quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Álbum "The Endless River" é despedida musical do Pink Floyd


Polêmico desde a capa, lançamento da banda evoca tempos passados. Disco foi composto a partir de material gravado há 20 anos por Nick Mason, David Gilmour e Rick Wright. Dissidente Roger Waters se distancia da obra.

Da Deutsche Welle

 Capa de "The Endless River"

Um jovem de camisa branca esvoaçante rema em direção ao crepúsculo – sobre as nuvens. Assim é a capa do novo álbum duplo da banda Pink Floyd, The Endless River, que já deu motivos para as primeiras opiniões desfavoráveis.

Horrorizados, fãs e críticos se perguntaram o que é que tinham posto no chá do artista gráfico, e onde teria ido parar o genial design dos discos antigos. Com uma capa kitsch assim, era grande a apreensão sobre o conteúdo acústico do lançamento.

Antes, houvera a chance de uma sneak preview, uma amostra de magros 30 segundos na plataforma YouTube. Ao escutá-la, logo se pensava: "Parece uma faixa que não coube em The Dark Side of the Moon." A impressão de um outtake, uma "cena cortada", do icônico álbum de 1973 é forte.

De fato: The Endless River foi composto a partir de fragmentos musicais de tempos idos. Mais precisamente, são restos das sessões de gravação para o último álbum de estúdio do conjunto inglês, The Division Bell, de 1994.

 David Gilmour numa sessão de estúdio em 1993

"Escutamos 20 horas de material que tocamos juntos", conta o guitarrista David Gilmour. "Muitos desses momentos são tão bonitos, tão mágicos, que os utilizamos agora. É claro que demos um realce com a técnica de estúdio moderna. Depois adicionamos mais umas partes [instrumentais ou vocais], para criar um álbum do Pink Floyd que tem os dois pés no século 21."

Além de David Gilmour, participaram das sessões, na época, o baterista Nick Mason e o tecladista Rick Wright, morto em 2008. O quarto membro fundador do Pink Floyd, o baixista Roger Waters, estava irreconciliavelmente brigado com os demais e abandonara a banda já em 1985. Como não participou das gravações de The Division Bell, também não está no disco atual.

A ira de Roger Waters
No entanto, The Endless River não pretende ser apenas uma espécie de reciclagem de sons passados, mas também uma homenagem ao falecido Rick Wright, uma recordação dos velhos tempos e a despedida definitiva da banda da cena musical.

 Rick Wright, morto em 2008, é homenageado no novo disco

Não seria este o momento perfeito para os músicos ainda vivos se reunirem? Para Roger Waters, a pergunta em si é motivo para se alterar seriamente. A mera suposição de alguns fãs e da mídia de que ele participaria irritou-o de tal forma que ele acabou desabafando em sua página no Facebook.

"Quê?! Eu não fiz álbum nenhum. David Gilmour e Nick Mason não fizeram álbum nenhum. David e Nick constituem o grupo Pink Floyd. Mas eu não faço parte do Pink Floyd. Eu não tive nada a ver com os álbuns A momentary lapse of reason e The Division Bell. E não tenho nada a ver com The Endless River."

Velhos ressentimentos
Ao que tudo indica, o velho rancor não se dissipou até hoje. Roger Waters, o antigo mentor da banda, coautor de The Dark Side of the Moon, um dos discos mais vendidos e aclamados de todos os tempos, chegou à conclusão de que o Pink Floyd já dera o que tinha que dar e saiu do grupo. Só para presenciar como ele continuava a ter sucesso.

 Roger Waters levou show "The Wall" a várias turnês

O resultado foram anos de disputa pelo nome do grupo e pelos direitos autorais das canções. Por fim, o Pink Floyd obteve permissão para continuar tocando as composições de Roger Waters. Este, em compensação, trilhou seu próprio caminho, e, em 1990, brilhou com o megashow The Wall, na Potsdamer Platz de Berlim. Entre os participantes, estavam Bryan Adams, Cindy Lauper, Joni Mitchell. De Gilmour, Wright ou Mason, nem sinal.

Hoje, o baterista Nick Mason contempla o arranca-rabo com uma certa sabedoria da maturidade. Em entrevista ao jornal alemão Die Welt, revelou que ele e Roger Waters voltaram a se falar há muito tempo – afinal, o baixista dissidente é, de longe, seu mais velho amigo.

Ainda assim, não houve clima para convocá-lo para as gravações de The Endless River. "Mas ele ainda é ultraimportante para mim. Pessoalmente, eu até teria adorado se ele estivesse junto." Nesse ponto, David Gilmour é mais rígido, e rechaçou terminantemente a possibilidade de retomar a colaboração com Roger Waters.

Mais alto do que as palavras
E agora aí está o novo álbum duplo. Na Amazon, as vendas antecipadas já o colocaram no primeiro lugar entre os best-sellers. Todas as faixas mostram correspondências entre si. Só uma é cantada, todas as outras são puramente instrumentais.

Sem dúvida, é uma delícia para os fãs mais obstinados, que têm saudades do velho Pink Floyd sound. Tem-se a impressão de ouvir algo de Wish you were here, mais adiante Echoes, depois um pouquinho de Us and them. Grande parte das faixas é sustentada por longos e elegíacos solos – assim como o homem da capa é carregado pelas nuvens.

 Nick Mason continua ativo

O polêmico motivo visual deixa bastante espaço para interpretações. Será esse realmente o derradeiro álbum da envelhecida banda cult, ou uma continuação ainda estará por vir?

Enquanto Nick Mason não se mostra tão avesso à ideia da continuidade (pelo menos lança um álbum solo em 2015), para David Gilmour, o disco marca mesmo o fim definitivo da banda Pink Floyd. Na última faixa, Louder than words, a única cantada, ele coloca um ponto final realmente filosófico: "Nós brigamos e lutamos, mas isto que fazemos aqui soa mais alto do que as palavras".

E assim, também é possível ver a capa como um símbolo para os dois últimos amigos do Pink Floyd, que, com sua nova música do passado, galopam em direção ao pôr do sol, como num filme de faroeste. The end.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

"Nós confundimos a tecnologia com o uso que fazemos dela", diz Alberto Manguel sobre e-books

Aficionado por livros (impressos), escritor nega rótulo de 'tecnofóbico'



Por Gabriela Loureiro, na Galileu

Quando Alberto Manguel fala de seus livros preferidos, seus olhos azuis se iluminam. Nascido em Buenos Aires e hoje cidadão canadense, Manguel escreveu uma série de livros sobre a leitura e é hoje reconhecido como um especialista no ato de ler e acumular obras. Mas, apesar de ter uma biblioteca de 50 mil livros em sua casa no interior da França, Manguel reconhece a importância dos livros eletrônicos e nega o rótulo de “tecnofóbico”.

Manguel atingiu reconhecimento internacional com várias honrarias, como o título de Oficial da Ordem das Artes e das Letras, do Ministério da Cultura da França, e os Prêmios Grinzane Cavour e Roger Caillois. Em todas as suas obras, prega a leitura como a mais civilizada das paixões, uma celebração da alegria e da liberdade. Por exemplo, seu livro mais conhecido, “Uma História da Leitura”, trata sobre uma “cartografia imaginária”, uma espécie de atlas que criamos na mente com os lugares que imaginamos ao ler livros. Ele esteve em São Paulo esta semana para o ciclo Fronteiras do Pensamento e conversou com a GALILEU sobre sua paixão pela leitura, tecnologia e seu próximo livro, “Curiosidade”.

GALILEU: No seu livro “Uma História da Leitura”, você diz que ler é uma espécie de cartografia prática. Por favor, explique esse conceito.
Quando temos uma experiência, a adicionamos ao nosso mapa do mundo, onde fica cada experiência que construímos desde que nascemos, nossa visão das coisas. Ler nos dá palavras para definir de forma mais precisa as experiências da nossa vida nesse mapa do mundo. A cartografia de cada um é diferente porque a experiência e leitura de cada um são diferentes. Esse atlas individual constitui o que chamamos de realidade.

Mas quando eu leio Game of Thrones, por exemplo, e imagino um castelo que não existe no “mundo real”, isso faz parte da minha cartografia?
Claro. Por exemplo o castelo de Drácula. Não existe. Mas se estamos em uma casa escura, sem saber quem mais está lá, é noite... O imaginário que você criou a ler o Drácula vai te dar vocabulário para essa experiência agora. Cada experiência que temos como leitores no mundo que chamamos de real é colorido pelas nossas experiências imaginárias.  Quando você se apaixona e sente que essa experiência é única porque está acontecendo com você e não sabe como falar sobre isso, poemas e histórias de amor te darão as palavras e você vai entender melhor o que está acontecendo.

E qual é o seu lugar imaginário preferido?
Alice no País das Maravilhas, porque é tão parecido com a minha experiência do mundo. Eu li esse livro várias vezes ao longo da minha vida e, com o passar do tempo, eu comecei a ler diferentes Alices, o texto era o mesmo, mas a minha experiência era outra. Quando criança, era uma história sobre a experiência de uma criança no mundo maluco dos adultos, com suas regras loucas. Por quê? Porque sim. Na minha adolescência, essa questão por que se tornou uma forma de rebelião contra a estupidez do mundo, porque Alice é a única criatura racional nesse mundo louco, e é o que todo adolescente sente: “que sociedade é essa que não me permite ser eu mesmo?”. Alice tem um momento maravilhoso em que ela está tão confusa com o que está acontecendo, ela diz: “eu não sei mais quem eu sou, eu não sou mais a pessoa que eu era de manhã. Já sei o que vou fazer, vou esperar aqui até alguém me chamar pedindo para subir e eu vou perguntar ‘quem você quer que suba?’ e se eles falarem alguém que eu não gosto, eu não vou responder”. Na adolescência, você faz isso, você acusa os adultos de exigirem que você seja alguém que você não é. E então, quando adulto, percebi que o País das Maravilhas era o mundo da ganância, de banqueiros, do chapeleiro maluco que tinha uma mesa gigante de chá para muitas pessoas mas não deixa Alice sentar, ele diz “não tem lugar, não tem lugar”. Ela diz “é claro que tem lugar”. Mas nesse mundo não há lugar para quem sente fome, para quem é pobre. Nossa mesa é enorme, podemos servir todo mundo, mas dizemos não, porque somos como o chapeleiro maluco, egoístas e gananciosos.

Em um artigo, você criticou o chamado “extremismo tecnocrático”, a ideia de que e-books vão substituir os livros impressos. Explique melhor sua visão sobre essa dicotomia impresso x eletrônico.
Nós confundimos o instrumento que usamos com o uso que fazemos do instrumento. Posso dizer que essa xícara de café não tem qualidades de ação, não faz nada. Eu faço ela fazer algo, posso fazer com que ela segure o café para que eu possa beber e posso fazer uma ação negativa, jogando-a na sua cabeça e te matando, por exemplo. Dizer que a xícara é ruim porque pode matar pessoas é atribuir à xícara qualidades humanas que ela não tem. A xícara não seria culpada de homicídio, eu seria. A tecnologia eletrônica é um instrumento com qualidades como a xícara, pode fazer algumas coisas melhor que outras, mas dizer que a xícara é melhor que o pires porque segura o café é não aceitar nossas responsabilidades de ação. Não precisamos dizer “só vou ter livros eletrônicos” ou “só vou ter livros impressos”. Mas, se você tem uma companhia muito poderosa de pires, ela vai te convencer que o pires é melhor, se você tem uma empresa que quer que você compre um livro eletrônico por semana para a indústria continuar bem, ela vai tentar te convencer que livros impressos são obsoletos. Eles não te dão espaço para perguntar, como Alice, por quê? Ninguém questiona o porquê. Existe uma frase que era usada pelos romanos no Senado para fazer leis: per cui è buono, ou para quem isso é bom, a quem beneficia? É uma pergunta muito útil. Toda vez que lhe dizem para fazer algo, você deve fazer essa pergunta a si mesmo, e, se beneficiar a você ter somente e-books, claro, então os escolha. Mas, se a resposta for “beneficia a fábrica de pires”, então não faça.

Por “fábrica de pires” você quer dizer Amazon?
O problema da Amazon é o problema de qualquer monopólio. Tudo que quer acumular todo o poder é ruim. Quando você não dá ao consumidor uma escolha, quando todas as livrarias falirem, a Amazon poderá ditar o que, quando e como você vai comprar. Eu me oponho à Amazon por causa dessa possibilidade futura e porque eles usam métodos gangster de intimidação ao dizer ao cliente “eu posso te dar esse livro mais rápido e de uma forma melhor que o livreiro, que conhece seu negócio”.

Qual é a diferença entre ler um e-book e um livro impresso?
Quero deixar bem claro que não há uma hierarquia, nenhum é melhor que o outro. O importante é que cada suporte de texto tem diferentes qualidades, então depende de como você quer ler. Se você quer ler rápido e superficialmente, para escolher partes do texto em que você está interessado, se seu maior interesse é velocidade ou se você está viajando e não há espaço na sua mala, o livro eletrônico é perfeito. Mas se você está interessado em ler um livro no seu próprio ritmo e poder ir e voltar em páginas diferentes e ter uma relação física com o objeto, o livro impresso é melhor.
Você prefere o livro impresso, certo?
Sim, mas eu não gosto de dizer isso porque as pessoas pensam que eu sou “tecnofóbico”, eu uso computador, mas só para o que eu preciso. Tenho uma biblioteca imensa, não preciso da internet para ler. Mas reconheço suas utilidades.

Fale mais sobre seu próximo livro, por favor.
O livro se chama “Curiosidade” e é sobre as perguntas que fazemos a nós mesmos desde o começo dos tempos sobre nossa condição. Quem somos? Onde estamos? Qual é a nossa responsabilidade sobre o mundo? Como pensamos? Como transformamos pensamentos em palavras? Todas essas questões foram refletidas na literatura, e eu falo sobre como a literatura tentou responder essas perguntas através dos livros que li e minha experiência. Sempre achei que o que eu leio e o que eu vivo estão entrelaçados. Para estruturar o livro, escolhi ser guiado pela Comédia de Dante, porque é de uma riqueza e complexidade impressionantes e me permite olhar as perguntas em um contexto literário e no que acontece na história do mundo. Mas não há respostas porque não estou interessado em respostas. Há um ditado que diz “se você quer saber o caminho, não pergunte a alguém que vá te dar uma resposta, porque aí você não consegue se perder”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Como a Alemanha Oriental 'vendia' pessoas contrárias ao regime

Por Gavin Haines, na BBC

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Pessoas que tentavam fugir da Alemanha Oriental durante a Guerra Fria podiam ser baleadas, presas e torturadas. Mas o governo estava tão sem dinheiro que alguns acabaram sendo secretamente vendidos -e para a Alemanha Ocidental, exatamente o país onde a maioria deles estava tentando chegar ao fugir.
"Eu fui para uma delegacia sozinha. O balcão parecia super alto, já que eu era só uma menina, e eu lembro do policial perguntando: 'Por que você não está chorando?' Eu penso nessas palavras agora e me pergunto: 'Sim, por que eu não estava chorando?' Acho que eu estava em choque".
Daniela Walther lembra da noite em que foi pega tentando fugir de Berlim Oriental. Era 13 de agosto de 1961. Ela tinha cinco anos.
Dois dias antes, seu pai, Karl-Heinz Prietz, que era repórter em uma revista de educação, tinha voltado para casa com uma informação de que as autoridades da República Democrática Alemã (RDA) iriam fechar a fronteira entre Berlim Oriental, comunista, e Berlim Ocidental, capitalista.
"Ele sabia que eles iriam construir um muro", afirma Daniela, referindo-se ao Muro de Berlim, que caiu há 25 anos, em 9 de novembro de 1989.
Sabendo que seria quase impossível se mudar para Berlim Ocidental após a barreira ser erguida, o pai de Walther convenceu a mãe dela a fugir imediatamente.
Credito: Getty
Muro foi construído em agosto de 1961
"Ela estava relutante em abrir mão de seu emprego de professora - ensinar era sua 'raison d'etre' - mas ela concordou", diz Walther.
"Meu pai nos disse para onde ir, onde tentaríamos atravessar, e esperamos por ele neste local. Ficamos lá na noite de 11 de agosto, dormindo no galpão de alguém. Lembro da minha mãe agoniada, me dizendo para ficar quieta. Fiquei com medo".
Na noite seguinte, seu pai levou-as para o local que ele pensava ser um ponto vulnerável na fronteira, que já era fortemente vigiada. "Ele foi em frente e chamou minha mãe para ir junto, mas ela congelou - ela não tinha coragem. Lembro de ficar ao lado dela, ouvindo meu pai chamando".
Em seguida, os guardas apareceram. "Eles saíram da escuridão e prenderam meu pai. Não o vi de novo por oito anos", diz ela.
Daniela e sua mãe também foram presas e levadas para uma delegacia. Sua mãe foi condenada a nove meses de prisão por ser cúmplice da tentativa de fuga e Daniela foi enviada para viver com os avós no vilarejo de Stockhausen.
"Ser a filha de alguém que tentava atravessar a fronteira era pior do que ser a filha de um assassino", diz ela.
Credito: Gavin Haines
Daniela enquanto morava com os avós, após a prisão do pai
"Meus avós disseram: 'Se alguém perguntar, diga que você é a filha da Lilo,' que era minha tia na Alemanha Ocidental."
Daniela se adaptou rapidamente a sua nova vida. "Eu estava muito feliz. Meus avós tinham muitos animais, incluindo um cão, e por causa da coletivização tudo foi aberto. Não havia terra privada ou cercas. Assim, eu costumava sair para explorar."
Daniela até aprendeu a esquiar. "Achei os esquis do meu pai, que eram muito grandes para mim, e aprendi a esquiar no pomar - o que era provavelmente muito perigoso", diz ela.
Quando sua mãe saiu da prisão a dupla mudou-se para Potsdam, mas a relação entre elas se complicou. "Minha mãe era muito instável", lembra Daniela. Ela se distraiu entrando para a equipe de acrobacias a cavalo do Exército, e se apresentando nos intervalos em eventos equestres.
Enquanto isso, a economia da Alemanha Oriental estava em queda livre. Muitos trabalhadores qualificados e intelectuais fugiram e a União Soviética estava tirando recursos do país. Em 1964, a situação fiscal ficou tão ruim que as autoridades desenvolveram um esquema para vender presos políticos para a Alemanha Ocidental. Chamava-se haeftlingsfreikauf.
"Entre 1964 e 1989, cerca de 33.755 prisioneiros políticos e 250.000 parentes deles foram vendidos para a Alemanha Ocidental, por um montante total de 3,5 bilhões de marcos alemães", diz o historiador Andreas Apelt.
Credito: AFP
Queda do muro completa 25 anos
"Ambos os lados tinham interesse no negócio - a República Democrática Alemã (RDA) porque precisava de moeda Ocidental e o Ocidente porque queria salvar as pessoas das prisões desumanas da RDA".
Os presos também foram negociados por commodities, como café, cobre e petróleo.
No entanto, nenhum dos lados queria que o público descobrisse -a RDA, porque não queria parecer fraca, e a Alemanha Ocidental, porque não queria ser vista apoiando o regime comunista.
Assim, a operação permaneceu clandestina -as pessoas foram negociadas em recantos escuros do metrô, o U-Bahn, ou enviados através da fronteira em ônibus com "placas giratórias". As placas mudavam nos pontos de verificação para não levantar suspeitas do outro lado.
Em 1968, um preço para o pai de Daniela, Karl-Heinz Prietz, foi negociado. "Ele tinha estado na prisão por oito anos. Foi torturado - ele não explicou os métodos, mas destruíram sua saúde. Acho que ele não viu a luz do dia durante anos", diz ela.
No período da prisão, Prietz passara horas escrevendo as histórias de ninar que ele contava para a filha. "Ele inventou histórias sobre dois ursos chamados Bumsi e Plumsi, que tiveram muitas aventuras", diz ela. "Na prisão, ele continuou a escrever estas histórias em livros antigos de exercício - havia uma enorme pilha deles."
No entanto, os presos não foram autorizados a levar qualquer coisa ao deixarem a Alemanha Oriental, exceto roupas. Então, ele mandou os livros para sua mulher para mantê-los seguros.
Após Prietz se instalar na Berlim Ocidental, ele conseguiu um acordo para Daniela e sua mãe irem também.
"Eu realmente não queria ir. Queria ficar na Alemanha Oriental com meus avós, mas o acordo foi para a mulher e filha", diz ela. "Eu acho que eles pagaram 100 mil marcos por nós."
Credito: Gavin Haines
Daniela olha fotos antigas de quando vivia em Berlim Oriental
Quando chegou a hora de fazer as malas, sua mãe disse que não havia espaço para os livros da história do pai. "Ela não trouxe eles conosco. Ela disse que não havia espaço suficiente, mas levou várias velharias. Eu nunca a perdoei", diz Daniela.
Os dois foram levados pela fronteira pela Bahnhof Friedrichstrasse, uma estação ferroviária na fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental. Era 1969 e Daniela tinha 13 anos.
"Minha amiga Gudrun foi com a gente para se despedir. Eu estava muito triste de me separar dela. Ela disse que iria me visitar quando tivesse 60 anos, porque havia uma autorização para deixar a Alemanha Oriental quando você fazia 60".
Depois de se despedir de Gudrun, Daniela e sua mãe foram interrogadas pelos serviços secretos do Reino Unido, a França e EUA, que controlavam Berlim Ocidental.
Credito: Gavin Haines
Daniela Walther ainda tem fotos de sua amiga Gudrun
"Meu pai estava esperando por nós do outro lado. Eu não o reconheci, o que foi muito doloroso para ele. Ele estava chorando". Como era muito nova quando se separou do pai, Daniela estava mais triste de ficar sem sua amiga do que com a possibilidade de continuar sem o pai.
A vida em Berlim Ocidental não deu certo para a família reunida. Os pais de Daniela se separaram e ela teve dificuldade em se adaptar ao sistema de ensino.
"Quando você é criança a escola é o centro do mundo e eu odiava isso", diz ela. "Eu passei de melhor aluna da classe na Alemanha Oriental para a pior. Meu professor de línguas me disse que eu nunca iria me familiarizar com o inglês".
Determinada a provar que o professor estava errado, Daniela convenceu o pais a pagar para ela estudar numa escola de idiomas no Reino Unido. "Eu era a menina dos seus olhos. Ele teria feito qualquer coisa para mim", diz ela. Então, em 1972 Daniela chegou no Reino Unido e, em pouco tempo, passou a estudar línguas no Goldsmiths College, em Londres. Em seu segundo ano, ela conheceu seu marido, Bill, com quem teve dois filhos. Fotos emolduradas de Berlim adornam as paredes de sua casa no sul de Londres.
Credito: Gavin Haines
Família reunida em Berlim Ocidental
Daniela, hoje com 59 anos, é uma professora como sua mãe. Ela diz que está feliz por ter deixado a Alemanha Oriental. "Foi para o bem. Caso contrário eu não teria vindo para a Grã-Bretanha, encontrado Bill ou me mudado para Londres, que é uma cidade que eu amo", diz ela.
"Mas se eu tivesse ficado, eu teria tido uma boa vida lá. Havia um cuidado grande com as pessoas e eu concordava com os princípios do Estado -o que ainda faço - mas não com a espionagem e opressão."
Embora ela desaprove a idéea de vender prisioneiros, ela entende por que isso aconteceu. "Foi bem mercenário dos alemães orientais, mas eles estavam sendo sugados pelos russos", diz ela. "Para a Alemanha Ocidental foi um esforço humanitário."
O pai de Daniela morreu em 1996, seguida por sua mãe em 2010. Depois daquela noite na fronteira o relacionamento delas nunca se recuperou. "Ela simplesmente não conseguia decidir", diz Daniela. "E isso que arruinou eles."

domingo, 9 de novembro de 2014

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Jonas, infrator,17 anos: cursou até a 7ª série e não aprendeu a ler

Do UOL-Educação



O pedido do jovem infrator ao chegar na Fundação Casa foi incomum: `senhora, eu queria aprender a ler`. Era seu `sonho`, contam as professoras. Sua apreensão também foi pouco usual: ao achar que havia cometido um erro muito grave, Jonas*, 17, resolveu se entregar e cumprir sua pena.

Ele perdeu a liberdade, mas realizou o sonho: prestes a completar 18 anos, após quase um ano de internação, ele começa a ler e a escrever. Até chegar à fundação, Jonas havia estudado até a 7ª série em uma escola pública de São Paulo. Anos na sala de aula, no entanto, não lhe garantiram sequer a leitura e a escrita.

Sem conseguir acompanhar às aulas, ouviu de uma professora que deveria `sentar e apenas copiar`. `Os professores não tinham tempo`, diz. Passava de ano com a aprovação do conselho de classe. Passava, mas não aprendia. `Pegava ônibus só pelo número, não pela letra`.

O histórico escolar registra ainda duas reprovações. Sem aprender e prestes a terminar o ensino fundamental, decidiu abandonar a escola. Cometeu um ato infracional e procurou o fórum da cidade para se entregar. Perdeu a companhia dos amigos, da namorada e o abrigo na casa da mãe.



Na 8ª série sem saber ler

Quando as grades se fecharam, ele `adotou` um novo corte de cabelo (igual para todos os internos), passou a usar o uniforme e percebeu uma chance de realizar o seu maior sonho. Seu histórico escolar lhe garantiu matrícula na 8ª série, atual 9º ano, do ensino fundamental.

Na sala, sentou na primeira fila e começou a fazer reforços de alfabetização. Os outros meninos zombaram dele, mas ele não ligou. Aos poucos, quem só sabia desenhar umas letras passou também a juntar sílabas: pato, vaca, faca, coelho, foram algumas das primeiras palavras que leu sozinho.

`Eu não sabia nada quando entrei aqui. Minha mãe até chorou quando eu ganhei diploma de melhor aluno`, conta o interno. Fez também cursos de corte de cabelo, artes cênicas, artes plásticas, biojóias e aprendeu a fazer sabonetes e salgados. Também é destaque no time de basquete na unidade.

Mario Volpi, representante da Unicef, afirma que as medidas com mais êxito estão relacionadas a estruturas que não necessitam da internação, mas dependem da articulação entre a escola, a comunidade e o sistema de atendimento socioeducativo. `O ideal é que a instituição não precise prender para ele descobrir suas habilidades`, diz.

Logo que entrou na Fundação Casa, Jonas descobriu que seria pai. Perdeu os nove meses de gravidez, o nascimento do bebê e só conheceu a filha quando ela completou três meses. `Agora eu quero trabalhar e cuidar da minha filha. Quero estudar, fazer supletivo e depois fazer uma faculdade, quero ser professor de educação física`, diz.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Que todos signifique todos, de María Teresa Andruetto



Por debaixo da obra

Caía a neve, e a noite estava alta. Era noite de Natal. Em meio ao frio e à escuridão, uma pobre menina passou pela rua com a cabeça e os pés descobertos. Quando saiu de sua casa tinha sapatos; mas eles não lhe serviram por muito tempo. Eram umas sapatilhas enormes que sua mãe já usara, tão grandes que a menina as perdeu ao atravessar a rua... A menina caminhava, então, com os pés descalços, que estavam vermelhos e azuis de frio; levava no avental muito velho, algumas dúzias de caixas de fósforos e tinha na mão uma delas como amostra. Era um péssimo dia: ninguém tinha comprado nada e a menina não ganhara um centavo... Este é o começo de A pequena vendedora de fósforos.

Li pela primeira vez o nome de Andersen na capa de um livro com recortes e com ilustrações polvilhadas de brilho, uma daquelas adaptações de baixa qualidade, em que a profundidade, a complexidade e a sutileza do escritor dinamarquês tinham perdido – por um caminho de sucessivas simplificações – sua riqueza. Mesmo assim, ali estavam o patinho feio, a vendedora de fósforos, a menina prisioneira de seus sapatinhos vermelhos, contos que, parecia, nem precisávamos ler, porque aqueles que nos precederam leram por nós. Personagens em absoluta solidão, abandonados e que querem entrar na festa do mundo, ainda que este não ofereça precisamente uma festa. De tão simplificadas, aquelas adaptações eram ofensivas, mas não impediram que meu interesse de menina se fixasse, como o de tantos meninos e meninas da minha época, em um aspecto essencial da obra de nosso escritor, talvez o único aspecto que conseguiu sobreviver a todas as mutilações e adaptações a que se viu submetida. Me refiro à exclusão, à expulsão de que padecem suas personagens e a tremenda necessidade de inclusão que os habita.

Todos significa todos, diz o slogan desse congresso e isso parece nos pedir (com humilhação, resignação ou grito) a menina do mar, o soldadinho de chumbo, o patinho feio, entre outros contos do maior escritor dinamarquês de todos os tempos, adaptados e lembrados até o quase desaparecimento daquelas edições argentinas de finais dos anos 1950 e começo dos anos 1960. Forte identificação a de muitos de nós com os excluídos de Andersen, singulares vivendo entre estranhos, diferentes em um mundo de iguais. Quem sou. Onde estão os meus. Personagens que, como no poema de Salvatore Quasimodo, estão sozinhos sobre o coração da terra, cisnes em uma comunidade de patos, seres míticos em um mundo humano, pobres de toda pobreza em um país gelado e mesquinho... Como extraterrestres entre terráqueos, seus homens, mulheres, animais e crianças são arrancados de seus lugares, jogados às intempéries, expulsos de hipotéticos paraísos, de concretos privilégios.

A que lugares nos levam nossos privilégios, a que lugares não nos deixam ir?, se pergunta a poeta e ensaísta americana Adrianne Rich. Pagamos um preço muito alto para diminuir nosso contato com a dor dos demais; acreditamos, muitas vezes, que é melhor não pensar, não saber. Ilusão de insensibilidade, de autoanestesia que – imaginamos poderia nos proteger e, sobretudo, poderia proteger nossos filhos. Se a literatura nos permite entrar no coração do outro, então, evitá-la nos ajuda a viver anestesiados. A anestesia na leitura se constrói por um caminho de formas fixas, estereótipos que impedem penetrar a superfície dos textos e da vida. Assim, a indiferença pode nos acompanhar mesmo lendo. Histórias narradas em uma linguagem amável e inócua em oposição ao literário, cuja potência reside na possibilidade de nos inquietar, de nos conduzir às zonas inesperadas de nós mesmos.

Quando um escritor se senta para escrever, pode ser que esqueça, por um momento, as condições concretas de sua vida, mas são justamente essas condições as que, por múltiplos caminhos o levaram a escrever de determinada maneira. A escrita, quando é verdadeira, se alimenta da experiência e da coincidência vital de quem escreve; somente dessa forma, pode fazer crescer nela mesma  e em quem lê, a percepção que a une aos outros para que os outros se tornem visíveis, deixem de ser o que se deixou para trás (Rich). Não são suficientes as palavras bonitas nem a frase cuidada, nem a trama a ponto de transmitir a riqueza de uma subjetividade e quem escreve sabe – ou deveria saber – que a linguagem opressora pode ter sua melodia enganosa. Quem escreve compreende (e seu leitor o compreenderá, mais cedo ou mais tarde) que o que parecem verdades irrefutáveis são construções sociais, vantajosas para uns e prejudiciais para outros e que essas construções podem ser colocadas em discussão.

Toda criança, todo jovem, precisa de uma comunidade que o reconheça, precisa sentir que essa experiência à que pode aceder pela leitura (a de um ser humano em outro contexto, em outras condições de vida) poderia ter sido a sua, experiência e condições pelas quais poderiam ter sido premiado ou castigado. Os leitores (adultos ou crianças) vamos à ficção para expandir os limites de nossa existência, porque necessitamos conhecer outras vidas e outros mundos, já que as ficções são construções de mundo, instalação de outro tempo e de outro espaço, nesse tempo e nesse espaço em que vivemos. Construção de mundos, artifícios cuja leitura ou escuta interrompem nossas vidas e nos obrigam a perceber outras vidas. Ao escrever e ler ficções, tornam-se palpáveis as infinitas possibilidades que existem em qualquer situação humana e somos colocados frente ao desafio de escapar da asfixia dos estereótipos, de romper o lugar comum para deixar entrar nesses seres inventados a complexidade da vida. Quando isso ocorre, estamos ante um livro que nos perturba, um animal completo, como diz o poeta Rodolfo Godino, um livro, enfim, verdadeiro como a vida.

Em uma população mundial estimada em 7 bilhões de pessoas, segundo dados do Banco Mundial, 1 bilhão e 300 milhões estão abaixo da linha da pobreza, isto é, quase 2 entre 10. Isso significa que vivemos em um mundo em que duas de cada dez pessoas não tem suas necessidades básicas satisfeitas, em um mundo assim de injusto. Que preço paga a arte quando se separa da sociedade de que faz parte, a sociedade cujas misérias e riquezas a alimentam? As histórias que escrevo são sempre uma extensão de mim mesmo, saem de minha vida. Algumas vezes mais encoberta que outras, a vida de qualquer escritor pulsa por debaixo de suas obras, diz o escritor Agustín Fernandez Paz. A quem escrevemos, nos produz reação a palavra compromisso, uma palavra que, no que diz respeito à literatura, foi estigmatizada. Mas, o que quer dizer comprometer-se, em literatura? Quando uma escrita é comprometida? Toda obra é a aventura de uma consciência dialogando com o mundo, em busca de uma verdade pessoal, não dogmática. Na disfuncionalidade, a opacidade e o empobecimento, um escritor tem algo a nos dizer sobre uma sociedade, um tempo, uma geografia, uma cultura. A arte não tem sentido se não considera que se dirige a uma sociedade de que seu discurso se alimenta, disse Graciela Gambaro, o que nos lembra que a obra não se faz somente com palavras e, sem dúvida, a obra de Andersen não é feita somente de palavras. Alimentados por seu complexo de feiura, pela pobreza de sua infância, o alcoolismo de sua mãe, as múltiplas carências e a tremenda necessidade que teve de ser reconhecido; alimentados – digo – por essa soma de virtudes e mesquinhezes que o habitaram, como a cada homem ou mulher da face da Terra, seus contos refletem um ponto muito alto de exclusão, em narrativas que, quase um século e meio depois de sua morte, não deixamos de ler, e cujo nome faz jus a este prêmio maior e nos honra. Andersen dedicou a sua mãe – à extrema pobreza de sua mãe – o conto sobre a pequena vendedora de fósforos que na última noite do ano, na cidade coberta de neve, acende um a um os fósforos que não conseguiu vender, assim como Não serve para nada, se alimenta no alcoolismo em que ele a viu se acabar para aplacar o frio. Às vezes me sinto como se tirasse os personagens do fundo do gelo com que a realidade os envolveu, mas, talvez mais que qualquer outra coisa, é a mim mesmo a quem estou desenterrando”, disse o escritor isralense David Grossman, em seu livro Escrever na escuridão. Hoje sabemos que Andersen é um grande escritor, porque ao olhar para si mesmo, conseguiu ver além de sua condição até descobrir algo que em seu tempo ainda não havia sido expresso ou cuja expressão ainda não havia encontrado sua forma estética.

Por cima dos sonhos

Embora fizesse pelo menos dez anos que trabalhava em e com livros para crianças, escutei pela primeira vez o nome de Jella Lepman em 1993, da boca de Evelin Höhne, minha orientadora na Internationale Jugendbibliotek de Munich. Sem o trabalho de Lepman, escritora, jornalista e ativista política judia alemã, que fundou em 1949 a Internationale Jugend Bibliothek de Munich e a dirigiu até 1957, que fundou o IBBY em 1953 e recebeu o primeiro prêmio Andersen em 1954, o campo da literatura destinada a crianças e jovens sería algo completamente diferente daquilo que conhecemos. Em boa parte se deve a ela o fato de que hoje consideremos os livros tão necessários na vida das crianças e, talvez também, devamos a Jella o desafio de pensar que o privilégio de ascender desde cedo à literatura escrita não deveria estar reservado somente a algumas crianças de alguns setores na escala social. Necessários os livros, especialmente necessário o acesso à arte e à literatura como direito inalienável, extensivo a todos os nossos semelhantes, no esforço e na convicção – de acordo com Antonio Candido –, de os incluir no mesmo catálogo de bens que reivindicamos para nós mesmos. Direito de entrega a um universo fabulado cujo alimento é indispensável para nossa psique, porque assim como não é possível ter equilíbrio emocional sem a fantasia, talvez não exista equilíbrio social sem a literatura. A leitura e a escrita enriquecem nossa subjetividade porque nos coloca de frente com nós mesmos, nos incitam perguntas, nos ajudam a pensar e a sentir, nos colocam em xeque, nos permitem aceder a outras experiências, tentar compreender outras subjetividades. A exploração de uma verdade estética pessoal é o que a arte nos oferece, por isso a literatura não é o lugar das certezas, mas o território da dúvida e não há nada mais libertário e revolucionário que a possibilidade de duvidar, de nos enfrentar a nós mesmos para colocar nossas certezas em xeque.

Compreender outras pessoas e outros povos foi o que tentou Lepman com A bridge of Children´s books, a ponte de livros e de crianças que refletem sobre sua experiência. Pioneira em programas de leitura, muito de nosso trabalho se nutre das instituições que ela fundou e impulsionou, até a sua morte. Agora mesmo, estamos em um lugar que é parte do que ela um dia sonhou e, então, é aqui onde eu gostaria de lembrar suas convicções, o lugar que ocupa a literatura na vida das pessoas e dos povos, já que ela soube, cedo, que ler o outro ajuda a entendê-lo, talvez, inclusive, que pensar em um homem é como salvá-lo, como disse em um de seus poemas Rodolfo Juarroz.

Politicamente ativa, consciente de seus privilegios e de suas diferenças, e da obrigação de emigrar de muitos povos e pessoas a raiz da intolerância de outros, Lepman não cansa de seu propósito de levar às crianças alemãs os livros de diversos lugares do mundo, de modo que, ao entrar em contato com eles, estejam melhor preparados para a paz, a convivência e a compreensão. Ela entendeu que quem lê a experiência de outro poderia, talvez, compreendê-lo e que, nesse caso, não poderá declará-lhe a guerra; que se esse outro se torna mais humano, não poderemos tão facilmente fazê-lo desaparecer; colocados pela literatura no lugar de outro, escritores e leitores podemos descobrir as semelhanças que existem entre esse outro e nós mesmos.

Mas não falaria de escrever sobre outros, mas mais precisamente de escrever desde o outro, tentando entrar em seu ponto de vista, em sua percepção de mundo, em seu coração. Escrever desde um outro diferente de nós (e visto em profundidade, todo outro é diferente e único) é em primeiro lugar nos atrever a pensar como ele, a estar, por um momento, em sua pele. O caminho que propõe a literatura é um caminho de conhecimento desse outro e a colheita que obtemos na leitura consiste em sair da indiferença porque, ao final de um livro, quem escreve e quem lê ficam em dúvida com a complexidade de razões, interesses, virtudes e defeitos de um outro diferente de si, compreendendo que já não seria tão simples desentender-se de sua existência. Escrevo para ser compreendido, disse Joseph Brodsky; escrevemos não só tentando compreender como também desejando ser compreendidos nessas zonas ainda não domesticadas do nós, e, aqui gostaria de me deter: na dificuldade de compreender e na importância de transitar, na leitura e na escrita, essa dificuldade. Gostaria de lembrar que uma parte importante de nossa experiência leitora provém da incompreensão, não compreendemos tudo o que vamos lendo e então isso mesmo, tentar compreender, provoca o esforço de transitar a leitura de um livro; é assim como temos viajado os leitores, de um livro a outro, desde os distantes dias da infância até os dias de hoje. Então um bom livro é, talvez, um livro que nos propõe essa dificuldade. Isso é relevante porque muitos livros editados hoje para crianças e jovens estão escritos em uma linguagem e tratam de assuntos extremamente simplificados, de acordo com a linha oficial, o congelado, o previsível, evitando e evitando-nos de pensar. Ler é aprender a entrar na vida e na língua, assim a literatura nos oferece seu mistério porque permitindo-nos entrar em um outro diverso, incluindo-nos em seu mundo e deixando se incluir no nosso, nos abre novas experiências de contato com o sofrimento, o assombro, a dor, o regozijo ou a maldade, ao mesmo tempo em que nos oferece a cura desses sentimentos, porque como disse Grossman os livos são o único lugar onde podem coexistir as coisas e suas perdas. Uma vez que as palavras passam pelo corpo e pela alma de quem escreve podem pertencer já ao leitor, ou seja, as palavras podem oferecer o ingresso em um mundo na linguagem privada, não oficial. Mas para isso, não deveríamos nos esquecer que a linguagem é um veículo, quase diria como a água, transmissora de uma corrente interna que vai desde a subjetividade de quem escreve a de quem lê e que essa linguagem precisa de transparência suficiente como para conduzir até o mundo que se narra e de opacidade indispensável como para se abrir a múltiplos sentidos. A literatura é generosa para nós, profundamente democrática porque nos permite ingressar em seu universo a partir de nossa particularidade, e possibilita a cada um de nós encontrar um caminho próprio entre suas letras.

Um escritor, procurando uma forma inteligível e altamente condensada para as imagens que persegue, despindo-se a si mesmo, põe a nu aspectos inimagináveis da condição humana. Leva-nos a pensar, ao menos por um momento, de outra maneira. Coloca-nos diante do desafio de tentar compreender uma situação que vai para além de nós, nos propõe identificar-nos, inclusive, com o que repudiamos, para nos obrigar a olhar a partir de outros ângulos, tirando as macias almofadas de nossas sagradas convicções. E se as coisas fossem de outro jeito? Só assim é possível perfurar a superfície de tantas versões superficiais da vida como nos chegam através de mil modos de penetração. Como seria nossa vida se fosse possível viver como esse outro?

Na vida real

Cada escritor é filho de seu tempo; ninguém pode criar à margem da experiência dos grandes conflitos históricos e sociais. Nenhum livro pode substituir a experiência, mas nenhuma experiência se basta em si mesma; terá sido insuficiente nossa educação se não lemos também livros de poetas e romancistas, de escritores que indagaram acerca da mais delicada das matérias: o homem, seus sentimentos, sua maneira pessoal de refletir, sofrer ou combater a realidade. Durante muito tempo, Cervantes, Tolstoi, Kafka nos disseram sobre o homem, coisas que a sociologia e a psicologia não nos puderam dizer, durante muito tempo os poetas nos dirão coisas sobre a língua e suas possibilidades de expressão, de comunicação e de criação, coisas que não podemos pedir aos linguistas. Não podemos esquecer de que uma criança não é uma flecha, que vai numa única direção, mas muitas flechas que vão simultaneamente em muitas direções, um centro de atividades e relações, uma mão que brinca, uma mente que absorve, um olho que julga. As crianças não crescem em um mundo separado do nosso, em um gueto ou em uma redoma de vidro, os livros destinados a elas não são livros fora do tempo, não há nem um só problema do presente a que as crianças não sejam sensíveis. Os livros para as crianças de nosso século não podem aparentar que o século não existe e que não transcorre, tumultuado, em nosso entorno, são algumas das ideias que Gianni Rodari incluiu em seu ensaio La imaginación en la literatura infantil.

Foi em 1984, após o fim da ditadura na Argentina, quando um coletivo de mulheres provenientes de estudos em Letras, formamos em Córdoba um centro de literatura destinada a crianças e jovens e, como marco deste centro, a revista Piedra Libre. No segundo número da revista reproduzimos, graças à gentileza de Perspectiva Escolar e Associació de Mestres Rosa Sensat, o ensaio de Rodari, o que permitiu, pela primeira vez, conhecermos seu pensamento na Argentina, um pensamento muito centrado no trabalho sobre escrita criativa que se fazia em meu país. A importância do desenvolvimento do imaginário e o trabalho a favor da inclusão são alguns dos caminhos que Rodari transitou a partir de sua experiência com crianças refugiadas. Sua fecunda escrita, nova para as crianças de hoje, continua sendo lida, como demonstram as reedições recentes de seus livros, mas é em seu lugar de professor que quero trazê-lo aqui, como quisemos levá-lo aos educadores argentinos, naqueles anos de minha iniciação. O autor de Fábulas por telefone, Los negócios Del señor gato, Os anões de Mantua e Antoñito es invisible, que começou seu trabalho docente como tutor na casa de uma família judia que tinha fugido da Alemanha e vivia em Sesto Calende, esteve em contato desde cedo com a privação, a dor, a exclusão. As reflexões que a partir dessas experiências anotou em seu Quaderno della fantasia, foram a base do que trinta anos mais tarde seria a Gramática da fantasia/Introdución al arte de inventar histórias, o ensaio em que explorou as leis da invenção para colocá-las à disposição de pais, bibliotecários e professores. Ainda que o romantismo o tenha rodeado de mistério..., o processo criativo é inerente à natureza humana, e está ao alcance de todos, disse quem confiava no poder de liberação que a palavra pode alcançar.

Filho de uma operária e de um padeiro, órfão de pai desde muito pequeno, professor de crianças alemãs que fugiram do nazismo, a vida de Rodari está por baixo de seu trabalho como pedagogo, estendendo aquela frase de Agustín Fernandez Paz, que mencionei no começo, a cada professor sobre a Terra, consciente de seu fazer. Afinal é isso, a vida consciente, o que unifica o escritor e o docente, que, ao receber o Prêmio Andersen, disse que A fantasia serve para explorar a realidade e para explorar a linguagem..., para ver em que resulta quando se opõem as palavras entre si. Nesse sentido, nosso escritor imaginou crianças que pudessem explorar a palavra para se abrir ao mundo, lê-lo, narrá-lo e modificá-lo; incentivou o desassossego, a percepção do pessoal e do diferente, a lutar contra a domesticação aceitando o nonsense, consciente de que por trás desse nonsense apareceriam sentidos novos, inesperados.

Que todos signifique todos é o lema deste congresso que busca refletir em torno do lugar da leitura na construção de uma cultura de inclusão, a criação a partir da diversidade e a diferença e os modelos, estratégias e práticas de inclusão, assim como os mecanismos de exclusão na promoção da leitura. Daí compartilhar este percurso com três figuras da literatura para crianças que chegaram a mim em diferentes momentos de vida e que, desde seus diferentes lugares, me fizeram girar em torno de eixos de atração/rejeição, inclusão/exclusão. Mas o que significa todos no que se refere à literatura, quando ela implica sempre um olhar singular sobre um assunto também singular? Pois creio que é justamente aí, na intensa observação do singular que pode nascer a metáfora de um todo que vai além do que estamos dispostos a ver. O debate social, os pobres, os que discriminam ou são discriminados, os que não têm memória, a  violência familiar e social, as guerras e ditaduras de todos os lugares e tantos outros assuntos são temas da literatura, a condição de que haja em seu tratamento uma intensa observação singular sobre uma circunstância e uma subjetividade também singulares, porque a literatura para ser útil (para usar uma palavra que vai contra sua essência) deve conservar-se inútil, deve se preservar como um tesouro em sua disfuncionalidade.

Desde que existe, desde o começo dos tempos, ela olha para o humano singular, na luta de um ser humano entre o que é e o que quer ou pode ser. Ela busca uma verdade que nem começa e nem termina nas palavras. Para conseguir que essa verdade não seja somente de palavras, luta contra o oficial de uma língua e de uma sociedade. Luta contra a homogeneização dos discursos, nos convida a ser pessoas que pensam e sentem de uma maneira própria. Enfim, aquilo que Rodari um dia nos ensinou: treinar-nos no vício de fabular para viajar até o coração do homem.

 

(Texto apresentado no Congresso Internacional Lectura 2011 “Para ler o século XXI”, Habana, Cuba Outubro 2011.)
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Escritora argentina das mais premiadas e reconhecidas, desenvolve, há décadas, trabalhos em torno da leitura e literatura para crianças e jovens. Participou da elaboração de vários planos de leitura em seu país, assim como fez parte de equipes de capacitação de docentes em leitura e escrita criativa com crianças, adolescentes e jovens em situações de risco.  Ganhadora dos Prêmios Iberoamericano de Literatura Infantil y Juvenil e do Prêmio Andersen em 2012. No Brasil tem publicados A menina, o coração e a casa e Stefano, pela editora Global e Por uma literatura sem adjetivos, editora Pulo do Gato. Para saber mais sobre a autora visite o site www.teresaandruetto.com.ar

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Esplendor e miséria do best-seller, de Paulo Rónai

Paulo Rónai



O que é um best-seller? À primeira vista a resposta não parece difícil: o livro que mais se vende ou um dos livros que mais se vendem. Mas, ao examinarmos os casos em que se emprega essa palavra, tão frequente na crônica literária dos jornais, verificaremos que seu sentido se está enriquecendo de novas matizes.

Mais de uma vez poderemos achar-lhe uma nuança pejorativa, e esse uso não é exclusivo do Brasil. Numa resenha francesa da produção literária de 1947 encontro esta observação: "O termo best-seller entre nós vai designar, dentro em breve, não o livro que melhor se vende, mas um certo 'gênero' de romance, de leitura fácil, longo, obrigatoriamente traduzido...". E uma estudiosa inglesa não hesita em afirmar que "best-seller é um epíteto quase totalmente depreciativo entre pessoas cultas". Não seria difícil encontrar exemplos em que o termo, por si só, equivale a uma crítica.
    
A palavra, evidentemente, é de sabor norte-americano (embora não me seja possível abonar-lhe a origem). A ambição "yankee" de atingir recordes em todos os domínios envolve contínuas comparações, e estas só parecem ter valor quando baseadas em objetos exprimíveis por algarismos. E assim se encontrou uma medida cômoda para confrontar as obras da arte, fenômenos por sua natureza singulares e incomparáveis.

Ninguém pode afirmar com segurança se Betty MacDonald, autora de "O Ovo e Eu", é melhor escritor do que Samuel Shellabarger, autor de "Capitão de Castela": em questões de gosto não há verdades absolutas. Mas é possível saber com exatidão qual dos dois livros se vendeu mais. Os editores, com grande sinceridade, anunciam as tiragens mês por mês; o frontispício, muitas vezes, ostenta o número de edições vendidas.

Na avalanche das publicações o leitor comum é cada vez menos capaz de orientar-se. Sabendo que seu gosto se parece com o da maioria de seus contemporâneos, tende facilmente a pensar que o livro mais comprado será também o melhor. ("É impossível que 500 mil pessoas sejam idiotas"). Assim, mais 500 mil comprarão o livro porque 500 mil já o compraram. E quem poderá duvidar do gosto de 1 milhão de cidadãos honestos, contribuintes e eleitores?

Saber o que é um best-seller é igualmente importante para o leitor, para o escritor e para o editor. Se um livro, sendo best-seller, é necessariamente bom, facilita muito ao leitor a escolha de suas leituras; e o conhecimento não lhe é menos útil se, como afirmam alguns, todo best-seller é fatalmente ruim.

O escritor pouco escrupuloso, se conhecesse a fórmula química do best-seller, observá-la-ia com o maior empenho; mas, se o escritor honesto a soubesse, talvez verificasse que pode produzir best-sellers sem descer a transigências e concessões. Quanto ao editor, se a tivesse na gravata, possuiria um método esplêndido para enriquecer e, caso possuísse altas ambições culturais, bastar-lhe-ia lançar três best-sellers, para depois publicar, a vida toda, Kant, Bergson e Einstein.

CIENTÍFICO

Foram essas considerações que levaram o sr. Frank Luther Mott, diretor da escola de jornalismo na Universidade de Missouri, a consagrar à questão um alentado estudo ["Golden Multitudes: the Story of Best Sellers in the United States", Multitudes douradas: a história dos best-sellers nos EUA], baseado em pesquisas pacientes e difíceis.

Com excelente espírito de método, o sr. Mott começa por definir o critério para determinar se um livro é best-seller ou não. Levar em conta meramente os totais das tiragens não seria justo: um livro que em 1850 atingia 200 mil exemplares era relativamente mais lido do que um que hoje chega a 1 milhão. Assim, pois, o sr. Mott, que principia a relação dos best-sellers em 1662, nela inclui todo livro do que durante os dez anos consecutivos ao seu aparecimento se vendeu um número de exemplares igual a 1 % da população total dos Estados Unidos.

A limitação de dez anos foi imposta pela impossibilidade de calcular a tiragem total das reedições feitas às vezes durante séculos. Uma edição de Shakespeare figura na lista de best-sellers universais, cuja lista seria ainda mais curiosa, mas pressupõe a compilação de estudos iguais ao dele em todos os países. Ainda assim, não deve ter sido fácil conseguir, mesmo aproximadamente, as tiragens, sobretudo das edições antigas.

Além disso, esse estudo traz uma série de anedotas e fatos curiosos a respeito da história dos recordes de venda na história das livrarias: acasos que contribuíram para o sucesso, surpresas e decepções dos editores, consequências do êxito sobre a vida dos autores etc. E, para rematar suas pesquisas, põe no título dos dois últimos capítulos duas perguntas do maior interesse: "Existe uma fórmula de best-sellers? O que faz vender um best-seller?".
    
A resposta à primeira pergunta é francamente negativa. Procurando o elemento de atração nos títulos da sua lista, o sr. Mott assinala fatores tão diferentes como: apelo ao sentimento religioso; sensacionalismo e escândalo; caráter instrutivo; possibilidades de exibição esnobe; elemento biográfico; regras de conduta; experiência pessoal; enredo; vivacidade; caráter democrático ou popular; cor local; humor; imaginação; exotismo; sexualidade -indicando de cada vez a percentagem aproximativa de obras que contém o fator examinado.

A qualidade literária não parece fator dos mais importantes: o pesquisador declara que uma terça parte de sua coleção é de qualidade inferior, havendo dentro dela uma centena de livros desprovidos de qualquer pretensão artística. Seja como for, não há receita para best-seller, vista a diversidade extraordinária dos livros que já obtiveram esse título.

A segunda resposta também consiste numa enumeração de fatores. O que contribui para fazer vender o best-seller virtual é o título bem escolhido; o desenho da capa e, em geral, a apresentação; a publicação anterior em folhetim; a distribuição prévia de exemplares a grande número de personalidades; a escolha do livro na base das provas tipográficas, por um dos clubes do livro; boas críticas; difusão de opiniões favoráveis, e anúncios na imprensa e no rádio; filmagem da história; barateamento da edição, reedições em "pocket book" ou em "soft format" (fascículo in-quarto, vendível nos balcões dos vendedores de jornais). Nem todos esses fatores estão, porém, nas mãos do editor; e, por outro lado, mesmo que se achem todos reunidos, a previsão pode falhar e o lançamento pode acabar num fracasso.



Assim, pois, o sr. Mott não pode oferecer receitas de best-seller nem para os autores nem para os editores, o que, aliás, era de prever. Ele não se preocupa, por outro lado, com indagações de ordem geral; saber, por exemplo, se as tiragens astronômicas significam um progresso para a cultura. Poderia responder a esse reparo, e com toda a razão, que a sua parte se limitava ao estudo da história dos best-sellers: cabe ao leitor tirar as conclusões.

TIRAGENS

Essas, de início, são das mais otimistas. Na relação compilada vemos a ascensão vertiginosa das tiragens. Os livros mais vendidos há 200 anos eram os que tiravam 10 mil exemplares; e não havia mais de um por ano.

Hoje os best-sellers começam com 1.300.000 exemplares, e só a lista do ano 1944 contém títulos assim. Tiragens tão grandes ocasionam necessariamente a baixa dos preços: o leitor pode obter por um preço de 0,25 a 1 dólar obras que normalmente custariam 3 a 6 dólares. O número de leitores aumenta sempre, o que significa uma elevação do nível cultural.

Quanto aos escritores, as vantagens parecem ainda mais óbvias. Não mais haverá grandes escritores do tipo romântico, morrendo de fome ou de tuberculose, mourejando dia e noite; bastará ao romancista escrever um único best-seller e passará o resto da existência a gozar a opulência merecida.

Essa convicção está se generalizando de tal forma entre os homens de letras que um editor inglês, Stanley Unwin, achou necessário publicar um livro em que, com a colaboração do americano George Stevens, toma a defesa de sua classe contra os autores cujos livros não chegam a best-selller ["Best-sellers. Are They Born or Made?", Best-sellers. Eles nascem prontos ou são feitos?].

Todos eles, com efeito, atribuem a responsabilidade desse fato a seus editores, os quais não lhes fizeram publicidade suficiente.

Unwin e Stevens empenham-se em mostrar que o anúncio, por si só, não basta para fazer um best-seller; ele só pode ativar a venda dos livros que já tiveram um bom "start", isso é, que se revelaram pelo menos "well-sellers".

Assim sendo, só a ausência de imparcialidade determinará o emprego da palavra "best-seller" em sentido pejorativo. Antes, porém, de subscrevermos essa conclusão, examinemos melhor a relação de "livros mais vendidos" dos Estados Unidos, que o sr. Mott, com extraordinário esforço, conseguiu estabelecer desde 1662.

Tomemos, ao acaso, dez títulos sucessivos na primeira parte da relação e outros tantos na parte final.

Os dez livros mais vendidos nos Estados Unidos de 1760 a 1780 foram os seguintes (em ordem cronológica):

John Dickinson, "Letters from a Farmer in Pennsylvania" [Cartas de um fazendeiro da Pensilvânia];
Oliver Goldsmith, "O Vigário de Wakefield";
Laurence Sterne, "A Vida e as Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy";
Daniel Defoe, "Robinson Crusoé";
John Gregory, "Father's Legacy to his Daughters" [Legado de um pai para os suas filhas];
Philip D. Stanhope (Lord Chesterfield), "Letters to His Son" [Cartas ao filho];
Thomas Paine, "Senso Comum"
John Milton, "Paraíso Perdido";
James Thomson, "The Seasons" [As estações];
Edward Young, "Night Thoughts" [Pensamentos noturnos];

Só dois livros dessa lista (os de Dickinson e de Paine) foram publicados pela primeira vez nos Estados Unidos: os demais vieram da Inglaterra. Ambos os livros americanos são obras de caráter político; entre os ingleses, há três romances (Goldsmith, Sterne, Defoe), três de poemas (Milton, Thomson, Young) e dois livros de orientação de conduta ("behavior books").

Os volumes de Goldsmith, Sterne, Defoe e Milton são obras-primas de todos os tempos; os poemas de Thomson e Young, as cartas de Lord Chesterfield e o panfleto de Thomas Paine (nascido na Inglaterra) conservam, ainda hoje, lugar honroso na história da literatura inglesa. Pode-se afirmar, sem receio de erro, que pelo menos a metade desses livros são dos melhores publicados na época.

Vejamos agora os dez últimos livros da relação, publicados em 1944 e em 1945. (Os títulos vão em inglês, pois não sei se alguns já não foram traduzidos para o português e alterados.)*:

Elizabeth Goudge, "Green Dolphin Street" [A rua do delfim verde];
Gwethalyn Graham, "O Céu está Muito Alto";
Bob Hope, "Nunca Saí de Casa";
Somerset Maugham, "O Fio da Navalha";
Ernie Pyle, "Brave Men";
Margery Sharp, "Cluny Brown";
Thomas B. Costain, "The Black Rose" [A rosa negra];
Betty MacDonald, "O Ovo e Eu";
Samuel Shellabarger, "Capitão de Castela";
Katheleen Winsor, "Entre o Amor e o Pecado";

Nessa lista há dois livros de guerra: um de reportagens ("Brave Men"), o outro de humor militar ("Nunca Saí de Casa"); os oito restantes são romances históricos da linhagem de "E o Vento Levou" [de Margaret Mitchell], e "Antônio Adverse" [de Hervey Allen].

Não é preciso ser crítico literário para perceber a enorme diferença de nível entre os dois grupos. É pouco provável que, entre os do segundo, haja livros que a posteridade qualifique de obras-primas; talvez nenhum seja lembrado ao cabo de 180 anos, período que pelo menos oito títulos do primeiro grupo aguentaram, firmes.

Observa-se, pois, que os livros mais lidos do século 18 eram de qualidade infinitamente superior aos de nossos dias. Eram também muito mais variados, pois havia entre eles, além de romances, obras pertencentes a mais três gêneros, inclusive poesia (totalmente desaparecida das listas modernas de livros procurados), ao passo que a seleção atual consiste quase só em romances, havendo apenas, ao lado deles, dois trabalhos de jornalismo.

Note-se ainda que os três grandes romances do primeiro grupo são de três tipos completamente diversos, ao passo que a maioria dos oito romances do segundo grupo pertence ao tipo estandardizado do longo romance histórico da linhagem de "E o Vento Levou" e "Antônio Adverse" (gênero típico da literatura de evasão).

Essas conclusões coincidem de maneira surpreendente com as de "Fiction and the Reading Public" [Ficção e público leitor], da sra. Q.D. Leavis, publicado em 1939. A autora fez um inquérito semelhante ao do sr. Mott para conhecer as preferências do público britânico.

LEITORES

Seus resultados levaram-na a abandonar uma superstição muito espalhada, a saber, que a elevação do nível cultural esteja proporcionada ao aumento do número de leitores.

Minucioso exame das estatísticas e dos catálogos das bibliotecas circulantes, muito numerosas na Inglaterra, revelou-lhe que a grande maioria dos leitores de hoje liam exclusivamente romances da categoria mais baixa, trocando-os com frequência; muitos chegavam a ler um livro por dia. As respostas dos leitores acerca dos motivos de sua preferência mostravam que na leitura quase todos procuravam uma fuga. (O que, seja dito de passagem, não é de admirar num tempo como o nosso, em que tão pouca gente se sente à vontade). "O hábito de ler é agora, muitas vezes, uma forma de usar entorpecentes."

O número de leitores atingiu, praticamente, o máximo (na Inglaterra há diariamente um exemplar de jornal para cada três pessoas); o nível da leitura baixa progressivamente. Outrora não havia separação nítida entre os escritores da multidão e os da elite; Sterne, Goldsmith e Defoe eram lidos e admirados pelos intelectuais e pelas caixeiras; hoje se verifica uma desagregação definitiva do público em três classes, segundo seus elementos leem obras de escritores "highbrow", "middlebrow" ou "lowbrow" (de qualidade superior, média ou inferior). Nenhuma das três classes toma conhecimento dos escritores da outra. Os autores "highbrow" têm tiragens reduzidíssimas; para eles o best-seller começa com 15.000 exemplares; os best-sellers do "lowbrow" vão de um milhão para cima.

A sra. Leavis lembrou-se de submeter a grande número de autores populares um questionário para saber a que atribuíam o seu êxito. A maioria dos interrogados pensa ter agradado por escrever (para usarmos a definição dada por um deles) "um gênero de ficção que pode ser lido com um mínimo de esforço mental". O que parece confirmar a desiludida tese de um estadista inglês, de que "um dos grandes males da leitura moderna consiste em desencorajar o pensamento".

O público dos velhos tempos lia para completar a sua experiência, para enriquecer a própria vida; o de hoje lê para esquecê-la e compensar-lhe as imperfeições. Os autores de best-sellers são unânimes em afirmar que escrevem com e para o coração (e não o cérebro); que se dirigem à sensibilidade, mais que ao juízo do leitor. "À medida que o século avança, o best-seller se torna assunto menos do crítico literário que do psicólogo".

E, como o romance adquire hegemonia quase exclusiva, absorve todos os gêneros, inclusive os livros de ciência, e torna-se transmissor único -bem inexato, está visto- de toda espécie de conhecimentos.

Não que homens de ciência não procurem transformar seus livros em best-sellers. Mas então se expõem ao perigo de cair nos processos do romancista.

J.L. Russell, numa crítica dos populares livros de física e astronomia de sir James Jeans e sir Arthur Eddington, mostra como estes sábios são levados a atribuir maior importância à maneira de apresentação do que ao interesse intrínseco dos assuntos tratados, fazendo apelos contínuos à emotividade do leitor, usando indiscriminadamente recursos estilísticos, como metáforas e paralelos, e introduzindo teorias filosóficas surpreendentes.

Segundo o crítico, eles e a maioria de seus colegas chegam a favorecer a preguiça mental dos leitores, aos quais dão a impressão de que entendem a fundo um fenômeno ou uma teoria científica, quando apenas entenderam a comparação ou a pilhéria em que os autores os envolvem.

A sra. Leavis procura demonstrar, ainda, que o barateamento do livro não é puro benefício, pois constitui um golpe sério para os autores de elite, cujas tiragens não aumentam, mas que têm de reduzir os preços de seus livros para não contrastarem demais com os do resto da produção literária. No século passado, um Meredith, um Henry James podiam viver da renda discreta de seus livros: hoje não seria possível.

Aí, ela se encontra novamente com o sr. Mott, o qual admite, embora acessoriamente, que o número total de livros publicados anualmente nos Estados Unidos está em franca diminuição: os editores, seduzidos pela miragem das impressões em massa, querem de preferência publicar best-sellers potenciais e mostram-se infensos às obras que não têm probabilidade de o ser (entre os quais se encontram, precisamente, as destinadas à elite profissional e intelectual).

A comentarista assinala também o que os clubes do livro, embora aumentando o consumo da produção literária, têm de prejudicial à cultura: fazem o leitor abdicar da sua capacidade de seleção, procuram "dar ao público o que ele deseja", e substituem-se à crítica literária, cuja importância decresce cada vez mais.

É muito provável que a maioria dos males apontados pela sra. Leavis e implicitamente assinalados no livro do sr. Mott existam realmente, sobretudo nos países de maior mercado literário, como os Estados Unidos, a Inglaterra e a França; ao mesmo tempo, porém, eles parecem tão inevitáveis como outras consequências da industrialização excessiva, a qual, destinada a melhorar a vida do homem, a está tornando cada vez menos humana.

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Introduzimos o título em português dos livros já lançados no Brasil, mesmo os esgotados, quando o autor colocou o nome original em inglês (nota dos editores).

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PAULO RÓNAI (1907-92) ensaísta, tradutor e linguista nascido na Hungria. A Edições de Janeiro relança suas coletâneas "Encontros com o Brasil"e "Como Aprendi o Português e Outras Aventuras".

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Publicado originalmente no suplemento Ilustrissima, do jornal Folha de S.Paulo