quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Já leu seu audiobook?
Camila Cabete
Não é só de epub que vive o mundo do livro digital. Considero o audiobook um tipo de arquivo que o livro pode se travestir. Mais um formato meio esquecido pelas editoras e o pior, o audiobook carrega uma carga maior de preconceito. Como assim ouvir um livro?
Olha, nem vou entrar no âmbito do quanto isso é importante para os portadores de necessidades especiais. Vou falar da praticidade mesmo.
Há um ano, acho... A Amazon comprou a Audible. Experimentei, e fiquei impressionada com a quantidade de títulos e novamente com a lavada com os gringos nos dão na arte de produzir conteúdo e dar às pessoas acesso a este conteúdo. O grande problema - que nós do ramo do e-book também enfrentamos - é que não tem quase conteúdo nenhum em português brasileiro. Encontrei somente o Adultério do Paulo Coelho. Óbvio que experimentei. Pelo que pude descobrir, o arquivo é produzido pela editora. Caso a Audible produza, ela detêm os direitos de uso de seu conteúdo. Ouvi o Adultério e me incomodava algumas entonações que a locutora fazia... Algumas vezes me questionei se ela seria brasileira... Mas o melhor do app é o uso da velocidade. Você se acostuma a aumentar a velocidade do áudio, sem mudar o timbre da voz. Acho que futuramente teremos pouca paciência de ouvir uma pessoa falar devagar, pois com o uso do app eu fiquei meio gaga, querendo falar depressa (hihi). Mas isso nem é importante. O mais importante é que é uma forma muito boa e prática de consumo de literatura. Mais uma fonte de renda para as editoras.
Aqui no Brasil experimentei o app Ubook. O que mais gostei é que o app é leve, simples de usar... Pude fazer um plano de R$ 4,99 com a Claro (minha operadora) e esta taxa permite que eu baixe qualquer livro do acervo pra escutar. Ele também tem marcador e espaço para anotações. Muito simpático, porém com deficiência de conteúdo. As editoras mais uma vez, não pensaram nesta forma de “ler” e na produção deste tipo de arquivo.
Toda forma de ler é válida, vamos incentivar a leitura, seja ela como for.... Obra literária é obra literária e se podemos usar a tecnologia para ter mais acesso a elas, por que não?
Será que as outras lojas de livros digitais entrarão no ramo? Ora, quem vende ePub não poderia vender também audiobook?
E pelo amorrrrr.... Esqueça DRM. DRM de áudio já se provou um fracasso!
Alguém tem mais informações sobre audiobook? Ou mais informações do que coloquei na coluna? Me escreva que publicarei para compartilhar com os leitores: camila.cabete@gmail.com
*
Camila Cabete (@camilacabete) tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica, a Ciência Moderna, por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido, além de ser a responsável pelo pós-venda e suporte às editoras e livrarias da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Foi uma das fundadoras da Caki Books (@CakiBooks), editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Hoje é a Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo Inc. e possui uma start-up: a Zo Editorial (@ZoEditorial), que se especializa em consultoria para autores e editoras, sempre com foco no digital. Camila vive em um paraíso chamado Camboinhas, com sua gata preta chamada Lilica.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Marco Túlio e sua Borrachalioteca
Revista Biblioos

Uma delas foi a criação do Instituto Cultural Aníbal Machado, que ocorreu em 2002, gerando assim um caráter mais formal ao trabalho que vinha sendo realizado. Quanto ao espaço físico de empréstimos de livros, além da sede principal (ao lado da borracharia do Seu Joaquim), há também a Casa das Artes, a Sala São Salvador e o Espaço Libertação pela leitura, que funciona no presídio municipal de Sabará.

Sabará é uma bonita cidade mineira que guarda muito da memória colonial do Brasil. Com grande potencial turístico, a localidade, que possui entre outros equipamentos culturais, uma biblioteca pública, também dispõe de uma instituição conhecida popularmente pelo nome de Borrachalioteca.
Em junho deste ano, peguei um ônibus com destino a Sabará, localizada cerca de 25 quilômetros de Belo Horizonte, com o objetivo de rever Marco Túlio Damascena. A primeira vez que conversamos foi em 2007. Na época ele havia acabado de receber o Prêmio Viva Leitura, por sua ação com a Borrachalioteca, na categoria de bibliotecas públicas, privadas e comunitárias.
O Prêmio, concedido pelos Ministérios da Cultura e da Educação e pela Fundação Santillana, trouxe grande popularidade para o projeto que nasceu no ambiente comercial da família. A ideia surgiu em 2002 quando Marco Túlio, estudante do curso de Letras, passou a deixar livros no espaço da borracharia do pai. Os clientes gostaram da novidade e enquanto aguardavam pelo reparo nos pneus, se distraiam com a leitura.
Da união com pneus, clientes, livros e leitura surgiu a Borrachalioteca. Com cerca de setenta títulos, adquiridos por meio de doações, em pouco tempo outras pessoas que nem possuíam carro, passaram a procurar o local para pesquisar no acervo. Os pedidos de empréstimos vieram na sequência e o ambiente ganhou efetivamente ares de biblioteca. Hoje ela conta com cerca de dez mil obras focadas em literatura brasileira e possui títulos significativos voltados para o público infantil.
Da conquista ao Prêmio Viva Leitura aos dias atuais: o que mudou?
Sete anos passados desde que tomei conhecimento sobre a Borrachalioteca, sentia curiosidade sobre o andamento do trabalho de Marco Túlio, seus sonhos e conquistas, e não foi surpresa nenhuma encontrar tantas novidades.
Sete anos passados desde que tomei conhecimento sobre a Borrachalioteca, sentia curiosidade sobre o andamento do trabalho de Marco Túlio, seus sonhos e conquistas, e não foi surpresa nenhuma encontrar tantas novidades.
Uma delas foi a criação do Instituto Cultural Aníbal Machado, que ocorreu em 2002, gerando assim um caráter mais formal ao trabalho que vinha sendo realizado. Quanto ao espaço físico de empréstimos de livros, além da sede principal (ao lado da borracharia do Seu Joaquim), há também a Casa das Artes, a Sala São Salvador e o Espaço Libertação pela leitura, que funciona no presídio municipal de Sabará.
As mudanças também se deram pelo enfoque tecnológico. Na sede principal, por exemplo, além dos livros, há computadores com acesso a Internet que nos dias atuais atraem crianças, jovens e adultos. Na Casa das Artes são oferecidos cursos de informática para terceira idade, bem como acesso ao empréstimo de livros. O espaço foi cedido pela prefeitura de Sabará desde 2010, favorecendo assim a execução de atividades que envolvem oficinas, narração de histórias e mediação de leitura.
Uma das grandes surpresas do encontro com Marco Túlio foi constatar a existência de uma cordelteca – biblioteca de cordéis – em Sabará. Instalada na Casa das Artes, a Cordelteca Olegário Alfredo, reúne uma gama de publicações em cordel de diversos autores, inclusive um escrito por Silas da Fonseca intitulado Ventura e
Desventuras do Menino Túlio ou a História da Borrachalioteca. A narrativa é sensível e hilariante.
Marco Túlio adora o que faz e teve a sorte de integrar sua família (esposa e filhos no mesmo projeto). Aguida Alves, sua esposa, além de incentivadora é contadora de história e organiza uma série de atividades de mediação de leitura na Borrachalioteca, sendo inclusive, a responsável pela formação do Grupo Arautos da Poesia, que tem a companhia dos filhos Sartre e Cecília, nas apresentações. O grupo já possui cinco anos de atividades e foi criado com o objetivo de estimular crianças, jovens e adultos quanto ao interesse sobre os prazeres da poesia. Os Arautos da Poesia se reúnem para pesquisar obras poéticas e também para planejar como serão declamadas em eventos literários. Conforme apontou Marco Túlio, as apresentações são sempre emocionantes.
A visita que realizei a Sabará, em especial a Borrachalioteca, foi muito especial. Atrelado ao projeto inicial, pude ver novos espaços abertos, pessoas utilizando serviços, acervos disponíveis para o público e… ouvir Marco Túlio.
Marco Túlio adora o que faz e teve a sorte de integrar sua família (esposa e filhos no mesmo projeto). Aguida Alves, sua esposa, além de incentivadora é contadora de história e organiza uma série de atividades de mediação de leitura na Borrachalioteca, sendo inclusive, a responsável pela formação do Grupo Arautos da Poesia, que tem a companhia dos filhos Sartre e Cecília, nas apresentações. O grupo já possui cinco anos de atividades e foi criado com o objetivo de estimular crianças, jovens e adultos quanto ao interesse sobre os prazeres da poesia. Os Arautos da Poesia se reúnem para pesquisar obras poéticas e também para planejar como serão declamadas em eventos literários. Conforme apontou Marco Túlio, as apresentações são sempre emocionantes.
A visita que realizei a Sabará, em especial a Borrachalioteca, foi muito especial. Atrelado ao projeto inicial, pude ver novos espaços abertos, pessoas utilizando serviços, acervos disponíveis para o público e… ouvir Marco Túlio.
Ele é uma simpatia e adora falar de livros e leitura. De tudo, o que ficou mais latente foi a percepção de que seu gosto pela leitura acabou lhe rendendo tão boa ideia, que gerou muitos frutos. Creio inclusive que a borracharia do seu Joaquim de Sabará é uma das mais famosas do Brasil. Alguém conhece outra com um serviço tão especial?
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Menina de 7 anos lê 4 livros por semana e incentiva a leitura em site
Do G1

A paixão pelos livros da Mariana Arques de Campos, de 7 anos, começou mesmo antes dela nascer, com o incentivo dos pais ainda na gestação. “Ela já escutava histórias na barriga da mãe. Gostou tanto que depois que nasceu não parou mais. E lê bastante”, conta o pai Nelson Campos.
Mariana lê pelo menos quatro obras infantis por semana. Mas, a leitura é apenas uma das paixões da menina, que também toca teclado e violão e tem o próprio site na internet. Aluna da segunda série do ensino fundamental em uma escola municipal, a menina tomou gosto pela leitura e não pretende parar nunca mais.
O pai, que é web designer, desenvolveu a página virtual para a filha interagir com os amigos e poder compartilhar essa paixão pelas obras literárias. No site, ela disponibiliza brincadeiras de colorir, músicas, jogos, vídeos, histórias, além de um canal direto para envio de desenhos. Tudo com conteúdo educativo. A menina usa o conhecimento das “velhas páginas” dos livros para promover a leitura e a educação com auxílio da tecnologia.
A mãe lembra que a filha aprendeu a identificar imagens em uma enciclopédia aos 3 anos de idade. Já a leitura veio aos 5 anos. De lá para cá, a menina virou frequentadora assídua da biblioteca. “A Mariana achou em casa e sempre manuseou o Atlas. Depois começou a ler livros de histórias. Só neste ano ela já tem muitos livros retirados da biblioteca para ler em casa. Ela fica brava quando a biblioteca está fechada”, conta Liete.
O gosto de Mariana pelas páginas literárias também é uma herança do pai. “Sou um autodidata. É importante para ir adiante na vida. Eu mesmo estou lendo um e tem mais dois já na sequência. Ela vai pedindo mais, como o teclado, o violão”, afirmou Nelson Campos.
Dia das crianças
No Dia das Crianças, comemorado neste domingo (12), ela quer se divertir. Além disso, Mariana usou o violão para mandar parabéns a todas as crianças (veja vídeo ao lado).
“Quero que o Dia das Crianças seja legal. Tem que ter diversão, jogos, músicas, vídeos. Além disso, também pode falar comigo. Você colocar o seu email com nome, idade e escreve o que quer falar comigo. Também dá para mandar desenhos para eu publicar no meu site”, disse Mariana.
Mas, quem pensa que ela quer mais livros de presente no Dia das Crianças se engana. “Não quero livro. Eu tenho um monte guardado. Quero um patins e quero começar a academia de natação."
No dia a dia, a pequena leitora faz de tudo um pouco. “Primeiro faço a tarefa da escola em casa, depois brinco no computador, brinco no quarto, assisto televisão. Tenho uma rotina normal."
A mãe da menina também conta que Mariana é boa no xadrez, mas graças à leitura. “Ela aprendeu a jogar xadrez lendo o manual com o meu marido. Se não tivesse a leitura, a interpretação, ela também não conseguiria jogar xadrez”.
Bem atenta
Com uma facilidade de comunicação impressionante para a idade, Mariana já enviou um email para uma editora alertando sobre um erro de digitação em um livro. “Estava lendo e no quarto parágrafo apareceu ‘mavioso’ em vez de maravilhoso. Mandei um email para lá avisando”, conta.
Sobre um futuro como escritora, a menina ainda tem dúvidas, o que é natural da idade. No entanto, um pensamento dela é ajudar por um mundo melhor. “Penso em ser artista, mas também quero inventar robôs para deixar a cidade mais limpa."
A capacidade de aprendizado de Mariana é evidente. Mas, além da vontade de aprender, a supervisão dos pais é fundamental para obter um resultado positivo sem perder o jeito de criança. “É um investimento nela. Esse fascínio dela pela leitura, começar a ler e a escrever cedo também. Mas, claro, sem perder o que é mais importante: viver a infância sem deixar de ser criança”, enfatizou o pai.

A paixão pelos livros da Mariana Arques de Campos, de 7 anos, começou mesmo antes dela nascer, com o incentivo dos pais ainda na gestação. “Ela já escutava histórias na barriga da mãe. Gostou tanto que depois que nasceu não parou mais. E lê bastante”, conta o pai Nelson Campos.
Mariana lê pelo menos quatro obras infantis por semana. Mas, a leitura é apenas uma das paixões da menina, que também toca teclado e violão e tem o próprio site na internet. Aluna da segunda série do ensino fundamental em uma escola municipal, a menina tomou gosto pela leitura e não pretende parar nunca mais.
O pai, que é web designer, desenvolveu a página virtual para a filha interagir com os amigos e poder compartilhar essa paixão pelas obras literárias. No site, ela disponibiliza brincadeiras de colorir, músicas, jogos, vídeos, histórias, além de um canal direto para envio de desenhos. Tudo com conteúdo educativo. A menina usa o conhecimento das “velhas páginas” dos livros para promover a leitura e a educação com auxílio da tecnologia.
A mãe lembra que a filha aprendeu a identificar imagens em uma enciclopédia aos 3 anos de idade. Já a leitura veio aos 5 anos. De lá para cá, a menina virou frequentadora assídua da biblioteca. “A Mariana achou em casa e sempre manuseou o Atlas. Depois começou a ler livros de histórias. Só neste ano ela já tem muitos livros retirados da biblioteca para ler em casa. Ela fica brava quando a biblioteca está fechada”, conta Liete.
O gosto de Mariana pelas páginas literárias também é uma herança do pai. “Sou um autodidata. É importante para ir adiante na vida. Eu mesmo estou lendo um e tem mais dois já na sequência. Ela vai pedindo mais, como o teclado, o violão”, afirmou Nelson Campos.
Dia das crianças
No Dia das Crianças, comemorado neste domingo (12), ela quer se divertir. Além disso, Mariana usou o violão para mandar parabéns a todas as crianças (veja vídeo ao lado).
“Quero que o Dia das Crianças seja legal. Tem que ter diversão, jogos, músicas, vídeos. Além disso, também pode falar comigo. Você colocar o seu email com nome, idade e escreve o que quer falar comigo. Também dá para mandar desenhos para eu publicar no meu site”, disse Mariana.
Mas, quem pensa que ela quer mais livros de presente no Dia das Crianças se engana. “Não quero livro. Eu tenho um monte guardado. Quero um patins e quero começar a academia de natação."
No dia a dia, a pequena leitora faz de tudo um pouco. “Primeiro faço a tarefa da escola em casa, depois brinco no computador, brinco no quarto, assisto televisão. Tenho uma rotina normal."
A mãe da menina também conta que Mariana é boa no xadrez, mas graças à leitura. “Ela aprendeu a jogar xadrez lendo o manual com o meu marido. Se não tivesse a leitura, a interpretação, ela também não conseguiria jogar xadrez”.
Bem atenta
Com uma facilidade de comunicação impressionante para a idade, Mariana já enviou um email para uma editora alertando sobre um erro de digitação em um livro. “Estava lendo e no quarto parágrafo apareceu ‘mavioso’ em vez de maravilhoso. Mandei um email para lá avisando”, conta.
Sobre um futuro como escritora, a menina ainda tem dúvidas, o que é natural da idade. No entanto, um pensamento dela é ajudar por um mundo melhor. “Penso em ser artista, mas também quero inventar robôs para deixar a cidade mais limpa."
A capacidade de aprendizado de Mariana é evidente. Mas, além da vontade de aprender, a supervisão dos pais é fundamental para obter um resultado positivo sem perder o jeito de criança. “É um investimento nela. Esse fascínio dela pela leitura, começar a ler e a escrever cedo também. Mas, claro, sem perder o que é mais importante: viver a infância sem deixar de ser criança”, enfatizou o pai.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Beatles e Stones contra os clichês
Livro aborda como preferência por uma banda ou outra revela convicções mais profundas
Por Diego A.Manrique, no El País

John Lennon e Mick Jagger. / RON GALELLA / WIRELMAGE
Produz certo constrangimento: em pleno 2014, continuamos a repetir a mesma ladainha. Estamos há 50 anos abordando, mastigando e respondendo à mesma pergunta: “Mas você era fã dos Beatles ou dosStones?”. É preciso reconhecer que essa discussão implica mais do que preferências estéticas: ambas as opções encarnam estereótipos eternos. O historiador John McMillian resume: “Os Beatles podem ser descritos como apolíneos, e os Stones, como dionisíacos; os Beatles como pop, os Stones, comorock; os Beatles como eruditos, os Stones como viscerais; os Beatles como utópicos, os Stones como realistas”.
A questão é tão complicada que o inevitável livro sobre a clássica rivalidade, Beatles vs. Rolling Stones (ainda sem edição no Brasil), demorou meio século para se materializar, e é obra de um historiador. Um acadêmico cuja obra anterior estudava a imprensa alternativa (uma especialidade que permite demonstrar que ambos os grupos serviram como combustível para a insurgência universitária do final dos anos 60) e que evita escrupulosamente se pronunciar.
Talvez McMillian sofra de falta de malícia: despreza a atração sexual do empresário Brian Epstein porJohn Lennon, esquecendo as férias que os dois passaram juntos na Espanha em 1963. Também não recua ao avaliar questões puramente musicais, como a atribuição dos rótulos de rock ou pop. Os Beatles podiam fazer rock com tanta ou mais intensidade que os Stones. É comum esquecer que os Stones têm uma riquíssima produção pop; se tivessem desaparecido em 1967, como o establishment parecia desejar ao condená-los, já teriam acumulado méritos suficientes para figurar no panteão do melhor pop britânico. Eles conseguiram se livrar disso, claro, e em 1968, com Beggars Banquet, consolidaram o conceito de rock.
E isso importa? De alguma maneira, embora o rock já esteja desprestigiado, seus ecos privilegiam a ideia de que os Stones eram autênticos e os Beatles uns vendidos ao show business. Sobre o historiador recai a obrigação de questionar os mitos que se encaixam com suspeita perfeição. E McMillian contrapõe os clichês com gosto. Não, os Beatles — com exceção de Ringo — não procediam realmente do proletariado. Eles superavam amplamente, em experiência musical e vivências selvagens, aprendizes de boêmios como os Stones. Os Beatles se fizeram tocando até a exaustão, e só a tenacidade de seu agente permitiu romper a muralha de preconceitos da indústria musical londrina. De forma contrária, os Stones ascenderam com assombrosa rapidez, beneficiados pela mudança de paradigma imposta pelos meninos de Liverpool. Em 31 prodigiosos dias de 1963, viram publicada sua primeira crítica positiva, reuniram uma qualificada equipe de gerenciamento (Andrew Loog-Oldham e Eric Easton), receberam a bênção dos Beatles e assinaram um contrato extraordinariamente generoso com a Decca Records.
McMillian enfatiza a anomalia cultural contida no fato de um grupo procedente de uma cidade distante e empobrecida ter arrebatado a capital do Reino Unido. O esnobismo londrino fica em evidência com opiniões como a do fotógrafo David Bailey, que trabalhou com os dois grupos: “Via os Beatles como uma boy band, algo muito pré-fabricado em seu início, enquanto os Stones pareciam crescer organicamente”. Na realidade, a superioridade criativa dos Beatles era reafirmada à medida que os anos 60 avançavam. E com mais ou menos reticência, era assumida pelos Stones: Lennon e McCartney deram uma mão em várias ocasiões. Desde lhes oferecer uma canção, I Wanna Be Your Man, como o segundo single da banda, mostrando-lhes de passagem – prodigiosa revelação – como era fácil compor, até reestruturar We Love You, música com a qual os Stones agradeciam aos fãs que os apoiaram em seu calvário de 1967.
A swinging London insistia em ver Beatles e Rolling Stones como amigos, não concorrentes, e que os enfrentamentos eram consequências das estratégias dos administradores das respectivas carreiras. Na verdade, os envolvidos se olhavam com receio. E todos sabiam quem ditava o rumo. Um abatido Lennon se queixava: “Os Stones repetem tudo que fazemos quatro meses depois”. Os Beatles foram decisivos em outros aspectos: aqui se atribui o rompimento com Brian Jones, até então purista do blues, ao encontro com a beatlemania e seu irrefreável desejo de desfrutar dessa adoração. E, claro, seu desembarque triunfal na Decca derivou diretamente do equívoco da gravadora ao rejeitar os Beatles em 1962, responsabilidade do diretor Dick Rowe, que não queria repetir seu erro.
E como foi que os excelentes, os revoltosos, os lançadores de tendências, terminaram preferindo os Stones em detrimento dos Beatles, que, inclusive em estado de decomposição, eram capazes de fazer um álbum como Abbey Road? No divisor de águas que foi o ano de 1968, John Lennon se posicionou contra o sarampo esquerdista com Revolution. Após ser repreendido pela The Black Dwarf, a revista de Tariq Ali, mudou completamente e financiou o duvidoso ativista negro Michael X, além de dar dinheiro ao IRA. Os Stones se contentaram em retratar a turbulência juvenil em Street Fighting Man, tão celebrada pela contracultura, mas que, na realidade, continha uma cláusula de escape: “O que um pobre menino pode fazer / exceto cantar em uma banda de rock and roll? / Na sonolenta Londres / não há lugar para um lutador da rua”.
Além disso, os Stones recorreram a uma maquiagem de satanismo. Após ler O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov, Jagger compôs uma canção que se tornou um diferencial, Sympathy for the Devil. Acrescentem todas as fantasias de orgias, drogas e desdém pela autoridade: os fãs mais inquietos olhavam para os Stones esperando se reconhecer. Queriam e ainda querem adquirir esse narcisismo de fugitivos, sem observarem que carecem da rede de segurança que protege, eficazmente, esses músicos-aristocratas (lembrando: Brian Jones morreu quando já estava fora do grupo).
Fica a sensação de que Beatles vs. Stones tem um encerramento prematuro. McMillian prefere analisar a interação entre as duas bandas quando estavam em atividade; depois, a competição se dá entre o lindo cadáver de nossa lembrança (Beatles) e a máquina que desafia as previsões da idade e da rentabilidade (Rolling Stones). Portanto, se forem colocados diante do famoso dilema, respondam como eu: “Nem dos Beatles nem dos Rolling. Sou dos Kinks”.
sábado, 18 de outubro de 2014
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
terça-feira, 14 de outubro de 2014
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Ferreira Gullar é eleito para a Academia Brasileira de Letras
Poeta ocupará vaga que era de Ivan Junqueira: 'Comovente', disse.
Cadeira 37 já foi de Getúlio Vargas, Chateaubriand e João Cabral de Melo.
Por Livia Torres, no G1
O poeta maranhense Ferreira Gullar, de 84 anos, foi eleito na tarde desta quinta-feira (9), em primeiro escrutínio, membro da Academia Brasileira de Letras, em votação no Petit Trianon, no Centro do Rio. O mais novo "imortal" vai ocupar a Cadeira 37, que pertencia ao poeta e tradutorIvan Junqueira, morto em julho deste ano.
"Estou muito feliz. Mais ou menos eu já esperava pelo que os acadêmicos me disseram. Desde que soube, já estava muito feliz. Mas na hora que acontece é diferente. Vira realidade mesmo, deixa de ser promessa", disse Ferreira Gullar pouco depois da escolha, em festa no apartamento do também imortal Antonio Carlos Secchin em Copacabana.
Ferreira Gullar durante a festa após ser eleitoimortal da ABL (Foto: Lívia Torres / G1)
Convencido por amigos
O anfitrião da festa lembrou do lado "antiacadêmico" de Gullar, que deve assumir a cadeira no fim de novembro ou início de dezembro. "Por outro lado, ele percebeu que tinha amigos e admiradores na academia", afirmou Secchin.
O anfitrião da festa lembrou do lado "antiacadêmico" de Gullar, que deve assumir a cadeira no fim de novembro ou início de dezembro. "Por outro lado, ele percebeu que tinha amigos e admiradores na academia", afirmou Secchin.
Gullar disse que foi convencido por amigos a se candidatar. "Vários acadêmicos amigos meus me ligavam pra dizer que eu tinha que entrar, para me convencer. O fato de substituir o Junqueira, que é meu grande amigo, pesou muito. Foi uma coisa muito comovente, eu não sabia que ele estava doente", declarou.
Gullar recebeu 36 dos 37 votos (um foi em branco) e superou, em apenas 15 minutos de votação, terminada às 16h15, os candidatos Ademir Barbosa Júnior, José Roberto Guedes de Oliveira e José William Vavruk. Os ocupantes anteriores da cadeira foram: Silva Ramos, fundador - que escolheu como patrono o poeta Tomás Antônio Gonzaga -, Alcântara Machado, Getúlio Vargas (1883-1954), Assis Chateaubriand (1892-1968) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999).
"Foi uma votação muito generosa. Ele foi acolhido com muito carinho. Foi um ingresso auspicioso. Ele entra nessa casa com sua poesia. O acolhemos com muita galhardia. Ele esta entrado na instituição presidida por Machado de Assis", disse a imortal Nelida Piñon durante a tradicional queima de votos após a eleição. "A queima é simbólica, desaparecem os vestígios deixado em cada cédula, para ninguém nunca mais saber. Isso é uma elegância, o Brasil precisa de elegância. Só fica a gloria. Ele vai entrar e a poesia entra. Na academia não tem divórcio", acrescentou a ex-presidente da ABL.
Ferreira Gullar em meio a outros imortais nacelebração da eleição (Foto: Lívia Torres / G1)
Outras duas cadeiras da ABL estão abertas: a dos escritores João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, que morreram duas semanas após Ivan Junqueira. A eleição para a vaga de João Ubaldo é no dia 23 de outubro. Uma semana depois, no dia 30, será feita a votação para a cadeira de Suassuna. Os três derrotados na eleição desta quinta podem se candidatar novamente. Outro concorrente, no entanto, é o favorito para a vaga do pernambucano: o escritor Zuenir Ventura.
Biografia
Ferreira Gullar, um dos mais aclamados autores brasileiros vivos, é o pseudônimo José Ribamar Ferreira. Ele nasceu em São Luís, no Maranhão, em 10 de setembro de 1930. Publicou seu primeiro livro, "Um pouco acima do chão", aos 19 anos de idade. Dentre suas principais obras, estão "A luta corporal" (1954), "Dentro da noite veloz" (1975), "Poema sujo" (1976) e "Na vertigem do dia" (1980).
Ferreira Gullar, um dos mais aclamados autores brasileiros vivos, é o pseudônimo José Ribamar Ferreira. Ele nasceu em São Luís, no Maranhão, em 10 de setembro de 1930. Publicou seu primeiro livro, "Um pouco acima do chão", aos 19 anos de idade. Dentre suas principais obras, estão "A luta corporal" (1954), "Dentro da noite veloz" (1975), "Poema sujo" (1976) e "Na vertigem do dia" (1980).
Seu mais recente é "Em alguma parte alguma", que ganhou o prêmio Jabuti de livro do ano em 2011. Ao subir no palco para agradecer pelo reconhecimento, afirmou: "Eu só vou dizer: não sei se poesia é literatura. Fora isso, a gente faz poesia porque a vida não basta".
Tradicional queima de votos após a eleição na ABL (Foto: Lívia Torres / G1)Kubrick, Cameron, Copolla, Scott: por que grandes diretores são ‘tiranos’?
Nicholas Barber, da BBC Culture

O novo filme do cineasta David Fincher - "Garota Exemplar" - é uma saga sombria sobre manipulação, crueldade e loucura. Essa descrição é sobre os temas abordados no filme, mas pode servir também para retratar o processo de criação do longa metragem.
Fincher é conhecido por ser perfeccionista, e gosta de filmar a mesma sequência dezenas de vezes - levando todos do elenco da produção ao limite da exaustão.
Em "Clube da Luta", ele teria feito todo mundo trabalhar a noite toda - apenas para conseguir um "take" certo... de uma barra de sabonete. Em "Zodíaco", ele insistiu em 90 "takes" da mesma cena.
Robert Downey Jr descreve Fincher como um "disciplinador". Jake Gyllenhaal teria ficado aos prantos no final do trabalho.
"Eu odeio atuações sisudas", disse certa vez o cineasta. "Geralmente lá pelo 'take 17' toda a sisudez já sumiu."
Dois dias para uma cena
Fincher não está sozinho ao ficar no limite entre "diretor" e "ditador". Charlie Chaplin fez, em média, 53 "takes" para cada cena filmada em "O Garoto". Ele próprio descrevia seu processo criativo como "perseverança extrema ao ponto de loucura".O diretor de "Titanic", James Cameron, tem a mesma fama. As pessoas que trabalharam com ele chegaram a fazer uma camiseta com os dizeres: "Você não me assusta. Eu trabalho para James Cameron".

O filme "De Olhos Bem Fechados" levou 400 dias para ser filmado - um recorde na indústria. Dois dias foram gastos apenas para uma pequena cena que mostra Sydney Pollack entrando em um escritório.
Para muitos de nós, isso parece extravagância ou até mesmo um instinto sádico. Esses diretores são mesmo malucos com instintos escravagistas, como costumam ser retratados? Ou são apenas perfeccionistas atentos a todos os pequenos detalhes, com altos padrões de qualidade?
O diretor Saul Metzstein - que fez muitas coisas para a televisão britânica, como "Doctor Who" - diz que na indústria cinematográfica não é nada incomum repetir dezenas - ou uma centena - de "takes".
"Quando o filme tem problemas, em geral esses problemas são pequenos, mas vão aumentando aos poucos. No final da produção, já não há muito que se possa fazer para corrigir. Mas se você é como o Fincher, que já lida com os problemas na medida em que eles aparecem, isso poupa você de mais trabalho. Se você tem o dinheiro e a força para conduzir 50 takes, vá em frente", diz Metzstein.
Essa foi a atitude de Francis Ford Coppola durante "O Poderoso Chefão". "Ele ficava resmungando porque os produtores não deixavam ele repetir 'takes'", revelou Al Pacino, estrela do filme. "Mas, para mim, havia um lado positivo nisso."
Pacino gostava de não precisar repetir "takes". Mas e se a ordem do diretor de repetir cenas provocar resmungos no elenco?
"Alguns diretores são seres humanos horríveis. Isso não é incomum", diz Metzstein. "Mas, no final, ninguém te aplaude por ter feito uma cena meia-boca. Não se pode colocar uma legenda na tela dizendo: 'desculpa, este foi o melhor take que tínhamos'."
Mas há diretores que, com poucos "takes", fazem ótimos filmes. O que isso diz a respeito dos "tiranos"? Se eles são tão bons no que fazem, por que demoram tanto para acertar?
Perfeccionismo ou tirania?
Andrew Abbott, que dirigiu documentários sobre a produção de filmes como "O Exorcista", diz que tudo está relacionado à ambição do diretor."Eu tenho bastante simpatia com os Kubricks e Finchers deste mundo. Estas pessoas não querem fazer um filme passável ou OK. Eles querem fazer algo incrível. Eles são perfeccionistas. Você pode ser perfeccionista como novelista ou pintor e ninguém nunca reclama. É só quando você trabalha em um meio colaborativo como filmes que isso vira polêmica."
Há quem defenda que esse comportamento sequer pode ser descrito como tirânico.
"As pessoas acham que Kubrick inventava as coisas na hora... e depois incomodava os demais até conseguir o que queria, mas isso é totalmente falso", diz Peter Kramer, crítico do British Film Institute e autor de um estudo sobre o filme "Doutor Fantástico".
"Ele podia ter passado anos escrevendo um roteiro, mas aquilo era só um ponto de partida. Quando estava filmando, ele tentava explorar cada possibilidade daquele roteiro, e tentava obter algo que não havia previsto antes. Isso não é ser tirânico. É apenas ser generoso com quem está financiando o filme!"

A mudança tecnológica favorece esse tipo de abordagem a la Kubrick e Fincher na indústria cinematográfica atual. A tecnologia digital permite reduzir o custo em cada "take", e muitos diretores se aproveitam disso.
Cineastas que vem de outras experiências também desenvolvem essa cultura. Ridley Scott também repetia inúmeros 'takes' durante a filmagem de seu clássico "Blade Runner".
"Ridley foi um dos primeiros cineastas a sair do mundo da publicidade. Então se você está filmando um comercial caríssimo da Nike, você só tem 15 ou 20 segundos para conseguir criar um grande impacto. Qualquer cena que não tenha ficado 100% vai direto para o lixo. Ridley Scott trouxe essa sensibilidade ao cinema", diz o crítico.
No fundo, para Kramer, a questão principal é que os diretores sempre querem trabalhar com mais tempo do que o disponível.
"Por isso sempre existia essa hierarquia de filmes e televisão. Se você trabalha em algo para a TV, você ganha uma ou duas semanas. Se você trabalha em um filme de Hollywood, ganha muito mais tempo. É por isso que os grandes diretores batalham: mais opções, mais dias, mais ângulos de câmera, mais 'takes'."
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Escritor francês Patrick Modiano ganha o Nobel de Literatura
Autor recebe o prêmio máximo da literatura. Último escritor laureado do país foi Le Clézio
Por Guillermo Altares, no El País

O romancista francês Patrick Modiano (nascido em Boulogne-Billancourt em 1945), um dos mais influentes narradores europeus, autor de obras perfeitas como Dora Bruder e Dans le café de la jeunesse perdue, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Seus grandes romances, que costumam ter poucas páginas e grande intensidade narrativa e intelectual, representam um relato singular e corajoso dos piores momentos da França no século XX: o regime neonazista de Vichy e a ocupação do país pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.
A Academia Sueca argumentou que deu o prêmio a Modiano “por sua arte da memória, com a qual ele evocou os destinos humanos mais difíceis de retratar e desvelou o mundo da Ocupação”.
Publicado na Espanha sobretudo pela editora Anagrama – embora sua obra tenha estado muito dispersa – e na França pela Gallimard, Modiano é um escritor humilde e, sobretudo, corajoso. Com o roteiro de Lacombe Lucien, que escreveu em conjunto com Louis Malle, ele foi um dos primeiros a denunciar um tema até então tabu: a ativa participação francesa na perseguição aos judeus, a miséria do colaboracionismo. O filme provocou comoção enorme na França e abriu uma ferida que Modiano nunca fechou em seus livros.
No Brasil, o escritor francês teve sete livros publicados, sendo que seis deles estão esgotados. O mais recente, Filomena firmeza, foi editado pela Cosac Naify neste ano.
Entre seus romances principais se destacam Rue des boutiques obscures, Les boulevards de ceinture, Dans le café de la jeunesse perdue, Dimanches d’aout, Voyage de noces, La place de l'étoile e Des inconnues. Muitos o acusam de escrever sempre o mesmo livro, algo que para seus críticos é um defeito e, para seus defensores, uma bênção. Uma parte importante de sua obra foi traduzida ao espanhol por María Teresa Gallego Urrutia, que conseguiu recriar a clareza e leveza do francês de Modiano.
Quando Jean-Marie Le Clézio recebeu o Nobel em 2007, muitos argumentaram que o candidato eterno da literatura francesa, o próprio Modiano, tinha ficado sem o prêmio máximo da literatura mundial. Mas a Academia Sueca acabou repetindo um idioma para reconhecer uma obra tão complexa quanto é simples, cujas narrativas parecem sempre acontecer no elegante distrito XVI de Paris, mas que percorre com intensidade os dramas e os conflitos do século XX.
Na crítica de sua última obra, L’Herbe des nuits, o literato Alberto Manguel escreveu em Babelia em julho: “Se todo romance procura imaginar os capítulos que faltam num livro, toda biografia é de alguma maneira uma ficção inspirada.
Ao longo de uma obra considerável, Patrick Modiano procurou construir os capítulos dos quais o autor só tem certeza de alguns fragmentos. Mesmo assim, esses fragmentos bastam para conferir aos romances de Modiano uma verossimilhança e convicção extraordinárias. A biografia de Modiano abarca a segunda metade do século XX e o início do século XXI; sua obra, também. Ao centro desta estão os pavorosos anos da Segunda Guerra Mundial, a ocupação da França e a comprida sombra do Holocausto, além da guerra da Argélia. L’Herbe des nuits não foge dessa trajetória muito conhecida.”
De origem italiana por parte de pai e belga por parte de mãe, nascido justamente ao final da Segunda Guerra Mundial, Modiano publicou seu primeiro romance, La Place de l’Etoile, em 1968 e tornou-se escritor reconhecido dez anos mais tarde ao receber o prêmio Goncourt por Rue des boutiques obscures. Se fosse preciso escolher um livro apenas que resumisse o gênio de Modiano, uma escolha possível seria Dora Bruder, que o narrador compôs através de um anúncio classificado dizendo: “Procura-se uma jovem, Dora Bruder, de 15 anos, 1,55 metro, rosto ovalado, olhos cinza-castanhos, blusa esporte cinza, pulôver bordô, saia e chapéu azuis escuros, sapatos esporte marrons. Entrar em contato com o senhor e a senhora Bruder, bulevar Ornano, 41, Paris.” Suas investigações o conduziram, é claro, à colaboração e a Auschwitz, levando-o até as tenebrosas entranhas da Europa do século XX.
Numa entrevista publicada pela Babelia em 2009, Modiano explicou a respeito de Dora Bruder: “Mais tarde, com os anos e com o livro já publicado, me chegaram outros documentos sobre Dora. E eu me perguntei se valeria a pena reescrever o romance ou não. Decidi que não. Não sou historiador. Sou romancista. Não importa tanto o resultado da busca quanto a busca em si. Assim, o romance ficou como está.”
Por Guillermo Altares, no El País

O escritor Patrick Modiano. / Daniel Mordzinski
O romancista francês Patrick Modiano (nascido em Boulogne-Billancourt em 1945), um dos mais influentes narradores europeus, autor de obras perfeitas como Dora Bruder e Dans le café de la jeunesse perdue, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Seus grandes romances, que costumam ter poucas páginas e grande intensidade narrativa e intelectual, representam um relato singular e corajoso dos piores momentos da França no século XX: o regime neonazista de Vichy e a ocupação do país pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.
A Academia Sueca argumentou que deu o prêmio a Modiano “por sua arte da memória, com a qual ele evocou os destinos humanos mais difíceis de retratar e desvelou o mundo da Ocupação”.
Publicado na Espanha sobretudo pela editora Anagrama – embora sua obra tenha estado muito dispersa – e na França pela Gallimard, Modiano é um escritor humilde e, sobretudo, corajoso. Com o roteiro de Lacombe Lucien, que escreveu em conjunto com Louis Malle, ele foi um dos primeiros a denunciar um tema até então tabu: a ativa participação francesa na perseguição aos judeus, a miséria do colaboracionismo. O filme provocou comoção enorme na França e abriu uma ferida que Modiano nunca fechou em seus livros.
No Brasil, o escritor francês teve sete livros publicados, sendo que seis deles estão esgotados. O mais recente, Filomena firmeza, foi editado pela Cosac Naify neste ano.
Entre seus romances principais se destacam Rue des boutiques obscures, Les boulevards de ceinture, Dans le café de la jeunesse perdue, Dimanches d’aout, Voyage de noces, La place de l'étoile e Des inconnues. Muitos o acusam de escrever sempre o mesmo livro, algo que para seus críticos é um defeito e, para seus defensores, uma bênção. Uma parte importante de sua obra foi traduzida ao espanhol por María Teresa Gallego Urrutia, que conseguiu recriar a clareza e leveza do francês de Modiano.
Quando Jean-Marie Le Clézio recebeu o Nobel em 2007, muitos argumentaram que o candidato eterno da literatura francesa, o próprio Modiano, tinha ficado sem o prêmio máximo da literatura mundial. Mas a Academia Sueca acabou repetindo um idioma para reconhecer uma obra tão complexa quanto é simples, cujas narrativas parecem sempre acontecer no elegante distrito XVI de Paris, mas que percorre com intensidade os dramas e os conflitos do século XX.
Na crítica de sua última obra, L’Herbe des nuits, o literato Alberto Manguel escreveu em Babelia em julho: “Se todo romance procura imaginar os capítulos que faltam num livro, toda biografia é de alguma maneira uma ficção inspirada.
Ao longo de uma obra considerável, Patrick Modiano procurou construir os capítulos dos quais o autor só tem certeza de alguns fragmentos. Mesmo assim, esses fragmentos bastam para conferir aos romances de Modiano uma verossimilhança e convicção extraordinárias. A biografia de Modiano abarca a segunda metade do século XX e o início do século XXI; sua obra, também. Ao centro desta estão os pavorosos anos da Segunda Guerra Mundial, a ocupação da França e a comprida sombra do Holocausto, além da guerra da Argélia. L’Herbe des nuits não foge dessa trajetória muito conhecida.”
De origem italiana por parte de pai e belga por parte de mãe, nascido justamente ao final da Segunda Guerra Mundial, Modiano publicou seu primeiro romance, La Place de l’Etoile, em 1968 e tornou-se escritor reconhecido dez anos mais tarde ao receber o prêmio Goncourt por Rue des boutiques obscures. Se fosse preciso escolher um livro apenas que resumisse o gênio de Modiano, uma escolha possível seria Dora Bruder, que o narrador compôs através de um anúncio classificado dizendo: “Procura-se uma jovem, Dora Bruder, de 15 anos, 1,55 metro, rosto ovalado, olhos cinza-castanhos, blusa esporte cinza, pulôver bordô, saia e chapéu azuis escuros, sapatos esporte marrons. Entrar em contato com o senhor e a senhora Bruder, bulevar Ornano, 41, Paris.” Suas investigações o conduziram, é claro, à colaboração e a Auschwitz, levando-o até as tenebrosas entranhas da Europa do século XX.
Numa entrevista publicada pela Babelia em 2009, Modiano explicou a respeito de Dora Bruder: “Mais tarde, com os anos e com o livro já publicado, me chegaram outros documentos sobre Dora. E eu me perguntei se valeria a pena reescrever o romance ou não. Decidi que não. Não sou historiador. Sou romancista. Não importa tanto o resultado da busca quanto a busca em si. Assim, o romance ficou como está.”
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Basta de PT
Teremos o mais violento segundo turno de uma eleição presidencial. O que Marina sofreu, Aécio sofrerá em dobro.
Marco Antonio Villa, O Globo
Estamos vivendo um momento histórico. A eleição presidencial de 2014 decidirá a sorte do Brasil por 12 anos. Como é sabido, o projeto petista é se perpetuar no poder. Segundo imaginam os marginais do poder — feliz expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello quando do julgamento do mensalão —, a vitória de Dilma Rousseff abrirá caminho para que Lula volte em 2018 e, claro, com a perspectiva de permanecer por mais 8 anos no poder.
Em um eventual segundo governo Dilma, o presidente de fato será Lula. Esperto como é, o nosso Pedro Malasartes da política vai preparar o terreno para voltar, como um Dom Sebastião do século XXI, mesmo que parecendo mais um personagem de samba-enredo ao estilo daquele imortalizado por Sérgio Porto.
Diferentemente de 2006 e 2010, o PT está fragilizado. Dilma é a candidata que segue para tentar a reeleição com a menor votação obtida no primeiro turno desde a eleição de 1994.
Seu criador foi derrotado fragorosamente em São Paulo, principal colégio eleitoral do país. Imaginou que elegeria mais um poste. Não só o eleitorado disse não, como não reelegeu o performático e inepto senador Eduardo Suplicy, e a bancada petista na Assembleia Legislativa perdeu oito deputados e seis na Câmara dos Deputados.
A resistência e a recuperação de Aécio Neves foram épicas. Em certo momento da campanha, parecia que o jogo eleitoral estava decidido. Marina Silva tinha disparado e venceria — segundo as malfadadas pesquisas. Ele manteve a calma até quando um dos seus coordenadores de campanha estava querendo saltar para o barco da ex-senadora.
E, neste instante, a ação das lideranças paulistas do PSDB foi decisiva. Geraldo Alckmin poderia ter lavado as mãos e fritado Aécio. Mas não o fez, assim como José Serra, o senador mais votado do país com 11 milhões de votos.
Foi em São Paulo que começou a reação democrática que o levou ao segundo turno com uma vitória consagradora no estado onde nasceu o PT.
Esta campanha eleitoral tem desafiado os analistas. As interpretações tradicionais foram desmoralizadas. A determinação econômica — tal qual como no marxismo — acabou não se sustentando. É recorrente a referência à campanha americana de 1992 de Bill Clinton e a expressão “é a economia, estúpido”.
Com a economia crescendo próximo a zero, como explicar que Dilma liderou a votação no primeiro turno? Se as alianças regionais são indispensáveis, como explicar a votação de Marina?
E o tal efeito bumerangue quando um candidato ataca o outro e acaba caindo nas intenções de voto? Como explicar que Dilma caluniou Marina durante três semanas, destruiu a adversária e obteve um crescimento nas pesquisas?
Se Lula é o réu oculto do mensalão, o que dizer do doleiro petista Alberto Youssef? Imagine o leitor quando o depoimento — já aceito pela Justiça Federal — for divulgado ou vazar? De acordo com o ministro Teori Zavascki, o envolvimento de altas figuras da República faz com que o processo tenha de ir para o STF.
E, basta lembrar, segundo o doleiro, que só ele lavou R$ 1 bilhão de corrupção da Refinaria Abreu e Lima. Basta supor o que foi desviado da Petrobras, de outras empresas e bancos estatais e dos ministérios para entender o significado dos 12 anos de petismo no poder. É o maior saque de recursos públicos da História do Brasil.
Nesta conjuntura, Aécio tem de estar preparado para um enorme bombardeio de calúnias que irá receber. Marina Silva aprendeu na prática o que é o PT. Em uma quinzena foi alvo de um volume nunca visto de mentiras numa campanha presidencial que acabou destruindo a sua candidatura.
Não soube responder porque, apesar de ter saído do PT, o PT ainda não tinha saído dela. Ingenuamente, imaginou que tudo aquilo poderia ser resolvido biblicamente, simplesmente virando a face para outra agressão. Constatou que o PT tem como princípio destruir reputações. E ela foi mais uma vítima desta terrível máquina.
O arsenal petista de dossiês contra Aécio já está pronto. Os aloprados não têm princípios, simplesmente cumprem ordens. Sabem que não sobrevivem longe da máquina de Estado.
Contarão com o apoio entusiástico de artistas, intelectuais e jornalistas. Todos eles fracassados e que imputam sua insignificância a uma conspiração das elites. E são milhares espalhados por todo o Brasil.
Teremos o mais violento segundo turno de uma eleição presidencial. O que Marina sofreu, Aécio sofrerá em dobro. Basta sinalizar que ameaça o projeto criminoso de poder do petismo. O senador tucano vai encontrar pelo caminho várias armadilhas. A maior delas é no campo econômico.
O governo do PT gestou uma grave crise. Dilma foi a terceira pior presidente da história do Brasil republicano em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto — que teve no seu triênio presidencial duas guerras civis — e Fernando Collor — que recebeu a verdadeira herança maldita: uma inflação anual de quatro dígitos.
O PT deve imputar a Aécio uma agenda econômica impopular que enfrente radicalmente as mazelas criadas pelo petismo. Daí a necessidade imperiosa de o candidato oposicionista deixar claro — muito claro — que quem fala sobre como será o seu governo é ele — somente ele.
Aécio Neves tem todas as condições para vencer a eleição mais difícil da nossa história. Se Tancredo Neves foi o instrumento para que o Brasil se livrasse de 21 anos de arbítrio, o neto poderá ser aquele que livrará o país do projeto criminoso de poder representado pelo PT. E poderemos, finalmente, virar esta triste página da nossa história.
Marco Antonio Villa é historiador
Estamos vivendo um momento histórico. A eleição presidencial de 2014 decidirá a sorte do Brasil por 12 anos. Como é sabido, o projeto petista é se perpetuar no poder. Segundo imaginam os marginais do poder — feliz expressão cunhada pelo ministro Celso de Mello quando do julgamento do mensalão —, a vitória de Dilma Rousseff abrirá caminho para que Lula volte em 2018 e, claro, com a perspectiva de permanecer por mais 8 anos no poder.

Dom Sebastião, O Desejado (Imagem: Pintura atribuída a Cristóvão de Morais)
Em um eventual segundo governo Dilma, o presidente de fato será Lula. Esperto como é, o nosso Pedro Malasartes da política vai preparar o terreno para voltar, como um Dom Sebastião do século XXI, mesmo que parecendo mais um personagem de samba-enredo ao estilo daquele imortalizado por Sérgio Porto.
Diferentemente de 2006 e 2010, o PT está fragilizado. Dilma é a candidata que segue para tentar a reeleição com a menor votação obtida no primeiro turno desde a eleição de 1994.
Seu criador foi derrotado fragorosamente em São Paulo, principal colégio eleitoral do país. Imaginou que elegeria mais um poste. Não só o eleitorado disse não, como não reelegeu o performático e inepto senador Eduardo Suplicy, e a bancada petista na Assembleia Legislativa perdeu oito deputados e seis na Câmara dos Deputados.
A resistência e a recuperação de Aécio Neves foram épicas. Em certo momento da campanha, parecia que o jogo eleitoral estava decidido. Marina Silva tinha disparado e venceria — segundo as malfadadas pesquisas. Ele manteve a calma até quando um dos seus coordenadores de campanha estava querendo saltar para o barco da ex-senadora.
E, neste instante, a ação das lideranças paulistas do PSDB foi decisiva. Geraldo Alckmin poderia ter lavado as mãos e fritado Aécio. Mas não o fez, assim como José Serra, o senador mais votado do país com 11 milhões de votos.
Foi em São Paulo que começou a reação democrática que o levou ao segundo turno com uma vitória consagradora no estado onde nasceu o PT.
Esta campanha eleitoral tem desafiado os analistas. As interpretações tradicionais foram desmoralizadas. A determinação econômica — tal qual como no marxismo — acabou não se sustentando. É recorrente a referência à campanha americana de 1992 de Bill Clinton e a expressão “é a economia, estúpido”.
Com a economia crescendo próximo a zero, como explicar que Dilma liderou a votação no primeiro turno? Se as alianças regionais são indispensáveis, como explicar a votação de Marina?
E o tal efeito bumerangue quando um candidato ataca o outro e acaba caindo nas intenções de voto? Como explicar que Dilma caluniou Marina durante três semanas, destruiu a adversária e obteve um crescimento nas pesquisas?
Se Lula é o réu oculto do mensalão, o que dizer do doleiro petista Alberto Youssef? Imagine o leitor quando o depoimento — já aceito pela Justiça Federal — for divulgado ou vazar? De acordo com o ministro Teori Zavascki, o envolvimento de altas figuras da República faz com que o processo tenha de ir para o STF.
E, basta lembrar, segundo o doleiro, que só ele lavou R$ 1 bilhão de corrupção da Refinaria Abreu e Lima. Basta supor o que foi desviado da Petrobras, de outras empresas e bancos estatais e dos ministérios para entender o significado dos 12 anos de petismo no poder. É o maior saque de recursos públicos da História do Brasil.
Nesta conjuntura, Aécio tem de estar preparado para um enorme bombardeio de calúnias que irá receber. Marina Silva aprendeu na prática o que é o PT. Em uma quinzena foi alvo de um volume nunca visto de mentiras numa campanha presidencial que acabou destruindo a sua candidatura.
Não soube responder porque, apesar de ter saído do PT, o PT ainda não tinha saído dela. Ingenuamente, imaginou que tudo aquilo poderia ser resolvido biblicamente, simplesmente virando a face para outra agressão. Constatou que o PT tem como princípio destruir reputações. E ela foi mais uma vítima desta terrível máquina.
O arsenal petista de dossiês contra Aécio já está pronto. Os aloprados não têm princípios, simplesmente cumprem ordens. Sabem que não sobrevivem longe da máquina de Estado.
Contarão com o apoio entusiástico de artistas, intelectuais e jornalistas. Todos eles fracassados e que imputam sua insignificância a uma conspiração das elites. E são milhares espalhados por todo o Brasil.
Teremos o mais violento segundo turno de uma eleição presidencial. O que Marina sofreu, Aécio sofrerá em dobro. Basta sinalizar que ameaça o projeto criminoso de poder do petismo. O senador tucano vai encontrar pelo caminho várias armadilhas. A maior delas é no campo econômico.
O governo do PT gestou uma grave crise. Dilma foi a terceira pior presidente da história do Brasil republicano em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto — que teve no seu triênio presidencial duas guerras civis — e Fernando Collor — que recebeu a verdadeira herança maldita: uma inflação anual de quatro dígitos.
O PT deve imputar a Aécio uma agenda econômica impopular que enfrente radicalmente as mazelas criadas pelo petismo. Daí a necessidade imperiosa de o candidato oposicionista deixar claro — muito claro — que quem fala sobre como será o seu governo é ele — somente ele.
Aécio Neves tem todas as condições para vencer a eleição mais difícil da nossa história. Se Tancredo Neves foi o instrumento para que o Brasil se livrasse de 21 anos de arbítrio, o neto poderá ser aquele que livrará o país do projeto criminoso de poder representado pelo PT. E poderemos, finalmente, virar esta triste página da nossa história.
Marco Antonio Villa é historiador
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Fazenda vertical é solução para desafios enfrentados pela agricultura
Escassez de áreas cultiváveis e aquecimento global abrem espaço para o cultivo de vegetais em estufas, dentro de prédios. Modelo aproxima produção do mercado consumidor e economiza água, mas ainda é muito caro.
Da Deutsche Welle
O conceito de fazendas verticais, ou o cultivo de alimentos em prédios, surgiu com a necessidade de ampliar a produção agrícola perante o crescimento populacional e de adaptar a agricultura para as mudanças climáticas. O modelo, já presente em alguns países, ainda é uma realidade distante no Brasil devido aos elevados custos de construção e produção, que acabam encarecendo o produto final.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), até 2050 a produção mundial de alimentos precisaria aumentar em cerca de 70%, em relação à safra de 2005, para alimentar os mais de 9 bilhões de habitantes que o planeta deverá ter até lá. Mas isso significaria também ampliar a área cultivada.
Segundo o criador do conceito de fazendas verticais, Dickson Despommier, para expandir a produção de alimentos nessa proporção seria necessário ampliar a atual área plantada em uma região quase do tamanho do Brasil. Além da escassez de áreas cultiváveis, a agricultura enfrentará nos próximos anos ainda desafios criados pelas mudanças climáticas.
"O aspecto da vida humana mais afetado pelo aquecimento global é a habilidade de produzir alimentos. Em muitos locais, a agricultura já está falhando em larga escala. Então precisamos de um meio de produzir alimentos que independa das condições climáticas", afirmou Despommier, que é professor emérito da Universidade Columbia, à DW Brasil.
Série de vantagens
Partindo do conceito de estufas, o modelo desenvolvido por ele prevê o cultivo de alimentos em prédios construídos próximos aos centros urbanos. O cultivo fechado possibilita a produção durante todo o ano, sem depender do clima. Além disso, economiza água, pois a hidroponia requer apenas 30% da quantidade de água necessária na produção convencional.
Esse modelo também reduz a incidência de pragas e o uso de defensivos agrícolas. Mas, nos planos de Despommier, a fazenda vertical ideal vai além. Ela é sustentável e totalmente integrada ao ambiente urbano.
O lixo das cidades seria usado para produzir a energia para a iluminação e manter a temperatura interna. A água para a produção de alimentos viria da reciclagem da chamada água cinza, ou seja, a água residual gerada em casas. O pesquisador afirma também que o modelo permite o cultivo de qualquer tipo de vegetal.
Realidade distante
Para o chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Hortaliças Ítalo Guedes, o cultivo de alimentos perto dos centros consumidores é uma das grandes vantagens desse modelo. Isso reduz custos de transporte e perdas na produção, diminuindo o preço final dos produtos. No Brasil, por exemplo, perdas após a colheita chegam a 40% em algumas culturas, afirma Guedes.
O especialista afirma que o modelo, além de economizar água, requer menos espaço, otimiza e maximiza a produção, e no Brasil ainda pode contribuir para reduzir o desmatamento.
Além de sustentáveis, as fazendas verticais também têm um potencial turístico. "Elas podem ser uma excelente ferramenta para o agroturismo urbano, envolvendo políticas sociais de preservação ambiental e valorização da saúde", disse o especialista em agronegócio Leandro Pessoa de Lucena, da Universidade Federal do Mato Grosso.
Apesar de inovador, os altos custos de construção e produção ainda são as grandes barreiras para a expansão das fazendas verticais. Segundo Lucena, que avaliou o modelo em sua tese de doutorado, as principais desvantagens são o alto consumo de energia, a baixa escala de produção, além da falta de mão de obra especializada e a dificuldade de comercialização da produção, que tem custo mais elevado.
Modelo se propaga no mundo
Apesar das barreiras, aos poucos as fazendas verticais estão conquistando espaço. Já há projetos em Singapura, no Japão, na China, no Oriente Médio e nos Estados Unidos. Para especialistas, o modelo, no entanto, ainda deve demorar para chegar ao Brasil.
"Ainda temos vários passos para caminhar até chegar num ponto em que a fazenda vertical seja uma saída tecnológica viável. Ainda estamos lutamos para convencer a população brasileira a adquirir mais frutas e hortaliças. Não podemos esperar que essas pessoas comprem produtos mais caros, provenientes de fazendas verticais", diz Guedes.
Lucena concorda que o modelo ainda precisa de muitos estudos para reduzir os custos de produção e assim se tornar acessível.
Mas Despommier diz ter certeza de que as fazendas verticais podem se tornar uma alternativa confiável e barata na produção de alimentos. "A tecnologia inicial é cara, mas se o público realmente a quiser, a indústria encontrará um meio de torná-la acessível. A mesma coisa aconteceu com os primeiros celulares e televisões de plasmas", afirma.
Da Deutsche Welle
O conceito de fazendas verticais, ou o cultivo de alimentos em prédios, surgiu com a necessidade de ampliar a produção agrícola perante o crescimento populacional e de adaptar a agricultura para as mudanças climáticas. O modelo, já presente em alguns países, ainda é uma realidade distante no Brasil devido aos elevados custos de construção e produção, que acabam encarecendo o produto final.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), até 2050 a produção mundial de alimentos precisaria aumentar em cerca de 70%, em relação à safra de 2005, para alimentar os mais de 9 bilhões de habitantes que o planeta deverá ter até lá. Mas isso significaria também ampliar a área cultivada.
Segundo o criador do conceito de fazendas verticais, Dickson Despommier, para expandir a produção de alimentos nessa proporção seria necessário ampliar a atual área plantada em uma região quase do tamanho do Brasil. Além da escassez de áreas cultiváveis, a agricultura enfrentará nos próximos anos ainda desafios criados pelas mudanças climáticas.
"O aspecto da vida humana mais afetado pelo aquecimento global é a habilidade de produzir alimentos. Em muitos locais, a agricultura já está falhando em larga escala. Então precisamos de um meio de produzir alimentos que independa das condições climáticas", afirmou Despommier, que é professor emérito da Universidade Columbia, à DW Brasil.
Série de vantagens
Partindo do conceito de estufas, o modelo desenvolvido por ele prevê o cultivo de alimentos em prédios construídos próximos aos centros urbanos. O cultivo fechado possibilita a produção durante todo o ano, sem depender do clima. Além disso, economiza água, pois a hidroponia requer apenas 30% da quantidade de água necessária na produção convencional.
Esse modelo também reduz a incidência de pragas e o uso de defensivos agrícolas. Mas, nos planos de Despommier, a fazenda vertical ideal vai além. Ela é sustentável e totalmente integrada ao ambiente urbano.
O lixo das cidades seria usado para produzir a energia para a iluminação e manter a temperatura interna. A água para a produção de alimentos viria da reciclagem da chamada água cinza, ou seja, a água residual gerada em casas. O pesquisador afirma também que o modelo permite o cultivo de qualquer tipo de vegetal.
Realidade distante
Para o chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Hortaliças Ítalo Guedes, o cultivo de alimentos perto dos centros consumidores é uma das grandes vantagens desse modelo. Isso reduz custos de transporte e perdas na produção, diminuindo o preço final dos produtos. No Brasil, por exemplo, perdas após a colheita chegam a 40% em algumas culturas, afirma Guedes.
O especialista afirma que o modelo, além de economizar água, requer menos espaço, otimiza e maximiza a produção, e no Brasil ainda pode contribuir para reduzir o desmatamento.
Além de sustentáveis, as fazendas verticais também têm um potencial turístico. "Elas podem ser uma excelente ferramenta para o agroturismo urbano, envolvendo políticas sociais de preservação ambiental e valorização da saúde", disse o especialista em agronegócio Leandro Pessoa de Lucena, da Universidade Federal do Mato Grosso.
Apesar de inovador, os altos custos de construção e produção ainda são as grandes barreiras para a expansão das fazendas verticais. Segundo Lucena, que avaliou o modelo em sua tese de doutorado, as principais desvantagens são o alto consumo de energia, a baixa escala de produção, além da falta de mão de obra especializada e a dificuldade de comercialização da produção, que tem custo mais elevado.
Modelo se propaga no mundo
Apesar das barreiras, aos poucos as fazendas verticais estão conquistando espaço. Já há projetos em Singapura, no Japão, na China, no Oriente Médio e nos Estados Unidos. Para especialistas, o modelo, no entanto, ainda deve demorar para chegar ao Brasil.
"Ainda temos vários passos para caminhar até chegar num ponto em que a fazenda vertical seja uma saída tecnológica viável. Ainda estamos lutamos para convencer a população brasileira a adquirir mais frutas e hortaliças. Não podemos esperar que essas pessoas comprem produtos mais caros, provenientes de fazendas verticais", diz Guedes.
Lucena concorda que o modelo ainda precisa de muitos estudos para reduzir os custos de produção e assim se tornar acessível.
Mas Despommier diz ter certeza de que as fazendas verticais podem se tornar uma alternativa confiável e barata na produção de alimentos. "A tecnologia inicial é cara, mas se o público realmente a quiser, a indústria encontrará um meio de torná-la acessível. A mesma coisa aconteceu com os primeiros celulares e televisões de plasmas", afirma.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Salman Rushdie: “O fanatismo já é um exército”
O escritor anglo-indiano, em um evento no México, reflete sobre o fenômeno do Estado Islâmico, recorda os autores latino-americanos e fala de sua próxima obra
Por Pablo de Llano, no El País
Salman Rushdie em um hotel de Xalapa. / daniel mordzinski
Salman Rushdie (Bombai, 1947) transita agora pela tradição oriental dos contos fantásticos. O autor anglo-indiano passou a década de 90 indo de um esconderijo a outro protegido por guarda-costas depois de ser sentenciado à morte pelo aiatolá Khomeini por causa do livro Os Versos Satânicos. Nos anos 2000, a pressão diminuiu e ele foi capaz de retomar uma vida normal. Essas duas décadas são relatadas em seu último livro, a autobiografia Joseph Anton. No sábado, durante o Hay Festival de Xalapa, no México, Rushdie refletiu sobre a força do romance como gênero, repassou os clássicos latino-americanos do século XX, reconheceu a influência das letras contemporâneas do continente e deixou escapar que a obra em que está trabalhando tem a ver com uma volta à tradição dos relatos orientais.
Isso no mundo da ficção. No mundo real, o que o preocupa é a irrupção do Estado Islâmico. Sentado em uma salinha da área de reuniões de negócios de seu hotel, Rushdie disseca em 15 minutos – com prorrogação de dois – o significado, dentro do islã, dessa organização que fez do assassinato atroz de reféns ocidentais sua marca registrada.
Pergunta. O que pensou quando soube que o suspeito do assassinato do jornalista James Foley na Síria era um rapper de Londres?
Resposta. Foi um espanto, mas não me surpreendeu. Esse fenômeno de grupelhos da comunidade islâmica britânica radicalizando-se vem de muito tempo. Agora simplesmente alcançou outro nível. O nível da atrocidade.
P. Por que tantos jovens ocidentais aderem à jihad?
R. Essa não é uma resposta simples. Existe uma raiva enorme. Em parte, porque estamos vivendo tempos de dificuldades sociais e econômicas, e há muita gente sem trabalho nem perspectivas. Isso se combina com o que ouvem nas mesquitas, que lhes permite jogar sobre outros toda a culpa pelo que acontece a eles. Essas duas coisas juntas podem levar alguns a extremos. É uma lástima, porque para a maioria das pessoas de diferentes grupos étnicos as coisas vêm melhorando desde os anos 80. Mas, ao mesmo tempo, houve uma radicalização crescente de alguns grupos. Acredito que um dos problemas foi a chegada indiscriminada de clérigos radicais a Inglaterra, financiados pela Arábia Saudita e Irã, que vêm falar com os jovens em uma linguagem realmente belicosa.
______________________________
Entre outros participantes estavam escritores mexicanos como Élmer Mendoza, Sergio González Rodríguez, Rosa Beltrán, Álvaro Enrigue e Margo Glantz; espanhóis como Ignacio Martínez de Pisón, Juan Bonilla e Ray Loriga; o colombiano Tomás González, a cubana Yoani Sánchez...
Amostra da heterogeneidade foram os concertos, com o indie Daniel Johnston e Concha Buika como estrelas; a exibição de documentários da Gira Ambulante, organização fundada pelo Gael García Bernal e Diego Luna – A Imagem Ausente, do diretor cambojano Rithy Pahn – ou a presença de divulgadores científicos como Alan Weisman ou Paul Bogard.
O escritor Salman Rushdie deu brilho ao Hay Festival, que completa cinco anos no México. A contribuição do escritor anglo-indiano foi a coroação de um programa sólido, com predominância da literatura e aberto à variedade da arte.
Entre outros participantes estavam escritores mexicanos como Élmer Mendoza, Sergio González Rodríguez, Rosa Beltrán, Álvaro Enrigue e Margo Glantz; espanhóis como Ignacio Martínez de Pisón, Juan Bonilla e Ray Loriga; o colombiano Tomás González, a cubana Yoani Sánchez...
Amostra da heterogeneidade foram os concertos, com o indie Daniel Johnston e Concha Buika como estrelas; a exibição de documentários da Gira Ambulante, organização fundada pelo Gael García Bernal e Diego Luna – A Imagem Ausente, do diretor cambojano Rithy Pahn – ou a presença de divulgadores científicos como Alan Weisman ou Paul Bogard.
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P. Por que as decapitações?
R. Para mim, é um ato que mostra um afastamento absoluto de qualquer coisa que possa ser chamada de civilização. Obviamente, fazem isso para chocar e ocupar as manchetes. Essa gente vem demonstrando um manejo notável da mídia. Usam as redes sociais como ferramenta de recrutamento, e usam essas imagens porque sabem que é a maneira de obter uma atenção global para criar um medo brutal. E funciona. Frequentemente, em combates com o exército iraquiano, os soldados iraquianos estavam tão assustados que fugiam.
P. O que é o Estado Islâmico na evolução do fundamentalismo?
R. A novidade é o poder de organização. A Al Qaeda, em seu auge, era um grupo relativamente pequeno de pessoas, não podiam andar à vista, viviam em abrigos secretos ou em grutas. Agora existe um exército muito organizado e bem armado, com grandes recursos financeiros, em parte do mercado negro do petróleo e em parte porque deve estar recebendo dinheiro de algum lado. Podemos especular sobre um ou outro país, mas na realidade não sabemos de onde vem. O que sabemos é que têm muito dinheiro e estão altamente organizados. Essa é a novidade: que o fanatismo já é um exército.
P. Há alguma alternativa contra eles que não seja militar?
R. Não. Isto é, não podem ser combatidos somente com músculos. É necessário um governo multiétnico no Iraque que ganhe a confiança das diferentes comunidades. E algo muito interessante agora é que há países sunitas aderindo à batalha contra o Estado Islâmico. Se conseguirem mostrar que eles não são os representantes dos sunitas na região, poderia ser o embrião de uma solução não militar. Mas é preciso controlá-los militarmente porque isso é o que são, um exército. Um exército de invasão.
P. Nos países islâmicos aparece alguma via alternativa ao fundamentalismo ou às ditaduras seculares?
R. Não entendo o que seria uma ditadura secular. Você se refere a Mubarak, ou Al Assad? Bem, pode ser. Mas o fato lamentável é que esses países não tiveram a oportunidade real de desenvolver as instituições da sociedade civil. E isso é o que o povo pedia no início da chamada Primavera Árabe. Queriam o fim dos Mubarak e dos Assad, não a instauração de estados islâmicos.
P. O resultado foi contraproducente?
R. O que acontece é que esses movimentos foram sequestrados. Não é muito diferente do que aconteceu com a revolução iraniana, que foi um movimento de massa genuíno contra o xá, um movimento que incluía todos os setores, do Partido Comunista ao movimento feminista, passando por sindicatos, socialistas e religiosos. E o que aconteceu é que Khomeini engoliu a revolução. Mas não se pode culpar a revolução por isso. Do mesmo modo que acredito que esses moços deram voz a um desejo muito difundido pelo mundo, porque o mundo inteiro quer o mesmo. Querem paz, querem liberdades, querem poder sair por aí com garotas, querem poder sair por aí com garotos. Querem poder dizer o que pensam sem ir para a prisão. São desejos universais. Infelizmente, no Egito não aconteceu isso. Mas acredito que continua sendo, em geral, a vontade subjacente. Mas quando chegará? Não faço a mínima ideia.
Por Pablo de Llano, no El País
Salman Rushdie em um hotel de Xalapa. / daniel mordzinskiSalman Rushdie (Bombai, 1947) transita agora pela tradição oriental dos contos fantásticos. O autor anglo-indiano passou a década de 90 indo de um esconderijo a outro protegido por guarda-costas depois de ser sentenciado à morte pelo aiatolá Khomeini por causa do livro Os Versos Satânicos. Nos anos 2000, a pressão diminuiu e ele foi capaz de retomar uma vida normal. Essas duas décadas são relatadas em seu último livro, a autobiografia Joseph Anton. No sábado, durante o Hay Festival de Xalapa, no México, Rushdie refletiu sobre a força do romance como gênero, repassou os clássicos latino-americanos do século XX, reconheceu a influência das letras contemporâneas do continente e deixou escapar que a obra em que está trabalhando tem a ver com uma volta à tradição dos relatos orientais.
Isso no mundo da ficção. No mundo real, o que o preocupa é a irrupção do Estado Islâmico. Sentado em uma salinha da área de reuniões de negócios de seu hotel, Rushdie disseca em 15 minutos – com prorrogação de dois – o significado, dentro do islã, dessa organização que fez do assassinato atroz de reféns ocidentais sua marca registrada.
Pergunta. O que pensou quando soube que o suspeito do assassinato do jornalista James Foley na Síria era um rapper de Londres?
Resposta. Foi um espanto, mas não me surpreendeu. Esse fenômeno de grupelhos da comunidade islâmica britânica radicalizando-se vem de muito tempo. Agora simplesmente alcançou outro nível. O nível da atrocidade.
P. Por que tantos jovens ocidentais aderem à jihad?
R. Essa não é uma resposta simples. Existe uma raiva enorme. Em parte, porque estamos vivendo tempos de dificuldades sociais e econômicas, e há muita gente sem trabalho nem perspectivas. Isso se combina com o que ouvem nas mesquitas, que lhes permite jogar sobre outros toda a culpa pelo que acontece a eles. Essas duas coisas juntas podem levar alguns a extremos. É uma lástima, porque para a maioria das pessoas de diferentes grupos étnicos as coisas vêm melhorando desde os anos 80. Mas, ao mesmo tempo, houve uma radicalização crescente de alguns grupos. Acredito que um dos problemas foi a chegada indiscriminada de clérigos radicais a Inglaterra, financiados pela Arábia Saudita e Irã, que vêm falar com os jovens em uma linguagem realmente belicosa.
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Xalapa, cinco anos de cultura universal com o Hay
O escritor Salman Rushdie deu brilho ao Hay Festival, que completa cinco anos no México. A contribuição do escritor anglo-indiano foi a coroação de um programa sólido, com predominância da literatura e aberto à variedade da arte.Entre outros participantes estavam escritores mexicanos como Élmer Mendoza, Sergio González Rodríguez, Rosa Beltrán, Álvaro Enrigue e Margo Glantz; espanhóis como Ignacio Martínez de Pisón, Juan Bonilla e Ray Loriga; o colombiano Tomás González, a cubana Yoani Sánchez...
Amostra da heterogeneidade foram os concertos, com o indie Daniel Johnston e Concha Buika como estrelas; a exibição de documentários da Gira Ambulante, organização fundada pelo Gael García Bernal e Diego Luna – A Imagem Ausente, do diretor cambojano Rithy Pahn – ou a presença de divulgadores científicos como Alan Weisman ou Paul Bogard.
O escritor Salman Rushdie deu brilho ao Hay Festival, que completa cinco anos no México. A contribuição do escritor anglo-indiano foi a coroação de um programa sólido, com predominância da literatura e aberto à variedade da arte.
Entre outros participantes estavam escritores mexicanos como Élmer Mendoza, Sergio González Rodríguez, Rosa Beltrán, Álvaro Enrigue e Margo Glantz; espanhóis como Ignacio Martínez de Pisón, Juan Bonilla e Ray Loriga; o colombiano Tomás González, a cubana Yoani Sánchez...
Amostra da heterogeneidade foram os concertos, com o indie Daniel Johnston e Concha Buika como estrelas; a exibição de documentários da Gira Ambulante, organização fundada pelo Gael García Bernal e Diego Luna – A Imagem Ausente, do diretor cambojano Rithy Pahn – ou a presença de divulgadores científicos como Alan Weisman ou Paul Bogard.
P. Por que as decapitações?
R. Para mim, é um ato que mostra um afastamento absoluto de qualquer coisa que possa ser chamada de civilização. Obviamente, fazem isso para chocar e ocupar as manchetes. Essa gente vem demonstrando um manejo notável da mídia. Usam as redes sociais como ferramenta de recrutamento, e usam essas imagens porque sabem que é a maneira de obter uma atenção global para criar um medo brutal. E funciona. Frequentemente, em combates com o exército iraquiano, os soldados iraquianos estavam tão assustados que fugiam.
P. O que é o Estado Islâmico na evolução do fundamentalismo?
R. A novidade é o poder de organização. A Al Qaeda, em seu auge, era um grupo relativamente pequeno de pessoas, não podiam andar à vista, viviam em abrigos secretos ou em grutas. Agora existe um exército muito organizado e bem armado, com grandes recursos financeiros, em parte do mercado negro do petróleo e em parte porque deve estar recebendo dinheiro de algum lado. Podemos especular sobre um ou outro país, mas na realidade não sabemos de onde vem. O que sabemos é que têm muito dinheiro e estão altamente organizados. Essa é a novidade: que o fanatismo já é um exército.
P. Há alguma alternativa contra eles que não seja militar?
R. Não. Isto é, não podem ser combatidos somente com músculos. É necessário um governo multiétnico no Iraque que ganhe a confiança das diferentes comunidades. E algo muito interessante agora é que há países sunitas aderindo à batalha contra o Estado Islâmico. Se conseguirem mostrar que eles não são os representantes dos sunitas na região, poderia ser o embrião de uma solução não militar. Mas é preciso controlá-los militarmente porque isso é o que são, um exército. Um exército de invasão.
P. Nos países islâmicos aparece alguma via alternativa ao fundamentalismo ou às ditaduras seculares?
R. Não entendo o que seria uma ditadura secular. Você se refere a Mubarak, ou Al Assad? Bem, pode ser. Mas o fato lamentável é que esses países não tiveram a oportunidade real de desenvolver as instituições da sociedade civil. E isso é o que o povo pedia no início da chamada Primavera Árabe. Queriam o fim dos Mubarak e dos Assad, não a instauração de estados islâmicos.
P. O resultado foi contraproducente?
R. O que acontece é que esses movimentos foram sequestrados. Não é muito diferente do que aconteceu com a revolução iraniana, que foi um movimento de massa genuíno contra o xá, um movimento que incluía todos os setores, do Partido Comunista ao movimento feminista, passando por sindicatos, socialistas e religiosos. E o que aconteceu é que Khomeini engoliu a revolução. Mas não se pode culpar a revolução por isso. Do mesmo modo que acredito que esses moços deram voz a um desejo muito difundido pelo mundo, porque o mundo inteiro quer o mesmo. Querem paz, querem liberdades, querem poder sair por aí com garotas, querem poder sair por aí com garotos. Querem poder dizer o que pensam sem ir para a prisão. São desejos universais. Infelizmente, no Egito não aconteceu isso. Mas acredito que continua sendo, em geral, a vontade subjacente. Mas quando chegará? Não faço a mínima ideia.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
José Saramago volta a falar aos leitores
Será publicado o romance inacabado ‘Alabardas’, sobre a violência e o negócio de armas. Participam do livro Roberto Saviano e Günter Grass

Por Winston Manrique Sabogal, no El País
Com o mar de Lanzarote à esquerda e o jardim de sua casa à frente, debruçados em duas janelas, José Saramago começou a escrever o romance que deixou inacabado e que verá a luz no dia 1 de outubro: Alabardas (Editora Alfaguara). Foi escrito em uma das salas de sua casa, em uma poltrona cor de telha rodeada de tons verdes onde nunca havia escrito um livro antes. Onde –para um tema como o da indústria de armamentos e o tráfico de armas– continuou a exploração de dois rumos literários: mais depuração no escrito e mais senso de humor e ironia.
O Nobel português (Azinhaga, 1922-Tías, Lanzarote, 2010) aborda o negócio armamentista, sim, mas também fala ao leitor, o interpela, conta-lhe uma história e nela lhe pergunta sobre sua posição e responsabilidade moral diante dessa situação. Ou, como diz o poeta e ensaísta Fernando Gómez Aguilera, “põe o dedo na consciência para incomodar, inquietar e depositar no âmbito pessoal o desafio da regeneração: a eventualidade, embora cética, de perceber a alternativa de um mundo mais humano”.
Tudo começou a tomar corpo em 15 de agosto de 2009, depois da publicação de Caim, com a primeira anotação de trabalho: “É possível, quem sabe, que talvez possa escrever outro livro. Uma antiga preocupação (por que nunca houve uma greve em uma fábrica de armas)”. Chegou a escrever três capítulos que deixou em seu computador, com cópias impressas em uma pasta vermelha sobre a escrivaninha. E em outro documento de word deixou esboçada parte da história protagonizada por artur paz semedo que “trabalha há quase vinte anos no serviço de faturamento de armamento leve e munições de uma histórica fábrica de armas”. Um homem separado da mulher, “não porque ele o tivesse querido, mas por decisão dela, que, por ser convicta militante pacifista, acabou não podendo suportar nem um dia mais se sentir ligada pelos laços da inevitável convivência doméstica”.
Pura coerência.
Pura pergunta que Saramago lança em uma palavra de nove letras: Coerência. E daí em diante mais. Uma história dessas que concatenam ao mundo governos, empresas e cidadãos, e que nasce de outra pergunta: a empresa onde trabalha artur paz semedo vendeu armas aos fascistas da Guerra Civil Espanhola?
Isso é Alabarda, cujo nome completo seria “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”, título extraído da tragicomédia Exortação da Guerra, do dramaturgo Gil Vicente. Um romance em que o escritor não só mudou de lugar na hora de escrever e aprofundou em outros registros, mas que, devido à doença, alterou sua rotina criativa e o fez cada vez que pôde. Em outros tempos, recorda Pilar del Río, sua viúva, “dedicava a manhã à correspondência, escrever artigos de imprensa ou conferências, enquanto à tarde escrevia romances. Mas nos últimos tempos o tempo o apertava e ele já não tinha horas. ‘O tempo aperta’, dizia”.
Saramago foi alcançado por esse tempo, e o que foi escrito nessa pressa se vê agora em 149 páginas. Uma edição especial que inclui as anotações do autor, um artigo de Roberto Saviano, um texto de Gómez Aguilera e tudo embelezado pelos desenhos de Günter Grass… lobos raivosos e assustados, sombras fantasmais, pernas e braços em marcha militar, semeadouros de armas, corvos, corvos…
Imagens que acompanham um livro, como escreve Saviano, “de páginas que são um criptograma do murmúrio contínuo das misteriosas revelações que recebemos. Como um manual de tradução de sons, percepções e indignações. Em artur, as revelações que vi são as de todos os homens e mulheres que se defenderam da idiotice ao se darem conta de haver compreendido os dois caminhos que existem: ficar aqui suportando a vida, conversando com ironia, tratando de acumular algum dinheiro e família e pouco mais, ou então outra coisa”.
Quatro anos depois de morto, Alabardas é publicado com uma mistura de sentimentos de Pilar del Río. Desde o principio ela tinha clareza que o editaria: “O leitor tem direito a conhecer aquilo que ocupava o autor que admirava e pelo qual havia se preocupado tanto. E mais em um homem como Saramago, que estava entre a vida e a morte, trabalhando”.
Inclusive assim, quando podia, escrevia duas folhas diárias, fazia duas cópias na impressora –uma para a pasta vermelha e outra para a mulher– e no dia seguinte detalhava ou corrigia. O surpreendente, conta Del Río, eram a afabilidade, a leveza e o humor que queria transmitir esse homem muito doente que não sabia se poderia concluir o livro. Um romance que será apresentado no dia 2 de outubro em Lisboa com vários atos especiais: de manhã haverá uma visita com a imprensa à Fábrica de Braço de Prata, antiga Fábrica de armas e atualmente Centro Cultural; à tarde (17 horas), no Teatro Nacional D. Maria II, haverá uma entrevista coletiva à imprensa com Baltasar Garzón, Roberto Saviano e António Sampaio da Nóvoa.
É o diálogo contínuo de José Saramago com os leitores neste Alabardas, que escreveu em um lugar inédito para ele, com um computador, em sua poltrona cor de telha e frente à melhor obra da casa, segundo ele: duas janelas –uma com vista para o mar e para a ilha de Fuerteventura e a outra com as árvores do jardim que plantaram juntos.

Ilustração de Günter Grass para 'Alabardas', de Saramago.
Por Winston Manrique Sabogal, no El País
Com o mar de Lanzarote à esquerda e o jardim de sua casa à frente, debruçados em duas janelas, José Saramago começou a escrever o romance que deixou inacabado e que verá a luz no dia 1 de outubro: Alabardas (Editora Alfaguara). Foi escrito em uma das salas de sua casa, em uma poltrona cor de telha rodeada de tons verdes onde nunca havia escrito um livro antes. Onde –para um tema como o da indústria de armamentos e o tráfico de armas– continuou a exploração de dois rumos literários: mais depuração no escrito e mais senso de humor e ironia.
O Nobel português (Azinhaga, 1922-Tías, Lanzarote, 2010) aborda o negócio armamentista, sim, mas também fala ao leitor, o interpela, conta-lhe uma história e nela lhe pergunta sobre sua posição e responsabilidade moral diante dessa situação. Ou, como diz o poeta e ensaísta Fernando Gómez Aguilera, “põe o dedo na consciência para incomodar, inquietar e depositar no âmbito pessoal o desafio da regeneração: a eventualidade, embora cética, de perceber a alternativa de um mundo mais humano”.
O romance aborda o negócio armamentista, sim, mas também fala ao leitor, o interpela, conta-lhe uma história e nela lhe pergunta sobre sua posição e responsabilidade moral diante dessa situação
Tudo começou a tomar corpo em 15 de agosto de 2009, depois da publicação de Caim, com a primeira anotação de trabalho: “É possível, quem sabe, que talvez possa escrever outro livro. Uma antiga preocupação (por que nunca houve uma greve em uma fábrica de armas)”. Chegou a escrever três capítulos que deixou em seu computador, com cópias impressas em uma pasta vermelha sobre a escrivaninha. E em outro documento de word deixou esboçada parte da história protagonizada por artur paz semedo que “trabalha há quase vinte anos no serviço de faturamento de armamento leve e munições de uma histórica fábrica de armas”. Um homem separado da mulher, “não porque ele o tivesse querido, mas por decisão dela, que, por ser convicta militante pacifista, acabou não podendo suportar nem um dia mais se sentir ligada pelos laços da inevitável convivência doméstica”.
Pura coerência.
Pura pergunta que Saramago lança em uma palavra de nove letras: Coerência. E daí em diante mais. Uma história dessas que concatenam ao mundo governos, empresas e cidadãos, e que nasce de outra pergunta: a empresa onde trabalha artur paz semedo vendeu armas aos fascistas da Guerra Civil Espanhola?
Isso é Alabarda, cujo nome completo seria “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”, título extraído da tragicomédia Exortação da Guerra, do dramaturgo Gil Vicente. Um romance em que o escritor não só mudou de lugar na hora de escrever e aprofundou em outros registros, mas que, devido à doença, alterou sua rotina criativa e o fez cada vez que pôde. Em outros tempos, recorda Pilar del Río, sua viúva, “dedicava a manhã à correspondência, escrever artigos de imprensa ou conferências, enquanto à tarde escrevia romances. Mas nos últimos tempos o tempo o apertava e ele já não tinha horas. ‘O tempo aperta’, dizia”.
Saviano: "É como um manual de tradução de sons, percepções e indignações. Em Artur as revelações que vi são as de todos os homens e mulheres que se defenderam da idiotice ao se darem conta de haver compreendido os dois caminhos que existem: ficar aqui suportando a vida, conversando com ironia, tratando de acumular algum dinheiro e família e pouco mais, ou então outra coisa"
Saramago foi alcançado por esse tempo, e o que foi escrito nessa pressa se vê agora em 149 páginas. Uma edição especial que inclui as anotações do autor, um artigo de Roberto Saviano, um texto de Gómez Aguilera e tudo embelezado pelos desenhos de Günter Grass… lobos raivosos e assustados, sombras fantasmais, pernas e braços em marcha militar, semeadouros de armas, corvos, corvos…
Imagens que acompanham um livro, como escreve Saviano, “de páginas que são um criptograma do murmúrio contínuo das misteriosas revelações que recebemos. Como um manual de tradução de sons, percepções e indignações. Em artur, as revelações que vi são as de todos os homens e mulheres que se defenderam da idiotice ao se darem conta de haver compreendido os dois caminhos que existem: ficar aqui suportando a vida, conversando com ironia, tratando de acumular algum dinheiro e família e pouco mais, ou então outra coisa”.
Quatro anos depois de morto, Alabardas é publicado com uma mistura de sentimentos de Pilar del Río. Desde o principio ela tinha clareza que o editaria: “O leitor tem direito a conhecer aquilo que ocupava o autor que admirava e pelo qual havia se preocupado tanto. E mais em um homem como Saramago, que estava entre a vida e a morte, trabalhando”.
Inclusive assim, quando podia, escrevia duas folhas diárias, fazia duas cópias na impressora –uma para a pasta vermelha e outra para a mulher– e no dia seguinte detalhava ou corrigia. O surpreendente, conta Del Río, eram a afabilidade, a leveza e o humor que queria transmitir esse homem muito doente que não sabia se poderia concluir o livro. Um romance que será apresentado no dia 2 de outubro em Lisboa com vários atos especiais: de manhã haverá uma visita com a imprensa à Fábrica de Braço de Prata, antiga Fábrica de armas e atualmente Centro Cultural; à tarde (17 horas), no Teatro Nacional D. Maria II, haverá uma entrevista coletiva à imprensa com Baltasar Garzón, Roberto Saviano e António Sampaio da Nóvoa.
É o diálogo contínuo de José Saramago com os leitores neste Alabardas, que escreveu em um lugar inédito para ele, com um computador, em sua poltrona cor de telha e frente à melhor obra da casa, segundo ele: duas janelas –uma com vista para o mar e para a ilha de Fuerteventura e a outra com as árvores do jardim que plantaram juntos.
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