segunda-feira, 27 de julho de 2015
Educação, gestão e democracia
A palavra democracia já se popularizou entre nós. Tornou-se parte do vocabulário popular, se incorporando ao cotidiano das pessoas. Se por um lado esta situação representa um avanço expressivo, dado que qualquer que seja o significado adotado, falar em democracia sempre será oxigenar o ambiente político; por outro pode encerrar certa hipocrisia, um invólucro bem produzido para escamotear formas mais sutis de opressão e dominação. Quem não se lembra que a parte da Alemanha assumidamente bucocrático-comunista do período muro de Berlim se denominava pomposamente “democrática”?
De origem grega, a palavra democracia na realidade encerra uma multiplicidade de significados ditados sobretudo pela teoria política, ou mais apropriadamente pelas idiossincrasias circunstanciais. Originalmente significa uma forma de governo caracterizada pelos cidadãos exercerem diretamente o poder de decisão, quando prevalece a maioria.
Mas mesmo a maioria grega era bastante relativa, pois dela se excluíam as mulheres e a esmagadora maioria da população escrava.
O crescimento das cidades e a explosão demográfica ensejaram a modernização do estado e as necessárias adaptações foram tomando forma, de sorte que da democracia direta passamos para a democracia representativa, quando o exercício da decisão se processa através de representantes preliminarmente eleitos.
No Brasil, a história democrática é caracterizada por idas e vindas - infelizmente mais vindas que idas. Momentos de expansão – vezes acelerados - revezando com outros letárgicos e sonolentos. Longos períodos de obscurantismo e opressão cedendo uma fração do tempo aos frágeis, curtos e efêmeros períodos das liberdades.
Desde a proclamação da república já tivemos sete cartas magnas. Sete constituições, o que registra nossa extrema vulnerabilidade e o quanto nosso ordenamento legal é volátil.
Os limites da constituição imperial de 1824 estavam mais que evidentes quando estabeleceram inamovíveis vinculações do exercício dos direitos políticos ao nível de renda dos cidadãos, uma forma nada sutil de excluir a maioria da população do processo de participação institucional. Como que para redimir a tendência ultra-elitista, a constituição de 1891 se volta para outra direção, garantindo alguns direitos, assegurando a representação das minorias e instituindo o sufrágio universal masculino. Mas manteve os analfabetos, mendigos, soldados e religiosos ao largo desta importante conquista política e social.
Decorre daqui, portanto, dois problemas que de certa forma perduram até a atualidade.
O primeiro é que o voto aberto, nas condições em que foi estabelecido, permitiu a manipulação eleitoral, o voto de cabresto e o coronelismo, que de certa forma – assumindo formatos mais sofisticados – ainda dominam o panorama político em vários rincões do país.
E o segundo é que a falta de justiça eleitoral independente depositou nas mãos do governo o reconhecimento dos deputados eleitos.
No ano de 1934 surge uma nova constituição, inspirada na alemã, e que incorpora a Justiça do Trabalho e outras conquistas trabalhistas.
Se sete foram as constituições, as intervenções militares foram nove, testemunhando nossa cultura autoritária e a onipresença dos quartéis.
Quando lançamos o olhar sobre o conjunto dos mandatários da nação, percebemos que dos trinta e três presidentes brasileiros, dez não completaram o mandato. Destes dez, quatro foram depostos por golpes, três morreram, e um sofreu impeachment.
Do total dos presidentes brasileiros é curioso observar que apenas quinze foram escolhidos pelo voto direto, portanto menos da metade.
Mas a história política brasileira mostra um outro viés: a utilização do eleitorado como massa de manobra das elites dirigentes. Esta situação chegou a tal grau que, durante a república velha, apenas 3% dos que poderiam votar eram chamados a colocar o voto na urna.
Em contrapartida, mais recentemente foi a opinião pública que, mobilizada, possibilitou o impedimento do ex-presidente Fernando Collor.
Já tivemos presidente que imaginava ser a gestão pública um ramo da engenharia civil. Era o caso de Washington Luiz que chegou a afirmar que “governar é construir estradas”.
Se Washington Luiz foi o benemérito originário das grandes empreiteiras, não ficou atrás quando o assunto era a exclusão social. Conseguiu atribuir às forças policiais uma função muito maior que a de assegurar a elucidação de crimes e a prisão de delinqüentes. Foi Washington Luiz quem perenizou a expressão “a questão social é caso de polícia”.
Mas nossa sina autoritária tem raízes mais profundas. Nosso primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891), determinou o fechamento do congresso, decretando a seguir o estado de sítio.
Floriano Peixoto (1891-1894) arquitetou durante todo o tempo contra as liberdades individuais, sobretudo a de opinião e foi o primeiro a fazer prisões políticas.
Arthur Bernardes (1922-1926) conseguiu aprimorar os desvios despóticos de Floriano Peixoto, tornando-se o primeiro a construir uma prisão especial para presos políticos.
E daí segue um conjunto de acontecimentos de cunho autoritário, incorporados às nossas tradições e imaginário; registrando o quanto a democracia tem sido até o momento uma cantilena principalmente para os excluídos.
Mesmo nos dias de hoje, quando vivemos uma experiência democrática jamais experimentada, salta aos olhos o que parece uma inesgotável capacidade de nossas elites políticas de promover exclusão social. A verdade é que, se avançamos na democratização da vida política, no campo econômico o que se fez foi muito pouco, haja vista o país ostentar uma das mais perversas concentrações de renda do planeta.
Este passado histórico afeta todos nós e, de uma maneira especial, os educadores. É que cabe a esta categoria especial de pessoas uma atividade por demais nobre: a de reproduzir o conhecimento, reciclá-lo, torná-lo assimilável para os aprendizes; desvendar os mistérios que emolduram as artes e o saber, e torná-los disponíveis e acessíveis a todos. E como conviver neste ambiente ignorando esta herança autoritária já incorporada – ainda que inconsciente - ao nosso modo de ser, pensar e agir? Este é o desafio do verdadeiro educador, transformar-se em um agente em permanente renovação, transformador de si e das coisas, um homem capaz de re-elaborar permanentemente o mundo, ao mesmo tempo em que re-elabora a si próprio. Um agente que enxerga o outro, e não só seus alunos, como literais parceiros neste processo dinâmico e ininterrupto de resgate da ética e da solidariedade. Um cidadão que não entenda a sala de aula como seu universo, e sim que perceba o universo como sua sala de aula.
É deste professor que nossos alunos e alunas necessitam. Nada de falsos libertários, loquazes ventríloquos, papagaios de pirata, cintilantes, onipresentes; sempre com as respostas prontas e definitivas na ponta da língua, mas hipócritas e pobres de conteúdo. Precisamos do professor que consiga superar e romper a redoma autoritária em que a sociedade está envolta. Do professor que ao invés de se colocar acima, se coloque ao lado do aluno, que partilhe com ele as dúvidas e que aceite o desafio de comungar a busca pela melhor das alternativas. Sim ao professor que - ao contrário da prepotência e arrogância da academia, dê guarida à humildade, à troca, à generosidade.
Se o que queremos construir é uma sociedade que partilhe os valores e as condições que nos transformem todos em cidadãos, então teremos que procurar por novos educadores e gestores públicos, por um agente que entenda a educação e a gestão como uma troca entre iguais com diferentes tipos de conhecimento. E que todo conhecimento tem, no seu devido contexto, importância individual e social.
Antônio Carlos dos Santos é professor universitário, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.
domingo, 12 de julho de 2015
A frieza tomada emprestada dos serial killers
Como - em pleno século XXI – pode o analfabetismo estar tão entranhado entre nós?
Como é possível a chaga devassar de tal forma a alma nacional, envergonhando, prostrando e humilhando a nação?
Estamos adentrando o futuro com milhões de brasileiros amargando a situação de analfabetos. E que fique claro, não estou me referindo aos analfabetos funcionais.
Estima o IBGE que a população brasileira já ultrapassa 202,7 milhões de habitantes. Sendo assim, a conta expressa uma realidade insuportavelmente medonha, de toda inaceitável. Admitir com naturalidade que mais de 13 milhões de brasileiros estejam distantes da leitura crítica, estejam ao largo da cidadania, estejam ainda sob os grilhões do obscurantismo é admitir que o destino nos reserva a banalidade, a pequenez, é admitir que estamos fadados à mediocridade e ao subdesenvolvimento. Não se trata de negar o obvio ou ignorar a realidade. Ao contrário, trata-se de reagir, resistir, protestar, não com a naturalidade dos néscios, dos hipócritas, e sim com a indignação dos justos, com a revolta incontida das pessoas de bem, com infinito desprezo para o que cuidam de perpetuar um cenário tão bizarro e nefasto.
É difícil acreditar, mas, das 5.560 cidades brasileiras menos de uma centena podem ser consideradas livres do analfabetismo. Conseguiram índices similares aos dos países desenvolvidos. Custa reconhecer, mas, do total das urbes brasileiras, apenas 1% das cidades conseguiram enfrentar e resolver o problema. O restante do país, 99% dos municípios tupiniquins são, no mapa, como manchas indeléveis, máculas de vergonha e tragédia, território disforme estigmatizado pela brutalidade da chaga medieval.
Este é um problema - um dos mais graves – cuja solução não pode ser postergada. Qualquer governo que se preze deveria tomá-lo como estratégica. Equacionar e resolver esta questão deveria figurar como ponto de honra, ainda que para isso fosse necessário mobilizar a nação num esforço de guerra. Para que o país consiga dar vazão e curso ao desenvolvimento devemos erradicar o analfabetismo, dobrá-lo, colocá-lo de joelhos numa batalha sem tréguas, sem clemência.
Se este é um discurso na boca de todos - ou pelo menos de muitos - a aplicação, a prática tem sido exercida por muito poucos, quase ninguém. Neste ponto, a distância entre teoria e prática tem se mostrado imensuravelmente dolorida.
Aliás, associar teoria à prática tem sido desafio perene, onipresente para os brasileiros. Às vezes a teoria galopa um cavalo árabe, um corredor invencível, enquanto a prática se ajeita num pachorrento burro de carga. Outras vezes, é o contrário que se verifica, e a prática avança léguas deixando a teoria lá atrás, submersa numa nuvem densa de poeira. Parece que um dos fundadores de Pindorama, só para azucrinar nossas vidas, besuntou a teoria com óleo e a prática com água, de modo que misturar os dois passou – dentre nós - à categoria das impossibilidades físicas.
Políticos e autoridades que cultuam a ética costumam esculpir suas obras em rocha. Por isto são reconhecidos pelos contemporâneos e pelos que só viverão nos séculos seguintes. Deixam saudades. Já os que permitem que 13 milhões de brasileiros amarguem – em pleno século XXI – a escuridão da idade média, são loquazes, prolixos e escondem por detrás de olhares candidamente doces a frieza que tomaram emprestada dos serial killers. Enganam-se, portanto, os que acreditam que esses porcalhões entalham suas obras em água ou em vento. Não. Utilizam uma rocha ainda mais dura, porque o mal que perpetram atravessará muitos séculos à custa da dor, do sofrimento de milhões de brasileiros. A história os tem como os senhores da miséria.

Ilustração: Jornal Folha de São Paulo
Antônio Carlos dos Santos criou a metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção de teatro popular Mané Beiçudo.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Um teatro que educa e constrói - Mané Beiçudo
Ao longo dos anos a “forma” tem sido uma das maiores preocupações dos que lidam, no dia a dia, com a produção artística. Quando não um pesadelo, se torna ao menos uma questão perturbadora. Para os teatrólogos-educadores assume um contorno um tanto diferenciado, dado às peculiaridades desta arte - o teatro - onde a vida é na realidade, recriada e revivida sobre um simples estrado; quando o homem alça vôo rumo a outros horizontes, outros mundos, novos universos.
Nas diferentes épocas também o teatro foi acompanhando, com desenvoltura, as novas exigências que a sociedade estabelecia. Os espetáculos em seu aspecto formal acompanharam as evoluções do tempo e dos costumes, se mostrando ora rebuscados, espalhafatosos e medíocres, ora oníricos, sublimes e contundentes.
Contemporaneamente, com o advento da era moderna, do micro-chips, da generalização da informática, da internet, da massificação da televisão, a cultura popular parece perder espaço.
Através da televisão – o grande instrumento de comunicação de massa - é incorporada ao cotidiano dos indivíduos uma estética cada vez mais agradável aos sentidos, mais perfeita na forma, mas em contrapartida, mais vazia de conteúdo.
Milhões de pessoas em todo o mundo, famintas e desesperadas, desempregadas e desoladas, se vêem inseridas no luxo da grã-finagem das novelas e dos enlatados, “vivenciando” inacreditáveis contos de fada que expressam realidades intangíveis, fora de alcance dos mortais comuns.
Ainda que inconscientemente - o que torna o quadro mais grave e seu enfrentamento mais difícil - essa “cultura” alienante é incorporada às manifestações artísticas locais, despersonificando cada vez em maior grau, a cultura, os valores e as tradições genuinamente populares.
É bom salientar que o processo educativo-cultural deve ser infinitamente mais amplo que a megalomania colonizadora e oficialesca de incentivar tão somente os festejos populares, os folguedos e o folclore. Quando ocorre a promoção intensiva do folclore – ignorando as demais formas de manifestações culturais e artísticas - estamos tão somente replicando o modelo colonizador, insistindo à exaustão na repetição pela repetição, na inércia, sem abrir espaços para o que é novo e renovador, impedindo a ação do movimento. Quando valorizamos apenas e tão somente o artesanal, o que se repete sem modificações, estamos estimulando o não transforma, o não questiona, o não critica, o não incomoda.
O folclore e as tradições populares são importantes e fundamentais porque compõem o substrato de nossa identidade cultural, de nossa formação enquanto um povo, uma nação. É necessário estudá-los, compreendê-los, divulgá-los, mas sem que isso limite nossa capacidade de continuar criando, inovando, refletindo sobre nossa produção. Assim como devemos manter as portas escancaradas para o folclore, devemos mantê-las também para a arte que conduz à crítica, que leva à reflexão, que enseja a transformação, a arte que se nutre nas ruas, nas fábricas, nas escolas...
Os grupos teatrais inseridos neste processo também são vítimas dele. A falta de acesso à capacitação - resultante em grande parte da adoção de políticas públicas equivocadas, faz com que, não raro, nos deparemos com grupos imitando cantores da moda, shows televisivos, os últimos “sucessos” da ocasião, levando o coração à boca para assegurar a aquisição do “estroboscópio” - impacto da novela das oito; relegando a realidade objetiva à um enésimo plano. Então ignoram o dia a dia das comunidades, ignoram o processo de busca por uma estética popular, passam a desdenhar a imperiosa necessidade de interagir com os que estão bem ao lado.
Como conseqüência imediata, os grupos tendem a ignorar os diversos elementos cênicos que, conjugados, possibilitam à platéia uma imersão mais profunda no contexto abordado e na realidade local. Há até mesmo os que se deixam engabelar por uma compreensão errônea do Teatro Pobre de Jerzy Grotowski.
O diretor polonês desenvolveu uma série de técnicas, baseadas em sua realidade européia, cujo objetivo era acentuar o processo de identificação ator/espectador. Nesta metodologia os elementos cênicos são desprezados em função da interação pretendida.
Não devemos perder de vista que a realidade brasileira é bem diferente, bastante distinta da européia.
As diferenças são gritantes e falam por si. Aqui somos o melhor da Bélgica com o que de pior existe na Biafra. Algumas poucas ilhas de excelência envoltas em um mar de fome e miséria. Este é o Brasil das inacreditáveis contradições, da descomunal concentração da renda, da perversa injustiça social, o lugar e o espaço onde o século XXI carrega as heranças malditas do XV.
O povo tem direito à arte em sua forma mais aperfeiçoada e lúdica, em seu conteúdo mais transformador. Pois não é do povo que a arte emana?
Deve resultar daí um novo contexto, uma nova realidade em que o povo deixa de ser objeto e passa a atuar como sujeito da ação.
O fundamental é aprofundar os processos de identificação com o povo, com as comunidades locais, revigorando o teatro, embebendo-o dos costumes, crendices e manifestações que só a comunidade, em séculos de elaboração, foi capaz de manejar.
Todo o esforço será pouco no sentido de retornar ao povo uma arte esteticamente bela, lúdica, estruturalmente embebida de conflitos sociais, comprometida com a comunidade, libertária em sua essência. Todos os recursos cênicos deverão ser disponibilizados na busca desta linguagem popular.
Maquilagem, iluminação, cenários e adereços são meios que devemos dispor para alcançar este desafio. Ignorá-los, como fez Grotowski, não será boa medida. O desafio será aperfeiçoá-los, adequando-os à nossa realidade, utilizando o material disponível na praça, adotando uma postura adequada, uma postura que educa e constrói.
Mais grave que a falta de condições materiais para o desenvolvimento da arte, é a falta de condições para que o artista possa, com desenvoltura, efetuar a análise crítica de sua produção e da própria sociedade. Esta última condição é pedra de sustentação da cultura popular, pedra angular do teatro de bonecos Mané Beiçudo, um teatro concebido para a educação.
Este contexto – onde a leitura crítica da realidade é enviesada - gera uma situação em que os grupos, por força das circunstâncias, passam a - sem fontes de financiamento - imitar e repetir o que a televisão produz com fartos e ilimitados recursos. O resultado não poderia ser outro senão o supra-sumo do ridículo, do fracasso, do medíocre. Automaticamente o público relaciona o que vê no palco com o que assiste na TV e... desaparece dos teatros.
O resgate das autenticas manifestações culturais populares é o primeiro passo para se consolidar, nos planos teórico e prático, um teatro verdadeiramente popular. O modo de viver, andar, falar, vestir, pensar, as ansiedades e aspirações da comunidade, tudo são variantes que devem ser conhecidas em profundidade.
Um outro passo é incorporar a consciência de que a falta de recursos financeiros não está, necessariamentevinculado ao espetáculo insosso, de mau gosto, desagradável e mal elaborado. A carência financeira deve ser compensada por altas e concentradas doses de criatividade, qualidade farta e que lateja em nossa gente. Criatividade que de tão intensa transborda em nossos festejos e manifestações populares.
A mobilização da sociedade por mais investimentos em cultura e educação, deve caminhar lado a lado com a incansável luta por um processo de capacitação que priorize a técnica e a estética alternativa.
É necessário conquistar efetivamente uma estética popular, transformando o pouco que temos em um espetáculo encantador, mágico, crítico, renovador, características fundamentais no teatro que procuramos.
Ninguém melhor que Brecht para dirimir esta questão: “temos na verdade, necessidade de um teatro ingênuo, mas não primitivo; poético e não romântico; próximo da realidade, mas não imbuído de politicalha”.
Estes componentes figuram de forma explícita no Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. Um teatro fruto da atuação conjunta de artistas, educadores e comunidade. Da dramaturgia à concepção do espetáculo, tudo é elaborado de forma coletiva, numa perspectiva de, compreendendo a realidade, desnudando suas variadas facetas, cuidar de sua transformação – zelando pelos processos lúdico, crítico e planejado. Este é o objetivo do Teatro Popular de Mané Beiçudo. Um teatro concebido e estruturado para responder às demandas do ensino e da educação.
Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado no portal de Associação dos Professores de São Paulo - Aproesp.
domingo, 21 de junho de 2015
Textos inéditos de José Saramago: a criatividade íntima do escritor
Por FERRAN BONO, no El País
Nobel português anotava as dúvidas e o processo de escrita de seus romances.
Cinco anos após sua morte, o EL PAÍS publica o ‘making of’ de ‘Ensaio sobre a Lucidez’

O escritor José Saramago, na praia Quemada de Lanzarote, onde foi projetado um plano urbanístico ao final paralisado, em uma imagem de 2007 / PEDRO WALTER
Anotava sempre que lhe ocorria uma ideia para começar um romance. Podia ser de madrugada ou viajando de trem. Expressava suas dúvidas sobre a qualidade do que estava escrevendo ou manifestava sua desconfiança sobre o interesse de uma trama quando ele mesmo já estava enfastiado de urdi-la. José Saramagocostumava anotar tudo, inclusive quando, de repente, decidia mudar o título de um romance até que a opinião de sua mulher, Pilar del Río, o fazia desistir e voltar a seu plano original.
Foi o que aconteceu com Ensaio sobre a Lucidez, obra sobre a qual o EL PAÍS publica uma série de textos inéditos (publicados originalmente em espanhol; em português foram publicados pela revista Blimunda, da Fundação Saramago) no quinto aniversário da morte do prêmio Nobel de Literatura de 1998. São notas escritas pelo autor em 2003, durante a redação do livro que seria lançado um ano mais tarde, que mostram o processo criativo, a construção do relato, a maneira como se fez o romance (o que no cinema se chama making of).
Saramago (Santarém, Portugal, 1922-Lanzarote, 2010) narra emEnsaio sobre a Lucidez a história de uma cidade cujos habitantes decidem votar majoritariamente em branco, o que provoca a reação virulenta do Governo. Estes são alguns fragmentos das notas do autor:
4 de fevereiro
“Na noite de 30 para 31 de Janeiro acordei às 3 horas com o pensamento súbito de que o assunto para um novo romance, de que mais ou menos conscientemente andava à procura, afinal já o tinha. Era aquela “revolução branca” de que falei em Madri e Barcelona na apresentação do Homem Duplicado, o voto em branco como única forma eficaz de protesto contra o abençoado sistema “democrático” que nos governa. Como se isto não fosse já suficiente, tive também a repentina, a instantânea certeza de que tal livro, no caso de vir a existir, teria de levar o título de Ensaio sobre a Lucidez, como se o fato de votar em branco na atual situação do mundo fosse um ato exatamente ao contrário daqueles ou da maioria daqueles que noEnsaio sobre a Cegueira se cometeram. Durante estes dias, a convicção de haver acertado em cheio foi-se tornando mais forte (...)”.
17 de março
“(...) Cheguei à conclusão de que o título do romance determina que as personagens sejam as que habitaram as páginas do outro Ensaio, o da cegueira. Provavelmente não todas. Pensei que a mulher do primeiro cego se teria divorciado do marido e que a mãe do rapazinho estrábico apareceu e tomou conta do filho. Os outros —mulher do médico e marido, rapariga dos óculos escuros e velho da venda preta, mantêm-se. E também o cão das lágrimas, que fechará o livro, com a mulher do médico morta ao seu lado, assassinada por aqueles que decidiram que tudo deveria voltar ao bom tempo antigo (...)”.
29 de março
“O primeiro capítulo começará pela descrição (sumária, claro está) da tempestade de chuva e vento que se abate sobre o país. A televisão e a rádio apelam à consciência cívica dos eleitores para que, apesar do mau tempo, não se deixem ficar em casa. Usar o palavreado balofo próprio das ocasiões patrióticas. Entrar em casa das personagens principais: a mulher do médico e o marido (também o cão, que vive com eles), a mulher divorciada do primeiro ladrão, a rapariga dos óculos escuros e o velho da venda preta, mais o rapazinho estrábico (a mãe nunca apareceu, ou sim?), o escritor e a família (toda? Recordo que era casado e creio que tinha filhas). Às quatro horas da tarde todos saem para ir votar (sairão igualmente os habitantes que ainda não haviam votado). Descrição da caminhada sob a chuva. Bairros inundados, bombeiros, barcos. A rádio e a televisão apressam-se a transmitir a notícia do inopinado acontecimento: os eleitores da cidade X estão a dar um extraordinário exemplo de civismo, arrostando com a intempérie para irem cumprir o sagrado dever (...)”.
19 de abril
Sobrevoando o Mediterrâneo.
“A ideia de que as personagens da Cegueira devam reaparecer em Lucidez parece-me cada vez melhor. Se o título do novo livro indicia já uma continuidade, a presença das personagens confirma-o definitivamente. No espírito das autoridades perplexas nascerá a suspeita de que a mulher que não perdeu a visão na Cegueira poderá ter algo que ver com o novo “fenômeno”. Passar dela para aqueles a quem ela havia guiado é uma consequência lógica. Se o romance anterior tinha obedecido escrupulosamente a uma certa lógica, este não poderá ficar atrás (...)”.
3 de junho.
Dia em que Sophia de Mello Breyner ganhou o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana
“O final não será como foi descrito acima. A mulher do médico será assassinada, mas não na varanda das traseiras da casa. Será morta num jardim, aonde tinha levado o cão das lágrimas a passear. O cão começará a uivar e será igualmente morto. Os cegos perguntar-se-ão: Ouviste alguma coisa, Dois tiros, Mas havia também um cão aos uivos, Já se calou, deve ter sido o segundo tiro, Ainda bem, o uivar dos cães faz-me mal aos nervos”.
As obras e as ideias do Nobel seguem vivas
JAVIER MARTÍN, LISBOA
Cinco anos após sua morte, José Saramago está muito presente. Em todo mundo aumentaram os livros sobre ele, as representações teatrais, as traduções, as cátedras e as mostras e até se publicou, postumamente,Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas. “Chama-nos a atenção”, explicou Pilar del Río, viúva do escritor e diretora da Fundação Saramago na quarta-feira em Lisboa, “que, sem nossa iniciativa, muitas televisões recordam esta data”. Na Itália está sendo preparada uma ópera baseada em As Intermitências da Morte, e em São Paulo, a maior mostra sobre o autor no Museu da Língua Portuguesa. Hoje, a Fundação estreia o documentário Um Humanista por Acaso Escritor, do brasileiro Leandro Lopes. E está sendo finalizado um roteiro sobre O Fim da Paciência, obra que nunca chegou a ser apresentada nos palcos.
Suas ideias também não morreram. Em 1998, o primeiro prêmio Nobel português propôs em seu brinde no jantar da Academia sueca criar a Declaração Universal dos Deveres Humanos. “não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que, moralmente, quando não por força da lei, estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra”.
Aquele brinde ao sol foi retomado, 17 anos depois, pela Universidade Autônoma do México, que organiza na próxima quarta-feira um congresso sobre a ideia dos Deveres Humanos. O site Perspectivas do Mundo da UNAM recolheu ideias, e intelectuais de todo o mundo debaterão sobre o futuro que nos aguarda. “José não gostava de ser classificado como intelectual”, recordou Pilar del Río, “ele era um humanista, mas um humanista compassivo”.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
O buraco negro que, na educação, separa qualidade de quantidade
As últimas pesquisas, efetuadas pelo MEC e por organismos internacionais, registram a mediocridade em que se encontra o sistema de ensino brasileiro, sobretudo, no que refere-se à qualidade.
Em torno de 50% dos alunos brasileiros situados na faixa etária dos 15 anos, estão no chamado nível 1 de alfabetização, indicador estabelecido pela Unesco para classificar a performance dos estudantes. Neste patamar, estão aqueles que mal conseguem efetuar leitura e interpretação de textos. Em um dos mais recentes levantamentos, considerando 41 países pesquisados, o Brasil ficou na 37ª posição, à frente apenas de quatro países. No continente americano vencemos apenas o Peru.
A gravidade da situação que estes indicadores desnudam, está a enfatizar que metade dos alunos brasileiros, com bom aproveitamento acadêmico, que desde sempre estiveram na escola, não dominam a língua pátria e são incapazes de extrair dos textos seus significados. Passam quase dez anos na escola regular sem quase nada aprender. É uma pantomina em que todos enganam-se mutuamente: o estado presta contas divulgando inaugurações de novas e mais novas escolas, os pais contentam-se com um espaço onde possam deixar os filhos, qualquer espaço - desde que fora da violência das ruas - e os alunos acomodam-se na ignorância, que não exige esforço, estudos e trabalhos. E o país amplia a distância que o separa dos países desenvolvidos.
Para construirmos uma nova realidade para a educação, urge entendermos o caos em que nos encontramos. É o primeiro passo, identificar com precisão nossos problemas, para que tenhamos condições de encará-los de frente, estabelecendo políticas, diretrizes e estratégias que os conformem aos objetivos e metas traçados. Para criar um país desenvolvido, em que as oportunidades e a justiça sejam patrimônio de todos, será preciso muito mais.
As edificações destinadas ao ensino carecem de reformas, adequações e principalmente, um novo conceito. Estes espaços devem ser reconcebidos. As salas de aula convencionais, não mais respondem às necessidade contemporâneas. O espaço em que interagem professor e aluno deve se ampliar para todo o espaço de convivência comunitária. As ruas, praças e demais logradouros e equipamentos públicos devem ser extensões de nossas salas de aula. Todo o ambiente que nos envolve deve ser utilizado como salas de aula, laboratórios de pesquisas e oficinas de aprendizagem. A realidade é que a escola sempre funcionou como uma instituição externa à sociedade. Sobretudo neste momento em que a violência urbana as têm tangido para o isolamento. Muralhas de concreto armado, cercas eletrificadas, sistemas de monitoramento eletrônico, cães de guarda... vultosos investimentos que deveriam se destinar à área pedagógica, são carreados para o setor de segurança.
De igual modo, os conteúdos ministrados estão defasados, inadequados. Os assuntos são tratados e abordados de forma cartesiana e mecânica, de modo que não exercem fascínio, não exercem encanto sobre os alunos. Agrava o quadro o sistema adotado de remuneração dos professores: salários miseráveis que retiram de um dos principais atores deste processo, o estímulo. Pior, afeta de maneira irremediável a auto-estima dos educadores.
Mas nem tudo foi ou está perdido.
No último século o país investiu na universalização do ensino, massificando a oferta de vagas. E neste sentido, muito foi conquistado. No ano de 2000, a taxa de escolarização da população de 7 a 14 anos - faixa destinada ao ensino fundamental - chegou a 94,5%. É um dado extremamente relevante, que não deve ser ignorado.
Outras conquistas merecem registro. Nos idos de 1940, a taxa de analfabetismo se situava em torno de 65,1% da população com mais de 15 anos de idade. No ano de 2000, esta taxa era de 13,6%. São indicadores que ainda não satisfazem ao anseio de progresso e desenvolvimento da sociedade, mas enfatizam categoricamente que é possível avançar quando há vontade política e determinação.
É evidente que muito ainda há o que fazer. Quando cotejamos estes dados com os dos demais países - inclusive os latino-americanos - é que percebemos o quanto estamos atrasados. Mas ignorar os progressos obtidos até aqui seria um erro tão elementar quanto o de ignorar a necessidade de novos e urgentes investimentos, agora priorizando a qualidade e não a quantidade.
Assim como estamos ganhando a batalha da massificação da oferta de vagas, deveremos agora enfocar o desafio de massificar a qualidade.
E qualidade refere-se, sem dúvida, à edificações, conteúdos e didáticas adequadas. Mas refere-se também à criação de um eficiente e continuado processo de qualificação da mão de obra, o que inclui a adoção de vigorosos processos de capacitação, planos de progressão funcional, e de políticas salariais consistentes.
Direção, professores, servidores e comunidade, devem estar plenamente engajados na construção deste novo cenário, onde a universalização se dê pelo acesso, como também pela qualidade.
Hoje, na área da educação, é visível o descompasso entre estes dois componentes: quantidade e qualidade. E mais: o buraco negro que separa o acesso (quase universalizado) da qualidade do ensino, compromete de maneira determinante nosso desenvolvimento social, fazendo com que gerações e gerações percam sonhos e oportunidades.
Responder, com sabedoria e rapidez, a este desafio é o que está na ordem do dia.
Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal Goiás Educação.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
O resgate do Estado de bem-estar
O legado mais negativo da crise, para Garrido, é um modelo social europeu ferido de morte
JOAQUÍN ESTEFANÍA, no El País

Manifestação de fevereiro em Atenas em apoio ao Governo grego. / AFP
As metáforas para definir o que nos aconteceu nos últimos sete anos se tornam mais sofisticadas. Durante muito tempo bastava falar de Grande Recessão, mas o conceito foi se tornando insuficiente. Da mesma forma que Yanis Varoufakis, antes de ser famoso e ministro das Finanças do Governo grego, a chamou de “Minotauro global”, López Garrido analisa como “a idade do gelo”, uma etapa fria e dura que não constituirá um mero intervalo entre duas eras de normalidade e afetará, principalmente, o hemisfério norte. Durante a primitiva Idade do Gelo, extensas regiões da Terra ficaram cobertas pelo gelo, o clima esfriou em todo o planeta e o nível dos mares e dos rios diminuiu, já que a maior parte congelou. Na atual idade do gelo, congelou, acima de tudo, o dinheiro, o alimento da economia da nossa era: congelaram as artérias do sistema, os bancos, e, em especial, congelou o coração da economia, sua pulsação produtiva e trabalhista, e entrou em um período de sono invernal, freando o crescimento e o emprego.
Agora que muito timidamente começam a surgir os sintomas do descongelamento, o principal é estabelecer o legado de tal glaciação econômica. Essa herança tem três grandes componentes: um poder financeiro incontrolável, um modelo social ferido gravemente e um Estado sem poder tributário, que é o eixo do poder político. O primeiro dos três parece um paradoxo: tendo todos os problemas começado nocoração financeiro do mundo, Wall Street, e tendo contagiado o resto do sistema com abusos, irregularidades e roubos, quem primeiro sai, com mais poder do que nunca, com as mesmas formas de agir e com o orgulho de quem se considera superior, é o próprio sistema financeiro, e o faz com gestores parecidos (se não os mesmos) depois de ter usado para sua normalização mais e mais dinheiro público; ou seja, de todos os cidadãos.
O modelo social não é idêntico no mundo todo. Em muitas partes, nem sequer existe. Nem mesmo na velha Europa, que é a zona onde mais se desenvolveu, é comum aos diferentes países. Mas havia sim um denominador que se repetia: o alto nível de proteção social, ajudas especiais aos setores mais vulneráveis da sociedade, uma posição beligerante dos poderes públicos sobre o emprego, uma presença determinante destes poderes na definição de uma autêntica política social, que não se deixava ao arbítrio do mercado, e um papel crucial dos interlocutores sociais. Durante essa crise, tudo isso foi enfraquecido intencionalmente; primeiro, deslegitimando (contribui para a ineficácia, tira potencial de crescimento, gerou privilégios) e, a seguir, cortando as vias de financiamento, tornando mais frágil.
E aqui chegamos ao último componente da herança da crise, a verdadeira obsessão de López Garrido nesse livro e em seus artigos na imprensa, o núcleo duro de seu pensamento: a destruição do sistema fiscal através da redução de impostos, a sonegação fiscal, a evasão fiscal legal, a multiplicação dos paraísos fiscais, a aceitação de uma taxação mínima a muitas multinacionais, em uma espécie dedumping fiscal sistemático. Para o autor desse texto, foram sendo substituídos os impostos (que são pagos segundo o poder aquisitivo e a propriedade dos contribuintes, e que seriam devolvidos em forma de contrapartidas) por dívida pública (que afeta todos os cidadãos e se devolve a quem empresta o dinheiro: os bancos). Isso ativou o mecanismo pelo qual essa crise, que começou sendo do capitalismo, acabou se tornado uma crise da dívida (o outro mecanismo é a socialização das perdas, de modo que a gigantesca dívida privada, o “ópio das classes médias”, passou a ser dívida pública).
O outro ponto incisivo do autor é o papel da Europa nesse período, em especial em relação aos EUA. López Garrido analisa como as dificuldades econômicas atingiram a União Europeia e o bloco não foi capaz de acelerar os tempos por falta de vontade política, e porque nem todos os países se saíram tão mal, porque alguns eram credores (os mais fortes, com a Alemanha à frente) e outros eram devedores (os países do sul).
A austeridade tem sido uma política que expressa macroeconomicamente a luta de classes que, como disse Warren Buffet, está sendo ganha de goleada pelos seus, ou seja, os mais poderosos. O principal papel dos intelectuais e analistas é buscar os responsáveis pelo ocorrido e desmascará-los, porque, se não, além de cornos, espancados: os cidadãos, além de serem os grandes pagadores dos abusos provenientes das instituições financeiras e de outros centros de poder, serão os culpados por “terem vivido acima de suas possibilidades”. Um duplo saque.
La edad de hielo (A Idade do Gelo). Diego López Garrido. RBA. Barcelona, 2014. 447 páginas.
domingo, 21 de dezembro de 2014
sábado, 20 de dezembro de 2014
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Alice Caymmi mostra sonoridade própria em "Rainha do raios"
Expoente da terceira geração dos Caymmi, cantora modernizou clássicos que fizeram história, surpreendeu na escolha do eclético repertório do segundo disco e agradou com composições próprias.


Da Deutsche Welle
Não poderia haver título mais adequado para o segundo disco de Alice Caymmi: Rainha do raios. Neta de Dorival, filha de Danilo e sobrinha de Nana, a cantora de 24 anos modernizou clássicos que fizeram sua história, surpreendeu na escolha do eclético repertório e agradou com duas composições próprias.
O disco, lançado em setembro, marca uma mudança profunda em relação ao primeiro álbum, de 2012. "O primeiro disco nasceu meio do nada. Pensei que tinha que começar esse negócio. Compilei um material que estava trabalhando desde a adolescência e entrei no estúdio. Aquelas palavras não condizem mais com quem eu sou hoje. Mudo muito rápido", disse a cantora em conversa com a DW Brasil.
Alice está desbravando com sucesso um caminho difícil: de fazer a MPB que reverencia seu passado, mas olha para o futuro. A expoente da terceira geração da emblemática família Caymmi nunca quis fugir ao destino da família. A música sempre foi algo muito vivo em sua vida.
"Minha voz sempre foi minha qualidade, a coisa mais valiosa que eu carrego em mim. Nunca tentei negar isso. Sou formada em teatro e meu primeiro teste foi para um musical. Percebi que o que valorizavam em mim era a minha voz", diz a artista.
Mesmo com o peso de ser a voz da nova geração de uma das mais importantes famílias da música brasileira, a cantora disse que nunca se deixou paralisar pelo medo ou por pressões externas. "Se eu começasse a ter medo, não me mexia".
Para Alice, o legado mais importante que seu avô deixou foi a benção em sua carreira. "Antes dele morrer, ele me deu uma grande aprovação verbal. Ele ouviu algumas das minhas músicas e adorou que eu estava fazendo meu próprio negócio. Ele me elogiou à beça. Foi isso que ele deixou para mim".
Rainha da tempestade
O último disco nasceu de um encontro com o produtor Diogo Strauss, músico carioca ligado à cena eletrônica da cidade. "Foi uma parceria muito melhor do que esperávamos. Nos conhecemos desde a adolescência. De repente, vi que ele estava mudando, fazendo coisas muito interessantes. Quando sugeri trabalharmos juntos, ele me convidou imediatamente para ir na sua casa e fizemos uma música", conta a cantora.
O resultado dessa parceria foi Iansã. A composição de Caetano Veloso e Gilberto Gil, lançada em 1972 na voz de Maria Bethânia foi o primeiro retrato de uma artista que estava encontrando seu caminho e usando suas qualidade a seu favor.
A regravação foi um sucesso na internet, e o disco começou a tomar forma. Seu título foi tirado da letra da canção. "Tem um orixá que é a rainha das tempestades. Ela é a verdadeira rainha dos raios. No disco, sou uma versão moderna dela".
Em Rainha dos raios, ela ainda deu seu toque pessoal a duas outras músicas de Caetano: Jasper eHomem, essa com uma apropriação poderosa do eu masculino do baiano e com um moderno e criativo arranjo. Outro clássico que ganhou nova roupagem foi Meu Mundo Caiu de Maysa. Sem medo de ousar, ela se apropriou com sucesso das palavras do MC Marcinho na dramática Princesa.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Allende e Neruda, em tinta verde
Um ensaio explora pela primeira vez a relação entre o ex-presidente e o Nobel chilenos e revela as cartas que trocaram entre 1969 e 1973

Salvador Allende e Pablo Neruda. / FUNDACIÓN ALLENDE
Por ROCÍO MONTES, No El País
Eles provavelmente são duas das personalidades chilenas de maior destaque no século XX: o ex-presidente socialista Salvador Allende eo prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda, um militante comunista. Nascido com quatro anos de diferença — o escritor em 1904 e o mandatário em 1908 —, os dois foram dedicados homens de esquerda, que cultivaram por décadas uma relação pouco explorada, que só terminou com suas respectivas mortes: a de Allende no mesmo dia do Golpe de Estado de 1973, e a de Neruda, 12 dias depois, em uma clínica de Santiago. O ensaio Pablo Neruda y Salvador Allende – Una Amistad, una Historia (Pablo Neruda e Salvador Allende – Uma Amizade, uma História), que será lançado nesta semana em Santiago, é a primeira pesquisa em 41 anos sobre a relação dos dois, que se conheceram antes de 1939.
“Como é possível que dois homens da mesma geração, mas de origens sociais distintas — Allende da pequena burguesia e Neruda da classe média baixa —, chegassem a defender com tanta força uma mesma ideologia política nos anos 70?” é a pergunta central que o autor, o historiador chileno Abraham Quezada, tenta responder.
O texto está cheio de ricos detalhes e, em um de seus capítulos, apresenta 15 cartas trocadas pelos dois homens entre 1969 e 1973, a maioria delas inédita. Como a que Neruda escreveu em setembro de 1970, quando Allende ganhou as eleições presidenciais em sua quarta tentativa, e que denota uma intimidade entre eles. “Querido Salvador: Não fui cumprimentá-lo porque estive cumprimentando a mim mesmo. Suponho que tenhamos conseguido destruir a conspiração. Isso prova que é preciso bater neles com força. O momento já vai chegar”, escreveu o poeta de sua casa em Isla Negra, a cerca de 100 quilômetros de Santiago, com sua tradicional caneta de tinta verde. Nessa carta, o escritor comenta ao presidente eleito alguns detalhes sobre a cerimônia de posse: “Deveríamos convidar alguns intelectuais estrangeiros para a troca da faixa. Para isso, gostaria de conversar com você, mandar uma provável lista. Mas eu teria que fazer os convites desde já ou mandar alguém fazer isso. Eu posso convidar por telegrama”. Neruda também aproveitava para animar Allende a comemorarem juntos a festa da pátria chilena: “No dia 18, comeremos um cervo que Matilde vai preparar. Se você vier com Tencha, seria fantástico comemorar a vitória com um cervo. Abraços entre os abraços, Pablo”.
Quezada se especializou durante décadas no estudo da figura de Neruda e, sobretudo, em sua dimensão epistolar: “É a forma mais pura de autobiografia”, afirma. Doutor em Relações Internacionais e diplomata de carreira, escreveu oito livros sobre o Nobel e relata que a relação que cultivou com Allende era de franca amizade e cumplicidade política: “Com as cartas fica em evidência a proximidade entre os dois, não só pelos reconhecimentos, saudações e visitas, mas também porque estão atentos a aspectos privados um do outro, como as datas de aniversário e as de suas respectivas cônjuges. Esmeram-se por conhecer os estados de saúde, trocam opiniões, aconselham-se”. Tinham muitas coisas em comum, como “um profundo interesse social, o gosto pela comida e por coleções — Neruda de objetos e Allende de roupas —, o hábito de fazer a sesta. Apesar de não serem agraciados fisicamente, os dois também eram sedutores e homens de muitas mulheres”.
O presidente e o escritor, no entanto, também tiveram importantes divergências. A mais relevante ocorreu quando Neruda era o embaixador do Governo da Unidade Popular na França e pediu que seu amigo, o escritor Jorge Edwards, fosse transferido a Paris para colaborar com ele. Mas Edwards recentemente tinha sido expulso de Cuba, onde realizava trabalhos diplomáticos, e Fidel Castro pediu a Allende para expulsá-lo do serviço diplomático. Quezada relata que, diante da negativa do presidente em transferi-lo, Neruda ameaçou renunciar. O socialista finalmente cedeu: “Foi a única vez que o poeta deu o braço a torcer ao governante”. De qualquer forma, os conflitos não prejudicaram essa amizade, que teve como elemento-chave a simpatia que a esposa de Neruda tinha por Allende, Hortensia Bussi: “Não era fácil incorporar-se ao círculo íntimo nerudiano nesse momento, se não se contasse com a aprovação de Matilde”, destaca o autor.
Para escrever o livro, Quezada procurou documentos em diferentes lugares do mundo. O historiador destaca que a carta datada de setembro de 1970 estava entre os documentos que uma das filhas do presidente, Tati Allende, conseguiu salvar depois do Golpe e guardou durante seu exílio em Havana, antes de tirar a própria vida em 1977. O Governo cubano os conservou durante décadas e entre 2008 e 2009 voltaram ao Chile, à Fundação Allende. Desde então, conta Quezada, nunca tinham ido a público.
No próprio pacote de cartas salvas estava outra que foi escrita por Neruda como embaixador na França, cargo que assumiu no início de 1971. Nessa carta o escritor informava ao presidente de um escritório comercial ligado às autoridades democratas-cristãs anteriores que, segundo Neruda acreditava, uma urna eleitoral poderia ter sido escondida. “É altamente irregular e deve ser resolvido”, destaca o Nobel. O escrito reflete um fato pouco comum no serviço diplomático: que um embaixador escrevesse diretamente ao presidente, pulando toda a linha de comando da Chancelaria. Neruda concluía destacando que “esta carta é confidencial e para o uso pessoal do colega presidente”. “Seguem dois anexos importantes. Um grande abraço para Tencha e, para ti, meus melhores desejos. Não poderíamos ter um Presidente melhor. Pablo Neruda”. O pesquisador afirma que “o poeta costumava concluir suas missivas estimulando-o politicamente”.
Há uma carta importante, segundo o pesquisador, que Neruda escreveu em 3 de novembro de 1972 e na qual expõe as gestões feitas em relação ao embargo de cobre e o papel da justiça francesa. “O objetivo da carta é advertir de alguma maneira o perigo de uma atitude totalmente otimista diante das dificuldades que estamos vendo e sentindo a cada dia”, destaca Neruda, em um franco conselho político em relação ao presidente.
Mas o livro também contempla cartas do chefe de Estado para o poeta. Segundo Quezada, “a redação e o estilo epistolar de Allende são, em geral, de frases breves, mas emotivas”. “Quando escreve à mão, o faz com uma letra emaranhada, de difícil leitura, própria de um médico, ficando a impressão de que escrevia como falava”. Em junho de 1972, por exemplo, o chefe de Estado escreve uma carta que dá conta da preocupação do entorno político por o delicado estado de saúde de Neruda, radicado em Paris, sofrendo de câncer de próstata. “Penso que seria bom para vocês Isla Negra — o calor do povo, o Partido, a terra natal — e os amigos de sempre”, aconselhou-o Allende nessa carta escrita de próprio punho.
No dia 18, comeremos um cervo que Matilde vai preparar. Se você vier com Tencha, será fantástico comemorar a vitória com um cervo
Neruda finalmente voltou ao Chile em novembro de 1972. A última vez que se viram antes do Golpe de Estado foi em julho do ano seguinte, para o aniversário de 69 anos do poeta, seu último. Nessa ocasião, o presidente deu de presente uma fotografia em que aparecem juntos, dedicada com uma caneta de tinta verde, semelhante à que o poeta usava: “Para Matilde e Pablo com carinho e afeto do companheiro presidente”. Dois meses depois, os dois estavam mortos. Nenhum deles chegou a ser testemunha do destino obscuro do Chile nos 17 anos seguintes.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Argentina, a literatura da perda
Desde a ditadura militar dos anos setenta, as letras argentinas foram violentamente atravessadas pela comoção da dor, da ausência e do exílio

Juan Gelman e sua esposa. / JOSÉ NAVARRO
Por DAVID MARCIAL PÉREZ, no El País
O ano 1976 foi um divisor de águas na história argentina. A ditadura instaurada pelo golpe militar daquele ano viria a se tornar o regime mais macabro e atroz de todos os que já dominaram o país. “15.000 desaparecidos, 10.000 presos, 4.000 mortos, milhares de desterrados, são as cifras nuas desse terror”, escreveu Rodolfo Walsh em 1977. As cifras nuas continuariam crescendo, encarnadas no próprio Walsh, assassinado naquele mesmo ano. Outros autores, como Julio Cortázar e Juan Gelman, haviam saído do país antes do golpe e não puderam voltar. Os que ficaram viveram sob a mira da violência política. A literatura argentina, acostumada a tecer seu universo estético a partir da turbulenta matéria-prima da sua história, foi, a partir dos anos setenta, arremetida de forma profunda e definitiva pela comoção da dor, da ausência e do exílio.
“As marcas da última ditadura militar podem ser rastreadas na produção das novas gerações. Todorov argumenta que um país que sofreu os campos de concentração tem o coração comido pelos vermes. Esses vermes são os que nutrem explícita ou tacitamente uma escrita que simula tomar distância desse período negro”, afirma o escritor Guillermo Saccomanno. O regime militar promoveu uma fratura entre o dentro e o fora. As vozes dissidentes deviam ser silenciadas ou expulsas. Cortázar, de fora, definiu a situação em 1978 como um “genocídio cultural”. Entre os que ficaram dentro, Ernesto Sábato respondia que a cultura argentina, apesar das limitações, prosseguia. O autor de O Túnel possivelmente se referia a artefatos de precisão vanguardista como Cuerpo Velado, de Luis Gusmán, eEma la Cautiva, de César Aira, mas sem dúvida a maior lembrança do antagonismo daquela época é a foto de Jorge Luis Borges, Horacio Esteban Ratti, Leonardo Castellani e o próprio Sábato compartilhando mesa e talheres com o ditador Jorge Rafael Videla.
Essa polarização já estava presente em meados do século XIX num autor como Esteban Echeverría. Em sua obra O Matadouro, considerado o primeiro conto argentino, utiliza as cenas de um matadouro de Buenos Aires como alegoria da brutalidade do regime de Juan Manuel de Rosas. A escritora e dramaturga Fernanda García Lao, nascida no exílio, aponta outro livro seminal para entender o funcionamento dialético da história e da literatura argentina: Facundo, ou Civilização e Barbárie. “É uma civilização violenta mas também com muita intelectualidade. Ferramentas literárias são usadas para entender as coisas, como a narrativa ou o conto. A realidade se constrói por intermédio de um discurso literário, e não ao contrário. E sempre há uma dicotomia, nunca é de uma só maneira.”
O componente fantástico que marca grande parte de literatura latino-americana moderna serve também no caso argentino para poder contar o que não se pode dizer. A obra de Cortázar, desde o seu exílio voluntário na França, foi ganhando ressonâncias políticas já a partir do seu deslumbramento com a Revolução Cubana. Seu conto Segunda Vez, de 1977, com apenas seis páginas, descreve o desaparecimento de um grupo de pessoas em circunstâncias misteriosas. Mas os personagens não são já meros cronópios saídos dos sonhos, e sim pessoas reais, que vivem o horror como algo verossímil e cotidiano.
Bioy Casares, outro mestre do fantástico, foi contemporâneo de Cortázar. Elogiaram-se mutuamente, foram amigos, mas também tinham profundas diferenças. Bioy nunca sofreu com a censura e jamais abandonou sua casa portenha, onde com muita frequência recebia Borges para o jantar. “É um intelectual de marca conservadora, um dândi, afastado do compromisso político, excetuando seu antiperonismo furioso, igual a Borges. Não obstante, sua escrita reflete um interesse pela língua plebeia, pelo popular e uma busca do cotidiano que se torna contraditória com seu antipopulismo”, afirma Saccomanno.
De novo essa luta entre opostos desempenha um papel central napoesia de Juan Gelman. Sua forte consciência política o levou a viajar à Europa como porta-voz do movimento Montonero, que logo abandonou. O golpe militar aconteceu quando ele estava na Itália e, do exílio, padeceu o assassinato do filho, da nora e o sequestro da neta. Durante os primeiros sete anos de exílio, sua voz literária ficou muda. “Sua poesia está atravessada por uma tensão entre polos opostos: a plenitude e o murcho, a memória e o esquecimento, a unidade e o desmembramento, a beleza e o espanto, o que arde livre e o oprimido. Sua palavra se joga em um torvelinho de forças contrárias”, explica Jorge Boccanera, amigo de Gelman, também poeta e exilado.
Depois de um longo e tenaz trabalho de busca, no ano 2000 reencontrou-se com a neta Maria Macarena Gelman, uma das centenas de crianças sequestradas e entregues a casais sem filhos afeiçoados à ditadura em outra de suas tentativas criminosas de apagar a memória. A escritora Ángela Pradelli, que acaba de publicar um livro que recupera a vida de cinco dessas crianças, recorda que “as histórias das pessoas que recuperaram sua identidade envolvem a todos. Contam o desmoronamento de um país inteiro em mãos de um Estado terrorista. A ruptura que o roubo de crianças significou em suas vidas instalou ao mesmo tempo uma fratura na sociedade. A ferida no corpo e na subjetividade das vítimas também foi cometida no corpo social”.
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