domingo, 24 de janeiro de 2016

'Educação é tesouro que levei da cadeia', diz homem inocentado após 23 anos de prisão

Nick Yarris, cuja trajetória é contada em documentário, leu 10 mil livros na prisão e foi inocentado após avanços na identificação por DNA.




Inocentado há 11 anos, americano dá palestras falando sobre importância da educação na vida de jovens (Foto: BBC)

Nick Yarris tinha 20 anos quando foi condenado à morte nos Estados Unidos por um crime que não cometeu. Ele passou 23 anos em confinamento solitário e afirma que foi torturado.

Sua vida tornou-se um sofrimento tão grande que chegou a pedir que fosse executado, mesmo sabendo que era inocente.

Há 11 anos ele foi libertado graças a avanços na técnica de identificação por DNA – e, agora, diz sentir-se agradecido pela experiência que teve na prisão.

Longe de ter ressentimentos, Yarris viaja pelo mundo falando sobre como a passagem pelo sistema carcerário o ajudou a ser uma pessoa melhor.

O americano, cujo caso é relatado no documentário Fear of 13 ("Medo do 13", em tradução livre), falou com o programa Newshour, da BBC.

Ele contou como passou os primeiros anos de sua pena preso numa cela de isolamento, sem poder falar.

"Eu não sabia o que era raiva até então. Batia minha cabeça na parede de raiva e frustração", disse à BBC.

"Foi só por causa da amabilidade e da compaixão de um carcereiro que me deu alguns livros e me ajudou a ler que mudei tudo e parei de ser amargo ao longo dos anos."

Terapia de palavras
Yarris afirma que a educação a que teve acesso na prisão mudou sua vida. Ele era um homem de muito poucos recursos quando entrou na prisão em 1981, acusado de violentar e matar uma jovem no Estado de Pensilvânia.

Ele foi preso pela polícia ao dirigir um carro roubado sob o efeito de anfetaminas.

Em uma tentativa de escapar da prisão, disse aos policiais que sabia quem tinha matado a jovem, de cuja morte ele ficou sabendo pelos jornais.

Mas a estratégia deu errado quando as autoridades descartaram o suposto homem apontado por Harris como suspeito e o acusaram.

"(Quando recebi a sentença) era o aniversário de 50 anos da minha mãe, e o juiz não conseguia me olhar nos olhos, porque ia me condenar."

"Isso me deixou com muita raiva. Eu queria que ele me respeitasse. E cometi o erro de mandá-lo ir para o inferno quando ele proferiu a sentença. Os guardas foram brutais comigo", relembra.

Segundo Yarris, sua falta de conhecimento na época limitou suas possibilidades de provar a própria inocência.

"Eu tinha um jeito de falar horrível e zombavam de mim. Foi muito difícil me defender sem poder falar bem", relembra.


Com a ajuda de um carcereiro que o emprestou livros, Yarris usou educação como terapia contra agressividade (Foto: BBC)

Por isso, ele acabou usando o tempo na prisão para melhorar sua educação, seu vocabulário e seu domínio da língua – enquanto pensava em uma maneira de sair de lá.

O nome do documentário, "Medo do 13", faz referência à palavra triscaidecafobia – medo irracional do número 13 –, uma das palavras que Yarris ensinou a si mesmo em seu projeto de saber mais.

10 mil livros
"A estrutura que construí através do 10 mil livros ou mais que li nos 23 anos que passei em confinamento solitário se tornaram a base de uma fundação que é indestrutível para mim", diz o ex-condenado, hoje com 53 anos.

Da prisão ele também levou outro aprendizado, que diz considerar ainda mais valioso.

"O tesouro que eu levei de lá não foi ouro, mas sim o belíssimo conhecimento que adquiri sobre mim mesmo e uma educação maravilhosa."

"Nesses meus 11 anos de liberdade, consegui mais do que jamais sonhei", afirma, emocionado.

Desde que deixou a prisão, ele dá palestras contando sua história, para "deixar uma mensagem para os mais jovens sobre como a educação pode empoderar alguém".

E também pede que as pessoas escrevam cartas para prisioneiros no corredor da morte

Ele escreveu dois livros de memórias e vive na Inglaterra com sua esposa, que conheceu enquanto estava na prisão.

Mas Yarris também reconhece que a experiência negativa que viveu o marcou para sempre.

"Ainda vivo com 11 ossos quebrados que não se curaram totalmente, dois discos quebrados no pescoço, meu rosto foi destroçado e me falta parte do olho esquerdo. Vivo em agonia física todos os dias da minha vida."


"Não há leis que possam compensar o que fizeram comigo, mas não serei uma vítima disso, porque isso desconsidera as minhas ações."

Da BBC

sábado, 23 de janeiro de 2016

Livro abre celebrações dos 400 anos da morte de Shakespeare


Em 5 de novembro de 1605, o rei James, nobres e líderes da igreja da Inglaterra iriam todos pelos ares, num atentado a bomba no parlamento. Mas um dia antes foi flagrado no subsolo o católico Guy Fawkes, com 36 barris de pólvora, e em meses a conspiração inteira veio abaixo.

Shakespeare começou então um de seus anos de maior e mais sombria criação para o teatro, reencontrando a voz perdida em 1603 com a morte da rainha Elizabeth e com a censura mais rígida. É o que James Shapiro, da Universidade Columbia, conta em "1606", que lançou em novembro –adiantando-se à torrente de obras sobre o dramaturgo no quarto centenário de sua morte, em 23 de abril próximo.

Um dos livros do ano segundo o jornal "The New York Times", que o descreve como brilhante e fascinante, "1606: William Shakespeare and the Year of Lear" relaciona as três peças que ele escreveu nesse ano, "Rei Lear", "Macbeth" e "Antônio e Cleópatra", com "o que estava acontecendo naquele tempo carregado".

"Não acho que um só acontecimento tenha definido as peças, e sim uma confluência de acontecimentos perturbadores, no início do reinado de James", diz Shapiro à Folha.

"Mas, para o homem e a mulher comuns, nas ruas, a queda da Conspiração da Pólvora, incluindo a caçada dos conspiradores, sua captura, tortura, julgamento, execuções brutais, que foram de janeiro até maio, deve ter sido o mais angustiante."

MÁSCARAS

Tanto que o 5 de novembro se tornou data nacional, com a "máscara" de Guy Fawkes sendo queimada anualmente em fogueiras –e, mais recentemente, inspirando o filme "V de Vingança" (2006) e o ativismo de movimentos como Anonymous e Occupy Wall Street. No teatro de Shakespeare, o regicida Macbeth, incorporação do mal, é um Guy Fawkes que deu certo.

"O que começou com um grupo de católicos descontentes e seus confessores jesuítas, no que era essencialmente uma trama terrorista que esperava destruir a família real e toda a liderança política e religiosa do país, restaurando a velha religião, se transformou quatro séculos depois num símbolo do enfrentamento dos poderosos, com a proliferação das máscaras e tudo mais", afirma Shapiro.

Por Nelson de Sá, na Folha de S. Paulo

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Biografia revela lado amargo do criador de Snoopy


Acaba de estrear nos cinemas o longa-metragem de animação de animação “Snoopy & Charlie Brown” com direção de Steve Martino. Não sei se os personagens de Charles M.Schulz terão para as crianças e adolescentes de hoje a importância que tiveram no passado. Para várias gerações, as tirinhas de Peanuts traduziram nas entrelinhas o sentimento de deslocamento e melancolia que acompanha o processo da descoberta do mundo: espero que esse subtexto não se perca na estética excessivamente fofinha presente no trailer do filme. A graça de Charlie Brown e Snoopy (que já foram conhecidos no Brasil como Minduim e Xereta) está na expressão de emoções adultas: desilusão, ansiedade e frustração.

Aproveitando o gancho do lançamento do filme, chega finalmente ao Brasil a controversa biografia de Charles M.Schulz, “Schulz e Peanuts: A biografia do criador do Snoopy”, de David Michaelis (Seoman, 592 pgs. R$ 55). Lançado em 2007 nos Estados Unidos, o livro faz um inventário das mágoas e ressentimentos que marcaram a vida de Schulz – e que transparecem nos seus quadrinhos, criados no começo da década de 50. No seu apogeu, a tirinha era lida diariamente por 300 milhões de pessoas em 75 países e 21 idiomas. Michaelis se baseou em anos de pesquisa e entrevistas exclusivas com parentes e amigos de Schulz, além de ter tido acesso aos arquivos do cartunista, encontrando cartas pessoais e desenhos até então desconhecidos.
 
Capa da biografia de Charles M.Schulz, “Schulz e Peanuts: A biografia do criador do Snoopy”, de David Michaelis (Seoman, 592 pgs. R$ 55). Michaelis retrata Schulz como um homem amargo, solitário e infeliz e apresenta as tirinhas de Peanuts como uma espécie de autobiografia mal disfarçada. Como Charlie Brown, ele foi rejeitado por uma garota ruiva de verdade, na juventude. Outros personagens, como Linus e Schroeder, eram basicamente projeções de uma vida emocional conturbada. Outros, ainda, foram inspirados em pessoas do convívio cotidiano de Schulz: Patty Pimenta, por exemplo, foi inspirada na sua prima Patricia, que se comportava como um garoto e gostava de jogar bola.

Lucy, por sua vez, representava as mulheres de sua vida, mandonas, controladoras e repressivas, começando pela sua mãe e por sua primeira esposa, Joyce. Não por acaso, Schulz foi um dos primeiros artistas gráficos a introduzir temas psicológicos nos quadrinhos, com Lucy e seu quiosque de plantão psiquiátrico: a ideia nasceu quando Joyce o aconselhou a fazer terapia para cuidar de sua ansiedade. Nessa época ele vivia irritadiço, deprimido e sujeito a ataques de pânico: “Eu tenho um sentimento horrível de desgraça iminente”, declarou numa entrevista.

Criado em um bairro operário de Mineápolis, Schulz era filho do dono de uma barbearia e de uma dona de casa descendente de imigrantes noruegueses, que Michaelis descreve como sendo fria, distante, cínica e insolente. Crescendo em um ambiente sufocante e extremamente religioso, onde a leitura de livros era vista como algo estranho, ele desde cedo teve problemas de autoestima, reforçados pelo fato de ser franzino, pouco dotado para os esportes e patologicamente inseguro. O que o salvou foi um curso por correspondência da Art Instruction Inc. Foi lá que começou a trabalhar, como professor de arte, depois de lutar na Segunda Guerra. Quando finalmente começou a sair com garotas, levava para ela uma Bíblia de presente.

Como marido e pai de quatro filhos, Schultz, afirma Michaelis, foi desatento e indiferente, sempre absorvido em si mesmo e alimentando secretamente grandes ambições – e buscando evasão para suas frustrações na vida surreal e fantasiosa de Snoopy. Curiosamente, quando o primeiro casamento acabou, ele se tornou um “flertador” compulsivo, hábito que continuou mesmo após se casar pela segunda vez, com Jeannie, 16 anos mais jovem. 
 
Schulz desenhou e publicou as tirinhas de Peanuts por mais de 50 anos, até se aposentar em dezembro de 1999, por questões de saúde. Morreu dois meses depois, aos 77 anos. Sua vida, de certa forma, repetiu um roteiro americano bem conhecido: a do gênio incompreendido e solitário que luta pelo reconhecimento e consegue alcançar a fama, para descobrir no fim das contas que ela não o faz feliz.

Por Luciano Trigo, no portal  G1.com

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Por que este empreendedor leu o mesmo livro 30 vezes

Empreendedor de sucesso na Austrália, Andrew Griffiths diz que a cada nova leitura obtinha novas interpretações para usar em seu trabalho.

Andrew Griffiths é um dos empreendedores seriais mais conhecidos da Austrália. Ele comprou seu primeiro negócio aos 18 anos de idade: um negócio de mergulho em Sydney. Com o tempo, abriu empreendimentos em setores como turismo e marketing, além de ter colaborado com empreendedores como Richard Branson, do grupo Virgin.

Hoje, Griffiths foca mais em dar palestras e produzir textos: ele já escreveu 12 best-sellers sobre como começar, administrar e escalar pequenas empresas. Porém, o autor também é um leitor voraz – ao menos quando se trata do livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, escrito por Dale Carnegie.

O empreendedor contou em um artigo no site Inc.com que lê a obra de Carnegie todos os anos, durante o feriado de Natal. Ele leu o livro nada menos que 30 vezes, e garante que o esforço não é em vão. “Toda vez que leio esse livro eu aprendo algo novo, interpreto alguma informação com um novo olhar, sou lembrado das mensagens que acabo esquecendo na minha rotina atribulada e, por fim, eu me divirto tanto quanto da primeira vez”, escreve Griffiths.

“Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” é um sucesso de vendas, com milhões de cópias comercializadas. Como diz o próprio título, a proposta é ensinar como se relacionar com as pessoas no âmbito profissional e pessoal, por meio de técnicas simples e eficazes. O livro já foi indicado em EXAME.com como uma obra que ensina mais do que um MBA.

Mas, para Griffiths, a releitura não é exclusividade do texto de Dale Carnegie. Segundo o empreendedor, os clássicos de negócios, autoajuda e até mesmo ficção possuem esta característica em comum: tornam possível aprender algo que não havia sido aprendido na leitura anterior, já que nossa visão do mundo muda com o tempo. “Eu fiquei mais velho e – espero – um pouco mais sábio. É justo admitir que tive mais experiências na minha vida e que elas me tornaram uma pessoa diferente, aberta para interpretar a informação de uma forma diferente”, escreve.

Planos para o futuro? Ler “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas” pelo menos outras 30 vezes, afirma o empreendedor. “Pode não ser para todo mundo, mas reler os livros que tiveram um impacto profundo na minha vida, de novo e de novo, é uma grande ajuda para que eu me mantenha no caminho correto, e para me inspirar a ser um empreendedor melhor e uma pessoa melhor.”

Da revista Exame

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Mais verbas ou mais gestão? - a tragédia.

Meus queridos, leiam abaixo o que extraí do Jornal de Brasília, edição de hoje:

Sem se esquivar de polêmicas institucionais, o conselheiro Renato Rainha atribui a crise na rede pública de Saúde à falta de competência dos gestores públicos

Francisco Dutra e Millena Lopes
redacao@jornaldebrasilia.com.br


Sobra dinheiro e falta gestão na Saúde Pública do Distrito Federal. Desta forma o presidente do Tribunal de Contas do DF (TCDF), conselheiro Renato Rainha, avalia um dos pontos mais sensíveis da máquina pública brasiliense, cujas fragilidades castigam a população diariamente. Sem se esquivar de polêmicas institucionais, Rainha atribui  a crise na rede pública de Saúde à falta de competência dos gestores públicos. Segundo o conselheiro, o Tribunal fará neste ano uma auditória constante do sistema de Saúde a partir de março. De olho nas contas públicas, Rainha alerta para o sucateamento da Segurança Pública, pois ao longo dos últimos anos o investimento do Fundo Constitucional no setor tem diminuído percentualmente de forma constante. No ano passado, o nome de Rainha passou a ser citado como um potencial candidato ao Palácio do Buriti em 2018. Sobre este assunto, o conselheiro que já ocupou o cargo de deputado distrital desconversa, mas deixou uma frase solta no ar: “Quando me aposentar do tribunal, eu não vou ficar parado em casa”.          

Nas eleições de 2014, candidatos diziam que o problema da Saúde do DF não era falta de dinheiro, mas sim de gestão. O senhor compartilha desta opinião?
Perfeitamente. Uma auditoria que nós fizemos nas UTIs, no ano de 2013. De janeiro  setembro, de cada três pessoas que procuraram a UTI, duas não encontraram. Só que nesse período nós desperdiçamos quase 10 mil dias-leitos de UTI por falta de gestão. Se esses 10 mil dias-leitos tivessem sido bem gerenciados, quantas pessoas que bateram às portas das UTIS poderiam ter o atendimento e ter suas vidas salvas? E foi gasto com pessoas. Porque pessoas que tinham alta hospitalar ficavam em média nove dias na UTI tomando vaga daquele que precisava? Isso é falta de gestão. E como esse fato, nós já vimos muitos outros. Em todas as áreas, não apenas na Saúde. Nas auditorias, o que o Tribunal faz? Ele aponta as ilegalidades e irregularidades. Mas o mais importante: aponta o caminho para ser corrigida essa ilegalidade ou essa irregularidade.(Para ler a matéria completa, aqui).

Pois bem, caros leitores. Agora atentem para o artigo que escrevi há cerca de 8 anos, e que reproduzo logo abaixo:

Mais verbas ou mais gestão?

Deveríamos desconfiar sempre que a bandeira do “mais verbas para isso” ou “mais verbas para aquilo” fosse solenemente hasteada.

Não há setor na administração pública que, diuturnamente, não seja sacudido por movimentos, ONG’s, servidores, lobbies que, com estardalhaço e em uníssono, clamam por mais, mais e mais recursos públicos.

Enquanto todos se deixam embalar e embair pelos protestos, pela ‘lógica politicamente correta’ de irrigar com recursos estatais os setores sucateados, a verdadeira causa dos problemas continua – deliberadamente – encoberta: a questão da gestão, o modo como ela é ensinada e aplicada no país.

Tomemos como exemplo a saúde pública.

O setor sempre amargou problemas dos mais graves, com a população sendo aviltada pelos serviços que recebe, invariavelmente de péssima qualidade.

As pessoas morrem nas filas dos hospitais?, então tome como solução “mais verbas para a saúde”. Faltam medicamentos?, “mais verbas para a saúde”, protestam os de sempre. A Dengue recrudesceu? “mais verbas para a saúde”, é a saída definitiva; e daí segue...

Repetida à exaustão, a “falta de verbas para a saúde” virou unanimidade nacional. A ponto de facilitar o propósito do governo federal de sangrar as forças vivas da nação com sua prole infindável de tributos, como é o caso da CPMF e CSS.

Quem não se lembra das ameaças, o governo propagando que o fim da Contribuição implicaria na hecatombe, no caos absoluto, inclusive com o fechamento de hospitais e postos de saúde. A CPMF caiu no Congresso Nacional, e tudo continuou como dantes.

Os que não se deixam embalar pelo canto da sereia já perceberam que o buraco é mais embaixo, bem mais embaixo. A realidade é que os recursos existem – e em abundância. O que falta, está claro, é boa gestão e vergonha na cara.

Mais precisamente no campo da saúde, envergonha saber que, dos R$ 1,6 bilhão destinados à área, nada menos que R$ 426,5 milhões evaporaram, sumiram, desapareceram, foram tragados pela péssima gestão, fada-madrinha de todos os tipos de corrupção.

Os dados foram extraídos dos relatórios de fiscalização da CGU, a Controladoria-Geral da União. Custa acreditar, mas o levantamento do governo federal mostra que dos R$ 1,5 bilhão transferidos pelo Ministério da Saúde - nos últimos quatro anos - para 1.341 municípios, ¼ ou 25% se destinaram aos ratos que se locupletam na corrupção.

É pouco? Então tome “mais verbas para a saúde”.

O desvio de recursos públicos já alcançou tal grau de gravidade, que os gestores públicos sequer se constrangem em avançar sobre orçamentos estratégicos, fundamentais para a população carente, como o Programa de Atenção Básica. E dinheiro que deveria atender aos mais necessitados é canalizado para confeccionar abadas de carnaval temporão, adquirir eletrodomésticos e promover festas e confraternizações.

Outro setor onde esta realidade afronta a vista é o dos esportes. Em quatro anos, a União investiu na área desportiva R$ 692 milhões. E onde foram parar esses recursos? Só a Confederação de Judô recebeu do Comitê Olímpico Brasileiro R$ 10,86 milhões. Mas o judoca Eduardo Santos foi lutar em Pequim sem dispor dos R$ 1,5 mil para trocar de faixa.

A realidade é que jamais, em toda a história do país, houve tanto dinheiro para a preparação dos atletas, considerando o ciclo olímpico.
Em que pese o expressivo incremento dos recursos, a olimpíada em que o Brasil obteve o melhor aproveitamento foi a de Atenas, em 2.004, que rendeu cinco medalhas de ouro. No ciclo da Grécia foram gastos R$ 250 milhões.

Se o Brasil desejava, na Olimpíada de Pequim, realizar o negócio da China, deu com os burros n’água. Cada medalha nos custou R$ 53 milhões, excluída, naturalmente, as obtidas com o futebol, considerando que a CBF não conta com dinheiro público.

E o ultimo escândalo estampado em todas as páginas dos jornais confirmam que “o mais verbas para isso” e “o mais verbas para aquilo” é o grande jargão que acoberta a nefasta prática de corrupção, já cristalizada no imaginário coletivo.

Quinze anos atrás, a política brasileira foi sacudida com a divulgação do escândalo protagonizado pela máfia dos “anões do orçamento”. As apurações efetuadas à época resultaram na formalização de acusação contra 15 parlamentares, seis cassados e quatro que optaram pela renuncia. As investigações que desnudaram os anões do orçamento apuraram um desvio de R$ 101 milhões.

No escândalo que acaba de sair do formo, o secretário nacional do Partido dos Trabalhadores está no centro de um gigantesco processo de corrupção que, pelos dados do Ministério Público, desviou mais de R$ 700 milhões. O esquema criminoso envolve 23 construtoras e 119 prefeituras nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins. O achaque ocorreu contra as verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), estruturando uma rede de informações privilegiadas, com participação de funcionários do Ministério das Cidades, Integração Nacional, Saúde e até do Tesouro Nacional.

Portanto, caro leitor, quando se deparar com o tal de “mais verbas para isto” e “mais verbas para aquilo”, coloque todos os fios da barba de molho.

Ao invés de “mais verba” o correto seria “mais gestão”. Mas esta é uma palavra de ordem sem rima, pelo menos no Brasil da corrupção.

 sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Paulinho Da Viola - Meu Tempo é Hoje (2003)

'Na África, indaguei rei da minha etnia por que nos venderam como escravos'


Zulu Araújo | Foto: Divulgação
"Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem", queixa-se o arquiteto baiano Zulu Araújo, de 63 anos, em referência à população negra descendente dos 4,8 milhões de africanos escravizados recebidos pelo país entre os séculos 16 e 19.
Araújo foi um dos 150 brasileiros convidados pela produtora Cine Group para fazer um exame de DNA e identificar suas origens africanas.
Ele descobriu ser descendente do povo tikar, de Camarões, e, como parte da série televisiva Brasil: DNA África, visitou o local para conhecer a terra de seus antepassados.
"A viagem me completou enquanto cidadão", diz Araújo. Leia, abaixo, seu depoimento à BBC Brasil:
"Sempre tive a consciência de que um dos maiores crimes contra a população negra não foi nem a tortura, nem a violência: foi retirar a possibilidade de que conhecêssemos nossas origens. Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem.
Meu sobrenome, Mendes de Araújo, é português. Carrego o nome da família que escravizou meus ancestrais, pois o 'de' indica posse. Também carrego o nome de um povo africano, Zulu.
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Image captionMomento em que o Zulu confronta o rei tikar sobre a venda de seus antepassados
Ganhei o apelido porque meus amigos me acharam parecido com um rei zulu retratado num documentário. Virou meu nome.
Nasci no Solar do Unhão, uma colônia de pescadores no centro de Salvador, local de desembarque e leilão de escravos até o final do século 19. Comecei a trabalhar clandestinamente aos 9 anos numa gráfica da Igreja Católica. Trabalhava de forma profana para produzir livros sagrados.
Bom aluno, consegui passar no vestibular para arquitetura. Éramos dois negros numa turma de 600 estudantes – isso numa cidade onde 85% da população tem origem africana. Salvador é uma das cidades mais racistas que eu conheço no mundo.
Ao participar do projeto Brasil: DNA África e descobrir que era do grupo étnico tikar, fiquei surpreso. Na Bahia, todos nós especulamos que temos ou origem angolana ou iorubá. Eu imaginava que era iorubano. Mas os exames de DNA mostram que vieram ao Brasil muito mais etnias do que sabemos.
Zulu Araújo | Foto: DivulgaçãoImage copyrightDivulgacao
Image caption"Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo", diz Zulu sobre chegada a Camarões
Zulu Araújo | Foto: DivulgaçãoImage copyrightDivulgacao
Image captionPergunta sobre escravidão a rei camaronense foi tratada como "assunto delicado" e foi respondida apenas no dia seguinte
Quando cheguei ao centro do reino tikar, a eletricidade tinha caído, e o pessoal usava candeeiros e faróis dos carros para a iluminação. Mais de 2 mil pessoas me aguardavam. O que senti naquele momento não dá para descrever, de tão chocante e singular.
As pessoas gritavam. Eu não entendia uma palavra do que diziam, mas entendia tudo. Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo.
O povão me encarava como uma novidade: eu era o primeiro brasileiro de origem tikar a pisar ali. Mas também fiquei chocado com a pobreza. As pessoas me faziam inúmeros pedidos nas ruas, de camisetas de futebol a ajuda para gravar um disco. Não por acaso, ali perto o grupo fundamentalista Boko Haram (originário da vizinha Nigéria) tem uma de suas bases e conta com grande apoio popular.
De manhã, fui me encontrar com o rei, um homem alto e forte de 56 anos, casado com 20 mulheres e pai de mais de 40 filhos. Ele se vestia como um muçulmano do deserto, com uma túnica com estamparias e tecidos belíssimos.
Depois do café da manhã, tive uma audiência com ele numa das salas do palácio. Ele estava emocionado e curioso, pois sabia que muitos do povo Tikar haviam ido para as Américas, mas não para o Brasil.
Fiz uma pergunta que me angustiava: perguntei por que eles tinham permitido ou participado da venda dos meus ancestrais para o Brasil. O tradutor conferiu duas vezes se eu queria mesmo fazer aquela pergunta e disse que o assunto era muito sensível. Eu insisti.
Ficou um silêncio total na sala. Então o rei cochichou no ouvido de um conselheiro, que me disse que ele pedia desculpas, mas que o assunto era muito delicado e só poderia me responder no dia seguinte. O tema da escravidão é um tabu no continente africano, porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente.
No dia seguinte, o rei finalmente me respondeu. Ele pediu desculpas e disse que foi melhor terem nos vendido, caso contrário todos teríamos sido mortos. E disse que, por termos sobrevivido, nós, da diáspora, agora poderíamos ajudá-los. Disse ainda que me adotaria como seu primeiro filho, o que me daria o direito a regalias e o acesso a bens materiais.
Foi uma resposta política, mas acho que foi sincera. Sei que eles não imaginavam que a escravidão ganharia a dimensão que ganhou, nem que a Europa a transformaria no maior negócio de todos os tempos. Houve um momento em que os africanos perderam o controle.
Zulu Araújo | Foto: Divulgação
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Image caption"Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui."
Um intelectual senegalês me disse que, enquanto não superarmos a escravidão, não teremos paz – nem os escravizados, nem os escravizadores. É a pura verdade. Não dá para tratar uma questão de 500 anos com um sentimento de ódio ou vingança.
A viagem me completou enquanto cidadão. Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.
Acho que os exames de DNA deveriam ser reconhecidos pelo governo, pelas instituições acadêmicas brasileiras como um caminho para que possamos refazer e recontar a história dos 52% dos brasileiros que têm raízes africanas. Só conhecendo nossas origens poderemos entender quem somos de verdade."
Por João Fellet, na BBC Brasil
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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

EMILIO SANTIAGO HD 640x360 XVID Wide Screen

O mundo entrou mesmo em uma nova época geológica?

Foto: Thinkstock
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Image captionCientistas argumentam que a sociedade humana deixou uma marca permanente no planeta em um curto período de tempo
Há pouca dúvida agora de que o mundo entrou em uma nova era geológica, diz o relatório de um painel científico internacional.
Os pesquisadores, que receberam a tarefa de definir o chamado "Antropoceno", afirmam que os impactos do domínio dos seres humanos sobre a Terra será visível em sedimentos e rochas daqui a milhões de anos.
A escala de tempo geológico estabelece eones, eras, períodos, épocas e idades que permitem categorizar as diferentes fases que vão da formação da Terra ao presente.
Segundo a Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS, em inglês), responsável pela definição da escala de tempo da Terra, estamos, ainda, na época Holocena (iniciada há 11.500 anos).
Atualmente, os cientistas trabalham para elaborar uma classificação formal da nova época, que dá à presença humana uma posição mais central na história geológica do planeta.
Uma questão ainda em aberto é sobre qual seria sua data formal de início, que alguns membros do painel acreditam que deve ser a década de 1950.
A década marca o início da "Grande Aceleração", quando a população humana e seu padrão de consumo acelerou subitamente.
Ela também coincide com a proliferação dos "tecnomateriais" como alumínio, concreto e plástico e cobre os anos em que testes de armas termonucleares dispersaram elementos radioativos por todo o planeta.
Mudanças significativas
Foto: BBC
Image captionElementos radioativos derivados de dispositivos termonucleares podem deixar traços químicos nas rochas do futuro
O relatório, feito pelo Antropocene Working Group e publicado na revista Science, não é ainda um parecer final sobre o assunto. Ele representa uma posição preliminar sobre o assunto – uma espécie de atualização nas investigações do painel.
Mas a descoberta mais importante é a de que o impacto da humanidade na Terra deve ser considerado como dominante e suficientemente distinto para justificar uma classificação separada.
"O trabalho analisa a magnitude das mudanças que a humanidade provocou no planeta", disse à BBC o geólogo britânico Colin Waters, que é porta-voz do grupo.
"Será que (estas mudanças) foram suficientes para alterar significativamente a natureza dos sedimentos sendo acumulados no presente, e será que são diferentes do que ocorreu na atual época Holocena, que começou no fim da última era do gelo? Os argumentos nesse sentido foram apresentados."
"Dentro do grupo – e nós temos 37 membros – acho que a maioria das pessoas concorda que estamos vivendo um intervalo que deveríamos chamar de Antropoceno. Ainda há uma certa discussão sobre isso deveria ser uma unidade formal ou informal, mas gostaríamos de ter uma definição específica. E a maioria do grupo está inclinada a considerar o meio do século 20 como o começo dessa nova época."
Depois que o grupo apresentar suas recomendações finais, caberá à Comissão Internacional sobre Estratigrafia (ramo da geologia que estuda os estratos ou camadas de rochas) aceitar ou não o "Antropoceno" como unidade adicional no esquema temporal usado para descrever os 4,6 bilhões de anos de história do planeta.
No entanto, ainda deve demorar um pouco para que a famosa tabela cronoestratigráfica, que aparece em livros e cartazes na escola mostrando os diferentes momentos da Terra, seja reformulada para a inclusão da nova época.
Se for decidido que a data inicial do Antropoceno foi o meio do século 20, será preciso justificar a decisão com amostras de solo, feitas com sondas, que mostram a "assinatura" do período.
Ela pode incluir, por exemplo, sedimentos de lagos ou oceanos contendo marcadores de poluição, como partículas de fuligem produzidas pela queima de combustíveis fósseis.
Estas amostras precisariam refletir uma marca global, e não apenas local, da atividade humana. Mas elas podem levar anos para serem coletadas.
Provas 'óbvias'
Foto: Thinkstock
Image captionMateriais modernos como plástico e alumínio podem resultar em um tipo diferente de fóssil no futuro
"Há uma dificuldade conceitual de entender que no período de uma vida humana, nossa espécie – que existe há pouco tempo – mudou profundamente este planeta de bilhões de anos", disse à BBC a jornalista e escritora britânica Gaia Vince, comentando o trabalho do grupo de cientistas.
Em 2015, ela tornou-se a primeira mulher em 30 anos a ganhar o prêmio Winton da Royal Society (a mais importante sociedade científica britânica) de melhor obra científica por seu livro Adventures in the Anthropocene (Aventuras no Antropoceno, em tradução livre), uma espécie de diário de viagem que tenta explicar as enormes mudanças que têm ocorrido na Terra.
"No entanto, as provas estão cada vez mais óbvias para todos nós, desde imagens de transformações globais feitas por satélites passando por extinções locais de borboletas até nossas experiências com eventos climáticos extremos. No entanto, essa é uma tarefa difícil e nova para os geologistas. Eles têm que determinar o início de uma época cuja paleontologia e geologia ainda estão sendo criadas. Ainda não há uma 'listra' nas camadas de rochas que simboliza o 'Antropoceno'."
"Isso é importante porque mostra que foi uma evolução na sociedade humana que criou esta mudança climática planetária – e é a forma como a sociedade humana se desenvolve que moldará esta nova era por muitas décadas e séculos."
Por Jonathan Amos, na BBC News