Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Cesariny declamando "Quase".
Biografia
Adriana Calcanhoto e "Eu não sou eu nem o outro".
Caranguejola
•Mário de Sá Carneiro (1890-1916), exemplar digitalizado do livro editado pela Biblioteca Nacional de Lisboa para a comemoração do centenário do escritor
Outras obras
•A Confissão de Lúcio
•Dispersão
•Sete Canções de Declínio
•Dispersão e Indícios de Ouro
•Bárbaro
segunda-feira, 26 de maio de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Fábulas de Antônio Carlos
Sobre Raposas-escorpiõesA Raposa resolveu se dedicar à psique, à alma, ao espírito, à personalidade das pessoas. E o faria através do estudo e da análise do comportamento humano, se debruçando mais amiúde à reconciliação de casais.
Foi estudar nas melhores faculdades brasileiras e, em todos os cursos, defendeu teses homéricas, profundas, que trouxeram verdadeira revolução ao desenvolvimento da ciência.
Concluído o mestrado, doutorado e o pós-doutorado, julgou-se em condições de suceder Deus em poder e glória, e passou a ostentar no nome a alcunha ‘Khristós’.
No campo da psicologia educacional, por exemplo, inovou radicalmente, suprimindo gramática e Camões dos estudos da língua portuguesa e ordenando queimar em praça pública todos os livros de matemática. No lugar de Camões fez inserir, no currículo escolar, a vida do coronel da Cavalaria-Auxiliar dos Campos Gerais Silvério dos Reis, agora elevado à condição de herói nacional. E convenceu a nata dos educadores a substituir matemática por Istudo da Incrusão Suciá que contemplava Participação & Cidadania, Ações afirmativas & Políticas públicas contra as desigualdades raciais, e Perspectivas de gênero & Responsabilidade Social.
Na psicologia industrial adotou princípios e métodos psicológicos relativos ao aumento da produção que passaram pela reestatização da economia e pela criação de uma república sindical irrigada à peleguismo e Whisky escocês 12 anos.
Reinseriu na psicologia social as velhas práticas clientelistas, substituindo o antigo par de botinas por cestas básicas e bolsas-esmolas, oxigenando as relações humanas no tabuleiro comunitário.
A inesgotável bagagem teórica da Raposa, acumulada em décadas de cursos e estudos, não manteve seu nível intelectual muito distante dos ostentados pelos jumentos e porcos do mato, a ponto de Henry Lewis tê-la repreendido em sonhos alegando que a escolada psicóloga “não seria capaz de escrever o nome OTO de trás para a frente”.Mas nada a demoveu de se dedicar, de corpo e alma, à orientação de casais com problemas conjugais. O problema? Não apareciam pacientes, sequer um, unzinho que fosse. É que toda a vizinhança já sabia – e fazia questão de divulgar- que a consultora sentimental redentora de casamentos destruídos e semi-destroçados andava às turras com os próprios familiares, o marido encarecendo a separação pela enésima vez. De modo que, aparecendo a primeira vítima-freguesa ficou mais feliz do que pinto em restolho de lixo. Tinham em comum a vaidade, o ar esnobe, a empáfia, a ostentação, a ganância desmedida, e o costume de caluniar e apregoar mentiras.
Sem dar tempo sequer para a paciente se apresentar, a Raposa foi logo se adiantando:
- É simples, sem mistérios, sem viés de complexidade científica: seu casamento será restaurado prontamente. – E prosseguiu tomada de autoridade acadêmica: - Basta internalizar na parte mais indevassável e profunda do seu ser que, doravante, sua primeira prioridade será você; e repetir incessantemente que sua segunda prioridade será também você; e apregoar, sem traço de constrangimento ou remorso, que a sua terceira prioridade será, rigorosamente, você.
Como que arrebatadas por um espírito terrífico recém-fugido da escuridão do Tártaro, ambas ecoaram em uníssono:
- O resto é resto.
Então passaram a se elogiar mutuamente, trocando presentes, jurando amizade eterna, urdindo tramas e ciladas contra seus companheiros. A troca de bajulação foi tamanha que esgotaram o vocabulário das línguas conhecidas, exaurindo o repertório de palavras e expressões toscas e chulas. Apesar de Raposas, haviam tomado dos escorpiões o caráter.
E marcaram o reencontro para o mês seguinte.
No dia marcado, decaídas, ostentavam colossais olheiras em função do oceano de lágrimas vertidas, pois que ambas haviam perdido os companheiros. Os respectivos maridos enfadaram-se das raposas-esposas que só conseguiam rastejar do jeito sinistro e traiçoero dos escorpiões. E como eram daqueles senhores de vida e luz que habitam as estrelas, foram ganhar a vida alhures, nas alturas onde só águias e arcanjos arriscam alcançar.
Moral da história: aunque la mona se vista de seda, mona se queda. Mesmo vestida de seda, a macaca será sempre macaca. Os adornos – teóricos e físicos – jamais encobrirão os grandes defeitos, aqueles que se referem ao caráter.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Sobre cantorias, escolhas & caráter
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(...)
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)
Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
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(...)Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)
Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
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Sobre cantorias, escolhas & caráter
Os que gostam do velho Gonzagão jamais esquecem a bela melodia – não por acaso, sábia lição:
“(...) mas doutor, uma esmola pra um homem que é são
ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão (...)”
A bela obra é de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e ficou no imaginário popular e nos anais da música popular brasileira como um libelo à coragem, um vigoroso protesto contra a cultura da esmola, da vassalagem e do clientelismo.
“Vozes da Seca” deveria ser uma de nossas mais cultuadas músicas, aquelas ditas “de travesseiro”. Infelizmente não é. E por quê? Uma simples incursão pela cantoria, pelos primorosos versos da composição, não deveria dar margem a dúvidas:
Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos
Os que gostam do velho Gonzagão jamais esquecem a bela melodia – não por acaso, sábia lição:
“(...) mas doutor, uma esmola pra um homem que é são
ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão (...)”
A bela obra é de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e ficou no imaginário popular e nos anais da música popular brasileira como um libelo à coragem, um vigoroso protesto contra a cultura da esmola, da vassalagem e do clientelismo.
“Vozes da Seca” deveria ser uma de nossas mais cultuadas músicas, aquelas ditas “de travesseiro”. Infelizmente não é. E por quê? Uma simples incursão pela cantoria, pelos primorosos versos da composição, não deveria dar margem a dúvidas:
Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão
É por isso que pidimo proteção a vosmicê
Home pur nóis escuído para as rédias do pudê
Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê
Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage
Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage
Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage
Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage
Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos
Gonzagão é como ficou conhecido Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em dezembro de 1912, cidade de Exu, e encantado em 1989, no Recife. Por tudo o que fez, foi coroado pelo povo "rei do baião".
Aprendeu a tocar sanfona com o pai e ainda adolescente ja se apresentava em festas e feiras livres. “Asa Branca”, elaborada em parceria com Humberto Teixeira, lhe traria a consagração definitiva.
Os antigos sempre souberam dos perigos da ‘generosidade’ estatal travestida quase que invariavelmente com nomes pomposos, mas que redundam sempre na velha e surrada esmola, na ‘compra’ de votos e consciências. Os mais sábios tentavam responder com exemplos, lições, ensinamentos aprendidos ao longo da história. E nem sempre lograram êxito. Quem não se lembra das frases simples – singelas e profundas – tecidas por nossos antepassados? Algumas atravessaram o tempo perpassando os séculos, da pré-história à era contemporânea. É como se estivessem indelevelmente tatuadas na memória humana. Talvez a mais incisiva seja: “Bem melhor que dar o peixe, é ensinar a pescar”.
Mas, pelo que se percebe, boa parte dos governos reluta em assimilar o ensinamento tão relevante para a cidadania. A maioria dos programas governamentais gravita em torno de uma cobiçada fábrica: a que produz torrentes de ilusões e votos.

Para dourar a pílula ou untá-la com uma casquinha de verniz, convencionou-se fazer referência a esse tipo de assistencialismo como “políticas & ações emergenciais para debelar a fome endêmica”. Nome que empresta pompa e circunstância ao ‘dar o peixe’, que resulta em vício, dependência, e na perda de algo caro e precioso para nossos avós, a vergonha na cara. Já quanto ao ‘ensinar a pescar’, à institucionalização de portas de saída; quanto ao abrir janelas, alargar horizontes, assegurar profissão, emprego ou renda sustentável, gerar oportunidades e democratizá-las – essas ações ficam para ad calendas graecas.
O Bolsa Família, por exemplo, é um dos mais importantes programas sociais do governo federal.
Concebido como um programa de transferência direta de renda, beneficia famílias em situação de pobreza, aquelas com renda mensal de R$ 60,01 a R$ 120,00 por pessoa. Contempla também as famílias que se encontram em situação de extrema pobreza, as que não conseguem renda mensal superior a R$ 60,00 por pessoa.

Para dourar a pílula ou untá-la com uma casquinha de verniz, convencionou-se fazer referência a esse tipo de assistencialismo como “políticas & ações emergenciais para debelar a fome endêmica”. Nome que empresta pompa e circunstância ao ‘dar o peixe’, que resulta em vício, dependência, e na perda de algo caro e precioso para nossos avós, a vergonha na cara. Já quanto ao ‘ensinar a pescar’, à institucionalização de portas de saída; quanto ao abrir janelas, alargar horizontes, assegurar profissão, emprego ou renda sustentável, gerar oportunidades e democratizá-las – essas ações ficam para ad calendas graecas.
O Bolsa Família, por exemplo, é um dos mais importantes programas sociais do governo federal.
Concebido como um programa de transferência direta de renda, beneficia famílias em situação de pobreza, aquelas com renda mensal de R$ 60,01 a R$ 120,00 por pessoa. Contempla também as famílias que se encontram em situação de extrema pobreza, as que não conseguem renda mensal superior a R$ 60,00 por pessoa.
As origens do programa estão ligadas a governos estaduais e municipais, como o de Cristovam Buarque, que, quando governador de Brasília, implementou o Bolsa Escola, garantindo renda às famílias que, efetivamente, assegurassem a freqüência de seus filhos na escola. O governo de Fernando Henrique deu dimensão nacional ao programa.
Sob o ponto de vista emergencial o programa tem cumprido seus objetivos. Só no período de 2001 a 2004 foi o responsável por uma queda de mais de 20% no índice de desigualdade do país. A renda mensal das famílias atendidas aumentou nada menos que 21%. São vitórias retumbantes, expressivas, a se comemorar com desfiles, festanças & fogos de artifício.
Portanto, enganam-se (ou estão obliterados pela má-fé) os que desdenham o programa. Na parte que funciona, os benefícios são eloqüentes. O programa exige, por exemplo, que todas as crianças com idade entre 6 e 15 anos tenham freqüência escolar mínima de 85%; e as que se encontram em idade de vacinação devam ter a carteira em dia. Das gestantes exige o exame pré-natal. A punição para os que descumprem requisitos pode levar à exclusão do programa.
Porém, se as vantagens e qualidades não podem ser ignoradas, os problemas também não.
E um dos inaceitáveis é que o governo faz vista grossa dos sistemas de avaliação e controle. Só a partir do final de 2004 se instituiu a sistemática de controle da freqüência escolar. E as regras de exclusão só foram estabelecidas no findar de 2005. Adiantou? Nada. Jamais alguém foi excluído do programa. Como os controles são frágeis e não há perigo de punições, muitas famílias tiraram as crianças da escola.
Outro problema da mais alta gravidade – e não há quem ignore – é que o programa se amesquinha à medida que não disponibiliza portas de saída, o que redunda em manter as famílias aprisionadas à miséria, à dependência indigente. Sinônimo da megaindústria da esmola? Megafábrica de votos.
Conseqüência imediata: ao mesmo tempo em que cresce o número de simpatizantes e uma potencial massa de votos, cresce também – entre os dependentes do Bolsa Família – o abandono escolar.
Apenas quando, com mais atenção, nos debruçamos sobre os números do Bolsa Família é que conseguimos nos dar conta do gigantismo e da real dimensão do programa. Um quarto da população do Brasil depende do Bolsa Família. São 45,8 milhões de habitantes, mais que toda a população da Argentina. E o mais grave, de todo inaceitável: as crianças beneficiárias não estão completando sequer os oito anos do ensino fundamental.
Tem sido cada vez mais comum cantores contemporâneos regravarem músicas antigas, sucessos do passado. Procura-se um para reconduzir “Vozes da Seca” às primeiras posições das paradas. Seria um tributo a Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Para os governos, uma lição sobre as melhores escolhas e opções, as que efetivamente levam à cidadania. E para a sociedade, uma mistura de beleza e encantamento com lições sobre o caráter e a vergonha na cara.
Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
Portanto, enganam-se (ou estão obliterados pela má-fé) os que desdenham o programa. Na parte que funciona, os benefícios são eloqüentes. O programa exige, por exemplo, que todas as crianças com idade entre 6 e 15 anos tenham freqüência escolar mínima de 85%; e as que se encontram em idade de vacinação devam ter a carteira em dia. Das gestantes exige o exame pré-natal. A punição para os que descumprem requisitos pode levar à exclusão do programa.Porém, se as vantagens e qualidades não podem ser ignoradas, os problemas também não.
E um dos inaceitáveis é que o governo faz vista grossa dos sistemas de avaliação e controle. Só a partir do final de 2004 se instituiu a sistemática de controle da freqüência escolar. E as regras de exclusão só foram estabelecidas no findar de 2005. Adiantou? Nada. Jamais alguém foi excluído do programa. Como os controles são frágeis e não há perigo de punições, muitas famílias tiraram as crianças da escola.
Outro problema da mais alta gravidade – e não há quem ignore – é que o programa se amesquinha à medida que não disponibiliza portas de saída, o que redunda em manter as famílias aprisionadas à miséria, à dependência indigente. Sinônimo da megaindústria da esmola? Megafábrica de votos.
Conseqüência imediata: ao mesmo tempo em que cresce o número de simpatizantes e uma potencial massa de votos, cresce também – entre os dependentes do Bolsa Família – o abandono escolar.
Apenas quando, com mais atenção, nos debruçamos sobre os números do Bolsa Família é que conseguimos nos dar conta do gigantismo e da real dimensão do programa. Um quarto da população do Brasil depende do Bolsa Família. São 45,8 milhões de habitantes, mais que toda a população da Argentina. E o mais grave, de todo inaceitável: as crianças beneficiárias não estão completando sequer os oito anos do ensino fundamental.
Tem sido cada vez mais comum cantores contemporâneos regravarem músicas antigas, sucessos do passado. Procura-se um para reconduzir “Vozes da Seca” às primeiras posições das paradas. Seria um tributo a Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Para os governos, uma lição sobre as melhores escolhas e opções, as que efetivamente levam à cidadania. E para a sociedade, uma mistura de beleza e encantamento com lições sobre o caráter e a vergonha na cara.
Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
terça-feira, 6 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
A parte perdida da vida de Shakespeare
Da revista Veja

Cansado de responder à mesma pergunta aonde quer que fosse, o pesquisador e professor da Universidade de Columbia James Shapiro dedicou anos de sua vida para escrever o livro Quem Escreveu Shakespeare? – A História de Mais de Quatro Séculos de Disputa pela Herança de uma Autoria (tradução de Christian Schwartz e Liliana Negrello, Nossa Cultura, 376 páginas, 59 reais). “Escrevi esse livro não só para mim, que estou cansado de responder a essa questão, mas para todos os professores. Agora, quando ouvem essa pergunta, eles podem dizer: ‘Vão ler o livro do Shapiro’. Ele custou anos da minha vida, mas facilitou a de todo mundo”, diz, com bom humor o americano que foi uma das atrações da Flip deste ano.
Como o senhor tem tempo para ensinar e pesquisar? Eu não durmo e não tenho muitos hobbies. Se eu vivesse em Paraty, não seria capaz de escrever esse livro. O primeiro livro que escrevi me custou 15 anos. Dessa vez, a obra sobre 1606 levará menos tempo, algo em torno de 10 anos, porque eu sei como achar as coisas. Em 2015, estará pronto.

Cansado de responder à mesma pergunta aonde quer que fosse, o pesquisador e professor da Universidade de Columbia James Shapiro dedicou anos de sua vida para escrever o livro Quem Escreveu Shakespeare? – A História de Mais de Quatro Séculos de Disputa pela Herança de uma Autoria (tradução de Christian Schwartz e Liliana Negrello, Nossa Cultura, 376 páginas, 59 reais). “Escrevi esse livro não só para mim, que estou cansado de responder a essa questão, mas para todos os professores. Agora, quando ouvem essa pergunta, eles podem dizer: ‘Vão ler o livro do Shapiro’. Ele custou anos da minha vida, mas facilitou a de todo mundo”, diz, com bom humor o americano que foi uma das atrações da Flip deste ano.
Estudioso de William Shakespeare há 25 anos, Shapiro já perdeu a conta de quantas vezes foi questionado sobre a autoria das obras do poeta e dramaturgo inglês. Segundo ele, já disseram que Shakespeare não escreveu Hamlet porque não havia sido capturado por piratas, como o personagem principal foi. “É muito perigoso criar um argumento dizendo que Hamlet era autobiográfico, coisa impossível de comprovar”, explica. Segundo o americano, entre os que duvidaram da autoria das peças de Shakespeare há gente inteligente como Mark Twain, Delia Bacon e até Sigmund Freud, que tentou utilizar o mesmo Hamlet para provar sua teoria do complexo de Édipo.
Os questionamentos sobre Shakespeare foram propiciados pela nebulosidade que encobre a vida do dramaturgo. Interpretações e inferências malucas sobre o autor inglês levaram Shapiro a se tornar o maior rival acadêmico de seu vizinho e amigo Stephen Greenblatt, professor da Universidade de Harvard e um dos maiores especialistas no tema. “Greenblatt cai na tentação de achar que sabe o suficiente sobre a vida de Shakespeare, mas não há evidências suficientes sobre ele”, diz. Apesar de se conhecerem há anos, a Flip foi o primeiro evento a reunir os dois num debate sobre o dramaturgo.
Para rebater as dúvidas, Shapiro oferece no livro um amplo painel da Inglaterra da época de Shakespeare (1564-1616). “Mesmo que eu não saiba muito da própria vida dele, sei o suficiente sobre o que estava acontecendo à sua volta”, diz o pesquisador, autor também de microbiografias de um ano na vida de Shakespeare. Depois da publicação de 1599: Um Ano na Vida de William Shakespeare, em 2005, ele agora trabalha em um livro sobre 1606, ano em que o dramaturgo inglês escreveu Rei Lear, Macbeth e A Tragédia de Antonio e Cleópatra. A obra deve levar até 10 anos para ficar pronta, ao fim dos quais Shapiro planeja se aposentar.
Leia abaixo a entrevista exclusiva de James Shapiro a VEJA Meus Livros, feita em Paraty.
Em que tipo de assuntos o senhor e Stephen Greenblatt discordam? A discordância é sobre a questão de autoria? Não discordamos sobre a questão da autoria. Discordamos quanto às inferências de Greenblatt: para ele, Hamlet fala da relação de Shakespeare com o pai e o filho, mas ele tanto podia estar pensando no pai ao escrever como no tio, na filha, no homem da mesa ao lado. Nós não sabemos. Não podemos entrar em sua cabeça. Tudo o que temos é a história que ele criou, que é ficção. É muito perigoso tentar tirar um fato de uma ficção. De forma semelhante, há muitas pessoas dizendo que outros autores escreveram Shakespeare, mas não há nenhuma evidência disso.
Em que tipo de situação as pessoas dizem isso? Vou dar um exemplo. Em Hamlet, o personagem principal é capturado por piratas. Shakespeare nunca foi capturado por piratas, mas Edward de Oxford, uns dos autores que as pessoas dizem ter escrito Shakespeare, foi capturado. Então, as pessoas fazem o seguinte silogismo: “Hamlet foi capturado por piratas, Oxford foi capturado por piratas, Shakespeare nunca foi capturado por piratas. Quem você acha que escreveu Hamlet?” É muito perigoso criar um argumento dizendo que Hamlet é autobiográfico. Pode ser, mas nós não sabemos como, onde e quando ele é autobiográfico.
Você deseja descobrir algo novo sobre Shakespeare? Sim. Não sei que novidade descobrirei e se vai acontecer. Eu quero entender como Shakespeare criou bons trabalhos literários e o que estava acontecendo em seu mundo, como a pressão política, o clima e a economia, coisas que existem nas peças que ele estava escrevendo. Para fazer isso, tenho que entender as questões que as pessoas fazem sobre Shakespeare. Uma delas, não importa aonde eu vou, não importa com quem eu estou falando, é: ‘Shakespeare escreveu Shakespeare?’. Estou tão cansado de responder a essa questão em todos os lugares que senti que tinha de escrever um livro para respondê-la.
Entre os intelectuais que fazem essa pergunta, está Sigmund Freud. O senhor acha que Freud começou a questionar a autoria de Shakespeare para usar a obra Hamlet como prova de sua teoria do complexo de Édipo? Quando era jovem, Freud achava que Shakespeare tinha escrito Shakespeare. Ele não tinha dúvidas. No entanto, em 1899, ele desenvolveu sua teoria de Édipo baseado na leitura da tragédia grega e, principalmente, na leitura de uma biografia de Shakespeare, que dizia que o dramaturgo estava passando pela crise que ele chamaria de Édipo quando escreveu Hamlet, porque seu pai tinha acabado de morrer. Ele teria escrito Hamlet, então, como forma de 
trabalhar um trauma. Isso explicou para Freud como sua própria teoria estava certa e como ele estava apto para explicar a obra melhor do que ninguém. No entanto, 13 anos depois, um livro do mesmo autor da biografia foi publicado e , nele, o escritor disse que errou a data errada em que Shakespeare havia escrito o livro em dois anos. O certo é que o pai ainda estava vivo quando Shakespeare escreveu Hamlet. Para Freud, ou o livro não tinha nada a ver com a morte do pai ou outra pessoa escreveu essa obra. Freud decidiu que quem escreveu foi alguém que já tinha o pai morto. Freud é um gênio e, às vezes, gênios saem dos trilhos.

trabalhar um trauma. Isso explicou para Freud como sua própria teoria estava certa e como ele estava apto para explicar a obra melhor do que ninguém. No entanto, 13 anos depois, um livro do mesmo autor da biografia foi publicado e , nele, o escritor disse que errou a data errada em que Shakespeare havia escrito o livro em dois anos. O certo é que o pai ainda estava vivo quando Shakespeare escreveu Hamlet. Para Freud, ou o livro não tinha nada a ver com a morte do pai ou outra pessoa escreveu essa obra. Freud decidiu que quem escreveu foi alguém que já tinha o pai morto. Freud é um gênio e, às vezes, gênios saem dos trilhos.
O senhor está escrevendo outro livro sobre Shakespeare?Meu próximo livro é sobre o ano de 1606, no qual eu tento entender tudo o que aconteceu no período. Para mim, 1606 é um ano muito interessante por diversas razões. A primeira é que, na maior parte do ano, todos os teatros em Londres fecharam por causa da peste e muitas pessoas morreram por causa da doença. Eu me pergunto como era viver nessa realidade e como isso influenciou as peças que ele estava escrevendo. Macbeth foi escrita nesse ano. Em um momento da obra, Shakespeare descreve como um jovem morre antes que a flor que ele colocou em seu chapéu murchasse. Essa era a rapidez com que as pessoas morriam de peste. Quero entender a relação entre peste e criatividade. Minha outra motivação é que Shakespeare também publicou duas de suas principais peças nesse ano: Rei Lear e A Tragédia de Antonio e Cleópatra. Todas as três são boas tragédias.
Como o senhor passa da pesquisa ao texto? Eu não sei como cada informação pode ser importante, mas sei que, se eu acumular informação por anos, uma história emerge. Eu pesquiso, leio tudo o que foi publicado no ano que estou estudando, desde literatura até julgamentos. Uma das palavras-chave de Macbeth, por exemplo, é “equivocar-se”, que significa mentir, dizer suas coisas ao mesmo tempo, ser ambíguo. Para entender porque essa palavra era tão importante para Shakespeare, comecei a ler vários documentos, como convocações e cartas e descobri que todos na época estavam obcecados com ambiguidade.
Como o senhor tem tempo para ensinar e pesquisar? Eu não durmo e não tenho muitos hobbies. Se eu vivesse em Paraty, não seria capaz de escrever esse livro. O primeiro livro que escrevi me custou 15 anos. Dessa vez, a obra sobre 1606 levará menos tempo, algo em torno de 10 anos, porque eu sei como achar as coisas. Em 2015, estará pronto.
Como é o trabalho de pesquisa para as obras? O trabalho é muito solitário e não é divertido. Eu preferiria estar no cinema, em um jogo de beisebol, mas isso é o que eu faço. Eu não seria feliz se não fizesse isso. Quando não estou dormindo, estou pensando sobre isso. Nos últimos seis meses, você não teria gostado de morar comigo, porque penso nisso o tempo inteiro. É muito difícil ser uma pessoa legal quando você está escrevendo um livro. É como um demônio que entra em você. Quando eu estou terminando um livro, eu vou para Londres. Sentem minha falta, mas não tanto, porque, se eu estivesse terminando o livro em casa, eles gostariam que eu estivesse em Londres. Meu filho e minha mulher não me deixam escrever em casa. Eles falam para eu sair de casa e escrever em outro lugar.
O senhor sofre por não saber como Shakespeare era como pessoa? Eu adoraria saber como Shakespeare era como uma pessoa. Cinquenta anos depois de Shakespeare morrer, sua filha ainda estava viva, mas ninguém foi perguntar para ela como seu pai era. Nunca saberei como ele era, mas, se eu puder reconstruir seu mundo, suas peças, eu entenderei um pouco mais sobre o tipo de escritor que ele era e com quais tipos de coisa ele estava preocupado. Esse é o meu ponto particular de aproximação com Shakespeare. Ninguém mais faz isso. Gostaria de saber mais sobre ele, mas não tem jeito, só posso fantasiar como ele era.
É frustrante? Não. Existem coisas sobre minha mulher, com quem durmo há 20 anos, que eu nunca vou saber. Shakespeare morreu há 400 anos e eu nunca o conheci. Então, eu sei que eu nunca o conhecerei. Eu não fico frustrado, fico apenas desapontado por não saber.
Raissa Pascoal
quinta-feira, 1 de maio de 2014
450 anos de Shakespeare: uma singela homenagem
Há 450 anos nascia William Shakespeare, um dos grandes gênios da humanidade, que exerceria enorme influência no pensamento da civilização ocidental. Como singela homenagem aos momentos de prazer que o Bardo me propiciou, seguem trechos de algumas de suas peças:
“Não concedais à natureza mais do que aquilo que ela exige e a vida do homem será de tão baixo valor como a dos animais.” (Lear, em Rei Lear)
“‘Não está dentro de minha capacidade’, uma ova! Está em nós ser isso ou aquilo outro. Nossos corpos são jardins, dos quais nossas vontades são os jardineiros. [...] Se à balança de nossas vidas faltasse o prato da razão para estabilizar o outro, da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossas natureza acabariam por nos conduzir a conclusões absurdamente grotescas. Mas dispomos da razão para resfriar nossos impulsos de paixão e fúria, os ardores de nossa carne, nossos desejos, as luxurias desenfreadas. Vejo, portanto, isso que você chama de amor como sendo mero rebentão ou enxerto.” (Iago, em Otelo)
“É morta… Não devia ser agora. Sempre seria tempo para ouvir-se essas palavras. Amanhã, volvendo trás amanhã e trás amanhã de novo. Vai, a pequenos passos, dia-a-dia, até a última sílaba do tempo inscrito. E todos esses nossos conténs têm alumiado aos tontos que nós somos nossos caminho para o pó da morte. Breve candeia, apaga-te! Que a vida é uma sombra ambulante: um pobre ator que gesticula em cena uma hora ou duas, depois não se ouve mais; um conto cheio de bulha e fúria, dito por um louco, significando nada.” (Macbeth, em Macbeth)
“Delírio! O meu pulso, como o seu, marca o tempo calmamente, e soa música saudável. Não é loucura o que eu proferi; é só me pôr à prova que repito, palavra por palavra, aquilo que a loucura embolaria. Mãe, pela graça divina, não passa em tua alma esse enganoso ungüento de que não é o teu delito que fala, mas a minha demência. Isso é apenas uma pele fina cobrindo tua alma gangrenada, enquanto a pútrida corrupção, em infecção oculta, corrói tudo por dentro. Confessa-te ao céu; arrepende-te do que se passou e evita o que há de vir; não joga estrume sobre ervas daninhas que elas crescem ainda com mais força. Perdoa-me por minha virtude: É! Na velhacaria destes tempos flácidos, a virtude tem que pedir perdão ao vício; sim, curvar-se e bajulá-lo pra que ele permita que ela o beneficie.” (Hamlet, em Hamlet)
“Em tempos de paz, nada fica melhor em um homem que a humildade e uma modesta calma. Mas, quando a guerra vem trovejar em nossos ouvidos, então imitem a ação do tigre: tencionem os músculos, evoquem todo o seu sangue, disfarcem sua natureza simpática com uma raiva cruel, dura. Depois, emprestem ao olhar um aspecto pavoroso, permitam-se ter os olhos esbugalhados; que, para enxergar, eles avancem nas órbitas, como canhões de bronze. Deixem as sobrancelhas tomarem conta do semblante: o cenho franzido sobre os olhos de modo tão temerário quanto um penhasco debruçado sobre o mar selvagem, e este lhe corroendo a base com a energia devastadora das águas.” (Rei, em Henrique V)
“Embora os altos crimes por eles perpetrados tenham me deixado em carne viva, ainda assim tomo o partido de minha razão, porquanto mais nobre, contra minha fúria. A ação mostra-se mais rara na virtude que na vingança. Em sendo eles penitentes, a única intenção de meu propósito agora pára de somar rugas à minha fronte.” (Próspero, em A Tempestade)
“Mas acontece que tal homem não existe, porque, meu irmão, os homens sabem aconselhar e consolar quando a dor é aquela que eles próprios não sentem. [...] Claro, claro, é obrigação de todo homem pedir paciência àqueles que se contorcem sob o peso da tristeza, mas não existe em homem algum nem a virtude nem a capacidade de ser tão moral assim quando é ele quem tem de suportar o mesmo fardo. Portanto, não me dês conselhos; meu desalento grita mais alto que tuas censuras.” (Leonato, em Muito Barulho por Nada)
“Apenas, meu bom amo, por mais que admiremos essa virtude, essa disciplina moral, rogo-lhe não nos tornemos estóicos ou insensíveis. Nem tão devotos da ética de Aristóteles a ponto de achar Ovídio desprezível. Apóie a lógica nos seus conhecimentos do mundo e pratique a retórica na conversa usual; inspire-se na música e na poesia e não tome da matemática e da metafísica mais do que o estômago pode suportar; o que não dá prazer não dá proveito. Em resumo, senhor, estude apenas o que lhe agradar.” (Trânio, em A Megera Domada)
Shakespeare muito me agrada. Espero que agrade ao leitor também…
Rodrigo Constantino, na Revista Veja
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Mostra fotográfica revela atualidade de Shakespeare
Do Estadão
Por que a obra de Shakespeare é tão atual? No ano que marca os 450 anos de nascimento do grande dramaturgo, quatro cidades brasileiras debatem o tema. No CCBB do Rio, Brasília, Belo Hortizonte e São Paulo, convidados britânicos e brasileiros discutem a obra e o legado de William Shakespeare. Haverá também uma grande exposição fotográfica de Ellie Kurttz, brasileira que vive em Londres e atua como fotógrafa da Royal Shakespeare Company. É a primeira vez que ela expõe seu trabalho no País. A mostra abre em São Paulo no dia 7 de maio.
No vídeo abaixo, a fotógrafa Ellie Kurttz fala sobre a sua exposição no CCBB:
Por que a obra de Shakespeare é tão atual? No ano que marca os 450 anos de nascimento do grande dramaturgo, quatro cidades brasileiras debatem o tema. No CCBB do Rio, Brasília, Belo Hortizonte e São Paulo, convidados britânicos e brasileiros discutem a obra e o legado de William Shakespeare. Haverá também uma grande exposição fotográfica de Ellie Kurttz, brasileira que vive em Londres e atua como fotógrafa da Royal Shakespeare Company. É a primeira vez que ela expõe seu trabalho no País. A mostra abre em São Paulo no dia 7 de maio.
No vídeo abaixo, a fotógrafa Ellie Kurttz fala sobre a sua exposição no CCBB:
terça-feira, 29 de abril de 2014
Os 450 anos de Shakespeare, o melhor dramaturgo da história
EFE | LONDRES
O Reino Unido celebra durante toda a semana, com um vasto leque de eventos culturais e tendo o teatro como protagonista, o 450ª aniversário do nascimento de William Shakespeare (1564-1616), o dramaturgo mais aclamado de todos os tempos.
Com um legado literário ainda vigente, a Royal Shakespeare Company leva aos palcos a obra do autor durante 2014 nas salas do Royal Shakespeare Theatre e do Swan Theatre, em sua cidade natal de Stratford-upon-Avon, no condado inglês de Warwickshire, para festejar o gênio de seu filho predileto.
Os atores Ladi Emeruwa (d) e John Dougall (e) durante os ensaios de "Hamlet", em cartas no teatro "The Globe", em Londres. EFE
Neste sábado foi organizado um grande desfile saindo do local onde o autor nasceu nesse pequeno povoado do oeste da Inglaterra até a igreja da Santíssima Trindade, onde foi enterrado.
O 450º aniversário já está sendo lembrado desde o mês passado nessa cidade com a exposição "Famous Beyond Words" (Famoso além das palavras), centrada na fascinante história do escritor.
Por sua vez, o londrino "The Globe" - uma réplica do teatro original no qual foram representadas muitas de suas obras - estreou no dia 23 a turnê mundial de "Hamlet".
A encenação de uma de suas tragédias mais consagradas, está a cargo de oito atores, cujo desafio será percorrer 205 nações dos cinco continentes para pronunciar o imortal "ser ou não ser".
A façanha teatral, que deslocará seus protagonistas pelos mais recônditos cantos do planeta por navio, trem, ônibus, avião bimotor ou automóvel, durará dois anos.
Apesar das comemorações marcarem o 450º aniversário do nascimento do gênio, o dia exato do aniversário de Shakespeare sempre foi um mistério, assim como sua vida pessoal, envolvida em infinitas dúvidas sobre sua sexualidade e suas crenças religiosas.
A escolha da obra para dar a largada da turnê se deve ao fato de "Hamlet" ser, provavelmente, uma de suas criações mais lembradas, ao lado de "Macbeth" e "Romeu e Julieta".
A peça tem cinco atos e narra a história do jovem príncipe dinamarquês Hamlet, visitado pelo fantasma de seu pai - morto pelo próprio irmão, Cláudio, novo rei da Dinamarca e casado com a própria mãe do protagonista, a rainha Gertrudes - que pede que o filho vingue sua morte.
Shakespeare escreveu a peça entre 1599 e 1601 e ela chegou a ser encenada a bordo de um navio, em 1608, enquanto o dramaturgo navegava pela costa do Iêmen.
Seu sucesso arrasador levou que uma década depois fosse transferida aos palcos do norte da Europa.
A turnê, que concluirá em 2016, abrangerá lugares como Elsinore, a cidade portuária da Dinamarca onde se desenvolve a trama de "Hamlet", ou o Grande Vale do Rift, no Quênia, lugar no qual o dramaturgo inglês afirmou que se achava "o berço da vida".
Da infância e adolescência de William, o terceiro dos oito filhos de um comerciante e político rico, John, e Mary Arden, quase não se tem dados.
Quanto a seu nascimento, apenas se sabe de seu batismo, que aconteceu em 26 de abril em sua cidade natal.
Considerado o escritor mais relevante em língua inglesa de todos os tempos, Shakespeare foi, além de dramaturgo, poeta e ator.
Admirado pelos românticos, sua reputação chegou ao auge no século XIX, enquanto os vitorianos veneravam sua obra, e tanto suas tragédias como suas comédias foram traduzidas para as principais línguas do mundo.
De suas tragédias, nas quais brinca com personagens protagonistas frequentemente admiráveis mas cheios de imperfeições, cabe destacar "Tito Andrônico" (1594), das primeiras, e "Romeu e Julieta", escrita um ano depois.
Suas obras mais aclamadas foram compostas entre 1601 e 1608, entre elas "Hamlet", "Otelo", "Rei Lear", "Macbeth" e "Antônio e Cleópatra".
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Shakespeare e seu segredo
Da Deutsche Welle
A popularidade inesgotável de Shakespeare e seu segredo
Nascido há 450 anos, o "Bardo" é o autor mais filmado e fonte de inspiração constante. Na Alemanha, não só inspirou os dramaturgos nacionais como esteve presente em momentos marcantes da história política.
Amor e ódio, nascimento e morte, bem e mal: em suas peças teatrais, William Shakespeare (1564-1616) tratava dos temas atemporais da existência humana. "São motivos que representam um papel forte em todos os países, em todas as culturas", comenta Rainer Wiertz, encarregado de Cultura da cidade alemã de Neuss.
Em 1991, ele mandou construir nessa cidade do noroeste da Alemanha uma cópia do Globe Theatre de Londres, onde realizou o primeiro Festival Shakespeare. Na época, o evento se limitava a seis peças teatrais, hoje são 32 produções por ano.
O Globe de Neuss tem um charme todo especial. Ele comporta 480 espectadores, na plateia e nos dois balcões, e ninguém fica a mais de dez metros do palco. "Devido a essa proximidade, a atmosfera é como numa panela de pressão", descreve Wiertz.
O "Bardo" na vida política alemã
Mas o amor pelo grande "Bardo de Avon" tem também uma longa tradição no resto da Alemanha. "Na realidade, o nosso teatro foi estimulado por Shakespeare", afirma o especialista em estudos anglófonos Tobias Döring. Desde o século 18, os autores clássicos alemães se deixaram entusiasmar e inspirar pelo inglês. "Ele era o modelo para eles e, de certa maneira, quem ditava os temas e o tom. Ele foi o libertador da própria arte deles", diz.
Em Weimar, cidade dos poetas Johann Wolfgang Goethe e Friedrich Schiller, fundou-se em 1864 – portanto, 300 anos após o batismo de William Shakespeare (sua data exata de nascimento não é conhecida) – a Sociedade Shakespeare Alemã. Nessa época, o interesse central era nos dramas históricos, pois se viam neles paralelos com a fundação do Império Alemão, explica Döring, que é o atual presidente da sociedade.
O mestre elisabetano também esteve em grande destaque no país na época da reunificação. O diretor e dramaturgo Heiner Müller, da Alemanha Oriental, que preparava o projetoHamlet/Hamletmaschine, convocou para uma grande manifestação na praça Alexanderplatz. O ator Ulrich Mühe, que representava Hamlet, era o "porta-voz e figura de proa" da grande guinada política, recorda Döring. Poucos dias depois, caía o Muro de Berlim.
Popularidade inesgotável
Porém Shakespeare não exerceu fascínio apenas sobre revolucionários e intelectuais. Na opinião de Döring, a receita de sucesso é que suas peças se dirigiam a um público amplo. O Globe "não era só teatro da corte, mas também teatro popular", e o autor oferecia entretenimento para as massas.
Isso se reflete na influência que ele continuaria exercendo sobre a cultura pop e a indústria cinematográfica, séculos mais tarde. "Hollywood não seria nada sem Shakespeare. Os primeiros filmes foram inspirados nele", lembra o presidente da Sociedade Shakespeare alemã. Ele é o autor mais filmado: até hoje produziram-se, no mundo inteiro, cerca de 420 películas baseadas em sua obra.
Ao que tudo indica, a popularidade do "Bardo" nunca se esgotará. Histórias como Romeu e Julieta, que fascinam gerações sucessivas, reaparecem como motivos narrativos por toda parte, até mesmo nas telenovelas alemãs. "Romeu e Julieta é nada mais, nada menos do que Verbotene Liebe["Amor proibido", novela da emissora ARD]", afirma o especialista shakespeariano Tobias Döring.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
John e Yoko
Da Revista Rolling Stones
John Lennon e Yoko Ono explicam o amor que havia entre eles em clipe animado

"Quando eu cantei que ‘tudo de que você precisa é amor”, estava cantando sobre algo que não tinha vivenciado”, contou John Lennon em uma entrevista reveladora que foi animada pelo estúdio digital PBS, como parte da série Blank on Blank, que faz animações para ilustrar entrevistas. Esta gravação virou um capítulo chamado "John Lennon and Yoko Ono on Love” (John Lennon e Yoko Ono falam sobre amor) e vem de uma série de entrevistas conduzidas entre 1969 e 1972 por Howard Smith. Nela, Lennon e a esposa explicam o relacionamento deles alguns anos depois de terem se conhecido. A animação excêntrica ficou por conta de Patrick Smith.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Led Zeppelin publica material inédito de seus primeiros anos
EFE | LONDRES
O lendário grupo britânico de rock Led Zeppelin publicou duas gravações inéditas até o momento para marcar o relançamento previsto para junho de seus três primeiros álbuns.
As duas gravações inéditas são as do clássico "Keys to the Highway", gravada em 1970, assim como uma versão antecipada do popular "Whole Lotta Love", para muitos a melhor canção de rock de todos os tempos.
Essas duas canções se encontram entre os diversos temas que foram remasterizados e que o grupo publicará oficialmente nas reedições de seus três primeiros discos, "Led Zeppelin I", "II" e "III".
Além desse material, os relançamentos incluirão outras centenas de canções compostas pelo quarteto, dissolvido em 1980, que foram cuidadosamente catalogadas e depois armazenadas durante décadas nos arquivos da banda.
O guitarrista Jimmy Page, de 70 anos, criador de quase todas as canções mais veneradas do lendário grupo, passou dois anos e meio escutando centenas de fitas antes de optar pelo material escolhido.
"Não quero morrer e que outra pessoa faça isso", explicou o veterano músico, segundo recolhe hoje a emissora britânica "BBC".
Para o guitarrista da formação, esse novo material "merece ser escutado".
Entre alguns dos temas inéditos que estarão em um dos três álbuns remasterizados figurarão versões alternativas de algumas de suas canções mais conhecidas, assim como atuações ao vivo, todas elas gravadas ao mesmo tempo que os temas originais.
"Keys to the Highway/Trouble in Mind", que aparecerá em "Led Zeppelin III", foi gravada em 1970 nos Olympic Studios de Barnes, no sudoeste de Londres, uma meia hora após "Hats Off to (Roy) Harper", apesar de nunca ter sido publicada.
Segundo o cantor da desaparecida banda, Robert Plant, esses anos foram "particularmente prolíficos" para a formação.
"Jimmy (Page) e eu testávamos os temas que tocávamos em casa. Provamos as coisas. Nada era premeditado", lembrou Plant à "BBC".
Assim, o álbum "Led Zeppelin II" recolherá uma versão antecipada de conhecida "Whole Lotta Love".
Quanto às diferenças existentes entre ambos os temas, no original falta o primeiro acorde e a parte central, enquanto na versão terminada há incluídos novos coros.
O interesse no Led Zeppelin, um grupo que se dissolveu em 1980 após a morte de seu baterista, John Bonham, continua sendo enorme, apesar de que desde sua separação é possível contar as vezes em que os integrantes do grupo voltaram a se unir.
Em 2005, junto com o filho do bateria, Jason Bonham, os integrantes se reuniram para ressuscitar a lenda, 27 anos após sua despedida.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
CULTURA, do Deutsche Welle
Obra de Max Weber mantém atualidade, nos 150 anos do sociólogo
Em 21 de abril de 1864, nasceu o conceituado autor de "A ética protestante e o espírito do capitalismo". Suas ideias encontram interesse em emergentes como o Brasil e são aplicadas em certas regiões, diz especialista.
A obra de Max Weber é atualmente reconhecida por representantes de diferentes facções e tendências na ciência e política. O sociólogo nascido em 21 de abril de 1864 em Erfurt, Turíngia, ocupou-se de conceitos como objetividade e liberdade de valores, burocracia e carisma. Até hoje, suas teorias têm grande influência na área das ciências sociais.
Entre os escritos weberianos, um dos mais importantes é A ética protestante e o espírito do capitalismo, que descreve a relação íntima entre o protestantismo e os primórdios da industrialização e do capitalismo moderno a Europa Ocidental. Seu Economia e sociedade é um dos clássicos mais significativos da sociologia.
Por ocasião dos 150 anos do nascimento do autor, a DW entrevistou Edith Hanke, editora científica e responsável pelas obras completas de Max Weber publicadas pela Academia Bávara de Ciências. Entre outros focos de pesquisa, Hanke se dedica à recepção dos escritos do sociólogo alemão morto em 1920, em Munique.
DW: Max Weber nasceu há 150 anos. Quão intensa é a pesquisa sobre ele hoje em dia?
Edith Hanke: Nós vivemos um momento de grande interesse nele, também na Alemanha – naturalmente, devido ao jubileu –, por exemplo, em artigos na mídia. No entanto, quando estou no exterior, noto um interesse mais forte, em parte. Na semana passada, estive em Paris com pesquisadores franceses de Max Weber. Lá, ele faz parte do currículo do ensino médio. Quer dizer, eles também têm um conhecimento weberiano muito mais amplo – coisa que, na Alemanha, continua restrita a pequenos círculos acadêmicos.
Por que ocorre isso na Alemanha?
Eu acho que nós não estamos bem conscientes da grandeza de Max Weber. Ele é realmente um "best-seller de exportação" para o exterior, no que concerne o mundo intelectual e acadêmico. A maioria dos alemães não sabe disso.
Em que países o interesse por Max Weber é especialmente grande?
É interessante: nos últimos tempos a recepção de Max Weber é especialmente intensa nos assim chamados países emergentes, sobretudo no Brasil, México, China e na Turquia.
Por que especificamente nesses países?
Minha explicação é que sociedades que se encontram num processo radical de transformação econômica, política ou social, recorrem a Weber para poder explicar essa mudança. Muitas vezes é uma classe intelectual que conhece e cultiva essa fonte, procurando analisar a transformação segundo as categorias weberianas.
Geralmente se trata da transição de sociedades agrárias, pré-industriais, para sociedades industrializadas. Trata-se, justamente, de muito mais do que apenas a mudança dos processos de produção: há igualmente – e isso também é uma visão de Weber – muita mudança mental envolvida. Isso pode ter efeitos sociais, é claro, mas também políticos: as pessoas passam a ter mais participação política. São processos bem fundamentais, e a minha impressão é que nesse ponto Weber é muito importante.
A obra weberiana não abarca apenas as ciências sociais, mas também a ciência econômica, histórica, cultural e política. Ocorre uma recepção da totalidade dessa obra, ou ela está restrita a uma área principal?
Na maior parte dos casos, fala-se de A ética protestante e o espírito do capitalismo, que Max Weber escreveu em 1904-1905. Nele, ele procura explicar o nascimento do capitalismo a partir de características bem específicas dos protestantes rigorosos, e como a atitude deles fomentou a ascensão do capitalismo. Esse texto tem sempre um papel central na recepção weberiana. Também importante é Economia e sociedade, uma obra muito extensa, considerada escrito central da sociologia.
Fora isso, depende dos países em questão. A Itália ou a Espanha, por exemplo, abordam Weber mais a partir das categorias que ele estabelece. Mas os escritos políticos também despertam periodicamente interesse. É curioso examinar quais países se conectam mais fortemente com quais obras weberianas: é algo que está relacionado às distintas características culturais nacionais.
A recepção da obra de Max Weber também tem aplicação concreta?
Há um exemplo bem interessante, numa região da Anatólia Central, na Turquia: lá se fala, de fato, de um "calvinismo islâmico". É uma região economicamente muito bem sucedida nos últimos anos, que adotou o conceito weberiano de ética trabalhista protestante. Eles se reportam explicitamente a Weber. Lá há principalmente pequenas e médias empresas. Também o modelo burguês da autogestão – que tem um papel grande em Weber – é lá aplicado aos lucros econômicos. Com eles são financiadas escolas ou concedidas bolsas de estudos, por exemplo. Os cidadãos tomam a vida nas próprias mãos, assim libertando-se um pouco do governo central em Ancara.
Esse é um exemplo em que a obra weberiana serviu de modelo para determinada forma de ação social. Nesse caso, porém, a obra dele também foi combinada com uma cultura totalmente diferente, de uma região totalmente outra.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Dalí em Brasília
Do Deutsche Welle
CULTURA
"Surrealismo Tridimensional" mostra esculturas de Dalí em Brasília
Peças em bronze pouco conhecidas chegam a Brasília em exposição inédita. Obras são da fase "mais madura" do artista.
Durante tardes de sol no verão da Catalunha, Salvador Dalí aproveitava os momentos de descanso para expressar sua arte em três dimensões. A escultura, vertente não muito conhecida do artista espanhol, incorporava temas de seu interesse, como a mitologia, o cristianismo e as expressões surrealistas da realidade.
Um conjunto de 26 dessas esculturas pode ser visitado na mostra Salvador Dalí – Esculturas – Surrealismo Tridimensional até 15 de junho em Brasília, no Centro Cultural da Caixa Econômica. São peças em bronze, em sua maior parte da chamada coleção Clot.
"A aposta é trabalhar para divulgar obras que não são tão conhecidas ou estudadas, é interessante mostrar outras facetas do Salvador Dalí", explica o curador da exposição, Francisco Lara Mora, artista espanhol que já organizou outras exposições com obras de Dalí.
As peças têm variadas dimensões – desde alguns centímetros, cabendo na palma da mão, até três metros de comprimento – e são feitas de bronze, por meio da técnica de fundição por cera perdida (um molde de argila, gesso ou pedra artificial que cobre a peça de cera, que depois dá lugar ao metal fundido).
"Logicamente [Dalí] dedicava muito mais tempo para pintar, então para ele esses trabalhos deveriam ser quase que uma brincadeira de criança, porque modelar na cera é parecido com o trabalho com essa massa de crianças", detalha Mora. "Penso que devia combinar com o trabalho de pintura e devia ser relaxante modelar aquelas obras."
Coleção Clot
Com obras elaboradas entre 1970 e 1981, a coleção Clot é composta por 44 peças. O nome vem de Isidoro Clot, dono de uma galeria em Madri que resolveu fazer a primeira coleção das esculturas de Dalí. As obras foram expostas pela primeira vez em dezembro de 1986, quase dois anos antes da morte do artista.
Para a exposição no Brasil, Francisco Mora escolheu 26 peças da coleção que representam três grandes áreas temáticas consideradas importantes. A mitologia clássica é representada por esculturas de Ícaro, Mercúrio, Apolo e Poseidon. A iconografia cristã também é relevante, com representações de Cristo de São João da Cruz, São Sebastião, São João Batista, São Narciso das Moscas e São Jorge.
Além disso, há peças com referência histórica e literária (Trajano jovem, Dom Quixote), além de outras com temas de interesse pessoal, como o Elefante Cósmico – uma das maiores peças da exposição.
O Gabinete Antropomórfico, que evidencia o surrealismo típico de Dalí, é uma das duas peças que não fazem parte da Coleção Clot. A peça Tripas e Cabeça, outro modelo intrigante, traz um autorretrato de Dalí envolvido em um intestino.
Gala: inspiração
"São obras que não têm recebido a atenção e a importância que merecem, porém foram feitas na etapa de máxima maturidade artística de Salvador Dali, até mesmo no ano da morte de Gala", explica Francisco Mora.
Companheira de Dalí desde 1929 até sua morte em 1982, a russa Elena Ivanovna Diakonova, ou apenas Gala, também inspirou algumas peças, apresentadas na exposição. Em uma seção especial, a frase que se inicia com "Eu amo Gala mais que minha mãe..." contorna o espaço reservado a esculturas como Gala Gradiva e Gala na Janela, ambas de 1974.
A exposição Salvador Dalí – Esculturas – Surrealismo Tridimensional fica em cartaz até 15 de junho na Caixa Cultural, em Brasília. Depois, segue para Fortaleza e Recife.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Tal qual o governo, a Fifa cansa a beleza de qualquer um...
'Brasil para principiantes', o tiro da Fifa que saiu pela culatra

Eleanor Warnick
Estudante da Universidade de Oxford
Para a BBC Brasil
Aproveitando minha estadia aqui no Brasil, tentei seguir os ensinamentos da malfadada Cliquecartilha Brasil para principiantes que a Fifa publicou sobre o país e seus habitantes para orientar os turistas estrangeiros que virão para a Copa do Mundo.
Achei os conselhos constrangedores e vou explicar por quê.
Segundo a Fifa, no Brasil "um sim não significa sempre sim... se alguém disser sim, eu te ligo de volta, não espere que o telefone vá tocar nos próximos cinco minutos".
O que é isso? Eles estão sugerindo que apenas no Brasil essas pequenas mentiras são contadas? Eu admito, como britânica, que também sou culpada desse crime.
Outra balela da cartilha Fifa: "O tempo é flexível para o brasileiro... o normal é contar com um atraso".
Dizer que todos no Brasil estão sempre atrasados, e que nada começa na hora marcada, não é verdade, é uma generalização falsa e pode até fazer com que os turistas estrangeiros percam os jogos que vieram assistir. Certamente seria melhor informar aos turistas sobre os engarrafamentos para que evitem atrasos, em vez de fingir que no Brasil o tempo não existe.
Sobre o jeito afetuoso do brasileiro a Fifa diz que "contato corporal é prática comum... os brasileiros falam com as mãos e não hesitam em tocar as pessoas com quem estão conversando."
Cumprimentar as pessoas com beijo é uma prática muito comum em muitos países europeus, como Espanha e França. Brasileiros não falam com as mãos, eles falam com a boca como em qualquer outro país. Os italianos gesticulam muito mais para se expressar. Eu aconselharia o autor do artigo da Fifa a aprender português.
E a Fifa prossegue..."Filas não foram feitas para serem respeitadas. Esperar pacientemente em uma fila não está no sangue dos brasileiros, que preferem cultivar o caos".
O Brasil é um país burocrático. Sugerir que as pessoas não fazem fila no Brasil é tão ridículo quanto sugerir que ingleses não bebem chá. Talvez, para aqueles com o credenciamento da Fifa, ficar em fila não seja necessário, mas todas as outras pessoas, principalmente aquelas que queiram assistir aos jogos de futebol, conhecer o Cristo, e entrar nas melhores casas noturnas, terão que fazer fila.
Depois de insultar diversos aspectos do comportamento do brasileiro, a cartilha decide falar sobre gastronomia: "Não deixe de experimentar um açaí. Os frutos da Amazônia fazem maravilhas: previnem rugas e têm o mesmo efeito de uma bebida energética, podendo ajudar até o mais cansado dos jogadores".
Eu imagino que um insulto equivalente no meu país seria: "o inglês é bobo e sempre reclama do tempo, mas fish and chips é uma delícia".
A cartilha recomenda açaí como se fosse a principal opção de bebida durante a Copa.
Mas entre um açaí e um chope bem gelado, não tenho dúvida do que as pessoas escolherão beber para assistir aos jogos.
Se as dicas para turistas estrangeiros distribuídas pela Fifa eram para ser uma brincadeira, o tiro saiu pela culatra.
E você? Poderia fazer melhor e oferecer dicas úteis aos turistas que vêm para a Copa do Mundo?
quarta-feira, 16 de abril de 2014
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