sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Nobel de Economia premia trio pelo combate à pobreza no mundo



O indiano Abhijit Banerjee, a francesa Esther Duflo e e o americano Michael Kremer foram premiados com o Prêmio Nobel de Economia pela sua “abordagem experimental para aliviar a pobreza global”.

“Os premiados deste ano introduziram uma nova abordagem para obter respostas confiáveis sobre as melhores formas de combater a pobreza global”, frisou a Academia Real de Ciências da Suécia na apresentação dos escolhidos para o Nobel da Economia.
Abhijit Banerjee, do Massachusetts Institute of Technology, Cambridge, nos Estados Unidos, nasceu em 1961, na Índia.
O norte-americano Michael Kremer, da Universidade de Harvard, EUA, nasceu em 1964.
A francesa Esther Duflo, nasceu em 1972. Duflo é a mais jovem vencedora a receber este Nobel, além de ser a segunda mulher a conseguir o feito.
Abhijit Banerjee e Esther Duflo, juntando-se muitas vezes a Michael Kremer, realizaram estudos similares em outras áreas e em outros países. “Os seus métodos de investigação experimental dominam agora totalmente as economias em desenvolvimento”, explicou a Academia Real de Ciências da Suécia.

Prêmio de R$ 3,85 milhões

“Um dos temas mais urgentes para a humanidade é a redução da pobreza global, em todas as suas formas. Mais de 700 milhões de pessoas ainda subsistem com salários extremamente baixos.
Por ano, cerca de cinco milhões de crianças com menos de cinco anos, ainda morrem com doenças que podem ser prevenidas ou curadas com tratamentos baratos. Mais de metade das crianças no mundo ainda abandonam a escola com competências básicas”, recordou o comitê do Nobel.
Os três vão dividir um prêmio equivalente a R$ 3,85 milhões. O Nobel da Economia foi o último dos prêmios a ser anunciado este ano.
Oficialmente conhecido como o prêmio de ciências econômicas do Banco da Suécia em memória de Alfred Nobel, a distinção não foi criada pelo fundador, mas é considerada como parte dos prêmios Nobel.
A premiação foi criada pelo Riksbanken, o banco central sueco, em 1968, e o primeiro vencedor foi selecionado um ano depois.

Da Agência Brasil


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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Justiça condena ex-prefeito que doou área pública de R$ 500 mil a 'amigo de infância'



Imóvel de 19,6 mil metros quadrados em município do interior Tocantins foi destinado à construção de um posto de combustíveis
A Justiça do Tocantins condenou Arthur Caires Maia, ex-prefeito de Santa Rita do Tocantins, por ter doado uma área pública de 19,6 mil metros quadrados, avaliada em R$ 500 mil, a um 'amigo de infância'. Tanto o ex-gestor como o beneficiário da doação, Milton Silva Chagas, terão de prestar serviços à comunidade ou a entidades públicas por três anos. A pena substitui os três anos de detenção aos quais a dupla foi sentenciada pelo crime de dispensa à licitação.

A decisão foi proferida pelo juiz Alessando Hofmann Teixeira Mendes, da 1ª Vara Criminal de Porto Nacional no dia 9 de setembro, mas a informação foi divulgada pelo Ministério Público Estadual na última quinta, 10. As defesas de Maia e de Chagas já apresentaram ao Tribunal de Justiça do Estado recursos contra a decisão de primeira instância.

Além dos serviços comunitários, o magistrado determinou que Maia e Chagas desembolsem valor referente a três salários mínimos, que será destinado a uma entidade beneficente a ser escolhida pelo juízo da execução penal. Além disso, o ex-prefeito arcará com uma multa de R$ 10 mil, referente a 2% do valor do imóvel doado.

A denúncia contra Maia e Chagas foi apresentada pelo Ministério Público do Estado em abril de 2018. Segundo a acusação, a doação ocorreu em 2014 e é referente a uma área situada nas margens da BR-153 em Santa Rita do Tocantins - município de 2,3 mil habitantes situado a cerca de 145 km de Palmas. O terreno público foi destinado à construção de um posto de combustíveis.

Na sentença, o juiz destacou que para a transferência do bem público, é necessário interesse público justificado, prévia autorização legislativa, avaliação e realização de procedimento licitatório na modalidade concorrência. Segundo o magistrado, a atos de Maia não foram precedidos das formalidades legais e a doação do bem público 'visou benefício direcionado para a empresa de Milton Chagas'.

Mendes concluiu que Maia 'beneficiou indevidamente o amigo de infância', violando os princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade e destacou ainda que a doação da área pública gerou 'evidente prejuízo ao erário da ordem de mais de meio milhão de reais e enriquecimento ilícito' de Milton e de sua empresa.

'Houve por parte dos acusados, clara intenção de burlar a legislação para dar vazão a empreendimento amparado com base na amizade existente entre os codenunciados, que, em conseqüência, gerou um desfalque na a Administração Pública', escreveu o magistrado.

Segundo o Ministério Público do Estado, uma outra ação judicial que tramita no âmbito acusa a dupla de improbidade administrativa e busca reverter a doação do imóvel público.

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem busca contato com as defesas de Arthur Caires Maia e Milton Silva Chagas. O espaço está aberto para manifestações.
Por Pepita Ortega, em O Estadão


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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Infância refugiada: 10 mil crianças venezuelanas já entraram no Brasil



Hoje é o Dia das Crianças e no alojamento BV8 em Pacaraima (RR), fronteira do Brasil com a Venezuela, os cerca de 400 meninos e meninas que vivem temporariamente por lá têm um pedido: cholas ou em português, chinelos. Alguns deles não têm calçados para proteger os pequenos pés que cruzaram caminhos difíceis até chegar ao Brasil.

Desde 2017, mais de 200 mil venezuelanos já entraram no Brasil fugindo da crise econômica, política e social do país. De acordo com estimativas do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), entre eles estão quase 10 mil crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, considerando o período de 2015 a 2019. O número é uma projeção, já que não há um dado oficial. Uma delas é Diego Hernandéz, de 10 anos. Ele está com a mãe e irmãos no BV8, um abrigo temporário que acolhe principalmente o público mais vulnerável, até que possam seguir para Boa Vista ou para outros estados dentro do processo de interiorização.
“Queremos chinelos e roupas para sermos crianças limpas. Quando as crianças não têm roupa, elas se sentem tristes”, explica Diego. O tenente-coronel Barcellos, coordenador da Operação Acolhida em Pacaraima, conta que as crianças chegam com necessidades muito básicas como roupas e fraldas.
“Muitas vezes elas chegam sem entender o que está acontecendo. A gente vê que para elas tudo é novo, diferente”, diz Barcellos. A Operação Acolhida é coordenada pelas Forças Armadas com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), além de outros órgãos do poder público e entidades da sociedade civil.
Apesar das difíceis condições, o menino agradece o acolhimento no Brasil e fala com propriedade sobre a crise que levou ele e sua família a cruzarem a fronteira. “Pelo menos vocês estão nos ajudando porque a Venezuela está pobre, já a metade da população se foi porque a situação está muito feia por lá”, lembra Diego.
As crianças são uma preocupação ainda maior no contexto da migração, já que direitos muito básicos como a alimentação adequada ficam comprometidos. “Essas pessoas foram deslocadas de suas residências então tem um impacto desse deslocamento, a chegada no local. Às vezes a vida num abrigo também é muito distinta da realidade que essas crianças estavam vivendo na Venezuela. Isso tudo tem feito com que esse processo tenha um impacto muito forte nas crianças”, aponta Thais Menezes, chefe de relações institucionais da Acnur.
Primeira infância
A vida no alojamento BV8 e nos outros abrigos mantidos pela Operação Acolhida pode não ser a ideal. Mas lá, as crianças têm ao menos três refeições por dia e um lugar seguro para dormir. Entre os cerca de 700 moradores temporários do local – o espaço está sendo ampliado para receber até mil pessoas – estão cerca de 60 crianças com até 7 anos. A maioria delas está na chamada primeira infância, período que vai do nascimento até os 6 anos de vida. A primeira infância é uma fase decisiva para o desenvolvimento infantil, pois é quando o cérebro é moldado a partir das experiências, dos estímulos e do ambiente em que a criança vive.
“Os primeiros anos são muito importantes porque tudo está acontecendo ali ao mesmo tempo e rapidamente. Quanto maior a estimulação, o cuidado e a atenção dos pais em relação a essas crianças em desenvolvimento e, no caso da migração da sociedade também, isso vai permitir o desenvolvimento de seres saudáveis”, explica a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Ângela Uchoa. Ela destaca que o estresse e a desnutrição, além de aspectos afetivos, têm impacto no desenvolvimento da criança.
Na tentativa de mitigar os efeitos negativos da migração, o Unicef mantém os Espaços Amigos da Criança, onde as crianças recebem atendimento pedagógico e participam de atividades recreativas. Ao todo, 23 unidades estão em funcionamento no estado de Roraima e mais de 15 mil crianças e adolescentes já foram atendidos.
Em Pacaraima, bem próximo das instalações onde os adultos cuidam de questões burocráticas de documentação e identificação para poderem entrar no Brasil, dezenas de crianças cantavam, dançavam e brincavam sob o comando dos monitores da Visão Mundial, organização que apoia o Unicef nas ações.
Lá estava Sophia Valentina Curapiaca, 5 anos, que está com a mãe e os irmãos em Pacaraima enquanto aguarda as ações de interiorização para encontrar o pai, que já está morando em São Paulo. Ela lista as brincadeiras que gosta de fazer: jogar pelota (bola, em espanhol) e desenhar. “Aqui não tenho amigos, meus amigos ficaram na Venezuela. Mas brinco com meus irmãos”, diz Sophia.
A venezuelana Sorimar Tremária atua como professora social no espaço do Unicef há dois anos. Na Venezuela, trabalhava como enfermeira e educadora, mas viu-se obrigada a deixar o país em razão da crise econômica: seu salário chegou a valer apenas R$ 8.
“Nosso espaço é chamado pela nossa equipe de espaço da alegria. Porque as crianças esquecem toda realidade da Venezuela, aqui é outro mundo. Só um lápis de cor e um papel fazem a diferença para eles. Eles nos falam: ‘tia é difícil encontrar uma folha para escrever na Venezuela e vocês dão para nós, fazemos atividades’, coisas que na Venezuela não se faz porque é muito caro um lápis”, exemplifica Sorimar.
Apesar dos efeitos negativos dessas privações no desenvolvimento infantil, a professora Ângela Uchoa destaca que há um grande poder de recuperação das crianças em razão da plasticidade do cérebro. “Mesmo tendo passado por situações estressantes, o potencial de recuperação do ser humano é imenso e a gente tem que sempre apostar nesse potencial. É a resiliência, é a capacidade de resistir”, analisa Uchoa.
Quando a nossa equipe de reportagem visitou o BV8, as crianças ensaiavam uma coreografia para apresentar na festa do Dia das Crianças, organizada pela coordenação da operação. Perguntado sobre o que gostaria que os adultos fizessem pelas crianças imigrantes e refugiadas, Diego resume com a simplicidade de quem só tem 10 anos, mas já carrega uma história dura para contar: “Eu quero que todas as crianças tenham roupas, chinelos, vivamos a vida feliz e quando formos grandes tenhamos estudo aqui no Brasil. Sejamos homens de bem”, diz.
Da Agência Brasil



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terça-feira, 15 de outubro de 2019

ENTREVISTA – Lições de felicidade



À frente do curso mais popular da Universidade Yale, a psicóloga Laurie Santos ensina como evitar as armadilhas do cérebro para encontrar a felicidade

Mais de 60 ganhadores do prêmio Nobel já passaram pela Universidade Yale, nos Estados Unidos, em áreas como economia, física e química. O curso eletivo mais popular em mais de 300 anos de história, no entanto, não tem nada a ver com essas áreas. O curso Psychology and the Good Life (algo como “A psicologia e a boa vida”) ocupa a primeira posição, com mais de 1.200 alunos presenciais e outros 350.000 na versão online, desde sua criação no ano passado.

À frente do programa, com dez semanas de duração, está a psicóloga Laurie Santos, professora e pesquisadora da universidade. Ela se tornou um dos expoentes de uma nova geração de psicólogos que usam a ciência para explicar o comportamento humano e uma de suas maiores ambições: a felicidade. “Se entendermos como nossa mente funciona, podemos evitar algumas peças que nosso cérebro nos prega e adotar hábitos que realmente nos fazem felizes”, afirma Laurie. Em setembro, ela lançou a série de podcasts The Happiness Lab, que trata do assunto de uma forma menos acadêmica.

As pesquisas de Laurie e de outros estudiosos apontam para um descompasso entre a percepção da realidade e os sentimentos. A exposição excessiva a comparações sociais, um efeito colateral das redes sociais, piora a situação. Sem perceber, as pessoas se colocam em uma posição de sofrimento que não condiz com a própria realidade. É o que faz um multimilionário ser infeliz por não ter mais dinheiro. Por outro lado, um modesto faxineiro pode encontrar sentido no trabalho e ser feliz. O segredo da felicidade, segundo ela, está nas pequenas coisas da vida. De seu escritório em Yale, Laurie falou por telefone a EXAME.

O que a ciência já descobriu sobre o que leva as pessoas à felicidade?

Não é o que esperamos. Dinheiro, bens materiais ou, no caso dos meus alunos, melhores notas não funcionam como esperamos. Por outro lado, há uma série de coisas que nos fazem felizes, mas nas quais não prestamos tanta atenção, como visitar os amigos, fazer uma boa ação ou meditar. As pessoas mais felizes são as mais sociáveis, que passam mais tempo com parentes e amigos. Desenvolver conexões verdadeiras aumenta o bem-estar. Quem pensa mais nos outros também é mais feliz. Nos Estados Unidos temos essa ideia de “cuide-se”, ou seja, faça algo por você. As pesquisas, no entanto, mostram que fazer algo para outra pessoa, como um trabalho voluntário, é mais efetivo. Também temos uma noção errada de que precisamos preencher nosso tempo. Imaginamos que uma vida repleta de experiências é melhor. Mas a sensação de ter tempo livre nos deixa mais felizes.

Por que em geral temos uma noção equivocada do que traz felicidade?

O motivo é complexo e está relacionado à nossa evolução. Coisas que naturalmente nos trazem felicidade, como fazer parte de uma comunidade, estavam muito presentes em nossa vida no passado. Por esse motivo, nunca sentimos falta delas e não criamos um sistema motivacional para buscá-las. O resultado é que negligenciamos uma série de elementos que, naturalmente, nos fariam mais felizes. Por outro lado, buscamos coisas que nos fazem mal, como alimentos gordurosos, mas que não eram abundantes no passado. Nossas intuições sobre o que gera bem-estar estão erradas. Achamos que usar um aplicativo para pedir comida ou pagar as contas vai nos deixar felizes. Mas quando abrimos mão de pequenas interações, como uma conversa com o caixa do banco, deixamos de socializar, o que é ruim. Também acreditamos que é melhor ter milhões de escolhas, como no caso do Netflix. Só que acabamos nos sentindo exaustos com a sensação de nunca fazer a escolha certa. Por meio da ciência, nos conhecemos melhor e podemos evitar essas coisas estúpidas que nosso cérebro nos diz para fazer. No lugar delas, passar mais tempo com os filhos e os amigos.

A ansiedade tem se apresentado como um dos problemas da atualidade. O que estamos fazendo de errado?

Os níveis de ansiedade nas universidades americanas superaram os limites. Quase dois terços dos estudantes estão drasticamente ansiosos. Em grande parte, isso se deve ao fato de não nos concentrarmos no presente. Muitos dos meus alunos ficam ansiosos por se preocuparem demais com as notas no final do semestre ou com o emprego que terão ao deixar a faculdade. Eles não estão concentrados no agora e isso gera medo. Outro problema é que somos constantemente bombardeados com comparações e notícias negativas. Há sempre alguém com melhores notas, uma festa interessante para a qual não fui convidada e é só ligar meu computador para saber tudo sobre as mudanças climáticas ou as mortes por armas de fogo. São problemas reais que invadem nossa consciência o tempo todo. Claro que devo me preocupar com o aquecimento global, mas a exposição a essas questões gera ansiedade.

Gerações passadas, que não tinham tanta oferta de informações, têm mais facilidade de se proteger dessa superexposição?

Não sei dizer. De qualquer forma, para os millennials, entrar nas redes sociais é como escovar os dentes. É complicado porque vários estudos mostram que as redes sociais aumentam a ansiedade.

Existe conexão entre a proporção de pessoas com depressão e o avanço de novas tecnologias?

Em teoria, o efeito pode ser positivo. Eu posso me conectar com pessoas que estão distantes, o que é bom. Mas, normalmente, não usamos a tecnologia de uma maneira que promova a felicidade. Estabelecemos conexões sociais pouco profundas e nos distraímos.

A noção de equilíbrio entre mente, corpo e alma é um caminho para a felicidade?

Como uma cientista, é até difícil reconhecer que a religião descobriu isso muito tempo atrás. A maioria das tradições religiosas inclui reservar um tempo para socializar e fazer o bem para os outros. Tradições culturais não religiosas seguem a mesma linha. A siesta na cultura espanhola é um exemplo. Nós tínhamos essas instituições que nos protegiam, mas estamos perdendo.

Pessoas religiosas são mais felizes do que as não religiosas?

Sim, mas isso não tem relação com suas crenças, ou com o fato de acreditarem em Deus. Está relacionado com as práticas. Quem vai à missa adota rituais que nós, estudiosos do tema, indicamos para mentes seculares. Mas você não precisa acreditar em Deus para obter os mesmos resultados com, por exemplo, meditação.

É possível ser feliz sem gostar do trabalho?

Definitivamente, sim. Uma boa parte do que não gostamos no nosso trabalho está ligada à percepção que temos dele. Todos nós temos virtudes e força de caráter diferentes. Há quem seja mais sociável e bem-humorado, há quem goste de aprender e quem se identifique com atos de bravura etc. Se você enquadra sua atividade profissional de uma maneira que ressalte suas virtudes, vai se sentir mais satisfeito. Há um estudo consagrado sobre faxineiros, um trabalho que não é considerado dos mais prestigiosos, cuja conclusão é que os profissionais mais felizes eram aqueles que buscavam um sentido holístico para a atividade. Se você trabalha em um hospital, não está apenas limpando vasos sanitários, está ajudando a salvar a vida de crianças ao manter o local limpo. A maioria dos trabalhos tem esses elementos redentores.

O que fazer para aumentar a felicidade no ambiente de trabalho?

Quando se sentem valorizadas, as pessoas demonstram mais vontade. Na verdade, expressar gratidão tem um impacto maior na produtividade do que aumentar o salário. Não somos motivados apenas por dinheiro, mas, sim, pela ideia de causar algum impacto e de socializar. Dar um sentido ao trabalho vale mais do que um dinheirinho extra. O curso apresenta o conceito de “adaptação hedônica”, caracterizado pela tendência de se acostumar com ganhos materiais. Um carro novo gera bem-estar no momento da compra, mas logo passa a ser um item cotidiano. Na minha série de podcasts, eu converso com Clay Cockrell, um psicoterapeuta especializado em pessoas com um patrimônio mínimo de 50 milhões de dólares e que se sentem infelizes. Muita gente olha para um cara com esse dinheiro e se pergunta como ele pode não ser feliz. Mas poucos fazem uma reflexão sobre a própria vida.

Dinheiro, então, não traz felicidade?

Se você está abaixo da linha de pobreza, mais dinheiro vai ajudar. A maioria dos leitores desta revista, no entanto, não está nessa posição. O que nós desejamos, geralmente, não é um teto, é um teto um pouquinho mais espaçoso. Nessas condições, o dinheiro não vai impactar nossa vida como imaginamos.
A desigualdade social influencia na felicidade dos que estão situados no meio ou no topo da pirâmide?

Países mais desiguais são menos felizes. Isso está relacionado com as comparações sociais que fazemos. O que importa não é nossa riqueza objetiva, mas a riqueza comparada aos outros. Em países desenvolvidos, pessoas que assistem muito à TV, e se expõem a programas sobre a vida dos famosos, pensam que seu dinheiro vale menos do que vale, pois não conseguem ter o mesmo padrão de consumo.

Por Rodrigo Caetano, na Revista Exame


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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Pompeo diz que tratamento da China a muçulmanos é "enorme violação dos direitos humanos"




WASHINGTON (Reuters) - O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, disse na quarta-feira que o tratamento dado pela China aos muçulmanos no oeste do país, incluindo os uigures, é uma 'enorme violação dos direitos humanos', e que os Estados Unidos continuarão a abordar o assunto.

'Isto não é somente uma enorme violação dos direitos humanos, mas não achamos que é do interesse do mundo ou da China adotar esse tipo de comportamento', disse Pompeo em uma entrevista à emissora pública norte-americana PBS.

Indagado se o presidente chinês, Xi Jinping, é responsável, Pompeo respondeu: 'Xi Jinping comanda o país como o líder de um pelotão de tanques, um pequeno negócio ou um país é responsável pelas coisas que acontecem em seu nome'.

Punindo Pequim por seu tratamento a minorias muçulmanas, o governo dos EUA ampliou sua lista negra comercial nesta semana para incluir algumas das maiores startups de inteligência artificial da China e anunciou restrições à emissão de vistos para autoridades do governo chinês e do Partido Comunista que acredita serem responsáveis pela detenção e abuso de minorias muçulmanas na província de Xinjiang.

No domingo, Pompeo pediu que todos os países resistam às exigências chinesas de repatriação de uigures étnicos, dizendo que a campanha na região de Xinjiang, no oeste chinês, é uma 'tentativa de eliminar seus próprios cidadãos'.

Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) e ativistas dizem que ao menos um milhão de uigures, e membros de outros grupos minoritários majoritariamente muçulmanos, foram detidos em campos na região remota.

A China negou maltratar os uigures e disse que Xinjiang é um assunto interno.

'Recentemente, o lado dos EUA vem atacando e difamando as políticas da China para Xinjiang com a justificativa da religião e dos direitos humanos e fazendo comentários infundados e equivocados que contrariam os fatos', disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, em um boletim diário à imprensa em Pequim.

'A China expressa uma forte insatisfação e uma oposição firme a isso'.

Em um comunicado separado emitido na terça-feira, a embaixada chinesa em Washington denunciou a restrição de vistos e disse que as acusações norte-americanas de violações de direitos humanos são 'pretextos inventados' para interferir nos assuntos chineses.

Por Eric Beech, em Washington; Reportagem adicional de Michael Martina, em Pequim, na Reuters Brasil





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domingo, 13 de outubro de 2019

Enem confirmadíssimo



As provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019 foram todas impressas e metade delas já foi remetida aos locais de aplicação. 'Acabou o risco de não ter Enem', enfatizou o ministro da Educação, Abraham Weintraub. O Enem 2019 será realizado nos dias 3 e 10 de novembro, em 1.727 municípios brasileiros. Mais de 5 milhões de pessoas farão o exame em 14 mil locais de aplicação de provas.

Ao todo, foram impressas 10,3 milhões de provas. A primeira remessa, de 408 mil provas, foi enviada no dia 3 de outubro, para locais de difícil acesso do Pará e Bahia. Outros malotes seguiram para Rondônia, Piauí, Pernambuco e Mato Grosso. Os materiais estavam sob a guarda do 4º Batalhão de Infantaria Leve do Exército Brasilieiro, em Osasco (SP).

Em café da manhã com jornalistas, na manhã de hoje (10), o ministro ressaltou que apesar dos problemas enfrentados com a gráfica neste ano, o cronograma está sendo seguido e a prova está garantida. 'Não teve problema nenhum com a gráfica', ressaltou Weintraub.

No início deste ano, a empresa RR Donnelley, que era detentora do contrato para a impressão do Enem, decretou falência. O Tribunal de Contas da União (TCU) autorizou, em abril, a contratação de nova gráfica. Foi escolhida a Valid S.A., garantindo a impressão das provas. A Valid era a gráfica seguinte na ordem de classificação na licitação realizada em 2016.

Neste ano, a contratação da segunda colocada foi autorizada pelo TCU para que a prova pudesse ser impressa a tempo, segundo o ministro. Para 2020, será feita uma nova licitação. O processo para a elaboração de novo edital está em andamento, segundo o Inep.

Conteúdo

A prova deste ano será focada em questões que avaliem objetivamente o aprendizado dos estudantes, segundo o presidente do Inep, Alexandre Ribeiro Lopes. 'A prova foi produzida da mesma forma dos anos anteriores. O que houve foi uma orientação para que [as questões] focassem na aprendizagem', diz.

Após polêmica envolvendo questões do Enem no ano passado, o Inep criou, no início deste ano, um grupo responsável por 'identificar abordagens controversas com teor ofensivo a segmentos e grupos sociais, símbolos, tradições e costumes nacionais' e, com base nessa análise, recomendar que tais itens não fossem usados na montagem do Enem 2019.

Lopes afirmou que nem ele nem o ministro tiveram acesso às provas que serão aplicadas em novembro.

Logística

Para colocar o Enem de pé é necessária uma megaoperação de logística e segurança. São 400 mil profissionais envolvidos em todo o processo da avaliação. Só a operação de transporte dos malotes envolve 31 mil colaboradores, a maioria, agentes de segurança pública. São 4,2 toneladas de papéis, transportados em 3.746 contêiners levados em aviões, carretas e barcos.


Da Agência Brasil




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sábado, 12 de outubro de 2019

46% dos participantes do Enade 2018 recebem algum tipo de recurso público



Um balanço feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em conjunto com o Ministério da Educação (MEC), revelou que 46% dos cerca de meio milhão de estudantes que participaram do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) em 2018 têm auxílio financeiro do governo federal. São alunos que cursaram o ensino superior por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e do Programa Universidade para Todos (ProUni), por exemplo.

O balanço foi apresentado nesta sexta-feira (4), durante coletiva de imprensa com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o presidente do Inep, Alexandre Lopes. De acordo com Weintraub, esse dado mostra que o dinheiro dos cidadãos está sendo aplicado na educação. "O pagador de impostos está ajudando esses estudantes a concluírem o curso de graduação", disse."O jovem que não tem recurso não está totalmente desamparado, ele tem outros mecanismos, como financiamento público", completou. Ainda de acordo com o chefe da pasta, "o que precisa melhorar são esses mecanismos, porque o Fies é uma situação que, para o aluno, foi muito ruim".

Resultados

Na edição de 2018 do Enade, 8.821 cursos foram avaliados de um total de 1.791 instituições de educação superior públicas (227) e privadas (1.564), nas modalidades presencial e a distância. O desempenho dos estudantes que fizeram o exame define como os cursos são classificados em uma escala de 1 a 5, sendo 5 a nota máxima.

A maioria dos cursos foi classificada com notas 3 e 2. O levantamento na íntegra está disponível no portal do Inep em Relatórios Síntese de Área e Relatórios de Curso e de Instituição de Ensino Superior. O Boletim do Estudante está liberado no Sistema Enade.

Do Correio Braziliense Online


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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

MEC estuda punição a aluno que tiver nota baixa no Enade



Quem faz a prova e acerta 10% das questões não deveria se formar, afirma ministro Abraham Weitraub; ideia é também criar mecanismos positivos, como divulgar faixa de aberto para beneficiar quem vai bem
O Ministério da Educação quer criar mecanismos para que seja possível punir o aluno que tem um desempenho muito abaixo da média no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). A proposta foi apresentada nesta sexta-feira, 4, pelo ministro da Educação, Abraham Weitraub.

'O aluno faz a prova como se não houvesse amanhã', disse, ao comentar os resultados do Enade para os cursos de bacharelado das áreas de Ciência Sociais, Ciências Humanas e os tecnólogos de Gestão e Negócios, Produção Cultural e Design. Ele atribuiu parte do baixo desempenho à falta de incentivo dos alunos para a realização das provas.

'Uma pessoa que faz a prova e acerta 10% das questões não deveria se formar', afirmou.

A participação no exame é obrigatória, sob pena do atraso na colação de grau. O desempenho, contudo, não traz atualmente vantagens ou desvantagens para o aluno. Diante desse cenário, avalia, parte dos alunos acabam entregando a prova em branco. Ele observou que resultados abaixo do porcentual de acerto com resposta aleatórias.

A ideia é também criar mecanismos positivos. E esse seria o primeiro passo da estratégia.

O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), Alexandre Lopes, afirmou que a ideia é incluir, no próximo edital, uma regra que permita a divulgação da faixa de nota do estudante que participou do exame. Isso seria feito, por exemplo, para aqueles que tivessem um nível de acerto entre 60% e 80% e na outra faixa, para aqueles que tivessem um acerto acima de 80%. Tal mecanismo, na avaliação de Weintraub, poderia ser usado como incentivo, sobretudo no momento em que o estudante for procurar uma colocação no mercado de trabalho.

'Nada será feito a fórceps', disse Weintraub, ao apresentar as propostas. A ideia é que mudanças nas regras de avaliação sejam discutidas com especialistas. Parte delas, de acordo com Lopes, poderão ter aplicação imediata. Outras, necessitarão de portaria ou de mudança na lei. Lopes afirmou que a ideia é apresentar um conjunto de sugestões para melhorar as avaliações preparadas pelo Inep até o fim deste ano.

Do Estadão Online

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Chega a 124 o número de localidades afetadas por manchas de óleo no Nordeste




Novo balanço do Ibama aponta que petróleo cru foi encontrado em praias de 59 municípios de oito Estados da região; oito animais morreram. Órgãos ainda não conseguiram identificar origem da substância
Chegou a 124 o número de localidades do Nordeste afetadas por manchas de óleo cuja origem permanece desconhecida. Segundo novo balanço do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), são 59 os municípios afetados, de oito Estados da região. Doze animais foram atingidos pela substância, sendo onze deles tartarugas marinhas, e oito deles morreram. A substância é petróleo cru, segundo análise do órgão, mas o tipo identificado não é produzido no Brasil.

Em nota, o Ibama informou ter requisitado apoio à Petrobras para atuar na limpeza das praias. Agentes comunitários estão sendo contratados pela petrolífera, que já havia realizado treinamento prévio para ocasiões em que fossem necessários esses serviços. "Investigação do Ibama com apoio dos Bombeiros do DF aponta que o petróleo que está poluindo todas as praias seja o mesmo. Contudo, a sua origem ainda não foi identificada. Em análise feita pela Petrobras, a empresa informou que o óleo encontrado não é produzido pelo Brasil", informou o órgão ambiental.

O petróleo tem chegado às praias em diferentes intensidades desde o dia 2 de setembro e permanece ocorrendo até esta semana. As manchas se caracterizam como vestígios, esparsas, descontínuas e contínuas de acordo com a cobertura observada na areia das praias. Por ser uma substância tóxica, a recomendação do Ibama e das Superintendências Estaduais de Meio Ambiente é de que as pessoas evitem o banho de mar, a prática de esportes náuticos e também a pesca, bem como evitar o consumo de frutos do mar desses locais.

Do Estadão Online

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A universidade da disrupção



A Singularity University, escola de inovação do Vale do Silício, terá campus em São Paulo com uma questão-chave: Até os pessimistas vão se render ao otimismo com o futuro que os seus professores ensinam?

Já foi dito que, mais do que um lugar, o Vale do Silício é um estado mental, uma forma de abordar os negócios e as inovações. A criatividade que permeia as startups e invenções que tornaram a região da Califórnia famosa no mundo todo tem relação com as empresas fundadas lá, como Google, Apple, HP, Facebook, Intel, Netflix e Tesla. Mas talvez elas nem existiriam se não fosse pela forte cultura educacional da região, ilustrada pela tradicional Universidade Stanford, de 134 anos.

A grande novidade de ensino da última década, no entanto, responde pelo nome de Singularity University e tem uma história muito mais recente. Localizada dentro do Parque de Pesquisas da Nasa, em Santa Clara (próxima da Stanford e da sede do Google), ela surgiu em 2009 da cabeça de dois visionários nova-iorquinos. São eles o engenheiro, médico e físico Peter Diamandis, conhecido por criar o prêmio de exploração espacial da Fundação X Prize, e o diretor de engenharia do Google, inventor e futurista Ray Kurzweil, que causou polêmica mundial em 2002, quando revelou que o seu objetivo era não morrer e que imaginava que isso seria possível.

A abordagem vanguardista da nova instituição conquistou pessoas de negócios de todo o mundo. Mas, para os brasileiros, virou um verdadeiro frenesi. A empreendedores e principais executivos do País, parece que não existe nada melhor para entrar no estado de espírito que representa o Vale do Silício do que cursar a Singularity. Um exemplo é o da Dasa, grupo de laboratórios diagnósticos dono do Delboni Auriemo e do Lavoisier. Dez executivos, incluindo o CEO e sócio, Pedro Bueno, e dois conselheiros, Alexandre de Barros e Romeu Domingues, cursaram por quatro dias o programa de Medicina Exponencial, na Singularity, num investimento feito pela empresa há três anos. “Depois do curso, demos uma acelerada no processo de inovação na empresa, e avançamos na implementação de Inteligência Artificial e na pesquisa de usos de 3D, realidade aumentada e robótica”, afirma Domingues, presidente do conselho de administração da Dasa.

Em 10 anos, mais de 1 mil brasileiros se dirigiram à Califórnia para realizar seus cursos, como o Programa de Soluções Globais (rebatizado no ano passado como Programa de Startups Globais) e o Programa Executivo, que podem custar US$ 20 mil, por seis semanas de aulas presenciais. Thomas Kriese, vice-presidente da Singularity, diz que fora dos Estados Unidos, o Brasil tem a maior representação de alunos. “Os brasileiros participavam do curso e depois convenciam os amigos”, afirma. “Chegou ao ponto de precisarmos limitar o número de brasileiros por classe. Eles gostavam do conteúdo, mas sentiam que estavam no Brasil e que o curso deveria ser algo mais multicultural.”

PARCERIA COM HSM

A partir de 2020, isso não será mais uma preocupação. A Singularity está chegando ao Brasil. Mais especificamente a São Paulo, com expectativas de ter a primeira turma no início do próximo ano. Em parceria com a HSM, do grupo Anima Educação, ela finaliza a escolha de um local para o campus. “Se não chegarmos a 16 mil alunos brasileiros, sentirei que fracassei no meu plano de trazer o programa ao País”, afirma Kriese. “Tornando o conteúdo disponível em português e no Brasil, podemos chegar não só ao topo executivo das empresas, mas também atingir os empreendedores e a gerência média de grandes organizações.”

Na sexta-feira 4, deve ser finalizada a certificação do corpo docente brasileiro, que deve incluir 15 nomes dentre mais de 100 pessoas avaliadas, segundo Guilherme Soárez, vice-presidente de crescimento e educação continuada da Ânima Educação. Esse processo foi realizado em três fases, com visitas à sede da Singularity, aulas on-line sobre a sua história, treinamentos de apresentação em público e análise de projetos e de palestras dos candidatos. “Buscamos pessoas que realizaram algo. Não basta ter aprendido por um vídeo na internet e contar a história dos outros”, afirma Soárez. “Pode ser um executivo, um empreendedor ou um pesquisador de ponta. Mas é necessário ter também muito boas habilidades de comunicação, capacidade de passar mensagens de forma inspiracional e de levar as pessoas da platéia à ação.”

A unidade fará parte de um ecossistema global de estudos e ensino, que inclui também os campi da Singularity em Copenhague, Amsterdã, Johannesburgo, Lisboa, Milão, Toronto e Sidney. Os professores e alunos brasileiros deverão ajudar na troca de conhecimentos entre países.

O campus em São Paulo deve ter entre 3 mil e 5 mil metros quadrados, e deve abrigar também outros parceiros. Escolas de programação, de design thinking e de mindfulness estão sendo procuradas para se estabelecer no local. Também foram convidadas empresas e fundos de investimentos, além de startups, para apoiar algumas das áreas de estudos da unidade brasileira.

Foram identificadas oito áreas de foco para a unidade nacional. Metade delas tratará de grandes dificuldades do país em comparação com o mundo desenvolvido: saúde, educação, segurança pública e infraestrutura. “Se usarmos um pensamento linear e analógico, levaremos até 2070 para resolvermos esses problemas”, diz Soárez. “E, sem superarmos essas dificuldades, não teremos nenhuma chance no mercado global.” As quatro disciplinas restantes são oportunidades de liderança global para o Brasil, incluindo agricultura, energia, meio ambiente e serviços financeiros.

Essa abordagem otimista quanto ao futuro faz parte do DNA da escola e ajuda a explicar o interesse dos brasileiros por ela. Afinal, uma das coisas mais em falta no País tem sido exatamente isso. Kriese cita uma estatística do Boston Consulting Group que descobriu que 72% dos brasileiros deixariam o País se tivessem essa possibilidade. “E um grande problema, porque as pessoas que querem sair não são aquelas que estão sofrendo. São as que têm mais capacidade de ter sucesso em outros lugares”, afirma o executivo. “Então, buscamos mostrar idéias para incentivá-las a acreditar num futuro melhor aqui no Brasil.”

O otimismo da Singularity está baseado no fato de que, mesmo com todas as más notícias pelo mundo, as macro- tendências mostram que menos pessoas estão abaixo da linha da pobreza e passam fome do que no passado. “O medo das pessoas falharem e das repercussões externas de tentarem algo novo é o que faz elas ficarem presas ao status quo, ou a desejarem voltar a um tempo em que as mudanças não eram tão rápidas”, afirma Kriese. “Mas acredito que as pessoas se esquecem de como o mundo era duro no passado.”

Para a Singularity, o futuro será de abundância. A energia será gratuita, com os avanços na captação de energia solar. Metade das doenças do mundo desaparecerá, por estarem ligadas ao consumo de água não potável. E o transporte será cada vez mais inteligente. “As empresas precisam pensar em como vão operar neste mundo de abundância”, diz Kriese. “Tudo isso está a nosso alcance.” Agora, para o brasileiros, o alcance será ainda mais facilitado, com a chegada da escola ao País.
Por Carlos Eduardo Valim, na Isto É Dinheiro

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Bullying




ENTREVISTA - Dave Cullen: ‘Eu vi a escuridão’
Jornalista americano que é o maior especialista em massacres juvenis fala do horror em Columbine, desmonta lugares-comuns e diz como evitar essas tragédias

Na manhã de 20 de abril de 1999, quando os jovens Eric Harris e Dylan Klebold deram o tiro que deu início ao mais famoso massacre dos Estados Unidos, o jornalista e escritor Dave Cullen almoçava perto da escola Columbine High School. Ao saber do tiroteio, correu para lá. A partir daí, dedicaria a vida ao massacre: foi o primeiro jornalista a entrar na escola, virou confidente dos sobreviventes e conversou com centenas de testemunhas para montar o quebra-cabeça da tragédia. Em 2009, lançou o relato mais completo do episódio: Columbine (Editora DarkSide) — que chega ao Brasil em versão atualizada, com os diários dos assassinos. Cullen, de 58 anos, foi afetado pelo objeto de estudo: o massacre o levou à depressão. Na entrevista concedida durante passagem por São Paulo, chorou ao exibir as pulseiras que ganhou de sobreviventes. Ele fala sobre as causas e lições de Columbine e atentados similares — até mesmo do massacre ocorrido em Suzano, em março deste ano.

Vinte anos após Columbine, o massacre ainda é a mais famosa tragédia do gênero e inspira novos atiradores em vários países. O que explica isso?

A crueldade, o planejamento, a tática utilizada pelos dois adolescentes assassinos, Eric Harris e Dylan Klebold, foram inéditos. Mesmo após outras dezenas de tiroteios, não houve nenhum tão espetacular. O episódio já não está entre os dez mais letais dos Estados Unidos. Mas Columbine é visto como um exemplo a ser seguido e superado. Podemos dizer que foi a mãe de todos os massacres.

Por que os tiroteios em escolas se tornaram tão frequentes?

As pessoas me perguntam o motivo dos tiroteios e quando isso vai acabar. A verdade é que estamos vivendo um momento em que elas mesmas se interessam por isso. A TV é inundada de programas sobre crimes reais e tiroteios semelhantes. As pessoas estão usando traumas reais como entretenimento. É um novo tipo de banalização da maldade, e isso é muito perigoso.

O senhor costuma questionar a imprensa e até fez um mea-culpa por ter ajudado a colocar os assassinos sob os holofotes. Mas noticiar os fatos não é dever do jornalismo?

Ajudar a propagar sua fama foi, infelizmente, um erro da imprensa. Isso começou lá atrás, mas depois vieram os muitos filhotes de Columbine. São jovens que planejam e executam massacres com o intuito de imitar Eric e Dylan. Foi o que ocorreu no Brasil neste ano, em Suzano. O rosto dos jovens matadores foi reproduzido no noticiário em diversas línguas. É essa exposição que eles almejam. Devemos omitir no noticiário o nome e as imagens de quem comete esse tipo de atentado. Em vez disso, é melhor chamá-los pelo que eles são: assassinos, atiradores, criminosos.

Como um dos primeiros a chegar à cena do massacre de Columbine, quando notou a magnitude do ocorrido?

Levou dias para cair a ficha. Ninguém estava preparado para aquela barbárie. A crueldade dos atiradores era chocante: eles atiravam em qualquer um para matar. Os corpos ainda estavam dentro da escola, e a lista de mortos não tinha saído. As pessoas choravam e diziam não saber por quem chorar, pois não sabiam quem estava vivo ou morto. O carro de uma das vítimas virou um ponto de homenagem e orações. Era o único veículo que estava fora da barreira policial, e os alunos não tinham um corpo para velar. O automóvel, soubemos depois, era de uma garota que foi a primeira vítima dos atiradores.

Há uma tendência a apontar primeiro os pais como culpados pelos atiradores juvenis. É justo?

Os pais não são os culpados. Eles não puxam o gatilho. As pessoas precisam culpar alguém. Elas necessitam de um vilão, e muitas vezes os familiares dos atiradores são colocados nesses papéis. Na maioria dos casos, contudo, não há sinais de que os pais tenham feito algo errado na educação dos filhos. Tom e Sue Klebold, pais de Dylan, eram ótimos e muito presentes.

Não caberia aos pais farejar sinais de desvio?

Um pai e uma mãe nunca vão achar que o filho deles é um psicopata. Psicopatas manipulam as pessoas, os amigos, a família. Podemos ver tudo na nossa frente, menos um psicopata. Os pais, geralmente, não sabem o que é um psicopata de verdade, não sabem quais são os sinais. E, para falar a verdade, não há um sinal de que o filho se tornará um assassino. Você passa o dia com ele, cuida dele, ensina-o a ser uma boa pessoa. E, quando vê, ele está na televisão atirando nos colegas de classe com armas e munições que possivelmente estavam escondidas dentro da sua casa. Gosto de usar Dylan como exemplo. Ele às vezes chegava em casa deprimido, sem vontade de fazer as coisas. Mas isso acontece na vida de mais da metade dos alunos de um colégio. São sinais inequívocos de que o jovem vai matar treze pessoas e cometer suicídio em seguida?

No Brasil, os atiradores de Suzano usaram a deep web para planejar o massacre. A internet tem sua parcela de culpa nesse tipo de crime?

Sim. No Canadá, potenciais atiradores se conheceram pela internet com o objetivo de perpetrar um ataque. Era um trio que incluía gente de cidades diferentes. Todos os três foram presos antes que pudessem pôr o projeto em ação. Não acho, naturalmente, que a internet seja capaz de produzir assassinos. No refúgio da deep web, no entanto, ficou mais fácil montar grupos de pessoas que comungam da ideia de que cometer atentados em massa é uma coisa legal.

A tragédia de Columbine desencadeou um debate sobre o porte de armas nos Estados Unidos, mas quase nada mudou. O senhor está entre os que acreditam que dificultar a compra de armas evitaria os massacres?

Na verdade, retrocedemos nesse ponto. Nem todo mundo deveria ter direito de portar armas de fogo. Hoje, qualquer um com mais de 21 anos pode comprar uma arma sem apresentar atestado médico ou de antecedentes criminais. As pessoas que em teoria não têm condições de comprar armas deveriam estar em uma lista on-line de incapazes. Se os atiradores usam a internet a favor deles, por que nós não a estamos usando ainda a favor da vida? Os Estados Unidos são o único país em que ocorrem massacres quase todos os anos, e nada acontece. A Austrália tinha leis de armas liberais até o tiroteio em Port Arthur. Desde então, decidiu controlar todo o processo de venda de armas de fogo. Tudo o que os governantes são capazes de produzir são ideias que podem piorar as coisas, como armar os professores.

Depois do massacre de Suzano, a ideia também foi defendida por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Não é uma medida razoável?

O presidente brasileiro adora imitar as coisas que Trump faz. A ideia de armar os professores é a proposta mais idiota que já ouvi sobre o assunto. Estaríamos apenas adicionando mais potencial de violência à rotina de adolescentes. Eles não precisam de mais gatilhos, e sim de aconselhamento, de supervisão. O trabalho de um professor é educar para o futuro — e isso funciona à base de confiança. Como os alunos terão confiança em um professor que a qualquer momento pode apontar uma arma para a cabeça deles e ameaçar dar um tiro?

Costuma-se citar o bullying como um dos motivos dos massacres. Ele é mesmo o grande vilão?

Creio que não. Falou-se muito que o ambiente da escola de Columbine era tóxico e que havia bullying. Mas era um ambiente normal de ensino médio. Vi vários sites culpando os sobreviventes, porque aqueles dois pobres adolescentes supostamente sofriam muito com o bullying. É mentira. Eric e Dylan mais cometiam do que eram vítimas de bullying. Eles queriam matar da maneira mais cruel a maior quantidade de alunos possível para entrar para a história e ser reconhecidos. Eles escolheram fazer aquilo.

A escola, então, não era um ambiente propício à violência?

Quem escreve num diário que quer estuprar pessoas e arrancar a cabeça de uma menina é um coitado? Pois foi isso que Eric escreveu antes de matar treze pessoas em Columbine. Ele era um psicopata que queria fazer coisas ruins aos outros. Nós pintamos a imagem da escola monstruosa que teria levado esses jovens com problemas a matar treze pessoas. Mas eles fizeram o que fizeram por vontade própria.

É possível traçar um perfil preciso de um atirador de massa?

Normalmente, esses jovens são pessoas cabisbaixas, tristes, que não são aceitas nos grupos principais do colégio e não se sentem amadas por ninguém. Chega um momento em que eles se cansam de andar nas sombras. Eles precisam se mostrar e ser vistos. Muitos sofrem de depressão e exibem tendências suicidas. “Por que me matar se eu posso matar a todos que não me amam e me maltratam de alguma forma? E o mundo saberá quem eu sou”, eles pensam. Um erro que muitas pessoas cometem é chamar todos de psicopatas. Nem todo atirador é psicopata, nem todo atirador sofreu bullying na escola. Eu os divido em dois grupos: os criativos e os que ambicionam provocar o maior número de baixas. Eric, infelizmente, era as duas coisas em um só. Criativo na hora de planejar o atentado com crueldade e focado na meta de elevar a contagem de mortos.

De que forma o senhor foi afetado emocionalmente ao passar uma década imerso no massacre de Columbine?

Sempre que há novos massacres, tento me desligar. Busco não ouvir nem ver nada sobre aquilo, porque se transformou em algo muito difícil para mim. E o problema maior é que isso se transformou também no meu trabalho, porque acabei me tornando um especialista em tiroteios em massa. Mas convivo com a depressão. Tive duas recaídas durante a elaboração do livro — no capítulo do funeral de Dylan e ao descrever a morte lenta do treinador da escola, que agonizou por três duras horas. Tomo remédios controlados e vou a um psicólogo pelo menos duas vezes por semana. Na época, um agente do FBI foi designado para me proteger em razão das ameaças que eu recebia de jovens que idolatravam os atiradores. Vivi na escuridão nesses vinte anos. É uma escuridão profunda, na qual não se consegue discernir um fiapo de luz.
Como o senhor superou o baque?

Só consegui de fato me libertar recentemente, com a ajuda de sobreviventes do atentado. Eles me mostraram que há esperança. É possível reerguer-se após a tragédia. Se eles, que estavam lá, se reergueram, por que não eu? Estou me curando aos poucos. Sinto alegria ao saber que aqueles jovens também estão conseguindo superar a dor. Essas crianças são extraordinárias, assim como a garotada de Suzano.
Por Amanda Capuano, Eduardo F. Filho, na Revista Veja


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