terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O buraco negro que, na educação, separa qualidade de quantidade



Meus queridos, logo abaixo segue um texto que escrevi em 2007, mas que – infelizmente – mantem-se na ordem do dia:


As últimas pesquisas, efetuadas pelo MEC e por organismos internacionais, registram a mediocridade em que se encontra o sistema de ensino brasileiro, sobretudo, no que refere-se à qualidade.

Em torno de 50% dos alunos brasileiros situados na faixa etária dos 15 anos, estão no chamado nível 1 de alfabetização, indicador estabelecido pela Unesco para classificar a performance dos estudantes. Neste patamar, estão aqueles que mal conseguem efetuar leitura e interpretação de textos. Em um dos mais recentes levantamentos, considerando 41 países pesquisados, o Brasil ficou na 37ª posição, à frente apenas de quatro países. No continente americano vencemos apenas o Peru.

A gravidade da situação que estes indicadores desnudam, está a enfatizar que metade dos alunos brasileiros, com bom aproveitamento acadêmico, que desde sempre estiveram na escola, não dominam a língua pátria e são incapazes de extrair dos textos seus significados. Passam quase dez anos na escola regular sem quase nada aprender. É uma pantomina em que todos enganam-se mutuamente: o estado presta contas divulgando inaugurações de novas e mais novas escolas, os pais contentam-se com um espaço onde possam deixar os filhos, qualquer espaço - desde que fora da violência das ruas - e os alunos acomodam-se na ignorância, que não exige esforço, estudos e trabalhos. E o país amplia a distância que o separa dos países desenvolvidos.

Para construirmos uma nova realidade para a educação, urge entendermos o caos em que nos encontramos. É o primeiro passo, identificar com precisão nossos problemas, para que tenhamos condições de encará-los de frente, estabelecendo políticas, diretrizes e estratégias que os conformem aos objetivos e metas traçados. Para criar um país desenvolvido, em que as oportunidades e a justiça sejam patrimônio de todos, será preciso muito mais.

As edificações destinadas ao ensino carecem de reformas, adequações e principalmente, um novo conceito. Estes espaços devem ser reconcebidos. As salas de aula convencionais, não mais respondem às necessidade contemporâneas. O espaço em que interagem professor e aluno deve se ampliar para todo o espaço de convivência comunitária. As ruas, praças e demais logradouros e equipamentos públicos devem ser extensões de nossas salas de aula. Todo o ambiente que nos envolve deve ser utilizado como salas de aula, laboratórios de pesquisas e oficinas de aprendizagem. A realidade é que a escola sempre funcionou como uma instituição externa à sociedade. Sobretudo neste momento em que a violência urbana as têm tangido para o isolamento. Muralhas de concreto armado, cercas eletrificadas, sistemas de monitoramento eletrônico, cães de guarda... vultosos investimentos que deveriam se destinar à área pedagógica, são carreados para o setor de segurança.

De igual modo, os conteúdos ministrados estão defasados, inadequados. Os assuntos são tratados e abordados de forma cartesiana e mecânica, de modo que não exercem fascínio, não exercem encanto sobre os alunos. Agrava o quadro o sistema adotado de remuneração dos professores: salários miseráveis que retiram de um dos principais atores deste processo, o estímulo. Pior, afeta de maneira irremediável a auto-estima dos educadores.

Mas nem tudo foi ou está perdido.

No último século o país investiu na universalização do ensino, massificando a oferta de vagas. E neste sentido, muito foi conquistado. No ano de 2000, a taxa de escolarização da população de 7 a 14 anos - faixa destinada ao ensino fundamental - chegou a 94,5%. É um dado extremamente relevante, que não deve ser ignorado.

Outras conquistas merecem registro. Nos idos de 1940, a taxa de analfabetismo se situava em torno de 65,1% da população com mais de 15 anos de idade. No ano de 2000, esta taxa era de 13,6%. São indicadores que ainda não satisfazem ao anseio de progresso e desenvolvimento da sociedade, mas enfatizam categoricamente que é possível avançar quando há vontade política e determinação.

É evidente que muito ainda há o que fazer. Quando cotejamos estes dados com os dos demais países - inclusive os latino-americanos - é que percebemos o quanto estamos atrasados. Mas ignorar os progressos obtidos até aqui seria um erro tão elementar quanto o de ignorar a necessidade de novos e urgentes investimentos, agora priorizando a qualidade e não a quantidade.

Assim como estamos ganhando a batalha da massificação da oferta de vagas, deveremos agora enfocar o desafio de massificar a qualidade.

E qualidade refere-se, sem dúvida, à edificações, conteúdos e didáticas adequadas. Mas refere-se também à criação de um eficiente e continuado processo de qualificação da mão de obra, o que inclui a adoção de vigorosos processos de capacitação, planos de progressão funcional, e de políticas salariais consistentes.

Direção, professores, servidores e comunidade, devem estar plenamente engajados na construção deste novo cenário, onde a universalização se dê pelo acesso, como também pela qualidade.

Hoje, na área da educação, é visível o descompasso entre estes dois componentes: quantidade e qualidade. E mais: o buraco negro que separa o acesso (quase universalizado) da qualidade do ensino, compromete de maneira determinante nosso desenvolvimento social, fazendo com que gerações e gerações percam sonhos e oportunidades.

Responder, com sabedoria e rapidez, a este desafio é o que está na ordem do dia.

Artigo de Antônio Carlos dos Santos publicado na Revista Bula e no portal Goiás Educação.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Charles Chaplin, cem anos do vagabundo mais querido


Em fevereiro de 1914 surgiu nas telas o mendigo profissional mais famoso da história do cinema, criado por Charles Chaplin, que se tornou Carlitos



Charles Chaplin, Charlot, em um fotograma de 'O garoto' de 1921.
Do Deutsche Welle 
Em fevereiro de 1914 apareceu nas telas o vagabundo profissional mais famoso da história do cinema. Nasceu entre a fuligem de Londres de 1889, no ano em que o filho de Sisi e Francisco José de Habsburgo se suicidou. O canto de dois séculos turbulentos, quando as crises europeias empurravam a emigração a América. Charles Chaplin nos mostraria seu ritual azarado emImigrante (1917). O cômico fugitivo judeu dos subúrbios londrinos, do abrigo, dos problemas familiares, da loucura materna, parou em Hollywood em 1914 e, em seus três primeiros curta-metragens compõe sua iconografia de tramp, de vagabundo, com ecos de Dickens de Oliver Twist, da malandragem de Henry Fielding e do teatro de pantomima.
Sua composição é uma verdadeira paródia: adota o chapéu-coco e a bengala próprios da burguesia, o bigodinho dos galãs sedutores, mas seus sapatões bagunçados e suas calças esfarrapadas evidenciam sua contradição. É o ano em que Freud publica Introdução ao narcisismo.Anti-herói grotesco, inventa uma linguagem corporal que torna a palavra desnecessária e se permite às vezes a heresia dramática de olhar à câmera, isto é, ao público, para ativar sua empatia. Logo inaugura sua famosa voltinha ao virar uma esquina, geralmente fugindo de um policial ou de um jagunço: para ele são a mesma coisa. Nos Estados Unidos se tornou rapidamente o familiar Charlie, Carlitos na América Latina e Charlot na França e Espanha.
A poética da marginalização suburbana, que nos conduzirá ao romanceTortilla Flat (1935), de John Steinbeck, nasce no ano da Primeira Guerra por obra de Carlitos, o anti-herói da periferia e marginalizado que nos faz rir, porque executa as irreverências e estragos que todos gostaríamos de provocar alguma vez. Mas também nos comove, exercendo de um pai ao que arrebatam seu filho adotivo no filme O Garoto (1921). Ou buscando o amor nos olhos de Mabel Normand, sua colega habitual. O mundo intelectual se rende diante dele: Gómez da Serna fala de “Charlotismo” e Francisco Ayala o define como “o homem que sobra” das ruas e dos cais. E, a pesar das muitas mutações, seu bigodinho permanecerá inalterável até que se confunda com o de Hitler na tragicomédia do Grande ditador (1941).


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Streaming ganha popularidade e é visto como saída para indústria musical



Do Deutsche Welle
A distribuição de músicas por portais de streaming como o YouTube foi um dos temas mais discutidos no Midem, feira de música em Cannes. O futuro do setor pode estar nesse tipo de serviço online, dizem especialistas.


 Há cerca de dois anos, Marius Lauber, um músico alemão completamente desconhecido, postou na internet, sob o pseudônimo Roosevelt, uma faixa demo com o belo título Sea. Pouco tempo depois, o músico estava tocando em clubes famosos como o Berghain, em Berlim, ou o Le Bain, em Nova York – e os críticos musicais lhe prognosticavam uma grande carreira.

"Fiz o upload da música no YouTube, sem pensar em ser descoberto. Mas a faixa chamou a atenção do selo Greco-Roman, e então nos encontramos", disse Lauber, pouco depois da divulgação de sua primeira música numa rádio pela internet, no final de 2012. "Um ano depois, tudo estava assinado e selado", conta.

A história de sucesso de Roosevelt não é um caso isolado e mostra como portais de streaming como YouTube, Soundcloud, Spotify ou o recém-criado Beats Music estão mudando a maneira como músicos são descobertos e ouvidos. Esse desenvolvimento preocupa a indústria musical – que culpa parcialmente os portais de streaming pelas perdas financeiras do setor – há bastante tempo. Nos últimos 15 anos, as vendas caíram quase pela metade.

Em busca de talentos pelo Twitter
Thom Yorke (d) diz que streaming prejudica a sua banda, Radiohead

Mas nem todos veem a situação de forma tão obscura. Lyor Cohen já foi chefe do selo de hip-hop americano Def Jam e executivo da Warner Music Group. Na maior feira mundial da indústria musical, o Midem (Mercado Internacional do Disco e da Edição Musical), ele apresentou em Cannes, na França, o seu novo projeto 300, afirmando: "Eu acredito firmemente que o streaming é o futuro de uma indústria musical saudável."

Ao filtrar e analisar dados relacionados à música da internet, Cohen pretende contornar a morosa burocracia dos grandes selos. O nome 300 já diz tudo: ele alude à Batalha das Termópilas, na Grécia antiga, quando 300 espartanos conseguiram derrotar milhares de soldados persas.

Cohen explicou que a ideia central de seu modelo é uma parceria com o serviço de microblog Twitter, de onde, futuramente, ele poderá acessar grandes quantidades de dados musicais, incluindo informações como a localização de usuários (artistas), não acessíveis publicamente.

Em contrapartida, o projeto 300 irá utilizar suas descobertas para apoiar o Twitter no desenvolvimento de um software que deverá ser útil também para outros empresários musicais.

As intenções de Cohen são claras: graças a tais informações da web, ele pretende descobrir novatos como Roosevelt antes de caírem nas redes de um caça-talentos convencional. A ideia é saber que artistas estão atraindo atenção e onde.

YouTube – pirataria legal?
Quando ouvem falar de um novo artista, o YouTube é frequentemente o ponto de partida. Em Cannes, ficou bastante evidente a frustração da indústria musical com esse fato. Axel Dauchez, executivo-chefe do serviço de streaming Deezer, foi direto ao ponto: a falta de pagamento a muitos artistas transforma tais websites em "importantes piratas legais", disse.

will.i.am, do Black Eyed Peas, faz palestra no Midem

Também o líder da banda Black Eyed Peas, o cantor americano de rap will.i.am, criticou que os artistas são deixados de fora de todas as operações de pagamento. Outros serviços de streaming também sentiram recentemente a fúria de músicos como Thom Yorke, da banda Radiohead, ou de David Byrne, líder do lendário grupo pós-punk Talking Heads. Eles se queixaram de que a remuneração dos serviços de streaming seria desproporcional ao esforço artístico.

As vendas nos EUA mostram os efeitos dos sites de streaming. A consultoria de dados SoundScan relatou no site da revista Billboard que, em 2013, o número de downloads no mercado americano – o maior do mundo – caiu pela primeira vez. Também a venda de CDs caiu por volta de 14%, enquanto o streaming de canções aumentou em quase 32%, para 120 bilhões de acessos.

Na Alemanha, que pertence aos cinco maiores mercados musicais do mundo, os números de 2013 ainda não foram divulgados. Estatísticas preliminares, no entanto, apontam que as vendas de CDs caíram 2%, enquanto a receita na área digital cresceu, por outro lado, em 12% – e isso engloba o streaming.

Possível crescimento bilionário
Marc Geiger, chefe do departamento de música da agência de talentos William Morris Endeavor, não vê nenhum motivo para pessimismo nesses números. No Midem, ele apelou a seus colegas para que, finalmente, reconheçam que o download de músicas irá pertencer, em breve, ao passado – e que o futuro está no streaming.

Ele estima que a indústria musical tenha conseguido a sua maior receita até agora no final da década de 1990, quando o setor lucrou cerca de 40 bilhões de dólares. Ele prognosticou aos participantes do Midem que, em 15 anos, os lucros com o streaming poderão girar em torno de mais de 100 bilhões de dólares.

Essas projeções têm como base os seguintes pré-requisitos: no início, o preço das assinaturas deve ser baixo, depois deve aumentar continuamente. Taxas mensais devem ser a regra e não a exceção, e os serviços de streaming poderiam, no futuro, ser associados a outros serviços.

A empresa de telefonia americana AT&T, por exemplo, coopera com o Beats Music. Esse serviço de streaming, criado pelo produtor e cantor de hip-hop Dr. Dre, pode vir a ser um precursor dessas ofertas combinadas.

Evitar o "efeito jukebox"
O streaming inclui também outro problema, disse o executivo-chefe da Deezer, Axel Dauchez, à Deutsche Welle. Os usuários só escutam músicas e artistas que já conhecem. Segundo Dauchez, os caminhos se fecham então para que artistas novos e experimentais possam divulgar as suas músicas.
"Se o streaming é para ser algo sustentável, devemos todos trabalhar para que este serviço possibilite ao usuário a descobrir coisas novas", disse Dauchez. No entanto, antes que os internautas descubram novas músicas nos exclusivos serviços de streaming, é preciso pagar as taxas. Quantos desses usuários estarão dispostos a pagar tais assinaturas será, nos próximos anos, uma questão chave para a indústria musical.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Lembrando o legado da besta-fera que se vende cordeirinho...

Há 25 anos, último fugitivo era morto ao tentar pular o Muro de Berlim

Do Deutsche Welle

Chris Gueffroy tinha apenas 20 anos quando tentou escapar do regime comunista alemão de uma maneira extremamente arriscada: atravessando a fronteira vigiada que dividia Berlim. Nove meses depois, o Muro caía.


Era pouco antes da meia-noite de 5 de fevereiro de 1989. Os jovens Chris Gueffroy e Christian Gaudian atravessam uma área de pomares de Berlim Oriental, dirigindo-se ao Canal Britz. Através dele, esperam conseguir atravessar uma das fronteiras mais bem vigiadas do mundo: o Muro de Berlim.

Os dois têm a informação – que depois se verificou falsa – de que a ordem para matar quem tentasse fugir pelo Muro teria sido revogada. Ela foi obtida junto a uma fonte que consideram confiável: um guarda de fronteira que trabalha na Turíngia.

Bravamente, eles pulam a primeira barreira de mais de três metros – o chamado "muro interior" – e tentam passar por uma cerca. Sem querer, um deles aciona o alarme, e holofotes rapidamente se acendem, iluminando toda a área.

Correndo, os dois chegam ao último obstáculo, uma cerca de quase três metros de altura. Desesperados, eles tentam se ajudar mutuamente a vencer também aquela barreira. Mas guardas de fronteira descobrem os dois fugitivos e abrem fogo. Chris Gueffroy morre com um tiro no coração, e Christian Gaudian é gravemente ferido e, depois, preso.

O barulho de tiros chega a ser ouvido por Karin Gueffroy, mãe de Chris. Só dias depois, ela soube que seu filho tinha morrido naquela noite. Ele foi a última vítima da ordem de disparo obedecida pelos guardas de fronteira do antigo Muro de Berlim.

Cifras incertas
Chris Gueffroy é considerado o último morto a tiros no Muro de Berlim

Não existem cifras precisas sobre o número de mortos pela polícia de fronteira da Alemanha Oriental. Além da área do Muro propriamente dito, os guardas vigiavam também os 1.400 quilômetros que separavam as duas Alemanhas. Mas uma rede de pesquisa ligada à Universidade Livre de Berlim quer, agora, detalhar os números.

"Atualmente, estamos analisando 1.036 casos de pessoas que são conhecidas nominalmente. Há também 192 casos de pessoas desconhecidas", diz o pesquisador Jan Kostka.

O historiador explica que as autoridades da Alemanha Oriental não costumavam listar as pessoas mortas na fronteira. Pelo contrário, elas procuravam esconder essas mortes. As famílias das vítimas eram forçadas ao silêncio pela Stasi, a polícia secreta dos comunistas.

A própria família de Chris Gueffroy recebeu uma informação vaga de que o rapaz havia morrido quando, segundo a versão oficial, atacou uma zona militar interditada. Mas a mãe levantou dúvidas, pois havia ouvido tiros naquela noite. Duas semanas mais tarde, a família colocou um comunicado de morte no jornal Berliner Zeitung, mencionando um "acidente", uma expressão então indicada para tais casos.

Caso foi exceção
Guardas tinham ordens para atirar em quem tentasse fugir do país

Vários jornalistas ocidentais compareceram ao enterro. A Rias, antiga estação de rádio de Berlim Ocidental, relatou: "A formulação vaga sobre a maneira trágica que Chris fechou seus olhos para sempre foi repetida no discurso do orador profissional do funeral.

Não foi possível saber mais nada de oficial sobre a causa da morte. Um grande contingente de forças da Stasi se espalhou desde cedo pelo cemitério."

A atenção tornou o caso Gueffroy uma exceção. Na maioria das mortes, a intimidação das famílias e a ocultação por meio da Stasi tinham sucesso pleno, com efeitos que podem ser sentidos até hoje.

"Este trabalho de pesquisa é muito detalhista e outras informações têm que ser sempre acrescentadas ao processo", explica Kostka. "Avaliamos relatórios mensais ou mesmo diários de instituições que foram envolvidas nos acontecimentos na fronteira para saber se havia relatos de mortes."

Sistema desumano
Até agora foram contabilizadas 138 mortes no Muro de Berlim. O número é baseado nas mais recentes descobertas da rede de pesquisa da Universidade Livre de Berlim e complementa um projeto do Memorial do Muro de Berlim e do Centro de Investigação Histórica de Potsdam.

Fronteira entre as Alemanhas, fora de Berlim, tinha 1.400 quilômetros

As pesquisas levaram em conta apenas as mortes em que houve uma conexão direta com o regime da fronteira, incluindo pessoas baleadas que não tinham intenção de atravessar a divisa ou de guardas que foram mortos ao tentar fugir da Alemanha Oriental. No entanto, não estão incluídos aqueles se suicidaram por não suportarem viver presos num país cercado por um muro.

A vice-diretora do Memorial do Muro de Berlim, Maria Nooke, diz que as histórias de vida dessas pessoas é mais importante que o número de mortos na fronteira: "A questão decisiva é saber o que essas pessoas viveram, porque assumiram tal risco e quais foram seus motivos."

Chris Gueffroy tinha apenas 20 anos quando foi morto. Ele deveria se apresentar ao serviço militar, mas preferia viver em liberdade e viajar o mundo a servir à Alemanha Oriental. Nove meses depois de seu assassinato, em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim caiu.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A 'mudança' de um bengali para o Brasil

De líder estudantil a camareiro de hotel; a 'mudança' de um bengali para o Brasil

Mariana Della Barba, da BBC Brasil


Faruk Hussain teve seu dinheiro roubado e foi obrigado a atravessar parte da Amazônia a pé

"Depois que eles me ameaçaram com uma arma, eu disse: 'Chega'. Sentei com a minha família e decidimos que eu precisava fugir de Bangladesh. E rápido. Tentei visto para a Alemanha e para a Noruega, mas não consegui. Fiquei sabendo de um agente que me levaria em poucos dias para o Brasil por US$ 10 mil. Paguei US$ 5 mil adiantado, me despedi de todos e embarquei com ele em um avião."

Assim começou a jornada de Faruk Hussain, administrador e líder estudantil de 25 anos, para deixar Daca (capital de Bangladesh) e tentar uma vida no Brasil. Leia o depoimento que o bengali deu à BBC Brasil, por telefone, de Brasília, onde vive atualmente.

"Eu era ligado ao movimento político e estudantil havia muito anos, então tinha uma certa influência nessa área lá em Daca. Mas homens ligados ao partido (governista) Awami não gostavam dessa minha posição política, porque eu sou ligado à oposição. Então eles começaram a me perseguir. A maioria deles é viciada em drogas, o que só piorava minha situação.

Um dia, estava de moto e me pararam. Me levaram para uma área meio deserta e encostaram uma arma em mim. No final, eles roubaram minha moto, não sem antes fazerem muitas ameaças. Então, vi o quanto era sério e tive de fugir.

Todo mundo me pergunta por que eu atravessei meio mundo e vim parar no Brasil, por que eu não poderia fugir para um país mais perto de casa. Mas não teria com eu ir para nenhum país próximo a Bangladesh. No Oriente Médio, você pode ser baleado ao tentar entrar em alguns países sem visto. Para um bengali também é muito difícil entrar e permanecer na Europa.

Já no Brasil tudo mundo me falava que era, sim, possível. Então, eu me agarrei nessa certeza e paguei o agente.

Para chegar aqui, primeiro passei pelo Peru e depois pela Bolívia. Ninguém me pediu visto, ninguém me fez nenhuma pergunta sequer. O agente que estava comigo dava dinheiro para os oficiais nos aeroportos e pronto”. Na Bolívia, ele pagou US$ 75 e pronto, o cara carimbou meu passaporte.

 

Perigo na Amazônia

O trajeto de avião até a Bolívia, via Peru, até que foi simples. O problema começou depois. Do aeroporto de Santa Cruz (Bolívia), pegamos um ônibus até a fronteira com o Brasil. Lá, o tal agente roubou todo o meu dinheiro e me entregou para um outro cara, que me obrigou a entrar na selva.
Cada vez que eu tentava reclamar, dizer que não era esse o trato ou dizer que estava havia dois dias sem comer, ele me batia ou me chutava. Isso no meio da Amazônia. Foi muito difícil essa travessia, muito perigoso, não gosto muito de lembrar.

Refúgio x Residência

Juntamente com Faruk Hussain, mais de 4 mil estrangeiros tiveram sua situação regularizada pelo governo brasileiro. Todos eles haviam entrado com pedido de refúgio e estavam aguardando uma resposta. No entanto, o governo entendeu que eles não apresentavam os requisitos necessários para se enquadrarem como refugiados, mas optou por regulamentar a situação (evitando que fossem extraditados) lhes concedendo a residência permanente no país.
Em relação à reclamação de Hussain sobre não haver prazos para a entrega da residência, o Ministério do Trabalho informou que esse processo leva em média 6 meses devido ao grande volume de pedidos e é um período em que é feita a análise do histórico do estrangeiro.

Chegando em Corumbá, ele me botou num ônibus para Brasília. Cheguei sem falar nada de português e não conseguia achar ninguém que falasse inglês. Mas encontrei um taxista que entendeu que eu queria chegar no bairro de Samambaia, onde sabia que teria outros bengalis e eles poderiam pagar a corrida.

Chegando lá, realmente encontramos um grupo de bengalis e eles pagaram a corrida. Mas em seguida eles pegaram meu passaporte e cobraram outros US$ 2 mil para me conseguir o visto. Eu não tinha o que fazer, não conhecia ninguém.

Mas outras pessoas que estavam nessa casa comigo, na mesma situação, resolveram chamar a polícia. E então fomos ajudados pela irmã Rosita (Milese, diretora do Instituto de Migrações e Direitos Humanos - IMDH). Devo tudo a ela.

 

Emprego

Depois disso as coisas começaram a melhorar. Eu entrei oficialmente com um pedido de refúgio ao governo brasileiro. E pouco depois, comecei a fazer aula de português na UnB (Universidade Federal de Brasília) e arrumei um trabalho como camareiro em um hotel.


Bengali trabalha em um hotel em Brasília, mas não conta o que faz para a mãe

É um ótimo emprego, mas eu não conto para minha família que trabalho como camareiro. Eu sou formado, fiz faculdade de negócios e administração, tinha um bom emprego em Daca, na minha área. Então, é complicado. Quando ligo para minha mãe, falo só que trabalho em um hotel e que é um bom emprego para mim, não entro em detalhes.

Eu acho que vou arranjar em emprego melhor em breve, talvez no hotel mesmo, mas em outro cargo. Eu já achava isso, mas depois que tive a notícia da residência, passei a ter certeza.

Em dezembro, fiquei sabendo que minha situação seria regulamentada pelo governo e eu ganharia residência permanente. Até participei de um encontro em que fui cumprimentado pelo ministro (do Trabalho e Emprego, Manoel Dias).

Eu já podia trabalhar somente com o protocolo temporário, que recebi quando fiz o pedido de refúgio. Mas com essa residência - e com as aulas de português - posso consegui um cargo melhor.

Mas apesar da cerimônia com o ministro, ainda não recebi nenhuma previsão de quando vou ter o documento na mão e poder viver no Brasil permanentemente. O governo simplesmente não me dá nenhum prazo. Muitos estrangeiros ficam esperando, sem ter nenhuma ideia de quando vão receber a residência.

Mas enquanto eu espero, vou aproveitando minha vida no Brasil, que é muito boa. Não quero mais voltar. Vou construir minha vida aqui agora. E vou matando a saudade de Bangladesh experimentando de tudo que vem da cozinha brasileira. Sei que é difícil acreditar, mas a comida aqui é muito parecida com a que comia em casa. Quer dizer, aqui é minha casa agora."


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

DiCaprio e Jonah Hill repetem parceria após "O Lobo de Wall Street"



EFE 
Após o sucesso de "O Lobo de Wall Street", Leonardo DiCaprio e Jonah Hill voltarão a formar uma dupla em "The Ballad of Richard Jewell", um filme do estúdio Fox baseado em artigos da revista "Vanity Fair" sobre o atentado ocorrido durante os Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta.

De acordo com publicação do blog especializado "Deadline", Hill interpretará Richard Jewell, o segurança que descobriu uma mochila com artefatos explosivos e evitou um maior número vítimas ao ajudar a evacuar a área.

Leonardo DiCaprio encarnará o advogado de Richard Jewell, que conseguiu limpar o nome de seu cliente três meses depois do atentado. EFE/Arquivo
Leonardo DiCaprio encarnará o advogado de Richard Jewell, que conseguiu limpar o nome de seu cliente três meses depois do atentado. EFE/Arquivo
Jewell estava de plantão na noite de 27 de julho de 1996 e encontrou o pacote-bomba pouco antes que ele explodisse. Logo no início, o segurança foi apresentado com um herói, já que sua intervenção salvou vidas.

Mas, de repente, Jewell passou de herói a vilão ao ser o suspeito número um e foi investigado como suposto culpado, embora depois tenha sido inocentado.

DiCaprio encarnará o advogado de Jewell, que conseguiu limpar o nome de seu cliente três meses depois dos fatos após uma minuciosa investigação do FBI.

O filme será produzido pela Appian Way, do próprio DiCaprio, que concorre ao Oscar de Melhor Ator por "O Lobo de Wall Street". Jonah Hill foi indicado ao prêmio de Melhor Ator Aoadjuvante.

Uma mulher morreu e outras 111 pessoas ficaram feridas na explosão de uma bomba no Parque Centenário de Atlanta (EUA) durante a realização dos Jogos Olímpicos. O americano radical de extrema-direita Eric Rudolph foi condenado como autor da ação terrorista.

O Lobo de Wall Street

The Wolf of Wall Street (no Brasil e em Portugal, O Lobo de Wall Street4 5 ) é um filme norte americano de 2013 dirigido por Martin Scorsese, baseado nas memórias de Jordan Belfort, o best-seller de mesmo nome. Foi lançado em 25 de dezembro de 2013. O roteiro foi escrito por Terence Winter, e estrelado por Leonardo DiCaprio como Belfort, um corretor de títulos de Nova York que dirige uma firma, a Stratton Oakmont, que praticava fraudes de seguro e corrupção em Wall Street na década de 1990.

O filme também apresenta Jonah Hill e Matthew McConaughey. É a quinta colaboração entre Scorsese e DiCaprio, e a segunda entre Scorsese e Winter depois de Boardwalk Empire.
Mais, aqui.

E, logo abaixo, o trailer oficial.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

1974: Sequestro de Patricia Hearst


Do Deutsche Welle

                                          Patricia Hearst em 1976


dia 4 de fevereiro de 1974, o grupo terrorista paramilitar norte-americano SLA sequestrou Patricia Hearst, herdeira de um império jornalístico.

"Não tive infância normal. Eu e minhas quatro irmãs crescemos numa família rica. Éramos muito privilegiadas, mas não mimadas." Assim a norte-americana Patricia Hearst, herdeira do império jornalístico Hearst, descreve sua infância numa cena do filme Patty Hearst (1988), baseado no livro Every Secret Thing - Minha própria história.

Ela se definiu como "mais prática do que intelectual, mais esportista do que estudante, social e não solitária. Sempre fui segura de poder dominar qualquer situação". Mas um acontecimento modificaria definitivamente sua vida: no dia 4 de fevereiro de 1974, terroristas do grupo paramilitar Exército Simbionês de Libertação (SLA) sequestraram a estudante de 19 anos em Berkeley, onde morava com o noivo, Steven Weed.

O SLA exigiu de seu pai, filho do magnata da mídia William Randolph Hearst, alimentos no valor de vários milhões de dólares para distribuir aos pobres. Dessa "doação forçada" nasceu mais tarde a fundação filantrópica "People in Need".

A reviravolta na vida
Dois meses depois do sequestro, Patty Hearst reapareceu, armada, participando de um assalto a banco. Num vídeo publicado pelo SLA, Patty disse que agora se chamava Tanya e que havia aderido livremente ao Exército Simbionês de Libertação. Ela garantia também a autenticidade da gravação. Dirigindo-se aos pais e ao noivo, alegou que teve a opção entre ser libertada num local seguro ou aderir ao SLA, "para lutar pela minha libertação e a de todos os oprimidos. Decidi ficar e lutar".

Seis integrantes do SLA foram mortos em maio de 1974, num tiroteio com a polícia, que havia descoberto o esconderijo dos sequestradores em Los Angeles. Em setembro de 1975, Tanya (Patty) foi presa em São Francisco.
Embora tivesse denunciado os integrantes do SLA durante o processo, acusando-os de a terem submetido a uma lavagem cerebral e forçado a participar de atos terroristas, foi condenada a sete anos de prisão por assalto armado. Em 1979, 22 meses depois do anúncio da sentença, o presidente Jimmy Carter mandou suspender a pena de reclusão.

Patricia Hearst-Shaw casou com Bernhard, um ex-funcionário da segurança pública, e teve dois filhos. Ela realizou o sonho de se tornar atriz – atuou em filmes de cinema e televisão – e publicou vários livros.

Indulto de Clinton
Patty Hearst figurou na lista de 140 norte-americanos que receberam o indulto do presidente Bill Clinton no último dia de seu mandato. "Agradeço profundamente a confiança depositada em mim pelos presidentes Clinton e Carter e, ao mesmo tempo, estou aliviada por saber que esta questão está resolvida definitivamente", disse.

Mas o passado de integrante do SLA a continuou incomodando. Em 2001, Patty Hearst teve que testemunhar no processo contra Sara Jane Olson, que, sob o nome de Kathleen Ann Soliah, tentou explodir duas viaturas policiais em 1975 para vingar a execução dos integrantes do SLA.

Olson não se irritou com o indulto de Patty Hearst, mas comentou que, pela segunda vez, o dinheiro e a influência foram decisivos para o perdão da herdeira do magnata da mídia.

Patricia é neta de William Randolph Hearst (1863-1951), em cuja biografia se baseia "Cidadão Kane", filmado por Orson Welles em 1941. O filme, que virou clássico do cinema, conta a história de um magnata norte-americano das comunicações. Na obra de Welles, Hearst é apresentado como um homem que conseguiu tudo o que queria e acabou morrendo solitário.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Vassili Zaitsev: “Matava quatro ou cinco alemães todos os dias”


Publicadas na Espanha as famosas e polêmicas memórias do franco-atirador de Stalingrado que inspirou o filme ‘Círculo de fogo’

Do El País

    Jude Law, como Záitsev no filme Enemy at the gates.

 “Use cada bala com consciência, Vassili”, recomendava-lhe seu pai quando ele era criança, enquanto caçavam lobos na taiga. Foi o que ele fez em Stalingrado, com outro tipo de lobos, estes humanos, mas também cinzentos. “Matava quatro ou cinco alemães todos os dias”, escreveu. As impressionantes memórias do franco-atirador Vassili Zaitsev (1915-1991), condecorado como Herói da União Soviética, um dos mais famosos em seu difícil e atroz ofício, fazem-nos mergulhar na luta particular que esse tipo de soldados travou durante a II Guerra Mundial, uma história de escuridão e violência. Recém-publicadas na Espanha pela editora Crítica, as memórias nos transportam ao coração mais frio e letal da batalha — onde o soldado mira agachado nos olhos de quem ele mata — e permitem que nos debrucemos sobre a personalidade e as táticas de combatentes tão admirados quanto temidos, que sempre provocaram uma fascinação doentia: a mística dos franco-atiradores.
                                                    Vassili Záitsev, em Stalingrado.

As memórias de Vassili Grigorievich Zaitsev concentram-se na atividade do franco-atirador em Stalingrado, onde sua contagem particular chegou a 242 militares alemães, incluindo 11 franco-atiradores (abater atiradores do lado inimigo era uma das prioridades desses combatentes). As vicissitudes do certeiro Zaitsev serviram de base para o filme Círculo de fogo, de Jean-Jacques Annaud. Parte do relato do franco-atirador — incluindo o longo e épico duelo com o exímio atirador alemão enviado para caçá-lo, que é o núcleo do filme — é muito polêmica e é considerada pura invenção por historiadores como Antony Beevor. Isso não impede que as memórias nos deem uma interessantíssima descrição da luta selvagem e brutal em Stalingrado e sejam lidas com o coração na mão.
Matou 242 militares, incluídos 11 franco-atiradores alemães

Em um trecho, Zaitsev impede que sua equipe de três duplas de franco-atiradores dispare contra alguns oficiais que, acreditando estar em segurança, estavam se lavando perto de uma trincheira. “Esses caras são só tenentes”, afirmou. “Se desperdiçamos balas com peixes pequenos, os grandes nunca vão pôr a cabeça para fora.” No dia seguinte, voltam à área de banho. Não atiram contra um soldado que aparece. E então chegam os que eles esperavam: um coronel acompanhado por um franco-atirador com um precioso fuzil de caça, um major com a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho e outro coronel fumando numa longa e aristocrática boquilha. “Nossos tiros assobiaram. Apontamos na cabeça, como exige o manual, e os quatro nazistas caíram dando o último suspiro.” Em outra ocasião, ele atira em outro oficial que traz a Cruz de Ferro no peito. “Apertei o gatilho e a bala atravessou a medalha do alemão, que caiu para trás com os braços abertos.”
Zaitsev inicia suas memórias explicando sua infância. Seu avô, que pertencia a uma longa extirpe de caçadores dos Urais, foi quem lhe presenteou com a primeira escopeta. Quando saía para caçar, cobria-se de óleo de texugo para ficar camuflado pelo cheiro do animal. Matando lobos, aprendeu a rastrear e espreitar, o que lhe serviria “para lutar contra aqueles outros predadores bípedes que invadiram nossa pátria”. O futuro franco-atirador não era nenhum iletrado. Ele entrou numa escola técnica de construção, estudou contabilidade e foi inspetor de seguros. Em 1937, foi convocado e entrou como marinheiro na frota do Pacífico — sempre exibiu com orgulho sob o uniforme a camiseta de listras zuis e brancas, a telniashka. Em busca de ação, pediu para entrar numa companhia de fuzileiros e foi parar em Stalingrado. Chegou como suboficial em 21 de setembro de 1942: foi como pousar no inferno; em seu diário, anotou que o ar fedia a carne queimada.
Em seu primeiro combate, Zaitsev, baixo, robusto e de cara larga — não se parecia em nada a Jude Law —, chega ao corpo-a-corpo e, perdidas as baionetas e as pistolas, mata seu primeiro alemão por estrangulamento. É a guerra em toda sua crueza: “Finalmente ele parou de opor resistência e aí senti um cheiro nauseabundo, no momento de morrer ele havia defecado”.
Na defesa das posições na famosa fábrica Outubro Vermelho, Zaitsev vive momentos angustiantes,. É a Ratenkrieg, a “guerra de ratos” nos porões e esgotos da cidade em ruínas. No fim de outubro, um coronel observa como ele mata, com três disparos de seu fuzil padrão de infantaria, vários operadores de uma metralhadora. “Arranjem um fuzil de franco-atirador para ele”, ordena. Trazem um Moisin Nagant 91/30, que o coronel entrega a Zaitsev dizendo: “Já foram três, continue a contagem”.
Assim começa sua carreira. Ele ganha gosto pelo ofício: “Eu gostava de ser franco-atirador e ter a licença para escolher minha presa, a cada disparo era como se pudesse ouvir a bala atravessando o crânio do inimigo”. Atira a longa distância, 550 metros ou mais. A mira telescópica revela detalhes do alvo. “Você sabe se ele fez a barba, pode ver a expressão de seu rosto, cantarolando. Enquanto seu homem coça a testa ou inclina a cabeça para ajeitar o capacete, você busca o melhor ponto para receber o impacto da bala; ele não tem a menor ideia de que só lhe restam alguns segundos de vida.” Não há nenhuma dúvida, nem remorso. “Apertei o gatilho, ele se debateu por alguns segundos e depois ficou imóvel.”
No relato de Zaitsev, os soviéticos são invariavelmente nobres e heroicos e os alemães, cruéis: executam os feridos com lança-chamas ou jogando-os aos cachorros. O franco-atirador vê os nazistas como “serpentes” que se retorcem enquanto ele as aperta em seu punho.
As memórias estão recheadas de conselhos para franco-atiradores — nosso homem se transformou num instrutor. Um manancial ou uma fonte são bons lugares para matar inimigos. É preciso mudar de posição após o disparo para não ser localizado. O atirador não precisa de mais do que dois segundos para apontar e disparar, mas os preparativos requerem horas e até dias de observação e camuflagem. É preciso tornar-se invisível. A paciência é tudo. Os franco-atiradores — que, ao contrário do estereótipo, não lutam sozinhos, mas em duplas ou até em grupo — usam iscas para caçar os rivais.
O grandioso duelo que aparece em Círculo de fogo ocupa um capítulo inteiro do livro. O autor explica que um soldado alemão prisioneiro revelou que o alto comando, preocupado com o crescente número de baixas, havia enviado “um tal major Konings” (Koenig em outras versões), “diretor da escola de franco-atiradores da Wehrmacht nos arredores de Berlim”, com o objetivo exclusivo de abater “o grande coelho russo” (Zaitsev significa coelho).
O “superfranco-atirador” alemão (interpretado no filme por Ed Harris) e o russo disputam um jogo mortífero. Zaitsev o caça no final com algumas artimanhas. Depois o retira arrastado de seu esconderijo, agarra seu fuzil e sua documentação e os entrega ao comandante de sua divisão. A suposta mira desse suposto (e fracassado) ás alemão é exibida no museu das forças armadas em Moscou.
“Nunca houve um franco-atirador alemão chamado major Konings”, insiste Beevor, que abordou amplamente o assunto em seu livroStalingrado. “Investiguei todos os informes de franco-atiradores em Stalingrado que existem nos arquivos do Ministério da Defesa em Podolsk e posso dizer como toda segurança que o épico ‘duelo de franco-atiradores’ entre os ases alemão e russo nunca ocorreu. Se tivesse ocorrido, teria sido relatado naquele momento, já que era exatamente a história que queriam em Moscou para propaganda. Definitivamente, isso foi inventado depois da batalha.”
Beevor me diz que Annaud o convidou a ver seu filme “com a vã esperança” de que ele não fizesse muitas críticas. “Eu o havia advertido claramente sobre qual era minha posição. Ele tinha comprado os direitos do livro de William Craig, que havia acreditado na história propagandística do longo duelo com o franco-atirador e nas pretensões fantasiosas de Tania Chernova (Rachel Weisz no filme) de que ela também teria sido franco-atiradora e amante de Zaitsev. Pobre velho, reescreveram sua vida transformando-a em lenda. Zaitsev foi completamente manipulado pelos oficiais da GlavPurkka, o braço político do Exército Vermelho, e caiu em depressão depois da guerra, entregando-se à bebida.”
Na verdade, assinala o historiador, as façanhas de Zaitsev foram muito exageradas e ele não foi nem mesmo o melhor franco-atirador soviético em Stalingrado. Este teria sido o sargento Anatoli Chekhov, a quem o grande Vassili Grossman entrevistou e até acompanhou em uma missão em Mamaiev Kurgan, uma das zonas quentes da batalha, para observar como atuava. Diferentemente de Zaitsev (que Grossman também conheceu), Chekhov, que usava uma espécie de silenciador, não mirava no rosto, mas no uniforme do inimigo. Em seu primeiro dia matou 9 alemães; no segundo, 17; em oito dias, 40. No total, eliminou 256 inimigos em Stalingrado. Em 1943, em Kursk, perdeu as duas pernas. Mas nem ele nem Zaitsev foram os melhores franco-atiradores russos: Ivan Sidorenko tem o recorde de 500 mortes, seguido por outros cinco com mais de 400 mortes cada um. Uma mulher franco-atiradora, Lyudmila Pavlichenko, contabilizou 309. Após a guerra, virou historiadora.
Gorssman não deixou notícia de nenhum duelo épico, mas sim de um breve e singular combate entre Zaitsev e um franco-atirador alemão, que durou... 15 minutos. Foi esse episódio, opina Beevor, que provavelmente se exagerou até virar a saga épica de um prolongado duelo entre Zaitsev e o nunca localizado comandante Konings.
Em suas memórias, Zaitsev explica as feridas que sofreu no final da batalha de Stalingrado. Perdeu temporariamente a visão por causa da metralha do projétil de um lança-foguetes alemão Newerberfer e passou por uma via-crúcis até recuperá-la. Não o deixaram voltar à frente de batalha para evitar que tombasse uma valioso ícone patriótico. Ele se dedicou então a formar franco-atiradores. Seus textos sobre o assunto ainda são estudados nas escolas militares russas. Ao terminar a guerra, com a patente de capitão, foi desmobilizado e trabalhou numa fábrica têxtil em Kiev, sem deixar jamais de recordar seus dias de combate. Morreu apenas dez dias antes da dissolução da União Soviética e seus restos repousam na colina Mamaiev, de onde o fantasma do velho atirador talvez continue espreitando presas entre as desvanecidas ruínas da antiga Stalingrado, hoje Volgogrado.

A morte agachada

Pelas fileiras dos franco-atiradores já passaram personagens como estes:
O finlandês Simo Hayha (a “Morte Branca”), o maior franco-atirador de todos os tempos, que matou 505 soldados soviéticos durante a Guerra de Inverno entre Finlândia e União Soviética, sem usar mira telescópica.
O chinês Zhang Taofang, com 214 mortes entre soldados americanos e da ONU em 32 dias (com apenas 442 balas), durante a Guerra da Coréia.
O americano Chris Kyle, atirador dos Navy SEALs assassinado no ano passado no Texas por com companheiro de armas. Com 160 mortes atribuídas a ele (a primeira, uma mulher que se aproximou com explosivos de um grupo de marines), era conhecido entre a insurgência iraquiana como Shaitan ar-Ramadi, “o demônio de Ramadi”. Sua autobiografia, American Sniper, foi um best seller. Não se pode esquecer de Lee Harvey Oswald, outro ex-marine de assombrosa pontaria.
O melhor franco-atirador das forças alemãs na II Guerra Mundial — o equivalente real do major Konings — foi o austríaco Matthãus Hetzenauer, com 345 vítimas, incluindo uma atingida a 1.100 metros de distância. Ganhador da Cruz do Cavaleiro, era membro, como muitos dos franco-atiradores de destaque do III Reich, dos Gebirgsjäger (os caçadores da montanha), cujo emblema era a flor edelweiss que pode ser vista no gorro de Ed Harris em Círculo de fogo.
Outro notável franco-atirador da Wehrmacht, Josef Sepp Allerberger, que somou 257 mortes e usava um guarda-chuvas para se camuflar, é autor das memórias mais estremecedoras do ofício: Sniper on the Eastern Front, Pen & Sword, 2007; em um trecho, explica como literalmente saltam os globos oculares de um soldado atingido por uma bala atrás da cabeça.