segunda-feira, 30 de junho de 2014

As seis regras do George Orwell sobre como escrever bem

Alexandre Versignassi, na Revista super Interessante
orwell
O George Orwell, aqui em cima, fez um mini-guia de redação. São só seis regras – e tão boas que abrem o Manual de Estilo da Economist, a revista mais bem-escrita do mundo. A elas:
1. Em circunstância alguma utilize um vocábulo extenso onde um reduzido soluciona.
2. Se, por algum acaso, for possível cortar, eliminar, extirpar uma palavra, não se dê de rogado: elimine-a de uma vez por todas.
3. A voz passiva não deve ser utilizada quando a voz ativa puder ser escrita.
4. Nunca use figuras de linguagem que já viraram arroz de festa. Eles podem ser o calcanhar de aquiles do seu texto. Não faça isso, nem pela bagatela de um milhão de reais. Correm boatos de que, só evitando expressões assim, você garantirá textos de qualidade, se tornará uma figurinha carimbada da escrita e será regiamente recompesado por seus leitores, como nunca antes na história deste país.
5. Não empregue um calão tecnicista quando tiver o arbítrio de elocubrar uma elocução de uso anfêmero. E, finalmente:
6. Quebre qualquer uma dessas regras antes de escrever bosta.
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Nossa, como eu sou engraçado. Agora em português:
1. Não use uma palavra longa se uma curta resolve.
2. Se der para tirar alguma palavra, tira.
3. Não use a voz passiva quando der pra usar a ativa.
4. Nunca use figuras de linguagem que você esteja acostumado a ler por aí. Elas viraram lugar-comum. Perderam a graça.
5. Não use um jargão quando você puder imaginar uma palavra do dia-a-dia. E finalmente:
6. Quebre qualquer uma dessas regras antes de escrever algo que soe tosco.
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E agora no original, porque quem escreve bem é ele, não eu:
1. Never use a long word where a short one will do.
2. If it is possible to cut a word out, always cut it out.
3. Never use the passive when you can use the active.
4. Never use a metaphor, simile or other figure of speech which you are used to seeing in print.
5. Never use a foreign phrase, a scientific word, or a jargon word if you can think of an everyday English equivalent; and finally.
6. Break any of these rules sooner than say something outright barbarous.
———
É isso.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

AS LIÇÕES DE JETRO!

Jetro, sacerdote de Mídia, teria se aborrecido ao aguardar durante o dia inteiro, em uma fila, a oportunidade para falar com o genro, Moisés.

Quando, após a longa espera, viu Moisés à sua frente, questionou, sem meias palavras:

-Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o pôr-do-sol?

Ao obter a resposta, ficou mais impaciente ainda. Moisés tentou explicar a longa fila argumentando que a ele acorria todo o povo em busca de solução para seus problemas. Jetro então orientou que Moisés escolhesse, dentre seus homens mais capazes e que não comungassem da avareza, líderes do povo, que seriam designados chefes de 1.000, chefes de 100, chefes de 50 e chefes de 10. A esses chefes caberia a resolução dos problemas de mais simples solução, restando a Moisés somente os que passassem pela peneira da hierarquia dos líderes, os problemas de natureza mais complexa.

Ao atender ao conselho do sogro, Moisés estabeleceu um dos primeiros arranjos organizacionais que se tem referência na civilização.

A um só tempo descentralizou a gestão, hierarquizou o comando e o nível das decisões, delegou competências, incorporou os mais aptos no processo gerencial, conseguindo impregnar a administração do Êxodo de racionalidade, de eficácia.

No período que se estende de 4.000 a.C a 2.000 a.C, os egípcios perceberam as vantagens do planejamento e desenvolveram técnicas eficazes de organização e controle, estimulando a descentralização nas suas organizações.

Apesar do aprendizado humano nessa área remontar a períodos tão distantes, como demonstram os exemplos descritos, no Brasil muito pouco avançamos nesses setores.

É raro o cidadão comum recorrer a uma instituição qualquer, pública ou privada, sem que seja submetido a uma via sofrida e tortuosa de filas e esperas, mais filas e mais esperas. E quando de desvencilha de um setor, lá vai ele enfrentar fila em novo departamento.

Nas repartições públicas, as filas se multiplicam como erva daninha. Rompem em todos os departamentos e setores, desdenhando e fazendo pouco caso dos contribuintes, dos cidadãos.

Num mundo globalizado em que as relações econômicas e financeiras se processam em tempo real, todos nos tornamos escravos do sistema bancário. A agência bancária é, sem dúvida, o lugar onde amargamos as mais longas e estressantes filas, o lugar onde percebemos nossas vidas se perder como areia escapando dentre os dedos. Ao contrário de diminuir, à medida que passam os anos, as filas se tornam mais longas e estressantes.

Em 1994, os 11 maiores bancos do país tiveram um lucro de R$ 1,3 bilhão. Passados nove anos, em 2003, esses mesmos bancos acumularam lucro da ordem de R$ 13,8 bilhões, um incremento de mais de 1.000%. Se uma parte desses lucros - irrisória que fosse - tivesse sido aplicada na erradicação das filas e na qualificação do atendimento ao cliente, o problema estaria solucionado ou ao menos reduzido a um tamanho administrável.

Mas também na educação, a modernização administrativa se restringe ao acervo documental e às cartas de intenções. As filas se multiplicam por todos os lados. Há filas para solicitar informações, filas para se inscrever aos processos seletivos, filas para pré-matricular, filas para confirmação de matrícula, filas para requerer documentos, declarações e certificados, filas para acessar a secretaria, filas para demandar a coordenação pedagógica, filas para interagir com a direção, filas até mesmo para utilizar os equipamentos culturais e esportivos e para fazer uso do banheiro.

E de tal forma as filas se tornaram parte de nosso cotidiano que passamos a acreditar que elas são naturais, inerentes, da estrutura e da essência do sistema.

Se as escolas e unidades de ensino se constituem (deveriam ao menos!) num centro de estudos, pesquisas e reflexões sobre a sociedade e suas organizações, seria razoável supor que pelo menos nelas, este tipo de distorção encontrasse algum tipo de reação. Não é o que ocorre.

Os educadores não podem perder de vista que, pelo fato de lidar com a pesquisa, a reflexão social e a investigação científica, cabe a eles um papel muito maior de racionalizar o fluxo de pessoas – sejam ou não clientes - e os processos de atendimento. Admitir filas em qualquer instituição já é uma distorção, uma mostra da incompetência generalizada da direção responsável. Já filas numa instituição de ensino é aberração injustificável e das mais inaceitáveis.

Quem sabe deveríamos retornar aos idos de Moisés e escutar com mais atenção às lições do velho sacerdote Jetro?!

Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

domingo, 15 de junho de 2014

“Em Cuba, podemos fazer jornalismo que não seja de barricada”

A blogueira cubana fala sobre o seu novo jornal digital, que reúne uma equipe de 11 pessoas, além de colaboradores e colunistas

Yoani Sánchez, na quarta passada, em Madri. / Julian Rojas (EL PAÍS)

Javier Lafuente, do jornal El País

O número 14 persegue Yoani Sánchez há anos. A blogueira oposicionista mais conhecida de Cuba vive no 14 º andar de um prédio em Havana, cidade onde nasceu há 38 anos, num apartamento transformado numa espécie de redação do 14ymedio, a mídia digital que deveria ter nascido em 14 de maio mas que, por problemas técnicos, só veio ao mundo uma semana depois. Em todo caso foi em 2014. Por volta das 8h20 (9h20 em Brasília) o portal era lançado na Rede. Ao mesmo tempo, o Governo de Raúl Castro bloqueava o sonho de Sanchez na ilha, o produto tangível que tinha prometido a sua pequena equipe. "Não me veem mais como a louca do blog", lembra aos risos em uma entrevista em Madri, 14 dias após o nascimento do portal.

A paixão pelo jornalismo chegou a esta filóloga cubana por uma espécie de contágio. Fiel à sua formação, ela se escandalizava com a opção de se dedicar à informação. Foi a companhia do jornalista Reinaldo Escobar, seu parceiro há 21 anos, que a convenceu. Enquanto despontava o Generación Y, o blog que projetou Sanchez como uma das vozes mais importantes da oposição na ilha, ela alimentava a esperança de ter um meio jornalístico. Além disso, por 14 anos, ela ensinou espanhol para alemães. Seus alunos perguntavam constantemente sobre uma realidade que ela não via por estar muito à vista: "Por que a cidade está tão destruída? O que vai acontecer quando Fidel Castro morrer? Eram perguntas que se repetiam e me forçavam a refletir. Isso me ajudou a perceber que eu tinha sensibilidade para captar a realidade e explicá-la".

Foi em dezembro de 2010, depois de receber o prêmio Claus outorgado pela Coroa holandesa, que o verbalizou pela primeira vez. "Era algo que vinha me atormentando havia algum tempo. Vivemos em um país que precisa de informação, um país onde estamos desinformados, alheios ao que acontece no mundo e a nós mesmos", diz Sánchez antes de viajar para um encontro com internautas em Granada. Desde janeiro de 2013, quando o governo cubano aprovou – no dia 14, evidentemente – uma nova política migratória que permitia viagens ao exterior, Yoani Sanchez não parou. "Estou tentando recuperar o tempo perdido, os 10 anos em que não me deixaram viajar", conta com euforia, e confessa ter dormido pouco na noite anterior: "Fiquei até as quatro da manhã navegando na Internet. Para mim, viajar significa ser poder me conectar sem problemas e isso é um estímulo".

A estadia também serviu para continuar trabalhando no 14ymedio, jornal que reúne uma equipe de 11 pessoas, além de colaboradores em algumas províncias da ilha e contribuições de colunistas. Fora de Cuba, três pessoas ajudam com aspectos técnicos da web e milhares "com seus cliques no Facebook e nas redes sociais", admite Sanchez. A média de idade do staff, como ela gosta de se referir a sua redação, é de 28 anos – "tirando o Reinaldo", brinca, referindo-se ao marido de 67 anos. A equipe é composta por dois jornalistas, vários filólogos, um cabeleireiro, um engenheiro civil, uma especialista em TI, uma estomatologista que é excelente fotógrafa... São pessoas dispostas a formar uma equipe. Um dos critérios que definimos foi que não tivessem intenção de deixar o país nos próximos anos, que tivessem o compromisso de permanecer na ilha, algo muito difícil, porque a maioria dos cubanos está de olho no exterior", diz Sanchez. "Queríamos gente que fizesse perguntas, gente curiosa, que não tivesse medo ou não muito medo, o que é complicado", diz a blogueira, que em nenhum momento da conversa se refere a seus redatores pelo nome. Alguns assinam suas matérias com pseudônimo.
O site 14ymedio, de Yoani Sánchez. / EL PAÍS

O funcionamento do 14ymedio é "um pouco esquizofrênico", de acordo com sua diretora, colaboradora do EL PAÍS, ganhadora do prêmio Ortega y Gasset em 2008. Só isso pode explicar o dia a dia de uma mídia digital em uma ilha com pouco acesso à Internet, limitações que, em todo caso, ela não quer que sejam motivo de condescendência: "Não queremos que as pessoas entrem e pensem 'coitadinhos', não queremos que sintam pena de nós”. A experiência de sete anos com seu blog, Generación Y, foi fundamental: "Trabalhamos num suporte offline que nos permite ver como ficaria a página definitiva, e, quando temos material suficiente, vamos para locais públicos com acesso à Internet, ou hotéis, que são bastante caros, e tentamos atualizar o trabalho", diz ela, sem detalhar muito para não dar pistas de como conseguem driblar os obstáculos do Governo cubano.
 
Na ilha, nem a abertura é tão aberta nem a fechadura é tão fechada

A partir do momento em que viram a oportunidade de realizar seu sonho, o objetivo de toda a equipe ficou claro: "Acompanhar os cubanos a partir do ponto de vista da informação no processo que vão viver, quer se chame de transição, derrocada, queda ou mudança... A sociedade cubana precisa ser permeada de informação, debates, opiniões. Somos muito frágeis e podemos cair nas mãos do próximo autoritarismo se a imprensa não fizer um trabalho informativo forte. Em Cuba estão se perguntando quem será o nosso próximo líder. E eu, quem serão nossos futuros cidadãos. Para formar os cidadãos é preciso dar-lhes informação", reflete Sánchez em ritmo vertiginoso, com um discurso que irradia contentamento.

Nem mesmo o fato de o Governo Castro silenciar o 14ymedio desde o início conseguiu freá-los. Os cubanos são o público potencial a quem se dirigem suas informações. Aquelas às quais não têm acesso. Teoricamente. "Em Cuba, nem a abertura é tão aberta, nem a fechadura tão fechada", observa Sanchez com um sorriso, enquanto recoloca suas longas madeixas em um coque dando cinco voltas perfeitas no cabelo. Já em seu lugar, continua: "Não há nada mais atraente que o proibido. Nos anos 70, Pedro Luis Boitel, um prisioneiro político, morreu após uma greve de fome. Minha geração só veio a saber de sua morte quase duas décadas mais tarde. Apenas 24 horas após a morte de Orlando Zapata em 23 de fevereiro de 2010, toda Havana já estava sabendo. O governo não pode mais conter a informação, ela vaza cada vez mais rápido".
O Governo cubano já não pode colocar entraves à informação. Cada vez se filtra mais rápido
Apresentações de livros, reportagens sobre academias em Havana, dicas de cuidados com os cabelos, entrevistas, artigos de opinião... Um simples relance no 14ymedio dá conta da amálgama de conteúdos. "Em Cuba, há duas maneiras de se fazer jornalismo, a oficial, que é horrorosa, e outra de barricada, de denúncia, que criou uma estrutura rígida. Podemos fazer um jornalismo que não seja de barricada. O que acontece é que a realidade cubana é profundamente oposicionista, dá sinais de que o sistema tem de mudar, de que muitas coisas são absurdas".

Entre as primeiras matérias destaca uma entrevista com o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, embora esta não vá ser a tônica habitual: "Queremos abrir uma linha de entrevistas e perfis de gente menos conhecida. Gente que constrói o meu país, qualquer país. É mais interessante contar porque essas pessoas conseguiram alguma coisa ou não conseguiram". Yoani Sanchez afirma não ter "grandes paradigmas" sobre futuras entrevistas, mas sim um desejo, mais um sonho: "Gostaria de ter acesso a uma entrevista coletiva com algum funcionário cubano, seja Raúl Castro, ou o ministro de Relações Exteriores ... seja quem for. Sei o que acabaria acontecendo, eu seria retirada da sala, talvez passasse a noite na cadeia, mas gostaria de fazer algumas perguntas. Por exemplo: onde está o futuro que me prometeram?".

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Irresponsabilidade e criminaldade: não é só a rima que as unificam...


Lucros na África
Por José Casado, em O Globo

Numa tarde de quarta-feira de um ano atrás, 22 de maio, Dilma Rousseff pediu e o Senado concedeu, sem debate, perdão sobre 79% da dívida que o Congo-Brazzaville mantinha pendente com o Brasil há quatro décadas.
O débito somava US$ 353 milhões. O governo brasileiro renunciou a US$ 278 milhões. Aceitou receber US$ 68,8 milhões — em até 20 parcelas trimestrais até 2019 —, do país que é o quarto maior produtor de petróleo da África.
O perdão de Dilma foi o desfecho de uma operação iniciada em 2005 no Ministério da Fazenda, sob o comando de Antonio Palocci. O objetivo era abrir caminho para empreitadas privadas brasileiras no Congo-Brazzaville.
Cravado no coração africano, tem o tamanho de Goiás. É referência no mapa de produção de petróleo e se destaca na rota dos diamantes “de sangue” — sem origem —, moeda corrente no submundo de armas e do narcotráfico.

Seus quatro milhões de habitantes sobrevivem com renda per capita (US$ 2.700) semelhante à do Paraguai. O poder local está concentrado no clã de Denis Sassou Nguesso, de 71 anos, que se tornou um dos mais longevos cleptocratas africanos.
Ex-pobres, os Nguesso detêm bilionário patrimônio no qual constam 66 imóveis de luxo na França, em áreas nobres do eixo Paris-Provence-Riviera — segundo documentos de tribunais de Londres e Paris.

O herdeiro político, Denis Christel Nguesso, dirige os negócios do petróleo e tem peculiar apreço pela ostentação: extratos de seus cartões de crédito, anexados a processos por corrupção na França e no Reino Unido, sugerem uma rotina de extravagâncias na compra de roupas no circuito Paris-Mônaco-Marbella-Dubai.

Para a Justiça britânica é óbvio que ele é financiado “pelos lucros secretos obtidos em negociações da estatal de petróleo”, como afirmou o juiz Stanley Burnton em sentença.

Os Nguesso têm intensificado seus laços com o Brasil. Com o perdão da dívida caloteada nos anos 70, o clã congolês já entregou US$ 1 bilhão em contratos ao grupo Asperbrás, controlado pelos empresários José Roberto e Francisco Carlos Jorge Colnaghi, de Penápolis (SP), cuja receita com a venda de tubos e conexões no mercado brasileiro foi de US$ 15 milhões no ano passado.

Do total contratado, US$ 400 milhões foram para perfuração de quatro mil poços artesianos. O preço médio (US$ 100 mil por furo) ficou dez vezes acima do que é pago pelos países vizinhos.
Outros US$ 200 milhões foram destinados a um mapeamento geológico por fotografia, nove vezes mais caro do que o similar executado em Camarões com crédito do Banco Mundial. E houve mais US$ 500 milhões para a construção de alguns galpões industriais em área próxima da capital.A oposição e organizações civis internacionais com atividade no país estão convencidas de que os Nguesso agregaram a Asperbrás aos seus interesses patrimoniais. Os Colnaghi têm crescido em negócios centro-africanos, às vezes apoiados pelo empresário Maxime Gandzion, predileto dos Nguesso para contratos de petróleo.

No Brasil mantêm relações fluidas com Palocci, um dos mais discretos caciques do PT, ex-ministro e chefe da campanha eleitoral de Lula em 2002 e de Dilma em 2010. Costumam emprestar-lhe aviões da frota familiar, especialmente um modelo Citation (prefixo PT-XAC).

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Luta de titãs pelo futuro do livro

A disputa entre Hachette e Amazon reabre o debate sobre os monopólios na distribuição cultural
Do El País

 Uma funcionária trabalha no centro de distribuição da Amazon em Phoenix. / Ralph Freso (REUTERS)

Ela já usou essa estratégia em 2010, quando a Macmillan tentou mudar as regras do jogo. E tudo indica que a Amazon decidiu voltar a lançar mão da chamada “opção nuclear”. Diante da negativa da menor das Cinco Grandes Editoras dos EUA (Hachette Group Book, filial do grupo francês Hachette) em aceitar que a Amazon aumente a margem de lucro às suas custas, o gigante do comércio online decidiu suprimir o botão de “encomendar por antecipação com um só clic”. E não apenas isso: impôs prazos de entrega de “três a cinco semanas” na venda de seus livros eletrônicos.

A tradução econômica para a Hachette (ou qualquer grande editora) do comportamento abusivo da Amazon — considerado pela atual juíza do Tribunal Supremo dos EUA Sonia Sotomayor como um monopsônio, que, ao contrário do monopólio, se centra no que o vendedor compra e não naquilo que vende — é catastrófica e obriga a editora da vez a planificar às cegas. Quando a Amazon oferece aos futuros compradores em sua página a opção de encomendar por antecipação, a Hachette pode ajustar sua tiragem à demanda prevista. Agora está sem bússola.

A disputa entre Amazon e Hachette é ainda mais dura e as negociações econômicas — das quais praticamente nada foi divulgado, exceto que a Amazon pegou pesado — se fazem mais urgentes quando levamos em conta que um dos livros afetados da Hachette é o novo volume da escritora britânica de best-sellers J. K. Rowling, The Silkworm (O bicho da seda), que começará a ser vendido no próximo dia 19, publicado sob o pseudônimo de Robert Galbraith.
 
Entre os títulos afetados pela disputa figura o novo livro de Rowling

O objetivo final da Amazon é forçar a Hachette a lhe dar melhores condições econômicas na venda de seus livros eletrônicos, mercado controlado em cerca de 90% pela companhia fundada por Jeff Bezos em 1994. No caso da Macmillan, a “opção nuclear” foi exercida apenas durante alguns dias, mas caso tivesse se prolongado, a editora poderia ter ido à falência.

Fontes da indústria do livro garantem que normalmente as editoras dão descontos entre 47% e 53% às livrarias em vendas no atacado, para que essas possam ter mais margem de lucro e atrair mais clientes. Sem comentários por parte da Amazon e da Hachette, suspeita-se que a primeira esteja exigindo da segunda descontos ainda maiores.

A presidenta da Associação de Representantes de Autores (AAR, sigla em inglês), Gail Hochman, garante que seu grupo “deplora qualquer tentativa de qualquer parte que busque prejudicar e castigar autores inocentes — e seus inocentes leitores — com a finalidade de ganhar posições em uma disputa de negócios”. “Acreditamos que tais ações equivalem a fazer reféns para conseguir concessões e são indefensáveis”.

Na opinião de Hochman, o que a Amazon está fazendo é “uma tática brutal e manipuladora que, ironicamente, provém de uma companhia que proclama que seu objetivo é satisfazer totalmente as necessidades de leitura e os desejos de seus clientes”.

A batalha que Amazon e Hachette travam a portas fechadas remonta a alguns anos atrás, quando as Cinco Grandes (Harper Collins; Pearson; Simon & Schuster; Macmillan e Hachette) se aliaram para fazer contratos de agência ou varejistas para comercializar livros eletrônicos. O momento não foi escolhido por acaso, pois coincidiu com o lançamento por parte da Apple de sua loja iBooks. Então, a Amazon aceitou as regras impostas pelas rivais, o que significou um aumento de preço que desejavam os editores e autores (a cota de mercado da Amazon passou de 90% a menos de 70% e os preços aumentaram cerca de 20%) e decidiu centrar-se em editar seus próprios livros a um preço muito baixo. Depois de claudicar, chegou o momento da revanche da Amazon e a Macmillan pagou o pato.

Editores de todo o mundo contemplam inquietos e quase sem informação o desenrolar da disputa, porque consideram que “todos são Hachette agora”. Na recente BookExpo America de Manhattan, vários autores se queixaram da atitude daquela que é uma das mais poderosas corporações dos Estados Unidos. Na opinião deles, “a Amazon quer controlar a venda de livros, a compra e inclusive a publicação, o que pode se converter em uma tragédia nacional”.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A literatura na 1ª Guerra

Cultura
Muitos textos foram produzidos durante e sobre o primeiro grande conflito mundial, que também mudou a relação entre escritores e a guerra. Owen, Lawrence e Wittgenstein estão entre os pensadores da época.

Da Deutsche Welle
 
Ernst Stadler Ernst Stadler (1883-1914)
 
A relação entre literatura e guerra é tão antiga quanto a história de cada uma destas manifestações humanas. Um dos textos fundadores da Literatura Ocidental é o relato de uma guerra: A Ilíada, de Homero. Em textos ainda mais antigos que sobreviveram a guerras posteriores – nas quais tudo se queimou, de casas a bibliotecas – escritores celebraram vitórias ou lamentaram derrotas. É o caso de Lamento pela Destruição de Ur, escrito há quatro mil anos e que descreve a devastação de uma das mais antigas cidades do mundo durante uma invasão estrangeira.

O papel do poeta épico era cantar as glórias de sua nação. São conhecidas as histórias de reis que levavam poetas a guerras para que seus feitos fossem imortalizados. No caso de derrotas, os poetas muitas vezes transformavam os acontecimentos em mitos de coragem e bravura, propagandas militaristas de caráter patriótico. No poema The Charge of the Light Brigade, de Alfred Tennyson, por exemplo, o massacre da cavalaria britânica numa batalha da Guerra da Crimeia é alçado a mito.

Essa relação cultural com o caráter bélico de impérios ainda era muito forte no início do século 20, e não foram poucos os autores que se lançaram à Primeira Guerra Mundial com fervor literário e patriótico. É o caso dos poetas britânicos Rupert Brooke e Siegfried Sassoon, do francês Guillaume Apollinaire e do alemão Ernst Stadler, que morreriam no conflito ou por ferimentos decorrentes dele. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, então em Oxford, partiria para as trincheiras acreditando que elas "fariam dele um homem". Era o tempo dos futuristas, que celebravam a guerra como a grande higiene do mundo.

Escrevendo em plena guerra
Rupert Brooke – que morreria antes de sequer lutar, em decorrência de uma septicemia causada por uma picada de mosquito – não teve tempo de ver o que aqueles que chegaram às trincheiras logo perceberam: a loucura do seu entusiasmo juvenil por glórias militares, quando confrontados com a realidade da guerra.

Nos poemas de Siegfried Sassoon, há uma transformação clara. Seus versos, que foram, desde o princípio, contra a percepção pública do conflito, influenciaram o grande poeta britânico da Primeira Guerra Wilfred Owen. Poemas seus como Dulce et Decorum Est e Anthem for Doomed Youth permanecem como monumentos contra aqueles crimes de megalomania imperial. Owen morreu em novembro de 1918, apenas uma semana antes do armistício.

Outros autores ingleses importantes foram Isaac Rosenberg – que morreu numa batalha também em 1918 e nos deixou textos assombrosos sobre a vida nas trincheiras –, e também Yvor Gurney e David Jones. Uma figura nem sempre associada ao conflito, por ter lutado na África, fez, no entanto, de parte de suas memórias da Primeira Guerra um dos mais conhecidos livros que relatam acontecimentos do período: T.E. Lawrence, o Lawrence da Arábia, e seu Sete Pilares da Sabedoria, publicado em 1922.

Entre os escritores germânicos, a guerra tornou-se a confirmação das profecias de destruição e apocalipse que os autores expressionistas vinham compondo há alguns anos. Gottfried Benn, que serviu na guerra como médico, havia publicado em 1912 seu primeiro livro, intitulado Morgue (Necrotério).
Para escritores germânicos, a guerra confirmou profecias de destruição e apocalipse dos expressionistas

Outros poetas que lutaram e escreveram de forma desiludida durante o conflito incluem o austríaco Georg Trakl, também médico e que se suicidou em 1914, e ainda os alemães Ernst Stadler, Alfred Lichtenstein, August Stramm e Kurd Adler, todos mortos entre 1914 e 1916. Dos romances alemães sobre a Primeira Guerra Mundial, o mais conhecido é sem dúvida Im Westen nichts Neues (Nada de novo no front, 1929), de Erich Maria Remarque, que captura a transformação do entusiasmo juvenil de muitos soldados desiludidos com a realidade da guerra.

Em Zurique, os alemães Hugo Ball, Emmy Hennings, Walter Serner e Hans Arp lançaram sua campanha antimilitarista e suas críticas veementes à cultura bélica alemã em meio ao Cabaret Voltaire e ao Dadaísmo. Ludwig Wittgenstein levou à batalha o manuscrito de seu Tractatus Logico-Philosophicus. O texto, projetado inicialmente como um ensaio sobre lógica, ganharia seus questionamentos sobre a natureza do místico e de Deus durante a guerra e seus horrores, escreve a crítica norte-americana Marjorie Perloff no livro Wittgenstein´s Ladder, baseado na biografia monumental de Ray Monk para o pensador austríaco. Também neste clima de destruição, mesmo que longe dos campos de batalha, um dos maiores escritores do século 20 produziria textos como A metamorfose e O Processo: Franz Kafka.

O impacto pós-guerra e sua literatura
Muitos historiadores argumentam hoje que não se pode mais falar em Primeira e Segunda Guerra Mundial, mas numa única Grande Guerra. As consequências do conflito entre 1914 e 1918 foram sentidas para além dele. Na Guerra Civil decorrente da Revolução Russa de 1917, por exemplo, um batalhão de refugiados entraria, em muitos casos, numa Alemanha devastada pela guerra e pelas reparações impostas pelo Tratado de Versalhes.

As conturbações políticas da República de Weimar, que logo desembocariam no Regime Nazista e na Segunda Guerra, foram muito bem retratadas no grande romance alemão do período, Berlin Alexanderplatz (1929), de Alfred Döblin, e no trabalho de expressionistas que sobreviveram à Primeira Guerra, como Bertolt Brecht. A morte de vários expoentes das vanguardas europeias durante o conflito teria consequências drásticas para a arte do período entreguerras.

Após a Primeira Guerra, diminuiu a frequência com que escritores se lançaram à glorificação bélica, como em alguns daqueles autores do início do século. Em especial com os horrores da Segunda Guerra, a produção de autores vê uma transformação. A lamentação pela destruição das cidades permanece, como na trilogia de Hilda Doolittle (mais conhecida como H.D.), The Walls do not Fall (1944), Tribute to the Angels (1945) e The Flowering of the Rod (1946). Entretanto, o apelo patriótico toma forma de chamada à resistência contra a barbárie nazista. E quando um poeta britânico como Keith Douglas luta na Segunda Guerra, na qual morreria em junho de 1944, é desde o início sem as vanglórias de um Rupert Brooke.

Mesmo que longe dos campos de batalha, clima de destruição influenciou obra de Kafka

A literatura do período no Brasil
O Brasil, inicialmente neutro, só declarou guerra ao Império Alemão em outubro de 1917, após navios brasileiros serem afundados por submarinos alemães. O país, no entanto, não produziu literatura diretamente associada ao conflito.
Envolta em crises políticas e econômicas, a guerra ocorre exatamente durante o mandato do presidente Venceslau Brás. Naquele momento, o establishment literário do país era comandado pelos parnasianos e outros beletristas, como Coelho Neto.

Era no subterrâneo das letras nacionais que a melhor literatura da época era produzida, voltada para as violências internas. Era o tempo da grande prosa de Lima Barreto, satirizando a veleidades nacionalistas em Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) e Os Bruzundangas (1922), ou escrevendo dos porões sob os pés da sociedade rica e branca brasileira, como no incrível Cemitério dos Vivos, publicado décadas depois de sua morte. Era à sátira que também recorria, à época, o escritor João do Rio.

Um dos paralelos mais interessantes entre a literatura brasileira e a alemã dá-se neste momento, na obra de Augusto dos Anjos. Seu único livro publicado em vida foi Eu (1912), no mesmo ano em que Gottfried Benn lança seu Morgue. A confluência entre o trabalho de Augusto dos Anjos e o de seus contemporâneos alemães, expressionistas como Benn, Jakob van Hoddis e Georg Heym, é impressionante, como se fossem membros do mesmo movimento separados pelo oceano. Em poemas como Monólogo de uma sombra, Augusto dos Anjos parecia prever, como seus colegas alemães, as catástrofes que logo engoliriam o século.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Mário de Sá-Carneiro

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Cesariny declamando "Quase".





Biografia
Adriana Calcanhoto e "Eu não sou eu nem o outro".




 Caranguejola

•Mário de Sá Carneiro (1890-1916), exemplar digitalizado do livro editado pela Biblioteca Nacional de Lisboa para a comemoração do centenário do escritor


Outras obras

A Confissão de Lúcio

Dispersão

Sete Canções de Declínio

Dispersão e Indícios de Ouro

Bárbaro

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Fábulas de Antônio Carlos

Sobre Raposas-escorpiões

A Raposa resolveu se dedicar à psique, à alma, ao espírito, à personalidade das pessoas. E o faria através do estudo e da análise do comportamento humano, se debruçando mais amiúde à reconciliação de casais.

Foi estudar nas melhores faculdades brasileiras e, em todos os cursos, defendeu teses homéricas, profundas, que trouxeram verdadeira revolução ao desenvolvimento da ciência.

Concluído o mestrado, doutorado e o pós-doutorado, julgou-se em condições de suceder Deus em poder e glória, e passou a ostentar no nome a alcunha ‘Khristós’.

No campo da psicologia educacional, por exemplo, inovou radicalmente, suprimindo gramática e Camões dos estudos da língua portuguesa e ordenando queimar em praça pública todos os livros de matemática. No lugar de Camões fez inserir, no currículo escolar, a vida do coronel da Cavalaria-Auxiliar dos Campos Gerais Silvério dos Reis, agora elevado à condição de herói nacional. E convenceu a nata dos educadores a substituir matemática por Istudo da Incrusão Suciá que contemplava Participação & Cidadania, Ações afirmativas & Políticas públicas contra as desigualdades raciais, e Perspectivas de gênero & Responsabilidade Social.

Na psicologia industrial adotou princípios e métodos psicológicos relativos ao aumento da produção que passaram pela reestatização da economia e pela criação de uma república sindical irrigada à peleguismo e Whisky escocês 12 anos.

Reinseriu na psicologia social as velhas práticas clientelistas, substituindo o antigo par de botinas por cestas básicas e bolsas-esmolas, oxigenando as relações humanas no tabuleiro comunitário.

A inesgotável bagagem teórica da Raposa, acumulada em décadas de cursos e estudos, não manteve seu nível intelectual muito distante dos ostentados pelos jumentos e porcos do mato, a ponto de Henry Lewis tê-la repreendido em sonhos alegando que a escolada psicóloga “não seria capaz de escrever o nome OTO de trás para a frente”.

Mas nada a demoveu de se dedicar, de corpo e alma, à orientação de casais com problemas conjugais. O problema? Não apareciam pacientes, sequer um, unzinho que fosse. É que toda a vizinhança já sabia – e fazia questão de divulgar- que a consultora sentimental redentora de casamentos destruídos e semi-destroçados andava às turras com os próprios familiares, o marido encarecendo a separação pela enésima vez. De modo que, aparecendo a primeira vítima-freguesa ficou mais feliz do que pinto em restolho de lixo. Tinham em comum a vaidade, o ar esnobe, a empáfia, a ostentação, a ganância desmedida, e o costume de caluniar e apregoar mentiras.

Sem dar tempo sequer para a paciente se apresentar, a Raposa foi logo se adiantando:
- É simples, sem mistérios, sem viés de complexidade científica: seu casamento será restaurado prontamente. – E prosseguiu tomada de autoridade acadêmica: - Basta internalizar na parte mais indevassável e profunda do seu ser que, doravante, sua primeira prioridade será você; e repetir incessantemente que sua segunda prioridade será também você; e apregoar, sem traço de constrangimento ou remorso, que a sua terceira prioridade será, rigorosamente, você.

Como que arrebatadas por um espírito terrífico recém-fugido da escuridão do Tártaro, ambas ecoaram em uníssono:
- O resto é resto.

Então passaram a se elogiar mutuamente, trocando presentes, jurando amizade eterna, urdindo tramas e ciladas contra seus companheiros. A troca de bajulação foi tamanha que esgotaram o vocabulário das línguas conhecidas, exaurindo o repertório de palavras e expressões toscas e chulas. Apesar de Raposas, haviam tomado dos escorpiões o caráter.

E marcaram o reencontro para o mês seguinte.

No dia marcado, decaídas, ostentavam colossais olheiras em função do oceano de lágrimas vertidas, pois que ambas haviam perdido os companheiros. Os respectivos maridos enfadaram-se das raposas-esposas que só conseguiam rastejar do jeito sinistro e traiçoero dos escorpiões. E como eram daqueles senhores de vida e luz que habitam as estrelas, foram ganhar a vida alhures, nas alturas onde só águias e arcanjos arriscam alcançar.

Moral da história: aunque la mona se vista de seda, mona se queda. Mesmo vestida de seda, a macaca será sempre macaca. Os adornos – teóricos e físicos – jamais encobrirão os grandes defeitos, aqueles que se referem ao caráter.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sobre cantorias, escolhas & caráter

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(...)
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
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Sobre cantorias, escolhas & caráter

Os que gostam do velho Gonzagão jamais esquecem a bela melodia – não por acaso, sábia lição:

“(...) mas doutor, uma esmola pra um homem que é são
ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão (...)”

A bela obra é de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e ficou no imaginário popular e nos anais da música popular brasileira como um libelo à coragem, um vigoroso protesto contra a cultura da esmola, da vassalagem e do clientelismo.

“Vozes da Seca” deveria ser uma de nossas mais cultuadas músicas, aquelas ditas “de travesseiro”. Infelizmente não é. E por quê? Uma simples incursão pela cantoria, pelos primorosos versos da composição, não deveria dar margem a dúvidas:

Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos

Gonzagão é como ficou conhecido Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em dezembro de 1912, cidade de Exu, e encantado em 1989, no Recife. Por tudo o que fez, foi coroado pelo povo "rei do baião".

Aprendeu a tocar sanfona com o pai e ainda adolescente ja se apresentava em festas e feiras livres. “Asa Branca”, elaborada em parceria com Humberto Teixeira, lhe traria a consagração definitiva.

Os antigos sempre souberam dos perigos da ‘generosidade’ estatal travestida quase que invariavelmente com nomes pomposos, mas que redundam sempre na velha e surrada esmola, na ‘compra’ de votos e consciências. Os mais sábios tentavam responder com exemplos, lições, ensinamentos aprendidos ao longo da história. E nem sempre lograram êxito. Quem não se lembra das frases simples – singelas e profundas – tecidas por nossos antepassados? Algumas atravessaram o tempo perpassando os séculos, da pré-história à era contemporânea. É como se estivessem indelevelmente tatuadas na memória humana. Talvez a mais incisiva seja: “Bem melhor que dar o peixe, é ensinar a pescar”.

Mas, pelo que se percebe, boa parte dos governos reluta em assimilar o ensinamento tão relevante para a cidadania. A maioria dos programas governamentais gravita em torno de uma cobiçada fábrica: a que produz torrentes de ilusões e votos.


Para dourar a pílula ou untá-la com uma casquinha de verniz, convencionou-se fazer referência a esse tipo de assistencialismo como “políticas & ações emergenciais para debelar a fome endêmica”. Nome que empresta pompa e circunstância ao ‘dar o peixe’, que resulta em vício, dependência, e na perda de algo caro e precioso para nossos avós, a vergonha na cara. Já quanto ao ‘ensinar a pescar’, à institucionalização de portas de saída; quanto ao abrir janelas, alargar horizontes, assegurar profissão, emprego ou renda sustentável, gerar oportunidades e democratizá-las – essas ações ficam para ad calendas graecas.

O Bolsa Família, por exemplo, é um dos mais importantes programas sociais do governo federal.
Concebido como um programa de transferência direta de renda, beneficia famílias em situação de pobreza, aquelas com renda mensal de R$ 60,01 a R$ 120,00 por pessoa. Contempla também as famílias que se encontram em situação de extrema pobreza, as que não conseguem renda mensal superior a R$ 60,00 por pessoa.

As origens do programa estão ligadas a governos estaduais e municipais, como o de Cristovam Buarque, que, quando governador de Brasília, implementou o Bolsa Escola, garantindo renda às famílias que, efetivamente, assegurassem a freqüência de seus filhos na escola. O governo de Fernando Henrique deu dimensão nacional ao programa.

Sob o ponto de vista emergencial o programa tem cumprido seus objetivos. Só no período de 2001 a 2004 foi o responsável por uma queda de mais de 20% no índice de desigualdade do país. A renda mensal das famílias atendidas aumentou nada menos que 21%. São vitórias retumbantes, expressivas, a se comemorar com desfiles, festanças & fogos de artifício.

Portanto, enganam-se (ou estão obliterados pela má-fé) os que desdenham o programa. Na parte que funciona, os benefícios são eloqüentes. O programa exige, por exemplo, que todas as crianças com idade entre 6 e 15 anos tenham freqüência escolar mínima de 85%; e as que se encontram em idade de vacinação devam ter a carteira em dia. Das gestantes exige o exame pré-natal. A punição para os que descumprem requisitos pode levar à exclusão do programa.

Porém, se as vantagens e qualidades não podem ser ignoradas, os problemas também não.

E um dos inaceitáveis é que o governo faz vista grossa dos sistemas de avaliação e controle. Só a partir do final de 2004 se instituiu a sistemática de controle da freqüência escolar. E as regras de exclusão só foram estabelecidas no findar de 2005. Adiantou? Nada. Jamais alguém foi excluído do programa. Como os controles são frágeis e não há perigo de punições, muitas famílias tiraram as crianças da escola.

Outro problema da mais alta gravidade – e não há quem ignore – é que o programa se amesquinha à medida que não disponibiliza portas de saída, o que redunda em manter as famílias aprisionadas à miséria, à dependência indigente. Sinônimo da megaindústria da esmola? Megafábrica de votos.

Conseqüência imediata: ao mesmo tempo em que cresce o número de simpatizantes e uma potencial massa de votos, cresce também – entre os dependentes do Bolsa Família – o abandono escolar.

Apenas quando, com mais atenção, nos debruçamos sobre os números do Bolsa Família é que conseguimos nos dar conta do gigantismo e da real dimensão do programa. Um quarto da população do Brasil depende do Bolsa Família. São 45,8 milhões de habitantes, mais que toda a população da Argentina. E o mais grave, de todo inaceitável: as crianças beneficiárias não estão completando sequer os oito anos do ensino fundamental.

Tem sido cada vez mais comum cantores contemporâneos regravarem músicas antigas, sucessos do passado. Procura-se um para reconduzir “Vozes da Seca” às primeiras posições das paradas. Seria um tributo a Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Para os governos, uma lição sobre as melhores escolhas e opções, as que efetivamente levam à cidadania. E para a sociedade, uma mistura de beleza e encantamento com lições sobre o caráter e a vergonha na cara.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br




terça-feira, 6 de maio de 2014

Novas datas de atualização dos blogs


Meus queridos, doravante, os blogs serão atualizados às segundas-feiras.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A parte perdida da vida de Shakespeare

Da revista Veja



Cansado de responder à mesma pergunta aonde quer que fosse, o pesquisador e professor da Universidade de Columbia James Shapiro dedicou anos de sua vida para escrever o livro Quem Escreveu Shakespeare?  – A História de Mais de Quatro Séculos de Disputa pela Herança de uma Autoria (tradução de Christian Schwartz e Liliana Negrello, Nossa Cultura, 376 páginas, 59 reais). “Escrevi esse livro não só para mim, que estou cansado de responder a essa questão, mas para todos os professores. Agora, quando ouvem essa pergunta, eles podem dizer: ‘Vão ler o livro do Shapiro’. Ele custou anos da minha vida, mas facilitou a de todo mundo”, diz, com bom humor o americano que foi uma das atrações da Flip deste ano.
Estudioso de William Shakespeare há 25 anos, Shapiro já perdeu a conta de quantas vezes foi questionado sobre a autoria das obras do poeta e dramaturgo inglês. Segundo ele, já disseram que Shakespeare não escreveu Hamlet porque não havia sido capturado por piratas, como o personagem principal foi. “É muito perigoso criar um argumento dizendo que Hamlet era autobiográfico, coisa impossível de comprovar”, explica. Segundo o americano, entre os que duvidaram da autoria das peças de Shakespeare há gente inteligente como Mark Twain, Delia Bacon e até Sigmund Freud, que tentou utilizar o mesmo Hamlet para provar sua teoria do complexo de Édipo.
Os questionamentos sobre Shakespeare foram propiciados pela nebulosidade que encobre a vida do dramaturgo. Interpretações e inferências malucas sobre o autor inglês levaram Shapiro a se tornar o maior rival acadêmico de seu vizinho e amigo Stephen Greenblatt, professor da Universidade de Harvard e um dos maiores especialistas no tema. “Greenblatt cai na tentação de achar que sabe o suficiente sobre a vida de Shakespeare, mas não há evidências suficientes sobre ele”, diz. Apesar de se conhecerem há anos, a Flip foi o primeiro evento a reunir os dois num debate sobre o dramaturgo.
Para rebater as dúvidas, Shapiro oferece no livro um amplo painel da Inglaterra da época de Shakespeare (1564-1616). “Mesmo que eu não saiba muito da própria vida dele, sei o suficiente sobre o que estava acontecendo à sua volta”, diz o pesquisador, autor também de microbiografias de um ano na vida de Shakespeare. Depois da publicação de 1599: Um Ano na Vida de William Shakespeare, em 2005, ele agora trabalha em um livro sobre 1606, ano em que o dramaturgo inglês escreveu Rei LearMacbeth e A Tragédia de Antonio e Cleópatra. A obra deve levar até 10 anos para ficar pronta, ao fim dos quais Shapiro  planeja se aposentar.
Leia abaixo a entrevista exclusiva de James Shapiro a VEJA Meus Livros, feita em Paraty.

Em que tipo de assuntos o senhor e Stephen Greenblatt discordam? A discordância é sobre a questão de autoria? Não discordamos sobre a questão da autoria. Discordamos quanto às inferências de Greenblatt: para ele, Hamlet fala da relação de Shakespeare com o pai e o filho, mas ele tanto podia estar pensando no pai ao escrever como no tio, na filha, no homem da mesa ao lado. Nós não sabemos. Não podemos entrar em sua cabeça. Tudo o que temos é a história que ele criou, que é ficção. É muito perigoso tentar tirar um fato de uma ficção. De forma semelhante, há muitas pessoas dizendo que outros autores escreveram Shakespeare, mas não há nenhuma evidência disso.
Em que tipo de situação as pessoas dizem isso? Vou dar um exemplo. Em Hamlet, o personagem principal é capturado por piratas. Shakespeare nunca foi capturado por piratas, mas Edward de Oxford, uns dos autores que as pessoas dizem ter escrito Shakespeare, foi capturado. Então, as pessoas fazem o seguinte silogismo: “Hamlet foi capturado por piratas, Oxford foi capturado por piratas, Shakespeare nunca foi capturado por piratas. Quem você acha que escreveu Hamlet?” É muito perigoso criar um argumento dizendo que Hamlet é autobiográfico. Pode ser, mas nós não sabemos como, onde e quando ele é autobiográfico.
Você deseja descobrir algo novo sobre Shakespeare? Sim. Não sei que novidade descobrirei e se vai acontecer. Eu quero entender como Shakespeare criou bons trabalhos literários e o que estava acontecendo em seu mundo, como a pressão política, o clima e a economia, coisas que existem nas peças que ele estava escrevendo. Para fazer isso, tenho que entender as questões que as pessoas fazem sobre Shakespeare. Uma delas, não importa aonde eu vou, não importa com quem eu estou falando, é: ‘Shakespeare escreveu Shakespeare?’. Estou tão cansado de responder a essa questão em todos os lugares que senti que tinha de escrever um livro para respondê-la.
Entre os intelectuais que fazem essa pergunta, está Sigmund Freud. O senhor acha que Freud começou a questionar a autoria de Shakespeare para usar a obra Hamlet como prova de sua teoria do complexo de Édipo? Quando era jovem, Freud achava que Shakespeare tinha escrito Shakespeare. Ele não tinha dúvidas. No entanto, em 1899, ele desenvolveu sua teoria de Édipo baseado na leitura da tragédia grega e, principalmente, na leitura de uma biografia de Shakespeare, que dizia que o dramaturgo estava passando pela crise que ele chamaria de Édipo quando escreveu Hamlet, porque seu pai tinha acabado de morrer. Ele teria escrito Hamlet, então, como forma de 
trabalhar um trauma. Isso explicou para Freud como sua própria teoria estava certa e como ele estava apto para explicar a obra melhor do que ninguém. No entanto, 13 anos depois, um livro do mesmo autor da biografia foi publicado e , nele, o escritor disse que errou a data errada em que Shakespeare havia escrito o livro em dois anos. O certo é que o pai ainda estava vivo quando Shakespeare escreveu Hamlet. Para Freud, ou o livro não tinha nada a ver com a morte do pai ou outra pessoa escreveu essa obra. Freud decidiu que quem escreveu foi alguém que já tinha o pai morto. Freud é um gênio e, às vezes, gênios saem dos trilhos.
O senhor está escrevendo outro livro sobre Shakespeare?Meu próximo livro é sobre o ano de 1606, no qual eu tento entender tudo o que aconteceu no período. Para mim, 1606 é um ano muito interessante por diversas razões. A primeira é que, na maior parte do ano, todos os teatros em Londres fecharam por causa da peste e muitas pessoas morreram por causa da doença. Eu me pergunto como era viver nessa realidade e como isso influenciou as peças que ele estava escrevendo. Macbeth foi escrita nesse ano. Em um momento da obra, Shakespeare descreve como um jovem  morre antes que a flor que ele colocou em seu chapéu murchasse. Essa era a rapidez com que as pessoas morriam de peste. Quero entender a relação entre peste e criatividade. Minha outra motivação é que Shakespeare também publicou duas de suas principais peças nesse ano: Rei Lear e A Tragédia de Antonio e Cleópatra. Todas as três são boas tragédias.
Como o senhor passa da pesquisa ao texto? Eu não sei como cada informação pode ser importante, mas sei que, se eu acumular informação por anos, uma história emerge. Eu pesquiso, leio tudo o que foi publicado no ano que estou estudando, desde literatura até julgamentos. Uma das palavras-chave de Macbeth, por exemplo, é “equivocar-se”, que significa mentir, dizer suas coisas ao mesmo tempo, ser ambíguo. Para entender porque essa palavra era tão importante para Shakespeare, comecei a ler vários documentos, como convocações e cartas e descobri que todos na época estavam obcecados com ambiguidade.
Como o senhor tem tempo para ensinar e pesquisar? Eu não durmo e não tenho muitos hobbies. Se eu vivesse em Paraty, não seria capaz de escrever esse livro. O primeiro livro que escrevi me custou 15 anos. Dessa vez, a obra sobre 1606 levará menos tempo, algo em torno de 10 anos, porque eu sei como achar as coisas. Em 2015, estará pronto.
Como é o trabalho de pesquisa para as obras? O trabalho é muito solitário e não é divertido. Eu preferiria estar no cinema, em um jogo de beisebol, mas isso é o que eu faço. Eu não seria feliz se não fizesse isso. Quando não estou dormindo, estou pensando sobre isso. Nos últimos seis meses, você não teria gostado de morar comigo, porque penso nisso o tempo inteiro. É muito difícil ser uma pessoa legal quando você está escrevendo um livro. É como um demônio que entra em você. Quando eu estou terminando um livro, eu vou para Londres. Sentem minha falta, mas não tanto, porque, se eu estivesse terminando o livro em casa, eles gostariam que eu estivesse em Londres. Meu filho e minha mulher não me deixam escrever em casa. Eles falam para eu sair de casa e escrever em outro lugar.
O senhor sofre por não saber como Shakespeare era como pessoa? Eu adoraria saber como Shakespeare era como uma pessoa. Cinquenta anos depois de Shakespeare morrer, sua filha ainda estava viva, mas ninguém foi perguntar para ela como seu pai era. Nunca saberei como ele era, mas, se eu puder reconstruir seu mundo, suas peças, eu entenderei um pouco mais sobre o tipo de escritor que ele era e com quais tipos de coisa ele estava preocupado. Esse é o meu ponto particular de aproximação com Shakespeare. Ninguém mais faz isso. Gostaria de saber mais sobre ele, mas não tem jeito, só posso fantasiar como ele era.
É frustrante? Não. Existem coisas sobre minha mulher, com quem durmo há 20 anos, que eu nunca vou saber. Shakespeare morreu há 400 anos e eu nunca o conheci. Então, eu sei que eu nunca o conhecerei. Eu não fico frustrado, fico apenas desapontado por não saber.
Raissa Pascoal

quinta-feira, 1 de maio de 2014

450 anos de Shakespeare: uma singela homenagem


Há 450 anos nascia William Shakespeare, um dos grandes gênios da humanidade, que exerceria enorme influência no pensamento da civilização ocidental. Como singela homenagem aos momentos de prazer que o Bardo me propiciou, seguem trechos de algumas de suas peças:
“Não concedais à natureza mais do que aquilo que ela exige e a vida do homem será de tão baixo valor como a dos animais.” (Lear, em Rei Lear)
“‘Não está dentro de minha capacidade’, uma ova! Está em nós ser isso ou aquilo outro. Nossos corpos são jardins, dos quais nossas vontades são os jardineiros. [...] Se à balança de nossas vidas faltasse o prato da razão para estabilizar o outro, da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossas natureza acabariam por nos conduzir a conclusões absurdamente grotescas. Mas dispomos da razão para resfriar nossos impulsos de paixão e fúria, os ardores de nossa carne, nossos desejos, as luxurias desenfreadas. Vejo, portanto, isso que você chama de amor como sendo mero rebentão ou enxerto.” (Iago, em Otelo)
“É morta… Não devia ser agora. Sempre seria tempo para ouvir-se essas palavras. Amanhã, volvendo trás amanhã e trás amanhã de novo. Vai, a pequenos passos, dia-a-dia, até a última sílaba do tempo inscrito. E todos esses nossos conténs têm alumiado aos tontos que nós somos nossos caminho para o pó da morte. Breve candeia, apaga-te! Que a vida é uma sombra ambulante: um pobre ator que gesticula em cena uma hora ou duas, depois não se ouve mais; um conto cheio de bulha e fúria, dito por um louco, significando nada.” (Macbeth, em Macbeth)
“Delírio! O meu pulso, como o seu, marca o tempo calmamente, e soa música saudável. Não é loucura o que eu proferi; é só me pôr à prova que repito, palavra por palavra, aquilo que a loucura embolaria. Mãe, pela graça divina, não passa em tua alma esse enganoso ungüento de que não é o teu delito que fala, mas a minha demência. Isso é apenas uma pele fina cobrindo tua alma gangrenada, enquanto a pútrida corrupção, em infecção oculta, corrói tudo por dentro. Confessa-te ao céu; arrepende-te do que se passou e evita o que há de vir; não joga estrume sobre ervas daninhas que elas crescem ainda com mais força. Perdoa-me por minha virtude: É! Na velhacaria destes tempos flácidos, a virtude tem que pedir perdão ao vício; sim, curvar-se e bajulá-lo pra que ele permita que ela o beneficie.” (Hamlet, em Hamlet)
“Em tempos de paz, nada fica melhor em um homem que a humildade e uma modesta calma. Mas, quando a guerra vem trovejar em nossos ouvidos, então imitem a ação do tigre: tencionem os músculos, evoquem todo o seu sangue, disfarcem sua natureza simpática com uma raiva cruel, dura. Depois, emprestem ao olhar um aspecto pavoroso, permitam-se ter os olhos esbugalhados; que, para enxergar, eles avancem nas órbitas, como canhões de bronze. Deixem as sobrancelhas tomarem conta do semblante: o cenho franzido sobre os olhos de modo tão temerário quanto um penhasco debruçado sobre o mar selvagem, e este lhe corroendo a base com a energia devastadora das águas.” (Rei, em Henrique V)
“Embora os altos crimes por eles perpetrados tenham me deixado em carne viva, ainda assim tomo o partido de minha razão, porquanto mais nobre, contra minha fúria. A ação mostra-se mais rara na virtude que na vingança. Em sendo eles penitentes, a única intenção de meu propósito agora pára de somar rugas à minha fronte.” (Próspero, em A Tempestade)
“Mas acontece que tal homem não existe, porque, meu irmão, os homens sabem aconselhar e consolar quando a dor é aquela que eles próprios não sentem. [...] Claro, claro, é obrigação de todo homem pedir paciência àqueles que se contorcem sob o peso da tristeza, mas não existe em homem algum nem a virtude nem a capacidade de ser tão moral assim quando é ele quem tem de suportar o mesmo fardo. Portanto, não me dês conselhos; meu desalento grita mais alto que tuas censuras.” (Leonato, em Muito Barulho por Nada)
“Apenas, meu bom amo, por mais que admiremos essa virtude, essa disciplina moral, rogo-lhe não nos tornemos estóicos ou insensíveis. Nem tão devotos da ética de Aristóteles a ponto de achar Ovídio desprezível. Apóie a lógica nos seus conhecimentos do mundo e pratique a retórica na conversa usual; inspire-se na música e na poesia e não tome da matemática e da metafísica mais do que o estômago pode suportar; o que não dá prazer não dá proveito. Em resumo, senhor, estude apenas o que lhe agradar.” (Trânio, em A Megera Domada)
Shakespeare muito me agrada. Espero que agrade ao leitor também…
Rodrigo Constantino, na Revista Veja

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Mostra fotográfica revela atualidade de Shakespeare

Do Estadão
Por que a obra de Shakespeare é tão atual? No ano que marca os 450 anos de nascimento do grande dramaturgo, quatro cidades brasileiras debatem o tema. No CCBB do Rio, Brasília, Belo Hortizonte e São Paulo, convidados britânicos e brasileiros discutem a obra e o legado de William Shakespeare. Haverá também uma grande exposição fotográfica de Ellie Kurttz, brasileira que vive em Londres e atua como fotógrafa da Royal Shakespeare Company. É a primeira vez que ela expõe seu trabalho no País. A mostra abre em São Paulo no dia 7 de maio.

No vídeo abaixo, a fotógrafa Ellie Kurttz fala sobre a sua exposição no CCBB: 


terça-feira, 29 de abril de 2014

Os 450 anos de Shakespeare, o melhor dramaturgo da história


EFE | LONDRES
O Reino Unido celebra durante toda a semana, com um vasto leque de eventos culturais e tendo o teatro como protagonista, o 450ª aniversário do nascimento de William Shakespeare (1564-1616), o dramaturgo mais aclamado de todos os tempos.
Com um legado literário ainda vigente, a Royal Shakespeare Company leva aos palcos a obra do autor durante 2014 nas salas do Royal Shakespeare Theatre e do Swan Theatre, em sua cidade natal de Stratford-upon-Avon, no condado inglês de Warwickshire, para festejar o gênio de seu filho predileto.
Os atores Ladi Emeruwa (d) e John Dougall (e) durante os ensaios de "Hamlet", em cartas no teatro "The Globe", em Londres. EFE
Os atores Ladi Emeruwa (d) e John Dougall (e) durante os ensaios de "Hamlet", em cartas no teatro "The Globe", em Londres. EFE
Neste sábado foi organizado um grande desfile saindo do local onde o autor nasceu nesse pequeno povoado do oeste da Inglaterra até a igreja da Santíssima Trindade, onde foi enterrado.
O 450º aniversário já está sendo lembrado desde o mês passado nessa cidade com a exposição "Famous Beyond Words" (Famoso além das palavras), centrada na fascinante história do escritor.
Por sua vez, o londrino "The Globe" - uma réplica do teatro original no qual foram representadas muitas de suas obras - estreou no dia 23 a turnê mundial de "Hamlet".
A encenação de uma de suas tragédias mais consagradas, está a cargo de oito atores, cujo desafio será percorrer 205 nações dos cinco continentes para pronunciar o imortal "ser ou não ser".
A façanha teatral, que deslocará seus protagonistas pelos mais recônditos cantos do planeta por navio, trem, ônibus, avião bimotor ou automóvel, durará dois anos.
Apesar das comemorações marcarem o 450º aniversário do nascimento do gênio, o dia exato do aniversário de Shakespeare sempre foi um mistério, assim como sua vida pessoal, envolvida em infinitas dúvidas sobre sua sexualidade e suas crenças religiosas.
A escolha da obra para dar a largada da turnê se deve ao fato de "Hamlet" ser, provavelmente, uma de suas criações mais lembradas, ao lado de "Macbeth" e "Romeu e Julieta".
A peça tem cinco atos e narra a história do jovem príncipe dinamarquês Hamlet, visitado pelo fantasma de seu pai - morto pelo próprio irmão, Cláudio, novo rei da Dinamarca e casado com a própria mãe do protagonista, a rainha Gertrudes - que pede que o filho vingue sua morte.
Shakespeare escreveu a peça entre 1599 e 1601 e ela chegou a ser encenada a bordo de um navio, em 1608, enquanto o dramaturgo navegava pela costa do Iêmen.
Seu sucesso arrasador levou que uma década depois fosse transferida aos palcos do norte da Europa.
A turnê, que concluirá em 2016, abrangerá lugares como Elsinore, a cidade portuária da Dinamarca onde se desenvolve a trama de "Hamlet", ou o Grande Vale do Rift, no Quênia, lugar no qual o dramaturgo inglês afirmou que se achava "o berço da vida".
Da infância e adolescência de William, o terceiro dos oito filhos de um comerciante e político rico, John, e Mary Arden, quase não se tem dados.
Quanto a seu nascimento, apenas se sabe de seu batismo, que aconteceu em 26 de abril em sua cidade natal.
Considerado o escritor mais relevante em língua inglesa de todos os tempos, Shakespeare foi, além de dramaturgo, poeta e ator.
Admirado pelos românticos, sua reputação chegou ao auge no século XIX, enquanto os vitorianos veneravam sua obra, e tanto suas tragédias como suas comédias foram traduzidas para as principais línguas do mundo.
De suas tragédias, nas quais brinca com personagens protagonistas frequentemente admiráveis mas cheios de imperfeições, cabe destacar "Tito Andrônico" (1594), das primeiras, e "Romeu e Julieta", escrita um ano depois.
Suas obras mais aclamadas foram compostas entre 1601 e 1608, entre elas "Hamlet", "Otelo", "Rei Lear", "Macbeth" e "Antônio e Cleópatra".