Fonte Backinthe USA
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
O Santo Graal perservera...
Saramago
O homem jamais se conformou com suas atividades instintivas. As reações efetuadas de forma mecânica - que dispensam o aprendizado e a reflexão crítica - como os atos de respirar, comer, defecar e se arrastar jamais satisfizeram o Homo sapiens.
Desde os primórdios sentiu a premência de avançar, de evoluir, de comunicar a experiência vivida, incorporando um discurso significativo. E neste contexto a aprendizagem está para a evolução da humanidade assim como o Santo Graal está para algumas seitas religiosas.
Aprender a dominar o fogo; dar novas formas à pedra, lascando-a; captar a forma de lidar com a argila, o ferro, o cobre, o aço... E transmitir o conhecimento adquirido, se diferenciando das demais espécies porque o que acumulou e acumula diuturnamente não depende exclusivamente das informações genéticas e do comportamento que se desenvolve automaticamente de sua relação com a natureza.
Portanto, uma característica fundamental do homem reside na capacidade de aprender, de processar as experiências e conhecimentos que recebe dos antecedentes e das antigas gerações para transmitir para os contemporâneos e para os que virão. É esta especial característica que elevou a espécie, possibilitando exercer completo domínio sobre o planeta, e que decorre da habilidade de criar sistemas de símbolos - sobretudo a linguagem - mecanismos de que se utiliza para dar significado às experiências vividas, transmitindo-as aos seus semelhantes.
Por esta razão, no planeta terra, tão somente ao Homo sapiens é dado pensar.
Todavia, no decorrer da evolução humana parece que modificações genéticas acometeram indivíduos e grupos deles, criando uma sub-espécie que cultua a mediocridade, a ignorância e a delinqüência intelectual. É deste grupo de pessoas – hoje tão numerosos que em alguns extratos sociais, amplamente majoritários – que se refere Saramago. De uma forma sentida, dolorida, num incontido desabafo, dá testemunho dos que menosprezam o idioma, a fala, o pensamento...
Porque a escalada dos que são incapazes de pensar e falar bem, parece não ter fim. Como pragas de vampiros vão galgando posições, ocupando todos os espaços, sugando todo o sangue e energia disponível à volta. São os dráculas modernos, arrogantes e presunçosos, artificiais e preguiçosos ao extremo, incapazes de ler um bom livro, freqüentar uma boa escola, encantar-se por um museu, um teatro ou um cinema.
Não desenvolveram a habilidade de escutar, de ouvir. Simplesmente simulam prestar atenção ao interlocutor porque todas as respostas já estão predefinidas, na ponta da língua, pronta para a erupção que exala estultícia, tolice.
Os néscios compõem uma caterva de malandros que avacalha o idioma, sempre testando nossa paciência para administrar o insuportável, o que afronta a harmonia e desequilibra, o que agride a lógica e aos ouvidos, o que distorce e desfigura a verdade.
Incapazes de compreender as virtudes do diálogo diplomático, discreto e de conteúdo, estão sempre como prolixos papagaios, repetindo citações imbecis e o que já foi dito e reiterado inúmeras vezes, falando alto e com estardalhaço.
Como não têm o poder da palavra, não dominam o idioma e ignoram a lógica, jamais alcançam o pensamento, o raciocínio, a reflexão. Então utilizam a verborragia dos retardados e, conseqüentemente, não convencem. Daí, para vencer, só pela força.
Como cansa escutar alguns políticos, alguns intelectuais, alguns professores,...broncos que infestam todas as categorias profissionais.
Jamais compreenderão o poder do silêncio, do instante mágico para processar o que se escutou, o que se viu, o sentimento que emergiu, quando as coisas se revelam em sua verdadeira intensidade. Quando sentimos a doce presença de Deus.
Antônio Carlos dos Santos é o criador da metodologia de planejamento estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de teatro ThM - Theater Movement e da metodologia de produção popular de teatro Mané Beiçudo.
E aqui, a barbárie contra a flor do Lácio.
Centenário de Frank Sinatra mostra que charme e mistérios permanecem vivos
EFELos Angeles
Cantor Frank Sinatra completaria 100 anos neste sábado. EFE/Manuel López Contreras
Já se passaram cem anos desde que Frank Sinatra nasceu, 75 anos de seu primeiro número na lista de mais tocadas, e 35 de seu particular canto do cisne, "New York, New York", mas a voz e a figura do "Blue Eyes" não só não se apagaram, como permanecem como uma pedra fundamental da música e da cultura popular do século XX.
Ícone e estrela lendária do swing e do jazz, foi capaz de resistir à tentação do rock e a de se tornar somente um ator de comédias fáceis, Sinatra encarna a imagem do sonho americano, do talento e da ambição sem medida, mas também a do personagem cheio de mistérios.
Nascido em 12 de dezembro de 1915 em Hoboken, em New Jersey, sua infância foi marcada pelas origens italianas, pela rigidez de sua mãe e pela pobreza durante a Grande Depressão.
Sinatra ficou fascinado pelas canções de Bing Crosby que ouvia no rádio, que se tornaram um modelo de referência para o cantor, que se beneficiaria dos cada vez melhores microfones para fundar um estilo que foi mil vezes copiado. Depois de Sinatra os vocalistas já não precisavam gritar para se sobrepor às orquestras, podiam cantar relaxados, sussurrando, saboreando cada nota.
Em entrevista à revista "Life", em 1970, Sinatra lembrou que a primeira vez que subiu em um palco foi no final dos anos 20 em um hotel de New Jersey.
"Provavelmente me pagaram com um par de maços de cigarros e talvez um sanuíche", acrescentou.
Já na década de 30 fez parte do quarteto Hoboken Four, e depois alcançaria a fama à frente das orquestras de Harry James e de Tommy Dorsey, embora rapidamente tenha decidido seguir carreira solo.
"Vou voar alto. Planejei minha carreira. Desde o primeiro minuto que subi em um palco decidi chegar exatamente onde estou, como o menino que começa sendo um empregado, mas que tem a visão de ocupar o gabinete do presidente", disse Sinatra em 1943, segundo o livro "Frank: The Making of a Legend", de James Kaplan.
Já então a febre por Sinatra era uma realidade, com milhares de jovens (as bobby-soxers, por suas característicos meias soquetes) suspirando pelo magnético vocalista, lindo, atraente, de voz cálida e olhar malicioso.
A era dourada de Sinatra chegou durante sua época na gravadora Columbia, e com os "discos conceituais" da década de 50, como "In The Wee Small Hours" e "Songs For Swingin' Lovers", bordou seu estilo elegante 'jazzy' de sedutor e de 'bon vivant'.
Nessa mudança de registro rumo a um Sinatra mais maduro, que já não só canta o amor feliz, mas também a solidão e a melancolia, o cinema teve uma importância crucial. Após passar por comédias como "Marujos do Amor" (1945), deu uma surpreendente virada com um papel dramático em "A Um Passo da Eternidade" (1953), que valeu um Oscar de melhor ator coadjuvante.
No entanto, a imagem do canalha incorrigível persistiu, já que nunca abandonou os vícios e as aventuras, quase sempre acompanhado por seus colegas do "Rat Pack" em Las Vegas: Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop.
No tema "Love and Marriage", Sinatra cantava que "não se pode ter um sem o outro", e em sua vida aplicou o verso com rigor: se casou quatro vezes, sem que isso o tenha privado de ter outros relacionamentos, como com a atriz Lauren Bacall.
Nancy Barbato, Mia Farrow e Bárbara Marx, esta última sua mulher até a morte, em 1998, foram três de suas esposas, embora a mais lembrada seja Ava Gardner, com quem teve uma relação extrema, vulcânica e tormentosa.
Outro ponto obscuro da biografia de Sinatra é sua relação com a máfia, sustentada por sua ascendência italiana, sua presença constante em Las Vegas e sua relação com capos como Lucky Luciano e Sam Giancana, ao ponto de a investigação do FBI ter montado um arquivo com 1.275 páginas de investigação sobre ele.
Resistente ao início do rock, música que desprezava, como apontou o documentário da HBO "All Or Nothing At All", Sinatra demonstrou uma longevidade admirável ao permanecer durante quatro décadas no topo das listas com canções como "I've Got You Under My Skin", "Fly Me To The Moon" e "My Way".
Após uma aposentadoria frustrada em 1971, seguiu sua carreira até morrer de um ataque cardíaco, o fim de uma estrela que deixou gravadas 1.300 canções, e que teve sua vida definida assim por um de seus três filhos, Frank Sinatra Jr.: "Suas imperfeições eram irritantes, mas foi um artista genuíno e sua obra perdurará enquanto as pessoas puderem escutar, refletir e sentir".
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
Milhares de documentos de Albert Einstein estão disponíveis na internet

Desde 1986, a Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e a Universidade Hebraica de Jerusalém, vêm analisando os documentos deixados pelo físico Albert Einstein. Conhecidos como os “Pergaminhos do Mar Morto" da física, as mais de 80 mil cópias usadas por um dos maiores gênios da história humana finalmente estão online, em um portal chamado ‘Digital Einstein’.
Aberto oficialmente na sexta-feira (5/12), a ideia principal do projeto é dar a todos que possuem uma conexão de internet a chance de conhecer alguns trabalhos do físico alemão. Agora com um clique, as pessoas vão ter acesso aos cartões postais, diários, artigos, documentos e cartas deixados por Einstein depois de sua morte, em 1955.
Segundo o Dr. Kormos-Buchwald, criador do projeto online, versões em inglês e alemão estarão disponíveis no site. Cartas de amor, arquivos do seu divórcio, transcrições dos tempos de colégio e o diário onde escreveu suas primeiras palavras sobre a teoria da relatividade estão disponíveis no Digital Einstein.
Aos 20 anos de idade, em uma carta escrita para a sua irmã Maja, Einstein reflete: “Se todas as pessoas vivessem uma vida como a minha, novelas não seriam necessárias”. Realmente, uma vida e tanto!
Segundo o Dr. Kormos-Buchwald, criador do projeto online, versões em inglês e alemão estarão disponíveis no site. Cartas de amor, arquivos do seu divórcio, transcrições dos tempos de colégio e o diário onde escreveu suas primeiras palavras sobre a teoria da relatividade estão disponíveis no Digital Einstein.
Aos 20 anos de idade, em uma carta escrita para a sua irmã Maja, Einstein reflete: “Se todas as pessoas vivessem uma vida como a minha, novelas não seriam necessárias”. Realmente, uma vida e tanto!
Da revista Galileu, via NY Times
Portugal quer liberdade de circulação e residência entre países lusófonos; Brasil enxerga ideia com cautela

O novo governo português quer derrubar a necessidade de visto e estabelecer a liberdade de circulação e residência para os cidadãos dos Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Uma iniciativa que o Brasil, por enquanto, trata com cautela e fora de suas prioridades momentâneas.
O projeto é detalhado oficialmente no programa de governo apresentado pelo Partido Socialista luso, que assumiu o poder em novembro, e já foi defendido em diversas ocasiões pelo recém-empossado primeiro-ministro António Costa.
"A autorização de residência garante a liberdade de circulação. É preciso eliminar barreiras, que tantas vezes têm dificultado não só o contato das famílias, como o desenvolvimento econômico e o contato cultural (entre esses países)", argumenta Costa.
A proposta de derrubar as fronteiras no bloco lusófono também ganha força no setor empresarial. Em um fórum que acontece nesta quinta e sexta-feira, em Braga (Norte de Portugal), a Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP) garantiu que reforçará o coro pela liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais entre os Estados-membros.
"Precisamos de mobilidade, da livre circulação. Estamos fazendo um lobby persistente com os políticos para que isso aconteça. Nossa proposta é muito simples: abram as vias que os empresários farão o resto", promete o moçambicano Salimo Abdula, presidente da CE-CPLP.
Itamaraty
Coordenador-geral para a CPLP do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o diplomata Paulo André Moraes de Lima explica à BBC Brasil que o país não enxerga o bloco lusófono como uma nova versão da União Europeia ou do Mercosul, e sim com funções mais próximas a organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) ou a Secretaria-Geral Ibero-americana (Segib).
"Nós entendemos a CPLP como um importante foro de concertação política e diplomática, bem como uma plataforma de cooperação e de difusão e promoção da língua portuguesa, nos moldes de uma organização multilateral convencional, e não como um organismo com vocação supranacional", argumenta Lima, que também não se mostra entusiasmado com as promessas do empresariado lusófono.
"O mesmo raciocínio se aplica para a circulação de bens e serviços. Nesse aspecto, nossas prioridades estão claramente no foro da OMC (Organização Mundial do Comércio) e nas negociações no âmbito do Mercosul, intra e extra-bloco", explica à BBC Brasil o diplomata.
Apesar do posicionamento contido sobre as propostas portuguesas, o alto funcionário do Itamaraty para a CPLP confirma que a circulação de pessoas tem sido um tema recorrente na agenda do bloco e admite que "tecnicamente não há nenhum impedimento para que o assunto avance".
"Não exigiria nenhuma mudança na atual estrutura institucional da CPLP. Seria um instrumento como o Acordo Ortográfico ou a recente Convenção Multilateral sobre Segurança Social na CPLP, assinada em Díli (Timor-Leste) e ainda em processo de ratificação pelos Estados", afirma o diplomata à BBC Brasil.
Image copyrightDivulgacao'Carta de Cidadão Lusófono'
Em seu projeto de livre circulação, o governo português defende a criação de uma "Carta de Cidadão Lusófono", que serviria para o "reconhecimento a todos os cidadãos de vários direitos no espaço lusófono, tais como a liberdade de deslocação e de fixação de residência, o reconhecimento das qualificações acadêmicas e profissionais, o exercício de direitos políticos e a portabilidade dos direitos sociais".
A ideia do governo português é adotar algo semelhante ao Espaço Schengen da UE, que permite a livre circulação de pessoas entre os países signatários – como é o caso de Portugal – e o reconhecimento automático dos direitos desses cidadãos.
O problema é que o modelo que serviu de inspiração poderia vir a ser justamente um dos principais empecilhos para que se colocasse em prática a iniciativa de Lisboa de adotar a livre circulação entre os países lusófonos.
"Sou a favor do livre trânsito, mas não me parece ser uma medida possível no atual contexto europeu, levando em conta que Portugal não está considerando sair da UE nem do Espaço Schengen. Se esta livre circulação acontecesse, o resto da Europa acabaria por reinstaurar as fronteiras com Portugal", opina à BBC Brasil a pesquisadora portuguesa Beatriz Padilla, especialista em políticas de migração.
A visão pessimista, no entanto, é rejeitada por António Costa, que garante que Portugal tem o direito de negociar tratados de liberdade de residência com quaisquer países sem precisar da benção do bloco europeu.
"Portugal tem toda a liberdade para negociar com os demais países da CPLP tratados de liberdade de residência e o deve fazer. A exigência de vistos de entrada na UE é no âmbito europeu. Outra coisa diferente, é o direito de residência em Portugal, que podemos garantir a todos, na base da reciprocidade, de forma a também garantir a todos os portugueses direito de residência nos Estados da CPLP. E com a autorização de residência, os vistos estão dispensados", argumenta o primeiro-ministro luso.
Segundo a diretora da licenciatura em Relações Internacionais da Universidade do Minho, Sandra Dias Fernandes, a coexistência entre a livre circulação com a União Europeia e com a CPLP é possível, mas teria de ser tratada antes em Bruxelas.
"Portugal pode alcançar o que o governo defende, mas não é algo tão simples ou automático. Um acordo de livre trânsito com os países lusófonos teria de ser explicado antes ao bloco europeu para poder avançar", analisa Fernandes à BBC Brasil.
Image copyrightThinkstockCrise demográfica
O empenho de Portugal para derrubar as barreiras de circulação e residência entre as nações lusófonas coincide com uma das mais graves crises demográficas experimentadas pelo país europeu, que precisa de imigrantes para suprir a carência deixada pelos portugueses que foram embora no passado recente.
"A debilidade da economia e a crise dos últimos anos criou um desajustamento que só pode ser acertado com a imigração. Enquanto jovens qualificados deixam o país em busca de mercados mais competitivos, trabalhadores pouco qualificados preferem ficar parados e receber o auxílio-desemprego a ter um emprego braçal", comenta à BBC Brasil o economista português Horácio Piriquito.
"Essa realidade criou uma anomalia em que temos alto índice de desemprego ao mesmo tempo em que falta mão de obra na agricultura e na indústria, por exemplo. E só com a chegada de imigrantes o mercado poderá se equilibrar e a demografia ser reajustada", afirma.
Além de Brasil e Portugal, participam da CPLP Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e Timor-Leste. Juntos, os países do bloco lusófono reúnem mais de 250 milhões de pessoas.
No discurso de António Costa, no entanto, mais importante do que um estímulo à imigração, a livre circulação entre os membros do bloco servirá para "edificar o pilar da cidadania" entre cidadãos de países com uma história tão interligada com a de Portugal.
"Depois de termos bons resultados do ponto de vista políticos e econômicos na CPLP, devemos investir naquilo que é a sua grande força, a relação humana única entre os nossos povos, que deve se traduzir neste pilar de cidadania", defende o primeiro-ministro luso, enquanto espera que o Brasil também passe a enxergar a livre circulação dentro do bloco como uma questão prioritária.
Mamede Filho de Lisboa para a BBC Brasil
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Charlie Chaplin, Adolf Hitler e o cinema
Há 75 anos estreava na Europa a ousada sátira ao ditador nazista. Numa produção que enfrentou resistência, sua realização só foi possível por o cineasta não ter noção da real extensão do horror na Alemanha.
Quando O grande ditador, de Charlie Chaplin, foi exibido pela primeira vez ao público europeu, em 16 de dezembro de 1940, em Londres, ele já vinha precedido pelas reações do outro lado do Atlântico: a sátira sobre Adolf Hitler havia sido lançada dois meses antes em Nova York.
"Uma obra verdadeiramente extraordinária de um artista verdadeiramente grande. E, de um certo ponto de vista, talvez o filme mais significativo que já foi produzido", elogiou na época o jornal The New York Times.
Na Europa, a Segunda Guerra Mundial se propagava, e ninguém sabia ainda como as tropas alemãs seriam detidas. Os espectadores foram confrontados, portanto, com um conteúdo que não poderia ser mais atual e ameaçador.
Horror real paralisador
Em 1940, Charlie Chaplin estava entre os maiores artistas e comediantes do cinema. Muitos se surpreenderam que ele tivesse escolhido um tema tão delicado para seu primeiro filme inteiramente sonorizado.
O próprio cineasta revelaria mais tarde que não teria como encenar sua obra, se na época toda a extensão do terror nazista já tivesse vindo à tona. "Se soubesse do horror dos campos de concentração alemão, eu não teria podido fazer O grande ditador", admitiu.
O autor americano Paul Duncan, especializado em biografar cineastas, compilou essa e outras histórias em The Charlie Chaplin archives (Os arquivos de Charlie Chaplin, em tradução livre). Através de ensaios, fotos e outros documentos, em parte inéditos, a publicação documenta a obra do cineasta britânico. O volume de 560 páginas, em formato gigante, é disponível em quatro versões: em alemão, inglês, francês e espanhol. Um capítulo central é dedicado a O grande ditador.
Solidariedade com os judeus
Sobre sua motivação para o filme, Chaplin comentou certa vez: "Para mim, a coisa mais engraçada do mundo pode ser ridicularizar fanfarrões e exibicionistas em altos cargos. Quanto maior o fanfarrão com que se trabalha, maiores são as chances de o filme ser engraçado. E seria difícil encontrar um fanfarrão do calibre de Hitler."
A antipatia mútua entre o artista inglês e o ditador nascido na Áustria tinha longa história prévia. Já na década de 20, o cômico fora atacado pela propaganda nacionalista da Alemanha. "Charlie Chaplin é judeu [...] Suas ações são as de um vagabundo, sempre entrando em conflito com as leis", afirmava o panfleto de agitação popular Der Stürmer, em 1926.
Desse modo era imputada a Chaplin "uma genealogia livremente inventada", nas palavras de Paul Duncan. O artista não era judeu, mas durante toda a vida se negou a rebater publicamente a afirmação. Segundo o político e cineasta inglês Ivor Montagu: "Ele diz que toda pessoa que rechaça isso, faz o jogo dos antissemitas."
Solidariedade com os judeus, portanto, era o que Chaplin desejava expressar com seu posicionamento e com seus filmes. Durante uma estada em Berlim em março de 1931, houve protestos anti-Chaplin diante de seu hotel, organizados pelos nazistas.

Falsa suástica e falsa saudação nazista em "O grande ditador"
Bigodinho e outros pontos em comum
Desde cedo comentava-se nos meios políticos e cinematográficos como Chaplin e Hitler, ambos nascidos em abril de 1889, tinham algumas características em comum na aparência.
O escritor William Walter Crotch relatou na revista New Statesman and Nation: "Eu morava em 1921 em Munique [...] e com frequência me chamava a atenção na rua um homem que me lembrava vagamente uma versão militante de Charlie Chaplin, devido ao bigode característico e o andar quicante." Então o quitandeiro lhe contou que se tratava de Adolf Hitler, de Braunau, na Áustria, líder de uma minúscula facção política.
Assim, para Chaplin não foi um salto tão grande representar Hitler nas telas. No entanto, o diretor e ator teve que superar obstáculos de várias origens, antes que se batesse a claquete inicial para O grande ditador.
O projeto era controvertido para a opinião pública dos Estados Unidos, entre outras, os círculos conservadores protestaram. O voto definitivo coube ao presidente Franklin D. Roosevelt, que interveio pessoalmente junto ao britânico, pedindo-lhe que se aferrasse, por todos os meios, ao projeto cinematográfico – ao qual Chaplin até já pensara seriamente em renunciar.
Na Alemanha, a sátira de Hitler só chegaria às salas de exibição em 1958. Apesar de as duas sessões de teste para o público alemão terem sido bastante bem recebidas, logo após o fim da guerra, as autoridades americanas na Alemanha decidiram não lançar a película no país.
Por Jochen Kürten (av), na Deutsche Welle
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Músicas para (abstrair) tempos de Eduardo Cunha e impeachment
Impeachment, protestos, troca de tapas entre deputados, Eduardo Cunha... 2015 cansou?
Uma seleção de 10 canções calmas e tranquilas para esquecer um pouco a crise no Brasil

Foram duas semanas de pura tensão no Brasil. Dezembro, pelo menos até agora, passou longe do espírito natalino e embalou uma sucessão de eventos (a maioria em Brasília) que fez de agosto, o mês do cachorro louco, parecer férias. Teve a abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff; troca de tapas e xingamentos entre deputados que têm nas mãos o destino de Eduardo Cunha no Conselho de Ética da Câmara; protestos estudantis reprimidos com força em São Paulo; mudanças no Ministério da Fazenda; e a operação Lava Jatoa todo vapor... Mas, finalmente, as festas de fim de ano estão aí! E nada melhor do que a música para conseguir apaziguar o espírito após um período estressante.
Por isso, propomos dez canções calmas, reflexivas, purificadoras. Dez músicas que te convidam a relaxar, passando por estilos distintos como o jazz, o folk, o rock, a bossa nova e o soul. Dez canções com uma una única premissa: aumentar o som e relaxar.
1. Lester Young- I Didn't Know What Time It Was
De alguma forma, foi o criador do som cool, esse jaz tranquilo, que em seu saxofone alcançava um estado místico. A história o colocou como um dos gênios do jazz, capaz de mudar seu curso a partir dos anos 1930 graças a seu estilo característico. Dizia-se dele que era reservado, solitário, sensível, frágil, simpático e boêmio, sinais de identidade presentes nesta composição. É uma cação com seu famoso som acariciador, suave e elegante, deliciosamente envolvente.
2. Vinicius de Moraes - Garota de Ipanema
Figura capital da música brasileira, Vinicius é o grande embaixador da bossa nova, esse gênero nascido do samba influenciado pelo jazz. Nessa maravilhosa composição de 1962, com letra dele e música de outro mestre, Antônio Carlos Jobim, canta com seu amigo Toquinho e Maria Creuza. Um convite ao relaxamento total.
3. Aretha Franklin - That Lucky Old Sun
A voz mais arrebatadora do soul canta essa canção melancólica e bela, uma música que ganhou versões de grandes nomes como Frank Sinatra, Ray Charles, Sam Cooke, Brian Wilson e Johnny Cash. Nesse caso, ficamos com a Rainha do Soul, que gravou essa canção pouco antes de dar o salto para o soul com o selo Atlantic. Franklin gravou That Lucky Old Sun em sua etapa na Columbia, quando ainda era vista como uma voz dourada do jazz vocal. Nessa faceta, mais comedida, mais clássica, menos despenteada do que no soul, se encontram todos os ingredientes que buscamos para hoje: harmonia, delicadeza, tranquilidade absoluta.
4. Al Green - I'm So Tired of Being Alone
De uma voz descomunal para outra, mas nesse caso masculina. A voz caramelada de Al Green, um dos mais importantes cantores de jazz, é um remédio perfeito contra o estresse. Apazigua com sua agudez saborosa. Sopros sugestivos acompanham essa fina e penetrante voz de Green nessa canção, uma das mais famosas de seu seleto catálogo.
5. Marvin Gaye - What's Going On
Um canto pela paz, o respeito e o amor. Era isso dizia Marvin Gaye de sua obra prima, What's Going On, concebida como uma cachoeira relaxante de soul espiritual, em que as canções não tinham interrupções entre elas. Nesse caso, ficamos com a música de abertura, que convida ao relaxamento completo.
6. Van Morrison - Days Like This
As vozes mais potentes da música pop parecem ser as únicas capazes de nos oferecer esse lugar emocional divino, tranquilo e belo. Nesse sentido, Van Morrison poderia se incluir nessa lista com um bom punhado de canções, mas escolhemos uma de sua etapa mais madura, quando o velho Leão de Belfast nos convida a compartilhar de seu estado de espírito mais tranquilo. A canção Days Like This é como um passeio inspirador.
7. Leonard Cohen - Suzanne
O mestre de elevar o espírito a outro estado que não seja o terreno. Leonard Cohen, o bardo do folk poético, não pode faltar em uma seleção em que o maior propósito é que a mente se liberte de suas agonias. Sua Suzanne, originalmente um poema, mais do que uma música, é um refúgio para a alma.
8. Nick Drake - Day is Done
No folk britânico é una instituição. E no mundo da música um mal visto que nunca foi reconhecido em sua época. Mas suas canções eram artefatos poderosos do folk febril, de arranjos bem cuidados. À frente de seu tempo, Drake era capaz de levar o ouvinte a um estado etéreo através de músicas cheias de sensibilidade, como nessa Day is Done.
9. Family of the Year - Hero
O grupo de Los Angeles ficou conhecido graças à inclusão dessa canção estupenda como tema principal da trilha sonora de Boyhood, o filme de Richard Linklater. A partir do indie rock, a Family of the Year chegou a grandes audiências, mas, principalmente, ofereceu seu folk emotivo e simples como emHero, uma canção que nos convida a pensar com o espírito relaxado.
10. Sufjan Stevens - Should Have Known Better
É um dos discos de 2015. Uma linda obra criada por um músico de uma trajetória de destaque. Sufjan Stevens se ergueu como uma figura essencial do melhor folk-rock contemporâneo. Esse trabalho dedicado a seus pais tem essa canção que transborda tranquilidade. Acolhe com uma força invencível.
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