domingo, 21 de junho de 2015

Textos inéditos de José Saramago: a criatividade íntima do escritor


Por FERRAN BONO, no El País

Nobel português anotava as dúvidas e o processo de escrita de seus romances.

Cinco anos após sua morte, o EL PAÍS publica o ‘making of’ de ‘Ensaio sobre a Lucidez’




O escritor José Saramago, na praia Quemada de Lanzarote, onde foi projetado um plano urbanístico ao final paralisado, em uma imagem de 2007 / PEDRO WALTER

Anotava sempre que lhe ocorria uma ideia para começar um romance. Podia ser de madrugada ou viajando de trem. Expressava suas dúvidas sobre a qualidade do que estava escrevendo ou manifestava sua desconfiança sobre o interesse de uma trama quando ele mesmo já estava enfastiado de urdi-la. José Saramagocostumava anotar tudo, inclusive quando, de repente, decidia mudar o título de um romance até que a opinião de sua mulher, Pilar del Río, o fazia desistir e voltar a seu plano original.

Foi o que aconteceu com Ensaio sobre a Lucidez, obra sobre a qual o EL PAÍS publica uma série de textos inéditos (publicados originalmente em espanhol; em português foram publicados pela revista Blimunda, da Fundação Saramago) no quinto aniversário da morte do prêmio Nobel de Literatura de 1998. São notas escritas pelo autor em 2003, durante a redação do livro que seria lançado um ano mais tarde, que mostram o processo criativo, a construção do relato, a maneira como se fez o romance (o que no cinema se chama making of).
Saramago (Santarém, Portugal, 1922-Lanzarote, 2010) narra emEnsaio sobre a Lucidez a história de uma cidade cujos habitantes decidem votar majoritariamente em branco, o que provoca a reação virulenta do Governo. Estes são alguns fragmentos das notas do autor:

4 de fevereiro

“Na noite de 30 para 31 de Janeiro acordei às 3 horas com o pensamento súbito de que o assunto para um novo romance, de que mais ou menos conscientemente andava à procura, afinal já o tinha. Era aquela “revolução branca” de que falei em Madri e Barcelona na apresentação do Homem Duplicado, o voto em branco como única forma eficaz de protesto contra o abençoado sistema “democrático” que nos governa. Como se isto não fosse já suficiente, tive também a repentina, a instantânea certeza de que tal livro, no caso de vir a existir, teria de levar o título de Ensaio sobre a Lucidez, como se o fato de votar em branco na atual situação do mundo fosse um ato exatamente ao contrário daqueles ou da maioria daqueles que noEnsaio sobre a Cegueira se cometeram. Durante estes dias, a convicção de haver acertado em cheio foi-se tornando mais forte (...)”.

17 de março

“(...) Cheguei à conclusão de que o título do romance determina que as personagens sejam as que habitaram as páginas do outro Ensaio, o da cegueira. Provavelmente não todas. Pensei que a mulher do primeiro cego se teria divorciado do marido e que a mãe do rapazinho estrábico apareceu e tomou conta do filho. Os outros —mulher do médico e marido, rapariga dos óculos escuros e velho da venda preta, mantêm-se. E também o cão das lágrimas, que fechará o livro, com a mulher do médico morta ao seu lado, assassinada por aqueles que decidiram que tudo deveria voltar ao bom tempo antigo (...)”.

29 de março

“O primeiro capítulo começará pela descrição (sumária, claro está) da tempestade de chuva e vento que se abate sobre o país. A televisão e a rádio apelam à consciência cívica dos eleitores para que, apesar do mau tempo, não se deixem ficar em casa. Usar o palavreado balofo próprio das ocasiões patrióticas. Entrar em casa das personagens principais: a mulher do médico e o marido (também o cão, que vive com eles), a mulher divorciada do primeiro ladrão, a rapariga dos óculos escuros e o velho da venda preta, mais o rapazinho estrábico (a mãe nunca apareceu, ou sim?), o escritor e a família (toda? Recordo que era casado e creio que tinha filhas). Às quatro horas da tarde todos saem para ir votar (sairão igualmente os habitantes que ainda não haviam votado). Descrição da caminhada sob a chuva. Bairros inundados, bombeiros, barcos. A rádio e a televisão apressam-se a transmitir a notícia do inopinado acontecimento: os eleitores da cidade X estão a dar um extraordinário exemplo de civismo, arrostando com a intempérie para irem cumprir o sagrado dever (...)”.

19 de abril

Sobrevoando o Mediterrâneo.
“A ideia de que as personagens da Cegueira devam reaparecer em Lucidez parece-me cada vez melhor. Se o título do novo livro indicia já uma continuidade, a presença das personagens confirma-o definitivamente. No espírito das autoridades perplexas nascerá a suspeita de que a mulher que não perdeu a visão na Cegueira poderá ter algo que ver com o novo “fenômeno”. Passar dela para aqueles a quem ela havia guiado é uma consequência lógica. Se o romance anterior tinha obedecido escrupulosamente a uma certa lógica, este não poderá ficar atrás (...)”.

3 de junho.

Dia em que Sophia de Mello Breyner ganhou o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana
“O final não será como foi descrito acima. A mulher do médico será assassinada, mas não na varanda das traseiras da casa. Será morta num jardim, aonde tinha levado o cão das lágrimas a passear. O cão começará a uivar e será igualmente morto. Os cegos perguntar-se-ão: Ouviste alguma coisa, Dois tiros, Mas havia também um cão aos uivos, Já se calou, deve ter sido o segundo tiro, Ainda bem, o uivar dos cães faz-me mal aos nervos”.

As obras e as ideias do Nobel seguem vivas

JAVIER MARTÍN, LISBOA
Cinco anos após sua morte, José Saramago está muito presente. Em todo mundo aumentaram os livros sobre ele, as representações teatrais, as traduções, as cátedras e as mostras e até se publicou, postumamente,Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas. “Chama-nos a atenção”, explicou Pilar del Río, viúva do escritor e diretora da Fundação Saramago na quarta-feira em Lisboa, “que, sem nossa iniciativa, muitas televisões recordam esta data”. Na Itália está sendo preparada uma ópera baseada em As Intermitências da Morte, e em São Paulo, a maior mostra sobre o autor no Museu da Língua Portuguesa. Hoje, a Fundação estreia o documentário Um Humanista por Acaso Escritor, do brasileiro Leandro Lopes. E está sendo finalizado um roteiro sobre O Fim da Paciência, obra que nunca chegou a ser apresentada nos palcos.
Suas ideias também não morreram. Em 1998, o primeiro prêmio Nobel português propôs em seu brinde no jantar da Academia sueca criar a Declaração Universal dos Deveres Humanos. “não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que, moralmente, quando não por força da lei, estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra”.
Aquele brinde ao sol foi retomado, 17 anos depois, pela Universidade Autônoma do México, que organiza na próxima quarta-feira um congresso sobre a ideia dos Deveres Humanos. O site Perspectivas do Mundo da UNAM recolheu ideias, e intelectuais de todo o mundo debaterão sobre o futuro que nos aguarda. “José não gostava de ser classificado como intelectual”, recordou Pilar del Río, “ele era um humanista, mas um humanista compassivo”.

    segunda-feira, 15 de junho de 2015

    O buraco negro que, na educação, separa qualidade de quantidade


    As últimas pesquisas, efetuadas pelo MEC e por organismos internacionais, registram a mediocridade em que se encontra o sistema de ensino brasileiro, sobretudo, no que refere-se à qualidade.

    Em torno de 50% dos alunos brasileiros situados na faixa etária dos 15 anos, estão no chamado nível 1 de alfabetização, indicador estabelecido pela Unesco para classificar a performance dos estudantes. Neste patamar, estão aqueles que mal conseguem efetuar leitura e interpretação de textos. Em um dos mais recentes levantamentos, considerando 41 países pesquisados, o Brasil ficou na 37ª posição, à frente apenas de quatro países. No continente americano vencemos apenas o Peru.

    A gravidade da situação que estes indicadores desnudam, está a enfatizar que metade dos alunos brasileiros, com bom aproveitamento acadêmico, que desde sempre estiveram na escola, não dominam a língua pátria e são incapazes de extrair dos textos seus significados. Passam quase dez anos na escola regular sem quase nada aprender. É uma pantomina em que todos enganam-se mutuamente: o estado presta contas divulgando inaugurações de novas e mais novas escolas, os pais contentam-se com um espaço onde possam deixar os filhos, qualquer espaço - desde que fora da violência das ruas - e os alunos acomodam-se na ignorância, que não exige esforço, estudos e trabalhos. E o país amplia a distância que o separa dos países desenvolvidos.

    Para construirmos uma nova realidade para a educação, urge entendermos o caos em que nos encontramos. É o primeiro passo, identificar com precisão nossos problemas, para que tenhamos condições de encará-los de frente, estabelecendo políticas, diretrizes e estratégias que os conformem aos objetivos e metas traçados. Para criar um país desenvolvido, em que as oportunidades e a justiça sejam patrimônio de todos, será preciso muito mais.

    As edificações destinadas ao ensino carecem de reformas, adequações e principalmente, um novo conceito. Estes espaços devem ser reconcebidos. As salas de aula convencionais, não mais respondem às necessidade contemporâneas. O espaço em que interagem professor e aluno deve se ampliar para todo o espaço de convivência comunitária. As ruas, praças e demais logradouros e equipamentos públicos devem ser extensões de nossas salas de aula. Todo o ambiente que nos envolve deve ser utilizado como salas de aula, laboratórios de pesquisas e oficinas de aprendizagem. A realidade é que a escola sempre funcionou como uma instituição externa à sociedade. Sobretudo neste momento em que a violência urbana as têm tangido para o isolamento. Muralhas de concreto armado, cercas eletrificadas, sistemas de monitoramento eletrônico, cães de guarda... vultosos investimentos que deveriam se destinar à área pedagógica, são carreados para o setor de segurança.

    De igual modo, os conteúdos ministrados estão defasados, inadequados. Os assuntos são tratados e abordados de forma cartesiana e mecânica, de modo que não exercem fascínio, não exercem encanto sobre os alunos. Agrava o quadro o sistema adotado de remuneração dos professores: salários miseráveis que retiram de um dos principais atores deste processo, o estímulo. Pior, afeta de maneira irremediável a auto-estima dos educadores.

    Mas nem tudo foi ou está perdido.

    No último século o país investiu na universalização do ensino, massificando a oferta de vagas. E neste sentido, muito foi conquistado. No ano de 2000, a taxa de escolarização da população de 7 a 14 anos - faixa destinada ao ensino fundamental - chegou a 94,5%. É um dado extremamente relevante, que não deve ser ignorado.

    Outras conquistas merecem registro. Nos idos de 1940, a taxa de analfabetismo se situava em torno de 65,1% da população com mais de 15 anos de idade. No ano de 2000, esta taxa era de 13,6%. São indicadores que ainda não satisfazem ao anseio de progresso e desenvolvimento da sociedade, mas enfatizam categoricamente que é possível avançar quando há vontade política e determinação.

    É evidente que muito ainda há o que fazer. Quando cotejamos estes dados com os dos demais países - inclusive os latino-americanos - é que percebemos o quanto estamos atrasados. Mas ignorar os progressos obtidos até aqui seria um erro tão elementar quanto o de ignorar a necessidade de novos e urgentes investimentos, agora priorizando a qualidade e não a quantidade.

    Assim como estamos ganhando a batalha da massificação da oferta de vagas, deveremos agora enfocar o desafio de massificar a qualidade.

    E qualidade refere-se, sem dúvida, à edificações, conteúdos e didáticas adequadas. Mas refere-se também à criação de um eficiente e continuado processo de qualificação da mão de obra, o que inclui a adoção de vigorosos processos de capacitação, planos de progressão funcional, e de políticas salariais consistentes.

    Direção, professores, servidores e comunidade, devem estar plenamente engajados na construção deste novo cenário, onde a universalização se dê pelo acesso, como também pela qualidade.

    Hoje, na área da educação, é visível o descompasso entre estes dois componentes: quantidade e qualidade. E mais: o buraco negro que separa o acesso (quase universalizado) da qualidade do ensino, compromete de maneira determinante nosso desenvolvimento social, fazendo com que gerações e gerações percam sonhos e oportunidades.

    Responder, com sabedoria e rapidez, a este desafio é o que está na ordem do dia.

    Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal Goiás Educação.

    segunda-feira, 8 de junho de 2015

    BIRDMAN


    segunda-feira, 1 de junho de 2015

    O resgate do Estado de bem-estar

    O legado mais negativo da crise, para Garrido, é um modelo social europeu ferido de morte


    JOAQUÍN ESTEFANÍA, no El País



    Manifestação de fevereiro em Atenas em apoio ao Governo grego. / AFP

    As metáforas para definir o que nos aconteceu nos últimos sete anos se tornam mais sofisticadas. Durante muito tempo bastava falar de Grande Recessão, mas o conceito foi se tornando insuficiente. Da mesma forma que Yanis Varoufakis, antes de ser famoso e ministro das Finanças do Governo grego, a chamou de “Minotauro global”, López Garrido analisa como “a idade do gelo”, uma etapa fria e dura que não constituirá um mero intervalo entre duas eras de normalidade e afetará, principalmente, o hemisfério norte. Durante a primitiva Idade do Gelo, extensas regiões da Terra ficaram cobertas pelo gelo, o clima esfriou em todo o planeta e o nível dos mares e dos rios diminuiu, já que a maior parte congelou. Na atual idade do gelo, congelou, acima de tudo, o dinheiro, o alimento da economia da nossa era: congelaram as artérias do sistema, os bancos, e, em especial, congelou o coração da economia, sua pulsação produtiva e trabalhista, e entrou em um período de sono invernal, freando o crescimento e o emprego.

    Agora que muito timidamente começam a surgir os sintomas do descongelamento, o principal é estabelecer o legado de tal glaciação econômica. Essa herança tem três grandes componentes: um poder financeiro incontrolável, um modelo social ferido gravemente e um Estado sem poder tributário, que é o eixo do poder político. O primeiro dos três parece um paradoxo: tendo todos os problemas começado nocoração financeiro do mundo, Wall Street, e tendo contagiado o resto do sistema com abusos, irregularidades e roubos, quem primeiro sai, com mais poder do que nunca, com as mesmas formas de agir e com o orgulho de quem se considera superior, é o próprio sistema financeiro, e o faz com gestores parecidos (se não os mesmos) depois de ter usado para sua normalização mais e mais dinheiro público; ou seja, de todos os cidadãos.
    O modelo social não é idêntico no mundo todo. Em muitas partes, nem sequer existe. Nem mesmo na velha Europa, que é a zona onde mais se desenvolveu, é comum aos diferentes países. Mas havia sim um denominador que se repetia: o alto nível de proteção social, ajudas especiais aos setores mais vulneráveis da sociedade, uma posição beligerante dos poderes públicos sobre o emprego, uma presença determinante destes poderes na definição de uma autêntica política social, que não se deixava ao arbítrio do mercado, e um papel crucial dos interlocutores sociais. Durante essa crise, tudo isso foi enfraquecido intencionalmente; primeiro, deslegitimando (contribui para a ineficácia, tira potencial de crescimento, gerou privilégios) e, a seguir, cortando as vias de financiamento, tornando mais frágil.
    E aqui chegamos ao último componente da herança da crise, a verdadeira obsessão de López Garrido nesse livro e em seus artigos na imprensa, o núcleo duro de seu pensamento: a destruição do sistema fiscal através da redução de impostos, a sonegação fiscal, a evasão fiscal legal, a multiplicação dos paraísos fiscais, a aceitação de uma taxação mínima a muitas multinacionais, em uma espécie dedumping fiscal sistemático. Para o autor desse texto, foram sendo substituídos os impostos (que são pagos segundo o poder aquisitivo e a propriedade dos contribuintes, e que seriam devolvidos em forma de contrapartidas) por dívida pública (que afeta todos os cidadãos e se devolve a quem empresta o dinheiro: os bancos). Isso ativou o mecanismo pelo qual essa crise, que começou sendo do capitalismo, acabou se tornado uma crise da dívida (o outro mecanismo é a socialização das perdas, de modo que a gigantesca dívida privada, o “ópio das classes médias”, passou a ser dívida pública).
    O outro ponto incisivo do autor é o papel da Europa nesse período, em especial em relação aos EUA. López Garrido analisa como as dificuldades econômicas atingiram a União Europeia e o bloco não foi capaz de acelerar os tempos por falta de vontade política, e porque nem todos os países se saíram tão mal, porque alguns eram credores (os mais fortes, com a Alemanha à frente) e outros eram devedores (os países do sul).
    A austeridade tem sido uma política que expressa macroeconomicamente a luta de classes que, como disse Warren Buffet, está sendo ganha de goleada pelos seus, ou seja, os mais poderosos. O principal papel dos intelectuais e analistas é buscar os responsáveis pelo ocorrido e desmascará-los, porque, se não, além de cornos, espancados: os cidadãos, além de serem os grandes pagadores dos abusos provenientes das instituições financeiras e de outros centros de poder, serão os culpados por “terem vivido acima de suas possibilidades”. Um duplo saque.
    La edad de hielo (A Idade do Gelo). Diego López Garrido. RBA. Barcelona, 2014. 447 páginas.

    domingo, 21 de dezembro de 2014

    sábado, 20 de dezembro de 2014

    sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

    quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

    quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

    You've Got a Friend - Mariah Carey&Celine Dion&Gloria Estefan&Carole King



    Alice Caymmi mostra sonoridade própria em "Rainha do raios"

    Expoente da terceira geração dos Caymmi, cantora modernizou clássicos que fizeram história, surpreendeu na escolha do eclético repertório do segundo disco e agradou com composições próprias.



    Da Deutsche Welle
    Não poderia haver título mais adequado para o segundo disco de Alice Caymmi: Rainha do raios. Neta de Dorival, filha de Danilo e sobrinha de Nana, a cantora de 24 anos modernizou clássicos que fizeram sua história, surpreendeu na escolha do eclético repertório e agradou com duas composições próprias.
    O disco, lançado em setembro, marca uma mudança profunda em relação ao primeiro álbum, de 2012. "O primeiro disco nasceu meio do nada. Pensei que tinha que começar esse negócio. Compilei um material que estava trabalhando desde a adolescência e entrei no estúdio. Aquelas palavras não condizem mais com quem eu sou hoje. Mudo muito rápido", disse a cantora em conversa com a DW Brasil.
    Alice está desbravando com sucesso um caminho difícil: de fazer a MPB que reverencia seu passado, mas olha para o futuro. A expoente da terceira geração da emblemática família Caymmi nunca quis fugir ao destino da família. A música sempre foi algo muito vivo em sua vida.
    "Minha voz sempre foi minha qualidade, a coisa mais valiosa que eu carrego em mim. Nunca tentei negar isso. Sou formada em teatro e meu primeiro teste foi para um musical. Percebi que o que valorizavam em mim era a minha voz", diz a artista.
    Mesmo com o peso de ser a voz da nova geração de uma das mais importantes famílias da música brasileira, a cantora disse que nunca se deixou paralisar pelo medo ou por pressões externas. "Se eu começasse a ter medo, não me mexia".
    Para Alice, o legado mais importante que seu avô deixou foi a benção em sua carreira. "Antes dele morrer, ele me deu uma grande aprovação verbal. Ele ouviu algumas das minhas músicas e adorou que eu estava fazendo meu próprio negócio. Ele me elogiou à beça. Foi isso que ele deixou para mim".
    "Minha voz sempre foi a coisa mais valiosa que eu carrego em mim"
    Rainha da tempestade
    O último disco nasceu de um encontro com o produtor Diogo Strauss, músico carioca ligado à cena eletrônica da cidade. "Foi uma parceria muito melhor do que esperávamos. Nos conhecemos desde a adolescência. De repente, vi que ele estava mudando, fazendo coisas muito interessantes. Quando sugeri trabalharmos juntos, ele me convidou imediatamente para ir na sua casa e fizemos uma música", conta a cantora.
    O resultado dessa parceria foi Iansã. A composição de Caetano Veloso e Gilberto Gil, lançada em 1972 na voz de Maria Bethânia foi o primeiro retrato de uma artista que estava encontrando seu caminho e usando suas qualidade a seu favor.
    A regravação foi um sucesso na internet, e o disco começou a tomar forma. Seu título foi tirado da letra da canção. "Tem um orixá que é a rainha das tempestades. Ela é a verdadeira rainha dos raios. No disco, sou uma versão moderna dela".
    Em Rainha dos raios, ela ainda deu seu toque pessoal a duas outras músicas de Caetano: Jasper eHomem, essa com uma apropriação poderosa do eu masculino do baiano e com um moderno e criativo arranjo. Outro clássico que ganhou nova roupagem foi Meu Mundo Caiu de Maysa. Sem medo de ousar, ela se apropriou com sucesso das palavras do MC Marcinho na dramática Princesa.

    terça-feira, 16 de dezembro de 2014

    James Taylor You've Got A Friend



    Allende e Neruda, em tinta verde

    Um ensaio explora pela primeira vez a relação entre o ex-presidente e o Nobel chilenos e revela as cartas que trocaram entre 1969 e 1973



    Salvador Allende e Pablo Neruda. / FUNDACIÓN ALLENDE

    Por ROCÍO MONTES, No El País
    Eles provavelmente são duas das personalidades chilenas de maior destaque no século XX: o ex-presidente socialista Salvador Allende eo prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda, um militante comunista. Nascido com quatro anos de diferença — o escritor em 1904 e o mandatário em 1908 —, os dois foram dedicados homens de esquerda, que cultivaram por décadas uma relação pouco explorada, que só terminou com suas respectivas mortes: a de Allende no mesmo dia do Golpe de Estado de 1973, e a de Neruda, 12 dias depois, em uma clínica de Santiago. O ensaio Pablo Neruda y Salvador Allende – Una Amistad, una Historia (Pablo Neruda e Salvador Allende – Uma Amizade, uma História), que será lançado nesta semana em Santiago, é a primeira pesquisa em 41 anos sobre a relação dos dois, que se conheceram antes de 1939.
    “Como é possível que dois homens da mesma geração, mas de origens sociais distintas — Allende da pequena burguesia e Neruda da classe média baixa —, chegassem a defender com tanta força uma mesma ideologia política nos anos 70?” é a pergunta central que o autor, o historiador chileno Abraham Quezada, tenta responder.
    FUNDACIÓN ALLENDE
    O texto está cheio de ricos detalhes e, em um de seus capítulos, apresenta 15 cartas trocadas pelos dois homens entre 1969 e 1973, a maioria delas inédita. Como a que Neruda escreveu em setembro de 1970, quando Allende ganhou as eleições presidenciais em sua quarta tentativa, e que denota uma intimidade entre eles. “Querido Salvador: Não fui cumprimentá-lo porque estive cumprimentando a mim mesmo. Suponho que tenhamos conseguido destruir a conspiração. Isso prova que é preciso bater neles com força. O momento já vai chegar”, escreveu o poeta de sua casa em Isla Negra, a cerca de 100 quilômetros de Santiago, com sua tradicional caneta de tinta verde. Nessa carta, o escritor comenta ao presidente eleito alguns detalhes sobre a cerimônia de posse: “Deveríamos convidar alguns intelectuais estrangeiros para a troca da faixa. Para isso, gostaria de conversar com você, mandar uma provável lista. Mas eu teria que fazer os convites desde já ou mandar alguém fazer isso. Eu posso convidar por telegrama”. Neruda também aproveitava para animar Allende a comemorarem juntos a festa da pátria chilena: “No dia 18, comeremos um cervo que Matilde vai preparar. Se você vier com Tencha, seria fantástico comemorar a vitória com um cervo. Abraços entre os abraços, Pablo”.
    Querido Salvador: não fui cumprimentá-lo porque estive cumprimentando a mim mesmo
    Quezada se especializou durante décadas no estudo da figura de Neruda e, sobretudo, em sua dimensão epistolar: “É a forma mais pura de autobiografia”, afirma. Doutor em Relações Internacionais e diplomata de carreira, escreveu oito livros sobre o Nobel e relata que a relação que cultivou com Allende era de franca amizade e cumplicidade política: “Com as cartas fica em evidência a proximidade entre os dois, não só pelos reconhecimentos, saudações e visitas, mas também porque estão atentos a aspectos privados um do outro, como as datas de aniversário e as de suas respectivas cônjuges. Esmeram-se por conhecer os estados de saúde, trocam opiniões, aconselham-se”. Tinham muitas coisas em comum, como “um profundo interesse social, o gosto pela comida e por coleções — Neruda de objetos e Allende de roupas —, o hábito de fazer a sesta. Apesar de não serem agraciados fisicamente, os dois também eram sedutores e homens de muitas mulheres”.
    O presidente e o escritor, no entanto, também tiveram importantes divergências. A mais relevante ocorreu quando Neruda era o embaixador do Governo da Unidade Popular na França e pediu que seu amigo, o escritor Jorge Edwards, fosse transferido a Paris para colaborar com ele. Mas Edwards recentemente tinha sido expulso de Cuba, onde realizava trabalhos diplomáticos, e Fidel Castro pediu a Allende para expulsá-lo do serviço diplomático. Quezada relata que, diante da negativa do presidente em transferi-lo, Neruda ameaçou renunciar. O socialista finalmente cedeu: “Foi a única vez que o poeta deu o braço a torcer ao governante”. De qualquer forma, os conflitos não prejudicaram essa amizade, que teve como elemento-chave a simpatia que a esposa de Neruda tinha por Allende, Hortensia Bussi: “Não era fácil incorporar-se ao círculo íntimo nerudiano nesse momento, se não se contasse com a aprovação de Matilde”, destaca o autor.
    FUNDACIÓN ALLENDE
    Para escrever o livro, Quezada procurou documentos em diferentes lugares do mundo. O historiador destaca que a carta datada de setembro de 1970 estava entre os documentos que uma das filhas do presidente, Tati Allende, conseguiu salvar depois do Golpe e guardou durante seu exílio em Havana, antes de tirar a própria vida em 1977. O Governo cubano os conservou durante décadas e entre 2008 e 2009 voltaram ao Chile, à Fundação Allende. Desde então, conta Quezada, nunca tinham ido a público.
    FUNDACIÓN ALLENDE
    No próprio pacote de cartas salvas estava outra que foi escrita por Neruda como embaixador na França, cargo que assumiu no início de 1971. Nessa carta o escritor informava ao presidente de um escritório comercial ligado às autoridades democratas-cristãs anteriores que, segundo Neruda acreditava, uma urna eleitoral poderia ter sido escondida. “É altamente irregular e deve ser resolvido”, destaca o Nobel. O escrito reflete um fato pouco comum no serviço diplomático: que um embaixador escrevesse diretamente ao presidente, pulando toda a linha de comando da Chancelaria. Neruda concluía destacando que “esta carta é confidencial e para o uso pessoal do colega presidente”. “Seguem dois anexos importantes. Um grande abraço para Tencha e, para ti, meus melhores desejos. Não poderíamos ter um Presidente melhor. Pablo Neruda”. O pesquisador afirma que “o poeta costumava concluir suas missivas estimulando-o politicamente”.
    Há uma carta importante, segundo o pesquisador, que Neruda escreveu em 3 de novembro de 1972 e na qual expõe as gestões feitas em relação ao embargo de cobre e o papel da justiça francesa. “O objetivo da carta é advertir de alguma maneira o perigo de uma atitude totalmente otimista diante das dificuldades que estamos vendo e sentindo a cada dia”, destaca Neruda, em um franco conselho político em relação ao presidente.
    Mas o livro também contempla cartas do chefe de Estado para o poeta. Segundo Quezada, “a redação e o estilo epistolar de Allende são, em geral, de frases breves, mas emotivas”. “Quando escreve à mão, o faz com uma letra emaranhada, de difícil leitura, própria de um médico, ficando a impressão de que escrevia como falava”. Em junho de 1972, por exemplo, o chefe de Estado escreve uma carta que dá conta da preocupação do entorno político por o delicado estado de saúde de Neruda, radicado em Paris, sofrendo de câncer de próstata. “Penso que seria bom para vocês Isla Negra — o calor do povo, o Partido, a terra natal — e os amigos de sempre”, aconselhou-o Allende nessa carta escrita de próprio punho.
    No dia 18, comeremos um cervo que Matilde vai preparar. Se você vier com Tencha, será fantástico comemorar a vitória com um cervo
    Neruda finalmente voltou ao Chile em novembro de 1972. A última vez que se viram antes do Golpe de Estado foi em julho do ano seguinte, para o aniversário de 69 anos do poeta, seu último. Nessa ocasião, o presidente deu de presente uma fotografia em que aparecem juntos, dedicada com uma caneta de tinta verde, semelhante à que o poeta usava: “Para Matilde e Pablo com carinho e afeto do companheiro presidente”. Dois meses depois, os dois estavam mortos. Nenhum deles chegou a ser testemunha do destino obscuro do Chile nos 17 anos seguintes.

    segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

    sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

    Argentina, a literatura da perda

    Desde a ditadura militar dos anos setenta, as letras argentinas foram violentamente atravessadas pela comoção da dor, da ausência e do exílio



    Juan Gelman e sua esposa. / JOSÉ NAVARRO

    Por DAVID MARCIAL PÉREZ, no El País
    O ano 1976 foi um divisor de águas na história argentina. A ditadura instaurada pelo golpe militar daquele ano viria a se tornar o regime mais macabro e atroz de todos os que já dominaram o país. “15.000 desaparecidos, 10.000 presos, 4.000 mortos, milhares de desterrados, são as cifras nuas desse terror”, escreveu Rodolfo Walsh em 1977. As cifras nuas continuariam crescendo, encarnadas no próprio Walsh, assassinado naquele mesmo ano. Outros autores, como Julio Cortázar e Juan Gelman, haviam saído do país antes do golpe e não puderam voltar. Os que ficaram viveram sob a mira da violência política. A literatura argentina, acostumada a tecer seu universo estético a partir da turbulenta matéria-prima da sua história, foi, a partir dos anos setenta, arremetida de forma profunda e definitiva pela comoção da dor, da ausência e do exílio.
    “As marcas da última ditadura militar podem ser rastreadas na produção das novas gerações. Todorov argumenta que um país que sofreu os campos de concentração tem o coração comido pelos vermes. Esses vermes são os que nutrem explícita ou tacitamente uma escrita que simula tomar distância desse período negro”, afirma o escritor Guillermo Saccomanno. O regime militar promoveu uma fratura entre o dentro e o fora. As vozes dissidentes deviam ser silenciadas ou expulsas. Cortázar, de fora, definiu a situação em 1978 como um “genocídio cultural”. Entre os que ficaram dentro, Ernesto Sábato respondia que a cultura argentina, apesar das limitações, prosseguia. O autor de O Túnel possivelmente se referia a artefatos de precisão vanguardista como Cuerpo Velado, de Luis Gusmán, eEma la Cautiva, de César Aira, mas sem dúvida a maior lembrança do antagonismo daquela época é a foto de Jorge Luis Borges, Horacio Esteban Ratti, Leonardo Castellani e o próprio Sábato compartilhando mesa e talheres com o ditador Jorge Rafael Videla.
    O componente fantástico serve, no caso argentino, para poder contar o que não se pode dizer
    Essa polarização já estava presente em meados do século XIX num autor como Esteban Echeverría. Em sua obra O Matadouro, considerado o primeiro conto argentino, utiliza as cenas de um matadouro de Buenos Aires como alegoria da brutalidade do regime de Juan Manuel de Rosas. A escritora e dramaturga Fernanda García Lao, nascida no exílio, aponta outro livro seminal para entender o funcionamento dialético da história e da literatura argentina: Facundo, ou Civilização e Barbárie. “É uma civilização violenta mas também com muita intelectualidade. Ferramentas literárias são usadas para entender as coisas, como a narrativa ou o conto. A realidade se constrói por intermédio de um discurso literário, e não ao contrário. E sempre há uma dicotomia, nunca é de uma só maneira.”
    O componente fantástico que marca grande parte de literatura latino-americana moderna serve também no caso argentino para poder contar o que não se pode dizer. A obra de Cortázar, desde o seu exílio voluntário na França, foi ganhando ressonâncias políticas já a partir do seu deslumbramento com a Revolução Cubana. Seu conto Segunda Vez, de 1977, com apenas seis páginas, descreve o desaparecimento de um grupo de pessoas em circunstâncias misteriosas. Mas os personagens não são já meros cronópios saídos dos sonhos, e sim pessoas reais, que vivem o horror como algo verossímil e cotidiano.
    Bioy Casares, outro mestre do fantástico, foi contemporâneo de Cortázar. Elogiaram-se mutuamente, foram amigos, mas também tinham profundas diferenças. Bioy nunca sofreu com a censura e jamais abandonou sua casa portenha, onde com muita frequência recebia Borges para o jantar. “É um intelectual de marca conservadora, um dândi, afastado do compromisso político, excetuando seu antiperonismo furioso, igual a Borges. Não obstante, sua escrita reflete um interesse pela língua plebeia, pelo popular e uma busca do cotidiano que se torna contraditória com seu antipopulismo”, afirma Saccomanno.
    De novo essa luta entre opostos desempenha um papel central napoesia de Juan Gelman. Sua forte consciência política o levou a viajar à Europa como porta-voz do movimento Montonero, que logo abandonou. O golpe militar aconteceu quando ele estava na Itália e, do exílio, padeceu o assassinato do filho, da nora e o sequestro da neta. Durante os primeiros sete anos de exílio, sua voz literária ficou muda. “Sua poesia está atravessada por uma tensão entre polos opostos: a plenitude e o murcho, a memória e o esquecimento, a unidade e o desmembramento, a beleza e o espanto, o que arde livre e o oprimido. Sua palavra se joga em um torvelinho de forças contrárias”, explica Jorge Boccanera, amigo de Gelman, também poeta e exilado.
    Depois de um longo e tenaz trabalho de busca, no ano 2000 reencontrou-se com a neta Maria Macarena Gelman, uma das centenas de crianças sequestradas e entregues a casais sem filhos afeiçoados à ditadura em outra de suas tentativas criminosas de apagar a memória. A escritora Ángela Pradelli, que acaba de publicar um livro que recupera a vida de cinco dessas crianças, recorda que “as histórias das pessoas que recuperaram sua identidade envolvem a todos. Contam o desmoronamento de um país inteiro em mãos de um Estado terrorista. A ruptura que o roubo de crianças significou em suas vidas instalou ao mesmo tempo uma fratura na sociedade. A ferida no corpo e na subjetividade das vítimas também foi cometida no corpo social”.

    quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

    Ah, esses economistas!



    Felipe Lindoso
    Entre os materiais compilados e distribuídos pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) no Seminário Internacional Sobre o Preço Fixo do Livro, que aconteceu no Rio de Janeiro no dia 17 de novembro, está o artigo escrito por Frederick Van Der Ploeg intitulado Beyond the Dogma of the Fixed Book Agreement. O paper pretende ser uma avaliação objetiva – do ponto de vista da “ciência” econômica – daquilo que o autor já começa qualificando: dogma do acordo do preço fixo.

    Não fosse de certa forma trágica, poderia achar muito engraçada uma discussão “objetiva” que começa qualificando o objeto do trabalho como dogma.

    Como um bom dicionário define, objetividade dispensa um pré-juízo ou pré-conceito para poder ser exercitada. Como define o Aurélio: objetividade. [De objetivo + -(i)dade.] Substantivo feminino. 1.Qualidade do que é objetivo. 2.Caráter da atitude, ou do procedimento, que é, ou pretende ser, estritamente adequado às circunstâncias.

    Começar afirmando que o preço fixo é um “dogma”, portanto, exclui qualquer objetividade de análise. Questão de lógica e semântica, o que não parece ser objeto de atenção desse economista.

    Mas, vamos em frente.

    Para tentar entender o raciocínio do articulista, vinculado à European University Institute, University of Amsterdam e ao CESifo Group de Munique, vamos às suas premissas.

    Em primeiro lugar, ele divide os interessados em livros e artes, em “pessimistas culturais” e “otimistas culturais”. Os primeiros são críticos “do mercado” e “detestam um mundo no qual tudo está à venda e as pessoas são tratadas simplesmente como compradores e vendedores de bens e serviços”, e a cultura tenderia a fazer parte da “indústria do entretenimento”. Os segundos, por antinomia “contam com as bênçãos do mercado”.

    Aí o economista faz um salto, aparentemente ligando os “pessimistas” a uma economia centralizada e planejada, pois afirma que “sistemas complicados de planejamento centralizado fracassaram em parte porque os planejadores centrais não tinham ou foram incapazes de coligir as gigantescas quantidades de informação necessárias para combinar a oferta de milhares de firmas à demanda de milhões de lares”. Surpresa! A colocação foi tirada do livro The fatal conceit: The errors of Socialism do papa do pensamento econômico livre-mercadista, Friedrich Hayeck. De onde ele tira que os defensores do preço fixo defendem uma economia planificada do tipo da antiga União Soviética é algo que não me ocorre.

    Mas Meneer Van Der Ploeg concede que a “mão invisível” do mercado só funcionaria a contento “sob condições estritas (soberania do consumidor, nenhuma informação assimétrica, um conjunto completo de mercados contingentes, sem fricções, sem externalidades, sem bens públicos, e sem apelos à escala)”. Evidentemente, condições que existem no etéreo mundo dos modelos formais, já que “existem razões pelas quais o mercado de livros não funciona eficientemente”. Eureka! E as externalidades que ele cita começam pela qualidade de leituras dos possíveis leitores que fariam parte desse “mercado” idealizado.

    O caso do cara é sério. Dessa formulação ele parte para uma assertiva pesada: “O PFL (não o partido, e sim o preço fixo do livro – quanto ao partido, há controvérsias...) pode até ser ruim para a democracia da cultura. Já que preços monopolísticos e subsídios cruzados para livros mais esotéricos podem ser pagos pelas pessoas comuns que leem os livros comuns”.

    Credo, ergo confiteor. Deve ser algum tipo de raciocínio quântico, pois não entendi chongas de catibiribecas dos saltos que o cara faz.

    Preços monopolísticos, para ele, são  simplesmente os definidos pelas editoras. No sistema de preços fixos, no qual os varejistas estão impedidos de dar descontos, isso caracteriza o monopólio. Quando ele menciona os subsídios cruzados quer se referir ao fato de que os lucros auferidos pelas editoras e livrarias, na venda de best-sellers, permitem que se admita um risco maior na publicação de outros títulos. Portanto, os best-sellers, com maior demanda, deveriam ter a possibilidade de serem vendidos a preços mais baixos. Os “livros mais esotéricos” se colocariam como produtos de nicho que, naturalmente, seriam vendidos mais caros para atender a segmentos menores de leitores. Ou seja, os livros “esotéricos” – aqueles que não entram no gosto da multidão – devem ser mesmo mais caros.

    É um raciocínio curioso, que não leva em conta custos de produção (que estabelecem um patamar mínimo, abaixo do qual a editora teria prejuízo líquido). Mas é típico do raciocínio de alguns economistas. Preço é oportunidade e sua relação com os custos é longínqua... quando conveniente.

    No entanto, quando fala de preços, Meneer Van Der Ploeg inclui outro componente que se torna muito importante em seu raciocínio.

    Traduzo:

    “Para permitir o custo de repouso e ter tempo para ler um livro, suponhamos que ø seja a quantidade de horas gastas lendo um livro. Segue-se a isso que øW seja o custo de oportunidade do tempo necessário para ler o livro, quando W representa (constante exógena) o índice de salário. Isso corresponde à renúncia da oportunidade de ganhar dinheiro trabalhando, que deve ser adicionado ao preço do livro. [...] As unidades domésticas dispõem de uma unidade de tempo disponível, que usam para trabalhar (1 - øB) ou para ler livros (øB), onde B indica o número de livros comprados e lidos. As pessoas que não leem desfrutam de tempo para maximizar seus rendimentos (grifo meu, FJL) W . 1 = W, já que o máximo de tempo que cada lar dispõe está normalizado como unidade. Apesar de não haver proveito no tempo livre, existe um preço para comprar e gastar tempo para ler livros, de modo que o suprimento de trabalho é endógeno”. E vai por aí, até: “Considerando os desvios logarítmicos de um padrão de equilíbrio de referência, obtemos a seguinte demanda para um título de livro particular:

    b@ - e [(1 - b) (p + t) + b w] com e º Q/BU” > 1/(1 - b) e 0 < b º W /Q < 1

    onde os romanos (símbolos) denotam desvios logarítmicos ou diferenças relativas, [...]e denota a elasticidade da demanda de livros com respeito ao custo total de ler um livro , e b representa a parcela do custo de oportunidade do tempo necessário no custo total. A elasticidade da demanda por livros a respeito do preço do livro, e [(1 - b), é menor que e, já que o preço do livro é apenas parte do custo total de ler um livro. Para ter um ingresso marginal positivo, assumimos e [(1 - b) > 1. Ouros consumos seguem-se residualmente do orçamento da unidade familiar. Cresce com o rendimento de emprego-total (nada de leitura)  M + W e o custo de ler um livro Q (já que Q B cai). ”.... e cansei. Quem quiser ver a fórmula toda vá até o original.

    Mas, nessa primeira premissa, sucede que as pessoas que ganham mais tem um custo agregado maior ao preço do livro (deixam de trabalhar para ler...).

    Ele prossegue dizendo que o preço fixo garante ao mercado livreiro uma exceção às regras da competição, e que, portanto, editores e livreiros podem conspirar para estabelecer preços de venda dos livros no varejo. “A extensão na qual é possível exercer o poder monopolista depende do grau de substitubilidade do conteúdo de um livro em particular. Um grau baixo de substitubilidade permite um preço alto por parte dos produtores [...] É o caso se existem poucos substitutos para o conteúdo disponível e se o preço do livro é apenas uma pequena parte do custo total. Editores/livreiros então podem aumentar preços sem muita punição, já que a demanda não cai substancialmente”.

    Traduzindo um tanto de economês: como os conteúdos de cada livro são praticamente únicos, não intercambiáveis, editores e livreiros podem aumentar o preço já que a demanda para esse título seria inelástica.

    O corolário disso tudo é que o preço fixo beneficia os leitores de renda mais baixa (deixariam de “ganhar menos” com o tempo gasto (desperdiçado?) na leitura, e prejudica o consumidor/leitor de renda mais alta.

    O raciocínio econômico formalista esbarra em algo chato: precisa acontecer na prática. Supõe “modelos” perfeitos, nos quais até as exceções são delimitadas e incluídas nas equações.

    As pesquisas de hábito de leitura – aqui e alhures – têm mostrado que o fator educação tem um peso maior na decisão de ler – e comprar livros – que a variável renda, embora nas situações em que existe deficiência de bibliotecas públicas essa seja uma variável com maior peso. Por outro lado, a venda dos best-sellers é superdimensionada por ações incisivas de marketing, com a criação de demandas puramente artificiais.

    Da mesma forma, o conjunto de condicionantes de ordem social e política (censura, por exemplo) pode exercer um papel relevante nos hábitos de leitura e consumo de livros. E mais outra série de variáveis de ordem estritamente não econômica. Por exemplo, disponibilidade geral de acesso, necessidades mais básicas (alimentação, vestuário e residência) como prioridades para o gasto, e muitos outros fatores desse tipo, entre os quais se incluem as ações de marketing já mencionadas. Tudo muito longe de qualquer modelo matemático de mercado.

    Por outro lado, como foi colocado pelos dados trazidos pelos representantes da Grã-Bretanha, França e Alemanha nesse mesmo seminário, os preços livres, na prática, têm se revelado como fator de aumento do preço dos livros, com exceções pontuais e temporais nos lançamentos dos best-sellers.

    A “prova do pudim”, se podemos usar a comparação, mostra que, na verdade, o sistema de preços livres, não regulados, provoca um aumento dos preços do conjunto dos catálogos disponíveis, a diminuição do número de fornecedores (editoras E livrarias) e da bibliodiversidade. A exacerbação do modelo conduz a uma situação de monopsônio, como a que se apresenta como possibilidade para a Amazon nos EUA, pelo menos no que diz respeito ao livro eletrônico. O canto da sereia do preço livre é representado pelos descontos (ou pseudodescontos) oferecidos pelas grandes cadeiras no lançamento dos best-sellers, o que, na realidade, provoca um aumento de seu preço médio no correr do tempo.

    A análise formalista se revela, assim, exatamente o contrário do que propõe. Não é objetiva, não considera o conjunto das circunstâncias sociais envolvidas na produção e na leitura de livros (e de outros materiais educativos e recreacionais também).

    *

    Felipe Lindoso é jornalista, tradutor, editor e consultor de políticas públicas para o livro e leitura. Foi sócio da Editora Marco Zero, diretor da Câmara Brasileira do Livro e consultor do CERLALC – Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe, órgão da UNESCO. Publicou, em 2004, O Brasil pode ser um país de leitores? Política para a cultura, política para o livro, pela Summus Editorial. Mantêm o blog www.oxisdoproblema.com.br

    quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

    Biblioteca Digital agora é lei no DF



    Correio de Santa Maria 
    Foi publicada no Diário Oficial do Distrito Federal a Lei 5420/2014, que institui a Biblioteca Digital da Rede Pública de Ensino do DF. De autoria da deputada Eliana Pedrosa (PPS), a proposta determina a criação e compartilhamento de conteúdo digital por meio de sítio próprio na internet e também em redes sociais. O projeto fora vetado pelo governador Agnelo Queiroz, mas o veto foi derrubado pelos deputados distritais.

    A biblioteca digital tem como objetivo apoiar os professores no aprimoramento de suas aulas e possibilitar um novo formato de estudo para alunos. Para isto, receberá conteúdo de vídeos e textos com aulas teóricas e práticas, orientação de estudos, exercícios, estudos de casos, experiências de sucesso e muito mais.

    Com a biblioteca digital, se um aluno perder a aula, ele poderá acessar esse espaço e rever tudo que se passou naquele dia ou outros anteriores, bem como antecipar estudos. Os pais também terão acesso e poderão acompanhar o que se está dando em sala de aula e ajudar seus filhos nos estudos em casa.

    Os professores poderão conhecer e estudar como a mesma aula é dada por outros colegas, aperfeiçoando-a ou mesmo discutindo metodologias educacionais com profissionais da mesma disciplina de qualquer região do DF. Tudo isto observando a proposta pedagógica da rede pública de ensino.

    Por ser um espaço democrático, criado para aqueles que buscam uma educação de qualidade, a biblioteca digital possibilitará a publicação de livros cujos autores sejam profissionais ou alunos da rede pública. Além disso, servirá de espaço para professores e orientadores trocarem conhecimento sobre aulas, aperfeiçoamento dos profissionais de educação e discussão de diversos temas relacionados à educação.

    Por ser um ambiente moderno, pensada com o objetivo de facilitar o acesso ao conhecimento e apoiar professores e alunos em seu cotidiano a biblioteca digital, terá interação com as redes sociais e será adaptada para deficientes visuais e auditivos. De acordo com Eliana Pedrosa, a iniciativa facilita a propagação do conhecimento e será um instrumento fabuloso para uma educação de mais qualidade. “O mundo hoje pode ser quase todo encontrado na internet. Disponibilizar, de forma organizada e didática, o conteúdo disciplinar pela biblioteca digital é o primeiro passo para a quebra de paradigmas na forma de ensinar e aprender”, afirmou.

    A gestão da nova biblioteca ficará sob a responsabilidade da Secretaria de Educação, que definirá regras para postagem e moderação de conteúdo. A alimentação será feita por professores, ativos e inativos, profissionais da carreira assistência à educação, alunos e pais ou responsáveis de alunos da rede pública. Além disso, o gestor poderá autorizar outros grupos ou pessoas nesta tarefa.

    terça-feira, 9 de dezembro de 2014

    Livros digitais estão em 95% das bibliotecas dos EUA, diz estudo


    Livros digitais, os chamados ebooks, estão presentes em 95% das bibliotecas públicas dos Estados Unidos, de acordo com uma pesquisa anual sobre o tema feita pela publicação especializada “Journal Library”.

    Revista Biblioo

    O estudo acompanha a expansão dos livros digitais desde 2010 e na edição de 2014 captou um aumento na quantidade de bibliotecas adeptas às versões digitais. Entre 2013 e 2012, 89% desses estabelecimentos disponibilizavam ebooks. Quando a pesquisa começou a ser feita, o índice de aceitação era de 72%.

    Em média, as bibliotecas norte-americanas possuem em seu acervo 20.244 livros digitais. Esse número, no entanto, é puxado para cima por grandes instituições. Aquelas que declaram não oferecer ebooks não o fazem por falta de recursos. No entanto, um exemplo da mudança dos ares nos EUA foi a abertura em 2013 de uma biblioteca em San Antonio (Texas) totalmente dedicada a livros virtuais.

    Os livros digitais podem ser lidos em leitores digitais especializados como o Sony Reader, o Nook, da livraria Barnes & Noble, e o Kobo, vendido no Brasil pela Livraria Cultura, e o Kindle, da Amazon. Também são consideradas plataformas destinadas à leitura virtual o iPad, da Apple, e os tablets que rodam o sistema operacional Android, do Google.

    Os empréstimo digitais variam conforme o sistema utilizado. Alguns necessitam da criação de uma conta pessoal do usuário que deve ser pareada à da biblioteca para que o ebook seja transferido de uma estante para outra via cabo USB. Outros permitem com alguns cliques a cessão de um livro de um lugar para outro, que automaticamente exibe a publicação assim que ocorre uma sincronização.