sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A porcaria que custa ouro



Preocupada com as questões ambientais, a sociedade civil se organiza, se mobiliza, faz das tripas coração para assegurar um planeta mais limpo e saudável para as futuras gerações. Movimenta mundos e fundos, mas quando chega o instante da aferição, os resultados que emergem da ponta do lápis enfatizam contas que nunca fecham, sempre distantes dos números positivos.

E se assim ocorre, a responsabilidade é quase sempre dos governos e das grandes empresas e corporações. É que os objetivos destes muito dificilmente convergem para os da sociedade, a não ser na propaganda e no proselitismo fácil e enganador.
Tomemos o caso da Petrobrás como exemplo.

Empresa governamental, deveria ser a primeira a dar exemplo de sustentabilidade ambiental, e de fato o faz... nas peças publicitárias; setor onde gasta jazidas e mais jazidas de dinheiro vivo... ou – melhor dizendo – de dinheiro imantado pelo viscoso óleo negro.

Utilizando modelos matemáticos sobre dados obtidos com farto material colhido na atmosfera de São Paulo, a pesquisadora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, professora Leila Martins, chegou à conclusão que a gasolina nacional gera muito mais ozônio do que o necessário, pior, do que o fartamente propagado.

Quando compara o combustível produzido pela Petrobrás com a gasolina fabricada na Califórnia, nos Estados Unidos, a pesquisadora conclui que a produção do poluente em São Paulo cairia 43% se os automóveis utilizassem combustível com padrão californiano de refino.

Ou seja, falando francamente e sem rodeios: os brasileiros pagam muito mais caro que os californianos para encher o tanque de seus veículos, mas, em contrapartida, são obrigados a receber um produto de muito pior qualidade. Não bastasse a gasolina suja e batizada com água, benzeno, e ‘otras cositas mas’ que polui o ambiente e funde o motor dos nossos carros, temos ainda que pagar pela porcaria, preço de gasolina de primeiro mundo.

Enquanto o meio ambiente padece e o povo lamenta o prejuízo no bolso e na qualidade de vida, a Petrobrás (com ‘p’ minúsculo, mesmo!) exulta.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Quando meia palavra basta

Quando nos deparamos com a ignorância fora da escola já estão colocadas as condições para a plena indignação, aquela mais aguda e revoltante. Porque a ignorância é a mãe da brutalidade, da estultice, da insanidade intelectual. Além de embrutecer as pessoas, corrói as forças da sociedade, as emergias do país.

Já é grave assim quando se manifesta nas ruas. Mas quando a ignorância finca raízes no interior das escolas - configurando claramente os equívocos e distorções das políticas públicas levadas a efeito na área educacional - então o sentimento tangencia a perplexidade e a hedionda repulsa.

A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE traz à luz uma realidade perversa, terrífica: temos no Brasil 2,1 milhões de alunos entre 7 e 14 anos analfabetos. E o mais grave é que, deste universo, quase 88% freqüentavam a escola no ano passado. .

Um outro dado de levantar defunto: 29% das crianças com 7 anos de idade não sabiam ler e escrever, em que pese 90,8% delas estarem presentes em sala de aula, freqüentando a escola.

Geograficamente, a região nordeste é o quadrante do país onde o problema mais se evidencia, se manifestando de maneira avassaladora. Nada menos que 44% das crianças nordestinas com 7 anos encontram-se na situação de iletrados. É quase a metade dos brasileirinhos que lá residem.

Na região Norte, este indicador chega a 39,6%.

Já na faixa que se inicia nos 8 e se estende até os 14 anos de idade, o índice de analfabetismo bate a casa dos 5,4%, segundo o IBGE. E o mais curioso e inaceitável: a esmagadora maioria desses brasileirinhos - vítimas da desídia governamental - são estudantes, estão nas escolas, e se não aprendem não é em razão do abandono, da perambulação pelas ruas, becos e esquinas. Não, freqüentam as aulas, prestam com habitual regularidade as provas e exames de avaliação, registram diligentemente a freqüência. Para se ter uma idéia do quão acintosa é esta realidade, do universo de 1,3 milhão de analfabetos no extrato, 84,5% estão estudando, ou seja, 1,1 milhão.

E aqui, importa abrir um parêntese: a eloqüência dos dados apresentados na Síntese de Indicadores Sociais do IBGE pode esconder uma situação ainda mais absurda. Na faixa contemplada pelo estudo, dos 8 aos 14 anos, o analfabetismo seguramente é muito maior em virtude de desconsiderar a população de 7 anos, que, pelo menos em tese, deveria cursar a 1 série do ensino fundamental, ainda em fase de alfabetização.

São números que deveriam falar por si, indicadores que deveriam ser suficientes para alterar as políticas públicas estabelecidas pelo MEC. Ensina o ditado popular que, para os que têm vergonha na cara, meia palavra basta. Já para os que não têm, uma locomotiva é insuficiente.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Para os que se deleitam atirando a primeira pedra

Deu nos jornais:
DNA livra acusado de estupro após 26 anos nos EUA

Um acusado por estupro que passou quase 26 anos na prisão foi libertado por uma corte de Dallas, nos Estados Unidos. Um juiz recomendou a revisão da pena de Johnnie Earl Lindsey, após um teste recente de DNA demonstrar sua inocência. O caso de 1981 envolvia uma mulher de Dallas, e Lindsey foi condenado no ano seguinte.

Segundo a advogada Michelle Moore, o acusado sempre alegou inocência e inclusive tinha o cartão de ponto provando que ele estava no trabalho no momento do crime. Morre afirmou que houve um erro das testemunhas ao identificá-lo. Além disso, os policiais teriam se equivocado na ordenação das fotos dos suspeitos, o que contribuiu para o engano.

Lindsey é o 20º réu do condado de Dallas a ser inocentado por testes de DNA desde 2001, quando passou a valer uma nova lei estadual que aceita esses exames como provas em processos.

E escrevi pouco tempo atrás:

Um país refém da ideologia dos batedores de carteira

“Castigat ridendo mores”


Alguns costumes castigam as pessoas e o mundo.

Muitos deles vêm de milênios, acompanhando os diferentes estágios da evolução humana, mas mantendo a espécie num limiar entre o moderno e o bárbaro.

Dos mais graves é o costume de julgar, um hábito embebido de preconceito, açodamento, irresponsabilidade, leviandade, arrogância, posto que, na maioria das vezes, ocorre sem que se tenham os elementos mínimum minimórum de convicção, sem que a verdade esteja – de maneira irretocável – disposta, sem que os fatos estejam plenamente esclarecidos.

E realizado nessas condições, as possibilidades de erro, equívoco, engano, se multiplicam, elevam-se à enésima potência, escancarando as portas para que a injustiça mais vil e atroz se estabeleça soberanamente.

Circula na web uma fábula - O pitbul & o coelho – uma boa ilustração para o assunto que tratamos:

Eram dois vizinhos.

O primeiro vizinho comprou um coelhinho para os filhos.

Os filhos do outro vizinho pediram um bicho para o pai, que decidiu comprar um cão pitbul.

Conversaram os vizinhos:
- Mas o seu cão vai comer o meu coelho.
- Que absurdo!, de jeito nenhum, imagina, o meu pitbul é filhote, os bichanos crescerão juntos, pegarão amizade, e olhe que eu entendo de bicho como ninguém.


E tudo levava a crer que o dono do cachorro estava coberto de razão. E não é que juntos os animais cresceram e mais que amigos ficaram?! De tal modo que ninguém mais estranhava ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa.

Eis que o dono do coelho resolve passar o final de semana na praia com a família e deixou o bichinho sozinho.

Domingo, final de tarde, a família saboreava o lanche quando entra o pitbul na cozinha.
Dentre os dentes, o cão trazia o coelho, todo imundo, vermelho de terra e, morto.

Não tiveram dúvidas. Mataram o cachorro de tanto agredi-lo.
Berrava o homem:
- O vizinho estava certo, e agora, o que vai ser? Só podia dar nisso!

Mais algumas horas e os vizinhos chegariam. Angustiados, todos se olhavam num misto de revolta e incredulidade.
O cachorro jazia prostrado no meio da casa, morto, irremediavelmente morto.

-Já pensaram como vão ficar as crianças?

Não se sabe exatamente quem teve a idéia, mas parecia infalível:
-Vamos lavar o coelho, deixá-lo limpinho, depois a gente seca com o secador e o colocamos na casinha dele.

E assim foi feito.
Até perfume colocaram no coelhinho. Ficou lindo, parecia vivo, diziam.
Logo depois escutam os vizinhos chegando. E os gritos desolados das crianças.

- Descobriram!

Não passaram cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.

- O que foi? Que cara é essa?
- O coelho, o coelho...
- O que tem o coelho?
- Morreu!
- Morreu? Ainda hoje à tarde parecia tão bem.
- Morreu na sexta-feira!
- Na sexta?
- Foi antes de viajarmos, as crianças o enterraram no fundo do quintal e agora reapareceu!

Um cão massificado com a fama de malvado, todos os dias ilustrando as páginas dos jornais com cenas de agressividade e violência explícitas, estraçalhando crianças, matando velhinhos, atacando pessoas, avançando em tudo o que ousasse simples movimento... Como não ser o pitbul? Está julgado, condenado e executado! ‘Tua fama te condena!’ Não é assim que procedemos? E mesmo quando não prevalece a fama, prevalecem os preconceitos.

Pouco importa que o pitbul seja inocente, que não tenha nada a ver com o ‘crime’. Pouco importa que, desesperadamente, tenha procurado o amigo de infância, esquadrinhado toda a redondeza, farejado por todos os quarteirões, numa busca frenética, angustiante, como a do pai que procura o filho perdido. Pouco importa que tenha desejado morrer junto com o amigo-coelho quando o encontrou enterrado. E que, carinhosa e cuidadosamente, tenha desenterrado o companheiro de todas as horas, e – se apegando num tênue fio de esperança - decidido recorrer ao dono, acreditando, com todas as forças, possível a ressuscitação... afinal não são os humanos tão poderosos e criativos?

Sim, os humanos sempre foram muito poderosos e criativos... para o bem e para o mal. E muitas vezes, a única ‘verdade’ que interessa é a urdida nos escaninhos do imaginário coletivo. Se o vermelho é púrpuro, torne-se azul; se o sabor é limão... ei-lo chocolate; se a textura é rugosa, num estalar de dedos está plenamente lisa e uniforme.

Mas... e os fatos, os antecedentes, a lógica, os indícios, as provas, os interesses, as contradições?

Qual o quê?! Se é noite, basta afirmar que o sol está a pino. É inverno? Decrete-se verão. É inocente? Oficialize-se culpado. O que importa são as convenções sociais. Se à consciência dói prender, então sejamos politicamente corretos, interne-se no manicômio. Bradam os hipócritas:

- A média é tudo! E não interessa que os pés estejam esturricando no forno em brasas e a cabeça petrificando, no congelador, pois que a temperatura média está em equilíbrio.

Vivemos o império da mentira. Os honestos, os íntegros, os éticos, os que cultuam e propagam a verdade são diuturnamente vítimas de ciladas, tramóias, intrigas, fuxicos, armações ilimitadas, urdis medonhos e mesquinhos...

Em Miami, na Flórida, EUA, um homem permaneceu durante 26 anos preso, condenado por ter cometido sete crimes sexuais. Foi detido no dia 29 de agosto de 1979 e acusado por nada menos que 25 mulheres. Todas, sob juramento, asseguraram terem sido violentadas ou vítimas de tentativas de violação.

A organização norte-americana “Projeto Inocência” - que investiga casos de possíveis erros judiciais - conseguiu convencer as autoridades a providenciar testes de DNA e escutar novamente as testemunhas, com o que se comprovou a inocência do indivíduo de origem cubana Diaz, no mais importante caso de reabilitação – dentre os 160 - já resolvido pela instituição.

O Ministério Público local se manifestou informando que encerraria o caso contra Diaz, visto que as provas de DNA indicam que o criminoso é uma outra pessoa e que algumas das presumíveis vítimas alteraram os testemunhos apresentados.

Porém, 26 anos da vida de Diaz foram parar no esgoto, na lata de lixo. O pujante sistema judiciário ostentado pelo país mais poderoso e desenvolvido do planeta não foi eficaz o suficiente para impedir que o erro fosse perpetrado.

Um outro caso ficou como mácula indelével na história.

No início dos anos 20, dois imigrantes italianos foram detidos pela polícia de Boston, EUA. Nicola Sacco, sapateiro, e Bartolomeo Vanzetti, peixeiro, integravam o movimento político anarquista e foram acusados de responsáveis por um assassinato ocorrido no dia 15 de abril de 1920.


O sistema encontrou em Sacco e Vanzetti uma forma de reafirmar suas referências conservadoras e conduziu o julgamento para ‘verdadeirar’ suas versões e visões. O sentido de tudo era, sobretudo, nortear os estrangeiros imigrantes quanto aos valores defendidos pela América e deixar um exemplo suficientemente convincente para os que ousassem questionar o stabilishment.

Acusados de assassinato, em 1921 foram levados a julgamento e condenados num dos mais escandalosos episódios de erro judicial do século XX. O Estado acusava-os do homicídio de um contador e de um guarda de uma fábrica de sapatos. Nem o aparecimento de um outro homem admitindo a autoria dos crimes foi suficiente para inocentá-los.

E no dia 23 de agosto de 1927 a sentença foi executada com Sacco e Vanzetti sendo eletrocutados na cadeira elétrica. Todo o processo manteve-se a léguas de distância da reparação judicial para conforma-se no caldo raso e mesquinho dos interesses políticos.

Filmado pelo diretor italiano Umberto Marino, o filme teve – no período da ditadura militar - sua exibição proibida no Brasil.

Por aqui, um caso que chocou o mundo foi o que vitimou a família Shimada, proprietários da Escola Base, de São Paulo.

Em 1994, Maria Aparecida e seu marido Icushiro Shimada, além do colaborador Maurício de Alvarenga, foram acusados pela polícia de promover orgias com menores na escola infantil que mantinham no bairro da Aclimação, cidade de São Paulo.

Boa parte da mídia, ávida por escândalos que dêem visibilidade aos indicadores de audiência, embarcaram de corpo e alma na cantilena policial, ajudando a mobilizar o povo para o justiçamento. E foi o que literalmente aconteceu.

Tudo começou quando duas mães de alunos acusaram os proprietários da Escola Base de promoverem orgias com as crianças lá matriculadas. O delegado Edélcio Lemos, no afã de aparecer, acatou imediatamente a denúncia e, estabanadamente, deu curso aos procedimentos atropelando tudo o que a boa lógica e a gestão serena recomendavam.

Um delegado incompetente aliado à parte da imprensa sensacionalista e irresponsável conceberam e edificaram o ambiente propício para a caçada às bruxas.

Pedofilia, violência contra crianças, abusos sexuais e estupros são questões que a plebe ignara utiliza para purgar os pecados coletivos, para redimir fracassos e frustrações. Pouco importa se, de fato, algum crime foi perpetrado, e se existem suspeitos. Como nos idos dos gladiadores romanos, a massa clama e requer martírio e sangue. Objetivam a catarse coletiva. Se não existe crime, invente-se. Não existem suspeitos? Criem-se culpados. O que resta? A aplicação da pena máxima, o justiçamento, preferencialmente por linchamento seguido de incineração do corpo.

Neste caso, a formalização dos procedimentos deu ao episódio uma vestimenta de seriedade, ‘lógica’ e consistência oficial. Os trâmites dispostos nas normas foram observados, testemunhas foram ouvidas, laudos técnicos elaborados. O circo estava preparado para o trágico e insidioso espetáculo. A parte da imprensa que integrou a súcia gozava o êxtase. A Folha da Tarde chegou a estampar: “Perua escolar carregava crianças para orgia”. E a Revista Veja, num de seus piores momentos, deu como manchete: “Escola de horrores”.

Plenamente convencido da existência do crime e da cabal identificação dos ‘criminosos’, o povo foi cuidar de garantir – com as próprias mãos – a defesa dos interesses sociais, promovendo o que o Estado se mostrava incapaz de cumprir: através de telefonemas, bilhetes, cartas e gritos passaram a ameaçar de morte o casal Shimada; invadiram e depredaram a escola de educação infantil, levando-os à bancarrota; roubaram-lhes a paz e até hoje as seqüelas persistem. Raramente o casal sai de casa, e tanto Maria Aparecida como seu marido Icushiro Shimada só conseguem dormir à custa de medicamentos tarja preta.

Logo o Estado teve que admitir o descomunal erro da polícia e a imprensa não teve como deixar de noticiar que as denúncias eram inteiramente falsas, desprovidas de qualquer fundamento.

Maiores vítimas da orquestração, os acusados foram considerados inocentes e o delegado tratou de arquivar, com a maior celeridade, o inquérito policial. Era necessário que todos esquecessem a sórdida trama: intimidação e tortura, testemunhas mentindo, provas arranjadas, laudos forjados, a ética profissional tripudiada e um conjunto indecoroso de procedimentos urdidos para consolidar o mal.

Um dos casos que devem angustiar Franz Kafka, impedindo-o de descansar no túmulo. Delegados, policiais e jornalistas saíram ilesos, ninguém foi punido, a não ser as vítimas que hoje, lutam na justiça por um mínimo de reparação.

A lição se prestou para alguma coisa? Qual?!

Todos os dias fatos similares ao da Escola Base ocorrem Brasil afora.

O ex-Ministro Alceni Guerra foi praticamente linchado por, segundo as autoridades/imprensa, ‘estar comprometido até os ossos’ com a corrupção e o desvio de dinheiro público, como o superfaturamento na compra de bicicletas. Provado a inocência, quem foi punido senão o ex-ministro, a vítima da tramóia?

Em 1996, na Choperia Bodega ocorreu um assalto seguido de dois assassinatos. Foi um episódio emblemático que gerou, inclusive, o surgimento do movimento Reage São Paulo. Em 15 dias as autoridades policiais chegaram a apresentar nove suspeitos. Posteriormente todos foram absolvidos e liberados por falta de provas. A tortura foi o mecanismo novamente utilizado para arranjar as confissões. E novamente parte considerável da imprensa caiu no conto de sereia policial, fotografando os suspeitos algemados, estampando-os nas primeiras páginas como marginais, delinqüentes, assassinos confessos.

A comédia - gênero da dramaturgia universal originada na Grécia antiga - tem um lema que classifico como uma das regras de ouro do teatro: “castigat ridendo mores” - rindo, castiga os costumes. Na realidade, ao que tudo indica, o país transformou-se numa grande comédia aos avessos. Ri, e ri muito, mas não consegue castigar seus costumes. E o ‘julgue e execute primeiro para comprovar depois’ tem sido um de nossos mais hediondos costumes.

Ainda que a culpa esteja comprovada, todos deveriam ter direito a um julgamento nos moldes preconizados na lei, todos deveriam ter garantido o direito de apresentar defesa, contraprovas, testemunhas, todos deveriam ter assegurado direito ao contraditório. É o que preconiza a lei maior da nação.

A passagem registrada pelo evangelista João parece não ter mais sentido no mundo de hoje. Inocente ou não, o que vale é a lei do talião, a Lex Talionis, o Código de Hamurabi de 1730 a.C: olhos por olho, dente por dente. Na passagem bíblica, Jesus adverte aos que acusavam uma pecadora: “Aquele que não tem pecado que atire a primeira pedra...”.

Pouco tempo atrás escrevi uma fábula expressando minha indignação contra os que, qual gado em estouro de boiada, se deixam conduzir pela manada, sem sequer refletir sobre o rumo e a direção que perseguem. É um retrato de minha indignação contra os que semeiam a mentira e contra os que anseiam, os que estão sempre ávidos, solícitos e sedentos por uma nova rede de intrigas, novas teias de mentiras, urdindo fofocas e mais fuxicos, plantando boatos e mentiras, sequiosos por enganar e serem enganados. Ei-la aqui:

A raposa e o estancieiro

A raposa, sendo surpreendida pelo dono da estância, não se fez de rogada:

- Foi o coelho quem comeu as galinhas, os pobres dos pintinhos e os suculentos patos também.
- Mas coelhos não são herbívoros? – replicou indignado o homem.

Procurando manter a pose e a empáfia, a raposa não se deixou intimidar:

- Não acompanhas a evolução do conhecimento, estúpido? Nada sabes sobre as revolucionárias inovações da genética, das pesquisas com células tronco, da nanobiologia? – E, impávida, arrematou toda impoluta e senhora de seus botões: - Com a modernidade, os coelhos tornaram-se vorazes carnívoros e nós, as raposas, redimidas de todo o mal, transformamo-nos em inofensivas devoradoras de relva e gramíneas, intelectuais orgânicas, cidadãs dos processos de inclusão e transformação social e baluartes do politicamente correto.

Respirando fundo para manter o controle, o estancieiro deu trelas ao animal, como que desejando investigar até onde chegaria a perversidade e a delinqüência do outro:

- Se é de relva que se alimenta, então qual a razão de tanto sangue e penugem nesses pontiagudos caninos?

Arfando ar autoritário e professoral, a raposa esquadrinhava o universo tentando localizar, no pantanal, um naco de chão onde pudesse firmar as pernas bambas:

- Como é insuportável lidar com a ignorância e a estultice. – E prosseguiu, intrépida e afoita: - Com o novo ordenamento dos filamentos helicoidais do DNA, a verde clorofila tornou-se púrpura intensa e a apetitosa gramínea adquiriu o formato de penas, plumas e penugens...

Não cabendo de revolta e repulsa, o homem riscou o facão no ar para ver a cabeça da raposa cair distante do restante do corpo. Náusea, fastio e asco lhe turvaram os sentimentos quando viu estampada na cabeça inerte da sanguinária e impiedosa assassina o olhar singelo, cândido e inocente só dado aos puros de coração.

Moral da história: jamais acuse o outro de fazer o que você faz. Ainda que tarde, haverá um dia em que a mentira sucumbirá frente ao inexorável e avassalador romper da verdade.

Poderíamos resgatar um antigo hábito que se esvaiu no tempo: o de questionar, fazer perguntas, inquirir, duvidar, analisar criticamente, identificar e refletir sobre os interesses em jogo, passar e repassar os fatos, checando com rigor os procedimentos adotados, assegurar como cláusula pétrea o contraditório, a premissa de que todos são inocentes até prova cabal em contrário, até esgotadas todas as instâncias processuais.

Onde foram parar os princípios que, desde a antiguidade, norteiam o raciocínio lógico, o encadeamento racional dos acontecimentos, as questões estratégicas que deveriam balizar o procedimento investigativo?

Quem não se lembra da piada do ladrão batedor de carteira que, correndo em fuga, ia abrindo caminho dentre a multidão gritando “pega o ladrão, pega o ladrão”?

Temos que zelar para que o Brasil não se torne o paraíso dos gatunos batedores de carteira.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Observação - a luz que ilumina o caminho


O ator é uma das referências do teatro. Para que um espetáculo chegue a bom termo, pelo menos sob o ponto de vista técnico, há que se ter no mínimo dois sujeitos: de um lado o ator, e do outro, o espectador.

Para transmitir sua mensagem, o ator se municia de diversos instrumentos e técnicas, como a linguagem gestual e a presença de palco; a impostação da voz e o aperfeiçoamento da dicção; a re-elaboração do texto, do contexto e de suas diferentes nuances; a interpretação cênica e um conjunto de outras ferramentas que tornam sua ação dramática mais eficaz.

É este conjunto de técnicas que faz do teatro - enquanto instrumento de transmissão de conteúdos - a manifestação artística mais ampla, abrangente e adequada de todos os tempos.

Foi por esta razão que originalmente no Egito, e depois na Grécia e no restante do mundo, os sacerdotes e as elites religiosas utilizaram o teatro para reverenciar suas principais divindades.

Foi este conjunto de técnicas que levou Padre Anchieta a utilizar o teatro como instrumento de catequese, de conversão dos índios à causa cristã.

O teatro consegue - de forma presencial - aglutinar as demais atividades artísticas como a dança, a música e a oratória, tornando-se, além de ponto de convergência, o mais ameno, agradável e eficaz veículo de comunicação.

Não foi outro o motivo que levou o clero, na idade média, a conduzir o teatro para o interior das igrejas, promovendo autos que realçavam o conflito entre bem e o mal, massificando os valores da moral cristã.

Por suas exclusivas características e poder de mobilização, o teatro também tem servido aos propósitos dos sistemas autoritários de direita e de esquerda. Na Itália e na Alemanha nazi-fascista; nos países comunistas da então cortina de ferro; em Cuba, China e na Coréia comunista, é utilizado como caixa de ressonância da ideologia vigente.

Assim como um bisturi pode ser manuseado para o bem e para o mal, também o teatro é um instrumento apto para ser utilizado conforme a conveniência e interesses de plantão.

O teatro - e a arte de uma forma geral - atuam sobre os cidadãos, que tencionam a sociedade e a realidade, transformando-as para o progresso que expande e liberta, mas também para a inércia que limita e comprime.

No contexto de uma educação que atue sobre os indivíduos habilitando-os para compreender, interpretar e modificar a realidade; e no contexto do exercício de um tipo de liderança que mobilize a equipe – do setor público ou privado - para a superação dos desafios, o teatro tem lugar de destaque.

Por isto deve ser utilizado em profusão tanto no ensino regular como no informal, tanto nas linhas de produção quanto nas reuniões de planejamento estratégico. Das creches e pré-escola, passando pelos ensinos fundamental, médio e superior, o teatro pode se constituir num grande canal de condução dos conteúdos pedagógicos. Da base da pirâmide produtiva, onde se operacionalizam as tarefas, ao vértice superior, onde se instala a alta direção, o teatro pode se constituir num grande canal de condução dos conteúdos de qualidade, de difusão do empreendedorismo.

Nas relações que se estabelecem nos centros de ensino, unidades de produção e instituições públicas, perpassam mensagens e valores que muitas vezes se desviam do destino, ou chegam de forma distorcida, truncada e alterada. O domínio das técnicas dramáticas por todos que vivenciam o espaço educacional pode contribuir para a desobstrução dos canais, para a limpeza do lixo que congestiona nossas vias de integração.

Nos locais em que o teatro é utilizado como ferramenta de internalização de valores e princípios, os compromissos se intensificam, as responsabilidades se aprofundam resultando em conquistas mais expressivas, com as metas sendo sucessivamente superadas.

Um dos grandes segredos do teatro é a observação. O autor da peça teatral, o diretor e os atores do espetáculo exercitam-na à exaustão, pois disto depende a performance dramática de cada um. A caracterização de qualquer personagem será tanto mais profunda quanto mais detalhados forem os estudos originados das observações, efetuadas com rigorosa acuidade. É comum, por exemplo, atores que interpretarão personagens mais marcantes como doentes mentais ou presidiários, internarem-se em sanatórios e centros de detenção para, observando em profundidade a realidade em foco, levar ao palco uma representação mais qualificada. Quando se verifica um teatro medíocre feito por atores medíocres, no fundo o que ocorre é a absoluta carência da habilidade da observação. Sem uma primorosa capacidade de observação, o teatro perde substância e qualidade.

Também na ciência é assim. Grandes descobertas se devem não às intenções dos cientistas, mas às suas capacidades de observar fatores que ocorrem ao largo do planejamento e da lógica traçada para o projeto de pesquisa.

Alexander Fleming, o pai da penicilina, deve esta esplendorosa descoberta à observação. No ano de 1928, enquanto concentrava todo o seu esforço e atenção numa pesquisa sobre a gripe, observou que sobre uma lâmina de culturas de estafilococos originou-se, acidentalmente, um mofo com um círculo em torno de si. Dando continuidade às experiências, comprovou que uma cultura líquida do mofo - que denominou penicilina - impedia o crescimento das bactérias mesmo quando diluída centenas de vezes. Por conta do experimento, fruto de observação, Fleming ganhou o Prêmio Nobel de Medicina e a penicilina desde então tem ajudado a salvar milhões e milhões de vidas humanas.

O fato do exercício teatral exigir de seus integrantes exaustivas investigações alicerçadas na observação metódica, é mais uma forte razão para que esta manifestação artística seja apropriada pelos educadores, pelos gestores, pelos dirigentes, pelos líderes, pelos empreendedores.

Um professor que não tenha desenvolvido um tino apurado para a observação, será quando muito um catequizador, jamais um educador. Formará alunos incapazes de enxergar a si, em conseqüência incapazes de enxergar o outro e o mundo.

Um gestor que não domine com profundidade as técnicas de observação jamais estará em condições de sistematizar alternativas e oportunidades, jamais estará apto a identificar as ameaças, jamais conseguirá o respeito de sua equipe.

O mesmo ocorrerá com o empreendedor que estará atuando num ambiente hostil na condição de um perneta cego.

Em decorrência deste tipo de deficiência, caso ignore as relações de causa e efeito, caso não consiga desvendar a realidade a sua volta, o cidadão dificilmente saberá organizar, sistematizar e extrair do pensamento o componente capaz de lhe dar materialidade e eficácia.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O número saído das trevas: 8.097.513 de eleitores analfabetos

A boa nova recém divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral é que o Brasil superou a casa dos 130 milhões de eleitores.

Com um crescimento de 7,5% em relação a 2004, já somos 130.391.630 aptos a votar. Todavia, como no Distrito Federal não existem eleições municipais, votarão 128.805.829 brasileiros, distribuídos nos 5.564 municípios dos 26 estados do país.

O TSE informa que as mulheres compõem a maioria do eleitorado. São 67.483.419 e correspondem a 51,72% do total.

O estado de São Paulo é, disparado, o maior colégio eleitoral com 29.143.392 eleitores. Na seqüência aparecem Minas Gerais com 14.070.606, Rio de Janeiro com 11.259.336, Bahia com 9.153.703, Rio Grande do Sul com 7.925.459, Paraná com 7.299.999 e Pernambuco com 6.067.589.

Neste contexto, um número – como que saído das trevas – macula a alma nacional. Do total de eleitores, 8.097.513 são analfabetos.

Outro dado que assombra é que a maioria, 44.456.754 eleitores, não conseguiu concluir sequer o primeiro grau.

Na extremidade oposta, apenas 4.558.845 têm curso superior completo.

Como já era de conhecimento geral, os dados recém divulgados pelo TSE demonstram que a maioria dos eleitores brasileiros são jovens. São 31.620.929 cidadãos situados na faixa etária que vai de 25 a 34 anos.

Os eleitores de primeira viagem, com 16 anos de idade, somam 1.119.028; e os com 17 anos, 1.803.404.

As eleições estão para as democracias como as águas para os peixes. Se o que desejamos é um Brasil democrático, progressista, com instituições fortes e sustentáveis, então devemos dimensionar este momento como um instante mágico, mais que importante para nossas vidas, para o futuro de nossos filhos e netos.

O mínimo a fazer é estimular o debate sobre os programas eleitorais e os candidatos, fomentar a discussão e a reflexão crítica sobre a vinculação das eleições com a melhoria das condições da saúde, do ensino, com a geração de emprego e renda, com a segurança...

Omitir-se será mais que um ato de covardia, será um ato de alta traição, será perfilar-se ao lado dos que pretendem um Brasil medíocre e cabisbaixo, um país-covil de corruptos e larápios, uma pátria subjugada por patifes, bandidos e canalhas.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Quem quer passar além do Bojador, Tem que passar além da dor

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.

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Quem quer passar além do Bojador, Tem que passar além da dor

Quando o sapato aperta, o bolso morde e a esperança fica rarefeita, a solução para muitos se restringe à porta de saída. Literalmente.

Para responder aos ininterruptos períodos de crise institucional e financeira, para fugir do desenvolvimento marginal, dos indomáveis índices de desemprego, de uma torpe realidade inimiga dos sonhos, não poucos brasileiros se vêem na contingência de buscar outros destinos, singrar mares distantes, mirar rincões onde a vida não refugue as possibilidades da existência.

Houve tempo em que o espírito aventureiro era o grande motor capaz de promover uma mobilidade social dessa envergadura – verdadeiro processo social que nada deve a qualquer outro, posto que o número de brasileiros que emigram cresce vertiginosamente. Mas nos atuais dias de tormenta e borrasca, a força propulsora atende pelo nome de sustentabilidade econômica. É uma peleja derradeira para escapar da mediocridade, da vida vegetativa, insossa e miserável. Se é para embalar e perseguir os sonhos e os projetos de vida, então qualquer sacrifício vale a pena, até mesmo o de se deparar com a discriminação hedionda e a insana repressão das polícias-cães de fronteira. A lição aprendemos com Fernando Pessoa:

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu”.

Até chegar ao destino e se estabelecer há que se encarar um espelho em que a imagem refletida é a da via crucis, “(...) Tem que passar além da dor”. É como ser tragado por um buraco negro, atravessar um campo de guerra, ser lançado no olho do furacão. O que seria pior que atravessar um campo minado, permanentemente bombardeado com bombas incendiárias, rajadas de vento e metralhadora disputando o que restou do espaço milimétrico?

Mas tão logo se estabelece, a primeira ação do desterrado é encaminhar os dólares do sacrifício para os que ficaram. E fazem o dinheiro percorrer o caminho inverso para aliviar as agruras e sofrimentos dos familiares. A moeda conquistada chega para irrigar uma economia moribunda criada para servir aos interesses da corrupção e do clientelismo.

Enganam-se os que imaginam que os recursos enviados pelos conterrâneos a terra brasilis é coisa de pouca monta, tesouro de latão e velhacarias.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID - e o Fundo Internacional da ONU para o Desenvolvimento Agrícola – FIDA – juntaram-se para produzir, pouco tempo atrás, o relatório Sending Money Home (Mandando Dinheiro para Casa). As estimativas que constam neste documento dão conta de que, apenas no ano passado, os brasileiros que residem no exterior enviaram para o Brasil remessas equivalentes a um total de US$ 7,4 bilhões, algo em torno de R$ 13,5 bilhões. Os valores representam um incremento de 13,5% quando cotejados com os verificados no ano anterior. É um volume de recursos que representa mais de 1/3 de tudo o que o governo esperava arrecadar com a CPMF, no ultimo ano de vigência do malfadado tributo.

No mundo, os países que mais receberam remessas de seus exilados foram a Índia, US$ 24,5 bilhões, seguido do México, US$ 24,2 bilhões e da China, US$ 21 bilhões.

Na América do Sul, o Brasil ostenta a mais elevada taxa de remessas.

O mais curioso é que, segundo o BID e o FIDA, as remessas mundiais - correspondentes a US$ 300 bilhões - excedem substancialmente o total de doações e investimentos efetuados por bancos de fomento e instituições de desenvolvimento que investem em países de economia periférica. As doações materializadas por essas entidades em 2.006 mal chegaram à casa dos US$ 104 bilhões.

É o próprio diretor geral do Fundo de Investimento do BID, Donald Terry, quem reconhece a fragilidade das políticas de apoio levadas a efeito pelos bancos e agências de desenvolvimento. Quando questionado sobre o fato do valor das remessas sistematicamente exceder o de investimentos, é categórico: ''o que quer que nós tenhamos feito por esses países, isso não foi suficiente''. E complementa: “as remessas hoje em dia atuam não somente como uma forma de atenuar a pobreza, mas como um fator de desenvolvimento que deverá indicar novas formas de ação para bancos de fomento e organizações assistenciais.

Portanto, não nos esqueçamos de agradecer aos familiares dos desterrados que, não obstante distantes da terra-mãe, fazem mais pelo Brasil do que muitos demagogos e oportunistas que se arvoram patriotas defensores dos interesses nacionais.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Sobre a ‘doce língua’ e aleivosias

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.

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Sobre a ‘doce língua’ e aleivosias

Após 16 anos de idas e vindas, Portugal aprovou o acordo ortográfico que unifica o português em sua forma escrita, de modo que os países lusófonos começam a estabelecer as condições para a internacionalização da língua.

No Brasil, as editoras têm até 2.010 para providenciar as adequações necessárias.

Computando as alterações acordadas, Portugal deverá trocar cerca de 1,5% das palavras enquanto no Brasil as alterações ficarão em torno de 0,43%.

Em que pese a iniciativa da unificação, não serão eliminadas todas as diferenças. No berço de Camões, polémica e génesis continuarão ostentando acento agudo, enquanto por aqui, as palavras manterão o acento circunflexo.

Outras interessantes mudanças que ocorrerão em Portugal: como o “p” da palavra recepção não é pronunciada, a letra será simplesmente suprimida. Por outro lado, os portugueses manterão a letra “c” na palavra facto – que no país do Fernando Pessoa, significa roupa.

As questões lingüísticas preocupam todos os povos do mundo. Na Alemanha, por exemplo, uma pesquisa encomendada pela Sociedade da língua Alemã registra o grande receio de dois terços dos conterrâneos de Goethe e Haendel: a decadência lingüística originada principalmente da enorme incidência de estrangeirismos, abreviaturas e palavrões.

Na Espanha, a preocupação é com a “ameaça das línguas regionais”, que podem levar à completa desfiguração do castelhano.

Hoje, a última flor do Lácio é a 5ª língua mais falada no mundo. Se considerarmos apenas a parte ocidental do planeta, passa à 3ª posição no ranking das mais utilizadas. São mais de 215 milhões de pessoas, a maioria delas brasileiros. E o objetivo maior da reforma ortográfica é uniformizar o uso da língua.

A busca pela unificação da língua vem de longo tempo. Em 1911, Portugal promoveu - de forma unilateral - uma reforma que resultou em duas ortografias diferentes.

Em 1931, 1943 e 1971, novos acordos foram formalizados na tentativa de dar unidade à língua. Em 1975 e 1986 ocorreram tentativas que não se sustentaram devido às reações contrárias, ocorridas tanto no Brasil como em Portugal.

Com o novo acordo, começa a se consolidar o processo de internacionalização da língua. No Brasil, em Portugal, Angola, São Tomé e Príncipe e Moçambique o português é a primeira língua.

Cabo Verde e Guiné-Bissau também adotam a língua portuguesa como língua oficial. Já Guiné Equatorial, Timor-Leste e Macau adotam-na, mas de forma conjunta com outros idiomas.

Apesar de não ser língua oficial, o português é muito usual em Luxemburgo, Andorra, Namíbia e Paraguai.

As mudanças, desde já, apresentam-se como novos desafios para os educadores. Boa parte dos estudantes que concluem o ensino médio não conseguem lidar com a gramática e sequer interpretar um texto elementar. Também não conseguem resolver problemas da aritmética básica. E se não conseguimos ensinar para nossa juventude o que estava consolidado, como ensinar as novidades?

Garantir que nossas crianças concluam os ciclos escolares sabendo a doce língua e matemática já seria uma vitória e tanto! Mas não parece ser o objetivo de tantos que as pretendem doutoras em “inclusão social”, em “cidadania & politicamente correto”, em “sexo sustentável” (eis que o MEC está dotando nossas escolas de máquinas de distribuição de camisinhas) e outras aleivosias mais.

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BOX – O que muda?

HÍFEN
Não se usará mais:
1. quando o segundo elemento começa com s ou r, devendo estas consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os prefixos terminam com r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"- como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"
2. quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"

TREMA
Deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados

ACENTO DIFERENCIAL
Não se usará mais para diferenciar:
1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)
2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo)
3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" e "lo")
4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição com o artigo)
5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica)
ALFABETO
Passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y"

ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"
2. em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se tornam "enjoo" e "voo"

ACENTO AGUDO
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia"
2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"
3. nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem

GRAFIA
No português lusitano:
1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo"
2. será eliminado o "h" de palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil -"erva" e "úmido"

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Antônio Carlos dos Santos – professor da UEG, criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Sobre corrupção & saúvas

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.

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Sobre corrupção & saúvas


O vigor de uma democracia está umbilicalmente vinculado à sua capacidade de resistir e nocautear a corrupção. O costume de avançar sobre o patrimônio coletivo e o erário público vem de longa data, se confundindo, às vezes, com a própria trajetória da humanidade.

E apesar das medidas draconianas historicamente adotadas em defesa da coletividade, não obstante as enérgicas medidas para punir autoridades embaladas pela corrupção, este tipo de crime não arrefece, e recrudesce entre nós qual o pior tumor maligno. Geração após geração este mal vai se perpetuando nas diferentes culturas nacionais.

A aplicação da pena capital, das mais duras punições – invariavelmente acompanhadas de exposição e humilhação pública - não tem sequer amenizado a intensidade da grave hemorragia, que lança fora, para o latão de lixo, o melhor das forças, das energias de um povo, de uma nação.

Platão - discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles - já fazia referência à corrupção em uma de suas obras, “As Leis”, o mais longo e complexo diálogo do filósofo fundador da ‘Academia’. Ensinava aos seus discípulos os marcos da moral e da ética, recomendando a “desgraça” para todos os que aceitassem suborno e propina.

Na antiga Atenas não havia espaço para tergiversação e, pelo menos na escrita, a pena se mostrava severa: autoridade corrupta flagrada com a boca na botija tinha cassada a cidadania, sem mais possibilidade de participar e atuar nas instituições estatais. Seus direitos políticos eram de todo extirpados.

Não era exceção em Atenas a utilização da pena capital quando se tratava de punir o crime de corrupção. Como sempre existem os abençoados, os ungidos pela sorte, alguns condenados eram alcançados por penas mais leves como o exílio e o desterro. Demóstenes, por exemplo, que viveu no século III a.C. tornou-se uma liderança política importante e bastante popular. Grande orador ganhou farta projeção no seu tempo. Todavia, os predicados intelectuais - tão cultuados à época - não foram suficientes para mantê-lo distante da corrupção. Pois bem, por se deixar hipnotizar pelo que acreditava ser o doce canto da sereia, por suborno, foi obrigado a pagar uma multa de 50 talentos. Essa quantia hoje equivale a, nada mais, nada menos, que US$ 20 milhões.

Também no Império Bizantino não havia contemporização: as autoridades corruptas eram execradas publicamente e a punição mais comum consistia em cegá-las. E muitas eram ainda castradas. Não bastasse, em prosseguimento aos rituais de castigos, eram submetidas a sessões de açoite, tinham todo o patrimônio confiscado e, nessas condições, eram deportadas.

O primeiro código legal da República Romana, a Lei das Doze Tábuas, era claro, direto e inflexível: os juízes que aceitassem propina receberiam pena máxima, a pena capital, a punição com a morte.

Essa rápida incursão pela história demonstra o quão difícil e complexo é combater a corrupção. Enganam-se os que imaginam tarefa simples e trivial. Mas, sem dúvidas, penas rigorosas e a certeza da punição contribuem substancialmente para debelar o problema.

No Brasil, tornou-se vala comum – sobretudo quando as crises se acentuam – recorrer à elaboração de novas normas, novas leis, clamar aos quatro ventos por reformas e novo ordenamento jurídico. Muitos parlamentares chegam a se vangloriar por quebrarem recordes de apresentação de projetos de lei. Orgulhosos, divulgam esses números como sinal de produtividade. É como uma medalha honorífica, um heróico amuleto pendurado no pescoço.

É evidente que criar leis simplesmente não resolve problema algum. Nunca foi solução e jamais será. A questão central é saber como implementá-las, como torná-las eficazes; como fazê-las emergir das páginas mortas e empoeiradas dos compêndios para o cotidiano, a vida concreta, o dia a dia das pessoas. E nesse contexto a pergunta que não quer calar, que não sai da ordem do dia: o judiciário brasileiro funciona? Entre duas alternativas, escolha uma: é uma instituição que pune os culpados ou um poder omisso que corrobora com o perverso clima de impunidade que grassa entre nós?

Numa democracia de verdade, os três poderes devem ser fortes e independentes. Quando algum não funciona ou funciona mal, é a nação que padece e agoniza, é o país que se torna refém de políticos populistas que se embriagam no clientelismo e no fisiologismo, os irmãos siameses da corrupção. Sim, porque a corrupção se alimenta, sobretudo, da burocracia, do excesso de fluxos, trâmites e regulamentações que descortinam caminhos para o desvio do dinheiro público; porque a corrupção se nutre de servidores mal remunerados, sempre propensos a serem comprados pelo vil metal.

No mundo desenvolvido já se consolidou um posicionamento para enfrentar este grave problema. Existe certa unanimidade quanto as condicionantes capazes de estancar o câncer que corrói e deteriora todas as forças da pátria.

A primeira é a vontade política, uma firme e inamovível decisão de enfrentar com altivez o problema, de arregimentar forças e energias para vencer este inimigo fatal.

Tão importante quanto a vontade política é o investimento na educação, a segunda condicionante. É uma tecla já gasta, por demais batida, mas de todo imprescindível. A educação é o instrumento capaz de dotar os cidadãos do poder de identificar seus problemas, processá-los com sabedoria e solucioná-los com eficácia. Mas aqui não pode haver contemporização com a ‘boquinha’, o ‘levar vantagem em tudo’. Desde a creche nossas crianças devem ser mergulhadas em brincadeiras e conteúdos que remetam à ética, ao senso de honestidade enquanto valor. A educação é o mais seguro abrigo para nossos sonhos e esperanças.

E finalmente, a terceira condicionante: a transparência. Os dados e informações sobre as ações, os projetos e os programas governamentais devem estar disponíveis de forma ampla, massiva e irrestrita. E agências independentes devem auditar os gastos públicos como um processo rotineiro, como parte indissociável dos fluxos operacionais.

Como se percebe, é tarefa das mais hercúleas. Combater a corrupção implica em modernizar instituições, golpear de morte a burocracia, qualificar pessoas e processos. Isto demanda recursos orçamentários e financeiros, e não de pouca monta. Ficar só no discurso, no proselitismo, no blá-blá-blá ajuda tão somente a angariar votos, mas nenhum auxílio, nenhuma contribuição trás para a solução do problema.

Houve um tempo em que os campos brasileiros - infestados por voraz praga - estavam fragilizados e a agricultura nacional ameaçada. A nação então cerrou fileiras em torno de uma palavra de ordem: ‘O Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil’.

Sabemos nos dias que correm o tipo de saúva que ameaça os sonhos, as esperanças e as oportunidades de todos os brasileiros. Não seria exagero, tomando o bordão por empréstimo, alertar: ‘O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acaba com o Brasil’.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Sobre harmonia, São Francisco e cafajestes

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

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Sobre harmonia, São Francisco e cafajestes

Tudo no universo é energia. E a energia circula, interage, integra, assume diferentes formatos e intensidades. É assim no universo, é assim na natureza, é assim na vida e no dia a dia das pessoas. Por isto, ao trocar, partilhar e interagir não estamos fazendo mais que observar a lei maior que rege o cosmos.

Assim como no universo os astros – de uma forma ou de outra – interagem entre si, no corpo humano, uma célula também percorre o mesmo caminho e só captura a existência porque interage com outras. De igual modo ocorre com os átomos e com as partículas subatômicas, de sorte que tudo é pura e intensa interação, intercâmbio de energia.

Mas como poucos se dobram às certezas, digamos assim, científicas, da necessidade da troca e da interação, não custa recorrer aos ensinamentos espirituais e cristãos, como os apregoados por São Francisco de Assis, não por acaso o santo católico protetor da natureza.

São Francisco compreendeu e capturou a lei que regula as trocas de energia, a mesma que assegura equilíbrio e harmonia ao universo, e soube traduzi-la para o meio onde labutam os homens. Por isto, quando o batizado Giovanni Bernardone ensinou

“... é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...”


explicava, na realidade, que tudo no universo só tem sentido se envolto em trocas, em intercâmbios, em partilha, em ofertar e receber...

O ensinamento do fundador da “Ordem dos Frades Menores” - canonizado em 16 de julho de 1228 pelo papa Gregório IX - é tão poderoso que não resisto à tentação de reproduzi-lo por inteiro:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna...

A troca que assegura a contínua expansão do universo é a mesma que assegura o crescimento das pessoas e da sociedade.

Desde a mais tenra célula até o grupo social estratificado e a mais complexa das constelações estelares, nada faz sentido sem o ‘dar e receber’ preconizado por São Francisco.

Daí a importância de fazer com que valores como o amor, o perdão, a amizade, a solidariedade e a generosidade estejam em permanente circulação, permeando as relações entre as pessoas e os grupos sociais.

Todavia, se a lei é cristalina como parece, porque razão as pessoas estariam tão indispostas e resistentes à incorporação desses valores, por que ao invés da generosidade e do altruísmo, cultuam o egoísmo e o individualismo exacerbado? Por que ao invés do perdão, enamoram o ódio; ao invés da união, cultuam a discórdia; e mergulham a verdade num lodaçal de mentiras, intrigas e tramóias?

A teoria dominante é que as pessoas resultam da educação que recebem, da história de vida e do meio em que vivem.

Mas como toda regra, essa também tem suas exceções. O problema aqui é que as exceções ocorrem com tamanha freqüência que estão quase se convertendo em regra-mater.

Como explicar, por exemplo, que dois irmãos, criados pelos mesmos pais, com semelhante nível de atenção, recebendo as mesmas condições educacionais, culturais e amorosas, um consiga construir uma personalidade fraterna, generosa; e o outro destile avareza e rancor?

Aqui talvez valha a pena investigar o componente biológico. E ao que tudo indica as descobertas que se avizinham demolirão e lançarão por terra um bom número de paradigmas consolidados. Um deles consiste em subestimar a importância que a questão biológica tem no comportamento do individuo.

Pelo menos é o que parecem indicar pesquisas realizadas ao redor do mundo, como a promovida pelo Departamento de Psicologia da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os experimentos estão demonstrando que o material genético tem um determinado nível de importância na composição da personalidade.

Um dos pesquisadores do grupo de estudos da universidade israelense, o psicólogo Ariel Knafo, é bastante enfático quanto aos resultados: "a conclusão central do trabalho é que há influência genética nas diferenças do comportamento altruísta das pessoas, porque existem diferenças no DNA, que estão relacionadas às diferenças em seu modo de se comportar”.

Um dos especialistas em genética do grupo de pesquisa, o professor Richard Ebstein se manifestou afirmando que todos os participantes que externaram generosidade tinham o gene denominado receptor 1A de arginina-vasopressina (AVPR1a) com uma forma mais alongada que nas outras pessoas. A conclusão é que gene AVPR1a exerce papel fundamental na química do cérebro, permitindo que o hormônio arginina-vasopressina (AVP) atue sobre as células cerebrais. A vasopressina foi relacionada com o estabelecimento de vínculos afetivos e sociais.

Os resultados da pesquisa apontaram numa direção bem definida: há maior disponibilidade para o altruísmo nas pessoas que possuíam uma parte específica e fundamental de maior tamanho neste gene.

Se ‘dar e receber’ é uma lei que regula a harmonia no universo, talvez esteja aqui, na genética, o início das explicações para que tantos se mantenham indiferentes à solidariedade, à verdade e ao amor. Talvez esteja na genética parte da explicação para a existência entre nós de tantos canalhas e cafajestes.

Alto lá. É muito cedo para extrair qualquer conclusão a respeito. Como também é inadmissível mergulhar as novas e incipientes descobertas no caldo medíocre do preconceito e do ‘politicamente correto’.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A casamata das cafetinas

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

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A casamata das cafetinas

A sociedade brasileira forjou ao longo de sua história, duas grandes academias. Uma é a escola formal, destinada a produzir, reproduzir e disseminar o conhecimento, um tipo de saber que arremessa a humanidade em direção ao desenvolvimento e ao progresso. Mas infelizmente existe uma outra, a escola das ruas, um certo tipo de ‘academia’ que em outros tempos, teve lá a sua importância relativa, mas que hoje, constitui-se inequivocamente em universidade e centro de excelência para a titulação da bandidagem, o doutoramento de pedófilos, a modernização do tráfico de entorpecentes, a sacralização de tudo o que alguns preferem denominar ‘inferno’.

Num passado que já vai longe, as ruas – em que pesem os riscos e perigos sempre presentes - descortinavam, ou insinuavam pelo menos, um segundo cenário, envolto numa áurea de romantismo, inspirando espíritos aventureiros, desbravadores, conquistadores. Mas nos dias de hoje as ruas perderam quase tudo o que havia de encanto e, só muito raramente, quase no limite das impossibilidades, apresentam-se como um espaço saudável e produtivo para as crianças e a nossa juventude.

Tão logo emerge da hibernação, ainda na fase da amamentação do filhote recém-nascido, a mãe-ursa passa a conviver com seu maior temor: encontrar um urso-macho, quem sabe o próprio parceiro que a engravidou, que não relutará em avançar sobre o pequeno e frágil filhote para devorá-lo, saciando a fome de seis meses.

O reino animal é assim. Pais que deveriam proteger os rebentos são os primeiros a extrair-lhes todas as possibilidades. E o que os brasileiros têm construído neste país continente não difere muito do mundo selvagem. As ruas comprovam isso, um dia sim e o outro também. Em tempo algum nossas ruas estiveram tão sintonizadas com as variações dos termos selva, selvagem, selvageria.

Nos núcleos urbanos a violência fincou âncoras em todos os quadrantes. Está presente nos lares, nos locais de trabalho, nas escolas, nos espaços de convivência, nos centros religiosos. Espaço algum escapa de seus inumeráveis tentáculos. Mas é na rua que a violência encontra um dos seus campos mais propícios, um de seus terrenos mais férteis.

Um outro campo, um outro território aonde a violência tem plena guarida compõe-se de gabinetes refrigerados, instalações e organizações estatais e paraestatais que trataram de volatizar os limites entre o público e o privado, diluindo-os no jogo de interesses rasteiros, no tráfico das mais infames influências, na volúpia da corrupção e das propinas.

No Brasil de hoje envergonha a tênue linha que separa o certo do errado, o justo do injusto, a ética da gatunagem explícita. E é neste espaço cinzento, cendrado e sombrio que nossas escolas formais agonizam, numa crise típica de moribundos que aguardam o sacramento da extrema-unção.

Enquanto as ruas se aperfeiçoam, se aprimoram, se qualificam para ensinar mais e melhor o que não presta, nossas escolas fragilizadas, depauperadas, agonizantes, sem viço e brilho, ensinam pouco, muito menos que deveriam. Enquanto as ruas exibem a exuberância do ensino-bandido, as escolas exibem a mediocridade do ensino-desastrado, do ensino-ineficaz.

Nossas escolas formais deveriam alfabetizar, ensinar os alunos a interpretar e efetuar operações de cálculo, habilitando-os a receber os conteúdos que serão apresentados nas fases seguintes. Mas, desde a pré-escola, parece que os parâmetros flexionaram e os professores agora se esmeram em incutir no estudante o paradigma que navega na crista da onda: “engajamento social”. Esse é o paradigma, essa é a palavra de ordem.

Raios! Nossas crianças e nossos jovens não sabem interpretar um texto trivial, sequer dominam as operações matemáticas, apresentam as piores notas nas avaliações internacionais para medir o conhecimento acumulado, mas quando se trata do quesito “engajamento social”, estão mais que antenados, seja lá o que signifique a destemida expressão.

Pouco tempo atrás questionaram uma professora do ensino fundamental que resolveu ensinar a seus alunos nada mais nada menos que a ciência dos palavrões. E assim se defendia a educadora revolucionária: “se a escola não ensina palavrões aos alunos, quem o fará”?

Os pais dos alunos da engajada professora verificaram que seus filhos não sabiam ler, escrever, calcular e muito menos interpretar pequenos e singelos textos. Não aprenderam na escola. Mas na escola aprenderam o significado de todos os palavrões, seus cadernos tornaram-se dicionários das palavras malditas, das mais sutis às cabeludas como as caranguejeiras.

Beber leite e chupar manga seria um bom mote para aulas de nutrição, de biologia, de ecologia, de saúde, de química, e de inúmeras outras disciplinas, inclusive geografia e matemática. Todavia, a professora adepta da pedagogia das ruas optou pelo que deveria ser uma aula de educação sexual, mas que pela banalidade e vulgaridade, reduziu-se a uma “aula” de e sobre cafetinagem e depravação.

Então ficamos assim: os professores remunerados para ensinar conteúdos pedagógicos, ensinam as ‘artes’ das ruas; enquanto os bandidos e traficantes cuidam de fazer às vezes da escola formal, ensinando leitura, interpretação de textos e operações de cálculo. Ou alguém acredita que a malandragem pode prescindir do conhecimento acadêmico e científico. Sendo assim, como se sairiam com os balanços contábeis das fortunas geradas pelo tráfico de drogas e entorpecentes? Como se sairiam com a complexidade das operações bancárias, das intrigadas tecnologias para a indústria da lavagem de dinheiro, da ciência de desbravar os mais promissores paraísos fiscais, das espertezas, indolências e cafumangos dos que se divertem com a língua, apelidando o mensalão e o achaque aos cofres públicos de caixa dois?

Ainda que fragilizadas, esgotadas, carcomidas nas entranhas, acreditam os pais que nossas escolas constituem um abrigo seguro, um bunker, uma casamata onde os filhos mantêm-se protegidos dos perigos das ruas.

Tratem eles de manter rigorosa vigilância sobre os políticos que elegeram, caso contrário, nem para esse papel a escola se prestará mais.

Felizmente, cresce o número dos que se indignam com a situação do país. E indignar é o primeiro passo para que a nação se mobilize, para que os brasileiros promovam as transformações capazes de nos assegurar um lugar dentre os países desenvolvidos, um lugar privilegiado no século XXI, um lugar onde caibam todos os nossos sonhos e esperanças.

Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção do Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Um país refém da ideologia dos batedores de carteira

Um país refém da ideologia dos batedores de carteira

“Castigat ridendo mores”


Alguns costumes castigam as pessoas e o mundo.

Muitos deles vêm de milênios, acompanhando os diferentes estágios da evolução humana, mas mantendo a espécie num limiar entre o moderno e o bárbaro.

Dos mais graves é o costume de julgar, um hábito embebido de preconceito, açodamento, irresponsabilidade, leviandade, arrogância, posto que, na maioria das vezes, ocorre sem que se tenham os elementos mínimum minimórum de convicção, sem que a verdade esteja – de maneira irretocável – disposta, sem que os fatos estejam plenamente esclarecidos.

E realizado nessas condições, as possibilidades de erro, equívoco, engano, se multiplicam, elevam-se à enésima potência, escancarando as portas para que a injustiça mais vil e atroz se estabeleça soberanamente.

Circula na web uma fábula - O pitbul & o coelho – uma boa ilustração para o assunto que tratamos:

Eram dois vizinhos.

O primeiro vizinho comprou um coelhinho para os filhos.

Os filhos do outro vizinho pediram um bicho para o pai, que decidiu comprar um cão pitbul.

Conversaram os vizinhos:
- Mas o seu cão vai comer o meu coelho.
- Que absurdo!, de jeito nenhum, imagina, o meu pitbul é filhote, os bichanos crescerão juntos, pegarão amizade, e olhe que eu entendo de bicho como ninguém.


E tudo levava a crer que o dono do cachorro estava coberto de razão. E não é que juntos os animais cresceram e mais que amigos ficaram?! De tal modo que ninguém mais estranhava ver o coelho no quintal do cachorro e vice-versa.

Eis que o dono do coelho resolve passar o final de semana na praia com a família e deixou o bichinho sozinho.

Domingo, final de tarde, a família saboreava o lanche quando entra o pitbul na cozinha.
Dentre os dentes, o cão trazia o coelho, todo imundo, vermelho de terra e, morto.

Não tiveram dúvidas. Mataram o cachorro de tanto agredi-lo.
Berrava o homem:
- O vizinho estava certo, e agora, o que vai ser? Só podia dar nisso!

Mais algumas horas e os vizinhos chegariam. Angustiados, todos se olhavam num misto de revolta e incredulidade.
O cachorro jazia prostrado no meio da casa, morto, irremediavelmente morto.

-Já pensaram como vão ficar as crianças?

Não se sabe exatamente quem teve a idéia, mas parecia infalível:
-Vamos lavar o coelho, deixá-lo limpinho, depois a gente seca com o secador e o colocamos na casinha dele.

E assim foi feito.
Até perfume colocaram no coelhinho. Ficou lindo, parecia vivo, diziam.
Logo depois escutam os vizinhos chegando. E os gritos desolados das crianças.

- Descobriram!

Não passaram cinco minutos e o dono do coelho veio bater à porta, assustado. Parecia que tinha visto um fantasma.

- O que foi? Que cara é essa?
- O coelho, o coelho...
- O que tem o coelho?
- Morreu!
- Morreu? Ainda hoje à tarde parecia tão bem.
- Morreu na sexta-feira!
- Na sexta?
- Foi antes de viajarmos, as crianças o enterraram no fundo do quintal e agora reapareceu!

Um cão massificado com a fama de malvado, todos os dias ilustrando as páginas dos jornais com cenas de agressividade e violência explícitas, estraçalhando crianças, matando velhinhos, atacando pessoas, avançando em tudo o que ousasse simples movimento... Como não ser o pitbul? Está julgado, condenado e executado! ‘Tua fama te condena!’ Não é assim que procedemos? E mesmo quando não prevalece a fama, prevalecem os preconceitos.

Pouco importa que o pitbul seja inocente, que não tenha nada a ver com o ‘crime’. Pouco importa que, desesperadamente, tenha procurado o amigo de infância, esquadrinhado toda a redondeza, farejado por todos os quarteirões, numa busca frenética, angustiante, como a do pai que procura o filho perdido. Pouco importa que tenha desejado morrer junto com o amigo-coelho quando o encontrou enterrado. E que, carinhosa e cuidadosamente, tenha desenterrado o companheiro de todas as horas, e – se apegando num tênue fio de esperança - decidido recorrer ao dono, acreditando, com todas as forças, possível a ressuscitação... afinal não são os humanos tão poderosos e criativos?

Sim, os humanos sempre foram muito poderosos e criativos... para o bem e para o mal. E muitas vezes, a única ‘verdade’ que interessa é a urdida nos escaninhos do imaginário coletivo. Se o vermelho é púrpuro, torne-se azul; se o sabor é limão... ei-lo chocolate; se a textura é rugosa, num estalar de dedos está plenamente lisa e uniforme.

Mas... e os fatos, os antecedentes, a lógica, os indícios, as provas, os interesses, as contradições?

Qual o quê?! Se é noite, basta afirmar que o sol está a pino. É inverno? Decrete-se verão. É inocente? Oficialize-se culpado. O que importa são as convenções sociais. Se à consciência dói prender, então sejamos politicamente corretos, interne-se no manicômio. Bradam os hipócritas:

- A média é tudo! E não interessa que os pés estejam esturricando no forno em brasas e a cabeça petrificando, no congelador, pois que a temperatura média está em equilíbrio.

Vivemos o império da mentira. Os honestos, os íntegros, os éticos, os que cultuam e propagam a verdade são diuturnamente vítimas de ciladas, tramóias, intrigas, fuxicos, armações ilimitadas, urdis medonhos e mesquinhos...

Em Miami, na Flórida, EUA, um homem permaneceu durante 26 anos preso, condenado por ter cometido sete crimes sexuais. Foi detido no dia 29 de agosto de 1979 e acusado por nada menos que 25 mulheres. Todas, sob juramento, asseguraram terem sido violentadas ou vítimas de tentativas de violação.

A organização norte-americana “Projeto Inocência” - que investiga casos de possíveis erros judiciais - conseguiu convencer as autoridades a providenciar testes de DNA e escutar novamente as testemunhas, com o que se comprovou a inocência do indivíduo de origem cubana Diaz, no mais importante caso de reabilitação – dentre os 160 - já resolvido pela instituição.

O Ministério Público local se manifestou informando que encerraria o caso contra Diaz, visto que as provas de DNA indicam que o criminoso é uma outra pessoa e que algumas das presumíveis vítimas alteraram os testemunhos apresentados.

Porém, 26 anos da vida de Diaz foram parar no esgoto, na lata de lixo. O pujante sistema judiciário ostentado pelo país mais poderoso e desenvolvido do planeta não foi eficaz o suficiente para impedir que o erro fosse perpetrado.

Um outro caso ficou como mácula indelével na história.

No início dos anos 20, dois imigrantes italianos foram detidos pela polícia de Boston, EUA. Nicola Sacco, sapateiro, e Bartolomeo Vanzetti, peixeiro, integravam o movimento político anarquista e foram acusados de responsáveis por um assassinato ocorrido no dia 15 de abril de 1920.


O sistema encontrou em Sacco e Vanzetti uma forma de reafirmar suas referências conservadoras e conduziu o julgamento para ‘verdadeirar’ suas versões e visões. O sentido de tudo era, sobretudo, nortear os estrangeiros imigrantes quanto aos valores defendidos pela América e deixar um exemplo suficientemente convincente para os que ousassem questionar o stabilishment.

Acusados de assassinato, em 1921 foram levados a julgamento e condenados num dos mais escandalosos episódios de erro judicial do século XX. O Estado acusava-os do homicídio de um contador e de um guarda de uma fábrica de sapatos. Nem o aparecimento de um outro homem admitindo a autoria dos crimes foi suficiente para inocentá-los.

E no dia 23 de agosto de 1927 a sentença foi executada com Sacco e Vanzetti sendo eletrocutados na cadeira elétrica. Todo o processo manteve-se a léguas de distância da reparação judicial para conforma-se no caldo raso e mesquinho dos interesses políticos.

Filmado pelo diretor italiano Umberto Marino, o filme teve – no período da ditadura militar - sua exibição proibida no Brasil.

Por aqui, um caso que chocou o mundo foi o que vitimou a família Shimada, proprietários da Escola Base, de São Paulo.

Em 1994, Maria Aparecida e seu marido Icushiro Shimada, além do colaborador Maurício de Alvarenga, foram acusados pela polícia de promover orgias com menores na escola infantil que mantinham no bairro da Aclimação, cidade de São Paulo.

Boa parte da mídia, ávida por escândalos que dêem visibilidade aos indicadores de audiência, embarcaram de corpo e alma na cantilena policial, ajudando a mobilizar o povo para o justiçamento. E foi o que literalmente aconteceu.

Tudo começou quando duas mães de alunos acusaram os proprietários da Escola Base de promoverem orgias com as crianças lá matriculadas. O delegado Edélcio Lemos, no afã de aparecer, acatou imediatamente a denúncia e, estabanadamente, deu curso aos procedimentos atropelando tudo o que a boa lógica e a gestão serena recomendavam.

Um delegado incompetente aliado à parte da imprensa sensacionalista e irresponsável conceberam e edificaram o ambiente propício para a caçada às bruxas.

Pedofilia, violência contra crianças, abusos sexuais e estupros são questões que a plebe ignara utiliza para purgar os pecados coletivos, para redimir fracassos e frustrações. Pouco importa se, de fato, algum crime foi perpetrado, e se existem suspeitos. Como nos idos dos gladiadores romanos, a massa clama e requer martírio e sangue. Objetivam a catarse coletiva. Se não existe crime, invente-se. Não existem suspeitos? Criem-se culpados. O que resta? A aplicação da pena máxima, o justiçamento, preferencialmente por linchamento seguido de incineração do corpo.

Neste caso, a formalização dos procedimentos deu ao episódio uma vestimenta de seriedade, ‘lógica’ e consistência oficial. Os trâmites dispostos nas normas foram observados, testemunhas foram ouvidas, laudos técnicos elaborados. O circo estava preparado para o trágico e insidioso espetáculo. A parte da imprensa que integrou a súcia gozava o êxtase. A Folha da Tarde chegou a estampar: “Perua escolar carregava crianças para orgia”. E a Revista Veja, num de seus piores momentos, deu como manchete: “Escola de horrores”.

Plenamente convencido da existência do crime e da cabal identificação dos ‘criminosos’, o povo foi cuidar de garantir – com as próprias mãos – a defesa dos interesses sociais, promovendo o que o Estado se mostrava incapaz de cumprir: através de telefonemas, bilhetes, cartas e gritos passaram a ameaçar de morte o casal Shimada; invadiram e depredaram a escola de educação infantil, levando-os à bancarrota; roubaram-lhes a paz e até hoje as seqüelas persistem. Raramente o casal sai de casa, e tanto Maria Aparecida como seu marido Icushiro Shimada só conseguem dormir à custa de medicamentos tarja preta.

Logo o Estado teve que admitir o descomunal erro da polícia e a imprensa não teve como deixar de noticiar que as denúncias eram inteiramente falsas, desprovidas de qualquer fundamento.

Maiores vítimas da orquestração, os acusados foram considerados inocentes e o delegado tratou de arquivar, com a maior celeridade, o inquérito policial. Era necessário que todos esquecessem a sórdida trama: intimidação e tortura, testemunhas mentindo, provas arranjadas, laudos forjados, a ética profissional tripudiada e um conjunto indecoroso de procedimentos urdidos para consolidar o mal.

Um dos casos que devem angustiar Franz Kafka, impedindo-o de descansar no túmulo. Delegados, policiais e jornalistas saíram ilesos, ninguém foi punido, a não ser as vítimas que hoje, lutam na justiça por um mínimo de reparação.

A lição se prestou para alguma coisa? Qual?!

Todos os dias fatos similares ao da Escola Base ocorrem Brasil afora.

O ex-Ministro Alceni Guerra foi praticamente linchado por, segundo as autoridades/imprensa, ‘estar comprometido até os ossos’ com a corrupção e o desvio de dinheiro público, como o superfaturamento na compra de bicicletas. Provado a inocência, quem foi punido senão o ex-ministro, a vítima da tramóia?

Em 1996, na Choperia Bodega ocorreu um assalto seguido de dois assassinatos. Foi um episódio emblemático que gerou, inclusive, o surgimento do movimento Reage São Paulo. Em 15 dias as autoridades policiais chegaram a apresentar nove suspeitos. Posteriormente todos foram absolvidos e liberados por falta de provas. A tortura foi o mecanismo novamente utilizado para arranjar as confissões. E novamente parte considerável da imprensa caiu no conto de sereia policial, fotografando os suspeitos algemados, estampando-os nas primeiras páginas como marginais, delinqüentes, assassinos confessos.

A comédia - gênero da dramaturgia universal originada na Grécia antiga - tem um lema que classifico como uma das regras de ouro do teatro: “castigat ridendo mores” - rindo, castiga os costumes. Na realidade, ao que tudo indica, o país transformou-se numa grande comédia aos avessos. Ri, e ri muito, mas não consegue castigar seus costumes. E o ‘julgue e execute primeiro para comprovar depois’ tem sido um de nossos mais hediondos costumes.

Ainda que a culpa esteja comprovada, todos deveriam ter direito a um julgamento nos moldes preconizados na lei, todos deveriam ter garantido o direito de apresentar defesa, contraprovas, testemunhas, todos deveriam ter assegurado direito ao contraditório. É o que preconiza a lei maior da nação.

A passagem registrada pelo evangelista João parece não ter mais sentido no mundo de hoje. Inocente ou não, o que vale é a lei do talião, a Lex Talionis, o Código de Hamurabi de 1730 a.C: olhos por olho, dente por dente. Na passagem bíblica, Jesus adverte aos que acusavam uma pecadora: “Aquele que não tem pecado que atire a primeira pedra...”.

Pouco tempo atrás escrevi uma fábula expressando minha indignação contra os que, qual gado em estouro de boiada, se deixam conduzir pela manada, sem sequer refletir sobre o rumo e a direção que perseguem. É um retrato de minha indignação contra os que semeiam a mentira e contra os que anseiam, os que estão sempre ávidos, solícitos e sedentos por uma nova rede de intrigas, novas teias de mentiras, urdindo fofocas e mais fuxicos, plantando boatos e mentiras, sequiosos por enganar e serem enganados. Ei-la aqui:

A raposa e o estancieiro

A raposa, sendo surpreendida pelo dono da estância, não se fez de rogada:

- Foi o coelho quem comeu as galinhas, os pobres dos pintinhos e os suculentos patos também.
- Mas coelhos não são herbívoros? – replicou indignado o homem.

Procurando manter a pose e a empáfia, a raposa não se deixou intimidar:

- Não acompanhas a evolução do conhecimento, estúpido? Nada sabes sobre as revolucionárias inovações da genética, das pesquisas com células tronco, da nanobiologia? – E, impávida, arrematou toda impoluta e senhora de seus botões: - Com a modernidade, os coelhos tornaram-se vorazes carnívoros e nós, as raposas, redimidas de todo o mal, transformamo-nos em inofensivas devoradoras de relva e gramíneas, intelectuais orgânicas, cidadãs dos processos de inclusão e transformação social e baluartes do politicamente correto.

Respirando fundo para manter o controle, o estancieiro deu trelas ao animal, como que desejando investigar até onde chegaria a perversidade e a delinqüência do outro:

- Se é de relva que se alimenta, então qual a razão de tanto sangue e penugem nesses pontiagudos caninos?

Arfando ar autoritário e professoral, a raposa esquadrinhava o universo tentando localizar, no pantanal, um naco de chão onde pudesse firmar as pernas bambas:

- Como é insuportável lidar com a ignorância e a estultice. – E prosseguiu, intrépida e afoita: - Com o novo ordenamento dos filamentos helicoidais do DNA, a verde clorofila tornou-se púrpura intensa e a apetitosa gramínea adquiriu o formato de penas, plumas e penugens...

Não cabendo de revolta e repulsa, o homem riscou o facão no ar para ver a cabeça da raposa cair distante do restante do corpo. Náusea, fastio e asco lhe turvaram os sentimentos quando viu estampada na cabeça inerte da sanguinária e impiedosa assassina o olhar singelo, cândido e inocente só dado aos puros de coração.

Moral da história: jamais acuse o outro de fazer o que você faz. Ainda que tarde, haverá um dia em que a mentira sucumbirá frente ao inexorável e avassalador romper da verdade.

Poderíamos resgatar um antigo hábito que se esvaiu no tempo: o de questionar, fazer perguntas, inquirir, duvidar, analisar criticamente, identificar e refletir sobre os interesses em jogo, passar e repassar os fatos, checando com rigor os procedimentos adotados, assegurar como cláusula pétrea o contraditório, a premissa de que todos são inocentes até prova cabal em contrário, até esgotadas todas as instâncias processuais.

Onde foram parar os princípios que, desde a antiguidade, norteiam o raciocínio lógico, o encadeamento racional dos acontecimentos, as questões estratégicas que deveriam balizar o procedimento investigativo?

Quem não se lembra da piada do ladrão batedor de carteira que, correndo em fuga, ia abrindo caminho dentre a multidão gritando “pega o ladrão, pega o ladrão”?

Temos que zelar para que o Brasil não se torne o paraíso dos gatunos batedores de carteira.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br