quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Navid Kermani: um discurso comovente!


Em seu agradecimento ao receber o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, o escritor Navid Kermani, de 47 anos, refletiu sobre a dramática decadência do Islã.
Por Christoph Strack, na Deutsche Welle
O autor e orientalista muçulmano Navid Kermani é difícil de ser rotulado. Ele é aquilo que hoje em dia quase não mais existe, um intelectual. Mas sem aquele intelectualismo distante, daqueles pensadores que divagam nas discussões de salão da Feira do Frankfurt. O discurso de Kermani na premiação do Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão foi tudo menos um discurso solene. Ele foi um testemunho – do martírio de cristãos e muçulmanos e de outras vítimas dos terroristas do chamado "Estado Islâmico" (EI), da antiga grandeza da religião e do misticismo islâmicos, dos quais pensadores como Goethe, Proust e Lessing se deixaram tocar; da decadência do Islã, e também testemunho, aliás, da ideia grandiosa do projeto europeu.
Kermani lembrou, em seu discurso de mais de 40 minutos, que existem monges cristãos que permaneceram na Síria em tempos de guerra, com os quais ele nutre amizade há tempos. O muçulmano Kermani os descreveu quase como santos, que não fogem da violência, devido a seu amor pelos cristãos e muçulmanos da cidade de Qaryatein, não muito longe de Homs. Kermani colocou-os e a todas as vítimas do terror no final do seu discurso em uma oração, um momento de silêncio. Que cena formidável aquela, ocorrida na antiga igreja Paulskirche, o berço da democracia alemã!
O discurso delineou um quadro dramático da situação do Islã. Kermani falou do EI, "essa seita de terroristas que transmitem uma imagem terrível". Ele lembrou das terríveis notícias e imagens da Síria e do Iraque, "onde o Corão é erguido a cada ato criminoso e onde se grita 'Allahu akbar' a cada decapitação". Apedrejamentos, assassinatos, massacres, crucificações, escravização. Afeganistão, Paquistão, Nigéria, Líbia, Bangladesh, Somália, Mali, Arábia Saudita, Irã, Bahrein, Iêmen. Ele afirmou que tudo isso não é uma guerra "do Islã" contra o Ocidente, mas "que o Islã conduz uma guerra contra si mesmo", levando à perda de sua memória cultural. Assim, só restam as "ruínas de uma grande implosão espiritual".
Será que o Islã está se esfacelando? Kermani fez transparecer seu amor pelo Islã, pelo misticismo, pelo sufismo. Mas ele comparou as atuais revoltas no mundo islâmico com o choque da Primeira Guerra Mundial. E, ao mesmo tempo, vê um "novo pensamento religioso". Menos nos países árabes, mas entre os muçulmanos na Ásia e na África do Sul, no Irã e na Turquia e até mesmo no Ocidente.
Nesse furor pela perda de grandeza espiritual, o discurso também se tornou um discurso de raiva. Kermani reclamou da estreita parceria entre o Ocidente e a Arábia Saudita, da parceria com um "ditador como o general Sissi", no Egito e do ignorar diante do terrorismo diário. Terrorismo que já está, segundo ele, na Europa. Ele ressalta que não está convocando para a guerra, mas apenas lembra que "há uma guerra, e que devemos tomar providências como seus vizinhos mais próximos". Irã, Turquia e os Estados do Golfo, o Ocidente e a Rússia devem terminar com esse horror, provavelmente militarmente, e parar o assassinato em massa realizado pelo EI e pelo regime de Assad. Podemos ouvir a mensagem de Kermani, mas ninguém acredita muito que aconteça algo.
E a Europa? Navid Kermani lamentou o desinteresse perante uma catástrofe que já se parece com o final dos tempos, da qual as pessoas tentam manter distância. Mas seu discurso também tocou na grandeza do projeto europeu, a "coisa politicamente mais valiosa que este continente já produziu".
Ele lembrou que muitas vezes ele é abordado em suas viagens no Oriente Médio e nas rotas de refugiados para falar a respeito da Europa: "como um modelo, quase uma utopia". "Quem esqueceu por que precisamos da Europa, tem que olhar nos rostos magros, exaustos, assustados dos refugiados, que deixaram tudo para trás, desistiram de tudo, arriscaram suas vidas pela promessa que a Europa ainda representa". Os fluxos de refugiados mostram onde muitos muçulmanos esperam ter uma vida melhor, "pelo menos, não em ditaduras religiosas". Talvez nós, alemães, devêssemos prestar atenção a essas observações.
Neste ano, a Feira do Livro de Frankfurt teve como país convidado a Indonésia, o maior país muçulmano do mundo em número de fiéis. No início da feira, quem discursou foi Salman Rushdie, que está sob ameaças e ditames dos linhas-duras iranianos. O ponto final foi posto pelo – como ele mesmo diz – "muçulmano ocidental" Navid Kermani. Os responsáveis pelo evento reagiram, assim, a uma das grandes questões da atualidade, a questão do declínio e da permanência futura do Islã.
Esse reconhecimento se aplica também à série de vencedores do prêmio. Seja o israelense David Grossman (2010), o argentino Boualem Sansal (2011), o chinês Liao Yiwu (2012), a bielorrussa que ganhou também agora o Prêmio Nobel de Literatura, Svetlana Alexievich (2013), ou o americano Jaron Lanier (2014). O júri merece mais que respeito pelas felizes decisões dos últimos anos. Autores que sofrem e escrevem com força, raiva ou ternura. Navid Kermani, com seu grande discurso, é mais um a se encaixar nesta tradição.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Leitura dá acesso a 70% mais palavras para as crianças




Por Vanessa Lima, na Revista Crescer

Se você já sabia que ler para o seu filho desde muito cedo é importante, agora, tem mais um motivo para continuar separando um tempo na rotina para essa atividade. Além de todos os benefícios que a leitura traz para o desenvolvimento e para o vínculo, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, chegaram à conclusão de que a leitura dá acesso a 70% mais palavras do que as conversas que pais e mães costumam ter com a criança.

“O ponto principal é que, claramente, há mais palavras únicas no texto de livros de imagens do que em um discurso direcionado a uma criança. Acho que o principal benefício dos livros é que eles introduzem novos assuntos e novas palavras que, geralmente, ficam de fora do escopo da rotina de uma criança”, explica Jessica Montag, uma das responsáveis pelo estudo.

Silvana Augusto, educadora e pesquisadora em Educação Infantil, concorda. “Apesar de ser a mesma língua, a leitura tem uma linguagem que não é igual a da fala. Ela amplia as possibilidades e possibilita um avanço na capacidade de representação da criança, quando ela quer se expressar”, explica.

Desde cedo

Há quem pense que é bobagem ler para um bebê desde cedo, já que ele “não vai entender nada mesmo”. Nada disso! Ler para uma criança nos primeiros meses de vida faz diferença, sim. “Eles podem não entender o conteúdo da história, mas compreendem o ritmo, a maneira como a mãe e o pai falam quando estão lendo um texto”, diz Silvana. Duvida? Preste atenção no rosto de um bebê enquanto a mãe conversa com ele. Depois, veja como a expressão dele muda quando ela lê um livro. “Eles percebem a mudança, arregalam os olhos, sorriem, tentam...”, descreve a especialista.

Mágica e curiosidade

Além de ampliar o vocabulário e de favorecer o desenvolvimento, ajudando os bebês a perceberem diferenças no comportamento e na maneira de falar quando alguém lê, o contato com a literatura também conta no desenvolvimento da escolaridade. “Para uma criança, a estabilidade da escrita é quase uma mágica. Eles pensam: ‘Como é que quando a minha mãe pega esse livro, ela conta essa história de um jeito e, aí, minha professora pega o mesmo livro e conta a mesma história, do mesmo jeito?’ Para as crianças, é um mistério - e isso desperta a curiosidade e a vontade de entender como aquilo funciona, ou seja, o desejo de aprender a ler e a escrever, mais tarde”, explica a educadora.

Quando a TV substitui a leitura

Se os livros oferecem o contato com palavras diferentes, que não são tão usadas no cotidiano, a televisão, os smartphones e os tablets também podem cumprir esse papel, certo? Sim e não. Ao assistir a um desenho animado, por exemplo, a criança também pode aprender palavras novas. No entanto, nenhum desses aparelhos substitui a leitura. “Podem até ser complementares, mas o modo de expressão, com os livros, é diferente”, afirma Silvana.

Enquanto com a televisão, as crianças são passivas, apenas espectadoras, com a leitura, há uma interação. Os pequenos ficam em contato com o autor, que é contador daquela história, mas isso é intermediado por alguém, que pode ser o pai, a mãe, o professor... “É um momento de qualidade e contato”, resume a especialista.

De leitor a contador

Outro impacto interessante que a leitura traz para as crianças é que o contato com esse ritmo específico, com um universo maior de palavras e com as narrativas permite que elas se tornem contadoras de histórias mais tarde. “A criança vai de passiva, quando só ouve a leitura, à ativa, quando ela mesma é quem começa a contar o que quiser”, afirma Silvana. Essa atitude, além de ser positiva para a socialização, ainda estimula diversos pontos. “Para contar uma história, é preciso acessar a memória, ativar a representação, encontrar palavras. Tudo isso estimula também a autonomia, desde muito cedo”, diz a especialista.

Questão de vínculo

Ler com os filhos estimula a imaginação, oferece esse contato com palavras incomuns e ainda favorece o vínculo com os pais. A atividade pode ser feita desde que a criança é apenas um bebê, mesmo que ele ainda não compreenda o conteúdo, e não tem idade para acabar. Ainda que seu filho já tenha desenvolvido a habilidade de ler sozinho, muitas vezes, aquele momento de leitura com a mãe ou com o pai pode ser um momento desfrutado em família, com aconchego e contato. As histórias podem aproximar e inspirar diálogos sobre novos assuntos. Ler não tem idade!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Ney Matogrosso: “O Brasil está mais careta hoje do que era”


Músico que prepara novos projetos, critica radicalismo no país e é a favor do impeachment


Por María Martín, no El País

Ney Matogrosso (Bela Vista, 1941) senta no canto do sofá, forrado com a bandeira de Pernambuco, com as pernas recolhidas e meio corpo fora, parecendo que a qualquer momento vai cair no chão. É o jeito de alguém pronto para sair da cena rapidamente. Fica mais de uma hora se equilibrando, mas não oferece sinais de querer sair correndo. Ney recebe a reportagem ainda com a luz entrando pelas janelas da sua enorme cobertura no Leblon, no Rio de Janeiro, mas pouco depois o sol se põe e a casa fica quase na escuridão. Ele só acenderá uma luz à petição do fotógrafo minutos antes do encontro acabar.
Nada se escuta na sala a exceção dos gritinhos de uma fêmea de macaco prego que pula de um lado pra outro de uma gaiola gigante. O animal está nervoso, não gosta de mulher perto. Ela gosta do Ney, e de algum ou outro conhecido, e o resto deve ficar longe. Garota, amada e mimada pelo intérprete, representa, paradoxalmente, o que Ney Matogrosso se esforça por combater o tempo todo: os ciúmes. Ele chegou a cantar que os ciúmes são o “perfume do amor”, mas a letra apenas romantizava um dos seus principais defeitos. “As pessoas acham que tudo o que eu canto é o que eu penso. Mas eu não considero isso jamais. Acho o ciúme um inferno, uma coisa horrorosa. Me esforço por superar esse obstáculo na minha vida o tempo todo”, diz o artista.
Pergunta. Você lançou discos com canções só de Cartola, outro só do Chico Buarque, outro só do Tom Jobim, Ângela Maria, Carmen Miranda... Por que essas escolhas?Em plena forma aos 74 anos, Ney ainda é tocado e lisonjeado pelas senhoras de cabelos brancos com penteados de salão quando o veem passeando pelas ruas do bairro. “Uma vez, uma encasquetou que queria fotografar meu pau durante um show em que eu tirava tudo. Eu lhe dizia que ela não tinha entendido o conceito, que aquilo não era um strip-tease, mas eu via ela com a câmara em todos os cantos do teatro tentando me pegar”, lembra Ney, entre risadas. O segredo do seu sucesso, até com as mulheres mais caretas que perdem os estribos ao vê-lo subido no palco, nem ele sabe explicar.
Resposta. De Carmen Miranda comecei fazendo um repertório dela, mas não fiquei restrito porque comecei a pesquisar e vi que tinha tanta coisa boa que não precisava ficar só nela. Mas tudo o que era de melhor passava por ela. Era a grande estrela do momento na música brasileira. Olha, eu sou intérprete, eu não sou compositor, então me dou o luxo de desfrutar de tudo o que a música brasileiraoferece. Eu não acredito em ficar restrito a um único estilo.
P. Já tentou compor?
R. Já, mas não é a minha. Compus duas letras, mas que eu sou muito crítico delas. Uma que fala de um encontro de noite, que no final você não sabe se encontrou uma pessoa de verdade ou um extraterrestre. E a outra, dos anos 80, se chama Dívida de amor, uma música romântica, mas que fala da morte. Eu gravei as duas, mas nunca cantei.
P. O que tem ficado na gaveta que você ainda gostaria de levar para frente? O projeto de cantar as músicas de Caetano Veloso?
R. Caetano está sempre na minha mira, mas ainda não atirei. Ainda. Mas têm muitas coisas que me interessam. Eu vou fazer agora um show para o que fui convidado por uma diretora de cinema, Ana Carolina [Soares]. Eu vou cantar Carlos Gomes e Villa-Lobos, e um ator vai recitar poemas do Gonçalves Dias, um poeta baiano de 1800 que começa em uma fase romântica e depois ele vai ficando deslumbrado pelo Brasil, pela natureza e pelos índios e acaba sendo uma apoteose ao Brasil... A proposta é levá-lo a seis capitais, gravá-lo, e depois eu tocar minha vida, porque tenho um repertório pop pronto e falta muita pouca coisa para acabar.
P. Você não tem planos de parar? Não se sente cansado?
No começo eu olhava as fotografias e eu não me reconhecia, eu não achava que era eu. Era muito louco.
R. Eu vou parar quando for impedido. Não me sinto mais cansado do que sempre fiquei. O último show que estou fazendo é bem puxado, e quando vi como ficou e fui fazer pensei: “Nossa o que é que fui inventar?”. Mas agora que inventei, eu aguento. Eu tenho muito prazer em fazer, ainda gosto mais de fazer show do que gravar. O único que eu acho chato são as viagens, que eu perco muito tempo.
P. Qual é rumo da música brasileira? Quem você admira neste momento?
R. Criolo é um deles, e também o Tono, um grupo daqui do Rio de Janeiro. Tem pessoas fazendo coisas interessantes. Eu ouço dizer que há uma crise na música, mas não é uma crise na criação, é uma crise pelos obstáculos que você enfrenta para chegar e tocar no rádio. Hoje em dia você tem que pagar pra tocar, antigamente você gravava um disco e você ia para todas as estações de rádio do país.
P. Haverá uma nova geração de Chicos, Caetanos, Marias Bethânia, Neys... Alguém que represente este momento no Brasil?
R. Não sei. Se a gente concluir que viver é um trânsito, as coisas estão se transformando com muita velocidade, então eu não sei onde vai dar. Tudo pode acontecer. No Brasil não para de aparecer artista diariamente, só que muitos vêm e vão, mas é um celeiro artístico, que eu acho maravilhoso. Talvez é o que pode salvar o Brasil, porque quando essa mentalidade artística se expandir será de todos.
P. Há um abismo brutal entre o Ney Matogrosso, exibicionista e ousado do palco e o Ney Matogrosso, tímido e reservado, do dia a dia. Como se relacionam um Ney com o outro?
Existe uma violência agora embutida em todo o mundo, você hoje em dia não pode dar uma opinião.
R. Durante um período grande eu pensei que fosse esquizofrênico, que eu tivesse dupla personalidade. Até que eu observei que, com o tempo, aquilo foi se aproximando um do outro, porque no começo eu olhava as fotografias e eu não me reconhecia, eu não achava que era eu. Era muito louco. Ai fui entendendo que sou eu mesmo, que não tenho esquizofrenia nenhuma, e que no meu trabalho é assim, é tudo extrovertido, e que eu fora do palco não tenho nenhuma necessidade daquela manifestação. Absolutamente nenhuma.
P. E como se explica isso? Por que na hora de fechar a porta essa necessidade de expressão, de reivindicação perde fôlego?
R. Eu não explico, eu aceito. Mas não é que eu deixe de ser reivindicativo. Eu sou uma pessoa que exige direitos, reivindico o tempo todo, mas não tenho necessidade daquela exposição. Eu sou uma pessoa consciente do mundo que eu vivo, da realidade da vida, da realidade dos governos, das igrejas... Sei tudo isso, sou ligado, não sou bobinho. Minha única via para poder expressar tudo o que eu penso do meu país e do mundo é nas entrevistas que eu concedo, e no palco desafio todas as regras. E eu sou ousado, sim, sou atrevido, sim, porque eu preciso ser, porque o Brasil está mais careta do que era.
P. Como você, que enfrentou uma ditadura, pensa assim?
R. Porque é assim. O Rio de Janeiro, nos anos 60, era uma cidade onde de quinta à sábado você podia andar na rua até cinco da manhã que fervia de gente. Quando aparecia uma bicha muito louca na rua, o povo aplaudia. Eu achava aquilo tão engraçado que eu ficava admirado. Eu vinha do Mato Grosso, onde só tinha um [gay] que passava na rua e só faltava o povo jogar pedra. Isso era de uma maneira geral, o Brasil era mais tolerante com todas as diferenças e foi ficando intolerante. Quem instituiu a violência no Brasil foi aditadura militar e o povo passou a ser violento. Existe uma violência agora embutida em todo o mundo, você hoje em dia não pode dar uma opinião. Nas redes sociais as pessoas caem furiosas. Eu não tenho rede social porque não me interessa o que as pessoas estão pensando, porque as pessoas estão loucas, estão radicais. Como a gente vai ser um país com pensamento radical? Mas você vê isso em tudo. Na política estamos chegando à beira de uma guerra civil por causa dessa gente ridícula.
P. De que gente ridícula?
R. Do Governo ridículo que nos governa. Toda essa gente tem que ir para a cadeia. Você não pode deixar no poder um Governo que saqueia o país. Esse juiz Sergio Moro está dignificando a Justiça no nosso país. Porque quem rouba é ladrão e ladrão tem que ir para a cadeia, não é só pobre que tem que ser preso. Eu não estou dizendo que nunca roubaram, mas eles chegaram com tanta sede ao pote que foram descarados. Vamos parar, não podem roubar mais. Eu sempre falei o que eu acho, se eu não me privei de dar minha opinião nem na ditadura porque eu vou me privar agora? Agora que me engulam, não dizem que é uma democracia? Vamos ver se é mesmo.
P. Você é a favor do impeachment da presidenta?
R. Sou. Se se demonstrar sua culpabilidade, ela deve sair.
P. O que levou ao jovem Ney a servir na aeronáutica?
R. Era o único pretexto que eu tinha para sair de casa em aquele momento. Era 1959 e nem filho homem saia de casa, só saia casado e eu tinha 17 anos. Não queria mais viver nessa casa, não queria mais viver mais com aquele pai.
Eu descobri muitos anos depois que eu tinha criado um manto de chumbo no meu coração, para eu não necessitar de ninguém e de nada.
P. A relação com seu pai melhorou com os anos? Ele chegou a te ver subido num palco?
R. Depois de muitos anos ficamos amigos. Ele me viu várias vezes, só não viu Secos e Molhados. A primeira vez que ele me viu foi no meu primeiro disco solo. Minha irmã me disse que ele tomou remédio para o coração porque ele não sabia o que ele ia ver. Ele assistiu o show e no final falou para minha irmã que ele estava totalmente enganado, que eu era um grande artista. Mas para mim ele não disse.
P. Você chorou ao ouvir isso?
R. Não. Não sou desse jeito. Eu sou muito pé no chão, não é que eu não seja emocional, mas não sou uma pessoa que chora fácil. Eu tive que criar muita defesa para conviver no mundo, eu saí criança de casa. E quando eu saí, eu fui conviver num quartel só com homens, tendo que delimitar o meu território o tempo tudo porque se não seria invadido. Eu descobri muitos anos depois que eu tinha criado um manto de chumbo no meu coração, para eu não necessitar de ninguém e de nada.
P. Isso não dificultou seus relacionamentos com as pessoas?
R. Sim, até que tomei daime (ayahuasca) durante um ano e meio. Ai eu descobri que eu tinha feito isso comigo mesmo conscientemente e não me lembrava. Eu cheguei a ver o momento em que tomei essa decisão e foi assim: “Eu não preciso de amor de pai. Eu não preciso de amor de mãe. Eu não preciso do amor de ninguém. Eu não preciso do mundo. Eu quero que o mundo se foda. Eu vou tocar minha vida”. Um dia, depois de 12 horas tomando daime, deitei na minha cama e percebi, veio aquela memória e meu peito escancarou e vi raios verdes jorrarem dele. Parecia que tinha tomado um ácido. Aí eu fui mudando, as pessoas me perguntavam o que estava acontecendo comigo.
P. E você ficou um doce?
R. Eu sempre fui doce, mas eu não me permitia ser. As pessoas se aproximavam de mim, mas eu cortava. Se eu namorasse alguém uma noite, se quisesse me ver no dia seguinte eu já cortava, não tinha espaço para isso. Tinha espaço para sexo, sem compromisso, eu fugia de qualquer envolvimento, até que teve uma vez que eu não consegui fugir...
P. E o que aconteceu?
R. (Risos) Admiti a possibilidade. Eu entendi que era possível ter uma relação com alguém duradoura.
P. Estamos falando do mesmo alguém (o Cazuza)?
Eu ouço dizer que há uma crise na música, mas não é uma crise na criação, é uma crise pelos obstáculos que você enfrenta para chegar e tocar no rádio.
R. Sim.
P. E esse foi seu grande e único amor?
R. Não, não foi o único. O primeiro, esse que me desestabilizou foi umgrande amor, mas eu tive três grandes amores. Com ele, eu tive a sensação de que eu gostaria de viver, ele me abriu, e depois eu tive um relacionamento de 13 anos. De lá para cá sou uma pessoa normal, não sou ansioso por relacionamentos, não sou fechado, mas não procuro. Algumas vezes acontece. Eu preciso da solidão e não consigo viver sem meus momentos sozinho.
P. A sociedade brasileira evoluiu no debate cidadão de questões importantes como os direitos dos homossexuaislegalização das drogasaborto... Embora as leis continuam sendo rígidas nesse sentido. No caso da Aids, no entanto, o assunto continua sendo tabu em todas as esferas, e é sinônimo de desinformação e preconceito. Qual é sua relação com o tema? Por que parece que esse não é também um problema da sociedade?
R. A Aids está atingindo a população de 15 a 20 anos. Eles não entendem porque eles não viveram. Eu tive uma semana em que fui três vezes a enterrar amigos. Eles acham que não mata, que tomam remédio e pronto, meu deus! É tão simples usar uma camisinha, não sei qual é o problema. Mas é verdade que não se fala mais, nem as autoridades.
P. Você alguma vez se preocupou por ter contraído a doença?
R. Esse com quem eu morei 13 anos, morreu da doença e quando eu fui fazer o teste, para minha enorme surpresa, eu não estava contaminado. Eu perguntei para vários médicos como é que eles explicavam que após ter contato com o vírus eu não era portador. Me disseram que não tinha explicação. Agora, eu não dou mole, achando que eu sou imune. Antes era vida louca para todo o mundo,camisinha era só para quem não queria ter filho.
P. O que você opina da onda conservadora e esse ressurgimento religioso que domina parte dos debates no pais?
R. O Brasil é um país laico, mas aqui deixaram essa infiltração acontecer. Eu acho que o que vai acontecer é cobra comendo cobra. Mas o povo tem que se mexer. Não existe esquerda e direita mais. Aqui ultrapassamos a ideologia política, aqui se trata de malfeitores e o povo tem direito de colocar eles para correr.
P. No filme Ralé, que Helena Ignez acaba de estrear com você como protagonista, vocês tocam vários assuntos da sexualidade e da vida. Me diga o primeiro que vem na sua cabeça sobre eles. Liberdade sexual?
R. Todas as liberdades.
Não existe esquerda e direita mais. Aqui ultrapassamos a ideologia politica, aqui se trata de malfeitores e o povo tem direito de colocar eles para correr.
P. Enfrentar a velhice?
R. Eu não enfrento a velhice, eu a aceito. Convivo com a possibilidade da morte bem tranquilamente. Eu não tenho medo de nada.
P. O amor livre como forma de relacionamento.
R. Eu já experimentei nos anos 70. É interessante mas tem uma hora, pode ser que agora as pessoas estejam mais acostumadas com o contexto, que alguém tinha ciúme e acabava. Era interessante como exercício. Não era fácil, porque todos nós tínhamos ciúme. Eu fui o que aceitei o terceiro e para minha enorme surpresa eu aceitei com tranquilidade, porque eu pensava que nunca seria capaz. Mas eu aceitei e gostei, mas aí o outro não gostou que eu gostasse, né?

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Crianças precisam ler, diz menino de MT que arrecadou mais de 2 mil livros






Por Denise Soares, no G1.com

Desde que teve a ideia de construir uma biblioteca comunitária, Jefferson Gabriel da Silva Melo, de 12 anos, já conseguiu arrecadar mais de dois mil livros. O garoto mora com os pais no Distrito de Bonsucesso na cidade de Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá. No começo deste ano Jefferson começou a arrecadar os livros para permitir que as crianças e moradores da comunidade possam ter acesso à leitura, já que a única escola da região não tem biblioteca.

No Dia das Crianças, comemorado nesta segunda-feira (12), Jefferson vai participar de atividades com outras crianças e eventos em comemoração ao Dia de Nossa Senhora Aparecida, na comunidade onde mora.

“As crianças precisam ter alguma atividade, precisam ler”, comentou o garoto. Todos os livros que Jefferson ganhou ficam estocados na casa e na área da residência da família. Segundo o ele, não há mais espaço na área para colocar os livros, que não param de chegar na casa.

Pessoas que souberam da iniciativa de Jefferson se comoveram e decidiram doar materiais para a construção da biblioteca. A ideia é aproveitar o espaço de um centro comunitário e construir a biblioteca no mesmo local. Um empresário decidiu doar um computador para a futura biblioteca de Jefferson.

“Na minha casa não tem mais espaço. A área está cheia de livros. Ganhei um computador e vou usá-lo na biblioteca que vamos construir. Continuo juntando os livros até conseguirmos o local”, disse.

A casa de Jefferson está cheia de livros didáticos, enciclopédias, atlas, gibis, dicionários e romances. Enquanto a biblioteca não começa a funcionar, os moradores e estudantes visitam a casa do adolescente para consultar os livros.

Exemplo
A família ajuda o menino a conseguir mais livros e materiais que serão usados na biblioteca.

“Estamos correndo atrás. Conseguimos pessoas que vão doar os materiais e reformar o centro comunitário. Várias pessoas doaram livros, uma estudante de Santa Catarina veio visitar a mãe em Cuiabá e deixou diversos livros do curso de direito e livros de concursos para estudo”, lembrou a mãe de Jefferson, Janice Ferreira da Silva.

O adolescente cursa o 6º ano do ensino fundamental no período da manhã na Escola Maria Barbosa Martins. A ideia do menino é que a futura biblioteca funcione à tarde, para que ele possa ajudar a cuidar do local após os estudos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

E se Hitler acordasse nos dias de hoje?

Na comédia "Ele está de volta", ditador nazista reaparece em plena década de 2010. Filme questiona a relação dos alemães com o nazismo de forma nova, ao mesmo tempo cômica e inteligente.

Por Sarah Hofmann, na Deutsche Welle 
Adolf Hitler (Oliver Masucci) reencontra Berlim em Ele está de volta
Er ist wieder da, baseado no romance satírico Ele está de volta, não é a primeira vez que David Wnendt enfrenta o desafio de dirigir a versão cinematográfica de um best-seller de ficção.
Em sua visão radicalmente subjetiva, Zona úmidas, reunindo divagações da autora Charlotte Roche sobre drogas, higiene genital, práticas sexuais com vegetais e outros assuntos íntimos – também parecia, a rigor, impossível de adaptar para a tela.
O cineasta alemão de 38 anos igualmente teve que pesquisar a fundo os círculos neonazistas para seu filme Combat girls. Ele enfoca uma jovem do Leste da Alemanha dominada pelo ódio aos estrangeiros, aos judeus, policiais e todos que considera responsáveis pelo declínio de seu país.

O lançamento desta quinta-feira (08/10) não trata tanto da cena política de extrema direita, mas sim de como as pessoas comuns reagem ao serem confrontadas com a ideologia direitista. Ainda mais quando é Adolf Hitler em pessoa a lhes dar a impressão que alguém as ouve e está do lado delas.
Saudações ao "Führer"
O ponto de partida do longa é o do livro homônimo de Timur Vermes: um belo dia, em plena segunda década do século 21, Adolf Hitler desperta em Berlim, sem qualquer noção do que aconteceu no país e no mundo desde 1945.
Romance "Ele está de volta", de Timur Vermes, é best-seller na Alemanha
Os realizadores de Er ist wieder da foram mais além, atravessando de fato a Alemanha com o ator Oliver Masucci, que encarna o ditador nazista. Por toda parte vivenciaram cenas semelhantes: passantes cumprimentavam entusiásticos o falso Hitler que passava de carro, assumiam postura de soldado e faziam a saudação nazista. Se possível, aproveitavam para tirar uma foto ao lado do "Führer".
Mas o pior não era isso: alguns não conseguiram conter o impulso de abrir seus corações com essa encarnação do fascismo. A dona de um quiosque de salsichas currywurst não perdeu a oportunidade de comentar com "Hitler" a suposta liberdade dada aos estrangeiros para se comportarem mal – segundo a vendedora, tudo fruto do sentimento de culpa que os alemães portam consigo desde a Segunda Guerra Mundial.
"Havia uma ira silenciosa entre a população, que me lembrava 1933. Só que na época o termo 'desilusão com a política' ainda não existia", diz Hitler, a certa altura do filme, em referência ao ano em que os nacional-socialistas assumiram o poder na Alemanha.
Trata-se de um exagero, é claro. Mas, afinal de contas, numa comédia é legítimo usar tais recursos. Problemático é nem todas as cenas que dão a impressão de ser documentais, o serem de fato. Como quando "Hitler" visita a central em Köpenick do Partido Nacional-Democrático da Alemanha (NPD), de extrema direita. Lá, ele não se encontra com funcionários partidários verdadeiros, mas sim com atores – uma sutileza que pode escapar a parte dos espectadores.
Oliver Masucci como Hitler, ao lado de Fräulein Krömeier (Franziska Wulf)
Um povo, duas faces
Ainda assim, o filme merece que se perdoe tudo isso. Pois quando se viu tanto humor negro e profundidade política numa produção alemã? O espectador tem vontade de exclamar: "Finalmente ele chegou!"
Não o "Führer", claro, mas sim um filme desses, que questiona a relação dos alemães com Adolf Hitler de forma totalmente nova, ao mesmo tempo cômica e inteligente. Pois não é fácil avaliar a parcela da população que saúda o NPD, aberta ou secretamente; que na mesa do bar concorda que "no tempo de Hitler não era assim tão ruim"; ou que promove arruaças contra os refugiados.
Protestos xenófobos na Alemanha: relação dos alemães com a extrema direita tem seu espaço no filme
Numa passeata recente do movimento Pegida (sigla em alemão para "Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente") na cidade de Dresden, cerca de 9 mil cidadãos se reuniram para protestar contra uma suposta "estrangeirização excessiva" do país.
Isso não é muito, diante de uma população de 80 milhões. A maioria dos alemães, pelo contrário, mostra outro rosto, que dá boas vindas aos refugiados. Porém o que o filme deixa claro – do seu jeito exagerado de comédia – é que, ao que tudo indica, para jovens e velhos, o criminoso nazista Adolf Hitler não está tão presente como advertência permanente quanto os alemães gostariam de acreditar.
Suicídio em questão
Coincidindo com a estreia de Er ist wieder da nas salas alemãs, desponta um debate sobre se Hitler não poderia ter sobrevivido à Segunda Guerra. O catalisador é um documentário de TV dos Estados Unidos, que seguiu rastros supostamente deixados pelo ex-ditador em diversos países depois de 1945.
Consta que, ainda anos após o fim da guerra, o FBI teria perseguido traços da presença de Hitler na Argentina e no Brasil, entre outros. Os documentaristas examinaram centenas de documentos confidenciais do serviço secreto americano, divulgados apenas em 2014. Estes deixam margem à versão de que em 30 de abril de 1945 o líder nazista e sua companheira, Eva Braun, não se encontrariam no abrigo aéreo da Chancelaria do Reich, mas sim teriam desaparecido na clandestinidade.
Além disso, os trabalhos de filmagem teriam confirmado a existência de um túnel garantindo a ligação entre o "bunker do Führer" e o aeroporto Berlim-Tempelhof em 1945. A partir de meados de dezembro, o canal americano History transmite a série em oito partes.
"Eles não conseguem se livrar de mim", diz Hitler perto do fim do filme. "Eu sou parte deles."

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Como Portugal comprou o Nordeste dos holandeses por R$ 3 bi


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Image captionQuadro do pintor brasileiro Victor Meirelles de Lima retrata Batalha dos Guararapes (1648/1649), que encerrou período do domínio holandês no Brasil
Mesmo depois de terem sido derrotados, os holandeses receberam dos portugueses o equivalente a R$ 3 bilhões em valores atuais para devolver o Nordeste ao controle lusitano no século 17.
O pagamento ─ que envolveu dinheiro, cessões territoriais na Índia e o controle sobre o comércio do chamado Sal de Setúbal – correspondeu à época a 63 toneladas de ouro, como conta Evaldo Cabral de Mello, historiador e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), no livro O negócio do Brasil, que está sendo relançado em uma nova edição ilustrada pela Editora Capivara, de Pedro Correia do Lago, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional. A edição original foi lançada em 1998.
Em valores atuais, o montante equivaleria a 480 milhões de libras esterlinas (ou cerca de R$ 3 bilhões). O cálculo foi feito à pedido da BBC Brasil por Sam Williamson, professor de economia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, e co-fundador do Measuring Worth, ferramenta interativa que permite comparar o poder de compra do dinheiro ao longo da história.
"Esta foi a solução diplomática para um conflito militar. O pagamento fez parte da negociação de paz. O que não quer dizer que a guerra não tenha sido necessária", afirmou Cabral de Mello à BBC Brasil.

'Pechincha'

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Image captionBandeira da Nova Holanda, como ficou conhecida a colônia da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no Brasil
Os holandeses ocuparam o Nordeste por cerca de 30 anos, de 1630 a 1654, em uma área que se estendia do atual Estado de Alagoas ao Estado do Ceará. Eles também chegaram a conquistar partes da Bahia e do Maranhão, mas por pouco tempo.
Por trás das invasões, havia o interesse sobre o controle do comércio e comercialização da matéria-prima.
Isso porque, como conta Cabral de Mello, antes mesmo de ocupar o Nordeste, os holandeses já atuavam na economia brasileira com o apoio de Portugal, processando e refinando a cana de açúcar brasileira.
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Image captionGravura holandesa retrata o cerco a Olinda em 1630
"Quando o reino português foi incorporado pela Espanha, essa parceria acabou. Os espanhóis romperam esse acordo, que rendia altos lucros aos holandeses. Além disso, a relação entre os holandeses e os espanhóis já não era boa, já que a Holanda havia se tornado independente do império espanhol em 1581", diz o historiador.
Durante o período em que ocuparam parte do Nordeste, os holandeses foram responsáveis por inúmeras mudanças importantes, inclusive urbanísticas, principalmente durante o governo de Johan Maurits von Nassau-Siegen, ou Maurício de Nassau.
Com o intuito de transformar Recife na "capital das Américas", Nassau investiu em grandes reformas, tornando-a uma cidade cosmopolita. Apesar de benquisto, ele acabou acusado por improbidade administrativa e foi forçado a voltar à Europa em 1644.

'Sem heroísmo'

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Image captionQuadro do pintor espanhol Juan Bautista Maíno retrata reconquista de Salvador pelas tropas hispano-portuguesas (1635)
Naquele ano, Portugal já havia se separado da Espanha, mas demorou para enviar soldados para retomar o Nordeste. A região só foi reintegrada em janeiro de 1654.
Cabral de Mello, que é especialista no período de domínio holandês, diz que a tese de que os holandeses foram expulsos pela valentia dos portugueses, índios e negros "não é completa".
"Os senhores de engenho locais financiaram a luta pela expulsão dos holandeses, já que deviam mundos e fundos à Companhia das Índias Ocidentais, que lhe havia emprestado dinheiro. Eles, no entanto, não tinham como pagar a dívida", explica o historiador.
"Os holandeses acabaram derrotados, mas não sem antes pressionar Portugal pelo pagamento dessa dívida, inclusive chegando a bloquear o Tejo (Rio Tejo). O pagamento não foi feito em ouro, mas um observador da época fez a correspondência para o metal precioso".
"Portugal teve de pagar 10 mil cruzados aos holandeses. Também fez parte do acordo a transferência do controle de duas possessões territoriais portuguesas na Índia ─ Cranganor e Cochim ─ e o monopólio do comércio do Sal de Setúbal".

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Svetlana Alexievich: “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”

A jornalista e escritora Svetlana Alexievich recebe o EL PAÍS, em sua casa em Minsk “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”, diz a escritora bielorrussa


Svetlana Alexievich durante a entrevista coletiva em Berlim. / J. M. (AFP)


















Por PILAR BONET, Minsk, no El País
“Que catástrofe!”, exclama Svetlana Alexievich, ao abrir a porta de seu apartamento com vista para um lago em Minsk. Desta vez a prêmio Nobel de Literatura 2015 não se refere às catástrofes retratadas em sua obra, como a Segunda Guerra Mundial ou a experiência bélica soviética no Afeganistão, passando pelo acidente de Chernobil ou o desmoronamento da URSS. Ao meio-dia desta sexta-feira estamos diante de uma “catástrofe em tom menor”, entendendo por tal o barulho em que vive a escritora desde que lhe concederam o prêmio, na quinta-feira à uma da tarde.
“Espero que exista um depois da catástrofe”, digo tentando conduzi-la a sua obra. “Sim, mas esta etapa será muito longa e ninguém sabe como vai acabar”, afirma enquanto entramos na pequena cozinha decorada com quadros e cerâmicas, que não parece ter mudado desde que a visitei em 2001, às vésperas das eleições presidenciais naBielorrússia. Hoje, quatorze anos depois, novas eleições, a mesma cozinha e o mesmo presidente.
“O povo estava enganado”A Rússia preocupa a Nobel. “Veja o que está acontecendo com o povo russo. Dá para esperar qualquer coisa”, responde à pergunta sobre suas inquietações. “Há cinco ou seis anos, quando falava do nacionalismo russo, ninguém acreditava em mim”, diz. No entanto, particulariza: “Existem várias Rússias”.
Alexievich começa a preparar um café. “O terceiro mandato de Putinnos tirou do romantismo dos anos 1990”, afirma. “Mudaram o país, enganaram o povo e é fácil para eles conduzi-lo como quiserem”, sentencia. “Refiro-me ao militarismo antiocidental”, acrescenta. “Quando fui à Rússia procurar material para meu último livro, vi que o povo estava enganado, que era agressivo, que isso acabaria mal, mas ninguém esperava que víssemos a era soviética voltar e se apoderar do país que tentava começar uma vida nova”.
“Antes a finalidade era preservar o império, mas não sei quais são a lógica e os motivos do que acontece agora”, diz, referindo-se à política externa russa. A inquietação de Alexievich se deve à rapidez com que se pôde dar marcha-à-ré nessa máquina”. “Nos anos 1990 pedíamos liberdade e as pessoas se calavam. Não estavam preparadas para a mudança. Chegou a violência, a degradação moral e, quando Putin de repente apertou o botão mais primitivo, o povo começou a falar e, quando falou, todos ficamos com medo”, afirma.
No transcurso da entrevista chega um diplomata alemão com fotógrafa e tradutora. “Entrem por favor, mas fechem a porta, que estou resfriada”, avisa a Nobel. “Perdoem-me, estou em roupa caseira”, desculpa-se. “Em nome da Embaixada alemã…”. “Recebeu o telegrama do ministro [Frank Walter] Steinmeier?”. Sim, recebeu. “Li que vai escrever um novo livro”, diz o diplomata. Os telefones não param de tocar. Os alemães tiram a câmera: Registram a entrega de um buquê de flores à Nobel. “Não dormi bem”, desculpa-se Alexievich, mas osflashs já estão iluminando o vestíbulo que leva a seu escritório e à cozinha.
Svetlana Alexievich, que viaja a Berlim neste fim de semana, promete ao diplomata uma conversa tranquila quando retornar a Minsk, para redigir o discurso da cerimônia de 10 de dezembro em Estocolmo e para “o pequeno segredo” de fazer uma roupa para o evento.
Gute reise” [boa viagem]. O diplomata desaparece e retornamos à cozinha. Alexievich é consciente da responsabilidade de seu discurso em Estocolmo. Afirma que é contra as revoluções, que é preciso encontrar um caminho sem sangue e que os bielorrussos têm uma tradição de tolerância.
O problema da língua
Svetlana Alexiévich, na sexta-feira passada, em sua casa de Minsk. / PILAR BONET
Toca a campainha. Um amigo vem buscar os cestos de flores que vão tomando o apartamento da Nobel. O ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt, recém-chegado de seu país, adverte, está esperando por ela. Falamos do “mundo russo”, do “outro mundo russo”, do “bom”, daquele que seus admiradores propõem que ela lidere. Conversa sobre a língua bielorrussa, que segundo Alexievich está em um gueto. “Havia um liceu bielorrusso, um só, mas Lukashenko o suprimiu e só se formaram umas poucas dúzias de pessoas”, afirma referindo-se a uma prestigiosa escola fundada em Minsk para a educação na cultura da Bielorrússia.
Os debates de Alexievich com os setores nacionalistas bielorrussos se acalmaram. “Antes parecia que resolvendo o problema da língua seriam resolvidos todos outros, mas enquanto discutíamos sobre a língua, Lukashenko chegou ao poder. Sempre opinei que a democracia deveria preceder a construção do Estado nacional, do contrário, outros chegariam ao poder, e foi o que aconteceu”. Para Alexievich, suas obras não podem ser qualificadas de pessimistas, mas “pode-se dizer que temos uma cultura de dor e tragédia, uma experiência de vida trágica e que as vítimas e os algozes estão misturados”.
A estudiosa da “alma humana” configurada na época socialista prognostica que as sequelas dessa época durarão “pelo menos dez anos”. Suas viagens por seu ex-país (a Rússia e os países da antiga URSS) convenceram-na de que “não há nenhum fundamento para o romantismo”.
O café fica sobre a mesa da cozinha. “Que pena. É um café muito bom”, diz. A Nobel troca rapidamente de pulôver e sai ao encontro do ministro sueco.

Uma vida polifônica

Academia sueca. Svetlana Alexievich, 67 anos, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2015 por “seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo”.
Jornalista e escritora, Alexievich retratou em língua russa a realidade e o drama de grande parte da população da antiga URSS, assim como dos sofrimentos de Chernobil, a guerra do Afeganistão e os conflitos atuais. É muito crítica ao Governo bielorrusso.
Nasceu na Ucrânia, filha de um militar soviético de origem bielorrussa. Quando seu pai se aposentou do Exército, a família se estabeleceu na Bielorrússia. Ali estudou jornalismo, na Universidade de Minsk e trabalhou em diversos meios de comunicação.
Ficou conhecida com A Guerra Não Tem Rosto de Mulher (1983), sobre os testemunhos das mulheres soviéticas que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Entre suas obras estãoVozes de Chernobil e O Fim do Homo Sovieticus. Alexievich não tem livros editados no Brasil.