terça-feira, 26 de junho de 2018

Lambança suprema


A descoberta de um suposto grampo no gabinete do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, causou alvoroço há pouco mais de dois anos. Uma investigação da Polícia Federal, acionada com cinco meses de atraso e concluída recentemente, mostra a sucessão de trapalhadas durante o episódio

Em uma varredura, seguranças da Suprema Corte brasileira encontraram uma pequena engenhoca perto da mesa de trabalho do gabinete do ministro Luís Roberto Barroso. De pronto, acreditaram se tratar de um equipamento de escuta. Um grampo. O achado tinha tudo para representar o mais grave caso de arapongagem já descoberto no submundo de Brasília. Mas não era. Nem de longe. Uma investigação da Polícia Federal, iniciada do zero cinco meses depois, mostrou uma série de improvisos e a absoluta falta de protocolos de segurança desde o momento em que o aparelho foi encontrado até as providências adotadas para tentar descobrir quem – e com quais interesses – o teria deixado no gabinete. O episódio, motivo de grande alarde no passado recente, virou uma comédia pastelão no centro do tribunal mais poderoso do país, que julga causas bilionárias e os poderosos da Lava Jato. A conclusão da PF foi de que é impossível saber quem colocou o aparelho e se de fato houve grampo. Por uma razão simples: a apuração, tocada pela área de segurança do próprio Supremo, não foi feita da maneira apropriada.

Tudo começou em abril de 2016, quando foi localizado um fone de ouvido acoplado a um botão de liga/desliga e um microfone no gabinete de Barroso. Era uma segunda-feira. Por volta das 22 horas, por ordem do setor de inteligência do Supremo, um agente foi ao gabinete de Barroso. A vistoria era rotina nas salas dos ministros. Debaixo da mesa de Barroso, o carpete estava mal encaixado. O agente então foi tentar colocá-lo no lugar, quando deparou com o dispositivo, em estado precário. O agente fez o óbvio: acionou seu superior. E aí começam aquelas histórias que só acontecem na burocracia do serviço público — o chefe acionado acionou outro chefe, que por sua vez acionou um terceiro chefe. O último a ser comunicado foi Murilo Maia Herz, então secretário de segurança, escolhido pelo presidente da corte àquela altura, Ricardo Lewandowski. Hoje, ele continua trabalhando com Lewandowski. É comissionado no gabinete do ministro.

Herz estava no cargo havia quase dois anos e tinha alterado o protocolo de segurança para esse tipo de situação. Antes, a ordem era explícita: isolar o local, acionar a chefia e o gabinete do ministro e, então, chamar a perícia da Polícia Federal. Mas o secretário de Lewandowski simplificou o roteiro. Bastava comunicá-lo e, a partir dali, ele próprio decidiria o que fazer. Na noite da descoberta do grampo, ele foi informado do ocorrido, por telefone. Mas, apesar da gravidade do caso, não foi ao local, nem contatou a polícia. A ordem foi tirar o grampo do local, colocar em um envelope e entregar em mãos para ele. Detalhe: isso só aconteceu no dia seguinte. Assim mesmo, sem polícia, sem perícia.

Em documento reservado, a Seção de Inteligência do Supremo registrou o achado

O então secretário de segurança do STF tomou duas medidas depois que estava com o suposto dispositivo de grampo nas mãos. Ambas causam arrepios em investigadores que atuam nesse tipo de caso. A primeira foi tirar o aparelho do Supremo Tribunal Federal e levar a um amigo, que entendia do assunto. Acionar um amigo que entende do assunto é o tipo de providência amadora que até poderia acontecer numa empresa pouco acostumada com esses riscos, mas causou estranheza mesmo entre funcionários do gabinete de Barroso. Obviamente, a análise improvisada do amigo não conseguiu descobrir quem era o autor do grampo – se é que houve grampo.

Foi então que Murilo Maia Herz tomou a segunda medida. Sem conseguir chegar a um veredicto sobre o que era o aparelho, o secretário de segurança teve uma ideia. Era 12 de abril. Ou seja, em menos de 24 horas, o aparelho havia sido tirado do gabinete, guardado em um envelope e passado por pelo menos quatro pessoas diferentes. E nada de uma investigação oficial da polícia ser solicitada. A ideia foi recolocar o dispositivo no gabinete do ministro para, quem sabe, flagrar alguém o recolhendo. Assim foi feito. Por quase um mês, e por sugestão da equipe técnica do tribunal, o ministro do Supremo teve o aparelho acomodado de volta em seu gabinete. Nesse ponto específico, a Polícia Federal esbarrou em um conflito de versões. Herz, o secretário de segurança, disse que a decisão de manter o grampo no gabinete partiu do próprio Barroso, que teria descartado uma investigação externa. Já a chefe de gabinete do ministro, Renata Saraiva, informou à PF que as orientações partiram de Herz, não de Barroso.

Independentemente do dono da ideia, a estratégia de armar um flagrante de um suposto araponga fracassou.

O suposto aparelho de grampo, do tamanho de uma tampa de caneta, e o seu botão de liga/desliga

Depois de um mês com a ação secreta em pleno curso, o ministro Barroso revelou a existência do aparelho à imprensa. Encerrava-se ali o plano mirabolante. E começava uma crise institucional. Houve grampo de um ministro do Supremo? Quem grampeou? “Do ponto de vista institucional, é gravíssimo alguém ter a ousadia de colocar um grampo num gabinete do ministro do Supremo. É uma desfaçatez absoluta”, disse Barroso na ocasião. Colegas de corte também se mostraram chocados. O caso remeteu ao antigo temor de que ministros da corte possam estar sob vigilância ilegal – passam, por ali, os mais diversos interesses de grupos políticos e econômicos. Hoje desafeto de Barroso, o ministro Gilmar Mendes foi um dos que reverberaram essa preocupação quando o episódio foi revelado: “É uma situação completamente absurda. Houve no meu gabinete sinais disso, o ministro (Cesar) Peluso teve e, em dado momento, o ministro Marco Aurélio no Tribunal Superior Eleitoral também teve. Ou seja, não é eventual, não é de hoje e tem havido sinais”.

O fato é que tantas lambanças tornaram impossível saber o que era o tal aparelho. A conclusão da perícia da PF foi de que, nas condições analisadas, aquele objeto não tinha condições de gravar, armazenar ou transmitir áudio. Com isso, o caso foi arquivado, já que ficou inviável para os investigares tentar descobrir quem era o autor. A Polícia Federal sugeriu que o Supremo tomasse providências para apurar se Murilo Maia Herz incorreu em deslizes funcionais ao lidar com a questão. O STF abriu um processo interno para apurar os procedimentos de sua equipe de segurança. Crusoé pediu à corte informações sobre os desdobramentos internos do caso, mas o tribunal respondeu que não iria se manifestar. Murilo Herz não retornou os contatos da revista. O ministro Barroso, por sua vez, afirmou que não deu não pôde acompanhar o desenrolar do caso. “Não acompanhei a apuração nem cobrei resultados. Embora considere o episódio grave, não o coloquei no meu rol de prioridades. A gente tem tantas obrigações e responsabilidades que acaba tendo que escolher onde colocar energia”, disse.

Essa foi a segunda vez que o caminho de Herz e da Polícia Federal se cruzaram. A primeira foi quando o Supremo Tribunal Federal se viu sob a chacota de um boneco inflável gigante do ministro Ricardo Lewandowski durante protesto na avenida Paulista. Na ocasião, o secretário de segurança do Supremo acionou a PF. Queria proteger a honra do chefe, ameaçada por um boneco.

Por FILIPE COUTINHO, na Revista Crusoé


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segunda-feira, 25 de junho de 2018

Lei Seca completa 10 anos sob temor de relaxamento e pedidos por rigor


Balanço indica menos motoristas flagrados, mas 6,7% ainda admitem dirigir sob efeito de álcool

Na madrugada do dia 11, Luiz Carlos Mello Silva, 15, andava de bicicleta em uma avenida na zona sul de São Paulo. Sem que percebesse a aproximação de um carro em alta velocidade, o garoto foi atingido pelas costas e lançado a uma altura de cerca de cinco metros. Na queda, o magro adolescente bateu com o rosto na guia e morreu no local.

O motorista foi submetido a um exame de bafômetro, que acusou a embriaguez. Ele está preso à espera de julgamento.

Luiz Carlos morreu no mês de aniversário de dez anos da Lei Seca, completados no último dia 19. A legislação estabeleceu maior rigor contra quem bebe e dirige —regras endurecidas cinco anos depois.

Embora não disponham de série completa comparativa de dados com os critérios iguais desde antes da Lei Seca, autoridades de trânsito de São Paulo e do Rio indicam que, nos últimos anos, parte dos motoristas mudou de comportamento e ficou mais difícil flagrar embriagados.

Por outro lado, especialistas temem relaxamento nessa mudança de comportamento e alertam que apenas com mais
fiscalização será possível reverter o cenário de mortes como a de Luiz Carlos.

“De que adianta existir a Lei Seca e meu filho ter morrido por culpa de um motorista bêbado?”, questiona o comerciante Luiz Aparecido da Silva, 39, pai de Luiz Carlos.

Balanço do Detran de SP aponta que em 2013 houve 12.746 abordagens, das quais 1.226 resultaram em multas.

Ou seja, 9,6% dos motoristas foram autuados pelo departamento por terem se recusado a fazer o teste do bafômetro ou por estarem com- provadamente alcoolizados.

Em 2017, o Detran paulista bateu o seu próprio recorde de testes realizados: foram 78.009 abordagens e 5.179 autuações —6,6% do total.

A queda do percentual de motoristas autuados ocorre também no estado do Rio de janeiro. Entre 2013 e 2018, o índice de motoristas flagrados sob efeito de álcool ou que se recusaram a fazer o teste do bafômetro caiu de 6,7% para 4,4%. Em 2011, esse número chegou a ser de u,6%.

Logo no primeiro mês da lei, em 2008, o
Ministério da Saúde divulgou um levantamento que indicava que ela tinha ajudado a reduzir em 24% os atendimentos emergenciais a feridos em acidentes de trânsito feitos pelo Samu.

Porém, outros dados da pasta apontam que, ao longo desta década, o número de pessoas que admitem beber e dirigir teve pequenas variações —e continua preocupante.

Em 2011, pesquisa anual feita por telefone e com pacientes do SUS mostrava que 6% dos entrevistados admitiam dirigir após ingerir álcool. Em 2013, o índice foi o menor da série, 5,2%, mas em 2016 foi de 7,3%. Em 2017, ficou em 6,7%. Continua na pág. 82

Outros dois estudos da USP apontam que, nos casos em que há morte da vítima de trânsito, a presença de álcool subiu entre 2005 e 2015.

Em 2005, o estudo analisou amostras de sangue de 907 vítimas do trânsito paulistano (60% dos casos naquele ano). Em 39% das vezes, a vítima tinha algum vestígio de álcool. A maior preponderância de álcool era entre os motoristas e passageiros de carros.

Em 2015, o mesmo laboratório analisou 56 amostras de sangue de novas vítimas do trânsito paulistano, numa amostragem que estatisticamente representa as vítimas de toda a cidade. Em 43% dos casos, o álcool estava pre¬sente no sangue das vítimas.

Para Gabriel Andreuccetti, pesquisador do departamento de medicina legal da Faculdade de Medicina da USP, o dado mostra que, apesar da diminuição geral das mortes no trânsito nos últimos anos, o álcool continua bastante presente como causa de acidentes fatais.

Para Nikon Gurman, do movimento “Não foi acidente”, o que se percebeu ao longo da última década foi uma adesão inconstante dos motoristas à restrição do uso do álcool no trânsito, a depender do aperto da legislação e do comportamento da população.

Segundo ele, a criação da lei em 2008 foi só um degrau, mas que logo acabou prejudicado pelo que chama de distorção no Judiciário, que adotou a tese de que ninguém pode¬ria produzir provas contra si.

“isso prejudicou muito a eficácia da lei. Mas, desde então, a lei mudou e os prazos das penas aumentaram. A partir de 2012, por exemplo, a recusa ao bafômetro passou a ser multada. E cada um desses avanços foi um novo degrau”, disse.

Nilton Gurman é tio de Vitor Gurman, morto atropelado em julho de 2011 por uma nutricionista que estava alcoolizada e em alta velocidade.

Outro fator preocupante é o aumento do número de motoristas que se recusam a fazer um teste de bafômetro para escaparem de uma prisão, como mostrou a Folha em dezembro de 2017.

Naquele ano (entre janeiro e setembro), as recusas a bafômetro foram de 10%. N mesmo período de 2015, esse índice era de somente 1,4%.

Ainda que o motorista recuse o teste de bafômetro para evitar uma prisão, as penalidades são de multa d R$ 2.934,70 e suspensão d direito de dirigir por um ano.

Para o especialista em segurança viária Horácio Figueira, é preciso criar ainda mai restrições ao motorista que decida recusar o teste, par que essa não seja uma alternativa viável.

“Por que uma pessoa se recusou a usar o bafômetro? porque ela bebeu. Acho que a lei deveria mudar para que no momento de obtenção da CNH (Carteira Nacional d Habilitação), o novo motorista soubesse que, se um de ele recusar o teste de bafômetro, ele terá a habilitação suspensa por cinco anos”, sugere.

Figueira defende que a estratégia de blitz também deve ser aperfeiçoada.Além das grandes blitz e, Polícia Militar deveria investir em pequenas abordagem; com curto tempo de duração na mesma rua, para driblar aplicativos e redes sociais que avisam sobre a presença de policiais. “A blitz não pode ser previsível”, comenta.

Maurício Januzzi, presidente da comissão de direito viário rio da OAB- SP, diz que a fiscal zação no país ainda não é efetiva. “Ela é por amostragem O motorista não sabe se vai ser abordado ou não. Por isso, o comportamento continua o mesmo, que é o de beber e dirigir. Isso só mudar quando o motorista tiver certeza absoluta de que el será abordado. Não basta órgão da punição [com penas multas altas], é preciso a certeza da punição”, diz Januzzi.

HISTÓRIAS DA LEI SECA

Contestado por alertas de blitz, aplicativo diz ser útil

“Já pensou se um amigo diz que você pode beber o quanto quiser e que sua preocupação deve ser apenas evitar a blitz na rua de baixo? Esse cara não é seu amigo, ele quer o seu mal”, defende o especia¬lista em segurança viária Horácio Figueira ao se referir a apps e redes sociais que publicam endereços de blitze policiais pelas cidades.

A crítica é comum entre estudiosos de segurança no trânsito, que dizem que sistemas de GPS como o Waze e algumas páginas em redes sociais como o Twitter dificultam o
trabalho de fiscalização da lei seca.

O Waze diz que o alerta para a presença da polícia torna o trânsito mais seguro, já que induz à redução de velocidade. A empresa disse ter “recebido feedback de departamentos de polícia em todo o mundo de que o recurso é útil”, mas não especificou quais.

Em São Paulo, o Waze já foi cobrado publicamente a reconsiderar o alerta pelo ex-secretário municipal de transportes, Sérgio Avel leda. “Nada contribui para a segurança das cidades”, disse Avelleda em 2017. Já o Twitter diz que não comenta contas específicas de seus usuários.

Detran de São Paulo lista desculpas mais inusitadas

O Detran paulista listou recursos inusitados de motoristas que tentavam cancelar multas recebidas por embriaguez.

Entre as desculpas estão a de um motorista de Ribeirão Preto que disse ter passado o dia num rancho bebendo cerveja sem álcool. Segundo ele, um amigo colocou cerveja com álcool em sua lata sem que soubesse.

Em outro caso de 2016, um motorista alega que pensava estar infectado com o vírus H1N1. Com medo de passar a doença adiante, ele se recusou a soprar o bafômetro, o que gerou multa. O Detran avisa que o bocal do bafômetro é descartável e trocado a cada teste.

Até 6 de julho, o Detran promove em sua página no Facebook a eleição do recurso mais inusitado, no que chamou de “A Copa dos Recursos Mais Incríveis da Lei Seca”.

Ação judicial tenta há dez anos derrubar lei

Há dez anos, um processo iniciado pela Abrasel (associação brasileira de bares e restaurantes) tenta barrar na Justiça a vigência da Lei Seca.

A associação acionou o STF (Supremo Tribunal Federal) ainda em 2008. Um dos argumentos era o de que não havia critérios para estabelecer quando alguém alcoolizado perdia a aptidão para dirigir. Outra tese era a de que nenhuma pessoa poderia gerar provas contra si. Então, o motorista pode¬ria se recusar a soprar o bafômetro e não deveria ser punido por isso.

A mudança da lei em 2012 estabeleceu que outros meios, além do bafômetro, podem servir de provas de embriaguez, como vídeos e testes clínicos. A novidade enfraqueceu a argumentação da Abrasel, que já não acredita no pleito.

“Não somos contra a lei.

Só achamos que pode haver um parâmetro mais amplo [mais permissivo]. Não acho que alguém que toma um cálice de licor tenha que ser considerado um delinquente”, disse à Folha Percival Marica to, presidente da associação em São Paulo e advogado que toca o processo na Justiça. O caso está aguardando decisão do ministro Luiz Fux.
Por Fabrício Lobel, na Folha de S. Paulo


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domingo, 24 de junho de 2018

Ativista de direitos dos autistas entra na política após debates na Assembleia


Blogueira, Andréa Werner, 42, será candidata a deputada em SP e defenderá programas na área

Quando seu filho Theo, hoje com dez anos, foi diagnosticado com autismo, em 2010, a jornalista Andréa Werner, 42, lembra que viveu um período de luto. “Você sofre como se tivesse perdido um filho, demora a se acostumar com a ideia, mas é vida que segue, tem que ir à luta.” Passado esse período, Andréa criou o blog Lagarta Vira Pupa, em que ela divide suas experiências com outras mães e hoje conta com 111 mil seguidores no Facebook, além de 28 mil no Youtube e 2.500 no WhatsApp, uma grande rede de apoio que se espalhou pelo país.

Primeiro filho e primeiro neto, Theo nasceu com 3,9 kg e 53 cm, “normal de tudo, parecia um boizinho”, conta a mãe, que largou o
emprego para se dedicar ao filho e à sua rede social. No começo, achava que só a família iria ler suas histórias e levou um susto ao ver que o primeiro post teve mais de 200 compartilhamentos. Só então ela se deu conta da dimensão do problema das crianças autistas no país.

Os primeiros sinais de que há algo estranho no
desenvolvimento da criança são muito sutis e demoram a ser percebidos pelos médicos e pais: deficiência de atenção, não olhar para os olhos da mãe, procurar se isolar no ambiente, perda de habilidades e da fala, não interagir com outras crianças. Até os dois anos, a pediatra de Theo tentou convencer a mãe de que “tudo era assim mesmo”, quando os pais receberam um relatório da escola recomendando consultar um neurologista, que diagnosticou o autismo logo na primeira consulta.

“Eu não sabia nada sobre autismo. Fui aprendendo aos poucos. Não basta um sinal, é o chamado conjunto da obra. Aí caiu a ficha, mas a pediatra continuava dizendo que ele não tinha nada de autista. São noções pré-concebidas que atrasam o diagnóstico.”

Este ano, Andréa fez uma enquete em seu blog e descobriu que o problema não era só dela. Das 1.200 mães que responderam à consulta, 75% relataram as mesmas dificuldades para obter o diagnóstico com os pediatras.

A mãe de Theo, que tem plano de saúde, pesquisou no Google para encontrar um neuropediatra, mas a maioria das mães enfrenta uma fila de espera de até dois anos no SUS para marcar uma consulta com médico especializado. O nome do seu blog, Lagarta Vira Pupa, Andréa tirou da música “Metamorfose da Borboleta”, cantada no programa Cocoricó, da TV Cultura, que Theo adora ouvir, mas não consegue cantar.

Seu autismo foi diagnosticado como leve, depois severo e agora é moderado, não verbal, o que o leva a fazer um esforço danado para emitir sons, abrindo um sorriso quando consegue. É uma alegria quando ele consegue soletrar papai e mamãe ou pedir uma “piiiiizaaa”. A apraxia da fala é o maior problema do menino. A mãe diz que ele sabe o que quer falar, mas as palavras não saem, tem que se esforçar muito.

O dia a dia da convivência de Andréa com Theo é a base da contação de histórias no blog, com as pequenas descobertas e conquistas que vão acontecendo.

Para dar conta das mensagens e consultas que recebe dos internautas, em média mais de cem por dia, a blogueira conta com a ajuda do marido, Leandro, cinco anos mais novo que ela, um pai dedicado e incansável, que não tem motivos para reclamar de tédio. Militante apaixonada da causa das crianças autistas, Andrea começou a ser convidada para fazer palestras e dar aulas para professores de salas inclusivas do ensino público, quase sempre trabalhando de graça como voluntária.

“A gente sempre idealiza um filho, faz planos para quando ele crescer, mas o Theo me ensinou que a gente não tem controle de nada nessa vida e precisa se adaptar às circunstâncias. Eu tenho muita sorte. Não posso reclamar da vida, me sinto muito feliz de poder ajudar os outros. Aprendi a viver um dia de cada vez.” Nas palestras, Andrea descreve o autismo do filho com poucas palavras: “É um transtorno que afeta a forma como a pessoa interage com o mundo. Ataca a comunicação e a interação com as outras pessoas”.

A maior alegria do menino é brincar com o avô Wilson, pai de Andréa, com quem gosta de jogar bola, ver vídeos, montar quebra-cabeças, pular no colo dele e morrer de rir com as cócegas que lhe faz. Leandro, o pai, diz que é um encontro de almas. “Eles se conhecem há muito mais tempo do que a gente imagina.”

Andréa completa: “São as pessoas favoritas um do outro”. Nem sempre é assim nas famílias de crianças autistas. “Muitos pais rejeitam os filhos e vão embora de casa, largam as mães sozinhas, os avós se recusam a dar presentes.”

Não por outro motivo, mais de 90% dos seguidores de Andrea são mulheres. “É incomum os pais se envolverem com este tipo de problema. As mães têm que se virar nos 30...”

Pouco depois das cinco da tarde, quando Theo chega da escola, todas as atenções se voltam para ele. Daqui a pouco vai começar sua sessão de psicologia. Os dois retrievers que habitam o apartamento, a Lola e o Charlie, não o deixam em paz um minuto.

“Com o Theo aprendi a ver a beleza das pequenas coisas, acompanhar o sol se pondo e os pingos da chuva caindo na varanda”, vai contando a mãe.

Esta experiência já rendeu a Andréa dois livros, um para adultos, com o nome do blog e o subtítulo “A Vida e os Aprendizados ao Lado de um Lindo Garotinho Autista”, e outro infantil, “Meu Amigo Faz Iiiiii”.

O objetivo principal do
trabalho de Andréa na internet é dar acolhimento e informação às mães, e foi por esse caminho natural que ela acabou chegando à política este ano.

Uma das bandeiras da ativista é defender o uso do espaço público por crianças com deficiência ao notar que muitas mães tinham vergonha de levá-las para a rua.

A forma que encontrou de combater o estigma foi promover piqueniques em parques públicos com crianças portadoras de diferentes tipos de deficiência, que já têm 800 inscritos para o próximo evento, na Pedreira Chapadão, em Campinas.

Andrea nunca teve qualquer plano de entrar na política, mas este ano sua vida mudou.

No bojo do movimento para manter os convênios do Estado com escolas especiais, que ameaçava deixar sem aulas 2.500 crianças com deficiência. Foi durante audiências públicas na Assembleia Legislativa de São Paulo sobre o tema que ela acabou recebendo um convite do PSOL para se candidatar a deputada federal.

Vai custear a campanha com seus próprios recursos, sem dinheiro do partido, contando com a ajuda de 2.500 voluntários mobilizados na internet, coordenados pelo “assessor geral”, o amigo Samir Salim Jr., e o marido Leandro.

Até o assassinato da vereadora Marielle Franco, também do PSOL, no Rio, Andréa nunca tinha ouvido falar dela, mas as duas têm muitas coisas em comum. “Eu procuro mostrar que a diversidade é uma coisa só, precisamos juntar todas as causas na mesma luta”.

Um dos vídeos da campanha, chamado “Quem Sou Eu”, já teve mais de 330 mil visualizações até a última segunda-feira. Se for eleita, um dos projetos de Andréa é criar programas de capacitação dos professores na rede regular de ensino para a inclusão.

Nos Estados Unidos, o último levantamento mostra que uma em cada 59 pessoas tem algum grau de autismo. Aqui, não se sabe. Só o próximo censo, em 2020, deverá incluir uma questão sobre o número de autistas nos domicílios.

Sem saber quantos são, como e onde vivem, fica difícil criar qualquer programa em defesa de crianças como Theo, que teve a sorte de encontrar pais como Andrea e Leandro, uma família feliz, ao lado dos inseparáveis Lola e Charlie.

Por Ricardo Kotscho, na Folha de S. Paulo 


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sábado, 23 de junho de 2018

Ainda em Macondo


A exigência de segurança e justiça para preservação de vidas e propriedades explica a constituição do Estado em sociedades primitivas

Aradiação cósmica de fundo revela um universo econômico em expansão. Como o Brasil cresce bem menos que os países emergentes e a economia mundial, há uma indisfarçável indignação com esse medíocre desempenho. Mas nada há de surpreendente, pois a taxa média anual de crescimento está pouco acima de 2% nas últimas duas décadas e meia. O baixo crescimento surge ainda no crepúsculo do regime militar, no início dos anos 1980, e se estende aos dias de hoje, atravessando mandatos presidenciais das três versões relevantes da social-democracia nativa: a fisiológica (PMDB), a ideológica (PSDB) e a sindicalista (PT).

Em vez de surpreender, o fenômeno comove pela regularidade. O Brasil é prisioneiro da armadilha dirigista do baixo crescimento. A social-democracia promoveu descontrole dos gastos públicos, impostos excessivos, juros elevados, câmbio deprimido e baixas taxas de investimento. O combate à inflação dissociado da reforma do Estado foi disfuncional. Há governo demais onde não deveria haver, e governo de menos em suas funções críticas.

A segurança é uma das funções clássicas do Estado. Thomas Hobbes diagnostica em 'Leviatã' (1651): 'Quando os homens vivem sem uma autoridade para impor respeito, resulta uma guerra de todos contra todos... Não há estímulo para o trabalho, pois seus frutos são incertos... Haverá sempre o medo e o perigo da morte violenta; a vida é solitária, pobre, desagradável, bruta e curta'. Pequenos comerciantes, jovens das periferias e agora também a classe média compreendem a mensagem.

A justiça é outra das funções clássicas do Estado. Prossegue Hobbes: 'Outra consequência da guerra de todos contra todos é que se perdem as noções de certo e errado. Onde não há poder constituído, não há lei; onde não há lei, não há justiça. A força e a fraude tornam-se virtudes'. Os proprietários rurais, o Movimento dos Sem-Terra e agora também os políticos entendem a mensagem.

Se um Estado que gasta 40% do PIB não consegue prover essas funções básicas que explicam sua constituição em sociedades primitivas, imagine as exigências contemporâneas como educação básica, saúde pública e renda mínima contra a miséria. P.S.: trecho sobre a preservação de vidas e propriedades publicado nesta coluna em 27 de fevereiro de 2006.

Por PAULO GUEDES, em O Globo

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sexta-feira, 22 de junho de 2018

O combate à corrupção


Capitaneado pela Transparência Internacional, um grupo de entidades lançou um novo conjunto de medidas de combate à corrupção no País. São 70 sugestões de propostas legislativas, apresentadas como “o maior pacote de medidas anticorrupção do mundo”. O objetivo é estabelecer uma “agenda legislativa contra a corrupção para pautar as eleições e as discussões no Congresso Nacional”, diz o site da entidade organizadora.

É muito louvável, não há dúvida, todo esforço feito para diminuir a corrupção, que, como se sabe, produz consequências nefastas para toda a população, especialmente os mais pobres. No entanto, justamente por ser um mal persistente e tinhoso, que se insere até nas mais recônditas situações da vida social, é preciso dar-lhe um eficaz combate.

Parece, portanto, distante da realidade a ideia de que, para combater a corrupção no País, seria preciso fazer antes uma revolução legislativa, com dezenas e dezenas de mudanças legais. Segundo essa visão, a corrupção no Brasil seria, essencialmente, um problema de leis ruins, que necessitam urgentemente de profundas mudanças.

Essa ideia se contrapõe à própria experiência brasileira dos últimos anos, com destaque para a Operação Lava Jato. Muito se fez com a atual legislação. As eventuais imperfeições legais não foram óbice para investigar e punir muitos crimes. Na realidade, o que a população pôde vislumbrar com a Lava Jato e tantas outras operações foi que não era preciso esperar circunstâncias futuras mais benéficas, que nunca se sabe se de fato ocorrerão, para combater a corrupção. Já estava – e continua – disponível uma série de medidas judiciais capazes de desembaralhar os esquemas de corrupção instalados no governo, nas estatais, nas relações entre o setor público e o privado.

Muitas vezes, para resolver um determinado problema, é preciso dar-lhe a máxima visibilidade possível, para que a população se conscientize, para que haja um congraçamento de esforços, para que o mal não permaneça escondido. Mas também é essencial a prudência nessa tarefa, evitando que o combate ao problema se converta num grande espetáculo, com muitas luzes e aplausos, mas que não ataca as verdadeiras causas do problema.

Como atestam as pesquisas de opinião, a população está muito consciente do problema da corrupção. O que se faz especialmente necessário agora é o trabalho, diligente e constante, de aplicação da lei. É preciso, por exemplo, encerrar bem os muitos procedimentos e inquéritos abertos nos últimos anos. O País teve notícia de muitos relatos escandalosos, que agora cabe à Justiça analisar e julgar. É a decisão judicial, bem fundamentada nos fatos e no Direito e em tempo razoável, que desfere o mais duro golpe contra a corrupção. O restante é fumaça, sem maiores consequências.

A diligência cotidiana da Polícia Federal, do Ministério Público e do Poder Judiciário é o principal requisito para um combate eficaz contra a corrupção e a impunidade. Não há soluções mágicas, capazes de assegurar a extinção definitiva da corrupção no território nacional. Sempre haverá gente tentando lucrar com o ilícito – e sempre será necessário que as autoridades combatam e persigam esses atos criminosos, cumprindo o seu dever sem omissões e sem abusos, dentro das regras legais.

Logicamente, o Congresso tem a responsabilidade de aprimorar a legislação penal. Não existe sistema jurídico perfeito e cabe ao Legislativo estar atento ao que ocorre nas ruas, nos órgãos públicos, nas delegacias, nos tribunais. Nessa tarefa, são muito úteis as sugestões de organizações e entidades civis, que tantas vezes aportam ideias e propostas interessantes, com grande sentido prático. São sempre, no entanto, sugestões, e não imposições aos parlamentares, pois, estes sim, representam o povo.

A decisiva contribuição do cidadão nessa empreitada é, portanto, votar em candidatos honestos e competentes. Num Estado Democrático de Direito, o único caminho eficaz de combate à corrupção é que a autoridade cumpra a lei e o eleitor seja responsável na urna.

O Estado de S. Paulo

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