nada do que é humano me é estranho”?
Não declares que no mundo só existem traficantes, suicidas e latrocidas
por teres reduzido teu universo a uma sórdida, nefasta e insalubre masmorra.
Não declares o fim da bondade, da humildade e do altruísmo
porque integras a súcia, a récua, a farândola, a caterva das máfias e quadrilhas dos malfeitores lobos do homem...
Lobos ferozes e insanos em pele de cordeiro.
Queres conduzir todas as batalhas – quem hoje não sabe? – para a lama fétida
onde fermenta o pior do excremento humano.
Saibas, urge que compreendas: o mundo pulsa, a vida lateja – vigorosa, voluptuosa,
graciosa – de homens e mulheres dignos, éticos, honestos.
Fervilha, em cada casa, em cada rua, em cada esquina,
uma multidão de anjos guerreiros, nobres paladinos da justiça.
Milhões e milhões de sábios valentes que diuturnamente pelejam
para resgatar o mundo de patifes, canalhas e cafajestes como tu,
que desdenham e odeiam a verdade,
que veneram e cultuam a mentira,
que idolatram e tecem loas à traição e à ignomínia.
O mundo, mulher, não duvides, foi, é, e será sempre dos bons, dos justos, dos simples!
Como não orar para que canalhas e patifes percebam que o sol não morreu
tão-somente porque o horizonte encontra-se crispado de nuvens densas
e sombriamente carregadas?
Não, mulher, para glória de Deus e dos homens,
Tu não mataste o sol.
O mundo não será das Calabresis!
O universo regozija-se, pois que dá de ombros ao jogo nauseabundo
das Calabresis!
Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
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A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar
Moinho de homens que nem girimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais
(Raimundo Sodré)
O Silêncio dos Inocentes
Por Francisco Perna Filho
Uma das coisas mais abjetas praticadas pelo ser humano é a tortura, seja ela física ou psicológica. Ato desumano, covarde, perverso e indigno. Atenta contra o que há de mais caro ao ser humano, sua liberdade.
Pelo menos é praxe na história universal que a torturas atendam a fins vários, mas, primordialmente, o que se sobressai é a de retirar do torturado confissões sobre algo que ele sabe ou que supostamente poderia saber sobre pequenos delitos ou sobre crimes mais graves.
Os métodos são vários, utilizados desde muito pela humanidade, como o fez a igreja Católica naquilo a que chamou de santa inquisição - na Idade Média - quando utilizou toda forma de aparelhos de tortura, como alicates, tesouras, garras metálicas para destroçar seios e mutilar órgãos genitais, barras de ferro aquecidas e chicotes. Os métodos eram vários, o que importava era a eficácia para obter informações sobre bruxaria, satanismo e outras loucuras inimagináveis. Tudo em nome de um deus que não era o nosso.
Há notícias de que o padre dominicano Bernardo Guy (Bernardus Guidonis, 1261-1331) escreveu o livro Liber Sententiarum Inquisitionis (Livro das Sentenças da Inquisição) no qual descreve vários métodos utilizados para obter confissões dos acusados, tanto físicos como psicológicos, dentre os quais o de obrigar a vítima a ingerir urina e excrementos.
Se na Idade Média as práticas beiravam ao rudimentar, na modernidade ganharam sofisticação, como as câmaras de gás ou os campos de concentração, criados pela bestial figura de Adolf Hitler. Nas ditaduras espalhadas pelo mundo, milhares de pessoas sucumbiram nas mãos carniceiras de hediondas figuras. No nosso País não foi diferente, milhares de estudantes, pais e mães de família foram maltratados, torturados e mortos em nome de um regime de exceção.
Dos métodos utilizados pelos torturadores brasileiros, alguns chocaram e ainda chocam a todos, como seguem: Choque elétrico, Pau-de-arara, Cadeira de dragão, Afogamento, Telefone, Palmatória, Espancamento, Esbofeteamento, Empalamento, Queimadura com cigarros, Geladeira, Mordida de cachorro, Coroa de Cristo, Violação sexual, Arrancamento de dentes, Injeções de éter subcutâneas, Arrancamento de unhas, Soro da “verdade” (Pentotal), Fuzilamento simulado, Ameaça de morte (à própria pessoa, filhos, companheiros etc), Assistir à tortura de companheiros, Aplicar torturas em companheiros, Desorganização temporo-espacial.*
Como se vê, a bestialidade humana se supera a cada tempo, às vezes nos pega de surpresa, nos deixando estarrecidos, como foi o caso da menina L. de 12 anos, torturada aqui em Goiânia pela “empresária” Sílvia Calabresi, 42, que, sem sombras de dúvidas, conhecia muito bem os métodos medievais de tortura descritos acima. O que choca, além do ato covarde da tortura, é a frágil figura torturada, sozinha, indefesa, obrigada a toda forma de humilhação e dor.
O que choca é saber dos gritos silenciosos desta criança, das dores da alma que persistirão por toda vida. O que choca é a indiferença de tantas pessoas à dor desse ser tão fragilizado. Oh, Deus! Pelo menos o que se tem lido sobre tortura é que os torturadores buscam, a qualquer preço, a confissão de suas vítimas, confissão de algum delito, de alguma trama. E dessa pobre criancinha, que confissão ela buscava obter?
Fora brutalmente maltratada, alijada do que se tem de mais caro, o direito à infância e à liberdade. Não estudava, passava dias sem comer, trabalhava até 1h40 da madrugada, retomando o trabalho doméstico às 5h. Viveu todo tipo de humilhação, inclusive métodos medievais, como ingerir fezes e urina de cachorro. Era constantemente amarrada, queimada com ferro elétrico, tinha as unhas mutiladas, a língua mutilada, era amordaçada, sendo obrigada a ficar por horas com um pano, dentro da boca, embebido por pimenta, a mesma que lhe era aplicada nos olhos.
Como deve ter sofrido esta menininha, meu Deus. Como deve ter clamado por socorro, silenciosamente. Uma coisa me chamou atenção, o paradoxo do ato: ao mesmo tempo em que torturava, que buscava não sei que tipo de confissão, tapava a boca da menina, não permitindo que ela falasse. Arrancava-lhe pedaços da língua. Por pouco não tivemos mais um serial killer, pela forma como vinha agindo, consciente dos seus atos, já havia torturado outras crianças, agora era só intensificar as sessões de tortura, até não se contentar mais com a dor física, buscando a morte.
Transtorno? Transtornados ficamos nós, ao assistirmos boquiabertos ao sadismo dessa besta, dessa psicopata, que, ajudada pela empregada doméstica, Vanice Maria Novaes, 23, cometera tamanha brutalidade. O que impressiona é que a empregada doméstica em vez de defender a criança das atrocidades da patroa, age contrariamente, e também passa a torturar a sua igual, o que nos remete a Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, no Capítulo LXVIII / O Vergalho , quando um ex-escravo, Prudêncio, açoita outro em praça pública e, questionado pelo antigo patrão sobre o porquê daquele ato, recebe com resposta: “É um vadio e um bêbado”, a essa fala, segue a seguinte reflexão de Brás Cubas:
(...)Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as subtilezas do maroto!(...)
Recorremos à ficção na tentativa de uma compreensão do real, mas não há compreensão quando os casos se multiplicam, como os maus tratos do aposentado Ovídio Martinelli, de 93 anos, que sofre do mal de Alzheimer, e foi espancado pelas suas “cuidadoras” Rosângela Pereira Coutinho, de 44 anos, e Patrícia Santos Alves, de 25. Cenas chocantes que nos deixam indignados, estarrecidos, sofridos, principalmente quando são cometidas contra seres tão frágeis e indefesos e, por se saber que os atos não são praticados por estranhos, mas por pessoas tão próximas, que ainda ousamos chamar de próximos e sempre oferecemos a outra face.
O título deste texto foi tomado de empréstimo ao filme (Silence of The Lambs, The, 1991), dirigido por Jonathan Demme.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
A menina invisível
sexta-feira, 4 de abril de 2008
O mundo não será das Calabresis ou Uma oração para canalhas
Saturno, que engolia os próprios filhos, como no quadro de Goya -1746-1826)Meus queridos leitores, quem suportaria de forma impassível ou indiferente às barbáries perpetradas por Silvia Calabresi et alli? Por muito tempo manteve crianças num cárcere hediondo, mas agora começa a provar do próprio veneno. No poema abaixo escrevo que o sol sempre brilhará para todos, apesar das canalhas e patifes:
Quantas Calabresis não se encontram escondidas, disfarçadas, infiltradas, dissimuladas, em nossos lares e corações?
Vês, na obra de Goya, Saturno devorando o próprio filho?
Simulas indignação, desprezo, repulsa?
Como não tivesses incrustadas nos recônditos de tu’alma as palavras de Machado:
“O cinismo é a sinceridade dos patifes”.
Extorques e acusas o outro... Cretina!
Roubas e o ladrão é o outro... Mesquinha!
Corrompes e quem é canalha senão o outro? Torpe e soturna!
Liquidas, exterminas, assassinas e eis que sentencias o outro.
Urdes, engendras e conspiras contra a pátria e o outro é o traidor.
Em que te diferes de Saturno?
Não és tu a insana canibal a acusar o outro de sê-lo?
Quantos filhos devoraste impiedosamente enquanto acusavas o outro
do infanticídio, do aborto?
Em que te diferes de Saturno, mulher?
Não és tu que corrompes de maneira vil e torpe a verdade e cultuas satanicamente
a mentira, ao tempo em que propagas ao mundo que corrupto e mentiroso é o outro?
Não cultuaste tão diligentemente a Cannabis sativa – a que apelidaras “doce marijuana” – para agora avançares sobre o outro acusando-o de viciado, peçonhento, maconheiro?
Devoras o fruto de teu ventre e acusas Saturno?
Promoves a intriga e apontas o dedo para o primeiro que vislumbras?
Ensinas a covardia e abusas da mais tenra e amada criança ¬–
e quem assediou acabou de fugir?
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos –e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro?
Tua fantasia doce, angelical, cândida e inofensiva – tecida para embair o mundo –
desmoronou... e vestes ‘coitadinha’, calças ‘sofridinha’, maquilas ‘vitimismo’.
Já não podes posar de cavaleira impoluta.
Praticas aos olhos do mundo o adultério –
e, doidivanas, acusas todos os homens de cometê-lo?
Jamais relutaste em atirar a primeira, a segunda e a terceira pedra.
Jamais renunciaste às tuas prioridades absolutas:
Tu sempre em primeiro lugar
Tu sempre em segundo lugar
Tu sempre em terceiro lugar
És Judas, o Iscariotes, e te queres Santa Joana d’Arc.
És Joaquim Silvério dos Reis, o coronel venal, e te queres Tiradentes.
És Calabar e te queres Maria Quitéria.
“Acuse-os sempre de fazer o que você faz” é teu lema, teu jargão, teu valor mais
nobre e soberano.
Não, mulher, tu não consegues mais surpreender qualquer homem de bem.
Como não recordar Nietzsche: “Todo homem vai se tornando aquilo que é”?
E Terêncio: “Sou homem. Nada do que é humano me é estranho”?
Não declares que no mundo só existem traficantes, suicidas e latrocidas
por teres reduzido teu universo a uma sórdida, nefasta e insalubre masmorra.
Não declares o fim da bondade, da humildade e do altruísmo
porque integras a súcia, a récua, a farândola, a caterva das máfias e quadrilhas dos malfeitores lobos do homem...
Lobos ferozes e insanos em pele de cordeiro.
Queres conduzir todas as batalhas – quem hoje não sabe? – para a lama fétida
onde fermenta o pior do excremento humano.
Saibas, urge que compreendas: o mundo pulsa, a vida lateja – vigorosa, voluptuosa,
graciosa – de homens e mulheres dignos, éticos, honestos.
Fervilha, em cada casa, em cada rua, em cada esquina,uma multidão de anjos guerreiros, nobres paladinos da justiça.
Milhões e milhões de sábios valentes que diuturnamente pelejam
para resgatar o mundo de patifes, canalhas e cafajestes como tu,
que desdenham e odeiam a verdade,
que veneram e cultuam a mentira,
que idolatram e tecem loas à traição e à ignomínia.
O mundo, mulher, não duvides, foi, é, e será sempre dos bons, dos justos, dos simples!
Como não orar para que canalhas e patifes percebam que o sol não morreu
tão-somente porque o horizonte encontra-se crispado de nuvens densas
e sombriamente carregadas?
Não, mulher, para glória de Deus e dos homens,
Tu não mataste o sol.
O mundo não será das Calabresis!
O universo regozija-se, pois que dá de ombros ao jogo nauseabundo
das Calabresis!
Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
quarta-feira, 2 de abril de 2008
“U danado du trem vai ficá bão dimais, sô!”
Pouco tempo atrás a discussão que galvanizava a opinião pública era a fome iminente, o caos e a insegurança alimentar que arrastaria o planeta para guerras de extermínio, para conflitos catastróficos.
Em decorrência da tragédia anunciada imediatamente foi criada uma poderosa indústria que gerou concorrência na produção acadêmica e intelectual, alavancou estrondosos lucros na prestação de serviços – sobretudo de consultoria - na esfera editorial, nos empréstimos intergovernamentais e no âmbito das agências de fomento ao desenvolvimento.
O tempo passou e, um ajustinho aqui, outro acolá (noves fora, nada!) e o prenúncio da catástrofe mostrou-se, no dizer da gente simples, efêmero ‘risco n’água’. O aporte de tecnologia concentrada levou à multiplicação da produção, em que pese a área plantada ter se mantido praticamente inalterada. E ao contrário dos prognósticos alarmistas, a produção aumentou, barateando o preço dos alimentos nas gôndolas dos supermercados e nos balcões dos armazéns e empórios da periferia.
Os que pregaram o final dos tempos quietaram-se por algum tempo, mas só o estritamente necessário para que a memória curta do povo os resgatasse da obscuridade.
E como o processo é cíclico, assombração é o que não falta nos dias de hoje. Alguns acalentam o canto da carochinha da Amazônia. Em um ato ela é objeto de cobiça do tio Sam (ah, sempre o tio Sam!) que, inclusive, já a teria extirpado do mapa brasileiro. Em outro ato estaria reduzida a um deserto similar ao Saara africano, em exatos quarenta anos, contados minutos, segundos e milésimos de segundos. Mas existem também, em profusão, os que entoam cantigas alarmistas quanto à completa extinção da água potável no planeta, e outros, ainda, que concentram baterias e protestos denunciando o aquecimento solar que ‘levará ao derretimento das calotas polares, à inundação das terras litorâneas, ciclones, maremotos, tornados’ e o escambau a quatro.
É meu estimado leitor, apregoadores de desgraças e profetas do apocalipse jamais faltaram na longa trajetória que a humanidade teve que purgar para romper o século XXI. E como fazem sucesso, com que facilidade amealham seguidores, fiéis servis e obstinados...
Na ordem do dia a produção do álcool, o combustível limpo, em substituição aos derivados do petróleo, o combustível sujo. A nova tecnologia parece ser a panacéia do momento. Magnatas nacionais associam-se a investidores estrangeiros para a ampliação da produção, para a construção de novas usinas; o presidente corre o mundo oferecendo a tecnologia redentora; todos se rejubilam e o paraíso parece ficar consideravelmente mais próximo.
A discussão sobre a ampliação da área reservada ao cultivo da cana começa a mobilizar os formadores de opinião. Não há no mundo país que produza álcool mais barato que o Brasil. Somos – como no caso da seleção masculina de Vôlei – invencíveis neste quesito, imbatíveis, arrasadores. Para responder à demanda pelo combustível ecologicamente correto(?!), atender aos mercados interno e externo deveremos utilizar áreas gigantescas, continentais, e sempre as melhores, as mais férteis, as mais planas, as que mais abundam água, as melhores servidas por logística, infra-estrutura de produção e escoamento.
E como sempre ocorre nas monoculturas, a produção de alimentos acaba sendo relegada a segundo plano, e quem vai morrer na conta é (como sempre!) o tal do Zé povinho.
Algumas eminências pardas já adiantam que o país tem área de sobra e que a produção de alimentos não será comprometida. Sei... Recomendo a esses “iluminados estudiosos” revisitar na história brasileira as conseqüências das monoculturas e do sistema de plantation. Estudassem um pouco mais e saberiam a que me refiro.
Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala faz referência às Atas da Câmara de São Paulo (1562-1601), onde se verifica clara interferência do governo no sentido de regularizar a lavoura de mantimentos sacrificada pela do açúcar. Pela importância e oportunidade transcrevo o trecho logo abaixo:
“(...) encontrou Taunay (Afonso) uma requisição do governador-geral do Brasil de oitocentos alqueires de farinha destinados a Pernambuco; capitania que, por ser a mais açucareira, seria também a mais exposta à carestia ou escassez de mantimentos locais. A requisição era, porém, superior à capacidade dos paulistas: fornecida toda aquela farinha a Pernambuco, eles é que ficariam na penúria. Decidiu a Câmara apregoar para conhecimento de todos os moradores da vila e termo, uma postura em que ficavam intimados a fazer farinha, em obediência a uma provisão do capitão-mor e do ouvidor da capitania de São Vicente. Tudo sob a ameaça de cinqüenta cruzados de multa e dois anos de degredo para as paragens inóspitas do Estreito de Magalhães (...)”.
Bem... para o bom entendedor, duas palavras bastam.
De qualquer forma, quem está se maravilhando com todo este movimento é um andarilho que vive nas cercanias da unidade Laranjeiras da UEG, em Goiânia. “O Brasil agora vai ser campeão também em cana” - costuma dizer o pobre coitado, completamente embriagado. E conclui, irradiando felicidade: “U danado du trem vai ficá bão dimais, sô!”.
Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
sábado, 29 de março de 2008
A intolerância racial e social

O Brasil tem uma tradição histórica cínica, dissimulada e atroz para com os de cor negra. Não bastasse o martírio ocasionado a milhões de egressos do continente africano, que aqui foram brutalmente humilhados e seviciados, fomos o útimo dos países a aderir ao fim do sistema escravo nas relações de trabalho.
A escravidão foi uma chaga que dilacerou o planeta, sendo até os séculos XVIII e XIX a forma dominante de organização do trabalho.
Tão grave quanto à escravidão negra, foi o nazi-fascismo que, originando-se na Europa, logo varreu o mundo, estendendo seus tentáculos pelos continentes, até chegar também ao Brasil.
O genocídio contra os judeus ilustra a que ponto pode chegar a atrocidade humana, quando impregnada de dogmatismo religioso ou ideológico. Os nazistas chegaram a exterminar dois quintos do povo judeu. No campo do dogmatismo ideológico a história de Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes é referência. Presa no Brasil foi entregue pelo governo brasileiro ao governo alemão, para ser torturada e executada em campo de concentração.
Os judeus constituem um dos povos do mundo mais marcados pela intolerância racial. De modo que causa espécie o fato de ter brotado no seio do judaísmo uma das mais perversas formas de racismo do mundo contemporâneo: o sionismo.
Quando as religiões e as ideologias impõem a hipocrisia do preconceito racial, a ciência anuncia uma descoberta que deve – em curto prazo, resgatar a tolerância e a harmonia entre os diferentes.
Os últimos avanços da ciência no campo da genética registram uma surpreendente novidade: os estudos apontam que os chipanzés apresentam 99,4% de semelhanças com o homem – quando se coteja as informações gravadas nos respectivos DNA`s. Ou seja, nos separam de nosso irmão macaco uma pequena fração de apenas 0,6% de diferenças. Em todo o resto somos iguais. Rigorosamente iguais.
O naturalista inglês Charles Darwin, já no século XIX, em seu livro A Origem das Espécies, provocou no mundo forte impacto, ao discorrer sobre a ancestralidade comum existente entre a espécie humana e os demais primatas. Recebeu forte pressão e resistência dos setores conservadores, sobretudo religiosos. Resistência que resiste aos dias atuais: em algumas escolas religiosas dos Estados Unidos da América, os livros e a teoria evolucionista de Darwin são simplesmente ignorados nas aulas de ciências.
O fato é que os recentes estudos genéticos impactaram de tal modo os intelectuais e os membros da comunidade acadêmica, que levou o cientista americano Morris Goodman a publicar na revista científica PNAS, um estudo em que defende a inclusão dos chipanzés (Pan troglodytes) no gênero Homo, dado às semelhanças do DNA.
Os estudos desmontam e desmascaram a farsa criada pelos ativistas racistas que estruturaram teorias embasadas em teses e conceitos aparentemente científicos, mas que agora se provou completamente artificiais, equivocadas e enviesadas ideologicamente.
A ciência evidencia de forma categórica que pode haver mais semelhanças entre os todos poderosos idiotas Adolf Hitler (alemão) e Id Amin Dada (africano), do que entre dois vizinhos africanos; ou dois amigos alemães.
Comungando a mesma origem e parte da mesma trajetória na escala evolucionista, os homens e Chipanzés tomaram diferentes caminhos há seis milhões de anos, período em que as diferenças, agora divulgadas, se processaram.
A realidade é que o homem conseguiu dominar a característica singular de captar, desenvolver, acumular e transferir conhecimento; característica que o tornou único no planeta.
Portanto, as diferenças entre os diversos povos, devem-se, quase em nenhum grau, aos fatores intrinsecamente raciais. O determinante nas diferenças decorrem sobretudo do componente ambiental, conformado pelas condições da natureza; e do componente cultural, determinado pelas relações sociais.
É o que já dizia, nos idos de 1933, o sociólogo Gilberto Freyre em seu Casa-Grande & Senzala, que recebeu o cobiçado premio norte americano de “a melhor obra sobre relações inter-raciais”.
À discriminação racial também se soma uma outra, em exponencial expansão no Brasil, a discriminação social. É cada vez maior no país o número dos despossuidos, dos excluídos, dos privados das condições mínimas de sobrevivência.
Expressões populares de humor duvidoso como “...no Brasil só três p`s habitam as cadeias; preto, pobre e puta...”; e “...branco quando corre está fazendo Cooper, e preto quando corre está fugindo da polícia...” evidenciam o quanto as discriminações racial e social estão incorporadas no imaginário popular.
No seio das famílias, nas escolas e na sociedade, os pais, professores e gestores públicos devem estar atentos para responder adequadamente a esta questão.
Não há como construir uma sociedade democrática e justa para todos, se nossos conceitos tiverem como parâmetro estrutural a intolerância. E a educação é o esteio capaz de assegurar que os educandos de hoje sejam os cidadãos fraternos e progressistas do amanhã.
Artigo publicado na Revista Bula e no portal da Associação dos Professores de São Paulo. Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
sexta-feira, 7 de março de 2008
A culpa é do gênio ou do gago?

À medida que passa o tempo, vai se tornando mais difícil a interação entre as pessoas. Apesar da era contemporânea disponibilizar técnicas e ferramentas, processos e tecnologias de comunicação mais eficazes, o homem, ao contrário de se expandir em direção ao outro, procura o isolamento, confina-se numa redoma hermética e indevassável. Ensimesmado, parece querer buscar na extremada auto-suficiência a massa vedante que permitirá deixar-se só, obstruir qualquer possibilidade de inserção e convivência social.
Manter-se o mais distante possível de seu próximo, ao que parece, tem sido o paradigma maior das sociedades globalizadas. Daí os muros de concreto e cercas eletrificadas, os sistemas de segurança monitorados eletronicamente, os momentos de convívio social cada vez mais efêmeros e voláteis, e a onipresença da televisão – o olho totalitário - companhia inseparável de nosso infortúnio coletivo.
Este sistema prisional constituído por uma parafernália tecnológica desenvolvida para nos manter ‘seguros’ em nossas residências, escolas e locais de trabalho, é internalizado na parte mais profunda de nosso subconsciente, fazendo emergir todo tipo de bloqueios em nossas relações interpessoais, obstruindo canais, enclausurando possibilidades, encarcerando numa masmorra invisível a perspectiva de um diálogo que se expresse intenso e liberto.
A pressão e o estresse da vida contemporânea, a depressão que se tornou estigma nesta virada de século, a violência brutal intrínseca do modelo excludente de desenvolvimento contribui, acentuadamente, para que todos se evitem mutuamente. Por outro lado, a opção por um sistema social altamente competitivo – originado ainda no berço, que perpassa a infância, a adolescência, a juventude, até chegar às fases adulta e senil, exigindo figurarmos sempre à frente, destacando como os melhores em tudo – desemboca em um estado de permanente insatisfação, perene desequilíbrio, contínua irritação, cenário de clima sempre hostil e tempestuoso, propício para o afloramento do que de pior existe na personalidade humana: inveja, vaidade, ganância e frivolidades, vezes dissimuladas, mas invariavelmente presentes no nosso cotidiano.
Nesse contexto, têm mais espaço e adeptos o ressentimento, o ódio e o rancor do que a admiração, o amor e o carinho. Tudo isso em caótica ebulição, fermenta e produz um caldo espesso, denso, que atua como uma barreira inibidora, uma muralha de ferro e granito a obstruir o processo de interação entre as pessoas.
A partir daí, muito pouco resta: um pântano sombrio e nauseabundo como cenário do ato de conversar, dialogar, entabular a prosa, conviver.
Mesmo nos encontros e reuniões em que participam pessoas preparadas, habilitadas à convergência, os mal-entendidos se manifestam generalizadamente, exigindo que a mesma coisa seja dita inúmeras vezes, de diferentes maneiras, para que sejam compreendidas.
Um pré-requisito indispensável à boa conversação é o planejamento, é pensar com antecedência sobre o quê, para quem e como dizer, contextualizando os objetivos que pretendemos atingir. Nesse processo, táticas e estratégias devem ser elaboradas para que as metas traçadas sejam plenamente alcançadas.
Rodoux Faugh afirma que "a comunicação é a forma mais sublime de amar", e Chacrinha, o Velho Guerreiro, popularizou a importância do processo de emissão, transmissão e recepção de mensagens com o premonitório jargão televisivo “quem não comunica se estrumbica”.
Às vezes a responsabilidade pelo fracasso da interlocução cabe ao emissor, que não sabe se expressar ou o faz de forma inadequada e por isso ineficaz.
É o caso do náufrago gago que teve o órgão sexual inteiramente arrancado pela mordida do tubarão. Quando, numa ilha deserta, tirou a rolha da lâmpada mágica, fez ao Gênio o primeiro de seus três pedidos:
– Eu ... eu ... eu ero um aralho.
E o gênio, obediente, deu de presente um baralho. Apreensivo, o Gago fez o segundo pedido, procurando agora ser mais claro:
– Eu ... eu ... eu ero um into.
No estalar dos dedos o Gênio fez aparecer, do nada, um cinto, e o fixou entre as pernas do náufrago. Já desesperado por ter desperdiçado dois pedidos, o sobrevivente gago solicitou seu último desejo. Com a voz trêmula, mas bem compassada, suplicou:
– Eu ... eu ... eu ero um ênis.
E de uma nuvenzinha de fumaça o Gênio da lâmpada tirou um tênis e o deu como o derradeiro desejo do infeliz que não se fazia entender.
Ao conversarmos é necessário que a mensagem chegue ao destino sem distorções. Para isso importa dar à voz tonalidade apropriada, volume, timbre e ritmo adequados, sem nos descuidarmos da pronúncia. Porém esse conjunto de condicionantes não é suficiente.
Num diálogo eficaz em que os interlocutores se sintam satisfeitos, o respeito mútuo deve ser o primeiro axioma. Significa que as pessoas devem se situar no mesmo patamar, no mesmo nível, sem que ninguém se coloque acima ou abaixo, mas todos se ombreando lado a lado. Esse princípio gera um conforto que acentua o compromisso das pessoas com o que está sendo pactuado. Postura arrogante e autoritária, pretensiosamente superior, conduz quando muito ao monólogo, às vias de mão única, à harmonia e paz dos cemitérios...
Quando se trata dos conteúdos, dos assuntos a serem tratados, é preciso abordá-los com profundidade e segurança. Não existe nada pior que discussão superficial que apenas tangencie as questões. Abordagens pobres levam os interlocutores à mediocridade, forjando relacionamentos banais, mesquinhos, vulgares. Navegar com profundidade nos assuntos é um sinal de respeito ao outro e a nós mesmos. Isso se traduz em municiar-se do maior número de dados e informações, selecionar as importantes, apresentá-las de forma objetiva, certificando-se anteriormente da sua exatidão e procedência. Na discussão é preciso também discernir entre o que é essência e o que é acessório, fixando-se nos fundamentos do assunto. É que muitas vezes o que reluz nas discussões é o acessório, a trivialidade, ofuscando e encobrindo as partes que de fato importam. Portando iluminar as partes mais relevantes dos conteúdos é uma etapa importante do processo.
A boa ordenação dos conteúdos não pode ser deixada de lado. A organização, a forma de melhor subordinar e hierarquizar os itens abordados enseja a construção de um raciocínio lógico consistente.
Mas tudo isso pode cair por terra se não adotarmos uma linguagem correta, clara e expressiva, no sentido de encantar o interlocutor. E nesse sentido o fecho final, a conclusão que damos à nossa intervenção é fundamental. É como uma orquestra sinfônica executando uma ópera ou uma peça musical clássica. Toda a construção melódica vai sendo conduzida num crescendo até chegar – ao final – à apoteose, quando músicos e platéia como que explodem em satisfação e aplausos.
Esses procedimentos deveriam ser, com especial interesse, adotados por nossos professores – formais e informais. Uma conversa ocorrida na informalidade de um cafezinho pode educar mais que uma aula convencional. Mas a liturgia de uma aula tradicional tem a responsabilidade de gerar resultados, a obrigação de ensinar, e bem! Os professores formais têm a obrigação de tornar suas mensagens atrativas, plenamente compreendidas. É o mínimo que se espera de nossos mestres. Essa é uma boa forma de avaliar o desempenho de nossos professores. Quando o aluno é reprovado, a responsabilidade nem sempre é do estudante.
Mas quem carrega o fardo do fracasso é tão-somente o aluno. Vivemos em nossas escolas uma realidade por demais injusta e que deve, de imediato, ser alterada. Mesmo ante e existência de um exército de gagos que acreditam ser do gênio a culpa por não terem seus desejos atendidos.
Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal da Associação dos Professores de São Paulo. acs@ueg.br
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
A grande diáspora de cérebros

Desde as origens do capitalismo, quanto mais rara a mercadoria, maior seu valor agregado.
Como maior potência econômica do planeta, os Estados Unidos atraem, anualmente, uma leva de migrantes que provêm de todas as partes do planeta.
O Brasil é um desses países já categorizados como inesgotável fonte exportadora de ‘mão de obra barata’. Por várias e várias décadas, temos despachado, para o gigante do norte, médicos, engenheiros, arquitetos, profissionais liberais que lá chegando, vão se empregar ilegalmente como garçons, babás, operários da construção civil...
Mas neste fluxo que parece irreversível, um novo fenômeno começa a ocorrer. Como necessita movimentar sua descomunal e sempre crescente economia, os Estados Unidos não conseguem produzir mão de obra qualificada em número suficiente para satisfazer sua demanda interna. Então trata de resolver esta questão da maneira mais trivial: importando cérebros, atuando como um colossal aspirador que suga a inteligência produzida mundo afora.
É o que vem ocorrendo, e a cada ano de forma mais expressiva. Os dados disponíveis não deixam margens para dúvidas. Em apenas uma década, no período que inicia em 1996 e se estende até o ano de 2006, a quantidade de brasileiros que receberam visto dos Estados Unidos - oferecido tão somente a profissionais de alta qualificação - aumentou 185%.
É um fenômeno que tem como destino final não apenas os EEUU. Beneficiam-se dele também a Europa e as nações mais pujantes da Ásia. Praticamente dobrou a proporção de migrantes brasileiros com curso superior que optaram por viver nos países integrantes da OCDE, os mais ricos do mundo. Passaram de 1,7% para 3,3%, somente no período de 1990 a 2000.
O nome atribuído a este fenômeno não poderia ser mais apropriado, ‘fuga de cérebros’.
É uma característica da globalização que impacta todos os países em desenvolvimento. No passado, os impérios subjugavam as colônias extraindo minérios preciosos, riquezas minerais... Hoje lançam mão sobre o que construíram de mais nobre e valioso, a riqueza e o patrimônio intelectual.
A grande vítima desta nova modalidade de interação - entre os países ricos e os em desenvolvimento - é a Índia, país que, de longe, ostenta a posição de maior fornecedora de trabalhadores qualificados (com vistos legalizados) para a América. Desta ciranda não escapam sequer os pequenos como Jamaica, Guiana e Haiti - que apresentam proporção de suas populações (com curso superior) vivendo nos países ricos superior a 80%.
A tradicional migração de brasileiros para o primeiro mundo não arrefeceu. Geralmente, dentre os ilegais presos na fronteira pela polícia de imigração norte-americana, os brasileiros só perdem para os mexicanos.
A verdade é que o Brasil passou a ser reconhecido como um importante fornecedor de talentos para o mercado internacional. A questão é precisar o ponto em que este processo passa a impactar negativamente, comprometendo os interesses e a economia nacional.
Muitos dos que partem, por exemplo, são egressos de universidades públicas mantidas pelo Estado que banca uma educação cara, de qualidade, e gratuita para os emigrantes, mas extremamente onerosa para o conjunto da sociedade, sobretudo para sua parte pobre e excluída.
Neste caso pelo menos, o mínimo a exigir seriam retornos periódicos com transferências de tecnologia. Resolver, não resolve. Mas pelo menos mitiga o prejuízo.
Como as crises também geram janelas de oportunidades, talvez o Brasil esteja na iminência de reparar uma grande injustiça social. Como as classes mais abastadas não serão capazes de responder à qualificação exigida pelos mercados interno e externo, o Estado terá de, finalmente, investir na educação das classes mais populares, sob pena de volatilizar nossa economia.
Eis que a tão decantada aspiração “educação de qualidade para todos” pode estar bem mais próxima do que jamais ousamos imaginar.
Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Recesso do carnaval
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Democracia & Educação ou Da arte de se assemelhar a gorilas e bonobos

Sob o ponto de vista político, a democracia é o que de mais nobre a humanidade já conseguiu construir. É um sistema perfeito, sem vícios e desvios que blinda os cidadãos contra o fisiologismo, o clientelismo, o tráfico de influência e a corrupção endêmica? Não, claro que não, longe disso. Mas desde quando a perfeição absoluta está entre as categorias inerentes à espécie Homo sapiens? Aliás, não custa recordar que a expressão origina do latim e significa homem sábio, homem racional.
E às vezes os desvios da democracia são tamanhos que deixamos o sábio e o racional de lado para nos aproximar dos demais primatas bípedes que, como os humanos, pertencem à subfamília Hominoidea: gorilas, chimpanzés, bonobos e orangotangos.
Os exemplos mundo afora mostram um consistente vínculo entre educação e democracia. Quando a educação é de qualidade, a democracia se consolida de forma sustentável, vistosa, vigorosa e a civilização fica bem ao alcance da mão. Já quando a educação carece dos mínimos parâmetros, quando é tratada com desdém e bochinche, a democracia se fragiliza, perde substância, e quem fica bem rente, de forma perigosa e ameaçadora, é a barbárie.
Se desejamos uma democracia sustentável, então não resta outro caminho senão investir em educação, priorizar o setor, único modo de agregar qualidade ao nosso caótico e medíocre sistema de ensino. Tratar a educação com diligência, zelo e carinho é condição indispensável para que possamos dar curso à caminhada.
E porque educação de qualidade se vincula de forma tão umbilical à democracia sustentável? É elementar: a qualidade do parlamento depende da qualidade dos eleitores.
E neste aspecto o quadro não é dos melhores, o céu está mais para um bando de urubus carniceiros que para o vôo majestoso do falcão.
A baixa escolaridade aflige mais da metade dos eleitores brasileiros. E se a escolaridade é baixa, a tendência é que a qualidade do voto também seja.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, compomos um universo de 127,4 milhões de eleitores. Desde total, nada menos que 51,5% dos brasileiros habilitados a votar têm baixa escolaridade. Traduzindo em miúdos: nenhum deles completou o primeiro grau; ou dominam de forma elementar apenas a escrita e a leitura. O precipício, porém, é mais profundo e ostentamos uma mácula indecorosa: mais de oito milhões dos eleitores brasileiros são analfabetos.
Estes números referem-se ao ano de 2007 e integram a base oficial de dados do TSE.Os dados comprovam, de maneira categórica, o grave desnível que se verifica entre as regiões geográficas do Brasil. A maioria dos eleitores analfabetos está na região Nordeste do país. Brasileiros que votam ignorando a habilidade da leitura e da escrita.
Na região Sul o percentual de eleitores analfabetos é de 3,51 e na Sudeste 3,84. Na região Norte este índice se situa na casa dos 8,74% e na Centro-Oeste 4,76%. O pior quadro figura na região Nordeste com inaceitáveis 12,22% de analfabetos em seu eleitorado.
A pesquisa realizada pelo TSE mostra ainda que uma parte quase insignificante do eleitorado porta diploma de curso superior, não passa de 3,43% dos eleitores.
Por isto, exigir educação de qualidade talvez seja a forma mais eficaz de protestar contra a indigência mental de parte dos políticos brasileiros, uma boa forma de lutar por um parlamento consentâneo com as necessidades do desenvolvimento nacional.
Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
A descomunal janela de oportunidades

Poucos se lembram dos tempos nervosos da guerra fria, o embate de surdos-mudos travado pela URSS e EUA. De um lado, a defesa do comunismo, da economia planificada, do partido único; de outro a economia de mercado, as liberdades individuais, a democracia e a propriedade privada. Cada um deles criando sua rede de influência, seus países satélites.
A divisão ideologia chegou ao apogeu, ao seu ponto máximo, impondo até mesmo a divisão de países, como ocorreu na Alemanha, na Coréia e no Vietnã. O muro de Berlim foi o exemplo maior desta estupidez que não conheceu limites. As superpotências, sentadas sobre seus arsenais nucleares – capazes de eliminar a vida na terra por inúmeras vezes – estimulavam e municiavam os países subordinados nos conflitos regionais. Na Europa ocidental, os países de livre mercado organizaram-se na OTAN, a Organização do Tratado Atlântico Norte; e na cortina de ferro, o pólo antagônico estruturou o Pacto de Varsóvia. Um período lastimável, mas que resultou em alguns avanços, inequívocos, entre os quais, não custa rememorar, a conquista do espaço sideral.
A disputa insana encontrou um terreno propício para os embates, um campo emblemático, favorável para que, de forma instantânea, fosse possível propagandear ao mundo qual dos sistemas políticos era o mais avançado e eficaz.
O primeiro lance ocorreu no ano de 1957, quando a URSS lançou o foguete Sputnik com um cão dentro, o primeiro ser vivo a ir para o espaço. Mas o gol de placa dessa longa história ocorreria em 1961, quando a União Soviética promoveu o vôo inaugural na corrida espacial tripulada, colocando Yuri Gagarim em órbita.
O troco não tardaria.
Imediatamente informado do fenomenal acontecimento, o presidente norte-americano John F. Kennedy criou o Projeto Apollo com o objetivo de levar o homem à Lua. E cerca de uma década depois, em 1969, o mundo todo, entre surpreso e estupefato, não conseguia tirar os olhos da televisão que transmitia os primeiros passos do homem na lua, o coroamento da missão espacial norte-americana.
No dia 20 de julho de 1969, Neil Armstrong e Edwin Aldrin gozaram o privilégio histórico de serem os primeiros homens a caminhar sobre o solo lunar.
O feito abriu caminho para cinco novas missões que possibilitaram outros dez astronautas americanos pisar no solo lunar.
A conquista da lua teve um efeito devastador sobre a União Soviética e contribuiu de forma decisiva – muito mais do que muitos imaginam – para a derrocada do império vermelho.
De Gagarim até os dias de hoje, muito do nosso conforto e bem estar se deve às pesquisas realizadas no espaço. URSS – hoje a Rússia, EUA, Europa, Japão e agora a China continuam investindo no setor por terem conhecimento que a soberania sobre o espaço está para o progresso e o futuro assim como a conquista dos mares esteve, muito tempo atrás, para os navegadores vikings e fenícios.
Em um desses conflitos regionais, muitos chegaram a acreditar na vitória vermelha e na iminente hegemonia comunista sobre todo o planeta. Foi logo no final da Guerra do Vietnã. O conflito se originou em 1959, durou quase duas décadas, e só foi terminar em 1975. Os vietcongs, apoiados pelos soviéticos, ignoraram o colossal poderio bélico-tecnológico dos norte-americanos, impondo uma derrota avassaladora e vergonhosa aos EUA. Foi quando não poucos imaginaram que o momento sinalizava o início da débâcle definitiva do capitalismo e a conseqüente e inequívoca hegemonia da URSS sobre o planeta.
Mal sabiam que, poucas décadas depois, em 1991, era o próprio império soviético que desmoronaria, caindo em ruínas.
Nos embates militares de forma geral, um setor sempre elevado à categoria estratégica é o das comunicações. Na guerra fria não foi diferente.
O grande temor no período era de que, repentinamente, independentemente da guerra ser formalmente declarada, as cidades passassem a ser bombardeadas. Em decorrência do temor generalizado, o governo norte-americano investiu recursos para criar um sistema informatizado que garantisse a fluidez das comunicações militares, ainda que o caos provocado por um eventual ataque soviético se materializasse.
A pressão atuava sempre no limite do suportável. A União Soviética já havia logrado um expressivo tento ao lançar no espaço, em 1957, o Sputnik 1. Na prática, o que significava esta conquista comunista? Que os russos poderiam, através do espaço sideral, lançar bombas em qualquer ponto do mundo.
Pressionado, o presidente Dwight Eisenhower criou, em 1962, a ARPA, a Advanced Research Projects Agency, agência governamental que se incumbiria de retomar a supremacia digital na corrida armamentista, protegendo a América do Norte do que parecia à época, iminente ataque nuclear soviético.
Como, diante de um ataque nuclear, reorganizar o país para a necessária contra-ofensiva, sem dispor de um eficiente e confiável sistema de comunicação que sobrevivesse ao poder destrutivo da hecatombe?
Então, sob a coordenação do Pentágono, desenvolveram um revolucionário sistema de comunicação entre computadores, o ARPAnet - Advanced Research Projects Agency Network – com o objetivo principal de conectar as diversas bases militares e os inúmeros departamentos de pesquisa do governo americano.
A concepção lógica que norteou o desenvolvimento do projeto partiu da premissa de proteger a central de informações, a estratégia adotada foi diluí-la em vários lugares, diferentemente do que existia até então, quando todo o comando central se aglutinava em um único ponto, um único lugar, uma única instalação militar, alvo fácil de um possível ataque do inimigo.
Mas para viabilizar que a central de informação fosse diluída de modo a descentralizá-la fixando-a em diferentes lugares era necessário fazer com que os diferentes pólos fossem interligados, conversando entre si. E bommm!!! Em 1969 ocorre a primeira troca de arquivos. A palavra “Log” é transmitida pela Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, para a Universidade de Stanford, que recebe a mensagem e a responde com “in”, formando “login”. Esta primeira experiência não foi de toda exitosa, pois funcionou até a segunda letra. Todavia o teste-embrião da tecnologia de transmissão de dados digitais em “pacote”, inaugurando o sistema que mudaria a face do mundo, a forma como as pessoas, as instituições e os governos passariam a comunicar.
Como era vital para a segurança dos EEUU que o sistema se consolidasse, entrando imediatamente em operação, a ARPA se viu diante da necessidade de estruturar e financiar laboratórios em muitas universidades americanas. E, naturalmente, em determinado momento, estes laboratórios universitários tiveram que se conectar à ARPAnet. De modo que a revolucionária tecnologia manteve-se disponível exclusivamente para os setores militar e acadêmico. Mas a pressão para liberalização foi tamanha que, em 1987 a rede já estava totalmente liberada, assumindo o nome de Internet.
Hoje, não há setor que permaneça indiferente à rede mundial de computadores, pois isto significaria a liquidação, a falência mais completa.
Na educação, a Internet consolida um setor em plena expansão, a Educação a distância, com todas as vantagens que isto significa: efetiva possibilidade de universalização do ensino de qualidade com a inclusão dos brasileiros que desejam cursar o terceiro grau, e com expressiva redução dos custos. A Internet e a Educação constituem uma gigantesca janela de oportunidades para um Brasil diferente, um país justo e desenvolvido.
E poucos se dão conta que esta descomunal janela de oportunidades tem tudo a ver com a guerra fria que fritou nervos e mentes durante as décadas que sucederam a 2ª guerra mundial.
Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mane Beiçudo. acs@ueg.br
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Até quando a gestão-caterva açoitará a educação?

Por incrível que pareça, mais da metade dos municípios brasileiros atuam ao largo das boas técnicas gerenciais e da eficácia administrativa, desperdiçando tempo, energia e, sobretudo, os recursos da sociedade. Pior, possibilitando ainda que o modus operandi em vigor seja sacralizado, generalizando as nefastas praticas do clientelismo, do fisiologismo, da gestão-caterva, aquela em que o profissionalismo é quase nada e a bisonhice e a malandragem quase tudo. Conseqüências mais imediatas? Desvios de toda ordem e as portas escancaradas para a corrupção. Por que digo isto? Dos 5.564 municípios brasileiros, tão somente 41% contam com um plano de educação. Pode? Não, não pode, evidentemente. Mas é o mais fiel retrato da cruel realidade brasileira, conforme relatório preliminar do Sicme, o Sistema de Informações dos Conselhos Municipais de Educação.
E se o quadro envergonha e indigna, as coisas já estiveram bem piores. Em 2006, apenas 33% das municipalidades contavam como seu planejamento educacional.
O século XXI já não abriga quem lance dúvidas sobre a importância e necessidade do planejamento na vida das pessoas e das instituições. Sobretudo no aparelho de estado sua adoção é imperativa. Hoje, são inconcebíveis tergiversações sobre esta questão. Guiar-se por planos, programas e projetos que disponham, claramente, os objetivos, estratégias e metas a serem alcançados é obrigação legal e constitucional para tantos quantos atuem na administração do aparelho de Estado, mormente os gestores públicos.
E o que faz o Plano Municipal de Educação? Exatamente organizar a atuação do governo local no setor, racionalizando e potencializando a aplicação dos recursos humanos, materiais e financeiros. Como define objetivos, diretrizes e rumos da educação municipal, deve ser discutido e votado na Câmara de Vereadores, que o transformará em lei.
Já convertido em lei, a comunidade pode acompanhar a implementação da norma, a execução do Plano, exercendo a fiscalização e o controle social sobre as ações do prefeito, do secretário municipal de educação, do diretor da escola e dos demais gestores que integram o sistema. Não existindo Plano e lei, tudo fica a mercê da boa vontade dos prefeitos, da improvisação, do tráfico de influência, prevalece a gestão-caterva.
Uma grande conquista da Constituição de 1988 foi assegurar ampla autonomia política e administrativa para os municípios, autonomia jamais havida anteriormente, não na amplitude atualmente experimentada. Os municípios conseguiram resgatar sua importância política e institucional, e ocupam lugar privilegiado dentre os sujeitos de nosso ordenamento democrático; mas vê-se, principalmente na área da educação, que nossos prefeitos e edis não estão à altura da importância atribuída a eles pela Carta Magna.
O Plano Nacional de Educação estabelece que cada um dos 5.564 municípios brasileiros deve ter o seu Plano Municipal de Educação. Mas 3.282 cidades optaram por ignorar a orientação do MEC, fazendo pouco caso da determinação constitucional. O interessante é que o Ministério suspende o repasse de verba para a merenda escolar - castigando diretamente nossas crianças – quando os prefeitos cometem alguma irregularidade como, por exemplo, atrasar a prestação de contas. Mas este mesmo Ministério não aplica punição alguma quando o Prefeito deixa de encaminhar à Câmara o projeto de lei criando o Plano Municipal de Educação.
Um outro grave aspecto que esta discussão faz emergir é o certo distanciamento que a sociedade vem mantendo sobre o tema. Uma eloqüente demonstração que a população de 59% dos municípios brasileiros desconhece alguns de seus mais destacados direitos. No processo de elaboração do Plano Municipal de Educação, uma etapa preliminar estabelece a obrigatoriedade da criação do Conselho Municipal de Educação, instância de deliberação colegiada integrada por membros do governo e da comunidade. É o Conselho quem hierarquiza os problemas e elege as prioridades educacionais, por isso é, sob qualquer aspecto, o mais poderoso instrumento de controle social disponível.
Os brasileiros já têm, ao alcance da mão, diversos instrumentos de participação e controle social. O Conselho e o Plano municipais de educação são apenas alguns deles. Protestos e reclamações desvinculados da ação política viram fofoca e histerismo coletivo. A sociedade deve saber mais para exigir mais, mas num contesto de emprestar eficácia à sua manifestação. Os direitos já estão no papel. E não são poucos. Basta agora trazê-los para a realidade do dia a dia. Atividade só é possível com participação e organização. Não sendo assim, será a redenção da adminstração-caterva.
Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Sobre o Enade... Juizo!

Sucessor do antigo Provão, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – Enade - integra o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, o Sinaes. Seu objetivo é verificar o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências.
A realização do Enade se dá por amostragem. O Ministério da Educação, através do Inep, define uma amostra de estudantes e a partir da listagem, a participação é obrigatória, sendo possível, em casos devidamente formalizados, a dispensa pelo MEC.
Diversas faculdades, universidades e organizações estudantis fizeram (e ainda promovem) boicotes à institucionalização dos processos de avaliação promovidos pelo MEC, corroborando aquela avaliação caolha e atrasada de que avaliação que presta é a que promovemos sobre os outros, jamais sobre nós mesmos. O pior é que o boicote tem prejudicado, sobretudo, os formandos, considerando que os instrumentos de avaliação são estabelecidos por ordenamento legal e – atentem caros alunos - obrigatórios.
No caso do Enade, por exemplo, sua regulamentação ocorreu em 2.004, com a promulgação da lei federal 10.861. E a norma legal não deixa uma fresta sequer de dúvidas quanto à obrigatoriedade de participação e as conseqüências para o estudante que deixar de cumpri-la.
O estudante de direito Clayton Eduardo Gomes impetrou mandato de segurança no Superior Tribunal de Justiça solicitando ser diplomado. Em que pese não ter feito o exame do Enade.
O ministro Raphael de Barros Monteiro Filho, presidente do STJ, indeferiu a liminar solicitada pelo estudante que cursa o último ano da Faculdade de Maringá, no Estado do Paraná. E a argumentação do ministro se embasa exatamente no preceito da lei 10.861 que dispõe, de forma cristalina: o aluno que não prestar o exame não terá o diploma de conclusão do nível superior.
Não faltaram justificativas para o estudante que alegou problemas com o carro numa viagem de trabalho, situação que o teria impedido de chegar a tempo para fazer a prova.
Ainda que tenha justificado a falta, Clayton foi informado de que o diploma não poderia ser registrado enquanto não fizesse o próximo exame do Enade, que será aplicado em 2009.
Como não obteve êxito com as justificativas apresentadas, o estudante mudou o eixo da argumentação, passando a defender a necessidade do diploma para que pudesse se habilitar a algum emprego e, mesmo, se inscrever em concursos públicos.
A educação necessita de um ajustado sistema de avaliação para que os gargalos e problemas estruturais sejam devidamente identificados, com rigorosa precisão científica. É condição sine qua non para que as soluções mais adequadas e eficazes sejam exaustivamente buscadas e encontradas. Esta deveria ser uma argumentação suficientemente convincente para demover os que insistem em boicotar os esforços do Ministério da Educação. Como não tem sido, então resta a obrigatoriedade cívica da aplicação da lei. Porque numa democracia, as leis existem para serem cumpridas.
Para quem tem juízo, que o episódio do formando da Faculdade de Maringá sirva de alerta.
Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mane Beiçudo. acs@ueg.br
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Água – amor à vida, às pessoas e ao planeta.

"A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como seriam a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura".
Em junho de 1992, o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como ECO RIO 92. A Conferência considerada por muitos o evento ambiental mais importante do século passado, obteve a proeza de reunir representantes de 175 países e de Organizações Não-Governamentais.
Foi nesta Conferência que a Organização das Nações Unidas publicou o documento “Declaração Universal dos Direitos da Água”, cujo trecho figura em epígrafe, introduzindo este artigo.
Ainda que tardia, a Declaração procura resgatar a importância da água para a sustentabilidade do planeta. É que sem água, não existiria vida nesta parte do universo. Simplesmente assim.
Os cientistas da NASA - National Aeronautics and Space Administration – a agência espacial norte-americana, ao investigar a existência de vida em outros planetas, procura preliminarmente verificar a presença ou não de água, porque foi assim que a vida se originou por aqui.
A antiguidade oriental englobou muitos povos. Dentre eles, se destacam o egípcio, sumério, acádio, assírio, persa, fenício e hebreu.
Essas civilizações estabeleceram uma dependência tão grande dos rios que passaram para a história com a denominação de “civilizações hidráulicas”.
O modelo de Estado adotado baseava-se, fundamentalmente, na posse das águas e das terras agricultáveis.
Mas antes mesmo da existência de Estados e povos organizados, a água já era um recurso natural a acompanhar a evolução humana. Desde os primórdios da existência, a espécie manteve-se a curta distância das fontes de abastecimento de água, condição sine qua non inclusive para assegurar a sobrevivência.
O planeta seria um deserto inóspito inexistisse a água. Todos os animais que vivem hoje em terra firme, e os que traçam nos céus vôos majestosos e elegantes, evoluíram a partir de antecedentes que viveram nos mares e oceanos. E quando estas espécies abandonaram a água migrando para terra firme, tiveram que continuar servindo-se dela. Porque a evolução do ser humano e dos seres vivos, de forma geral, sempre esteve relacionado à disponibilidade de água.
A superfície terrestre tem nada menos que três quartos cobertos de água. Este fato fez com que vingasse entre nós a falsa idéia de que os recursos hídricos são ilimitados, inesgotáveis. O que é grave, considerando que menos de 3 % da água do mundo é doce. E mais grave ainda, mais de 99% encontra-se congelada nas regiões polares ou em rios e lagos subterrâneos, limitando, portanto, sua imediata utilização.
A vinculação da humanidade com a água é tão umbilical que lendas antigas apregoavam a supressão da morte dada a existência da fonte da juventude, um manancial que asseguraria a eternidade para os que conseguissem beber a mínima porção de suas águas.
A fonte da juventude teria o poder de efetuar milagres, curar males e enfermidades, dobrar a velhice, mantendo os felizardos que a encontrassem em estado de eterna juventude.
A história registra diversas referências sobre esta busca pela água milagrosa. A mais antiga é uma obra dos sumérios, “Gilgamesh”, que se prevê ter sido escrita há mais de 3.000 anos a.C.
A água é como o ar que se respira, indispensável para a vida humana. Tão indispensável que chega a compor 70% do nosso peso corporal. Uma pessoa faminta, sem alimento, pode resistir por várias semanas, já sem água, falece em poucos dias.
No Brasil estão concentradas cerca de 12% de toda a água doce existente no mundo. E cresce o número de países que padecem com a escassez de água. Alguns já importam o precioso líquido. O Japão, por exemplo, faz vir parte dele da Coréia do Sul.
Se por um lado a abundância de água doce é um alento importante para Pindorama, por outro, o desequilíbrio constitui um de nossos principais gargalos. A Amazônia que concentra tão somente 7% da população brasileira conta com 70% de toda a água doce existente no país. No nordeste encontra-se uma outra ponta do problema. Apesar da região contar com cerca de 30% da população brasileira, apenas 3% da nossa água doce lá se encontra.
Rodoux Faugh costuma zombar afirmando que a espécie humana prolifera no planeta qual ratazana. E justifica a gozação lembrando que, em 1650, havia em torno de 500 mil habitantes do planeta e que em 2.010 serão oito bilhões de pessoas. É gente demais para recursos naturais de menos.
O Brasil ainda conta com a sorte de abrigar em seu subsolo um dos maiores reservatórios subterrâneos do mundo, o aqüífero Guarani. Estima-se que este colossal reservatório natural se estenda por uma área de 1,2 milhões de km², área equivalente ao somatório dos territórios da França, Inglaterra e Espanha.
O grande problema - que em parte já se verifica em vastas regiões do mundo - é que o recurso que possibilita a vida no planeta, já dá sinais de esgotamento. Muito disso deve-se à pressão da demanda, aumento da população, da produção agrícola, industrial,... Mas não restam dúvidas que o desperdício é um dos componentes responsáveis pelo sinal vermelho, pelo sinal de alerta, de perigo, que já se anuncia de forma eloqüente. Um dado revela o quão grave é a questão do desperdício de água nos núcleos urbanos, sobretudo dos países em desenvolvimento: 60% da água distribuída pela rede de abastecimento se perdem no caminho. No Brasil, 45% da água tratada para abastecimento das 27 capitais brasileiras é desperdiçada antes mesmo de chegar ao consumidor.
Pelo trotar dos cavalos, os cientistas estimam para o ano de 2025, 30% de toda a população mundial sujeita às privações e suplícios da completa falta de água.
Se a água é vida, quando não tratada pode significar morte. As principais doenças que assolam as camadas mais pobres da população brasileira se propagam por meio hídrico como a gastrenterite, a cólera, a leishmaniose, a malária, a esquistossomose, as moléstias diarréicas e muitas outras. Em determinadas circunstâncias até mesmo a hepatite e a salmonelose.
No mundo, anualmente, morrem 10 milhões de pessoas, metade delas jovens e crianças, com menos de 18 anos, devido às doenças propagadas através de água sem tratamento adequado.
Cuidar, portanto, da água é questão de responsabilidade, de respeito, de amor à vida e ao próximo, de compromissos sustentáveis com o planeta. Algo que, definitivamente, não se pode deixar para o amanhã.
Declaração Universal dos Direitos da Água
1.- A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão, é plenamente responsável aos olhos de todos.
2.- A água é a seiva de nosso planeta. Ela é condição essencial de vida de todo vegetal, animal ou ser humano. Sem ela não poderíamos conceber como seriam a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura.
3.- Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.
4.- O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.
5.- A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como a obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.
6.- A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.
7.- A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.
8.- A utilização da água implica em respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.
9.- A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.
10.- O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.
Antônio Carlos dos Santos é engenheiro, professor e escritor, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mane Beiçudo. acs@ueg.br
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Como uma onda - EAD

O órgão do Ministério da Educação – o INEP - que cuida de avaliar a educação no país divulgou recentemente um dado surpreendente. O número de cursos de educação a distância (EAD) cresceu nada menos que 571%.
O número de matrículas não ficou para trás, cresceu 315%. Considerando o ano de 2005, os alunos que faziam cursos a distância representavam 2,6% dos estudantes brasileiros. Um ano depois, em 2006 esse contingente já atingia o patamar de 4,4%.
Nas demais modalidades de ensino, surpreende também o crescimento do número de matrículas nos cursos tecnológicos, que registrou um aumento expressivo de 34,3%.
Os dados foram extraídos do Censo elaborado pelo Inep. O levantamento permite analisar, de forma consistente, a performance da educação nacional. Todos os anos o Censo atualiza as informações da educação superior contemplando número de instituições, cursos, matrículas, vagas, inscritos, ingressos, concluintes, além de docentes e pessoal técnico administrativo. A pesquisa oferece ainda dados discriminados por turno, diurno e noturno, e conforme a localização das instituições, se fixadas no interior ou nas capitais dos Estados.
O crescimento do ensino a distância confirma o prognóstico que muitos já faziam, de que esta modalidade de ensino - dada a flexibilidade e adoção de tecnologias mais consentâneas com as demandas dos dias que correm – deve, a médio prazo, assumir, o topo na oferta de vagas no ensino superior.
Percebendo a tendência, o próprio Ministério da Educação passou a flexibilizar as exigências para abertura de cursos de especialização a distância no país, modalidade pós-graduação lato sensu.
Até então, a legislação em vigor exigia que as instituições estruturassem um pólo presencial, uma edificação com tutor (professor), biblioteca e estrutura de apoio ao estudante na região em que a pós-graduação era oferecida. O Ministério entendeu que esta exigência configurava num dos maiores entraves à expansão da EAD, desacelerando a expansão das matrículas, daí a deliberação de suprimi-la, de modo que, doravante, a obrigatoriedade da estrutura de apoio se restringe aos cursos de graduação, liberando assim as especializações.
Mesmo os educadores que faziam restrições ao novo modelo, avaliando-o com reservas, já se dobram às suas vantagens. E passaram a defender algo intermediário, como um modelo misto resultante da interação dos dois sistemas, o convencional e o sistema de educação a distância.
Em outubro do ano passado publiquei um texto dobre EAD aqui mesmo, neste blog. Pela natureza, reproduzo-o abaixo:
A Educação a Distância veio para ficar
Ainda observado com desdém e desconfiança pela conservadora corporação acadêmica, o curso à distância vem se impondo, paulatinamente é bem verdade, mas de maneira irreversível.
Uma das mais destacadas e instigantes vantagens dessa nova tecnologia é o fato de ignorar fronteiras, fazer pouco caso da distância física, de modo que as pessoas –comungando do mesmo tempo – juntam-se, avizinham-se, tornam-se colegas de classe, ainda que estejam em continentes diferentes. Não é curioso e provocador criar uma sala de aula virtual onde colegas de sala interagem com um estando em Pirenópolis e o outro em Singapura?
Esta vantagem exclusiva, específica e inédita é que possibilitou fosse criado o primeiro curso à distância para o Japão. E não é nenhum curso Walita, desses penduricalhos de curtíssima duração que mal justificam um certificado. Não, nada disso. É um curso de graduação, isso mesmo! de graduação em Pedagogia, com 300 vagas, destinado a formar professores que, na Ásia, já estão na lida, no batente, ensinando para brasileiros.
A iniciativa resulta de uma parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o Ministério da Educação, que já reservou R$ 2,5 milhões para aplicar no projeto nos próximos cinco anos. O Banco do Brasil apóia a iniciativa e está propondo destinar outros R$ 2,5 milhões para turbinar o processo.
A vida de um migrante não é nada fácil. Não bastasse o preconceito, onipresente e radicalizado, quase sempre trabalham à exaustão, muito mais que os naturais do país para - ao final da jornada de trabalho – receberem muito menos. No geral tem quase nenhuma assistência médica, jurídica, social, além de amargar dia sim e o outro também, a saudade dolorida dos parentes, dos amigos, da pátria-mãe, saudade só levemente amenizada numa fotografia guardada com esmero no cantinho mais nobre e reservado da carteira.
E não é só. Outra questão por demais grave é a dos filhos dos dekasseguis que assistem aulas com professores improvisados, salvo um aqui e outro acolá, invariavelmente sem a habilitação e a formação adequadas.
O propósito é alterar este quadro, superar rapidamente esta etapa para enfrentar uma outra, tão carente quanto a da graduação, a especialização. Então se tratará de habilitar professores em disciplinas específicas como Biologia, História e Física, mas agora oferecidas não somente aos educadores brasileiros, como também aos professores japoneses que têm, dentre seus alunos, filhos de brasileiros.
Para dar suporte ao projeto será produzido material didático específico e, ao final de cada módulo – algo em torno de 40 dias - um professor brasileiro viajará ao Japão para cumprir a fase presencial do curso, ministrando aulas em caráter intensivo.
Estima-se que existam 320 mil dekasseguis no país do sol nascente. Todo esse contingente, no ano que vem, deverá estar mobilizado para comemorar os 100 anos da imigração japonesa no Brasil.
Se um projeto dessa dimensão não consegue demover a acidez e ojeriza cética dos críticos da Educação a Distância, o que mais na face da terra poderia sensibilizá-los?
A Educação a Distância está demonstrando no dia a dia que veio para ficar. Indiferente e independentemente dos críticos de plantão. Quem não se lembra quando, respondendo ao amargor dos mal humorados, nossos avós proclamavam: “enquanto a carruagem passa, os cães ladram”?
Ou... como canta Lulu Santos “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Melhor ver e ouvir, não é? Então, aí está:
Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
‘As madrassas e a lata de lixo’ ou ‘A história das 72 virgens’

A promiscuidade entre o poder político e o religioso invariavelmente prostitui ambos, perde a política, perde a religião.
Houve um período na Idade Média em que a única organização existente era a Igreja Católica.
Em resposta às sucessivas crises vivenciadas pelo vasto Império Romano, a Igreja pregava a igualdade entre as pessoas, o amor, a caridade e a fraternidade.
Nos mosteiros católicos medievais é que eram copiados e conservados os importantes escritos legados pelas antigas civilizações. Os mosteiros funcionavam também como hospitais, e asilos para os velhos, enfermos e desabrigados.
Mas a possibilidade da investidura leiga e o poderio dos reis sobrepujando e se imiscuindo nos assuntos religiosos levaram às mais graves distorções.
Talvez a mais aviltante tenha sido a “simonia”.
O termo é uma alusão ao personagem bíblico Simão, o Mago, que intentou comprar aos apóstolos o dom do milagre.
Com a “simonia” a Igreja passou a comercializar e traficar os bens espirituais. Vendia lugar cativo no céu, além das indulgências, a remissão total das penas relativas aos pecados praticados na vida mundana.
Com o tempo, o clero conseguiu resgatar os princípios e valores originários do Cristianismo, reconheceu os erros praticados ao longo da história e, publicamente, pediu desculpas pelos desvios havidos.
Mas até hoje, não obstante o arrependimento e as desculpas públicas, a Igreja Católica paga o preço da péssima opção efetuada na longínqua Idade Média, quando permitiu a reis e príncipes intervir diretamente na nomeação de bispos e na condução de sua missão religiosa.
Teria a humanidade aprendido a lição? Parece que não. È o que indicam as práticas e orientações de vários e poderosos agrupamentos muçulmanos, como o Hamas a título de exemplo.
Tal qual a Igreja Católica da Idade Média, em muitos lugares da Palestina, o Hamas é a única organização existente.
Mantém uma vasta rede que organiza a filantropia, o funcionamento de hospitais e casas de saúde, a operação de orfanatos e asilos, abrigando crianças órfãs, abandonadas, velhos e despossuídos.
Mas a vasta organização dá suporte, sobretudo, às escolas mantidas para propagar os princípios religiosos do Alcorão e formar soldados para sustentar a sangrenta guerra contra os israelenses e incidir contra a ‘decadente’ cultura ocidental.
Apesar de muitos defenderem o contrário, a violência encontra-se na gênese do fundamentalismo islâmico. É preciso não esquecer que, quando estabeleceu as premissas para a nova religião, Maomé inscreveu dentre os principais preceitos a promoção da guerra santa contra os infiéis.
Foi por conta deste preceito que, entre os séculos VII e IX, ocorreu uma das mais expressivas expansões imperialistas de toda a história: o Império Islâmico que, em área territorial, superou até mesmo o romano. Os árabes em menos de um século formaram um império que se estendia da Índia até a Espanha.
Esta expansão já se deu com a promessa efetuada pelos califas, os sucessores de Maomé, de um lugar cativo no céu para quem morresse em combate pela conversão dos infiéis.
Só no século XIV foi cair o Império Islâmico devido, principalmente, aos mongóis e turcos.
Os árabes transmitiram mundo afora o legado grego, mas desenvolveram também a álgebra e a trigonometria, difundiram os algarismos indo-arábicos; investiram na astronomia e apresentaram à Europa a bússola e o astrolábio – instrumento desenvolvido para observar a posição dos astros, determinando altura e definindo latitude e longitude.
Graças aos árabes conhecemos a cana-de-açúcar e a laranja. Disseminaram modernas técnicas de cultivo e tecnologia para a produção de ferro e aço. Na medicina avançaram nos estudos sobre a circulação do sangue e no tratamento de doenças contagiosas e nervosas.
Todavia, os avanços que os árabes conquistaram no campo da ciência e da cultura ficaram no passado. Hoje, vigora o radicalismo do fundamentalismo islâmico que cultua o ódio e utiliza, dentre suas principais estratégias, o terrorismo.
Por isso mantêm, espalhadas pelo mundo, inúmeras madrassas, escolas especialmente destinadas a ensinar o fundamentalismo islâmico, onde são formados os homens-bomba e os terroristas que entregam suas vidas por conta da promessa contida no Alcorão de que os mártires terão um paraíso especial, no qual cada combatente tombado recebe 72 noivas virgens. E que suas famílias não serão esquecidas, recebendo também lugares privilegiados ao lado de Maomé, no paraíso celeste.
O ódio, o preconceito e a intolerância, todos sabemos, é o passaporte para o autoritarismo, a violência mais brutal e a barbárie absoluta.
Mas a palavra escrita sempre será objeto de controvérsias. E não poucos vêem no Alcorão um livro que cultua a harmonia e a paz entre os povos. Pessoas de bem como Cassius Clay e Cat Stevens, que se converteram ao Islamismo, adotando novos nomes, Muhammad Ali e Yusuf Islam.
Que nesta luta intestina pela condução da obra de Maomé, vençam Muhammad Ali e Yusuf Islam, lançando Bin Laden e o Hamas no único lugar que a história lhes reserva, a lata de lixo.
Antônio Carlos dos Santos é engenheiro e escritor, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Durkheim, Bert Brecht e o efeito de distanciamento no teatro

Aristóteles - filósofo do século IV a.C. preconizou um teatro em que o objeto da imitação era a unidade de ação, tempo e lugar. Partindo desta leitura, a peça teatral não poderia enfocar mais de um assunto, a ação não poderia ultrapassar o tempo de vinte e quatro horas, e o lugar poderia, no máximo, chegar ao tamanho de uma cidade.
Mas o que destaca no teatro aristotélico é a catarse, a empatia, a busca de uma relação que procura captar o subconsciente do espectador.
Esta escola teatral fazia com que a platéia vestisse a indumentária das personagens, envolvendo-se na trama dramática de forma inteiramente emotiva e sentimental.
Este contexto, arisco a qualquer possibilidade de reflexão crítica, incomodava os encenadores modernos que procuravam um teatro instigante, provocante, questionador e que possibilitasse uma ação lógica por parte do espectador.
Era necessário encontrar um mecanismo que libertasse a manifestação teatral da prisão catarquica criada por Aristóteles na antiguidade grega.
Independentemente dos caminhos trilhados, todos os encenadores modernos foram encontrar este mecanismo no teatro tradicional milenarmente exercitado no continente asiático.
Antonin Artaud, por exemplo, adepto do teatro metafísico que estimula uma cerimônia mágica e mística era um entusiasta da dança no Teatro de Bali, da precisão quase científica de seus gestos, passos e movimentos. Todas as formas de expressão teatral originadas no Oriente e no Extremo oriente foram cultuadas pelo enigmático encenador francês.
De igual modo, os encenadores que se enveredaram pela escola dialética também se socorreram na cultura oriental para escapar dos nós atados pelo teatro aristotélico.
Reinhardt, Meyerhold, Erwin Piscator e Bert Brecht chegaram a teorizar sobre o ‘efeito do distanciamento’, mecanismo para distanciar o público dos acontecimentos representados no palco.
A questão de fundo é que o mundo mudava celeremente, mas os fundamentos do teatro continuavam ancorados, fundamentalmente, nos modelos criados há séculos antes de Cristo.
A Renascença já abrira caminho para uma nova sociedade. Originou, por exemplo, o movimento filosófico ‘Ilustração’ que formulou novas idéias da vida social, percebendo a coletividade como um organismo. Depois o ‘Positivismo’ que emergiu pára coroar a grande expansão da Europa do século XIX. Neste instante as ciências sociais começam a se consolidar.
Émile Durkheim – apoiando-se na primeira corrente teórica sistematizada do pensamento sociológico, erigida sob a direção de Auguste Comte – estabeleceu com precisão o objeto, o método e as aplicações da nova ciência, a sociologia.
Tanto para os positivistas como para Durkheim, o pesquisador deve assegurar a objetividade de sua análise. E para conseguir alcançá-la deve manter distância, embeber-se de neutralidade em relação aos fatos.
Durkheim denominava ‘prenoções’ os valores e sentimentos pessoais que – necessariamente – o pesquisador deveria ignorar, para que os fatos e acontecimentos estudados fossem analisados à luz do conhecimento científico, sem que a realidade objetiva fosse distorcida, sem que traços de subjetividade afetassem o trabalho.
Esta é uma das fontes onde foram beber os grandes encenadores modernos para sistematizarem, no teatro, o ‘efeito do distanciamento’.
Bertolt Brecht foi buscar no teatro chinês as técnicas utilizadas pelos artistas asiáticos.
O criador do Teatro Épico teoriza:
“(...) o artista chinês não representa como se além das três paredes que o rodeiam existisse, ainda, uma quarta. Manifesta saber que estão assistindo ao que faz. Tal circunstância afasta, desde logo, a possibilidade de vir a produzi-se um determinado gênero de ilusão característico dos palcos europeus. O público já não pode ter, assim, a ilusão de ser o espectador impressentido de um acontecimento em curso. E, desta feita, torna-se perfeitamente supérflua toda uma técnica prolixamente desenvolvida nos palcos europeus; permite a referida técnica ocultar que as cenas estão montadas de forma que possam ser reconhecidas pelo público sem o mínimo esforço. Tal qual os acrobatas, os atores escolhem, bem à vista de todos, as posições que melhor os expõem ao público”.
Bert utiliza o quadro “A fuga de Carlos, o Temerário, depois da batalha de Murten” para explicar sua técnica antiaristotélica:
“(...) o ‘ato de distanciamento’ conseguido nesta pintura – e que o original não possui – de modo algum se deve atribuir a deficiência na reprodução. O militar em fuga, o cavalo, a escolta e a paisagem foram, conscientemente, pintados de modo que produzissem a impressão de um acontecimento extraordinário, de uma catástrofe surpreendente. O pintor, não obstante todas as deficiências que encontramos na sua obra, conseguiu tirar um efeito excelente do imprevisto. É o assombro que lhe comanda o pincel”.
Durkheim afirmava que “o sentimento é objeto da ciência, não é critério de verdade científica”. Já Brecht: “A atuação dos artistas chineses parece ao artista ocidental freqüentemente fria. Não que o teatro chinês renuncie à representação de sentimentos! O artista representa acontecimentos que contêm uma forte tensão emocional; todavia, o seu desempenho jamais denota qualquer calor”.
Os elementos que possibilitaram a sistematização das ciências sociais, sobretudo os estudos de Comte e Durkheim, e as técnicas orientais de representação é que alavancaram a nova relação do teatro com sua platéia.
É Bertolt Brecht quem conclui:
“Um teatro que seja novo necessita, entre outros, do efeito de distanciamento, para exercer crítica social e para apresentar um relato histórico das reformas efetuadas”.
Antônio Carlos dos Santos é dramaturgo, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
