terça-feira, 8 de abril de 2014
Filme retrata Isang Yun, um compositor dividido entre as duas Coreias
Do Deutsche Welle
CULTURA
Enigmático, ele foi herói,
traidor, iconoclasta, prisioneiro e exilado. Quase duas décadas após sua morte,
documentário alemão busca a verdade por trás do polêmico músico.
Em 17 de junho de 1967, Isang
Yun recebeu uma visita em seu apartamento em Berlim Ocidental, onde vivia desde
1964. Seus inesperados visitantes eram agentes do serviço secreto sul-coreano,
que instruíram o músico a ir à embaixada do país em Bonn, então capitão alemã.
Vinte e quatro horas depois,
Yun – um dos mais notórios e controversos compositores clássicos contemporâneos
da Coreia do Sul – foi preso em Seul a mando do governo militar de seu país,
então sob o comando do general Park Chung-hee. Ele foi acusado de ser
simpatizante do comunismo, espião e traidor da pátria. Foi torturado e
condenado à prisão perpétua.
A abdução de Yun é emblemática
em relação à vida que o compositor levava. Embora nunca tenha sido explicitamente
político, ele, assim como muitos de seus compatriotas coreanos, foi vítima da
trágica trajetória de seu país no século 20, brutalmente dividido depois da
Guerra da Coreia.
Yun já era um compositor
famoso em sua terra natal quando os japoneses ocuparam a, até então unificada
Península Coreana durante a Segunda Guerra Mundial. Ele foi preso por suas
atividades pró-independência da Coreia.
"Eu acredito que Isang
Yun era essencialmente apolítico", diz a cineasta Maria Stodtmeier.
In Between: Isang Yun in North
and South Korea (No meio: Isang Yun na Coreia
do Norte e do Sul, em tradução livre) é o nome do mais recente documentário de
Stodtmeier, que investiga os muitos equívocos que cercaram o enigmático
compositor e seu exílio político. O longa investiga seu conflituoso legado e
como ele é visto tanto nas Coreias.
"Antes de tudo, ele era
um compositor, mas também um produto desse momento único na história",
afirma Stodtmeier, que viajou para a Coreia do Sul e do Norte para fazer o
filme, premiado como melhor documentário no Festival Internacional de Cinema de
Mumbai (Índia).
"Ele cresceu durante a
colonização japonesa, viveu a divisão de seu país com a Guerra da Coreia e a
ascensão de duas ditaduras, uma no sul e outra no norte. Ele viveu como
refugiado na Alemanha. Ele só foi político pelo acidente de ser quem era",
completa a diretora.
Tradição asiática e inovação
ocidental
Nascido na modesta cidade
costeira de Tongyeong, na atual Coreia do Sul, Yun estudou composição coreana
tradicional, antes de aprofundar seus estudos musicais em Paris e Tóquio. Foi
nestas cidades que ele se apaixonou tanto pela tradição clássica ocidental,
quanto pelo movimento de vanguarda do final da década de 1950.
O estilo peculiar de Yun logo
se tornou uma síntese dessas três diferentes tradições, absolutamente
contemporâneo em suas referências às composições dodecafônicas, mas ainda
entrelaçadas com elementos formais tanto do Oriente quanto do Ocidente.
Ao longo da vida, ele
acumularia um impressionante conjunto de obras, que incluem quatro óperas, mais
de 20 peças orquestrais, além de dezenas de outras composições para conjunto de
câmara, coro ou solistas.
"Ele desenvolveu um
estilo próprio em sua música e em sua vida", afirma Maria Stodtmeier.
"Ele misturou tudo: os antigos sons da Coreia estão por toda sua obra. Ele
levou esses elementos para a música ocidental contemporânea e trouxe elementos
modernos para a música coreana. Yun foi o primeiro compositor asiático que fez
música contemporânea ocidental. Ele era corajoso o suficiente para colocar sua
identidade asiática na música ocidental, algo até então inédito."
A abdução de Yun aconteceu em
decorrência de revelações que indicavam que ele estava em contato com a Coreia
do Norte, por meio da embaixada desta em Berlim Oriental. Ele realmente visitou
tanto a embaixada como a capital do país, Pyongyang, em 1963. Yun estava, na
verdade, intrigado com o Norte, onde tinha família e amigos.
Isso tudo acontece nos anos
1960, uma época em que artistas e intelectuais questionavam abertamente o
capitalismo, e consideravam o socialismo uma alternativa. Graças à fusão de
antigas tradições coreanas com inovação ultramoderna, a obra de Yun era
profundamente reverenciada na Coreia do Norte. Essa combinação parecia adequada
ao espírito do Estado comunista de Kim Il-sung.
"Acho que os
norte-coreanos entenderam a essência da obra de Yun, com sua mistura do velho
com o novo", diz a cineasta Stodtmeier. "Por outro lado, a Coreia do
Sul se tornava mais conservadora sob o governo de Park Chung-hee, fazendo com
que Yun caísse cada vez mais em desgraça por lá."
Escrevendo a história
Os desentendimentos de Yun com
a Coreia do Sul não demoraram a acontecer. Ele foi sequestrado junto com
acadêmicos e artistas sul-coreanos que viviam na Alemanha e enfrentou a prisão
no país, acusado de chefiar uma conspiração de espionagem comunista.
No entanto, depois de intenso
trabalho de lobby da Alemanha Ocidental e de uma petição amplamente divulgada
por compositores de renome como Karlheinz Stockhausen, Hans Werner Henze,
Mauricio Kagel e Igor Stravinsky, o regime de Park Chung-hee cedeu à pressão
internacional e libertou Yun em 23 de março de 1969.
Ele voltou para a Alemanha
Ocidental, onde lhe foi concedida a cidadania. Yun nunca mais voltaria à Coreia
do Sul e sua obra permaneceria proibida no país até meados dos anos 1990.
O compositor passou o resto da
vida ensinando e escrevendo em alemão (foi condecorado com a Medalha Goethe e a
Ordem de Mérito da República). Ele viajava regularmente para a Coreia do Norte,
onde o governo fundou uma orquestra exclusivamente para a execução de suas
obras.
Depois que Yun morreu, em
1995, sua reputação passou por uma cautelosa reabilitação na Coreia do Sul.
Hoje, ambos os países sediam um Festival Isang Yun e estabeleceram orquestras
com seu nome. Ainda assim, há uma grande quantidade de mal-entendidos em ambos
os lados sobre o verdadeiro Isang Yun.
"Identidade era muito
importante para ele, por isso ele procurava por sua verdadeira identidade, na
música e na vida", conclui Stodtmeier. "A Coreia do Sul diz que ele
lhe pertence, assim como a Coreia do Norte. Até a Alemanha reivindica o
compositor. Talvez ele pertença a todos nós, ou a nenhum de nós. Identidade é o
núcleo da história de Isang Yun e está presente em sua música. Seu coração
estava partido, ele nunca pode voltar a sua terra natal e não viveu para ver a
Coreia reunificada, o que era seu maior sonho".
No entanto, Yun viveu a
reunificação da Alemanha, o que deve ter sido um momento agridoce para ele. Sua
terra natal continua fortemente dividida, um destino no qual Yun comoventemente
reverenciou em seu virtuosísticoConcerto para violoncelo de 1976,
uma obra que ele descrevia como autobiográfica.
A obra gira em torno da nota
lá – para Yun, símbolo da união perfeita –, porém termina tristemente, sem
alcançá-la. Assim como em sua terra natal, seu Concerto para violoncelo se
mantém frustrantemente inconciliado.
Nas
palavras do próprio Yun: "Um compositor não pode ver o mundo em que vive
com indiferença. O sofrimento humano, a opressão, a injustiça – todo isso vem a
mim, em meus pensamentos. Onde há dor, onde há injustiça, eu quero dar meu
ponto de vista, através da minha música."
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Tira poeira - Trenzinho Caipira - Villa Lobos
(...) Em 1922 Villa-Lobos participa da Semana da Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo. No ano seguinte embarca para Europa, regressando ao Brasil em 1924. Viaja novamente para a Europa em 1927, financiado pelo milionário carioca Arnaldo Guinle. Desta segunda viagem retorna em 1930, quando realiza turnê por sessenta e seis cidades. Realiza também nesse ano a " Cruzada do Canto Orfeônico" no Rio de Janeiro.[3] Seu casamento com Lucília termina na década de 1930.[8] Depois de operar-se de câncer em 1948, casa-se com Arminda Neves d'Almeida a Mindinha, uma ex-aluna,[8] que depois de sua morte se encarrega da divulgação de uma obra monumental.[9] O impacto internacional dessa obra fez-se sentir especialmente na França e EUA, como se verifica pelo editorial que o The New York Times dedicou-lhe no dia seguinte a sua morte.[10] Villa-Lobos nunca teve filhos.[11]
Em 1960, o governo do Brasil criou o Museu Villa-Lobos no Rio de Janeiro.[12]. Mais, aqui.
Museu Villa-Lobos, aqui.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Embriagar-se de Cora

"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia.” Carlos Drummond de Andrade
NÃO SEI...
Não sei... se a vida é curta...
Não sei...
Não sei...
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar
Um simples poema e eis Cora Coralina discorrendo e revelando os mais profundos mistérios da vida. Num mundo tão conturbado, onde os valores tornam-se descartáveis e os princípios démodé, é sempre bom lembrar que a vida deve ter um sentido que não se restrinja à concorrência insana, a disputa aguerrida, o angustiante embate por espaço, poder, dinheiro, status...
Num mundo tão veloz e conturbado, é sempre bom lembrar que, rigorosamente ao lado, às vezes compartilhando a mesma sala, estão homens e mulheres, velhos e crianças com sonhos e expectativas, desejos e esperanças, e que ignoramos por completo em nossa pressa de cumprir tarefas e compromissos. Pior, quantas vezes não são instrumentalizados, utilizados tão somente como trampolim, escada e massa de manobra?
Cora Coralina já em 1903 preocupava-se com este tipo de coisa. Nasceu em 1889 e foi encantar em abril de 1985.
Em 96 anos de vida, gerou seis filhos, quinze netos e 19 bisnetos. O açúcar que lançava aos doces que diligentemente fazia, lançava também às letras, daí a densa obra literária, doce e singela como mel.
Quem melhor que Cora para definir Coralina?
Todas as Vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!
A vida torna-se insossa, insípida e inodora se não conseguimos tocar o coração das pessoas. E só é possível ser colo, braço, palavra, silêncio, alegria, lágrima, olhar e amor se, como Cora, conseguirmos resgatar valores como a solidariedade e a humildade.
É a chave da imortalidade, como revela neste poema:
Eu Voltarei
Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.
Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvorede Roseta.
Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.
Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.
Eu voltarei...
E a necessidade de desobstruir os caminhos e recomeçar sempre que necessário:
Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Como escreve Drummond, Cora pertence à humanidade.
Antônio Carlos dos Santos é engenheiro, escritor, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
NÃO SEI...
Não sei... se a vida é curta...
Não sei...
Não sei...
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar
Um simples poema e eis Cora Coralina discorrendo e revelando os mais profundos mistérios da vida. Num mundo tão conturbado, onde os valores tornam-se descartáveis e os princípios démodé, é sempre bom lembrar que a vida deve ter um sentido que não se restrinja à concorrência insana, a disputa aguerrida, o angustiante embate por espaço, poder, dinheiro, status...
Num mundo tão veloz e conturbado, é sempre bom lembrar que, rigorosamente ao lado, às vezes compartilhando a mesma sala, estão homens e mulheres, velhos e crianças com sonhos e expectativas, desejos e esperanças, e que ignoramos por completo em nossa pressa de cumprir tarefas e compromissos. Pior, quantas vezes não são instrumentalizados, utilizados tão somente como trampolim, escada e massa de manobra?
Cora Coralina já em 1903 preocupava-se com este tipo de coisa. Nasceu em 1889 e foi encantar em abril de 1985.
Em 96 anos de vida, gerou seis filhos, quinze netos e 19 bisnetos. O açúcar que lançava aos doces que diligentemente fazia, lançava também às letras, daí a densa obra literária, doce e singela como mel.
Quem melhor que Cora para definir Coralina?
Todas as Vidas Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!
A vida torna-se insossa, insípida e inodora se não conseguimos tocar o coração das pessoas. E só é possível ser colo, braço, palavra, silêncio, alegria, lágrima, olhar e amor se, como Cora, conseguirmos resgatar valores como a solidariedade e a humildade.
É a chave da imortalidade, como revela neste poema:
Eu Voltarei Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.
Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvorede Roseta.
Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.
Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.
E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei...
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.
Eu voltarei...
E a necessidade de desobstruir os caminhos e recomeçar sempre que necessário:
Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
Como escreve Drummond, Cora pertence à humanidade.
Antônio Carlos dos Santos é engenheiro, escritor, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
quinta-feira, 27 de março de 2014
A culpa é do gênio ou do gago?
À medida que passa o tempo, vai se tornando mais difícil a interação entre as pessoas. Apesar da era contemporânea disponibilizar técnicas e ferramentas, processos e tecnologias de comunicação mais eficazes, o homem, ao contrário de se expandir em direção ao outro, procura o isolamento, confina-se numa redoma hermética e indevassável. Ensimesmado, parece querer buscar na extremada auto-suficiência a massa vedante que permitirá deixar-se só, obstruir qualquer possibilidade de inserção e convivência social.
Manter-se o mais distante possível de seu próximo, ao que parece, tem sido o paradigma maior das sociedades globalizadas. Daí os muros de concreto e cercas eletrificadas, os sistemas de segurança monitorados eletronicamente, os momentos de convívio social cada vez mais efêmeros e voláteis, e a onipresença da televisão – o olho totalitário - companhia inseparável de nosso infortúnio coletivo.
Este sistema prisional constituído por uma parafernália tecnológica desenvolvida para nos manter ‘seguros’ em nossas residências, escolas e locais de trabalho, é internalizado na parte mais profunda de nosso subconsciente, fazendo emergir todo tipo de bloqueios em nossas relações interpessoais, obstruindo canais, enclausurando possibilidades, encarcerando numa masmorra invisível a perspectiva de um diálogo que se expresse intenso e liberto.
A pressão e o estresse da vida contemporânea, a depressão que se tornou estigma nesta virada de século, a violência brutal intrínseca do modelo excludente de desenvolvimento contribui, acentuadamente, para que todos se evitem mutuamente. Por outro lado, a opção por um sistema social altamente competitivo – originado ainda no berço, que perpassa a infância, a adolescência, a juventude, até chegar às fases adulta e senil, exigindo figurarmos sempre à frente, destacando como os melhores em tudo – desemboca em um estado de permanente insatisfação, perene desequilíbrio, contínua irritação, cenário de clima sempre hostil e tempestuoso, propício para o afloramento do que de pior existe na personalidade humana: inveja, vaidade, ganância e frivolidades, vezes dissimuladas, mas invariavelmente presentes no nosso cotidiano.
Nesse contexto, têm mais espaço e adeptos o ressentimento, o ódio e o rancor do que a admiração, o amor e o carinho. Tudo isso em caótica ebulição, fermenta e produz um caldo espesso, denso, que atua como uma barreira inibidora, uma muralha de ferro e granito a obstruir o processo de interação entre as pessoas.
A partir daí, muito pouco resta: um pântano sombrio e nauseabundo como cenário do ato de conversar, dialogar, entabular a prosa, conviver.
Mesmo nos encontros e reuniões em que participam pessoas preparadas, habilitadas à convergência, os mal-entendidos se manifestam generalizadamente, exigindo que a mesma coisa seja dita inúmeras vezes, de diferentes maneiras, para que sejam compreendidas.
Um pré-requisito indispensável à boa conversação é o planejamento, é pensar com antecedência sobre o quê, para quem e como dizer, contextualizando os objetivos que pretendemos atingir. Nesse processo, táticas e estratégias devem ser elaboradas para que as metas traçadas sejam plenamente alcançadas.
Rodoux Faugh afirma que "a comunicação é a forma mais sublime de amar", e Chacrinha, o Velho Guerreiro, popularizou a importância do processo de emissão, transmissão e recepção de mensagens com o premonitório jargão televisivo “quem não comunica se estrumbica”.
Às vezes a responsabilidade pelo fracasso da interlocução cabe ao emissor, que não sabe se expressar ou o faz de forma inadequada e por isso ineficaz.
É o caso do náufrago gago que teve o órgão sexual inteiramente arrancado pela mordida do tubarão. Quando, numa ilha deserta, tirou a rolha da lâmpada mágica, fez ao Gênio o primeiro de seus três pedidos:
– Eu ... eu ... eu ero um aralho.
E o gênio, obediente, deu de presente um baralho. Apreensivo, o Gago fez o segundo pedido, procurando agora ser mais claro:
– Eu ... eu ... eu ero um into.
No estalar dos dedos o Gênio fez aparecer, do nada, um cinto, e o fixou entre as pernas do náufrago. Já desesperado por ter desperdiçado dois pedidos, o sobrevivente gago solicitou seu último desejo. Com a voz trêmula, mas bem compassada, suplicou:
– Eu ... eu ... eu ero um ênis.
E de uma nuvenzinha de fumaça o Gênio da lâmpada tirou um tênis e o deu como o derradeiro desejo do infeliz que não se fazia entender.
Ao conversarmos é necessário que a mensagem chegue ao destino sem distorções. Para isso importa dar à voz tonalidade apropriada, volume, timbre e ritmo adequados, sem nos descuidarmos da pronúncia. Porém esse conjunto de condicionantes não é suficiente.
Num diálogo eficaz em que os interlocutores se sintam satisfeitos, o respeito mútuo deve ser o primeiro axioma. Significa que as pessoas devem se situar no mesmo patamar, no mesmo nível, sem que ninguém se coloque acima ou abaixo, mas todos se ombreando lado a lado. Esse princípio gera um conforto que acentua o compromisso das pessoas com o que está sendo pactuado. Postura arrogante e autoritária, pretensiosamente superior, conduz quando muito ao monólogo, às vias de mão única, à harmonia e paz dos cemitérios...
Quando se trata dos conteúdos, dos assuntos a serem tratados, é preciso abordá-los com profundidade e segurança. Não existe nada pior que discussão superficial que apenas tangencie as questões. Abordagens pobres levam os interlocutores à mediocridade, forjando relacionamentos banais, mesquinhos, vulgares. Navegar com profundidade nos assuntos é um sinal de respeito ao outro e a nós mesmos. Isso se traduz em municiar-se do maior número de dados e informações, selecionar as importantes, apresentá-las de forma objetiva, certificando-se anteriormente da sua exatidão e procedência. Na discussão é preciso também discernir entre o que é essência e o que é acessório, fixando-se nos fundamentos do assunto. É que muitas vezes o que reluz nas discussões é o acessório, a trivialidade, ofuscando e encobrindo as partes que de fato importam. Portando iluminar as partes mais relevantes dos conteúdos é uma etapa importante do processo.
A boa ordenação dos conteúdos não pode ser deixada de lado. A organização, a forma de melhor subordinar e hierarquizar os itens abordados enseja a construção de um raciocínio lógico consistente.
Mas tudo isso pode cair por terra se não adotarmos uma linguagem correta, clara e expressiva, no sentido de encantar o interlocutor. E nesse sentido o fecho final, a conclusão que damos à nossa intervenção é fundamental. É como uma orquestra sinfônica executando uma ópera ou uma peça musical clássica. Toda a construção melódica vai sendo conduzida num crescendo até chegar – ao final – à apoteose, quando músicos e platéia como que explodem em satisfação e aplausos.
Esses procedimentos deveriam ser, com especial interesse, adotados por nossos professores – formais e informais. Uma conversa ocorrida na informalidade de um cafezinho pode educar mais que uma aula convencional. Mas a liturgia de uma aula tradicional tem a responsabilidade de gerar resultados, a obrigação de ensinar, e bem! Os professores formais têm a obrigação de tornar suas mensagens atrativas, plenamente compreendidas. É o mínimo que se espera de nossos mestres. Essa é uma boa forma de avaliar o desempenho de nossos professores. Quando o aluno é reprovado, a responsabilidade nem sempre é do estudante.
Mas quem carrega o fardo do fracasso é tão-somente o aluno. Vivemos em nossas escolas uma realidade por demais injusta e que deve, de imediato, ser alterada. Mesmo ante e existência de um exército de gagos que acreditam ser do gênio a culpa por não terem seus desejos atendidos.
Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal da Associação dos Professores de São Paulo. acs@ueg.br
Manter-se o mais distante possível de seu próximo, ao que parece, tem sido o paradigma maior das sociedades globalizadas. Daí os muros de concreto e cercas eletrificadas, os sistemas de segurança monitorados eletronicamente, os momentos de convívio social cada vez mais efêmeros e voláteis, e a onipresença da televisão – o olho totalitário - companhia inseparável de nosso infortúnio coletivo.
Este sistema prisional constituído por uma parafernália tecnológica desenvolvida para nos manter ‘seguros’ em nossas residências, escolas e locais de trabalho, é internalizado na parte mais profunda de nosso subconsciente, fazendo emergir todo tipo de bloqueios em nossas relações interpessoais, obstruindo canais, enclausurando possibilidades, encarcerando numa masmorra invisível a perspectiva de um diálogo que se expresse intenso e liberto.
A pressão e o estresse da vida contemporânea, a depressão que se tornou estigma nesta virada de século, a violência brutal intrínseca do modelo excludente de desenvolvimento contribui, acentuadamente, para que todos se evitem mutuamente. Por outro lado, a opção por um sistema social altamente competitivo – originado ainda no berço, que perpassa a infância, a adolescência, a juventude, até chegar às fases adulta e senil, exigindo figurarmos sempre à frente, destacando como os melhores em tudo – desemboca em um estado de permanente insatisfação, perene desequilíbrio, contínua irritação, cenário de clima sempre hostil e tempestuoso, propício para o afloramento do que de pior existe na personalidade humana: inveja, vaidade, ganância e frivolidades, vezes dissimuladas, mas invariavelmente presentes no nosso cotidiano.
Nesse contexto, têm mais espaço e adeptos o ressentimento, o ódio e o rancor do que a admiração, o amor e o carinho. Tudo isso em caótica ebulição, fermenta e produz um caldo espesso, denso, que atua como uma barreira inibidora, uma muralha de ferro e granito a obstruir o processo de interação entre as pessoas.
A partir daí, muito pouco resta: um pântano sombrio e nauseabundo como cenário do ato de conversar, dialogar, entabular a prosa, conviver.
Mesmo nos encontros e reuniões em que participam pessoas preparadas, habilitadas à convergência, os mal-entendidos se manifestam generalizadamente, exigindo que a mesma coisa seja dita inúmeras vezes, de diferentes maneiras, para que sejam compreendidas.
Um pré-requisito indispensável à boa conversação é o planejamento, é pensar com antecedência sobre o quê, para quem e como dizer, contextualizando os objetivos que pretendemos atingir. Nesse processo, táticas e estratégias devem ser elaboradas para que as metas traçadas sejam plenamente alcançadas.
Rodoux Faugh afirma que "a comunicação é a forma mais sublime de amar", e Chacrinha, o Velho Guerreiro, popularizou a importância do processo de emissão, transmissão e recepção de mensagens com o premonitório jargão televisivo “quem não comunica se estrumbica”.
Às vezes a responsabilidade pelo fracasso da interlocução cabe ao emissor, que não sabe se expressar ou o faz de forma inadequada e por isso ineficaz.
É o caso do náufrago gago que teve o órgão sexual inteiramente arrancado pela mordida do tubarão. Quando, numa ilha deserta, tirou a rolha da lâmpada mágica, fez ao Gênio o primeiro de seus três pedidos:
– Eu ... eu ... eu ero um aralho.
E o gênio, obediente, deu de presente um baralho. Apreensivo, o Gago fez o segundo pedido, procurando agora ser mais claro:
– Eu ... eu ... eu ero um into.
No estalar dos dedos o Gênio fez aparecer, do nada, um cinto, e o fixou entre as pernas do náufrago. Já desesperado por ter desperdiçado dois pedidos, o sobrevivente gago solicitou seu último desejo. Com a voz trêmula, mas bem compassada, suplicou:
– Eu ... eu ... eu ero um ênis.
E de uma nuvenzinha de fumaça o Gênio da lâmpada tirou um tênis e o deu como o derradeiro desejo do infeliz que não se fazia entender.
Ao conversarmos é necessário que a mensagem chegue ao destino sem distorções. Para isso importa dar à voz tonalidade apropriada, volume, timbre e ritmo adequados, sem nos descuidarmos da pronúncia. Porém esse conjunto de condicionantes não é suficiente.
Num diálogo eficaz em que os interlocutores se sintam satisfeitos, o respeito mútuo deve ser o primeiro axioma. Significa que as pessoas devem se situar no mesmo patamar, no mesmo nível, sem que ninguém se coloque acima ou abaixo, mas todos se ombreando lado a lado. Esse princípio gera um conforto que acentua o compromisso das pessoas com o que está sendo pactuado. Postura arrogante e autoritária, pretensiosamente superior, conduz quando muito ao monólogo, às vias de mão única, à harmonia e paz dos cemitérios...
Quando se trata dos conteúdos, dos assuntos a serem tratados, é preciso abordá-los com profundidade e segurança. Não existe nada pior que discussão superficial que apenas tangencie as questões. Abordagens pobres levam os interlocutores à mediocridade, forjando relacionamentos banais, mesquinhos, vulgares. Navegar com profundidade nos assuntos é um sinal de respeito ao outro e a nós mesmos. Isso se traduz em municiar-se do maior número de dados e informações, selecionar as importantes, apresentá-las de forma objetiva, certificando-se anteriormente da sua exatidão e procedência. Na discussão é preciso também discernir entre o que é essência e o que é acessório, fixando-se nos fundamentos do assunto. É que muitas vezes o que reluz nas discussões é o acessório, a trivialidade, ofuscando e encobrindo as partes que de fato importam. Portando iluminar as partes mais relevantes dos conteúdos é uma etapa importante do processo.
A boa ordenação dos conteúdos não pode ser deixada de lado. A organização, a forma de melhor subordinar e hierarquizar os itens abordados enseja a construção de um raciocínio lógico consistente.
Mas tudo isso pode cair por terra se não adotarmos uma linguagem correta, clara e expressiva, no sentido de encantar o interlocutor. E nesse sentido o fecho final, a conclusão que damos à nossa intervenção é fundamental. É como uma orquestra sinfônica executando uma ópera ou uma peça musical clássica. Toda a construção melódica vai sendo conduzida num crescendo até chegar – ao final – à apoteose, quando músicos e platéia como que explodem em satisfação e aplausos.
Esses procedimentos deveriam ser, com especial interesse, adotados por nossos professores – formais e informais. Uma conversa ocorrida na informalidade de um cafezinho pode educar mais que uma aula convencional. Mas a liturgia de uma aula tradicional tem a responsabilidade de gerar resultados, a obrigação de ensinar, e bem! Os professores formais têm a obrigação de tornar suas mensagens atrativas, plenamente compreendidas. É o mínimo que se espera de nossos mestres. Essa é uma boa forma de avaliar o desempenho de nossos professores. Quando o aluno é reprovado, a responsabilidade nem sempre é do estudante.
Mas quem carrega o fardo do fracasso é tão-somente o aluno. Vivemos em nossas escolas uma realidade por demais injusta e que deve, de imediato, ser alterada. Mesmo ante e existência de um exército de gagos que acreditam ser do gênio a culpa por não terem seus desejos atendidos.
Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal da Associação dos Professores de São Paulo. acs@ueg.br
quarta-feira, 26 de março de 2014
PEC para criação do Conselho Nacional de Combate à Corrupção
Meus queridos, a Câmara dos Deputados discute
Proposta de Emenda à Constituição cujo objetivo é criar o Conselho Nacional de
Combate à Corrupção. Mais burocracia? Pode ser que não, vamos ver... a
sociedade se mobilizando adequadamente, pode ser mais um instrumento à
disposição da ética na aplicação dos recursos públicos.
Pelo que consta na proposta em apreciação na casa
legislativa, a PEC 362/13, os conselheiros, em número de 15, terão mandato de
dois anos, admitida uma recondução.
Resumidamente:
- o Conselho
terá representantes de diversos setores da sociedade, incluindo os três
poderes, órgãos de controle, entidades de classe, movimentos sociais,
etc.;
- os integrantes
serão nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovada a escolha
pela maioria absoluta do Senado Federal;
- Algumas das atribuições do conselho:
§ prevenir, detectar, punir e erradicar as práticas corruptas;
§ receber e conhecer as denúncias de corrupção;
§ combater a corrupção eleitoral;
§ garantir proteção para proteger servidores públicos e cidadãos que
denunciarem de boa-fé atos de corrupção, inclusive a proteção de sua
identidade; etc...
Pelos levantamentos da ONG Transparência
Internacional, o Brasil ocupa a 69º posição no ranking mundial de corrupção
entre 176 países.
Já escrevi e postei aqui, no Blog, muita coisa
sobre essa chaga que achincalha e humilha o país.
Por oportuno, reproduzo, agora, um desses textos:
Sobre
corrupção & saúvas
Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos
– e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)
Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
____________________________________
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)
Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
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Sobre corrupção & saúvas
O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.
E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.
A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não tem sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo, de uma nação.
Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina.
Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita, a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.
Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C. tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$ 20 milhões.
Também no Império Bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.
O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.
Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.
No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.
É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?
Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.
No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto as condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria.
A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.
Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.
E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.
Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.
Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga - estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.
Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’.
Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
Mas existem outros textos sobre este indecoroso assunto.
Para os que se interessarem, basta clicar nos títulos abaixo:
Artigos sobre ‘corrupçao”
Um
abrigo para nossos sonhos e esperançasNem tudo termina em pizza
Quando a cadeia resta como única alternativa
Para auferir coisa alguma
Sobre Lobos & Cordeiros
É muito? Não, não é. É apenas o mínimo.
Mais verbas ou mais gestão?
Sobre cegueiras e oportunidades
A cartilha que ninguém deveria desejar
Prisioneiros da idade média
terça-feira, 25 de março de 2014
Padre Vieira (1608 - 1697)
“Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.
Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.”
Trecho do Sermão da Sexagésima
Biografia
Sermões, na íntegra
Cartas do Brasil, na íntegra
Site comemorativo ao ano vierino (IV Centenário de Vieira)
Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.”
Trecho do Sermão da Sexagésima
Biografia
Sermões, na íntegra
Cartas do Brasil, na íntegra
Site comemorativo ao ano vierino (IV Centenário de Vieira)
segunda-feira, 24 de março de 2014
Criatividade & dramaturgia
“E por essa razão Deus arrebata o espírito desses homens (poetas) e usa-os como seus ministros, da mesma forma que com os adivinhos e videntes, a fim de que os que os ouvem saibam que não são eles que proferem as palavras de tanto valor quando se encontram fora de si, mas que é o próprio Deus que fala e se dirige por meio deles”.Platão
Na antiguidade grega, a criatividade tinha origem na divindade.
Tempos depois, a sociedade passou a vincular criatividade à loucura e à genialidade.
Nas ciências contemporâneas, a criatividade está associada à capacidade de solucionar problemas complexos, ou problemas não triviais.
Nas artes, a criatividade se vincula à capacidade de engendrar o belo, o plástico, o lúdico, o inusitado, o provocante e surpreendente, a solução inteligente e instigante, o que encanta a alma e o espírito.
Escrever um texto exige boa dose de criatividade.
É necessário desbloquear a mente, soltar as amarras, dar asas à imaginação.
Há que se ter pré-disposição para dar guarida às boas idéias que, às vezes, de forma inesperada, rompem intempestivamente em nossa mente. As boas idéias não têm hora e nem lugar para chegar. Geralmente elas não se anunciam. É prudente ter sempre ao alcance da mão, caneta e papel. Ocorrendo a idéia, não podemos permitir que escape como areia esvaindo dentre os dedos. O procedimento adequado é anotá-la resumidamente num bloco de notas, para depois – quando oportuno e possível – desenvolvê-la convenientemente.
Não raro, a idéia irrompe no meio do sono, ou durante uma reunião importante, um jantar,... Sendo assim, não hesite em registrá-la para posterior análise e tratamento.
A criatividade está vinculada ao surgimento de uma idéia.
O termo idéia provém do grego “idein”, e significa “ver”.
Eis aí então o caminho das pedras. Para termos criatividade, para desenvolver boas idéias, devemos aprimorar nossa capacidade de ver, de enxergar o que – muitas vezes – está bem à frente, mas que por um motivo ou outro, não conseguimos perceber.
Quantas vezes, ao deparar com uma brilhante solução dada por uma outra pessoa, nos surpreendemos indagando: “como é que eu não vi isto antes?”; “Como não fui ter esta idéia?”; “É tão simples, tão óbvio, como fui obtuso!”.
Neste contexto, mudar a forma como observamos as pessoas e a realidade é fundamental.
O primeiro desafio é saber o que escrever. Definir um tema candente, instigante, interessante, depende de sensibilidade, observação e experiência. Aqui, tratamos dos conteúdos, da comunicação de nossas idéias. Superada esta fase, tratamos do desafio seguinte: como escrever, como elaborar um texto da forma mais adequada para que a idéia ganhe em clareza e expressividade.
A observação está na gênese do processo criativo. Para ter boas idéias, para criar, devemos olhar as coisas de um modo diferente, um modo que limpe a imagem, que a torne mais clara.
Os artistas têm formas diferentes para estimular a criatividade e atrair boas idéias. Alguns gostam de mergulhar em uma boa música, outros preferem relaxar, deixar o pensamento vagar. Muitos desenvolvem suas idéias a partir da observação da realidade ou da observação de outras obras de arte: uma pintura, um filme, um livro,...
Moacyr Scliar escreveu dezenas de livros publicados em inúmeros países. Veja como se manifestou sobre este assunto:
“As idéias para os livros vêm da cabeça da gente, claro, elas não surgem do ‘espaço’. Mas a gente pode imaginar a cabeça como uma casa. Nela, há uma parte em que agente sempre está (a cozinha, o living...) e aí estão as idéias que temos todos os dias, sobre como preparar um sanduíche, por exemplo. Mas na casa também existe uma espécie de porão no qual raramente entramos, que está cheia de coisas estranhas e fascinantes. As idéias para os livros vêm daí, deste porão: de vez em quando a portinhola se abre, vamos lá e descobrimos idéias surpreendentes”.
De igual modo, para escrever necessitamos de inspiração. Continuemos com Scliar:
"Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que ”baixa" no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas — o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente".
É necessário saturar nossos sentidos não com a imagem e o som veiculados pela mass mídia. Mas com aqueles oriundos das expressões culturais de nossa gente. E isto é tarefa árdua, titânica, porque o que hoje se apresenta como cultura popular, quase sempre, está impregnada dos valores ideológicos dos setores dominantes, das classes privilegiadas.
Quanto mais lemos bons livros, quanto mais freqüentamos o teatro e o cinema, quanto mais visitamos museus e instalações, quanto mais nos debruçamos sobre a arte e suas manifestações, quanto mais refletimos sobre a realidade, mais aprimoramos nosso senso de observação e, conseqüentemente, mais nos abrimos à criatividade, ao advento de novas idéias, à compreensão de que este processo demanda esforço e determinação, componentes de todo fundamentais à dramaturgia.
Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
Na antiguidade grega, a criatividade tinha origem na divindade.
Tempos depois, a sociedade passou a vincular criatividade à loucura e à genialidade.
Nas ciências contemporâneas, a criatividade está associada à capacidade de solucionar problemas complexos, ou problemas não triviais.
Nas artes, a criatividade se vincula à capacidade de engendrar o belo, o plástico, o lúdico, o inusitado, o provocante e surpreendente, a solução inteligente e instigante, o que encanta a alma e o espírito.
Escrever um texto exige boa dose de criatividade.
É necessário desbloquear a mente, soltar as amarras, dar asas à imaginação.
Há que se ter pré-disposição para dar guarida às boas idéias que, às vezes, de forma inesperada, rompem intempestivamente em nossa mente. As boas idéias não têm hora e nem lugar para chegar. Geralmente elas não se anunciam. É prudente ter sempre ao alcance da mão, caneta e papel. Ocorrendo a idéia, não podemos permitir que escape como areia esvaindo dentre os dedos. O procedimento adequado é anotá-la resumidamente num bloco de notas, para depois – quando oportuno e possível – desenvolvê-la convenientemente.
Não raro, a idéia irrompe no meio do sono, ou durante uma reunião importante, um jantar,... Sendo assim, não hesite em registrá-la para posterior análise e tratamento.
A criatividade está vinculada ao surgimento de uma idéia.
O termo idéia provém do grego “idein”, e significa “ver”.
Eis aí então o caminho das pedras. Para termos criatividade, para desenvolver boas idéias, devemos aprimorar nossa capacidade de ver, de enxergar o que – muitas vezes – está bem à frente, mas que por um motivo ou outro, não conseguimos perceber.
Quantas vezes, ao deparar com uma brilhante solução dada por uma outra pessoa, nos surpreendemos indagando: “como é que eu não vi isto antes?”; “Como não fui ter esta idéia?”; “É tão simples, tão óbvio, como fui obtuso!”.
Neste contexto, mudar a forma como observamos as pessoas e a realidade é fundamental.
O primeiro desafio é saber o que escrever. Definir um tema candente, instigante, interessante, depende de sensibilidade, observação e experiência. Aqui, tratamos dos conteúdos, da comunicação de nossas idéias. Superada esta fase, tratamos do desafio seguinte: como escrever, como elaborar um texto da forma mais adequada para que a idéia ganhe em clareza e expressividade.
A observação está na gênese do processo criativo. Para ter boas idéias, para criar, devemos olhar as coisas de um modo diferente, um modo que limpe a imagem, que a torne mais clara.
Os artistas têm formas diferentes para estimular a criatividade e atrair boas idéias. Alguns gostam de mergulhar em uma boa música, outros preferem relaxar, deixar o pensamento vagar. Muitos desenvolvem suas idéias a partir da observação da realidade ou da observação de outras obras de arte: uma pintura, um filme, um livro,...
Moacyr Scliar escreveu dezenas de livros publicados em inúmeros países. Veja como se manifestou sobre este assunto:
“As idéias para os livros vêm da cabeça da gente, claro, elas não surgem do ‘espaço’. Mas a gente pode imaginar a cabeça como uma casa. Nela, há uma parte em que agente sempre está (a cozinha, o living...) e aí estão as idéias que temos todos os dias, sobre como preparar um sanduíche, por exemplo. Mas na casa também existe uma espécie de porão no qual raramente entramos, que está cheia de coisas estranhas e fascinantes. As idéias para os livros vêm daí, deste porão: de vez em quando a portinhola se abre, vamos lá e descobrimos idéias surpreendentes”.
De igual modo, para escrever necessitamos de inspiração. Continuemos com Scliar:
"Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que ”baixa" no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas — o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente".
É necessário saturar nossos sentidos não com a imagem e o som veiculados pela mass mídia. Mas com aqueles oriundos das expressões culturais de nossa gente. E isto é tarefa árdua, titânica, porque o que hoje se apresenta como cultura popular, quase sempre, está impregnada dos valores ideológicos dos setores dominantes, das classes privilegiadas.
Quanto mais lemos bons livros, quanto mais freqüentamos o teatro e o cinema, quanto mais visitamos museus e instalações, quanto mais nos debruçamos sobre a arte e suas manifestações, quanto mais refletimos sobre a realidade, mais aprimoramos nosso senso de observação e, conseqüentemente, mais nos abrimos à criatividade, ao advento de novas idéias, à compreensão de que este processo demanda esforço e determinação, componentes de todo fundamentais à dramaturgia.
Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br
sexta-feira, 21 de março de 2014
Não matem Sakineh
Aqui, e leia um post que publiquei
no dia 2 de agosto de 2010.
Não se omita!!! Ajude a libertar Sakineh
Sakineh Mohammadi Ashtiani, mãe iraniana, pode ser executada a qualquer momento.
9 de julho de 2010: Mohammad Mostafavi, advogado de Sakineh Ashtiani, disse à AFP:"ainda não fui informado de qualquer suspensão da sentença. Minha cliente continua na prisão." Uma mulher iraniana encara a morte após ser torturada por um suposto adultério.
Não matem
Sakineh
De Gaudêncio
Torquato - O Estado de S.Paulo
Sakineh
Mohammadi Ashtiani, de 43 anos, mãe de dois filhos, aguarda o momento de ser
enterrada até o pescoço e apedrejada. Condenada pelo artigo 83 do Código Penal
do Irã (Lei de Hodoud), que prescreve a lapidação por adultério, a iraniana da
etnia azeri confessou sob chicote ter mantido relações ilícitas. Das cem
chicotadas preconizadas pela sharia (lei), recebeu "apenas" 99 por "senso
humanitário" do juiz. No sábado 31/7, Luiz Inácio, amigo do líder do Irã,
Mahmoud Ahmadinejad, foi impelido a sugerir, em praça pública, a acolhida da
condenada entre nós. Depois da decisão de colocar o Brasil, juntamente com a
Turquia, na defesa do programa nuclear do Irã, nosso presidente não esperava
receber o troco em forma de deboche: "Pessoa humana e emotiva, que
provavelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso." Entre a
humanidade do juiz, dispensando a última chicotada em Sakineh, a da Corte
Suprema, que pode demonstrar "sensibilidade" e transformar o
apedrejamento em enforcamento, e o toque sentimental de Lula, em seu esforço
para evitar o "açoite" sobre o Irã, materializado em sanções impostas
pela ONU àquele país, desenrola-se o fio de concepções relativas sobre vida,
culturas e sistemas políticos.
Pois, leiam abaixo, caros amigos, matéria que extraí do
jornal O globo.
MUNDO
IRÃ DIZ QUE MULHER CONDENADA A APEDREJAMENTO FOI LIBERTADAO Globo
Sakineh Mohammadi Ashtiani (foto
abaixo), a iraniana que ficou famosa mundialmente após ser condenada à morte
por apedrejamento por adultério foi autorizada a deixar a prisão, de acordo com
um porta-voz do Judiciário do país.
Em uma nova reviravolta no caso —
a pena de Sakineh já sido alterada para 10 anos depois de críticas ao governo
iraniano — o porta-voz revelou que a mulher tinha deixado a prisão há várias
semanas por bom comportamento. Ele afirmou, sem entrar em detalhes, que a
decisão foi um sinal de “clemência da nossa religião com as mulheres”.
Ashtiani, que tem dois filhos, foi
condenada por adultério e cumplicidade no assassinato de seu marido em 2005. Um
ano depois, um tribunal lhe deu a sentença de apedrejamento até a morte. A
campanha movida pelos seus dois filhos resultou no adiamento de sua execução
iminente, em julho de 2010, mas a pena de morte não foi suspensa.
quinta-feira, 20 de março de 2014
Minha Casa, meu voto
Deu em O Estado de S.Paulo
Contempladas pelo programa Minha Casa, Minha Vida,
cerca de 400 famílias de Pacatuba, na região metropolitana de Fortaleza,
esperam há um mês pelas chaves de suas casas, que já estão prontas. O motivo do
atraso, como mostrou reportagem do Estado, retrata bem o lado
eleitoreiro do programa: de acordo com as autoridades locais, será preciso
aguardar a inauguração oficial do empreendimento, que será realizada pela presidente
Dilma Rousseff - mas só quando ela encontrar um tempinho em sua agenda.
Uma das beneficiárias do programa no Ceará disse
que está contando "as horas, os minutos e os segundos" para
finalmente receber as chaves. "Vou lá todo dia só para ficar olhando minha
casa novinha. Fico olhando do lado de fora um tempão", disse ela,
revelando o absurdo da situação.
O prefeito de Pacatuba, José Alexandre Alencar
(PROS), disse que "a agenda da nossa chefe maior é uma loucura",
porque Dilma "tem muita coisa para fazer no Brasil e no mundo", razão
pela qual "está difícil conciliar" (a agenda) com a inauguração de um
conjunto habitacional na Grande Fortaleza. Alencar, cujo partido é da base
aliada da presidente, disse que até já foi a Brasília pedir que a inauguração
fosse antecipada, mas a previsão é que a "festa", como disse o
prefeito, só aconteça no mês que vem.
Outra beneficiária do programa sugeriu que os
moradores recebessem logo as chaves, deixando a inauguração para quando a
presidente estivesse disponível. "Ela poderia deixar a gente entrar na
casa e depois, quando desse, viria nos visitar", disse a moradora. "A
gente teria o prazer de receber a presidente dentro de casa, com tudo
arrumadinho, com os móveis no lugar." A singeleza dessa mãe de três filhos
pequenos deveria bastar para que a presidente deixasse de pensar apenas em sua
reeleição e autorizasse logo a entrega das chaves, sem a necessidade da
fanfarra palanqueira.
Se Dilma fizesse isso, no entanto, não seria Dilma,
pois cada ato de seu governo, cada segundo de sua agenda de compromissos, cada
palavra destrambelhada que ela pronuncia são milimetricamente ajustados para
caber no esforço da campanha eleitoral. Enquanto isso, a prefeitura de Pacatuba
se desdobra para explicar às famílias beneficiadas que a responsabilidade pelo
atraso na entrega das casas é do governo federal.
"Precisamos entregar essas casas, todo mundo
está cobrando e tem gente que acha até que o nome foi retirado da lista de
beneficiados", disse Elisangela Campos, secretária de Assistência Social
do município. "Se ela (Dilma) puder vir, vai ser uma honra; caso
contrário, ela poderia mandar um representante." Mas a presidente, que usa
essas inaugurações para tirar fotos com eleitores e fazer discursos de
campanha, certamente não delegará essa tarefa a terceiros.
O Minha Casa, Minha Vida tornou-se o retrato
perfeito de um governo que promete o paraíso e entrega, no máximo, o
purgatório. Principal vitrine eleitoral de Dilma, o programa há tempos
coleciona denúncias de irregularidades e problemas de infraestrutura nos
imóveis.
Há casos comprovados de aparelhamento pelo PT, num
esquema em que quase todos os projetos aprovados na cidade de São Paulo foram
apresentados por entidades dirigidas por filiados ao partido, que privilegiam
petistas na seleção de candidatos ao financiamento. Além disso, o Tribunal de
Contas da União já verificou sinais de fraudes na inscrição de milhares de
beneficiários, que teriam apresentado um perfil de renda inferior ao real para
se adequarem ao programa. E há o problema da qualidade das casas. Abundam
reclamações de moradores, Brasil afora, sobre rachaduras, vazamentos e
infiltrações - em muitos casos, os problemas aparecem apenas alguns meses
depois que Dilma entrega as chaves.
Não se questiona a importância dos programas de
habitação e de urbanização. Ao contrário: o investimento ainda é tímido ante as
necessidades do País. É por isso mesmo que esse tema deveria ser tratado com
muito mais responsabilidade, e não como mero ativo eleitoral, como tem feito a
presidente.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Para os que se deleitam atirando a primeira pedra
Meus queridos, a seguir, notícia que extraí do portal G1, e logo
depois, artigo que escrevi a respeito.
STJ condena SBT a
pagar indenização no caso Escola Base
Em 1994, donos de escola foram alvos de acusações
de abuso sexual.STJ mandou pagar R$ 100 mil a cada um dos ex-donos e a ex-motorista.
Do G1, em Brasília
A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou a
emissora SBT a pagar indenização por danos morais a dois ex-donos da Escola
Base e a um ex-motorista, no valor de R$ 100 mil para cada um. A decisão foi
publicada no dia 11 de fevereiro e divulgada nesta quarta-feira (19). Ao G1,
o SBT disse que entrou com recurso.
O episódio ocorreu em 1994 em uma escola infantil no bairro da
Aclimação, em São Paulo, e ficou conhecido como caso Escola
Base. Após denúncia de duas mães sobre supostos abusos sexuais cometidos pelos
donos da escola e funcionários contra seus filhos, que tinham à época 4 anos de
idade, a imprensa passou a divulgar as acusações. O inquérito, entretanto,
acabou arquivado por falta de provas.
Os ministros entenderam que os ex-donos da escola tiveram a honra
atingida pelas reportagens que continham acusações sem provas. A escola teve
instalações destruídas e fechou as portas - segundo o STJ, isso ocorreu em
consequência das reportagens. Os acusados foram ameaçados de morte.
No caso do SBT, os ex-donos da escola e o ex-motorista obtiveram no
Tribunal de Justiça de São Paulo indenização de R$ 300 mil para cada um. A
empresa recorreu ao STJ e alegou que o valor fixado foi muito elevado e que não
teve nenhuma atitude direta no prejuízo aos ex-donos da Escola Base.
A turma do STJ considerou que depoimentos comprovaram que a emissora
diariamente apresentou "reportagens de conteúdo inverídico e sensacionalista"
sobre o episódio. No entanto, os ministros atenderam pedido do SBT para reduzir
a indenização de R$ 300 mil para R$ 100 mil para cada um dos três envolvidos.
Para os que se deleitam atirando a primeira pedra
“(...)
Por aqui, um caso que chocou o mundo foi o que vitimou a família
Shimada, proprietários da Escola Base, de São Paulo.
Em 1994, Maria Aparecida e seu marido Icushiro Shimada, além do colaborador Maurício de Alvarenga, foram acusados pela polícia de promover orgias com menores na escola infantil que mantinham no bairro da Aclimação, cidade de São Paulo.
Boa parte da mídia, ávida por escândalos que dêem visibilidade aos indicadores de audiência, embarcaram de corpo e alma na cantilena policial, ajudando a mobilizar o povo para o justiçamento. E foi o que literalmente aconteceu.
Tudo começou quando duas mães de alunos acusaram os proprietários da Escola Base de promoverem orgias com as crianças lá matriculadas. O delegado Edélcio Lemos, no afã de aparecer, acatou imediatamente a denúncia e, estabanadamente, deu curso aos procedimentos atropelando tudo o que a boa lógica e a gestão serena recomendavam.
Um delegado incompetente aliado à parte da imprensa sensacionalista e irresponsável conceberam e edificaram o ambiente propício para a caçada às bruxas.
Pedofilia, violência contra crianças, abusos sexuais e estupros são questões que a plebe ignara utiliza para purgar os pecados coletivos, para redimir fracassos e frustrações. Pouco importa se, de fato, algum crime foi perpetrado, e se existem suspeitos. Como nos idos dos gladiadores romanos, a massa clama e requer martírio e sangue. Objetivam a catarse coletiva. Se não existe crime, invente-se. Não existem suspeitos? Criem-se culpados. O que resta? A aplicação da pena máxima, o justiçamento, preferencialmente por linchamento seguido de incineração do corpo.
(...)”Em 1994, Maria Aparecida e seu marido Icushiro Shimada, além do colaborador Maurício de Alvarenga, foram acusados pela polícia de promover orgias com menores na escola infantil que mantinham no bairro da Aclimação, cidade de São Paulo.
Boa parte da mídia, ávida por escândalos que dêem visibilidade aos indicadores de audiência, embarcaram de corpo e alma na cantilena policial, ajudando a mobilizar o povo para o justiçamento. E foi o que literalmente aconteceu.
Tudo começou quando duas mães de alunos acusaram os proprietários da Escola Base de promoverem orgias com as crianças lá matriculadas. O delegado Edélcio Lemos, no afã de aparecer, acatou imediatamente a denúncia e, estabanadamente, deu curso aos procedimentos atropelando tudo o que a boa lógica e a gestão serena recomendavam.
Um delegado incompetente aliado à parte da imprensa sensacionalista e irresponsável conceberam e edificaram o ambiente propício para a caçada às bruxas.
Pedofilia, violência contra crianças, abusos sexuais e estupros são questões que a plebe ignara utiliza para purgar os pecados coletivos, para redimir fracassos e frustrações. Pouco importa se, de fato, algum crime foi perpetrado, e se existem suspeitos. Como nos idos dos gladiadores romanos, a massa clama e requer martírio e sangue. Objetivam a catarse coletiva. Se não existe crime, invente-se. Não existem suspeitos? Criem-se culpados. O que resta? A aplicação da pena máxima, o justiçamento, preferencialmente por linchamento seguido de incineração do corpo.
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