domingo, 26 de fevereiro de 2023

Como a propaganda nazista se apropriou de Beethoven

 

Wilhelm Furtwängler rege a Filarmônica de Berlim em 1935 diante de proeminências nazistas

O regime nazista usou sistematicamente a música de Beethoven para propósitos políticos. Após a Guerra, ditadores e ativistas em todo o mundo usaram as obras do gênio musical para seus próprios fins.

Em 1945, a ópera Fidelio, de Ludwig van Beethoven, foi ouvida em Viena como um símbolo de libertação. Os Aliados haviam vencido a guerra contra a Alemanha nazista. Sete anos antes, o regime de Hitler havia celebrado a obra como a "Ópera da Vitória" na Áustria ocupada.

Quase nenhum outro compositor foi tão instrumentalizado para fins políticos quanto Ludwig van Beethoven. Nascido há 250 anos, sua música serviu a ditadores e lutadores pela liberdade em todo o mundo para confirmar suas respectivas visões políticas.

"O segredo desta música ainda é discutido hoje", diz o musicólogo Michael Custodis, da Universidade de Münster, em entrevista à DW. "A apropriação internacional é uma história cultural muito complexa, da qual ainda não sabemos muito e para a qual ainda temos que desenvolver modelos explicativos."

Propaganda sistemática com a música de Beethoven

O regime nazista usou Beethoven para seus propósitos de propaganda. Hitler não estava interessado apenas na música em si, mas também nos atributos conferidos ao compositor e à pessoa Ludwig van Beethoven, considerado um titã, um herói que havia superado sua surdez e, por último, mas não menos importante, um gênio musical alemão.

O fato de Beethoven também representar valores da Revolução Francesa, como liberdade, igualdade e fraternidade, não incomodou o regime de Hitler. "As ditaduras nunca tiveram problemas em assumir o controle da narrativa histórica e simplesmente reescrevê-la em caso de dúvida", diz Custodis. "Além disso, o nazismo sempre se apresentou como um movimento revolucionário."

Um movimento revolucionário que − ao menos no aspecto musical − quis se vincular a antigas tradições: com carros-chefe como Beethoven e Wagner. Para organizar os eventos musicais, o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, fundou a Câmara de Cultura do Reich com o departamento Câmara de Música do Reich. Seu primeiro presidente foi o conhecido compositor Richard Strauss. Ele serviu como figura de proa cultural da ditadura. Obras de compositores judeus ou oponentes políticos foram banidas como "música degenerada".

Preservar o legado cultural

Com a criação do Império Alemão, ou Reich, em 1871, o imperador Guilherme 1º pavimentou o caminho para o uso da cultura e da música para fins do governo. Ele acabou com a noção romântica de que música e política são dois mundos estritamente diferentes. O reconhecimento internacional de compositores como Beethoven, Wagner, Brahms e Bruckner jogou a seu favor.

"O Império Alemão entra em cena para a administração do patrimônio cultural e gastou muito dinheiro para expandir o status conquistado pelo repertório musical alemão nas salas de concerto e nos palcos de ópera do mundo", explica Custodis.

Além disso, a música alemã era tocada também nas colônias na África e na China − principalmente para convencer de forma missionária as "culturas estrangeiras" sobre o valor da cultura alemã.

Propaganda nazista também no exterior

O regime nazista continuou essa tradição. Canções alemãs foram tocadas no Brasil e no Chile, e a Filarmônica de Berlim fez turnês no exterior como "Orquestra do Reich". Maestros como Wilhelm Furtwängler e Herbert von Karajan encheram as grandes salas de concerto do mundo com as obras orquestrais de Beethoven.

Mais tarde, na Segunda Guerra, pianistas como Elly Ney, Wilhelm Kempff ou Walter Gieseking deram concertos de propaganda e fortaleceram a resistência das tropas na frente de batalha com as sonatas para piano de Beethoven.

 

A quem pertence Beethoven?

Que Hitler pretendia "dominar o mundo" ficou claro no mais tardar na Segunda Guerra Mundial. As nações ocupadas estavam culturalmente divididas. Por um lado, rejeitavam estritamente as sinfonias alemãs durante o conflito; por outro, tocavam exatamente essa música em protesto. "Os alemães tiveram negado o direito de assumir para si compositores como Beethoven", explica Custodis.

Três batidas curtas e uma longa marcam a abertura da Quinta Sinfonia. Elas foram o sinal de identificação das transmissões internacionais da BBC durante a Guerra e, portanto, o indicativo da resistência contra os alemães. Em código Morse, os tons representam a letra "V", da palavra "vitória".

A estudante judia de música Fania Fénelon, de Paris, conhecia esse simbolismo político quando foi presa no campo de concentração de Auschwitz e fez o arranjo da Quinta Sinfonia para a "orquestra de meninas". Em seu livro de mesmo nome, a sobrevivente do Holocausto escreve que ficou contente porque os administradores dos campos de concentração não perceberam essa importância.

Dois Estados alemães disputam Beethoven

Nos primeiros anos após o fim da Segunda Guerra, eclodiu uma disputa ideológica entre a Alemanha Oriental e a Ocidental sobre o direito de reivindicar a música de Beethoven. Na Alemanha de regime comunista, Beethoven era visto como um pioneiro do socialismo. "Diziam lá que Hitler foi derrotado com a ajuda do Exército Vermelho e que, portanto, deve-se abordar o aspecto pacífico e europeu da música de Beethoven", explica o musicólogo.

Já a Alemanha Ocidental ocupava-se com os processos de desnazificação, em que também o maestro Wilhelm Furtwängler teve que assumir sua responsabilidade. Em 1942, ele havia tocado a Nona Sinfonia de Beethoven com a Filarmônica de Berlim por ocasião do aniversário de Hitler.

"A partir de 1948, a Filarmônica de Berlim voltou a fazer turnês com Furtwängler, diretamente para a Inglaterra, sob a premissa de projeto de paz", conta. Apesar dos debates acalorados sobre o papel de Furtwängler no chamado "Terceiro Reich", os concertos tinham ingressos esgotados, e as críticas musicais eram arrebatadoras. As pessoas queriam voltar a ver música e política separadas.

A Nona Sinfonia a serviço da política

Depois da Guerra, a Nona Sinfonia de Beethoven foi apropriada politicamente em todo o mundo. Os governantes do antigo regime de apartheid da Rodésia, atual Zimbábue, usaram o quarto movimento como hino nacional na década de 1970. Durante a ditadura militar no Chile, mulheres manifestaram-se com a "Ode à Alegria" pela libertação de presos políticos. Em junho de 1989, estudantes na China cantaram a "Ode" durante seus protestos na praça da Paz Celestial.

Leonard Bernstein conduziu a Nona em 1989, quando caiu o Muro de Berlim. Na esteira da Reunificação, os políticos cantaram a "Ode à Alegria". A Nona Sinfonia de Beethoven é também o hino da União Europeia, com os seus valores de liberdade, paz e solidariedade.

Por Gaby Reucher, na Deutsche Welle


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sábado, 25 de fevereiro de 2023

Corrupção não custa só dinheiro: os impactos dos desvios para o Brasil

 


Qual o custo da corrupção para o Brasil? O valor exato que o país perde com os desvios de dinheiro é algo difícil - ou melhor, impossível - de se calcular. "A corrupção que a gente mensura é sempre aquela que não deu certo, a que foi detectada por um órgão de investigação", explica o advogado Michael Mohallem, consultor sênior da Transparência Internacional no Brasil. Ele ressalta também que os efeitos da corrupção não se resumem a questões financeiras, sendo parte de um processo de desconfiança do poder público.

A Transparência Internacional avalia o problema pelo mundo por meio de . O Brasil não vai bem no indicador - é apenas o 96º país com a menor percepção de corrupção.

Um dos fatores que pode explicar o mau desempenho do Brasil é a existência ainda pequena de órgãos de prevenção e combate à corrupção dentro das estruturas estatais. O Tribunal de Contas da União (TCU) verificou em 2021 que menos de 2% das organizações públicas do Brasil têm um sistema de proteção adequado para a iniciativa. Segundo o órgão, as instituições mais fragilizadas para a corrupção são as da esfera municipal.

Apesar da dificuldade na metodologia, algumas estimativas podem dar um indicativo do tamanho do rombo. Um estudo de 2019 do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) revelou que a corrupção custa 29 dias de trabalho dos brasileiros, o que equivale a R$ 160 bilhões, 8% de tudo o que é produzido no país.

Outra pesquisa, elaborada em 2010 pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), apontou o montante da corrupção em R$ 82 bilhões por ano, o correspondente a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

Em termos globais, a corrupção custaria aos poderes públicos US$ 1 trilhão, pagos em suborno, e US$ 2,6 trilhões, desviados da sua finalidade original, segundo uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU).

Além destes cálculos, outra possibilidade de mensuração do tamanho dos efeitos da corrupção é o olhar sobre o montante devolvido pelos responsáveis pelo crime que acabaram processados judicialmente e condenados.

Aqui no Brasil, o exemplo mais célebre deste tipo de situação é o relacionado à Lava Jato. , decorrentes de acordos de leniência firmados entre o poder público e acusados. Os números contemplam todo o período que a operação esteve em vigor, entre 2014 e 2021.

Corrupção e gastos públicos: alguns comparativos

O valor que a Lava Jato repatriou corresponde a 10 anos do orçamento federal para o auxílio-gás. remetido pelo governo de (PL) ao Congresso no fim de agosto indicou que as despesas com o fundo que facilita o acesso ao gás de cozinha estão estimadas em R$ 2,2 bilhões para o ano de 2023.

Para saber mais, clique aqui.

Já o valor reservado para o Auxílio Brasil, o programa de assistência social que substituiu o Bolsa Família, é de R$ 105 bilhões. É menos do que os R$ 160 bilhões estimados como custo anual da corrupção no Brasil segundo o IBPT. O dinheiro indicado pelo governo federal prevê o pagamento do auxílio em R$ 405 mensais aos beneficiários, algo contestado pela oposição e cuja revisão deve contar com o apoio até de lideranças governistas. Hoje, o benefício mensal do Auxílio Brasil está em R$ 600 - este valor é válido até dezembro próximo.

O rombo da corrupção estimado pelo IBPT também chega a superar o valor previsto pelo governo federal para a saúde em 2023. Os gastos com a saúde estão cotados em R$ 149,9 bilhões, de acordo com o projeto da LOA.

A proposta da lei orçamentária ainda está em tramitação no Congresso e deverá sofrer modificações até sua aprovação, mas a espinha dorsal do texto tende a ser mantida pelos parlamentares.

Os custos para além do dinheiro

Michael Mohallem, da Transparência Internacional, diz considerar importante o debate sobre as verbas desviadas. Mas ele enfatiza ser necessário pensar também sobre os aspectos não-financeiros da corrupção. Segundo ele, a corrupção tem efeitos que resultam numa diminuição da confiança sobre o poder público, o que pode resultar em um enfraquecimento da democracia.

"Nós temos que pensar também no impacto que é a queda da confiança nas instituições públicas", ressalta. Ele lembra que pesquisas de opinião costumam apontar as esferas eleitas do poder público, como os ocupantes de cargos e instituições a exemplo da Câmara dos Deputados, entre as de menor credibilidade do país. apontou que Câmara e Senado estão em último lugar entre as instituições mais confiáveis.

Mohallem ressalta que a corrupção está presente em todos os países, dos mais aos menos desenvolvidos. A diferença, segundo ele, está no quanto a corrupção está "incorporada" no sistema público. Os países menos desenvolvidos têm a corrupção como um fator endêmico e constante de suas estruturas - o que se explica, entre outros fatores, pela quebra de confiança, o que gera um efeito de bola de neve. "É um ciclo que se cria. Por isso que é necessário controlar a corrupção e evitar essa retroalimentação", afirma.

Gazeta do Povo, Olavo Soares 


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